terça-feira, junho 02, 2020

Bolsonaro, pare de latir!

Comentando a Noticia


Sinceramente? Enchi o saco desta histeria e destempero de Jair Bolsonaro. Com o Brasil que se tem, o que menos precisamos é de um governante desequilibrado, bradando feito rebelde infantil contra as instituições, e tentando afrontar, no berro e na bravata,  o regime legal, tentando ser o reizinho de merda que não se submete à Constituição ou as regras do estado de direito.

Onde está escrito que liberdade de expressão é salvo conduto para difamação, calúnia e notícias falsas via internet com o propósito de subverter a ordem pública? 

Não pense este presidente incompetente e irresponsável que sua costura para um golpe de estado será apoiado pelas Forças Armadas. Não é por entupir de militares o seu governo que Exército, Marinha e Aeronáutica lhe darão guarida para atropelar  as leis e provocar uma ruptura institucional. Não vai ter vez. 

O incrível é que o presidente quer que valha para ele o que ele não admite para os outros. Cobra que se respeite a liberdade de expressão para os seus militantes, mas se coloca contra qualquer crítica que a imprensa lhe faça.  Cobra respeito aos poderes e sua independência, mas agride a autoridade do Judiciário ao fazer cumprir as leis e faz beicinho quando o Congresso desaprova algum de seus projetos e medidas. 

O que esta rede de terroristas urbanos fazem e fizeram não foi “liberdade  de expressão” coisíssima nenhuma. É ilegal, está escrito que atentar contra a democracia, contra o estado de direito, insurgir-se diante de ordem judicial, requerer a volta do AI-5, pedir intervenção militar, exigir o fechamento do Congresso e do STF é crime, e como tal devem ser tratados. Mais: espalhar maciça informações falsas para gerar terrorismo e instabilidade, ou criar falsos perfis de seus adversários políticos ou meros discordantes de opinião, caluniar estes mesmos adversários, tudo isso está previsto no Código Penal e classificados como ação criminosa. E quando tais ações são protagonizadas em grupos, estamos diante sim de uma organização criminosa. 

Num dia, este cachorro louco e histérico parabeniza a Polícia Federal pela operação contra o governador Witzel, do Rio de Janeiro. Noutro, quando esta mesma Polícia Federal cumpre operação para desbaratar a quadrilha de terroristas urbanos alimentados pelo discurso de ódio de Bolsonaro, aí ele berra que é “crime”, que agora “basta”,  numa marcante contradição a caracterizar os dois pesos e duas medidas com que ele enxerga o comportamento da própria PFF. 

Na verdade, esta operação contra as tais “fake news”, preocupa Bolsonaro pelo fato de que ela é capitaneada e comandada pelo chamado “gabinete de ódio” onde atuam ativamente seus dois filhos, Carlos e Eduardo.  Quando quis interferir no comando da Polícia Federal e superintendência do Rio, sua preocupação era ocultar os crimes do outro filho, Flávio.

Não pensem que este esperneio todo do presidente é para defender o interesse público. Ali, o que vinga é o interesse familiar, o país que se dane.

Ou não é justamente isto que vemos ao longo desta pandemia que já matou mais de 25 mil brasileiros? Qual foi o dia (ou noite)  que este desequilibrado ocupou cadeia de rádio e televisão para levar uma palavra de solidariedade às famílias das vítimas e encorajamento aquelas que tem entes queridos penando em hospitais? Ou qual foi a vez que este estúpido chamou para si o comando no combate à pandemia? Pelo contrário: sabotou o quanto pode as ações restritiva, quis obrigar o Ministério da Saúde a ministrar um medicamento sem eficácia e já abandonado pela Organização Mundial da Saúde. Ou ainda, quando a China rasgava contratos de compras de insumos e equipamentos, deixando de entregar compras acertadas e pagas, quando foi que ele pegou o telefone ou ordenou seu ministro de relações exteriores que mantivesse contato com autoridades chinesas? 

Desde o começo, abandonou sua responsabilidade, brigando com prefeitos e governadores por estes se preocuparam em salvar vidas e assistir aos doentes infectados. E quanto ao colapso da saúde pública? Bolsonaro sequer levanta um dedo para abastecer o que não falta em vagas ou equipamentos e insumos para o atendimento. É como se ele vivesse num país sem pandemia.  Já convivemos com a pandemia a três longos e penosos meses, e o governo ainda desenha plano de socorro para empresas e pessoas. Os que já lançou, não atendem nem as necessidades tampouco as características dos agentes econômico brasileiros. 

Nas últimas semanas Bolsonaro vem insistindo na reabertura da economia, muito embora este blog já mostrou que são muitos os setores desta economia que não pararam. Contudo, cadê um plano de ação para que esta abertura se faça com critérios técnicos com o objetivo de evitar uma segunda onda? Simplesmente, o presidente quer uma abertura radical, a moda diabo, sem observância até do que países que flexibilizam, na Europa, as regras de isolamento, estão adotando. E mesmo assim, conforme também já noticiamos, muitos destes países tiveram de retornar ao isolamento pelo retorno da infestação.

O fato de Bolsonaro contar com que aquela meia dúzia de gatos pingados que se concentram no chiqueirinho montado na saída do Palácio Alvorada, não significa droga nenhuma. Eles até são povo, mas não representam o povo brasileiro, que sofre nas portas dos hospitais em busca de vaga para atendimento, ou aqueles que sequer podem se despedir humanamente de seus entes queridos falecidos ou, também por aqueles milhares de brasileiros que sofrem em intermináveis para receberem na Caixa a esmola do tal auxílio emergencial que, são 10 milhões ainda não há luz no final do túnel. Qual atitude de Bolsonaro, ou mesmo sentimento de indignação contra os mais de 160 mil vigaristas de fraudaram o sistema e, sem se enquadrarem nas regras, pegaram um dinheiro que não tinham direito.

Ah, mas o reizinho de merda acha que por ser presidente, ele pode mandar em tudo, sem limites, sem se submeter às leis e à Constituição que, ao assumir ele jurou cumprir. 

E por falar em cumprir, custo a crer que Bolsonaro tenha algum dia sido militar. Ao afirmar que ordens absurdas não devem ser cumpridas esqueceu-se do que reza o manual do bom soldado. Na vida militar, não interessa se você concorda ou não com a ordem de um superior. Cumpra e não discuta.. Aliás, parece que Bolsonaro foi mandado embora justamente por não querer se submeter. Agora, repete o mesmo papel patético de anos atrás.

As palavras odiosas e as atitudes destrambelhadas do presidente parece indicar que ele vive num outro país que não o Brasil, num país sem pandemias, sem desigualdades, sem carências de serviços.

O certo, é que todo este berreiro histérico, desequilibrado, destemperado, que não cabe numa figura pública quanto mais quando esta figura é o Presidente da República, não passa de bravata de um tresloucado. Não há espaço, não instituição no país que permite que se pense ou se cogite em algum tipo de golpe institucional, do tipo proclamado por um imbecil tipo Eduardo Bolsonaro. Tem quando seu vigarista político. A não ser o rebanho ou manada de ignorantes e analfabetos de prostituto políticos que cercam você e sua família, não se espere um levante popular para derrubar nossa democracia, que vocês tanto desprezam e desrespeitam. Não pode falar em patriotismo grupelhos que promovem manifestações nas ruas exibindo bandeiras de Israel e dos Estados Unidos. Eis aí mais um quadro da ignorância destes famintos de ditadura.   

Democracia exige limites, seja para qualquer cidadão, inclua-se o Presidente da República, que deve atuar pelo exemplo, coisa que ele trata com total descaso.. . 

Você quer ditadura, Bolsonaro? Você quer totalitarismo, Bolsonaro? Você quer subverter a ordem pública, rasgar a Constituição, romper a institucionalidade? Desculpe, não vai  dar, não vai passar, não vai vingar. Mais fácil é o Brasil mandar você prá casa, se livrar da tua estupidez, do teu descontrole,, do teu comportamento distante do decoro que lustram e ilustram a instituição da presidência. Você, Bolsonaro, não passa de um cachorro louco, latindo desesperado por um pedaço de osso. Você, Jair Messias Bolsonaro, ainda é presidente, sim, mas não tem todo o poder que imagina ter, muito o apoio popular que você ambiciona ter. Quer entrar para história? Pare de latir. 

Eles também apoiaram a ditadura – 

No Painel  da Folha, vem a informação de que a maioria dos empresários apoiam Bolsonaro. Isto não surpreende. Também na ditadura, os generais presidentes foram amplamente apoiados pela classe empresarial. 


É a sociedade quem dá seu grito de “Basta” – 

É ótimo saber que movimentos da sociedade, em vários estados, começam a se opor as manifestações, discursos e ameaças de ruptura institucional. Significa dizer que o “povo” que apoia Bolsonaro não passa de algumas poucas dezenas de imbecis, fascistas por excelência a exemplo do “mito”, que sequer viveram a ditadura militar Quando nasceram, o Brasil já tinha se tornado democrático. Ficou difícil a tentativa de golpe. É bom esta gente aprender uma coisa: em ditadura militar, eles não teriam a liberdade de ir às ruas pedir o fechamento do Congresso, do STF, bater na imprensa. Eles simplesmente não teriam a liberdade de se manifestar. Chega a ser triste a ignorância desta turma.

O Supremo reage ao arreganho

Editorial
O Estado de S.Paulo

Corte está disposta a demonstrar serenamente que não se intimida com arreganhos liberticidas do bolsonarismo

Contando com a conivência (quando não com o estímulo) do presidente Jair Bolsonaro, seus camisas pardas travestidos de patriotas têm proferido sistemáticos ataques aos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) porque aquela Corte ousa impedir o arbítrio bolsonarista. Sem serem advertidos por seu líder de que tal comportamento não condiz com a vida numa sociedade democrática, esses celerados defendem o fechamento do Supremo em manifestações das quais participa o próprio presidente. Não bastasse isso, ministros de Estado ansiosos por se provarem mais bolsonaristas que Bolsonaro expressam sua hostilidade ao Supremo, seja desejando ver seus ministros presos, seja advertindo do risco de ruptura institucional caso a Corte continue a fazer seu trabalho de impor limites ao presidente conforme a Constituição.

Mas o Supremo está disposto a demonstrar serenamente que não se intimida com os arreganhos liberticidas do bolsonarismo radical. “Sem Poder Judiciário, não há o império da lei. O País tem nos ministros do STF a garantia de que a Constituição da República continuará a ser observada, e a democracia, assegurada”, disse a ministra Cármen Lúcia, que lembrou que, num Estado Democrático de Direito, ninguém está acima da lei, cuja aplicação é tarefa dos juízes: “Eventuais agressões a juízes desta Corte não enfraquecem o Direito. O Brasil tem direito à democracia e à Justiça. O Supremo nunca lhe faltou e não lhe faltará”.

Na mesma linha, o ministro Celso de Mello, decano do Supremo e que tem sido o mais recente alvo das agressões bolsonaristas, foi enfático: “Sem um Poder Judiciário independente, que repele injunções marginais e ofensivas ao postulado da separação de Poderes emanadas de mentes autoritárias que buscam ilegitimamente controlar o exercício da jurisdição, jamais haverá cidadãos livres nem regime político fiel aos princípios e valores que consagram o primado da democracia”.

Os ministros Edson Fachin e Gilmar Mendes se declararam representados pelas palavras de Cármen Lúcia, e o ministro Ricardo Lewandowski acrescentou que o Judiciário “não se curva a nenhuma pressão externa”. Já o ministro Luís Roberto Barroso, ao tomar posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, disse que, “como qualquer instituição em uma democracia, o Supremo está sujeito à crítica pública e deve estar aberto ao sentimento da sociedade”, mas é preciso lembrar que “o ataque destrutivo às instituições, a pretexto de salvá-las, depurá-las ou expurgá-las, já nos trouxe duas longas ditaduras na República”, que “são feridas profundas na nossa história, que ninguém há de querer reabrir”.

O Supremo, assim, dá uma resposta serena, porém firme, aos inconformados com a redemocratização do Brasil depois de duas décadas de ditadura. Democracia, malgrado seja o regime baseado na mais plena liberdade, não confere direitos ilimitados a ninguém, nem ao presidente da República nem a seus exaltados devotos – ao contrário, todos e cada um, a começar pelo chefe do Executivo, devem responder pelos seus atos, na exata medida da lei.

Foi por esse motivo, aliás, que o Supremo, em março do ano passado, instaurou inquérito para apurar as ameaças e denunciações caluniosas dirigidas por bolsonaristas à Corte em redes sociais, além da fabricação de notícias fraudulentas, conhecidas como fake news, para confundir a opinião pública acerca do trabalho dos magistrados. Em qualquer dos casos, seja ao ameaçar ministros do STF e seus familiares, seja ao disseminar mentiras sobre a Corte, os bolsonaristas atentam contra o Poder Judiciário, com a óbvia intenção de enfraquecer a democracia.

Por ora, esse inquérito resultou em mandados de busca e apreensão, cumpridos ontem, contra bolsonaristas que criam e impulsionam fake news em redes sociais. Segundo o relator do inquérito, ministro Alexandre de Moraes, as provas obtidas até agora “apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa” dedicada a atacar instituições da República “com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”. Se é assim, que sobre eles recaia todo o peso da lei – pois é assim que a democracia funciona.

O Brasil em perigo

Editorial
El País

País se encaminha para o pico da pandemia em um contexto político que acarreta graves riscos

  JOÉDSON ALVES / EFE
O presidente Jair Bolsonaro acena para simpatizantes no último domingo, em Brasília.

Com a América Latina transformada num novo epicentro do coronavírus, o Brasil é o país mais preocupante. Os quase 375.000 contágios e mais de 23.000 mortos fazem dele o mais afetado da região e o segundo do mundo em número de casos. Mas a isso se somam uma gestão errática da pandemia e uma grave crise político-institucional, com flertes ao golpismo, o que, além de gravíssimo, desvia a atenção num momento em que o combate ao coronavírus deveria ser a prioridade de toda a classe política brasileira. O presidente Jair Bolsonaro não só age de maneira irresponsável ao ignorar a quarentena como também provocou a demissão de dois ministros da Saúde e boicota os esforços dos governadores para tentar controlar uma epidemia cuja magnitude real se desconhece, porque a quantidade de testes realizados é mínima. A maioria de governadores conseguiu deixar de lado suas diferenças políticas em nome de um consenso básico: seguir as recomendações da ciência. 

A cada dia, mais UTIs se aproximam do seu limite e mais covas são cavadas nos cemitérios, enquanto o presidente insiste em dar as costas às recomendações dos especialistas, promovendo um medicamento com potencial letal e pressionando as empresas a reabrirem. Aos olhos de Bolsonaro, a única preocupação é com os efeitos da hecatombe econômica, que frustraria uma eventual reeleição em 2022.

A oposição apresentou vários pedidos de impeachment contra ele por sua recusa em administrar a pandemia, mas seu problema mais urgente é uma investigação no STF sobre a suposta ingerência na cúpula da Polícia Federal para proteger a sua família. O vídeo de uma recente reunião ministerial mostra um presidente para quem defender seu clã e armar a população estão acima do interesse geral. As ameaças contra a separação de poderes ali lançadas por alguns ministros são inadmissíveis, e o rosário de insultos vertido pelo presidente constitui uma intolerável afronta às instituições.

Bolsonaro está obtendo apoio parlamentar em troca de cargos, para impedir uma destituição enquanto concede mais poderes aos militares em seu Governo. Estes já dirigem 10 dos 22 ministérios, incluído o da Saúde, interinamente. Mais inquietante é o apoio tácito do presidente aos discursos golpistas de seus seguidores, que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e as ameaças veladas pronunciadas por alguns de seus ministros mais próximos. Nas últimas semanas, o ministro da Defesa veio a público em três ocasiões para reafirmar o apego das Forças Armadas à Constituição. Numa democracia consolidada, isso deveria ser desnecessário. O Brasil se encaminha para o pico da pandemia em um contexto político que acarreta graves riscos.

Desigualdade e alfabetização desafiam educação na pandemia da covid-19

Clara Cerioni
Exame.com

Professores, alunos, pais e autoridades avaliam que covid-19 escancarou desigualdades e trará impactos, ainda desconhecidos, para as crianças do país

(Leonardo Fernandez Viloria/Getty Images)
Educação: 55% das redes estaduais e 60% das redes municipais não desenharam
 estratégias para garantir o acesso à conteúdos durante a quarentena 

 “Estou exausto e trabalhando facilmente cerca de 15 horas diárias. No ensino à distância não é só dar a aula. Você trabalha muito fora do seu horário; são muitas demandas novas o tempo todo”.

Essa rotina foi relatada à EXAME por um professor de gramática de uma escola particular na cidade de São Paulo, mas a sensação é compartilhada entre diferentes atores educacionais. Diante da pandemia do novo coronavírus, eles se viram obrigados a adaptar, em questão de dias, o modelo secular das escolas tradicionais.

No Brasil, o avanço da covid-19 forçou o fechamento das unidades de ensino já no início de março. A atividade foi uma das primeiras a serem suspensas, por conta da orientação das autoridades de saúde indicando a urgência do distanciamento social.

Segundo monitoramento da Unesco, agência da ONU para educação, 52 milhões de estudantes brasileiros ainda estão fora das salas de aulas. Com exceção das turmas mais infantis, a maioria, contudo, enfrenta os desafios do ensino remoto. Na avaliação de especialistas, a pandemia vai mudar para sempre o modelo educacional em todo o mundo.

Mas há motivos importantes que explicam por quê até hoje, mesmo com os avanços tecnológicos, a educação básica não migrou para o ambiente virtual. Para além da discussão sobre a qualidade das aulas presenciais, o ensino à distância tem limitações para garantir o aprendizado de crianças e jovens.

A falta de acesso universal à internet e a inexperiência de professores, alunos e pais com a educação virtual, principalmente para a fase de alfabetização, são dois dos principais desafios enfrentados.

“A escolha prioritária por plataformas digitais já tende a excluir camadas da sociedade. O que a rede privada pode fazer, o setor público não pode se dar ao luxo, mesmo com o intenso e dedicado esforço dos educadores. Essa crise escancara as desigualdades que já existem no sistema de ensino”, diz Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco.

Um levantamento do Centro de Inovação para Educação Brasileira, feito com 21 estados e 3.000 municípios, revelou que 55% das redes estaduais e 60% das redes municipais não desenharam estratégias para garantir o acesso à conteúdos durante a quarentena.

Dos que adotaram medidas, há uma diversidade na distribuição de conteúdos, que vão desde plataformas online, vídeo-aulas e redes sociais até o uso da TV aberta e emissoras de rádio, entre outras.

“Dou aula para crianças na rede municipal e adultos na Escola de Adultos e Jovens. Todos têm dificuldades, seja pelas próprias famílias que são analfabetas ou pela falta de acesso à internet. Muitos não têm celular, e outros são idosos que não sabem mexer em nada”, relata a professora Catarina Lopes, que trabalha em Jundiaí, no estado de São Paulo.

Segundo ela, o WhatsApp foi a forma mais acessível que as escolas encontraram para passar pelo menos exercícios aos estudantes. Algumas, no entanto, precisaram comprar chips até para professores. “Esse mínimo de contato não vai ser perdido, mas não será possível exigir na volta à escola um avanço como se estivessem ficado nas salas de aula”, diz.

Cauê Vitorasso, de 17 anos, estuda em uma escola estadual de tempo integral em Guarulhos. Ele se prepara para prestar medicina por meio do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, e se esforça para tentar ter o mesmo desempenho nas aulas à distância que teria nas presenciais. “É cansativo e mais complicado de entender alguns conteúdos, mesmo com o suporte do professor, pois ele não está ali do seu lado”, conta.

Em sua casa, Cauê mora com mais seis pessoas, algo que desafia diariamente a sua concentração. “Preciso de fone e tentar ficar na mesa sem me distrair”. A pandemia, relata, trouxe um desequilíbrio tanto emocional quando acadêmico, mas ele tenta não ver o ensino à distância como um inimigo. “Muita gente não tem nem isso”.


Processo de alfabetização

Apesar da desigualdade educacional, há desafios em comum que escolas públicas e particulares estão enfrentando com a suspensão forçada das aulas. Crianças em idade de alfabetização é um deles.

“É importante lembrar que pai não é professor. Professor é uma profissão complexa, que demanda uma formação especializada. Hoje, vários pais estão se desdobrando e estão angustiados, porque todo o despreparo social para lidarmos com uma pandemia está dentro de casa”, diz Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mãe solo de uma criança de sete anos e responsável por uma importante área no seu trabalho, que consome grande parte de seu dia, Aline vive essa angústia desde o início da quarentena. Seu filho, estudante de uma escola particular da cidade de São Paulo, tem tido aulas por vídeo de uma hora duas vezes por semana. Diariamente, no entanto, há tarefas que ele precisa cumprir.

“É muito pouco tempo de aula para o tanto que ele precisa fazer. Diversos assuntos eu não sei explicar e precisei pedir para que a professora me ajudasse. Me preocupo com o processo de alfabetização dele. Sou separada, dispensei a babá, tenho que cuidar da casa, acompanhar aula online, fazer a lição, cuidar do meu filho e trabalhar diariamente”, conta.

João Marcelo Borges, diretor de estratégia política do Todos pela Educação, explica que o processo de alfabetização não encontra uma resposta única, já que cada criança precisa de um tipo de atividade e estímulo direcionado para avançar nesse processo. “Requer um nível de especialização que mesmo pais com boa escolaridade não têm”, diz.

O tamanho do impacto na alfabetização das crianças no Brasil, no entanto, só poderá ser medido nos próximos anos, explica o secretário de Educação do Maranhão, Felipe Camarões. Ele, que também é professor, relata estar focado no período pós-pandemia. “Nosso maior receio hoje não é a falta de avanço na educação, mas o retrocesso da aprendizagem”.

A rede estadual está disponibilizando aulas em diversos canais, como YouTube, TV aberta, rádio, podcast, Instagram, Facebook e WhatsApp, mas segundo dados coletados pela secretaria, durante a quarentena, 35% dos alunos não estão conseguindo acompanhar os conteúdos. 

Os próximos anos pós pandemia da covid-19 serão de transformações sociais importantes, e a área de educação deve ser uma das mais impactadas pelas mudanças. Há oportunidades importantes que podem ser aproveitadas para diminuir o abismo das desigualdades educacionais, e um bom ensino à distância pode ser uma delas.



Boia furada

Jéssica Sant'Ana
Gazeta do Povo (Paraná)

O que falhou no socorro a pessoas e empresas na pandemia. E o que o governo fará para consertar

Foto: Ricardo Stuckert/Fotos Públicas
Governo enfrenta problemas para conseguir fazer o crédito
 chegar às empresas durante a pandemia da Covid-19

Apesar de o governo ter adotado diversas medidas emergenciais para ajudar pessoas e empresas durante a pandemia do novo coronavírus, algumas falharam parcialmente. É o caso da linha para financiar a folha de pagamento de pequenas e médias empresas e do crédito destinado a microempresas, que só saiu na semana passada e por iniciativa do Congresso. A lista inclui também as lacunas na análise do cadastro do auxílio emergencial, que permitiram que o benefício fosse pago a milhares de pessoas indevidamente.

As falhas no auxílio emergencial são as mais emblemáticas. O auxílio já foi pago a 59 milhões de pessoas (dado atualizado até sábado, dia 23), mas entre elas há milhares de casos de filhos maiores de idade de famílias de classe alta ou média, mulheres de empresários, servidores públicos aposentados e militares ou seus dependentes que obtiveram o benefício indevidamente. Muitas dessas pessoas agiram de má-fé, porém diversas podem ter sido vítimas de fraude.

É o que aconteceu, por exemplo, com Vinícius Bonner, filho do apresentador William Bonner. Ele teve seus dados pessoais roubados por fraudadores, que usaram as informações para receber em seu nome o auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal. O cadastro, mesmo irregular e fora dos critérios de renda para participar do programa, foi aprovado pela Dataprev e, provavelmente, os fraudadores indicaram que não tinham uma conta bancária e a Caixa Econômica Federal abriu uma conta poupança específica para fazer o depósito aos fraudadores.

Os fraudadores conseguiram o auxílio porque, além de ter roubado os dados do filho de Bonner, se aproveitaram de uma brecha no sistema do programa. Segundo relatou o jornal O Globo, a Dataprev – estatal responsável por desenvolver o sistema e validar os pedidos de auxílio – não cruzou se os CPFs, embora pertencentes a pessoas sem renda própria, eram de dependentes de cidadãos com renda. Esse cruzamento deveria ter sido feito usando a base de dados da Receita Federal, o que não ocorreu.

A estatal informou, em nota enviada à Gazeta do Povo, que os cruzamentos foram realizados com as informações disponibilizadas pela Receita Federal, "resguardado o sigilo das informações fiscais". Por outro lado, a empresa reconheceu que "casos pontuais" de falhas "são passíveis de ocorrer em uma operação dessa magnitude de processamento de dados de milhões de requerimentos em bloco".
"Isso porque as bases federais não conseguem refletir instantaneamente a situação atual das pessoas e, ainda, são geridas por diversos órgãos diferentes e foram criadas para atender finalidades distintas da presente. É uma situação de anos no Brasil e não da atual gestão, que está há 18 meses no poder", reclama a Dataprev na nota.

O próprio governo identificou, em um pente-fino feito no cadastro do programa, 160 mil fraudes. É o caso, por exemplo, de cerca de 74 mil sócios em empresas e 86 mil pessoas físicas que doaram mais de R$ 10 mil nas últimas eleições. Cruzamentos de dados feitos pelo governo também encontraram pagamentos feitos a proprietários de veículos de mais de R$ 60 mil e a pessoas que possuem domicílio fiscal no exterior, o que é vedado.

Há, ainda, 73.242 militares (ativos e inativos), pensionistas, dependentes e anistiados que receberam o auxílio emergencial, o que não poderia ter acontecido, pois eles não estão dentro do critério do programa.

Os Ministérios da Defesa e da Cidadania afirmaram que estão apurando quais casos são fruto de atos ilícitos e quais aconteceram por uma falha do sistema. No caso dos militares, por exemplo, o programa do auxílio pode ter pago automaticamente a aqueles inscritos no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico).

O plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) determinou o cancelamento dos cadastros irregulares dos militares e determinou que os Ministérios da Defesa e da Cidadania bloqueiem o pagamento das próximas parcelas e obtenham a devolução dos valores pagos irregularmente.

O Ministério da Cidadania, atendendo ao pedido do tribunal, criou um site para as pessoas devolverem os valores recebidos indevidamente 


A pasta também informou que apresentará, nos próximos dias, a relação pública de todos aqueles que receberam o auxílio emergencial para facilitar o controle social, diz que o pente-fino do governo para identificar possíveis irregularidades continua.

O TCU também fará uma auditoria completa para detectar outras fraudes e falhas no pagamento do benefício e para investigar possíveis omissões de agentes públicos na execução do programa.

Até o último sábado (23), 59 milhões de pessoas receberam pelo menos uma das três parcelas do auxílio emergencial. Segundo a Dataprev, as inconsistências identificadas, até o momento, representam menos de 1% desse universo.

Segundo a lei que instituiu o auxílio emergencial, os requerentes têm o dever legal de informar corretamente sua composição familiar, sem omissões ou utilização de dados de terceiros em cadastros públicos, sob pena de incursão no crime de falsidade ideológica e multa, conforme previsto no Código Penal brasileiro.


Financiamento da folha não saiu do papel

Além das falhas no auxílio emergencial, o governo enfrenta problemas para conseguir fazer o crédito chegar às empresas. O Tesouro e os bancos privados disponibilizaram R$ 40 bilhões em uma nova linha de crédito para pagar a folha salarial de pequenas e médias empresas por dois meses, mas em quase dois meses de programa somente 75.945 empresas contrataram R$ 1,8 bilhão em empréstimos para bancar o salário de 1.253.059 trabalhadores (dados atualizados até 20 de maio).

Os números estão bem abaixo da expectativa do Ministério da Economia e do Banco Central. O governo espera que até 1,4 milhão de pequenas e médias empresas venham a contratar os R$ 40 bilhões em empréstimo oferecidos pelo programa – chamado oficialmente de Programa Emergencial de Suporte a Empregos. A expectativa é que a medida beneficie 12,2 milhões trabalhadores, que terão seus salários garantidos por dois meses além de estabilidade durante o período.

Conforme mostrou a Gazeta do Povo, entre os motivos para o programa não ter deslanchado estão: empresas com folha de pagamento não bancarizada; exigências dos bancos que limitam a participação de empresas com restrições ou com pouco relacionamento bancário; exigência de que a empresa não demita o trabalhador; valor baixo do empréstimo que pode ser obtido, já que o programa está restrito a financiar à parcela dos salários até o valor de dois salários-mínimos; e falta de comunicação.

A equipe econômica e o relator da medida provisória que criou o programa, deputado Zé Vitor (PL-MG), estudam como fazer o crédito chegar à ponta. Entre as medidas que podem ser adotadas estão o aumento do limite de faturamento, para que empresas maiores possam participar; incluir produtores rurais entre os beneficiados pela linha de crédito; e retirar travas, como a não exigência de redução do quadro.

A MP 944/2020, que criou o programa, entrou na pauta provisória para votação no plenário da Câmara. A estimativa é que ela seja apreciada na quinta-feira (28).

Crédito a microempresas demorou

Ainda na área de crédito, o dinheiro a microempresas demorou para chegar. O governo não propôs um projeto específico para os microempreendedores e, diante da lacuna, o senador Jorginho Mello (PL-SC), presidente da Frente Parlamentar Mista da Micro e Pequena Empresa, apresentou um projeto para criar o Pronampe, uma linha de crédito especial para pequenas e microempresas pedirem empréstimos para capital de giro ou investimentos a juros baixos.

O projeto foi aprovado pelo Congresso e desde o dia 27 de abril aguardava a sanção do presidente Jair Bolsonaro para entrar em vigor. A transformação do texto em lei só aconteceu no dia 18 de maio. Bolsonaro não atendeu a um pedido da equipe econômica para aumentar a taxa de juros para até 8% e manteve a taxa proposta pelos parlamentares, que é de Selic (hoje em 3% ao ano) mais 1,25% ao ano.
Por outro lado, Bolsonaro vetou a carência de oito meses para o pagamento de empréstimo, com o argumento de que o prazo representaria "risco à própria política pública, ante a incapacidade de os bancos públicos executarem o programa com as condições apresentadas pelo projeto".


Governo admite falhas em crédito a empresas

O secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, reconheceu que os programas do governo em relação a crédito não vem funcionando. “O problema hoje é que o crédito não chega na ponta, e as nossas ações ainda não se traduziram num aumento tão grande como o aumento de demanda”, disse em videoconferência organizada pelo site Jota.

Ele também disse que a prioridade "número 1" da área econômica é fazer o crédito chegar às empresas. Na videoconferência que foi transmitida na semana passada, o secretário prometeu a edição de uma nova medida provisória para o governo aportar recursos no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) do BNDES. O fundo tem como objetivo facilitar a obtenção de crédito por micro, pequenas e médias empresas ao ser usado como garantia nas operações.

Na terça (26), Bolsonaro assinou uma MP que abre crédito extraordinário de R$ 15,9 bilhões para integralizar cotas no Fundo Garantidor de Operações (FGO), voltado especificamente ao Pronampe – a linha especial para micro e pequenas empresas criada pelo Congresso. A medida saiu no Diário Oficial da União desta quarta (27).



Crise e coronavírus: V, U ou W, os 3 cenários possíveis para a recuperação econômica após a pandemia de covid-19

Stefania Gozzer
Da BBC News Mundo


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A previsão é de que o mundo viva sua pior recessão em quase um século

A pandemia de covid-19 está gestando uma recessão que já foi batizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de "o Grande Confinamento". E parece haver um consenso de que será a maior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929. A pergunta que se fazem os economistas é: qual forma essa crise terá?

Economistas costumam recorrer ao alfabeto para explicar visualmente como preveem a recuperação de uma economia.

"É uma boa simplificação e uma maneira muito gráfica de dizer qual estilo acreditamos que terá a recessão", diz à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) José Tessada, diretor da Escola de Administração da Universidade Católica do Chile.

Algumas das letras mais comumente usadas, explica Tessada, são V, W e U.

E elas ajudam o público a visualizar o gráfico da taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) ao longo do tempo.

Há diferentes conceitos sobre o que é uma recessão. Nos EUA, o Escritório de de Pesquisas Econômicas (NBER, na sigla em inglês) fala de recessão quando há uma queda "significativa" da atividade econômica ao longo de "alguns meses" e que se reflita no PIB real, nos salários, nos empregos, na produção industrial e no comércio.

Em geral, porém, a definição predominante é de que uma economia entra em recessão quando acumula dois trimestres consecutivos de queda no PIB.

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Lentamente, alguns países - como Alemanha, acima - estão reabrindo seus comércios

Com base nisso é que está sendo feita a maior parte das previsões de como o mundo vai se recuperar do impacto do novo coronavírus e das medidas de confinamento. Vale destacar que a incerteza ante a crise é grande: o economista-chefe para América Latina do Banco Mundial, Martín Rama, disse à BBC que é bom enxergar "todas as previsões feitas neste momento com uma enorme margem de erro".

V, o cenário mais otimista

As recessões formam parte do ciclo econômico e, para algumas correntes do pensamento econômico, são inevitáveis. Dessa forma, o melhor é que, quando ocorram, tenham a forma de V.

"Recessões boas não existem, mas a V tem uma queda pronunciada e uma retomada igualmente pronunciada", explica Tessada. "A ideia é que volta-se a um nível muito similar ao inicial e que a recessão é relativamente rápida. (...) Embora possa durar um par de trimestres ou mais."

O V descreve uma redução forte do PIB, com um ápice breve e uma recuperação acelerada. As previsões mais otimistas consideram que ainda há possibilidade de que a recessão atual acabe tomando essa forma.

Tessada afirma que, nas circunstâncias atuais, todas as três possibilidades — V, U e W — "estão sobre a mesa".

"Existe a suspeita de que, se conseguir-se controlar a pandemia, poderíamos estar diante de (uma recessão) V porque poderiam-se suspender as restrições (ao comércio e circulação) e recuperar o crescimento aos níveis anteriores ou parecidos."

Paul Gruenwald, economista-chefe global da agência de classificação de riscos S&P Global Ratings, prevê que no segundo trimestre de 2020 veremos uma queda aguda como as que se dão nas recessões com forma de V.

No entanto, ele recorda que, para isso acontecer, seria necessário retomar a economia de forma ágil e abrupta, o que pode não ser o caso se a pandemia continuar avançando rapidamente em alguns países (como é o caso do Brasil atualmente).

"Digamos que as restrições ao distanciamento social sejam suspensas ou que se desenvolva uma vacina ou tratamento. Daí, voltaríamos rapidamente à rota original", diz Gruenwald à BBC News Mundo.

No entanto, os cenários mais prováveis que ele esboça em um relatório recente não são tão otimistas. O que marcará o ritmo da recuperação, em sua opinião, serão os efeitos sobre o lado da oferta a mão de obra, o capital e o crescimento da produtividade.

"Se nenhum (desses elementos) mudar, a economia regressará a sua rota original, que é um bom cenário." Não seria um V exato, mas sim alargado, diz ele.

"Mas isso não sabemos agora, é algo que vamos acompanhar no próximo ano ou dois anos."

U, o cenário mais provável

As projeções da S&P para a economia global compreendem uma queda no PIB global de 2,4% em 2020, seguida de um crescimento de 5,9% em 2021.

Algo que, para Gruenwald, faz com que a recuperação pareça mais similar a um U do que a um V.
"O que vemos agora se parece mais a um U, ou um U longo, em que recuperaríamos a maior parte do choque (recessivo), mas a uma taxa menor", prevê.

Uma recessão em forma de U, explica Tessada, é aquela em que "se entra e se sai, mas ficando (com crescimento) baixo um pouco mais de tempo, sendo custoso sair (da crise). A recuperação é difícil, mas com o tempo se sai e se volta a um nível igual ao anterior".

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Alguns preveem que a recuperação econômica provavelmente terá o formato U: 
"se entra e se sai, mas ficando (com crescimento) baixo um pouco 
mais de tempo, sendo custoso sair (da crise)"

Esse é o cenário previsto também pela diretora administrativa da agência de classificação de riscos Moody's, Elena Duggar.

"Não vamos recuperar durante a segunda metade do ano toda a produção perdida na primeira metade. Há muita atividade, por exemplo no setor de serviços, que não vai ser recuperada: toda a comida perdida nos restaurantes, as férias, os planos de viagem", explica à BBC News Mundo.

"Muito disso será atividade que o PIB perderá. Mas sim acreditamos que, uma vez que acabe o confinamento e as atividades sejam retomadas, haverá uma recuperação na segunda metade do ano."

Recentes previsões da Moody's, no final de fevereiro, estimaram uma queda global de 0,5% do PIB em 2020, seguida de uma alta de 3,2% em 2021.

"Estamos supondo que os confinamentos serão suspensos ao longo do verão (no hemisfério Norte, ou seja, nos meses de junho, julho e agosto) e que a atividade será retomada. Também supomos, e temos visto algo disso, que as respostas dos governos funcionarão: políticas fiscais e monetárias muito fortes e que terão como objetivo ajudar a recuperação", diz Duggar.

Em meio à incerteza com que são feitas essas projeções, uma coisa é dada como certa: o segundo semestre deste ano vai ser economicamente doloroso.

Paul Gruenwald, da S&P, estima que a queda deste trimestre será de 9%. Com uma redução dessa magnitude, não está claro se será possível recuperar a trajetória que a economia parecia seguir antes da pandemia. Ou seja, o mesmo nível de produção e crescimento que se esperava para 2020.

"Mais que um V ou um U, a questão é qual será a trajetória final (da economia). Voltaremos à mesma (trajetória)? E quanto tempo levaremos para chegar a ela?", questiona.

"Vamos ter uma contração muito profunda durante o segundo trimestre", explica Duggar. "Na China, ela começou no primeiro trimestre. No resto do mundo, diante da forma como o vírus avança, há um atraso de alguns meses. Então esperamos que a recuperação comece no terceiro ou no quatro trimestre. Mas a contração neste segundo trimestre vai ser tão grave que provocará cifras de crescimento negativo nos resultados anuais. Veremos o quão profunda será quando começarem a chegar os dados de abril. Só o que vimos até agora são indicadores de aumento agudo no desemprego."

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Acredita-se que segundo semestre ainda será bastante duro para as economias

Ao mesmo tempo, os analistas veem sinais positivos que podem levar, por fim, à curva em U.
"Há boas notícias em duas frentes", diz Duggar. "Estamos vendo a China começar a sair do confinamento, reabrir fábricas. Há relatos de que se recuperou de 45% a 70% da capacidade (produtiva). Em termos de capacidade econômica para voltar a funcionar, vemos notícias positivas aí."

A outra frente, acrescenta ela, "são as medidas de apoio fortes. Bancos centrais dos dois lados do oceano (Atlântico) estão agindo com rapidez para dar liquidez ao mercado. Estamos vendo grandes pacotes (de ajudas) em muitos países".

Em seu informe, a S&P vê como sinais positivos que as curvas de contágio do novo coronavírus estejam ficando mais planas e que as intervenções governamentais estejam se refletindo em estabilização da volatilidade do mercado financeiro.

A turbulência do W

Como diz José Tessada, por enquanto "todo o alfabeto" está sobre a mesa nas previsões da crise, uma vez que ainda não está claro se as medidas de confinamento em curso atualmente serão suficientes - ou se precisarão ser estendidas.

A S&P aponta em seu informe que alguns fatores podem colocar em risco a recuperação econômica - por exemplo que, depois de enormes gastos públicos durante a pandemia, governos comecem a aplicar medidas de austeridade antes do tempo.

Mas Gruenwald acha que o maior risco ainda é a questão de saúde e a possível necessidade de períodos intermitentes de isolamento social.

"Se tivermos um cenário em que o distanciamento social é relaxado e o número de infecções voltar a subir, iremos para frente e para trás e teremos uma recuperação muito mais lenta."

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Se a pandemia não for controlada e o isolamento social precisar
 ir e voltar, é possível que a recessão tenha a forma W

Uma curva de contágio da covid-19 que suba e desça acabaria provocando uma recessão com forma de W.

"O W é quando se entra e sai e depois volta-se a entrar (em recessão)", explica Tessada. "A recuperação final não ocorre, e no meio há um momento de aceleração que não se sustenta e (a economia) volta a cair."

Esse percurso turbulento rumo à normalidade causaria perdas de produção, diz o informe da S&P, acrescentando que "o mais inquietante é que é possível que não consigamos uma vacina ou tratamento no período desse prognóstico, o que significaria que voltar à normalidade pode ser impossível."

Vem à mente também a letra L: nesse cenário, depois de uma queda, a economia se manteria estável em um ritmo muito menor, sem se recuperar.

"Mas isso, no fundo, mais que uma recessão é uma mudança permanente no nível de crescimento", afirma Tessada.

E a América Latina?

No Brasil, a previsão de 14 de abril do FMI (Fundo Monetário Internacional) é de que a economia despenque 5,3% em 2020 (contra uma previsão anterior, de janeiro, de crescimento de 2,2%).

No continente em geral, o Banco Mundial prevê que a economia latino-americana e do Caribe (descartando-se a Venezuela do cenário) caia 4,6% em 2020 e cresça 2,6% no ano que vem. Isso esboçaria uma recessão em forma de U, diz Martín Rama, economista-chefe do banco para a região.

"Vejo como um U porque somos otimistas para o ano que vem porque achamos que a essa altura a pandemia vai ser melhor entendida, haverá mais capacidade de testes e talvez uma vacina. E achamos que as economias avançadas, como EUA, China e Europa, podem mobilizar os meios financeiros e têm a estrutura necessária para se recuperar", diz à BBC News Mundo.

Com economias fortemente ligadas ao desempenho da China e dos países do G7, os países da América Latina terão uma capacidade de resposta à crise que dependerá, em grande parte, da velocidade como as nações mais ricas se recuperarão, diz Rama.

"Nosso temor é que, nos próximos meses, os países da América Latina vão sofrer a segunda fase (da crise): haverá empresas que não vão conseguir se custear, que vão demitir trabalhadores, haverá famílias e empresas que não conseguirão pagar impostos, a demanda vai cair, as finanças públicas vão sofrer, os bancos hoje sólidos podem se ver afetados pela inadimplência", prossegue.

"Agora, as necessidades financeiras dos nossos países são basicamente para atender as emergências médicas e para ajudar quem não pode trabalhar, que é informal e vive do dia a dia. Essas são cifras gerenciáveis, mas com o pouco espaço fiscal que temos na América Latina serão necessárias medidas mais extraordinárias para apoiar a atividade econômica ou para impedir uma crise financeira - é daí que vem o grande risco."

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A América Latina já vinha de um período de baixo crescimento econômico,
 o que dificulta sua reação agora

Por um lado, a região tem a "vantagem" de a epidemia ter chegado aqui um pouco mais tarde, o que lhe dá uma margem de aprendizado com os demais países.

Só que, diz Rama, há desvantagens: "(a pandemia) ocorre na região depois de praticamente cinco anos de crescimento bastante reduzido, com exceções como República Dominicana, Panamá, Colômbia".

A isso se soma a instabilidade política vivida no ano passado em países como Chile, Equador e Bolívia: "o descontentamento social que tivemos no ano passado mostra uma dificuldade para uma população que havia aspirado a um nível de vida de classe média, mas havia se desiludido", agrega Rama.

"O que for feito agora nesta emergência vai ter também consequências de longo prazo. Manter o olhar no desenvolvimento de longo prazo é importante também em (um período de) urgência como este."


Economia brasileira caminha para sua pior década perdida

Alessandra Kianek  
Revista VEJA

PIB médio anual pode atingir -0,1% de 2011 a 2020, superando a ruim marca dos anos 1980; com economia exaurida, início da próxima década já está contaminado

 Amanda Perobelli/Reuters 
Parada súbita da economia: Comércio com lojas fechadas em São Paulo, 
durante a quarentena contra o coronavírus 

A pandemia do coronavírus atingiu de forma drástica a economia brasileira, que já vinha fragilizada, após um período de recessão, sem forças para engatar um crescimento robusto, e apresentando resultados pífios nos últimos três anos. Os efeitos da crise, que paralisou as atividades econômicas causando desemprego e perda de renda da população, levarão o país a ter mais uma década perdida – podendo ser a pior de sua história. Até então, o mais fraco período econômico de dez anos havia sido o do anos 1980, quando o Brasil foi assolado pela hiperinflação e pela crise da dívida externa. Entre 1981 e 1990, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro subiu, em média, 1,7% ao ano. No período de dez anos que se encerra em 2020, caso a economia atinja uma retração de 7% neste ano, o PIB médio anual será de -0,1% – o que significa que o país encolheu ano após ano na última década. 

“O Brasil está empobrecendo. Será a primeira década brasileira de PIB médio negativo em 120 anos, abalada pela recessão de 2015 e 2016 durante o governo Dilma e agora por essa depressão, uma parada súbita, causada pela Covid-19”, afirma Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento. Mas a tragédia não para por aí, sentencia o economista Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getulio Vargas: “Vamos entrar na próxima década muito mais fragilizados. E, por isso, podemos ter mais uma outra década perdida. Até meados do período de 2021 a 2030, teremos uma retomada lenta e uma sequência de baixíssimos anos de crescimento econômico”. 

O que poderia mudar essa tragédia anunciada seria o Brasil avançar nas suas agendas estruturantes, como a aprovação das reformas administrativa, que racionaliza a administração pública federal, e tributária, que reduz o custo da produção brasileira. Porém, com tamanha instabilidade política, as reformas não devem avançar neste ano, o que inibe o crescimento da economia brasileira. Sem as reformas, o Brasil não conseguirá atrair investimentos produtivos, sejam internos ou externos. Outro ponto que afasta os investimentos é a instabilidade política, que traz insegurança aos investidores, retardando ainda mais uma possível retomada econômica.

As projeções dos economistas para o PIB brasileiro de 2021 têm sofrido sucessivos cortes e variam de um crescimento de 1,5% a 3,5% – uma recuperação ainda pequena diante de um tombo esperado da ordem de 7% para 2020. Os motores para impulsionar o PIB brasileiro estão praticamente exauridos. Afetados diretamente pela pandemia, os setores de serviço (que representa 70% da economia) e da indústria estão em forte retração após a interrupção das atividades; a probabilidade de acontecer um financiamento externo dificilmente ocorrerá, porque a crise assola toda a economia global – se o Brasil não conseguiu atrair no ano passado, não será agora num cenário com muito mais aversão ao risco; após as medidas emergenciais, não existe mais espaço para gasto público – mas o governo vai precisar gastar mais. 

A interrupção dos contratos de trabalho e o aumento da taxa de desemprego, que pode subir dos atuais 12,6% para 17%, provocarão uma forte queda da renda. Esse corte do orçamento das famílias levará à retração do consumo, que implica em menor faturamento das empresas e, por fim, volta a estimular mais cortes de postos de trabalho. Além desse ciclo, tem ainda a dívida pública do governo, que deve subir neste ano para algo próximo de 98% do PIB – um índice altíssimo. “Não adianta o governo ficar se endividando, porque esse aumento da dívida não será suficiente. É preciso elevar as receitas, já que as famílias não estão gastando e a arrecadação de impostos está caindo. É inevitável um aumento da carga tributária. Só espero, porém, que não venha pela CPMF, e sim pela cobrança sobre dividendos e sobre lucro dos bancos, e não piore ainda mais o sistema tributário brasileiro”, afirma Lozardo. 

•  Um dos pontos cruciais para se evitar a catástrofe da economia brasileira que se desenha é a manutenção dos empregos. Em outras crises, a recuperação da atividade econômica ocorreu quando as famílias voltaram a consumir e tiveram uma oferta maior de crédito. E é justamente de crédito também que as pequenas e médias empresas precisam para manterem os seus negócios funcionando. Com a década 2011 a 2020 já considerada perdida, é preciso mais estabilidade política para se evitar um histórico vicênio perdido.



PIB mostra que Guedes vai precisar muito mais do que gogó para coordenar retomada da economia

Adriana Fernandes 
 O Estado de S.Paulo

O ministro da Economia, Paulo Guedes parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia

  Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
O ministro da Economia, Paulo Guedes.

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos três primeiros meses do ano, divulgado nesta sexta-feira, 29, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a economia brasileira nem de longe estava “decolando” antes da pandemia do coronavírus.    

Sem surpresas, o instituto informou que a economia brasileira encolheu 1,5% no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao quarto trimestre do ano passado com cerca de um sexto do período afetado pelos efeitos da paralisação das atividades da pandemia no Brasil, a partir da segunda quinzena de março.

Como reconhece a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, em documento divulgado nesta sexta-feira para comentar o PIB, a economia apresentava “sinais” de retomada, após dados fracos de atividade no último trimestre de 2019. Eram, portanto, sinais ainda não consolidados, com os meses de janeiro e fevereiro marcados por “bons” resultados nos indicadores de arrecadação, mercado de trabalho e atividade. Nada excepcional a comemorar.

O ponto mais negativo foi a queda do consumo das famílias de 2% em relação ao quarto trimestre do ano passado – a primeira diminuição desde o último trimestre de 2016 e a maior retração desde 2001. Do lado positivo, a alta de 3,1% dos investimentos (FBCF), explicado pela SPE pela melhora que ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia. Consumo estava melhorando, e com queda de juros, parecia que ia continuar nessa toada positiva. Mas a economia ainda não tinha decolado da forma como o ministro fala. Muitos entraves a serem resolvidos e dificuldades da equipe econômica em emplacar a sua agenda depois da reforma da Previdência. 

Por praxe, ministros da economia têm que ser otimistas. Vender bem o seu peixe. No caso de Guedes, há também outra explicação. O desempenho fraco da atividade no último trimestre do ano passado já havia colocado pressão do Palácio do Planalto para a equipe de Guedes mostrar resultados.

Retomada lenta incomodava o presidente e o seu círculo de auxiliares mais próximos. A pandemia só amplificou esse debate, como já mostrado no episódio da disputa em torno do programa Pró-Brasil, para ampliar o investimento público em infraestrutura.

Quadro que tende a piorar com o impacto da pandemia mais forte no mercado de trabalho, diante do fracasso, em alguns casos, e da demora das linhas de crédito de socorro para as empresas.

Tudo isso deve acentuar a tensão entre Bolsonaro e governadores por reabertura mais rápida da economia, como já está acontecendo em muitos Estados. Mal feita, essa abertura pode atrasar ainda mais a recuperação da economia depois do tombo assustador do PIB que está contratado e por vir. 

Guedes tem dito que a economia vai crescer em “V” depois da pandemia e que gosta da imagem do pássaro ferido, que quer começar a voar e precisa das duas asas de novo. Vai precisar muito mais que palavras estimulativas desse tipo para coordenar o processo de recuperação com a responsabilidade que o cargo impõe.


Merkel aproveita chance de revolucionar economia da Alemanha. Já o governo brasileiro...

 Birgit Jennen e Arne Delfs, Bloomberg News
Exame.com

Estratégia havia sido rejeitada como radical demais quando proposta pela 1ª vez no ano passado. Agora, porém, teve a crise do coronavírus como catalisador

(Krisztian Bocsi/Bloomberg)
Pedestres atravessam a ponte Zollbruecke em Magdeburgo, 
Alemanha, na quinta-feira, 28 de maio de 2020. 

Em uma sombria sexta-feira de março, com a evidente devastação causada pelo coronavírus, autoridades do governo da chanceler alemã Angela Merkel perceberam a necessidade de medidas extraordinárias para sustentar a maior economia da Europa.

Em velocidade vertiginosa, assessores do Ministério da Economia elaboraram um programa de resgate no valor de 600 bilhões de euros (US$ 660 bilhões) para evitar o colapso.

Com o aumento dos casos de coronavírus e restrições rigorosas sobre pessoas e empresas, houve pouco tempo para debate e nenhuma oposição significativa. No entanto, por trás da nervosa gestão da crise, havia uma estratégia mais profunda que já estava em elaboração há meses.

A estratégia já havia sido rejeitada como radical demais para o establishment político e empresarial quando proposta pela primeira vez no ano passado. Mas, com a crise como catalisador, o pacote foi aprovado no gabinete na segunda-feira seguinte e era lei no fim da semana. Coloca Merkel no comando da mais drástica reengenharia da economia alemã desde a reconstrução do pós-guerra.

Quando terminar, a chanceler terá implementado um tipo de capitalismo de estado na Alemanha, muito semelhante ao modelo da França e que até se informa sobre o sucesso da China. O plano dará às autoridades do governo de Berlim novos poderes para intervir na economia: escolherão entre vencedores e perdedores, semeando novas indústrias e preparando campeões nacionais. A compra de participações em empresas não é mais um tabu, e a política de orçamento equilibrado foi descartada para liberar todo o poder do balanço alemão.

Em outras palavras, o resgate histórico de 9 bilhões de euros (US$ 9,8 bilhões) desta semana para a Deutsche Lufthansa – incluindo a participação de 20% do governo e o direito de bloquear aquisições indesejadas – é apenas o começo. Mais do que apenas garantir as conexões aéreas da Alemanha com o mundo exterior, o acordo estabelece um marcador de como o governo Merkel pretende que a economia seja administrada na era pós-pandemia.

É uma oportunidade única para Merkel expiar erros passados. Mesmo antes da pandemia, a Alemanha tropeçava. A dependência de tecnologias intensivas em carbono, rede digital nacional irregular e burocracia revelaram falhas na gestão da chanceler da máquina de exportação do país.

Após a crise financeira, sua estratégia era simplesmente estabilizar o navio e sair do caminho. Mas o mundo mudou significativamente desde então.

(Divulgação/Bloomberg)
Investidor ativo: Lufthansa lidera a lista de empresas alemãs que garantem auxílio estatal


(Com a colaboração de Christoph Rauwald e Richard Weiss).


******** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Não é a toa que a Alemanha é a potência econômica que conhecemos. Seus governantes não perdem tempo com firulas, gerando crises na tentativa estúpida de gerar um clima de antagonismos e instabilidade política para uma tentativa de ruptura institucional. Governantes medíocres como os nossos adoram perder tempo, dinheiro e energia em manifestações antidemocrática, enquanto o povo agoniza numa pandemia de proporções históricas. Daí porque a Alemanha sairá mais fortalecida da pandemia, enquanto o Brasil ficará discutindo a “Noite dos Cristais” e seu presidente afrontando as leis e as instituições. 

E Paulo Guedes, já tem pronto os textos das reformas e dos marcos regulatórios, ou tudo não passa de papo furado? Já passou da hora deste ministro ter um plano pronto para o pós pandemia. Infelizmente, após 3 meses engolfado pela crise sanitária, o ministro ainda discute planos de socorro às empresas. Neste ritmo vai ser difícil nossa recuperação econômica.

Renda do brasileiro deve piorar mais do que na grande maioria dos países

Ligia Tuon
Exame.com

Levantamento do Ibre/FGV mostra que o Brasil deve ficar atrás de 77% dos países em termos de renda per capita no biênio 2020-2021

(Andre Borges/Bloomberg/Getty Images)
Funcionárias usando máscara de proteção
 em loja do shopping Patio Brasil, em Brasilia.

A perda de renda do brasileiro sob impacto da pandemia da covid-19 será maior do que a da grande maioria dos países, mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) feito com base em dados do FMI.

Pela previsão do Fundo Monetário Internacional, o PIB per capita do Brasil – usado aqui como sinônimo de renda per capita -, que foi de US$ 14,1 mil em 2019, deve recuar 5,9% neste ano.

Esse movimento coloca o país atrás de 121 das 191 economias monitoradas pelo FMI, ou de 63% delas, segundo dados compilados pelo economista Marcel Balassiano.

“Hoje nós temos muitas incertezas, sobre praticamente tudo. Uma certeza que temos é que todos, ou praticamente todos, vão sair desta crise mais pobres do que entraram”, diz Balassiano. “Mas a maior parte dos países ainda vai ter um desempenho melhor do que o Brasil”, completa.

A previsão de queda no Brasil supera a de outros países emergentes, como Rússia (-5,3%), e de pares na América Latina, como Uruguai (-3,3%), Peru (-5,4%), Colômbia (-3,3%) e Paraguai (-2,3%).

Na Europa, que já foi epicentro da pandemia, as economias devem sofrer mais. A previsão de queda na renda per capita da Itália, por exemplo, é de 8,9% neste ano, no Reino Unido, -7,04% e Alemanha, -6,9%. Já a previsão para os Estados Unidos é de um recuo de 6,4%.

Em 2021, para quando é esperada a recuperação de parte das perdas, a taxa de crescimento brasileira nesse quesito está prevista em 2,2%. Desta forma, o país ficará atrás de 73% de 190 economias (o número total de países monitorados pelo FMI muda de acordo com o ano).

O resultado piora ainda mais quando analisado o biênio 2020-2021, que vai da recessão a uma possível recuperação. Neste intervalo, a taxa de crescimento da renda do brasileiro perde para 77% de 190 países.

Mesmo com essas variações, porém, a posição do Brasil no ranking de PIB per capita não muda tanto. Segundo Balassiano, em 2019, 45% dos países (86, de uma amostra de 192) tinham um nível de renda maior do que o Brasil. As projeções para a mesma medida são de 44% em 2020 e 45% em 2021.


Números otimistas

De acordo com as projeções do FMI, 64 países, que representam mais de 60% da economia mundial, devem apresentar seu pior desempenho econômico das últimas décadas. Balassiano destaca, porém, que o cenário, pelo menos no Brasil, já deve estar bem pior, já que os números do órgão são de abril.

“De lá para cá, a situação piorou consideravelmente aqui, muito em função da incerteza política somada à crise da Saúde”, diz.

Na época das projeções, a expectativa do FMI para o PIB brasileiro (-5,3%) era melhor que a do mercado, medida pelo Boletim Focus, de -3%. Hoje, a projeção do mercado já converge para – 6,3%. O FMI deve anunciar seus novos números em julho.

É preciso considerar também a deterioração esperada no mercado de trabalho, que deve se acentuar ainda mais ao longo do ano, refletindo também na renda do trabalhador. E sem previsão clara de volta. “A taxa de desemprego é sempre o último indicador a apresentar melhora após uma recuperação geral da economia”, diz o economista.

Pouco antes da última recessão que o Brasil teve, do segundo trimestre de 2014 até o final de 2016, a taxa de desemprego era de 6,8%. Três anos depois do fim da recessão, a variável ainda está longe de recuperar e atingiu uma média de 12% em 2019.

“Somando os desocupados, desalentados e subocupados, o país já tinha quase 70 milhões de brasileiros vulneráveis no mercado de trabalho antes do início da pandemia”, diz Balassiano. “Dessa vez, a crise pegou todo mundo de surpresa, e é muito forte”.


A década já estava perdida

O Brasil já caminhava, mesmo antes da pandemia, para concluir uma década perdida em termos de crescimento. Caso o PIB confirmasse a alta de 2% neste ano esperada por grande parte dos analistas em janeiro, a década de 2011 a 2020 teria um crescimento médio de 0,8% ao ano.

“Esse resultado já seria o pior dos ultimos 120 anos”, diz Balassiano. Agora essa média tende a zero, diz.

A chamada década perdida faz alusão aos anos 80, quando o PIB cresceu, em média 1,6% ao ano. Apesar das óbvias diferenças em índices como inflação e na vulnerabilidade externa, economistas veem paralelos no mix conjuntural das décadas perdidas, como piora da situação internacional, crises de liquidez, queda nos preços das commodities e políticas econômicas ineficientes. 



Pandemia fecha 1,1 milhão de vagas de trabalho no Brasil

Amanda Pupo e Lorenna Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

Só em abril, total de demissões passou de 860 mil, no pior resultado para o mês em 29 anos; essa é a primeira divulgação dos dados sobre empregos formais relativos ao ano de 2020

Foto: Felipe Rau/Estadão - 30/4/2020
Beneficiários do auxílio emergencial de R$ 600 fazem fila 
em agência da caixa da zona sul de São Paulo. 

BRASÍLIA - A pandemia do novo coronavírus fechou 1,1 milhão de vagas com carteira assinada no Brasil em março e abril, segundo números do Cadastro Geral de Empregos e Desempregados (Caged) divulgados nesta quarta-feira, 27, pelo Ministério da Economia.

Só em abril foram fechados 860.503 postos de trabalho, o pior resultado para meses de abril desde o início da série histórica da Secretaria Especial de Trabalho e Previdência do Ministério da Economia - que tem início em 1992. Com isso, foi a maior demissão registrada para esse mês em 29 anos.

O recorde de demissões acontece em meio à pandemia do novo coronavírus, que tem derrubado o nível de atividade e empurrado a economia mundial para recessão. 

Em março, 240.702 vagas foram cortadas. Nos dois primeiros meses do ano, o Brasil gerou novos postos de trabalho: em fevereiro, 224.818; e em janeiro, 113.155. No acumulado do ano, o saldo está negativo em 763.232 vagas. 

Apesar da eliminação de mais de 1,1 milhão de empregos entre março e abril, o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, disse que o “copo está meio cheio” e que empregos estão sendo preservados com as medidas como suspensão de salários e redução de jornada.

“Desemprego não é algo para comemorar, a preservação de empregos é (comemorável). O copo está meio cheio, estamos preservando emprego e renda”, afirmou.

Bianco reconheceu que os números do Caged são duros e refletem a pandemia. “O Brasil está conseguindo preservar empregos, mas não manter nível de contratação.”

De acordo com o secretário, os dados vão ajudar o governo a formatar uma nova fase de políticas públicas, para estimular contratações, mas não detalhou medidas.

Até 26 de maio, 8,154 milhões de trabalhadores foram atingidos com medidas como suspensão do contrato ou redução do salário e jornada.

Setores

Todos os setores econômicos tiveram saldo negativo de empregos em abril, mês inteiramente afetado pela pandemia do novo coronavírus. O fechamento foi puxado pelo setor de serviços, com saldo negativo de 362.378 vagas. Em segundo lugar, veio comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas, com fechamento de 230.209 vagas.

A indústria em geral foi responsável por um resultado negativo de 195.968 postos, e a construção perdeu 66.942 vagas. Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura foram os setores que menos fecharam postos, com saldo negativo de 4.999.

No setor de serviços, o pior resultado ficou com informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, com 129.151 vagas fechadas. Em seguida vem alojamento e alimentação, que perdeu 127.876 postos. Em terceiro está transporte, armazenamento e correio (-51.067), outros serviços (-30.748), administração pública, defesa e seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (-23.503), e serviços domésticos (-33).

No acumulado de janeiro a abril, o setor de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura teve saldo positivo de 10.032 postos. Os outros setores todos ficaram com resultados negativos. O pior resultado entre janeiro e abril foi de comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas, com fechamento de 342.748 vagas. Depois vem o setor de serviços, com menos 280.716 postos. Em seguida está indústria geral (-127.886) e depois construção (-21.837).

Essa é a primeira divulgação dos dados sobre empregos formais relativos ao ano de 2020. O último resultado tornado público pelo governo foi o de todo ano passado - que saiu em janeiro deste ano.

No fim de março, o Ministério da Economia suspendeu a divulgação do Caged porque empresas haviam deixado de enviar informações, principalmente referentes às demissões de trabalhadores formais, o que poderia comprometer a qualidade dos dados. E pediu que as empresas retificassem e reenviassem as informações.