domingo, junho 15, 2008

Kiribati vai desaparecer no mar

Augusto Nunes, Sete Dias , Jornal do Brasil

O minúsculo arquipélago esquecido no coração do Pacífico Sul sempre dependeu do que seus habitantes jamais poderiam controlar. Há 4000 anos, desde que ali se alojou a primeira tribo vinda da Ásia, os 33 atóis e ilhas dependem do mar. Incorporada ao Império Britânico em 1916, a colônia no Pacífico começaria a depender também dos senhores europeus. Os humores do mar continuaram a deliberar sobre o presente. Os humores do império passaram a controlar o futuro. E assim seria até 1979, quando veio a independência.

Trinta anos depois de obtida a autonomia política, a República de Kiribati depende mais do que nunca dos humores do mar e, sobretudo, dos favores estrangeiros. No começo do mês, o presidente Anote Tong, em visita à Nova Zelândia, aproveitou o Dia Internacional do Meio Ambiente para comunicar ao mundo que Kiribati foi condenada a morrer por afogamento antes que o século termine.

Desde o dia da independência, Tong não parou de pedir ajuda ao resto do mundo. Alguns foram atendidos: sem o socorro financeiro oferecido pelos Estados Unidos e pela Nova Zelândia, a república teria sucumbido à fome e à sede.

Outros pedidos foram ignorados. Nos últimos 20 anos, Tong emitiu incontáveis sinais de alerta dando conta dos perturbadores augúrios da natureza. As inundações de verão se tornaram cada vez mais inclementes – agora cobrem por semanas ilhas inteiras. O nível do mar e a temperatura sobem a cada ano. Os períodos de estiagem ficaram mais longos e hoje são penosamente extensos para aquelas terras baixas castigadas pela escassez de água doce. O drama de Kiribati, repetiu Tong infrutiferamente, era o prólogo de uma tragédia universal.

As advertências nunca mereceram mais que meia dúzia de linhas em jornais à caça de assuntos. E jamais conseguiram aninhar-se na agenda de preocupações de governantes poderosos. Havia questões mais urgentes que as duvidosas lamentações reiteradas pelo presidente de uma irrelevância geopolítica. Com pouco mais de 100 mil habitantes, que vivem da pesca, do coco e de uma raquítica agricultura de subsistência, Kiribati não tem moeda própria (usa o dólar australiano), substituiu a língua regional pelo inglês, não tem produtos a exportar nem dinheiro para importações.

A maioria dos 12 funcionários do Ministério das Relações Exteriores serve na embaixada nas Ilhas Fiji. É a única de um país sem representação sequer na ONU. Em Bairiki, a capital, a comunidade diplomática estrangeira cabe em três endereços: a embaixada de Taiwan e os altos comissariados da Austrália e da Nova Zelândia. Por falta de turistas a hospedar e alimentar, faltam hotéis e restaurantes.

É possível que mais viajantes comecem agora a aparecer por lá: é sempre interessante visitar um país que vai naufragar. Se o mais recente apelo de Anote Tong for atendido, os forasteiros que chegam cruzarão no mar com os nativos que partem. "Não queríamos acreditar nisso, mas a hora chegou", disse o presidente. "A evacuação tem de começar agora mas não conseguiremos fazer isso sem que o mundo nos ajude". Milhares de habitantes já deixaram o país. Outros tantos sonham com lugares altos.

"No momento, os únicos disponíveis são os coqueiros", lastimou Tong. O drama no Pacífico ensina que nada é eterno, e que a hora da salvação não pode esperar. Choremos por Kiribati. E ouçamos os lamentos da Amazônia.

O padroeiro da mulher gaúcha
O senador Pedro Simon não consegue ver uma gaúcha em apuros sem sacar da garganta uma declaração de solidariedade, abjurar o que acabou de dizer e trocar o sim pelo não ou vice-versa. Para liberar adjutórios que socorressem a governadora Yeda Crusius, por exemplo, Simon apaixonou-se pela CPMF. Na quarta-feira, decidiu absolver Dilma Rousseff de todas as acusações presentes, passadas e futuras. "O alvo é a candidata", viajou. Um descanso nos pampas sempre ajuda. Que tal Yeda oferecer-lhe o comando da Secretaria dos Direitos da Mulher?

Os compadres sabem mais que Freud
"Perguntem ao Freud", sugeriu Lula aos interessados em saber o que pensa das denúncias feitas por Denise Abreu, ex-diretora da Anac. Se for o Freud que conhece – Freud Godoy, o ex-segurança e ex-assessor especial que saiu de perto do presidente depois de se meter com o bando de aloprados – pode ser uma boa idéia. Se for o outro, um austríaco que Lula mal sabe quem é, melhor insistir em buscar respostas com o presidente e com o bacharel dos ares Roberto Teixeira, o Primeiro Compadre. Os dois conversam sobre política, sobre negócios, sobre questões familiares – tudo. Decerto conversaram bastante sobre o assassinato da Varig.

Os compadres poderiam explicar, por exemplo, por que o governo ignorou a lei que fixa em 20% a participação de estrangeiros em empresas aéreas. Ou por que a Varig foi vendida à Gol e não à TAM, que se dispunha a pagar US$ 418 milhões a mais. Ou o que foi fazer na Anac Valeska Teixeira, a Primeira Afilhada, justamente no dia da reunião que decidiu o destino da Varig. (Comprar passagens? Ou lembrar aos diretores da agência que o Pai e o Padrinho estavam de olho neles?). Se não for querer demais, o Brasil que presta gostaria de saber o que andou fazendo o advogado Teixeira para embolsar US$ 5 milhões.

Monumento à cretinice
Depois de examinar a papelada que fundamentou a condenação do jornalista Antônio Pimenta Neves a 18 anos de prisão, por ter liquidado com um tiro na cabeça a ex-namorada Sandra Gomide, a subprocuradora-geral da República Delza Rocha pediu a anulação do julgamento. Não, ela não achou o castigo brando demais. É o contrário: cismou que, induzidos pelo juiz, os jurados exageraram na dose.

Se a maluquice funcionar, Pimenta – sempre livre como um táxi no ponto – morrerá longe do catre. Delza também: cretinice não dá cadeia.

Fugiu de Cuba e matou a mentira
Em julho passado, depois da decolagem do avião cedido por Hugo Chávez para devolver a Havana os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, o ministro Tarso Genro ofendeu-se com a suspeita de que, para acariciar Fidel, o Brasil havia deportado dois atletas que tentaram trocar a Vila Pan-Americana do Rio pela liberdade. "Eles pediram para voltar", jurou Tarso. Na quinta-feira, Lara enfim conseguiu chegar à Alemanha, dias depois de fugir de Cuba. Está muito feliz. E à disposição dos interessados em conferir a historinha contada por Tarso.

As ONGs do fim do mundo

Reinaldo Azevedo, Revista VEJA

Não faz três meses, morreríamos todos assados no fogo do inferno de nossas ambições. Quem é esse sujeito determinado, porém oculto? Nós, os "seres humanos". Procurem na Bíblia ou na internet o Apocalipse de São João. As previsões sobre os males que advirão do aquecimento global foram copiadas de lá. Se ele não era um bom cientista, não há cientista que o supere em matéria de fim do mundo. O tema deixou de ser prioridade nestes dias. Agora, vamos morrer de fome. Um certo "sistema" – sim, o capitalismo –, que faria derreter o planeta, ameaça deixar a Terra esfaimando. Diacho de modelo esse que vive dando tiro no próprio pé! Será que era isso que os comunistas queriam dizer quando afirmavam que o capitalismo trazia em si a semente de sua própria destruição?

Quem propaga essas verdades eternas? As organizações não-governamentais (ONGs) – incluindo a maior delas: a Organização das Nações Unidas. Outro dia alguém me disse que até me considerava um cara bacana e tal – se acha isso mesmo, não me interessa; a mentira cujo propósito é a gentileza é decorosa. Mas ele não entendia como alguém lido podia acreditar na Santíssima Trindade. Nem eu! Até hoje, prosseguiu meu interlocutor, ele não compreendia essa história do "Três em Um": Pai, Filho e Espírito Santo. Não cabe o pormenor, mas admito que há coisas que são matéria de fé, o que todo racionalista decente sabe. Concluí que é mais fácil um homem instruído acreditar no fim do mundo – ou na redenção – antevisto pelos "cientistas" do que na vida eterna anunciada por Deus...

À medida que as escatologias científicas vão se tornando influentes, números começam a pulular. Há um fascinante: indica que, no mundo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos. Louvo a precisão do humanismo matemático. E indago: e se assim foi, por exemplo, nos últimos quinze anos? A China, sozinha, tirou, nesse período, 400 milhões de pessoas da pobreza. A fé não precisa fazer conta. A ciência, sim. Quinze anos correspondem a 5 475 dias, cada um com 86 400 segundos – logo, falamos de 473 040 000 segundos. Como a China tirou, nesse tempo, 400 milhões de pessoas da pobreza, isso significa que 0,846 indivíduo por segundo deixou essa condição. E olhem que ignorei a Índia e o Brasil.

O tal "sistema perverso", que mataria de fome uma criança a cada cinco segundos, tira da miséria um indivíduo por segundo. O saldo é bem positivo. É por isso que a população do planeta cresce de forma assustadora. E o fantástico desempenho da China e da Índia nada deve à militância ongueira: é uma conquista da economia de mercado, que quer destruir o planeta. Sempre que alguém vem me falar sobre o fim dos tempos, pergunto: "Você tem aí alguma previsão para a semana que vem?". Em matéria de apocalipse, fico com o de São João.

O Brasil, que se defendia da acusação de ser um dos agentes do aquecimento por causa das queimadas, ofereceu ao mundo o etanol e, agora, é suspeito, de forma infundada, de produzir álcool em vez de grãos. O presidente Lula está experimentando quão difícil é lutar contra uma "doxa" – uma falsa verdade, porém influente. Em solo pátrio, o dono da "doxa", em aliança com o onguismo, sempre foi o PT. Lembram-se dos ditos "movimentos sociais" que ajudaram a criar o partido? Todos se converteram em ONGs e Oscips (organizações da sociedade civil de interesse público).

Estima-se entre 250 000 e 275 000 o número dessas entidades no país, 100 000 das quais atuando na Amazônia. Há 700 000 índios no Brasil, talvez uns 600 000 naquela região. Se todas cuidassem dos nossos bons selvagens, teríamos seis índios para cada ONG: daria para fornecer casa, comida, roupa lavada e pós-doutorado. Mas algumas, sei, cuidam de outros assuntos: o minhocuçu, o sapo-gigante, a aranha-armadeira, os bagres... Você só escapará de ser sufocado pelo amor de uma ONG se for o verdadeiro negro do mundo: bípede, branco, macho, heterossexual e católico. Fora disso, basta erguer a mão ou aprender a guinchar, e aparecerá uma multidão para protegê-lo.
As entidades mais influentes contam com farto financiamento internacional, a exemplo da CIR (Conselho Indígena de Roraima), que lidera a luta para expulsar os "não-índios" de Raposa Serra do Sol. A Fundação Ford é muito generosa com esses patriotas: doou-lhes 300 000 dólares no ano passado. Já o Geledés – Instituto da Mulher Negra – foi agraciado, entre 2004 e 2008, com 1,1 milhão de dólares. As informações estão no site da fundação. Nada contra a doação. Mas quem gerencia a entrada de dinheiro em entidades que acabam passando como porta-vozes de supostos clamores públicos? Ninguém! Fosse apenas o dinheiro de fora a inundar o caixa dos filantropos, vá lá. Mas as ONGs e Oscips se tornaram instrumentos da terceirização do governo – e da sangria dos cofres públicos. Os números são formidáveis: entre 1999 e 2007, saíram do Orçamento da União para as ONGs 36,12 bilhões de reais – com correção monetária, a cifra passa de 50 bilhões de reais. Só no ano passado, receberam o capilé oficial 7 670 entidades.

Centrais sindicais, sindicatos de empregados e de patrões, sindicalistas, jornalistas, artistas, políticos, as mulheres, maridos e ex-cônjuges de toda essa gente, empresas, igrejas, movimentos sociais, partidos... Todos têm a sua entidade não-governamental para reivindicar – e levar – grana do governo. Só a gente tem jabuticaba. Só a gente tem uma pororoca verdadeiramente amazônica. Só a gente tem índio que compra facão em supermercado em nome das tradições dos ancestrais. E só a gente tem as ONGGs: organizações não-governamentais... governamentais! Não sei se estão lembrados, mas até o governo chegou a ter a sua: o programa Fome Zero.
Em escala mundial e local, as ONGs passaram a ser as donas da pauta e das políticas públicas. E ai de quem ousar contrariar a doxa! Cito um caso emblemático. O Brasil é exemplo no tratamento da aids, mas sua política preventiva está centrada apenas no uso da camisinha. A contaminação voltou a crescer. Pobre daquele que ousar sugerir que abstinência sexual e fidelidade – além do preservativo – são úteis no combate à doença. Será acusado de estar misturando religião com ciência e acabará com a reputação na fogueira, enquanto os racionalistas recitam mantras cartesianos.

Na África, continente em que a doença é um flagelo, lembrou em seu blog o jornalista Fábio Zanini, Uganda é um caso notável de sucesso no combate à doença. Há quinze anos, cerca de 30% da população tinha o vírus; hoje, apenas 6,5%. A política oficial se baseia em três letras: A (de "abstinência" – para os solteiros); B ("be faithful" – seja fiel, para os casados); e C (de "condom", a camisinha). Mas o "C", lá, é o último recurso. Uganda, quem diria?, começa a sair da tragédia apelando à responsabilidade individual. No Brasil, claro, é diferente. Assim como Napoleão III acreditava que os soldados jamais resistiam a salsichas com alho, também somos fatalistas: cremos ser impossível dizer "não" ao sexo. Daí que as campanhas públicas contra a aids enfatizem apenas o uso do preservativo, chamando tudo o mais de moralismo religioso. O programa de combate à doença deixou de ser uma política de estado para ser a ação de grupos militantes organizados em... ONGs!
É claro que a roubalheira dos larápios incomoda e tem de ser combatida – até porque conspurca o trabalho dos honestos. Mas ainda mais preo-cupantes são a atomização e a falta de rumo das políticas públicas – e em escala mundial. Elas dependem hoje dos falsos consensos produzidos pelos grupos militantes. O que teria nascido para oxigenar o establishment com a voz da sociedade civil se tornou uma fatia do poder infensa aos mecanismos de controle e transparência públicos e um modo de impor a toda a sociedade os padrões e a vontade de minorias organizadas. Nos dois casos, trata-se de um modo de fraudar a democracia.

Entre a realidade e a tolice

J.R. Guzzo , Revista EXAME

Com razão ou não, cresce aqui e lá fora a tendência de achar que o Brasil não é capaz de cuidar de si próprio. É hora de começar a prestar atenção nisso

Está cada vez mais na moda, para as melhores cabeças do Primeiro Mundo, discutir hoje em dia se o Brasil é ou não capaz de se governar com um mínimo de responsabilidade. A impressão geral que deixam transparecer, com maior ou menor delicadeza, é que não muito, ou que não mesmo. Não somos, no veredicto freqüente que se dá ao Brasil lá fora, maduros ou competentes para cuidar das florestas da Amazônia, assegurar a boa preservação do cerrado ou conservar a mata Atlântica. Não tratamos bem do mar, dos rios e dos lagos — nem da terra, da flora e da fauna. Produzimos cana, ou biocombustíveis, de maneira excessiva e irresponsável. Há sérias distorções no uso de fertilizantes e na produção de transgênicos. Permite-se o trabalho escravo e infantil. Não há segurança jurídica. A concentração de renda é um espanto, bem como a miséria, a violência e o turismo sexual. As populações indígenas estão à beira da extinção. É verdade que duas agências internacionais de avaliação de risco deram as notas mínimas para o Brasil atingir o grau de investimento — mas, fora isso, quase tudo o mais encontra-se em situação francamente lamentável, como garantem os rankings feitos para medir quem é bom, médio ou ruim neste mundo.

Uma parte disso tudo é exagero ou mera tolice. Outra parte é isso mesmo. Em ambos os casos, o problema deveria ser nosso — mas vai se formando pouco a pouco a incômoda sensação de que não é. Com uma freqüência progressivamente maior, o Brasil se vê colocado no meio de conversas sobre sua responsabilidade perante o planeta e sobre o que seria o “dever” do mundo civilizado de fazer “alguma coisa” a respeito dos danos que estaríamos causando a nós mesmos e ao resto da humanidade. Ultimamente, o foco desse tipo de considerações tem sido a Amazônia: coloca-se em dúvida se o Brasil e os brasileiros têm mesmo condições de geri-la por si próprios, e se já não estaria na hora de pensar em algum tipo de “internacionalização” da área ou numa “partilha de autoridade” sobre ela. O risco real nessa história toda, para o Brasil, não parece estar na possibilidade efetiva de que 60% do seu território seja transformado em protetorado da ONU ou de um consórcio de ONGs. Não faltam propostas, mas não está claro como se poderia fazer alguma coisa prática a esse respeito. Uma invasão armada, com bombardeio aéreo de Manaus e desembarque de tropas em Belém do Pará? A captura do general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, como os americanos vêm tentando fazer desde 2001 com Bin Laden? Tirar a nota BBB- que a Standard & Poor’s acabou de dar ao país? Boicote internacional às exportações brasileiras de frango? Nada disso está na esfera das coisas reais. O risco verdadeiro poderia estar, isso sim, na criação de um duplo problema. De um lado, o aumento na quantidade já bem grande, aqui dentro, de gente que pensa de modo não muito diferente dos que, lá fora, sustentam que o Brasil não tem jeito. De outro, a emergência de um espírito “nós contra o mundo” — que resulta na convicção de que está tudo bem e que não é preciso modificar nada.

Em qualquer das hipóteses, o país estará malservido — e na segunda delas estará mais malservido ainda. A lista de tarefas urgentes a realizar, e a resistência a realizá-las, já é grande o suficiente, do jeito que as coisas estão, para dar força às idéias segundo as quais o Brasil não poderia aceitar nenhuma mudança “sob pressão”. Com pressão ou sem pressão, o fato é que não interessa ao país continuar considerando normal a vida como ela é no momento — a começar pelo entendimento que se tem da política. A Folha de S.Paulo, recentemente, informou que o número de inquéritos e ações penais contra deputados federais e senadores acaba de chegar a 281, num universo que reúne menos de 600 pessoas — 513 deputados e 81 senadores. Não dá para ver, realmente, como uma coisa dessas pode levar a algo de positivo, no presente ou futuro. Mas é música pura, certamente, para todos os que consideram o Brasil incapaz de cuidar de si próprio.

Boi no pasto
À primeira vista, parece ser uma espécie pouco conhecida de fixação ou algum outro distúrbio neurológico de origem ainda obscura, coisa que talvez receba no futuro a atenção dos mestres da psiquiatria. O fato é que, de tempos em tempos, sempre acaba aparecendo no governo brasileiro um ministro que se propõe a “caçar boi no pasto”. A idéia já foi utilizada, em outras ocasiões, para combater a inflação, dar um ar de seriedade a tabelamentos ignorados nos preços da carne, enfrentar a prática de ágio, ou para propósitos dos quais ninguém se lembra mais hoje em dia. Em sua última manifestação, esse tipo de idéia fixa acaba de ser apresentado pelo novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc — também ele anunciou que vai “caçar boi no pasto”, agora como arma para combater o desmatamento da Amazônia. À segunda vista, entretanto, parece haver um certo método dentro desses súbitos acessos de agressividade do poder público em relação ao rebanho nacional. Não se consegue, é claro, um mínimo de resultado prático, nem para baixar o preço da carne, nem para nada. Em compensação, a autoridade que faz esse número acha que está passando à platéia uma impressão de operosidade, espírito de combate e vergonha na cara para encarar paradas duras — duela a quién duela, como diria o ex-presidente Fernando Collor.

Não se sabe exatamente a quantas anda, neste momento, o nível geral de credulidade da população; costuma ser alto, para sorte dos governos, mas não o suficiente, talvez, para levar muita gente a acreditar que a mata Amazônica começa, enfim, a ser salva. Na dúvida, o ministro Minc tenta de novo aplicar a fórmula da caça ao boi; mal não faz. Afinal, “caçar boi no pasto” sempre parece coisa de macho. Acaba rendendo comentários do tipo “o homem não tem medo de cara feia” ou “com esse Minc não tem conversa”. A imprensa, como é do gosto já bem conhecido do ministro, faz barulho. Fica criada uma expressão nova, “boi pirata”, no lombo de quem o Ministério do Meio Ambiente vai jogar muito pecado. Enfim, há a vantagem de fazer toda essa marola a custo zero — com mais algum tempo a história vai cansando, cai em exercício findo e não se fala mais nisso, nem se cobra resultado algum da operação antiboi ora colocada em cartaz pelo ministro. E que resultado prático poderia mesmo haver no mundo das realidades? A área da Amazônia Legal tem hoje um rebanho superior a 70 milhões de cabeças de gado, o dobro do que tinha dez anos atrás. Quantas delas, precisamente, o ministro vai “caçar no pasto”? Menos 10 milhões, digamos, não iria fazer diferença nenhuma no desmatamento — e como é que se vai sumir com 10 milhões de bois, ou mesmo com um mero milhão, assim de uma hora para outra? Seria coisa nunca vista antes neste país ou mesmo neste mundo.

Talvez se possa alegar, com muita boa vontade, que a expropriação de um certo número de reses poderia servir a um propósito pedagógico, desestimulando os pecuaristas a manter ou aumentar os rebanhos da região. É pouco provável que venha a acontecer algo parecido. O aumento de 100% na quantidade de gado da Amazônia ocorreu, como dito acima, nos últimos dez anos; desse período, cinco anos e meio foram de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante os quais ocorreram aumentos espetaculares, também, na produção de outros itens do agronegócio. Estaria, então, tudo errado até agora? É óbvio que não, como é óbvio que a utilização da Amazônia para a criação de gado em larga escala precisa ser reformulada a fundo, a sério e com urgência. Para isso, porém, é preciso trabalho fundo, sério e urgente — o que não dá cartaz, nem popularidade, nem resultado de um dia para o outro. É o oposto, exatamente, de “caçar boi no pasto”.

Tarso Genro traidor dos direitos humanos

Ralph J. Hofmann , site Diego Casagrande

Finalmente temos a confirmação. O Ministro da Justiça Tarso Genro não reúne condições mínimas para ocupar o cargo.

Quais seriam as condições. Teria de possuir conhecimentos das leis? Tarso as conhece, é advogado com larga experiência, ao contrário de muitos bacharéis que apenas portam o diploma mas não exercem a profissão, particularmente entre a classe política. Este não é o problema.

Mas há algo básico. O respeito aos direitos humanos. Um direito que foi levado em conta esta semana pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos com relação aos presos de Guantánamo. O Supremo americano sufocou qualquer casuísmo patriótico para fazer cumprir sua constituição e suprimir os desmandos contra indivíduos eventualmente inocentes, ou mesmo para dar a estes indivíduos um horizonte da sua vida futura.

Já Tarso Genro provou, no caso dos boxeadores cubanos, que pouco se importa com o direito de ir e vir dos indivíduos. Apenas se importa com suas opiniões, suas conveniências, suas alianças. Direitos humanos? Os trouxas que se preocupem com eles! Não se pode fazer um omelete sem quebrar ovos.

Tarso e seus mandaletes, assim como Celso Amorim, e Marco Aurélio Garcia informaram ao povo brasileiro que os boxeadores cubanos desejavam voltar a Cuba. O processo de extradição ou seja lá o que for foi realizado sem que agências de direito humanos tivessem a oportunidade de ouvi-los, na calada da noite. Hugo Chávez, outro grande defensor dos direitos humanos deslocou um avião rapidamente para o Brasil para que rapidamente essa conspiração se tornasse fato consumado.

Os empresários de lutas alemães, que podem até não ser partes desinteressadas, exerciam um direito de oferecer a dois indivíduos maiores de idade uma chance de aproveitarem seus dotes físicos para fazer fortuna enquanto a idade não lhes solapasse a força e o talento. Devemos lembrar que um boxeador tem uma pequena janela de tempo para estar entre os melhores.

Tarso e outros também não ignoravam o que esperava os boxeadores na volta a Cuba. Seu destino era tornar-se não-pessoas na sua sociedade. Para qualquer um era óbvio que o desejo que expressavam de voltar para casa era por acreditarem que naquele momento a polícia brasileira era uma mera extensão da polícia política cubana. Eram dois pequenos indivíduos cercados por um aparato policial imenso, que se havia dedicado com rara eficácia, que quiseramos fosse aplicada à apreensão de bandidos locais, a encontrá-los e colocá-los à disposição das autoridades cubanas.

Se o indivíduo tem o direito a ir e vir conforme a Declaração dos Direitos Humanos, qual o delito de querer abandonar a terra natal ? Nenhum. O Brasil até poderia recusar-lhes direito de permanência. Mas se outra nação, no caso a Alemanha quisesse recebê-los não teria o direito de recambiá-los para Cuba.Esta semana o traseiro de Tarso Genro está exposto às intempéries.

Erislandy Lara enfrentou os mares encapelados numa pequena lancha e chegou ao México. Já está na Alemanha. Já recebeu anteontem um passaporte alemão provisório.

E agora Tarso? E agora Lula, Celso e Marco Aurélio. Como é que vocês ficam. Erislandy ao fugir de novo confirma a canalhice que sofreu por parte do Brasil. E o mundo todo confirma isto.

O Brasil realmente não precisava passar por esta.

As coisas estranhas

André Petry, Revista VEJA

"Se Teixeira tinha permissão para usar o nome de Lula, é bomba de nêutrons. Se não tinha, talvez Lula queira censurá-lo, até romper com ele pelo abuso da amizade e pela prova cabal de deslealdade"

Uma das leis clássicas da política informa que político jamais diminui seu poder por vontade própria. Pode renunciar a ele, mas, enquanto não o fizer, moverá montanhas para mantê-lo ou ampliá-lo. Reduzi-lo, jamais. É por isso que político nunca antecipa sua sucessão. Fazê-lo equivale a encurtar seu mandato, expor-se ao risco de deixar o ponto mais iluminado do palco ou ter de dividi-lo com outros. Equivale, no leilão diário de impressões e informações de que se constitui a política, a apresentar-se menor, enfraquecido, como ficam todos os políticos às vésperas de perder a potência. Um pato manco, como dizem os americanos. Por isso, o movimento do presidente Lula na semana passada fere uma lei clássica da política. E isso é estranho.

Lula disse, pela primeira vez com clareza, que a ministra Dilma Rousseff é "o nome do PT" para suceder-lhe em 2010. Lula está antecipando a disputa por sua sucessão, faltando ainda trinta meses para ir embora. Políticos não fazem isso. Por que Lula fez? Será que Dilma não é o "nome do PT", e Lula apenas o soltou para ver se cola no partido? Será que quer jogar Dilma às feras, distraindo as feras do verdadeiro candidato?

É estranho… Lula encarregou-se de explicar seu gesto precoce. Disse que Dilma é perseguida porque é candidata. A prova seria a cascata de denúncias. Primeiro, foi o dossiê com os gastos do ex-presidente FHC. Agora, veio a pressão para vender a Varig à Gol por preço módico. Com tanto canivete chovendo, Lula quis proteger a ministra, oferecendo-lhe um abrigo. Então, lançou-a candidata sabendo que é perseguida por ser candidata? E colocou-a sob suas asas, correndo o risco de reduzir seu próprio poder?

É estranho… Lula nunca reduziu seu poder para defender quem quer que seja. Reformulando, em nome da precisão: entre José Dirceu e Matilde Ribeiro, Lula já defendeu quem quer que seja, sempre pondo "a mão no fogo" pelo acusado da hora, mas para preservar seu poder, nunca para reduzi-lo. Por que faria isso agora por Dilma? Por que a ministra habita seu coração e fazê-la sua sucessora é a meta superior de Lula, ainda que isso lhe custe nacos de poder a dois anos e meio do fim?

É estranho… O escândalo da Varig é do tipo que faz muito ziguezague, mas acaba no coração do governo. Denise Abreu, ex-funcionária graduada, acusou Dilma de pressioná-la para facilitar a venda da Varig à Gol. Como não há provas materiais, a ministra poderá defender-se na linha tênue que separa pressão de pressa. Mas Denise Abreu também fez uma acusação fortíssima: disse que sofreu pressão "imoral" do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, que dizia falar em nome do presidente. E nada acontece?

É estranho… A acusação precisa ser esclarecida. Denise Abreu está mentindo? Se o advogado tinha permissão para usar o nome de Lula, é bomba de nêutrons. Se não tinha, talvez Lula queira censurá-lo, até romper com ele pelo abuso da amizade e pela prova cabal de deslealdade. Em vez disso, Lula preferiu lançar Dilma, proteger Dilma, defender Dilma. É a receita perfeita para Dilma nunca mais deixar os holofotes. Considerando que na política, tal como na física, dois corpos não ocupam o mesmo espaço, talvez nada disso seja tão estranho.

Pressão política enfraquece ação de agências reguladoras

Renée Pereira, Estadão

Governo federal sufoca órgãos de regulação com retenção de verbas e lentidão para preencher vagas

As denúncias de pressões do governo na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) no caso da venda da Varig, reveladas ao Estado por sua ex-diretora , e as dificuldades da Agência Nacional de Telecomunicações para aprovar mudanças na regulamentação do setor escancaram a atual situação de esvaziamento dos órgãos reguladores no Brasil.

Criadas para atuar com independência e garantir regras estáveis a investidores e consumidores, as agências têm sido asfixiadas por intervenções do Executivo, contingenciamento de verbas, nomeações políticas e quadros incompletos de diretoria.

Esse é um problema grave na Anatel, que demorou a aprovar uma regulamentação para concluir a compra da Brasil Telecom pela Oi. Sem um diretor, a votação ficou empatada e o impasse durou meses. O consenso, após pressões, chegou na quinta-feira, mas o órgão continua com o quadro incompleto.

A falta de quórum também afeta a Agência Nacional de Petróleo (ANP) e a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT). Desde fevereiro, a ANTT trabalha com dois diretores e um diretor-geral interino. O cargo deverá ser ocupado por Bernardo Figueiredo, assessor da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Essa proximidade, porém, não agrada ao setor, que vê na iniciativa uma forma de aniquilar a independência dos reguladores. "Trata-se de outro tipo de captura das agências, da mesma forma como o contingenciamento", diz o presidente da Associação Brasileira das Agências Reguladoras, Wanderlino Teixeira de Carvalho.

Segundo ele, ao contrário da Anac, onde a intervenção foi explícita, nos demais casos, o enfraquecimento das autarquias ocorre de forma indireta. Sem recursos, diz ele, as agências ficam sem capacidade para fiscalizar os serviços e regulamentar os setores. Esse é um ponto crucial na atração de investimento em qualquer país, afirmam especialistas.

"De fato, se não há autonomia orçamentária, a agência corre o risco de ter de negociar recursos com o Executivo e se deparar com um ministro mais afoito. Essa é uma preocupação legítima", afirma o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, que diz ter 100% de autonomia no órgão. Ele conta, porém, que alguns parlamentares fazem ameaças na tentativa de influenciar decisões. "Mas são casos patológicos", diz, sem dar detalhes.

Outro problema é a indicação de políticos para cargos que deveriam ser exercidos por técnicos, diz Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. "Na ANP, a indicação do ex-deputado Haroldo Lima deixou o órgão desprotegido. Hoje a Petrobrás tem mais influência na regulação do setor que a ANP." A agência já nasceu sob influência política. O primeiro diretor foi o então genro do presidente Fernando Henrique Cardoso, David Zylbersztajn.
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Regular as agências
Editorial da Folha de São Paulo

Envolvimento da Anac e da Anatel em negócios "estratégicos" põe em xeque autonomia que é essencial para o modelo

O modelo de agências reguladoras para arbitrar entre interesses dos consumidores e das empresas na operação de serviços públicos, um legado das privatizações dos anos 1990, representa um avanço institucional. Poucos contestam o mérito de um sistema em que instituições públicas autônomas zelem pela concorrência e pelas regras de atuação em setores com alta concentração de capital.

Já a atuação real das dez agências nacionais é outra história. A existência da Aneel (energia elétrica), a primeira a ser criada (1996), não impediu o apagão de 2001. A transformação do Departamento de Aviação Civil em Anac, a última (2005), tampouco evitou o apagão aéreo de 2006-2007. Ao contrário, há evidências de que esta debacle decorreu da inapetência da Anac para arrostar desmandos e impor ordem num sistema desarranjado por duas tragédias seguidas.

O depoimento da ex-diretora Denise Abreu na Comissão de Infra-Estrutura do Senado sobre o caso Varig demonstra com clareza que ocorreu a temida "captura" da autoridade reguladora por interesses privados -exatamente o que uma agência deveria prevenir. Pior, essa ingerência se mistura a pressões do Poder Executivo, com o agravante de um dos interessados no negócio obscuro ser compadre do presidente da República.

É inegável que as agências foram importantes na modernização de setores inteiros, como a ANP (petróleo) no desmonte parcial do monopólio da Petrobras. Também se reconhecia o profissionalismo da Anatel (telecomunicações) na gestão do período pós-privatização. Mas até ela parece estar em risco com a obsessão do governo Lula em promover negócios dados como estratégicos, a exemplo da compra da Brasil Telecom pela Oi.

O impasse entre seus quatro conselheiros sobre a transação só foi superado após o Planalto ameaçar com a indicação de um conselheiro substituto. A mudança dos votos de conselheiros que antes faziam restrições demonstra que a autonomia da agência foi atropelada. Ganha vulto, com tais episódios, o receio de que as agências caminhem para se tornar verdadeiros balcões de negócios.

É preciso rever o modelo das agências. Não para retirar-lhes atribuições, como pretendia o projeto de lei 3.337 alinhavado pelo então ministro José Dirceu em 2004, mas sim para salvar o que lhes resta de independência.

Urge aperfeiçoar o processo de escolha dos dirigentes, hoje prerrogativa do presidente da República que resulta de modo invariável em indicações políticas. Se o Senado descumpre sua obrigação de sabatinar indicados para avaliar sua competência técnica, devem-se introduzir exigências formais, como a comprovação de experiência prévia no setor, ou mesmo cogitar o recurso a comitês de busca para circunscrever a arbitrariedade presidencial.

A pretexto de elevar o controle público, o Planalto atua para mudar de fato e de direito o balanço de poder entre agências e Executivo. O interesse da sociedade, porém, vai na direção oposta.

A ideologia que virou insulto

Diogo Schelp, Revista VEJA

O fascismo é passado, mas muitos de seus elementos sobrevivem em governos populistas

O insulto preferido do presidente venezuelano Hugo Chávez contra aqueles que o criticam é "fascista". A expressão já lhe serviu para classificar o ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar, a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente americano George W. Bush, os estudantes venezuelanos e até a oposição ao seu colega e títere boliviano Evo Morales. Mais de sessenta anos depois de a ideologia de Adolf Hitler e Benito Mussolini ter sido aniquilada, o fascismo é pouco mais do que um insulto. Foi um fenômeno político específico do período entre as duas guerras mundiais, e não se encontram, hoje, as condições necessárias para o seu ressurgimento. Essa tese é defendida pelo sociólogo inglês Michael Mann, da Universidade da Califórnia, cujo livro Fascistas (editora Record; 560 páginas; 66 reais) foi lançado no mês passado no Brasil. É dele, também, a ressalva: o fundamentalismo islâmico e alguns regimes autoritários da atualidade reúnem uma quantidade perigosa de características fascistas. Mann avalia que entre os que mais acumulam esses elementos está Hugo Chávez – justamente o governante que tanto gosta de chamar os outros de "fascista".

A repulsa ao fascismo – a ponto de a expressão ter se convertido em insulto – decorre sobretudo do conhecimento que se tem dos crimes cometidos pelos regimes que seguiam essa ideologia. O assassinato de 6 milhões de judeus pelos nazistas, por exemplo. Mann acredita que a ascensão ao poder de grupos autoritários na Alemanha, Itália, Áustria, Hungria, Romênia e Espanha após a I Guerra se deve bastante a circunstâncias internas específicas de cada um desses países. A maioria deles tinha passado pela experiência recente de uma guerra devastadora e, em todos eles, existia um movimento político organizado com plataforma autoritária. Esses são alguns dos fatores essenciais para a ascensão fascista, segundo o autor. Outras cinco características são compartilhadas por todas as vertentes do fascismo. Os itens que permitem alinhar os governantes atuais em relação ao fascismo são: o nacionalismo, o estatismo, a pretensão de transcender à luta de classes, o expurgo de parte da sociedade e a criação de grupos paramilitares.

Rolls Press/Popperfoto/Getty Images

Hitler em parada militar, em 1933:
o regime escolheu um grupo social para exterminar


A ambição de transcender ao conceito de luta de classes é fundamental na definição do fascismo, segundo Mann. Hitler e Mussolini viam suas nações como um todo único e indivisível, no qual não havia espaço sequer para separar a população em operários e patrões. "Por esse motivo, apesar de a esquerda identificar o fascismo como sendo de direita, trata-se de uma ideologia que não pode ser classificada em nenhum dos dois espectros políticos", disse a VEJA Michael Mann. O que existe são fatores comuns tanto ao fascismo quanto ao comunismo: ambos resultam em regimes autoritários sustentados pela mobilização das massas.

Mann acredita que não há motivos para temer os grupelhos que, principalmente na Europa, reivindicam o legado nazi-fascista. Os saudosistas pouco preservam da ideologia original. Em geral, eles têm como única plataforma política a xenofobia, sentimento de reduzido apelo popular. Na visão de Mann, os movimentos ou regimes que hoje mais se parecem com o fascismo do passado encaixam-se no que ele chama de etnonacionalismo. São grupos com matizes socialistas e pretensões de "resistência ao imperialismo" que existem, em diferentes estágios, na Rússia, em países da América Latina (Venezuela e Bolívia são os exemplos mais visíveis) e no fundamentalismo islâmico. Sim, a expressão "islamofascista" utilizada por George W. Bush é bastante adequada. O credo representado por Osama bin Laden tem contornos especiais no universo do radicalismo político. Não pode ser considerado verdadeiramente nacionalista, já que despreza a divisão política do mundo muçulmano em estados soberanos. A semelhança com o fascismo está principalmente na valorização de um grupo social por inteiro, sem divisões de classe, que é a comunidade islâmica, em detrimento dos demais.

Integralistas brasileiros prestam juramento, em 1935:
inspiração fascista em clima tropical

Bin Laden é a recriação perfeita de uma característica demagógica típica do fascismo, mas também encontrada nos regimes comunistas ou simplesmente populistas: a decisão de que um grupo é o inimigo do povo e da nação verdadeira e de que é preciso se livrar desse inimigo. Uma visão otimista – se é que se pode ser otimista em um mundo em que Chávez e Osama bin Laden encontram tantos partidários – é que hoje a comunidade internacional dificilmente toleraria a repetição de genocídios da magnitude daquele cometido pelos nazistas. No entanto, o dano que esses "quase fascistas" podem causar a seu próprio povo ou aos estrangeiros escolhidos para representar o papel de "inimigos" é enorme.



Fotos Reuters, Jorge Silva, Ebehrouz Mehri/AFP

Os aerocratas do governo fabricam lorotas

Elio Gaspari, Folha de São Paulo

Como disse Nelson Jobim a respeito de Denise Abreu, "o nível de confiabilidade" dessa gente "é abaixo de zero"

A farra da VARIG mostrou que acreditar no governo é coisa muito perigosa. O consórcio que comprou a VarigLog era uma associação de "laranjas" e contratos de gaveta. O falatório de recuperação da empresa era uma piedosa lorota. Quem acreditou fez papel de bobo.

Pena, pois os cidadãos preferem confiar no governo, até porque eles não o sustentam para serem empulhados. Um exemplo adicional, ocorrido já no mandarinato do ministro Nelson Jobim e da poderosa doutora Solange Vieira na Anac: em dezembro do ano passado, Jobim convocou a imprensa e anunciou um plano de compensação para a patuléia que sofre com os atrasos das empresas aéreas. Ele mostrou uma tabela progressiva, com multas que iriam de 5% a 50% do valor da passagem. Tomando-se um vôo do Rio a Brasília com tarifa de R$ 650, isso significaria um bônus de R$ 32,50 a R$ 325.

Seria criado também um ressarcimento para as vítimas de overbookings. Faltavam detalhes, mas prometia-se que o refresco viria depois das festas de Natal.

Até hoje, nada. A patuléia pode ser boba a ponto de acreditar no que lhe prometem, mas não tão idiota para pensar que uma iniciativa dessas empaca por pura inépcia ou vagabundagem. Como no caso da Varig, o buraco é mais em cima. É lá que a aerocracia procura impor seus interesses ao governo. O cartel luta bravamente para impedir que a choldra brasileira receba compensações semelhantes às que são dadas aos passageiros pelas companhias européias e americanas. Como disse o ministro Jobim a respeito de Denise Abreu, ex-diretora da Anac, "o nível de confiabilidade" dessa gente "é abaixo de zero".

"BLACKWATER" expõe a privataria da guerra
Está chegando às livrarias "Blackwater - A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo", do jornalista americano Jeremy Scahill. É um retrato da maquinação de empreiteiras que estão privatizando as Forças Armadas e um pedaço da política externa dos Estados Unidos. É uma novidade que deixa para trás o famoso "complexo militar-industrial" denunciado pelo presidente Eisenhower em 1961.

A Blackwater, a quem a Embraer vendeu um Super Tucano de US$ 4,5 milhões, é a maior empreiteira de segurança do mundo. Esse novo negócio emprega 100 mil funcionários de diversas companhias no Iraque. Praticamente um miliciano para cada soldado fardado. Exércitos terceirizados já acabaram com uma revolta em Serra Leoa e com a guerra civil de Angola.

O banco de dados da Blackwater tem um cadastro de 21 mil soldados e policiais de elite. Entre eles, os veteranos chilenos dos porões de Pinochet. Uma tropa de 2.300 homens está espalhada por nove países. Um miliciano de primeira classe da Blackwater recebe 600 dólares por dia. É uma quantia parecida com os US$ 180 mil que recebe anualmente o general David Petraeus, que comanda a ocupação americana.

Os contratos da empresa já ultrapassaram a cifra do bilhão de dólares (metade sem licitação). Em alguns países, os funcionários da Blackwater estão acima das leis locais. A empresa pertence ao bilionário Erik Prince, uma mistura de James Bond, Rambo, pastor da direita cristã e generoso financiador do Partido Republicano.

Quem atravessar o volume de "Blackwater" pode ficar com uma pergunta capciosa na cabeça: o que aconteceria na América do Sul se o governo da Colômbia decidisse contratar uma dessas empreiteiras e se metesse numa confusão com a Venezuela ou com o Equador? Ou se os separatistas de Santa Cruz de la Sierra alugassem uma milícia de Erik Prince? Fantasia? A base americana no porto equatoriano de Manta tem agentes privatizados que já andaram recrutando nativos para o Iraque. Pode-se suspeitar que pilotos brasileiros tenham sido contratados para serviços externos.

Gore e a Amazônia
Se Barack Obama escolher Al Gore para fechar sua chapa, é certo que reaparecerá uma frase que ele teria dito em 1989: "Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles. Ela pertence a todos nós". Tudo indica que isso aconteceu durante (ou logo depois) de uma viagem do senador à Amazônia. Ela já foi citada centenas de vezes e, recentemente, saiu num artigo do "New York Times".

O respeitado ambientalista Tom Lovejoy, que acompanhou Gore na visita à floresta, sustenta que a frase não é dele, mas de um deputado. Pode ser.Se Gore desmentir e o nome do deputado aparecer, a frase deve ser retirada do seu banco de dados (ou do dossiê).

Não há garantia de que Gore se livre da frase. Afinal, ainda há gente repetindo que o presidente francês Charles De Gaulle disse que "o Brasil não é um país sério". O general nunca disse isso.

Chamem o ladrão
Incrível partido o DEM, ex-PFL, presidido pelo deputado Rodrigo Maia, filho do prefeito do Rio, Cesar Maia.

No Rio Grande do Sul, o DEM quer expulsar o vice-governador Paulo Feijó porque gravou uma conversa esquisita de Cézar Busatto, ex-chefe da Casa Civil da governadora Yeda Crusius. Uma coisa é certa: o ataque à Bolsa da Viúva não partia de quem gravava.

No Rio de Janeiro, dois bandidos acusam o deputado estadual Natalino Guimarães de ter sido o mandante de um atentado a bomba contra uma delegacia. Até agora o DEM não disse uma só palavra em sua defesa, nem contra. Jerominho, irmão de Natalino, é vereador pelo PMDB e está na cadeia.

Barbosa fica
O ministro Joaquim Barbosa esclarece e retifica: não lhe passa pela cabeça sair do Supremo Tribunal Federal antes de 2024, quando completará 70 anos. Ele sofre de complicações na coluna e está na batalha, submetendo-se a tratamento médico e fisioterápico. O padecimento de Barbosa colocou-o ao lado do juiz William Rehnquist (1924-2005), que padeceu por mais de dez anos, recuperou-se, e presidiu a Corte Suprema dos Estados Unidos até sua morte, levado por um agressivo câncer de tireóide.

Qualquer paralelo adicional com Rehnquist, pai da virada conservadora da Corte americana, provoca dores adicionais na coluna de Barbosa.

Escolta do MEC
Ou o ministro Fernando Haddad se benze, ou o aparelho do seu PT leva a macumba da moral-companheira para dentro do MEC. Em abril, o reitor Ulysses Fagundes Neto, da Universidade Federal de São Paulo, foi à Controladoria Geral da União para explicar despesas impertinentes que fizera com o cartão corporativo da Viúva. À saída, ele proclamou: "Eu recebi total apoio do Ministério da Educação". Podia ser bravata, mas o magnífico chegou à CGU escoltado pelo secretário-executivo do MEC, José Henrique Paim e pelo secretário de Ensino Superior, Ronaldo Mota. Direito deles. Agora sabe-se que, além dos cartões do reitor, a Unifesp estava espetada no Tribunal de Contas e na CGU com 94 irregularidades e impropriedades cometidas entre 2005 e 2007 durante o plantão do doutor Ulysses. Coisa de R$ 178 milhões. Resta saber se os solidários Paim e Mota sabiam disso. Se não sabiam, foram ineptos. Se sabiam, foram aptos.

Governo aprovou venda de avião da Embraer para Blackwater, diz Jobim

BBC Brasil

Jobim defendeu política industrial de defesa para o Brasil

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que o governo aprovou a venda de um avião Supertucano da Embraer para a empresa americana Blackwater Worldwide, que presta serviços ao Exército dos EUA no Iraque, em 2006.

"Essa questão da venda da Embraer foi aprovada em 2006", afirmou o ministro, em resposta a uma pergunta da BBC Brasil sobre se negócios como o da Blackwater fariam parte da política de defesa que ele defende.

"A questão é o Brasil precisa de uma política industrial de defesa? Precisa. Então vamos fazer."

O Supertucano foi vendido por US$ 4,5 milhões em dezembro de 2006 e entregue há três meses, em 25 de fevereiro, segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, o Ministério da Defesa afirma que autorizou a venda "após análise prévia do Ministério das Relações Exteriores".

"A aeronave foi vendida com a condição de não portar armas nem munição e de destinar-se a demonstração e treinamento de pilotos em território americano, em suporte ao governo dos Estados Unidos – e de não lançar explosivos durante o uso", acrescenta o comunicado.

Polêmica
A transação foi cercada de muita polêmica porque a Blackwater é acusada de violações contra civis na guerra do Iraque, conflito em que Brasil sempre se mostrou desfavorável.

Críticos questionam se a venda não fere o princípio da não-intervenção historicamente defendido pela diplomacia brasileira.

Nenhum integrante do governo havia se pronunciado sobre o negócio. Até então, só a Embraer havia se manifestado.

De acordo com a assessoria de comunicação da empresa, o avião foi vendido à EP Aviation, subsidiária da Blackwater, para ser usado em treinamento nos Estados Unidos, não em combate no Iraque.

Jobim participou na quinta-feira do Congresso da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), onde assinou com o presidente da entidade, Paulo Skaf, um acordo para a criação do Fórum Nacional de Defesa, instância de discussões de incentivos a uma "política industrial de defesa".

Fórum Nacional de Defesa
Segundo informações do Ministério da Defesa, o fórum tem como objetivo discutir formas de incentivar a indústria brasileira de defesa.

Por meio de nota, o ministério cita incentivos de R$ 1,4 bilhão e o esperado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Defesa, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá anunciar no dia 7 de setembro, como estímulos para uma política industrial da defesa.

Numa mesa-redonda sobre política industrial, Jobim disse que desde o fim regime militar, os governos civis deixaram de discutir uma política de defesa e é preciso definir que tipo de tarefas as Forças Armadas devem desempenhar no país.

Para Jobim, é preciso agora "otimizar a base industrial da defesa para fins civis e militares".

Para cada tarefa, disse, há uma estratégia e uma necessidade de equipamentos específicos. No caso da Amazônia, ele disse que é preciso tanto monitoramento aéreo como presença em terra.

O ministro também defendeu a definição de um regime jurídico para permitir a atuação do Exército em conflitos urbanos se for decidido que é isso que o país precisa.

"Há vários governadores e setores da sociedade que querem o Exército nas ruas", disse Jobim.

Encantar e iludir

Tostão, Folha de São Paulo

Com a globalização, o futebol brasileiro caminha para a sua descaracterização, a perda de fantasia, encanto e mistério

Uma deficiência da seleção brasileira é a falta de grandes talentos no meio-de-campo. Há bons jogadores. Falta um organizador que joga com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, que possui ótimo passe e que raramente perde a bola.

Mesmo com Kaká, continua essa deficiência. Ele é um meia-atacante, mais atacante que armador. Diego é mais armador, mas atua também perto dos dois atacantes.

Melhor que Diego é Alex. Ele não se firmou na seleção porque não teve a chance de jogar muitas partidas seguidas e durante todo o jogo, já que atua nas posições de Kaká e Ronaldinho. O mesmo aconteceu com Ademir da Guia e Dirceu Lopes, na época de Gérson e Rivellino, e com o então jovem Dodô, quando jogava no mesmo período de Ronaldo e Romário.

Na tentativa de preencher essa falta, seria bem-vinda a escalação de Anderson. Ele é uma esperança. Com ele e Diego, não seriam dois meias ofensivos, como Kaká e Ronaldinho. Anderson jogaria de volante, como faz no Manchester, marcando no próprio campo para depois avançar. Ele tem velocidade e habilidade para isso.

Melhor ainda é ter uma equipe com três volantes, mas com dois que marcam e que chegam bem ao ataque. Hernanes é outra esperança. Ele, Anderson, Lucas, Ramires e Charles podem evoluir bastante até a Copa de 2010.As pessoas mais pragmáticas e utilitárias dirão que o Brasil não tem tantos craques e que só vai ganhar do Paraguai, em Assunção, da Argentina, como fez nos dois últimos jogos, e das melhores seleções da Europa, se marcar mais atrás e com mais jogadores para depois contra-atacar, como tem ocorrido na Eurocopa.

Mesmo se essa fosse a maneira mais eficiente de vencer a maioria das partidas, haveria uma descaracterização do futebol brasileiro, na perda da identidade, da fantasia, do encanto e da capacidade de iludir, de deixar após um jogo a sensação de mistério, de algo que não se explica.

O futebol está cada dia mais previsível e parecido em todo o mundo e cada vez mais pessoas se contentam com qualquer jogo mediano ou medíocre.

Passes e dribles
O estilo predominante na Eurocopa, como foi no Mundial de 2006, é privilegiar o passe tecnicamente correto, linear, sem riscos, com a parte interna do pé (de chapa), na tentativa de manter a posse de bola.

Raramente se vê o passe de curva, de rosca, de trivela, com a bola contornando o corpo do adversário para chegar ao companheiro logo atrás. É um recurso técnico, bonito e eficiente; ou o passe, surpreendente, vertical, com a bola passando em pequeníssimos espaços entre os defensores, para chegar ao colega na cara do gol.

O drible lúdico e desconcertante é também cada dia mais raro. Não falo do drible tradicional, quando um jogador toca na bola para pegá-la na frente.Refiro-me ao drible de corpo, às vezes sem tocar na bola (finta), em pequenos espaços e com a bola colada nos pés, como faz Robinho. O marcador pensa que a bola é dele, e não é. Esse é um dos maiores encantos do futebol.