segunda-feira, julho 23, 2007

ENQUANTO ISSO...

Aeronáutica investiga se houve sabotagem no Cindacta-4
Tânia Monteiro, Estadão online

Força considera " muito estranho" ter havido uma falha desta proporção no sistema de geradores reservas

A Aeronáutica está investigando a possibilidade de ter havido uma sabotagem no sistema de energia elétrica do Centro de Controle de Vôos de Manaus (Cindacta IV). A sindicância foi aberta porque o Comando da Aeronáutica considerou " muito estranho" ter havido uma falha desta proporção no sistema de geradores reservas, gerando um completo apagão no sistema, durante uma inspeção de rotina onde foi encontrada uma pequena anormalidade.

No comunicado oficial sobre a pane, distribuído dezoito horas depois do problema, a Aeronáutica disse que a causa da falha em Manaus foi um curto-circuito no sistema de energia elétrica do centro de controle de vôos. A pane provocou um novo caos nos aeroportos, com vôos internacionais impedidos de chegar ao País, além de atrasos em quase metade dos vôos nos aeroportos brasileiros.

Os Cindacta de Manaus e de Brasília são os mais resistentes ao enquadramento determinado pelo Comando da Aeronáutica que tem sido rígido no tratamento com os controladores de vôos. Em dezembro, quando houve uma queda no sistema de comunicações em Brasília, paralisando o tráfego aéreo no País, também houve suspeita de sabotagem. Naquela época, os oficiais não entendiam como um técnico especialista em comunicações poderia ter colocado uma placa de forma errada no sistema provocando aquele dano. Depois, foi constatado que não houve sabotagem.

"É uma situação muito estranha. Se esse problema tivesse ocorrido em Curitiba (onde são mínimos os problemas com os controladores), a desconfiança em relação a uma sabotagem seria muito menor", comentou um oficial. Técnicos e engenheiros do Departamento de Controle do Espaço Aéreo foram deslocados para Manaus e estão fazendo uma inspeção. Eles também ajudaram na realização da sindicância que deve durar cerca de 40 dias.

ENQUANTO ISSO...

Controladores reagem: 'não somos terroristas'
André Alves, da Agência Estado

"A Aeronáutica está procurando uma válvula de escape. E é mais plausível jogar a culpa prá cima da gente"

MANAUS - Hipótese levantada por membros da Aeronáutica de que o apagão no centro de controle aéreo de Manaus (Cindacta-4), ocorrido na noite da última sexta-feira, 20, teria sido obra de sabotagem, deixou revoltados os controladores que atuam no controle do tráfego aéreo em Manaus. "A Aeronáutica está procurando uma válvula de escape. E a válvula de escape mais plausível é jogar a culpa prá cima da gente. Não existiriam meios físicos de realizarmos sabotagem. Não somos terroristas", disse, indignado, um controlador do Cindacta-4.

De acordo com ele, 12 controladores, em Manaus, trabalhavam na noite de sexta-feira quando o apagão aconteceu. Segundo o militar, nenhum deles poderia ter acesso à rede elétrica do Cindacta-4 para promover o desligamento de toda a rede de energia do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), onde funciona o centro de controle. "Esse sistema é um câncer. É obsoleto. Não temos culpa se os três geradores de energia do Cindacta-4 não funcionaram", sustentou o controlador. "Eles estão dizendo que os controladores sabotaram. Isso é um absurdo", continuou.

Clima
Conforme contaram outros militares que atuam no Cindacta-4, o clima dentro do centro de controle de tráfego aéreo "é o pior possível". O trabalho dos controladores está sendo vigiado pela Polícia da Aeronáutica (PA). De acordo com eles, na sala do centro de controle há sempre um ou dois agentes da Aeronáutica, armados, monitorando o serviço de controle de aeronaves.

"Qualquer um que se recusa a cumprir uma ordem vai direto para o xadrez", disse um controlador. "A PA fica querendo nos intimidar o tempo inteiro". Segundo os controladores, a Polícia da Aeronáutica passou a vigiar o trabalho dos militares desde que dez controladores foram afastados do Cindacta-4, o que ocorreu há cerca de três semanas.

A presença dos agentes da PA no Cindacta 4 é um dos argumentos usados pelos controladores para garantir que seria impossível sabotar o sistema. Neste domingo, além de verem intensificado o número de policiais da Aeronáutica no centro de monitoramento de tráfego aéreo, os controladores também tiveram uma surpresa.

Durante todo o dia, o trabalho deles foi acompanhado pelo comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Juniti Saito, que desembarcou em Manaus no domingo para acompanhar as investigações sobre o apagão que gerou transtorno em vôos de todo o país.

O apagão
O Cindacta-4, que responde por 90% do tráfego entre Brasil, Estados Unidos e América Central, ficou às escuras durante três horas, em virtude de um curto-circuito no sistema de energia elétrica. A pane obrigou aviões vindos do exterior a aterrissarem em outros países e provocou atrasos em 44,7% dos 1.282 vôos internos programados até as 18h30. Outros 11,2% foram cancelados.

À 0h45, os terminais do Cindacta-4 usados para monitorar vôos saíram do ar. "Os aviões foram obrigados a ficar taxiando sobre os céus de Manaus, às cegas", contou um controlador. "Alguns colegas começaram a chorar. Foi desesperador." Para evitar uma tragédia, os controladores usaram rádios da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero). Segundo a Aeronáutica, havia 17 aeronaves em vôo, das quais 8 tiveram as rotas modificadas. A situação só foi normalizada a partir das 2h30.

O Aeroporto de Miami informou que quatro vôos da American Airlines, com destino a São Paulo e ao Rio, retornaram à Flórida. No Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, cinco aviões tiveram de voltar depois de chegarem ao limite da área monitorada pelo Cindacta-4.

Em nota, a Aeronáutica informou que houve "uma anormalidade" em geradores do Cindacta-4. O problema teria sido detectado por volta das 23 horas de sexta, numa inspeção de rotina, mas não comprometia o controle de tráfego. Porém, durante um procedimento de manutenção, houve um curto-circuito que prejudicou a alimentação das baterias do sistema.

A Aeronáutica negou ter havido risco de acidentes. Conforme a nota, as comunicações passaram a ser operadas com os equipamentos "high frequency do Centro Amazônico, onde as equipes foram reforçadas."

Com a pane, o aeroporto mais prejudicado foi o de Belém, com 88,8% de atrasos até 18h30. Em Cumbica, o porcentual chegou a 37,7%. No Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, o vilão foi o mau tempo. O terminal ficou fechado das 6h38 às 7h41 e das 8h40 às 10h25, provocando atrasos em 84,4% dos vôos. Em Congonhas, às 21 horas, o porcentual de atrasos chegava a 21,6% e o de cancelamentos, a 28,3%.

Há mais coisa no ar do que aviões de reversos travados

Pedro Porfírio, Tribuna da Imprensa

"Nunca ouvi tanto Pai Nosso junto. Eu pedi a Deus que nos ajudasse e que ouvisse todas aquelas orações, mesmo o Pai Nosso". (Paulo César Rocha, pastor evangélico que desembarcou sábado em Congonhas de um Airbus 320 da TAM)

Primeiro, alguns fatos que falam por si:

1. Em vez da caixa-preta com a gravação de vozes entre pilotos do Airbus da TAM e controladores de vôo, o que chegou aos Estados Unidos para a perícia técnica não passava de um amontoado de fuselagem da aeronave que se chocou contra o terminal de cargas da empresa no Aeroporto de Congonhas. Por engano, a sucata foi enviada junto com o gravador de dados de vôo onde consta o registro das 53 horas de uso da aeronave.

2. A TAM admitiu que, embora o vôo 3054 já estivesse lotado, seu funcionário Marcos Stepanski embarcou "pela porta dos fundos", sem fazer o check in, e viajou "clandestinamente".

3. No sábado, um aparelho da TAM e outro da Gol fizeram pousos tão bruscos que as portas dos bagageiros internos se abriram. "Quando o avião entrou na pista, foi o inferno. Os bagageiros se abriram, caíram coisas, as pessoas começaram a gritar. Quando finalmente o avião parou, quem estava gritando começou a aplaudir" - narrou Otávio Zani, passageiro do vôo 3229 da TAM, procedente de Navegantes, Santa Catarina.

4. A empresa "autorizou" dois dos seus pilotos a concederem entrevistas para dizer que pousar com o "reverso" travado não faz diferença. No entanto, um outro comandante disse em off ao colunista Josias de Souza, da "Folha", que os manuais da empresa consideram importante o apoio desse equipamento, principalmente em pistas com problemas.

5. Uma pane elétrica no Centro de Controle de Manaus afetou o País inteiro, repetindo as mesmas cenas de revolta em face de atrasos e cancelamentos de vôo.

6. O governo federal ainda não desembolsou um centavo do Orçamento da União para obras de melhoria nos aeroportos brasileiros este ano. E ainda congelou R$ 2,1 bilhões de dois fundos setoriais que poderiam servir para investimentos no setor: o Fundo Aeronáutico e o Aeroviário. Mas os recursos estão parados na conta do Tesouro Nacional, engordando o SUPERÁVIT PRIMÁRIO. Neste ano, até o início de junho, a Infraero investiu, com recursos próprios, R$ 320 milhões, incluindo as obras da pista principal do Aeroporto de Congonhas. Dos cofres da União, nenhum centavo.

Anac servil
Agora, vire a página:

As providências anunciadas com um dramático pronunciamento do presidente da República poderão não sair do papel. Veja o que escreveu Tereza Cruvinel em "O Globo" de ontem:

"As companhias aéreas vão chiar. Com as medidas baixadas pelo governo na sexta-feira, elas vão ganhar menos dinheiro. Vão gastar mais para redistribuir os vôos que concentraram em Congonhas. TAM e Gol tiveram lucros gordos na crise, enquanto eles minguavam lá fora. Desafogar Congonhas é uma medida corajosa, mas, COM ESTA ANAC SERVIL ÀS COMPANHIAS, SERÁ DIFÍCIL".

Como não é nenhuma "especialista do ramo", ela foi fundo, pois não tem vínculos, nem aspirações profissionais como acontece com a maioria desses "sabichões": "Com o remanejamento dos vôos de Congonhas, os primeiros cálculos indicam que a TAM perderá mais de cem conexões e cerca de 200 escalas. A Gol, quase o mesmo número, e a Pantanal, menos de cem. ELAS NÃO ESTÃO ACOSTUMADAS A OBEDECER, E SIM A CONVENCER A ANAC.

Obtiveram o aumento de cerca de 40% dos pousos e decolagens em Congonhas, nos últimos três anos, e a liberação da pista reformada antes das ranhuras prontas. Como irá esta Anac amiga impor mudanças que vão reduzir os ganhos? Pode ser preciso trocar alguns diretores, admite um ministro de Lula. O governo agora excomunga a Anac, mas foi ele mesmo que nomeou seus diretores por critérios políticos".

E mais ainda: "A demanda aumentou 12% em 2006 e 13% só no primeiro semestre deste ano. Mas as companhias levaram também para o setor uma mentalidade de empresas de transporte coletivo: ônibus cheio, faturamento alto. Se nos últimos cinco anos os passageiros saltaram de 40 milhões para 57 milhões ao ano, a frota nacional encolheu, de 366 para 230 aeronaves".

No mesmo jornal, Merval Pereira abre espaço para um dos profissionais mais sérios que já lidaram com a crise aérea, o economista Paulo Rabelo de Castro. Este lembrou que "a oferta minguou no mesmo período, primeiro pela devolução de aeronaves perdidas pela Varig, praticamente toda sua frota doméstica, não reposta com facilidade pelas concorrentes, agora transformadas num duopólio da aviação doméstica". Com isso, parece inviável querer aviões e tripulações reservas de verdade.

Paulo Rabello de Castro lembra que houve a "exportação de centenas de comandantes, dentre os mais experientes e bem treinados". Segundo ele, "hoje existem cerca de 400 pilotos e co-pilotos brasileiros trabalhando em companhias aéreas européias e do Oriente".

Sacrifício da Varig
Bem, nós poderíamos ter alguma esperança com as medidas anunciadas por Lula? Acho que não. Enquanto ele não refizer sua postura em relação à Varig, o País precisará de muitos anos para resgatar a normalidade. Esse pessoal da Anac, a quem cabe a gestão dos transportes aéreos, já mostrou a que veio.

Graças à sua desastrada gestão, chegamos onde chegamos e assistimos ao sacrifício da companhia aérea âncora, que manteve os melhores índices técnicos de operação, incluindo segurança de vôo, pontualidade e qualidade dos serviços e tinha os profissionais mais bem preparados e exigidos, recusando-se a transformar-se em ônibus que voam. Como conseqüência desse golpe, nossos pilotos sumiram e estamos hoje à mercê de duas empresas comadres, que só pensam no lucro fácil.

Programar a construção de um novo aeroporto em São Paulo é mais uma fantasia. Havia no plano aeronáutico uma previsão para ampliar as pistas de Congonhas em 2007 e racionalizar seu uso. Isto porque a idéia do novo aeroporto já foi objeto de estudo em 2000, por encomenda do antigo DAC.

A consultoria norte-americana Mitre CO concluiu que não há espaço na cidade. Nas redondezas, só compatibilizando com as operações de Cumbica e Viracopos, o que não seria fácil. Enfim, há mais coisas no ar do que aviões de carreira com reversos travados.

Governo investe mal, diz ex-ministro

Ariverson Feltrin , Jornal do Brasil

Ozires Silva, um dos criadores da Embraer, ex-ministro da Infra-estrutura e que já acumulou no currículo as presidências da Petrobras, da Varig e da própria Embraer, lamentou ontem o agravamento da crise aérea e lembrou que o governo monopolizou o setor. Para Ozires, a situação ficou pior com o contingenciamento de recursos.

- Não é possível um setor como o da aviação, que cresce a dois dígitos por ano, continuar com sua infra-estrutura subordinada ao Tesouro, que contingencia as verbas para investimentos - criticou Ozires. - Com o contingenciamento, que já dura bons anos, o governo, simplesmente, não deixa as coisas acontecerem.

Ozires lembrou que a situação do Brasil é "bem diferente do que ocorre nos Estados Unidos, que estão investindo US$ 70 bilhões no sistema de aviação entre 2003 até 2015". Formado em 1951 oficial aviador e piloto militar pela Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, no Rio , e ainda em atividade no ofício, Ozires Silva desabafou:

- A Aeronáutica é competente. Tanto assim que, nos anos 60, quando se começou a criar o Cindacta, foi este pessoal que concebeu o sistema. Claro, na época havia dinheiro, e não contingenciado.

Ozires Silva disse que recentemente ouviu uma palestra da direção do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DCEA) sobre os planos para o controle aéreo até 2015.

- Há gente séria e honesta planejando. Mas, como é possível planejar sem um orçamento firme? É verdadeiramente uma ironia: o governo monopolizou o setor, mas não libera os investimentos necessários - acusa.

Tragédia de Congonhas: Brasil vai pagar um preço alto

William Waack, Portal G1
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A tragédia de Congonhas não vai ficar sem conseqüências internacionais para o Brasil. Duas organizações estão averiguando de perto a situação do setor aéreo civil brasileiro, e parecem dispostas a “rebaixar” o Brasil em seus rankings. Uma é a International Federation of Air Traffic Controllers (Ifatca), com sede no Canadá e que está acompanhando o trabalho dos controladores brasileiros.“Eles acham um absurdo nossas condições de trabalho e o equipamento que somos obrigados a usar”, diz uma fonte entre os controladores de tráfego em Brasília, que pede para não ser identificada.

A Ifatca ameaça fazer uma recomendação de declarar o Brasil como “espaço aéreo perigoso” a uma outra organização que é fundamental para o tráfego aéreo internacional: a International Civil Aviation Organization, a ICAO, que estipula normas, procedimentos, códigos e áreas respeitadas internacionalmente. O Brasil é membro da ICAO desde a sua fundação, logo depois da Segunda Guerra Mundial.

A ICAO faz revisões periódicas da situação de segurança do tráfego aéreo em seus países membros e, a partir daí, emite pareceres que as principais empresas aéreas do mundo obedecem – elas impõe restrições operacionais, por exemplo, se um país for considerado “perigoso”, qualquer que seja o motivo. Recentemente, em fevereiro, a ICAO lançou um alerta sobre a situação de segurança do tráfego aéreo comercial na Rússia, exigindo que normas internacionais fossem cumpridas.

Já é altíssimo o “custo” de imagem para o governo brasileiro – que gosta de afirmar que “nunca antes este país” foi tão ouvido e respeitado lá fora (uma bobagem arrasada seguidamente pelos fatos, aliás). A imprensa internacional dedicou, claro, bastante espaço à tragédia. Mas a “suite” do caso, conforme o jargão jornalístico que designa a cobertura que se segue ao fato inicial, tem sido dedicada à incapacidade das autoridades brasileiras de lidar com a crise aérea.O “Financial Times” afirma que o desastre de Congonhas tornou mais agudas as “sérias questões” a respeito da capacidade administrativa das autoridades federais; o “New York Times” relata em detalhes o apagão aéreo sob o título “O Brasil exige uma solução para a crise”; o “Der Spiegel” declara que “o governo (brasileiro) mostrou-se incompetente” ao lidar com a mesma crise; o espanhol “El País” qualifica o desastre de Congonhas, ecoando boa parte da imprensa brasileira, de “tragédia anunciada”.

O Brasil entra para estatísticas muito negativas, em termos internacionais: só mesmo a Rússia, notória pela insegurança aérea, teve acidentes de proporções tão grandes em tão pouco espaço de tempo (cerca de 1 ano): 3 deles em 2006. Em dez meses, o Brasil teve dois. Nenhum país entre os considerados avançados, e com muito mais pousos e decolagens do que o Brasil, apresentou números desse tipo.

Esta coluna não faz do governo brasileiro o responsável direto pelas mortes de tantas pessoas. O que esta coluna afirma é que a imagem internacional de incompetência das nossas autoridades não é fruto do imponderável (que ocorre em todo tipo de acidente) nem de má vontade da "mídia". Foi construída ao longo de anos, particularmente nos últimos, por políticos e administradores preocupados consigo mesmos em primeiro lugar, e muito pouco com a coisa pública.

Querem dar um sopro de vida ao espantalho

por Aluízio Amorim, site Diego Casagrande
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Tirante as declarações do Senador Pedro Simon, feitas ontem ao Jornal Nacional da Globo, o restante da oposição está praticamente calada ante tudo o que está acontecendo. O DEM foi o único a lançar uma nota oficial ontem e hoje o PSDB pediu a demissão de Marco Aurélio Garcia.

Demissão do Sargento Garcia? Ora, o que os cidadãos e homens de bem desejam, senhores da oposição, é a demissão de todo o governo! Anseiam por um sonoro Fora Lula! Fora PT!

Importa levar em consideração que a crise que este arremedo de governo do PT está vivendo foi criada por ele mesmo! Não há nenhum fato exterior a ele, não há nenhum complô, nenhuma maquinação, nenhuma armação, nenhuma reação da sociedade brasileira contra o governo.

A fatídica tragédia de Congonhas que ceifou cerca de duzentas vidas, por ironia do destino, acabou por desnudar completamente o governo petista. Expôs as entranhas desse monstrengo trôpego que está destruindo a Nação brasileira.Cabe também neste momento de dor das famílias enlutadas, cuja maioria não conseguiu ainda enterrar seus mortos face às dificuldades de reconhecimento dos cadáveres, notar que não se constatou uma nota de solidariedade sequer dos denominados movimentos sociais, sindicatos, CUT, UNE, enquanto a vergonhosa ação do Presidente do Senado, Renan Calheiros, em cuja biografia pesa a acusação de corrupção, impede que uma comissão parlamentar se reúna e convoque as autoridades a prestar esclarecimentos.
A ordem é salvar Lula, não importam os meios para a sua consecução.

De outra parte os grandes órgãos de classe empresarial, entre eles a Febraban, a FIESP, a CNI e as demais Federações e Sindicatos de Indústria, Comércio e Agricultura, fecham-se num mutismo condescendente à desfaçatez de Lula e seus sequazes, consumada no gesto indecente, sórdido e obsceno de um dos principais assessores de Lula.

Com exceção da OAB nacional, também não se ouviu um protesto veemente contra o desgoverno por parte da CNBB, ou desses prelados e padrecos de passeata que adoram invocar os direitos humanos em favor de bandoleiros e louvar essa esquerdalha vagabunda que enlameia e envergonha a Nação.

Repito aqui o que venho afirmando. Lula e seus sequazes mantêm-se no poder em função do apoio, da complacência e da leniência oportunística dos banqueiros e grandes empresários que se locupletam com essa política econômica que estraçalha a classe média e que expõe o País à ameaça de um total apagão nas áreas vitais para a economia, como a energia e o transporte.

No seu silêncio cúmplice eles também devem estar comemorando do mesmo jeito que faz a quadrilha petralha, debochando e fazendo pouco caso das famílias que choram a morte de seus entes queridos, vítimas não de um acidente, mas de uma tragédia anunciada, não em função de algo fortuito, mas claramente decorrente da incúria das autoridades.

A essa gente interessa apenas uma saída política capaz de manter de pé o monstrengo petralha, nem que isso possa custar mais vidas humanas.Concorrem com o seu poder para dar mais um sopro de vida a esse espantalho medonho. Lutam desesperadamente para encontrar uma saída que os salve da execreção pública. Aqueles que não se pronunciam e nem condenam as nefastas ações desse governo, são seus cúmplices e, por conseqüência, cúmplices desse verdadeiro assassinato hediondo que foi a tragédia de Congonhas.

Lula não pode passar a mão na cabeça de Garcia

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

O gesto obsceno do assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, focalizado diretamente pela Rede Globo, comemorando absurdamente a primeira fase das investigações que concluiu pela responsabilidade da TAM no terrível desastre da semana passada, é mais do que motivo suficiente para que o presidente Luís Inácio da Silva o demita do cargo que ocupa.

O governo não pode acolher um comportamento desse tipo. Um gesto obsceno não deve ter lugar no Palácio do Planalto. Não teria com Getúlio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com Jânio Quadros. Em matéria de exercício do poder, não teria com Carlos Lacerda. Aceitá-lo como algo natural é diluir o princípio da autoridade, romper com o respeito que todos os governantes e administradores devem para com a opinião pública.

Marco Aurélio Garcia comemorava o fato de, inicialmente, não se configurar a responsabilidade do Poder Executivo projetada na não conclusão das obras de segurança da pista de Congonhas. Mas, e a tragédia? Mais de duzentos seres humanos morreram horrivelmente em São Paulo. Não existe o menor motivo para alegria. Quer dizer que, para o assessor especial, que inclusive atua com desenvoltura no campo da política externa, se o governo não for o culpado, azar das vítimas.

Não é possível isso. É provável que Lula não o exonere. Mas não se pode negar que, a exemplo da ministra Marta Suplicy, ele se demitiu a si mesmo. Perdeu toda a autoridade para exercer seu papel com firmeza e com a credibilidade pública indispensável. Deveria pedir demissão.

Sua presença no Planalto prejudica o presidente da República, pessoalmente, e o governo como um todo. Exatamente o mesmo efeito produzido por Marta Suplicy. Francamente, entre tantos problemas que afligem o Brasil, ainda por cima a falta de seriedade e o descaso com a imagem pública e com a própria população. É demais.

Marco Aurélio Garcia esqueceu as vítimas da explosão. Esqueceu as conseqüências internacionais para o nosso País, demonstrou frieza para com as famílias atingidas. Não levou em conta que a batalha das indenizações ainda sequer começou. As vítimas do desastre de 96, também na capital paulista, ainda não foram devidamente indenizadas. E qual será o valor das indenizações? Outra odisséia.

O assessor especial não pensou em nada disso. Viu a primeira versão de culpa, não deslocou sua percepção para o que está embaixo dos escombros da omissão e da impropriedade. Afinal de contas, o avião da TAM apresentava defeito no reversor (freio) de uma de suas turbinas. Ora, qualquer um de nós que sinta a existência de um defeito no carro, a primeira coisa que faz é se dirigir a uma oficina, antes que o automóvel pare de funcionar no meio da rua. Agora, imagine-se o procedimento que deveria ser adotado em relação aos aviões.

Uma simples questão de lógica, que sempre está presente em tudo, indicava que a aeronave não poderia decolar. Na véspera, havia aterrissado com dificuldade. Como sair do solo novamente? Não faz sentido. Muito menos sentido faz a mímica de Marco Aurélio Garcia.

O episódio me lembra a decisão imediata que o presidente JK tomou em março de 1958 quando do desastre ferroviário da Central do Brasil, na estação de Mangueira. Uma tragédia. Juscelino foi ao local. O diretor da EFCB, engenheiro Luiz Alberto Whately, virou-se para ele e disse: presidente, estes vagões transportam, no máximo, 180 pessoas. Kubitschek respondeu: o senhor está demitido.

Um outro assunto. Já que estamos falando em absurdo, este segundo foi praticado pelos economistas Marcelo Caetano e Daniel da Mata, ambos do Ipea, em artigo conjunto publicado no "Globo" de 20 de julho. Defenderam o estabelecimento de idade mínima para aposentadoria, pelo INSS, independentemente do tempo de contribuição. Não leram a lei.

Se tivessem lido, veriam que esta idade mínima, tanto para homens quanto mulheres, existe desde dezembro de 98, quando foi promulgada a emenda constitucional número 20. Sessenta anos para homens, 55 para mulheres. Será que desejam limite ainda maior? Além disso, demonstrando desconhecer a estrutura da Previdência, disseram que, para as classes de menor rendas, o direito assistencial aproxima-se do direito previdenciário.

Ora, a aposentadoria assistencial tem o valor de um salário mínimo. Depende de idade superior a 70 anos, não do tempo de contribuição. A aposentadoria previdenciária, para 25 por cento dos aposentados, é superior ao piso básico. A média da remuneração paga pelo INSS, Diário Oficial de 19 de julho, é de 545 reais, como informa o ministro Luiz Marinho. Marcelo Caetano e Daniel da Mata não estudaram o assunto sobre o qual escreveram.

Quanto à idade mínima, trata-se de enorme injustiça. Os de menor renda começam a trabalhar mais cedo que os de classe média. Como o tempo de contribuição é o mesmo, são obrigados a descontar mais de seus salários (e também aumentar a contribuição dos empregadores) para o mesmo efeito. É justo isso? Tese absurda.

O marketing do desrespeito

Editorial Jornal do Brasil

O país inteiro aguardou o pronunciamento do presidente Lula sobre a tragédia do vôo 3054 em Congonhas. Quando este foi exibido, descobriu mais uma vez que havia esperado demais de um líder que tem medo de comandar. A reação tardia, três dias depois do acidente, não foi sublimada por ações que a justificassem. O chá de sumiço foi só a estratégia oportuna para impedir que a revolta nacional fosse, de novo, colada à figura presidencial. Como se isso já não estivesse acontecendo: o novo colapso aéreo de ontem, agora no Cindacta IV, três horas depois do pronunciamento, responde ao presidente e a um país apavorado.

Bem orientado, Lula falou com emoção, tentando tocar o coração dos enlutados pela dor. Foi mais respeitoso que seu assessor direto, flagrado festejando de forma obscena as revelações sobre os defeitos na aeronave que a empresa aérea manteria ocultos se a imprensa não os descobrisse. Menos que as vidas ou cobrar responsabilidade à companhia, falou mais alto a salvação política.

O novo apagão tornou o recado teatral do Planalto ridículo diante das demandas que se propunha resolver e não o faz. Deixou de aplacar o sentimento de indignação alimentado pelas omissões que conduziram a mais uma tragédia e por revelações cujo contorno parece emoldurar a negligência quase criminosa.

Para a população brasileira, o governo simplesmente não agiu. E não age. Lula quis transparecer o sentimento de pesar que não resiste à comparação com as decisões que anunciou. Afinal, para quem vai voar hoje, sejam passageiros ou pilotos, a situação é rigorosamente a mesma que culminou em 188 mortes. Ou até pior, como se viu no grau de risco que envolveu a pane em Manaus. O pesar presidencial faz parte da maquiagem.

A reorganização do tráfego aéreo em Congonhas e em outros pontos saturados deveria ter saído há muito tempo. Mas as empresas sempre dominaram essas discussões. O resultado do veto ainda está fumegante.

O maior desastre aéreo da aviação brasileira equilibrou o contencioso. As empresas perderam, mas nem por isso deixaram de ganhar algo essencial em um setor que trabalha sete dias por semana, 24 horas por dia: tempo. Serão mais dois meses, além de todos os prazos, dias e horas que o presidente já exigira desde o início do apagão aéreo. E no qual a única mudança no céu está nas almas que ali aguardam por uma explicação que não virá tão cedo.

Da mesma forma, anunciar a construção de um novo aeroporto em São Paulo foi outra medida para empurrar a crise de emergência para um tratamento à base de homeopatia. Como governar é contrariar interesses, a melhor forma de evitar isso é dissimular a falta de vontade em meio às brumas vagas dos projetos de longo prazo. Como medida de ação, ante à gravidade da hora, o anúncio do pacote foi o benchmark de um mórbido marketing oportunista. Deu a um governo omisso no assunto um caráter proativo que jamais demonstrou. Os funerais em Porto Alegre tornaram a manobra inócua e expuseram seu caráter desrespeitoso.

O discurso presidencial também foi alvo de fogo amigo. Ver o presidente da inepta Agência Nacional de Aviação Civil sorrindo, ao ser agraciado pelo comandante da Aeronáutica com a medalha do Mérito Santos Dumont, foi como matar novamente as 188 pessoas a bordo do Airbus.

O semblante orgulhoso dos homenageados diante da dor de tantas famílias conspurcou o valor do prêmio e de quem o concede, já que a honraria é pregada no peito de brasileiros que prestam serviços relevantes à aviação. Nesse caso, deve ter sido outorgada pela tenacidade da Anac em bloquear as mudanças em Congonhas que poderiam ter evitado o horror.

União congela o fundo aeronáutico

Juliana Rocha , Jornal do Brasil

O governo federal ainda não desembolsou um centavo do Orçamento da União para obras de melhoria nos aeroportos brasileiros este ano. E ainda congelou R$ 2,1 bilhões de dois fundos setoriais que poderiam servir para investimentos no setor: o Fundo Aeronáutico e o Aeroviário. Mas os recursos estão parados na conta do Tesouro Nacional, engordando o superávit primário. Neste ano, até o início de junho, a Infraero investiu, com recursos próprios, R$ 320 milhões, incluindo as obras da pista principal do Aeroporto de Congonhas. Segundo a estatal que administra os aeroportos, nenhuma dessas obras contou com dinheiro do Orçamento da União.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou falta de investimentos do governo no setor aéreo, em resposta às críticas segundo as quais o contingenciamento de recursos teria provocado a crise aérea e, em última instância, criado condições para que ocorresse o acidente com o Airbus da TAM, que matou cerca de 200 pessoas. Depois de participar, quarta-feira, de reunião da Coordenação Política no Palácio do Planalto, o ministro ressaltou a previsão de investimento de R$ 1 bilhão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), ainda este ano, no Plano de Desenvolvimento da Infraero, para aeroportos e ampliação de pistas de pouso.

Mas, pela programação do PAC, o investimento previsto em aeroportos para este ano é de R$ 878 milhões. Desse total, R$ 305 milhões são da Infraero e R$ 573 milhões do Orçamento da União. O ministro da Fazenda disse que "não se pode confundir acidente da TAM com questões de longo prazo", como os investimentos. Acrescentou que estão previstas novas obras, como a construção de uma terceira pista de pouso no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

- Não vamos confundir uma tragédia aérea com o programa nacional de aeroportos - afirmou. - São duas coisas diferentes. A Infraero tem uma programação de longo prazo para a construção de aeroportos e ampliação de pistas, inclusive a terceira pista de Guarulhos.

O Fundo Aeroviário, da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), tem R$ 101 milhões parados nos cofres do Tesouro. E o Fundo da Aeronáutica, R$ 2,044 bilhões. Deste último fundo setorial, nem tudo poderia ser gasto em obras. Pelo balancete contábil do fundo, R$ 18 milhões estão reservados para gastos com saúde na Aeronáutica e outros R$ 3 milhões para auxílio residencial, além de R$ 644 mil para um "programa escolar". Os dados são do Sistema Integrado de Acompanhamento Financeiro (Siaf), fornecidos pela ONG Contas Abertas.

A crise aérea reabriu a discussão sobre a privatização da Infraero, para estimular investimentos privados no setor. Mas muitos aeroportos do país, do Norte e do Nordeste, por exemplo, não são lucrativos como os do Sudeste e do Sul e, portanto, pouco atrativos para o setor privado. O custo da construção de um aeroporto também é alto. Chega a R$ 5 bilhões.

O ministro Mantega disse que um novo aeroporto pode ser construído em São Paulo por uma Parceria Público-Privada (PPP). Segundo ele, o governo não prevê fazer sozinho um novo empreendimento.

Muitas obras, pouca segurança

Leandro Mazzini , Jornal do Brasil

Com o agravamento da crise aérea no país, o anúncio do governo federal sobre a redução das operações do Aeroporto de Congonhas e a construção de um novo terminal de grande porte em São Paulo soou mais como manobra política do que solução técnica, avaliam três conhecidos especialistas do setor. Eles acreditam que Congonhas, o mais movimentado do Brasil e motivo da polêmica entorno do acidente com o Airbus da TAM, tem condições de continuar a operar como vem acontecendo. Mas precisaria de medidas enérgicas no item segurança.

- Não é a melhor solução a construção de um novo aeroporto - analisa Luís Alexandre Fuccille, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp.

- Não estou entre os defensores do fechamento de Congonhas, seja pelo que o governo já gastou ou pelo que planeja investir ali.

Para o professor, a "falta de seriedade na construção de políticas públicas falhou em Congonhas". Os governos não poderiam ter deixado a cidade "engolir" a pista, que tem 1.930 metros e é cercada por prédios.

- A pista não é curta, dá para decolar e aterrissar tranqüilamente - avalia Adyr da Silva, especialista em aviação civil e professor da Universidade de Brasília. - Estamos caminhando para um esgotamento no setor. Pensar num outro aeroporto em São Paulo é inteligente, mas a necessidade não é imediata.

O Ministério Público, no entanto, defende o fechamento completo do aeroporto. Na visão dos estudiosos do setor, o problema de Congonhas não é a super operação. O terminal tem condições de receber os 18 milhões de passageiros por ano, lembram. Mas o governo deve investir em segurança. Bastam a construção dos groovings (ranhuras na pista que servem para o escoamento da água em dias de chuvas) e de barreiras de contenção. Na sexta-feira, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, anunciou as duas obras. E avisou também que o governo vai proibir conexões no terminal dentro de 60 dias.

Professor do Departamento de Transportes da Escola Politécnica da USP, Jorge Eduardo Leal Medeiros lembra que o governo, tardiamente, começa a se preocupar com a segurança em Congonhas, o que deveria ter sido feito pela Infraero - estatal que administra os aeroportos - há muito tempo, em vez de investir nos aeroshoppings.

- Não acho que haja excesso em Congonhas. A solução de cortar vôos é política, e não técnica - diz Medeiros. - Congonhas já operou com 50 vôos por hora, baixou para 44, e vai ficar com 36. A redução do movimento é paliativa. É preciso segurança técnica. Só um novo terminal não resolve e acaba transferindo o perigo para outro lugar, porque sem segurança de vôo, a probabilidade de um avião cair é a mesma em outro aeroporto.

Luís Fuccille concorda.

- Temos que operar maximizando as salvaguardas. Algumas ações de custo baixo podem ser adotadas em Congonhas. Os groovings não são obrigatórios, mas são indispensáveis em pistas como a de Congonhas. Outra medida seria a construção ali de um "bolsão" de concreto poroso (que se quebraria e reduziria a velocidade do avião numa possível derrapagem).

Os especialistas também apontam algumas soluções de curto prazo para Congonhas. Falam em uma reestruturação completa do marco regulatório para o setor aéreo - o atual é da década de 60.

- Uma melhor utilização da malha em Cumbica (Guarulhos) e Viracopos (Campinas) seria bem vinda. E, paralelamente, a construção de uma via de transporte direta ligando Congonhas e Guarulhos - diz Fuccille.

O governo de São Paulo já anunciou obras para um trem que ligará Cumbica ao Centro da capital em 20 minutos.

TRAPOS & FARRAPOS...

COM MENTIRAS LULA NÃO ACABARÁ COM A CRISE AÉREA.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Nos Estados Unidos da América, um presidente que mente terá que responder a um processo de impeachment. Nixon precisou renunciar para não ser despojado do poder por sonegar informações e por mentir à Nação. Mais tarde, Bill Clinton passou maus bocados não por suas aventurosas amorosas na Casa Branca, mas por tentar enganar o Congresso e os americanos.

No Brasil, Lula fez da mentira seu princípio moral de conduta. Desde que assumiu, e até em campanhas eleitorais, Lula nunca sentiu pejo em mentir, em enganar, em falsear, em mistificar. Faz parte de sua personalidade.

Depois de 73 horas de silêncio sobre o acidente com o Airbus da TAM, Lula foi à televisão para falar à Nação. De tudo que disse, e nós já analisamos algumas das”propostas” e “medidas” anunciadas, a mais escandalosamente cretina é de que, doravante, o governo vai agir, vai investir, e prestem atenção: que o GOVERNO FEDERAL JÁ INVESTIU MUITO E AINDA INVESTIRÁ MUITO MAIS PARA ACABAR COM A CRISE. “Farei o impossível” disse Lula. É? Nem me diga, Lula ! Se tivesse feito o possível, acredite, não haveria nem crise nem tantos mortos em conseqüência dela.

Mas vamos ver onde fica a “boa intenção” deste governante que se vende como um sábio: o apagão aéreo começou seu torvelinho de emoções fortes com a queda do Boeing da Gol, em setembro de 2006. De lá para cá, pouco a pouco, o país foi descobrindo uma teia de descalabros e desmandos no setor de controle aéreo como nunca se viu em nossa história. Numa hora, descobrimos que a INFRAERO além de cobrar “mensalão” de empresários, ainda super-faturou as obras de remodelação de aeroportos. Os relatórios do TCU aí estão para comprovar que a acusação é verdadeira. Depois, descobrimos que a ANAC que deveria atuar para fazer com que as empresas de aviação comercial cumprisse todos os regulamentos que regulam a atividade, e atender prioritariamente aos passageiros e usuários, vendeu-se e passou a atuar em favor das empresas e seus interesses exclusivamente comerciais.

Descobrimos, também, que a partir da divisão do controle de tráfego abrindo portas para a contratação de servidores civis, o setor entrou em ebulição, e um processo de sindicalização imoral acabou por destruir toda a autoridade sobre esta estratégica área que antes era comandada exclusivamente pela Aeronáutica.

Depois, descobrimos que o governo Lula, alertado em diferentes ocasiões por relatórios da Aeronáutica sobre a possível ameaça de apagão, ignorou todos os avisos, contingenciou os recursos e não fez os investimentos indispensáveis para evitar o apagão.

Já dentro da crise, descobrimos que existem tanta gente e tantos órgãos para controlar e comandar uma única atividade, que acabou virando uma zorra total, onde cada um empurra a culpa para outro, e ação que é bom, nada.

Lula várias vezes provocou reuniões, escalou diferentes atores para comandar um processo de resolução dos problemas. Nada aconteceu, nem tampouco as medidas anunciadas e recomendadas foram levadas adiante.

Agora, novamente, anuncia uma espécie de pacote, dentro do qual existem providências que se pede há mais de um ano, e que o governo simplesmente ignorou.

Porém, dentre as medidas que exigem investimentos, esqueçam: é pura mentira. Que o governo está preocupado com setor, que está envidando esforços para um ponto final no apagão, também ignorem. Este governo mente, Lula mente, e a turma que o cerca, além de imoral, obscena, incompetente e irresponsável, não está se importando a mínima para o que está acontecendo nos aeroportos e no controle de tráfego aéreo. Para eles todos, Lula inclusive, o importante é fazer obras que destinem alguns grãos para o caixa do partido. As obras que a INFRAERO executou sob o comando de Carlos Wilson ainda serão investigadas, e isto ainda ficará muito claro. E sempre se cuidará muito mais da perfumaria do que do essencial.

Em duas reportagens primorosas, o Jornal do Brasil traz a prova de que o dito acima é o quadro real de como o apagão não tem data para acabar. Pelo menos no que depender destes pilantras que ocupam tanto a INFRAERO, quanto ANAC.

Na primeira reportagem, vejam vocês o governo que se diz interessado em acabar com a crise, ficamos sabendo que ele simplesmente congelou o fundo aeronáutico. É um acinte. Do Orçamento previsto para as obras de melhorias nos aeroportos, ainda não se gastou um centavo. E os dois fundos que fariam e bancariam os investimentos, que como se vê são inadiáveis, simplesmente estão congelados engordando o superávit primário. E a bagatela soma mais de R$ 2,600 bilhões, paradinhos. Para o governo é mais importante pagar juros da dívida pública do que tratar de garantir a vida dos brasileiros que viajam de avião. O montante gasto até aqui no setor aeroportuário foram bancados com recursos próprios da INFRAERO. O total gasto desta forma atingiu, até julho deste ano, a cifra de R$ 320,0 milhões.

Vocês dirão: mas investimentos de R$ 320,0 milhões não sinalizam a intenção de resolver o problema ? Seria, se o grosso deste dinheiro tivesse sido canalizado para a segurança. São muitas obras, sim, mas pouca segurança. E esta é a segunda reportagem do Jornal do Brasil que reproduziremos a seguir.

Assim, dá pra gente se armar e dizer: Lula, você é um incorrigível mentiroso e enganador. E, por certo, não serão mentiras que acabarão com a crise. Até pelo contrário: a tendência é piorar. Seria ótimo dizer que, todo este quadro de pavor, pelos quais passam os aeroportos do país, já não existem mais. Pelo menos, a real ameaça de novas tragédias estaria afastada. Infelizmente, não é bem assim. Enquanto Lula insistir em manter o bando de incompetentes responsáveis diretos pelo descalabro, será impossível debelar a crise. Enquanto o próprio Lula insistir e teimar em ignorar que a crise é real, que fruto dela muita gente já morreu e que podem morrer muito mais, de forma estúpida, os aeroportos e os céus do Brasil serão um perigo real em tempo real.

Ninguém deseja novas tragédias. Ninguém deseja a balbúrdia que se verifica no setor de aviação do país. As exceções são Lula e os irresponsáveis e obscenos auxiliares que ele teima em manter em seus postos. Para estes crápulas, que têm viagem garantida e no horário nos jatinhos da FAB, o problema parece não existir, nem tampouco os afetar. Em consequência, precisará a sociedade se mexer, provocar baderna, fazer esta gente sentir o repúdio e a repulsa pelos seus desmandos, do contrário, tudo continuará igual: um inferno.

Mas vale o alerta: Lula não se deu conta do preço político que terá que pagar por sua omissão, desídia e negligência. A tendência é de que, em qualquer lugar do Brasil por onde venha passar, a vaia o acompanhe, os protestos se façam sentir de forma cada mais intensa. Lula está enterrando mais e mais o seu governo na mediocridade. A ação deprimente de seu aspone salafrário, Marco Aurélio Garcia, não ficará impune diante da opinião pública. Ao mantê-lo no lugar em que se encontrava antes, Lula está dando o tom do tipo de governo que instalou no país, e do tipo de promiscuidade que têm mantido na sua relação com o povo brasileiro. É bom saber que não serão bolsas esmolas que calarão o povo: quando os cadáveres se amontoam fica difícil mentir e convencer, fica difícil enganar e mistificar. Cadáveres não falam, mas o silêncio da morte é, quiçá, o protesto maior capaz de abalar qualquer governo, por mais populista e descarado que tente ser.

As reportagens do Jornal do Brasil seguem nos dois posts seguintes.