domingo, maio 31, 2020

O serviço secreto pessoal do presidente

Germano Oliveira
Revista ISTOÉ

Bolsonaro montou um serviço secreto pessoal de informações para proteger seus filhos, parentes e amigos e que conta com relatos diários de integrantes da milícia do Rio de Janeiro. Esse núcleo clandestino recebe informes também de policiais civis, militares e federais de todo o Brasil, alinhados com sua doutrina de extrema direita. A estrutura ilegal funciona como uma Abin paralela, e é típica de governos autoritários, como aconteceu na Alemanha de Adolf Hitler, que montou a Gestapo e a SS para a sua proteção pessoal e ataque aos inimigos. Paralelamente ao seu serviço secreto particular, Bolsonaro está agora aparelhando a PF, com o objetivo de unir a estrutura dos órgãos oficiais (Abin, PF e GSI) ao sistema ilegal, que atua nos subterrâneos da política: a ideia é ter os dois grupos integrados na defesa de seus interesses pessoais, e, ao mesmo tempo, perseguir os adversários.

(Crédito: Mauro Pimentel/AFP)
A FAMÍLIA DA MILÍCIA
Grafite de Bolsonaro e seus filhos desenhado em um
 muro no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro

A maior ilegalidade cometida por Bolsonaro na vexatória reunião ministerial do dia 22 de abril, portanto, não foi a que ele confessa que iria interferir na PF, substituindo o diretor-geral e o superintendente no Rio, ou até mesmo o ministro Sergio Moro, caso ele não aceitasse operar as mudanças pretendidas, como de fato não aceitou, e por isso os três foram trocados. O mais grave foi o capitão revelar, no encontro, que ele possui um serviço secreto de informações, à margem da lei. “Sistema de informações: o meu funciona. O meu, particular, funciona. Os ofi..,, que tem oficialmente, desinformam”. Essa frase, dita por Bolsonaro na reunião, escancarou a existência do esquema clandestino de informações. No vídeo que registrou a reunião, e que está em poder do ministro Celso de Mello, do STF, o mandatário chegou a se vangloriar de ter o sistema próprio de averiguações, à revelia dos organismos oficiais, como a Polícia Federal (PF), Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Foi a confissão de mais um crime. 


A milícia como informante

O próprio presidente explicou, em entrevista na porta do Palácio do Alvorada, na sexta-feira 22, após a divulgação do vídeo, que esse serviço secreto pessoal recebe informações de policiais civis e militares do Rio de Janeiro e de outros Estados, O esquema paralelo, como o próprio Bolsonaro esclareceu, foi montado porque ele estava cansado de reclamar que a PF, então coordenada pelo ministro Sergio Moro, não lhe passava as informações necessárias para a proteção de seus filhos, parentes e amigos, ameaçados por investigações que poderiam, eventualmente, levá-los para a cadeia. Para exemplificar como era “vítima” do precário sistema oficial de informações, Bolsonaro lembrou que o seu esquema de arapongagem ajudou-no a salvar de encrencas um dos seus filhos do Rio, que poderia ser alvo de apreensão de drogas em sua casa. “Passo o tempo todo vivendo sob tensão, com a possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei isso. Graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro, de que estava sendo armado para cima de mim”, disse Bolsonaro. Juristas consultados por ISTOÉ afirmam que a manutenção do sistema secreto de informações é ilegal e inconstitucional.

Segundo parlamentares ouvidos por ISTOÉ, e que já foram íntimos da família Bolsonaro, mas que hoje estão rompidos, essa estrutura ilegal recebe informes, além dos policiais civis e militares ligados às milícias do Rio, de policiais federais, de membros da Polícia Rodoviária Federal, agentes da Abin e oficiais das Forças Armadas, ex-companheiros de profissão.“Ele tem esse esquema paralelo de informações desde o tempo em que era deputado. Eu convivi com ele e via como funcionava: a maior parte das informações vem dos milicianos cariocas. Basta ver que a maioria dos funcionários dos gabinetes de seus filhos no Rio era de parentes de milicianos. O capitão Adriano da Nóbrega, assassinado na Bahia, tinha sua mãe e a mulher como servidores no gabinete de Flávio”, disse o deputado Delegado Waldir (PSL-GO). 



As informações chegam basicamente por meio do Whatasapp ou pelas mídias sociais, sobretudo de blogs bolsonaristas. Fontes do Legislativo e Judiciário acreditam que o “serviço secreto” de Bolsonaro “monitora” deputados e ministros do STF para usar informações pessoais que possam denegrí-los. O delegado Waldir garante que o presidente obtém ainda informações privilegiadas sobre o andamento de investigações e processos que envolvem seus amigos e parentes. “Agentes e delegados que participam de operações policiais, e que recebem informações antecipadas, mandam mensagens para ele, passando detalhes dos passos das investigações. Isso certamente aconteceu no caso do governador Wilson Witzel, acusado de irregularidades nos hospitais de campanha. Se o governador mexer em um parafuso no Rio, Bolsonaro fica sabendo. É por isso que, na véspera da operação da PF, o senador Flávio já sabia de tudo e disse que outras seis secretarias também passariam por um tsunami”, denunciou o deputado. Witzel, por sua vez, acusou Bolsonaro de “usar a PF para perseguição política”, enquanto o governador de São Paulo, João Doria, viu na ação contra o colega “uma escalada autoritária”. O governador do Maranhão, Flávio Dino, disse em live na ISTOÉ que “Bolsonaro está milicianizando o governo, depois de tê-lo militarizado”.

E não foi somente Flávio Bolsonaro que soube com antecedência da operação contra Witzel, comandada nos primeiros dias da gestão de Tácio Muzzi, o novo superintendente da PF no Rio, agora sob ordens do presidente. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também soube antes . “A Carla faz parte dessa rede. Ela dorme com a maior fonte de informações do país hoje. É casada com o coronel Antonio Aginaldo de Oliveira, chefe da Força Nacional, do Ministério da Justiça. Ele sabe de todas as operações policiais em andamento no país. Toma café da manhã com o presidente, com os ministros militares. Sabe de tudo”, afirmou Waldir.


 A Gestapo brasileira

A deputada Joice Hasselmann, líder do PSL na Câmara e que conviveu na intimidade com o presidente durante o primeiro ano do mandato, por ter sido a líder do governo no Congresso, é bem mais clara sobre os objetivos do mandatário na montagem dessa estrutura à margem da lei. “Bolsonaro criou uma Gestapo particular, com agentes ligados à Abin, à PF, e policiais do Rio de Janeiro. É óbvio que é um esquema criminoso. O presidente está montando sua milícia pessoal para perseguir adversários e proteger familiares e amigos”, denunciou a parlamentar, que já havia acusado os filhos do presidente à CPMI das Fake News. Quando a deputada fala na criação da Gestapo de Bolsonaro, ela compara o bolsonarismo ao nazismo. Com o desejo de se perpetuar no poder de forma autoritária, perseguindo e eliminando inimigos, Adolf Hitler criou, em 1933, a sua polícia secreta, conhecida como Gestapo. Essa estrutura era sustentada, também, pela SS (tropa de proteção), que chegou a ter um milhão de homens armados. As duas organizações, à margem das Forças Armadas da Alemanha, sustentaram o Terceiro Reich – o regime nazista -, e cometeram os mais bárbaros crimes durante a Segunda Guerra. “Guardadas as proporções, é um modelo semelhante”. Na história, outros governos autoritários montaram estruturas de informações paralelas. Na ditadura brasileira iniciada em 1964, os militares criaram oficialmente o Serviço Nacional de Informações (SNI), mas por debaixo dos panos usaram recursos clandestinos do Doi-Codi e Operação Bandeirantes.

Abin paralela

E a parlamentar sabe do que está falando. Conviveu com Bolsonaro e seus filhos durante meses a fio. “Eu era da cozinha do presidente”. Essa proximidade a fez ter informações privilegiadas da movimentação do presidente na criação desse serviço secreto. “No início do governo, o Carlos Bolsonaro tentou estruturar, junto com o pai, uma Abin paralela, justamente para fazer investigações próprias, produzir dossiês ilegais para perseguir desafetos e proteger os parentes, já que àquela altura o Flávio já era acusado pelas rachadinhas e enriquecimento ilícito no Rio. Na época, a iniciativa foi barrada tanto pelo general Santos Cruz (ministro da Secretaria de Governo), como por Gustavo Bebianno (ministro da Secretaria-Geral da Presidência). E nós vimos o que aconteceu com eles: o presidente colocou os dois para fora”. Após a saída de ambos, a Abin paralela foi criada, assegurou Joice.

Essa iniciativa, na verdade, foi revelada pelo ex-ministro Bebianno poucos dias antes de morrer, em fevereiro último. Bebianno disse que a estrutura estava sendo montada com a participação de policiais federais e agentes da Abin oficial. “O próprio Bebianno me contou, e outros ministros do núcleo duro do governo confirmaram, que a Abin paralela tinha o delegado Alexandre Ramagem como operador”. A deputada afirmou que Carluxo, “com a anuência do pai”, tentou colocar Ramagem como o coordenador da Abin paralela, mas como a iniciativa foi barrada, Carlos e o pai emplacaram seu nome na Abin oficial. “Se Ramagem faz um trabalho duplo, um oficial pela Abin e outro paralelo, isso tem que ser investigado rapidamente. Porque estão usando instrumentos oficiais para cometer crimes”, alertou Joice. O esquema paralelo passa também pelo “gabinete do ódio”, coordenado por Carluxo. “A Abin paralela está atrelada ao gabinete do ódio, porque a milícia de Bolsonaro promove fake news, forja dossiês, investiga desafetos de forma ilegal, quebra sigilos, vasculha contas, usa todos os instrumentos legais e ilegais”, acusa.


Paralelamente, o capitão segue aparelhando a PF. Ramagem, que é amigo dos filhos do presidente e foi o chefe da segurança de Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018, foi barrado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, de assumir a direção da entidade, mas deixou lá o delegado Rolando de Souza, seu braço direito na Abin. Depois de mudar o superintendente da PF no Rio, como Bolsonaro queria, o novo chefe da PF assinou, na quarta-feira 27, um total de 99 portarias, modificando a composição da organização em todo o pais. “Está tudo dominado na PF agora”, disse um deputado.

Exemplos dos perigos desse serviço secreto não faltam. As contas bancárias do empresário Paulo Marinho foram devassadas, depois dele ter denunciado que Flávio Bolsonaro foi avisado com antecedência de que a PF realizaria uma operação para investigar seu ex-motorista Fabrício Queiroz. O jornalista William Bonner, da TV Globo, considerado inimigo do bolsonarismo, teve quebrado o sigilo de seus dados pessoais informados à Receita Federal. Em nota, a Globo disse que o vazamento dos dados do jornalista “tem o claro propósito de intimidar”. Essa é mais uma face obscura do presidente.





Comitê judaico americano reage a Weintraub e pede fim do uso político do holocausto pelo governo

Julia Lindner, 
O Estado de S.Paulo

Ministro da Educação comparou a operação de busca e apreensão da PF no inquérito das fake news a ações do regime nazista

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
O ministro da Educação, Abraham Weintraub  

O Comitê Judaico Americano, uma das principais organizações da comunidade judaica nos Estados Unidos, pediu um basta no uso político do Holocausto por autoridades do governo Jair Bolsonaro. Nesta quarta-feira, 27, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a operação de busca e apreensão da Polícia Federal no inquérito das fake news a ações do regime nazista, que resultou na morte de 6 milhões de judeus. Aliados do governo foram alvo da operação. 

“Chega! O reiterado uso político de termos referentes ao Holocausto por oficiais do governo brasileiro é profundamente ofensivo para a comunidade judaica e insulta as vítimas e os sobreviventes do terror nazista. Isso precisa parar imediatamente”, disse a associação pelo Twitter, em inglês. 

A mensagem foi uma resposta direta a uma publicação de Weintraub, na qual ele disse que o dia de hoje será lembrado como a "Noite dos Cristais Brasileira", que marcou um período de agressões contra os judeus em 1938. 

"Hoje foi o dia da infâmia, VERGONHA NACIONAL, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!", escreveu Weintraub em uma rede social. A expressão Sieg Heil é uma saudação nazista que significa "salve a vitória" ou "viva a vitória", usada frequentemente com a saudação de Adolf Hitler.

Em nota, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) também condenou a comparação de inquérito do STF à Noite dos Cristais feita por Weintraub. “Não há comparação possível entre a Noite dos Cristais, perpetrada pelos nazistas em 1938, e as ações decorrentes de decisão judicial no inquérito do STF, que investiga fake news no Brasil. A Noite dos Cristais, realizada por forças paramilitares nazistas e seus simpatizantes, resultou na morte de centenas de judeus inocentes, na destruição de mais de 250 sinagogas, na depredação de milhares de estabelecimentos comerciais judaicos e no encarceramento e deportação a campos de concentração”, disse a Conib.

“As ações do inquérito, por sua vez, se dão dentro do ordenamento jurídico, assegurado o direito de defesa, ao qual as vítimas do nazismo não tinham acesso. A comparação feita pelo ministro Abraham Weintraub é, portanto, totalmente descabida e inoportuna, minimizando de forma inaceitável aqueles terríveis acontecimentos, início da marcha nazista que culminou na morte de 6 milhões de judeus, além de outras minorias”, acrescentou a entidade no texto.

Weintraub afirmou, ainda, que a operação de busca e apreensão da Polícia Federal, determinada pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, remonta ao período nazista em que judeus tiveram os lares violados. 

Entre os alvos da operação desta quarta estão Luciano Hang, dono da Havan, e Edgar Gomes Corona, da rede de academias Smart Fit, o blogueiro Allan dos Santos, do blog Terça Livre e a bolsonarista Sara Winter. Para Moraes, eles são suspeitos de fazerem parte de um esquema para disseminar notícias falsas e ofensas contra autoridades e instituições, entre elas o próprio STF.

Criminalistas dizem que bolsonaristas estão errados e que STF pode abrir investigação 'de ofício'

Paula Reverbel, 
O Estado de S.Paulo

Advogados ironizam o fato de que, agora que aliados do presidente viraram alvo de operação da PF, passaram a citar direitos de defesa e criticar práticas do modelo inquisitório

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
Eduardo e Carlos Bolsonaro, filhos do presidente Jair Bolsonaro

Diante dos argumentos – vindos da família Bolsonaro – de que a operação da Polícia Federal contra o "gabinete do ódio" é inconstitucional porque a iniciativa da investigação partiu do Supremo Tribunal Federal (STF) e não da Procuradoria-Geral da República (PGR), criminalistas ouvidos pelo Estadão nesta quarta-feira, dia 27, ironizaram o fato de que bolsonaristas passaram a citar protocolos do direitos da defesa – ou seja, dos direitos dos acusados – em suas manifestações.

"De uma hora para a outra, eles – que acusam todo mundo de bandidos, de corruptos e outras tantas coisas – lembraram que existe direito de defesa", afirmou o advogado criminalista Alberto Zacharias Toron. "O fato é que essa instauração (do inquérito) é muito oportuna porque ela quebra a espinha dorsal de gente que não só espalha fake news, mas de gente que está atentando contra instituições do Estado, incluindo o STF e o Poder Legislativo. Esse inquérito é importantíssimo para a saúde da nossa democracia e eu aplaudo a decisão do ministro Alexandre de Moraes", acrescentou.

O também criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira argumentou o mesmo: "É estranho que só agora os bolsonaristas estejam levantando essa questão (de procedimentos) agora que eles são alvo da operação, visto que essa investigação foi aberta há um ano". Mariz explica que o Supremo pode sim determinar a abertura de uma investigação. "Tem o direito e – sabendo da prática de crime – o dever de fazer isso, se não comete crime de prevaricação. Se um ministro do Supremo fica sabendo que eu comtei um assassinato, ele não pode fazer nada porque não é da procuradoria?", exemplificou.

Fábio Tofic Simantob explicou que existe uma discussão sobre se o processo penal deveria seguir um sistema chamado de "acusatório" – em que o juiz só age em resposta à acusação ou à defesa – ou "inquisitório", em que o juiz pode ter uma postura mais proativa. "Embora nós (advogados criminalistas) defendemos que a Justiça brasileira deva ser cada vez mais acusatória, a lei ainda prevê alguns momentos em que o juiz possa agir por iniciativa própria", explicou. 

Tanto Tofic Simantob quanto Toron citam o artigo 242 do Código de Processo Penal, que determina que a busca pode ser determinada "de ofício" pelo juiz – ou seja, independentemente de qualquer pedido – ou atendendo a solicitação de uma das partes. Tofic ainda destaca que os membros da família Bolsonaro sempre foram muito favoráveis ao processo do tipo inquisitório, em que o juiz pode ter iniciativa. 

"Quer um exemplo? Nas audiências da Operação Lava Jato, quem aparecia mais fazendo perguntas? O membro do Ministério Público ou o juiz Sérgio Moro, que fazia perguntas com o claro intuito de produzir provas?", exemplificou. "A pessoa que o presidente Jair Bolsonaro escolheu para ser ministro da Justiça era o típico juiz de ataque, que a gente sempre criticou. Mas a lei permite", concluiu. 

Toron fez a ressalva de que uma das coisas discutíveis no inquérito que está sob os cuidados de Alexandre de Moraes é se ele fere ou não um preceito jurídico importante que separa o juiz que vai julgar da acusação. "O ministro Toffoli entendeu que o regimento interno autoriza a instauração de inquérito nos casos em que o próprio Supremo seja vítima. Essa é a questão que a Procuradoria coloca em debate", afirmou.

Uma operação da Polícia Federal deflagrada nesta quarta, 27, no âmbito da investigação aberta pelo STF, aprendeu celulares e computadores de apoiadores bolsonaristas. O inquérito sigiloso havia sido aberto em março do ano passado para apurar ameaças, ofensas e fake news disparadas contra os integrantes do Supremo e seus familiares.

No início da investigação, a iniciativa sofreu oposição do Ministério Público Federal por ter ter sido iniciada por iniciativa do presidente do STF, ministro Dias Toffoli. Quando o atual procurador-geral da República, Augusto Aras, sucedeu Raquel Dodge, ele mudou a postura do órgão sobre as investigações, manifestando-se favoravelmente. Agora que a operação atingiu bolsonaristas, porém, Aras mudou de ideia e pediu o arquivamento do inquérito. 

Na solicitação desta quarta-feira, Aras se posicionou no âmbito de uma ação da Rede Sustentabilidade, enviada em março de 2019 ao ministro Edson Fachin. Nela, o partido pedia que a portaria de instauração do inquérito fosse avaliada pelo plenário da corte.

PGR recebe vídeo em que Sara Winter desafia Alexandre para ‘trocar socos’

Rafael Moraes Moura e Paulo Roberto Netto
O Estado de São Paulo

Segundo o Estadão apurou, material deve ser encaminhado para a primeira instância; ativista bolsonarista foi alvo de buscas e apreensões determinadas pelo ministro no inquérito que apura 'fake news' contra o Supremo

Foto: Reprodução 
A ativista bolsonarista Sara Winter. 

A Procuradoria-geral da República está de posse do vídeo gravado pela ativista bolsonarista Sara Winter contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Segundo o Estadão apurou, o material deverá ser repassado para a primeira instância.

Winter foi um dos alvos de busca e apreensões deferidas por Moraes nesta quarta, 27, no inquérito que apura divulgação e disseminação de ameaças, ofensas e ‘fake news’contra o Supremo. No vídeo, ela promete ‘perseguir e infernizar’ a vida do ministro.




“Se eu pudesse, eu já estava na porta da casa dele convidando ele para trocar soco comigo. Juro por Deus, essa é minha vontade, eu queria trocar soco com esse f… da p…, com esse arrombado. Infelizmente eu não posso, ele mora lá em São Paulo, né? Pois você me aguarde, Alexandre de Moraes, o senhor nunca mais vai ter paz”, ameaçou a ativista, que está em Brasília.

Na mesma gravação, ela cita Moraes e diz que “a gente vai infernizar a tua vida”, sem deixar claro quem faria parte do grupo de pessoas. “A gente vai descobrir os lugares que o senhor frequenta, quem são as empregadas domésticas que trabalham para o senhor. A gente vai descobrir tudo da sua vida. Até o senhor pedir para sair. Hoje o senhor tomou a pior decisão da vida do senhor”, declarou.

A ativista é uma das investigadas no inquérito que mira o que Moraes classificou como associação criminosa dedicada a ataques ofensivos, subversão da ordem e quebra da normalidade democrática.

A ordem do ministro também atingiu empresários que supostamente estariam financiando o grupo criminoso, como o dono da rede de lojas de departamento Havan, Luciano Hang; o dono da Smart Fit, Edgard Gomes Corona; Otavio Fakhoury, financiador do site Crítica Nacional; o humorista Reynaldo Bianchi Júnior; o coordenador do Bloco Movimento Brasil Winston Rodrigues Lima. Todos foram alvo de quebra de sigilo que abrange até o período das eleições presidenciais de 2018.

Relatório técnico da Polícia Federal também identificou o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos e o deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) como ‘influenciadores’ de divulgação de publicações com ofensas e ameaças ao Supremo Tribunal Federal. De acordo com as investigações, o grupo de ‘influenciadores’ atua na disseminação e propagação de publicações com ofensas e ameaças aos ministros do Supremo com auxílio de robôs.

Eduardo Bolsonaro diz que 'não é mais uma opinião de se, mas de quando' ocorrerá 'momento de ruptura'

Victor Farias
O Globo

Deputado também afirmou que postura 'democrática' de ministros palacianos não está 'adiantando nada'

Foto: ADRIANO MACHADO/REUTERS
Deputado Eduardo Bolsonaro 

BRASÍLIA - O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criticou nesta quarta-feira dois inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) e afirmou que é necessário punir o ministro Alexandre de Moraes por abuso de autoridade. Ele disse também que "quando chegar ao ponto que o presidente não tiver mais saída e for necessário uma medida enérgica ele é que será taxado como ditador".

- Suspender esse inquérito não basta. A gente vai ter que punir, isso é abuso de autoridade - afirmou, em referência ao inquérito das fake news, comandado por Moraes. Em seguida, Eduardo listou uma série de ações do STF, incluindo também o inquérito que investiga supostas interferências do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal, relatado por Celso de Mello, e questionou: "quem é o ditador nessa história?".

As falas foram dadas em live no canal Terça Livre, do blogueiro Allan dos Santos, um dos alvos de ação da PF na manhã de hoje, no âmbito do inquérito das fake news. Também estavam presentes na conversa Olavo de Carvalho, o médico bolsonarista Italo Marsili e a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), também investigada pelo Supremo no inquérito das notícias falsas.

Durante a conversa, os participantes teceram diversas crítica ao Supremo e afirmaram que haveria uma conspiração contra o presidente Jair Bolsonaro.

Em determinado momento, Eduardo citou a forma como Celso de Mello determinou o depoimento de ministros palacianos, com a possível condução coercitiva, caso as oitivas não ocorressem no tempo previsto. Ele disse que a postura "democrática" dos ministros não "está adiantando nada".

- Falaram que conduziriam os generais ministros debaixo de vara. Qual foi a agressão que os generais fizeram ao STF? Bem, até agora não está adiantando nada uma postura, vamos dizer assim, democrática, vamos ser eufemista - afirmou, quando a deputada Bia Kicis sugeriu o uso da palavra "colaborativa".

- Colaborativa, obrigado, Bia - respondeu Eduardo.

Eduardo também criticou o pedido de apreensão do celular de Bolsonaro, apresentado por parlamentares de oposição e encaminhado pelo STF à procuradoria-geral da República.

- Ai falam: 'não, mas juridicamente é de praxe encaminhas o pedido'. Meus caros: é de praxe que nenhum processo se inicie pelas mãos de um juiz, como a gente tá vendo agora no STF - comentou, dizendo que há uma "confusão nos papéis".

O deputado afirmou que, apesar da PGR pedir o arquivamento do inquérito, Moraes deu "uma banana" para os procuradores e manteve a investigação. Em seguida, o filho do presidente afirmou que "tem certeza" que o inquérito das fake news vai chegar na sua casa no futuro, caso mantenha uma postura "colaborativa".

- Hoje esse inquérito está aqui, entrando na casa do Allan, mas não tenho nem dúvida que amanhã vai ser na minha casa, eu não tenho nem dúvida que, se eles se sentirem confortáveis e nós tivermos uma posição colaborativa, né, Bia? Amanhã eles vão entrar na nossa casa, dando risada - afirmou. 

Eduardo disse que até entende as pessoas que tenham uma "postura mais moderada", para tentar impedir um "momento de ruptura", mas ele acredita que a questão, nesse caso, não é de se vai ocorrer a cisão, mas de quando.

- Eu até entendo quem tenha uma postura mais moderada, vamos dizer, para não tentar chegar em um momento de ruptura, um momento de cisão ainda maior, um conflito ainda maior. Eu entendo essas pessoas que querem evitar esse momento de caos, mas, falando bem abertamente, opinião do Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de se, mas de quando isso vai ocorrer.

Em seguida, o deputado afirmou que "altas autoridades" discutem esse assunto. Ele também afirmou que debate isso.

- Não se engane, as pessoas discutem isso. Essas reuniões que o Allan está falando, entre altas autoridades, até a própria reunião dentro de setores políticos, eu, Bia, etc. A gente discute esse tipo de coisa, porque a gente estuda história, a gente sabe que a história vai apenas se repetindo. Não foi de uma hora para outra que chegou a ditadura na Venezuela - afirmou.

Segundo Eduardo, as pessoas não podem "permitir que isso aconteça" e tem que começar a tomar "algumas atitudes", mas não disse quais. 

- A gente não pode permitir que isso aconteça. A gente tem que diagnosticar o problema, deixar a sociedade ciente do problemas e depois tomar algumas atitudes, porque é inadimissível isso que o ministro Alexandre de Moraes e Celso de Mello tão fazendo com a democracia brasileira - defendeu.

Operação da PF expõe cloaca do bolsonarismo

Bernardo Mello Franco
O Globo

  Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro recebe Luciano Hang no Planalto | 

O inquérito das fake news abriu a tampa de um bueiro. Dele saltaram milicianos virtuais, blogueiros pagos, vivandeiras de quartel e até um ex-mensaleiro. Personagens da cloaca bolsonarista, que usa as redes para disseminar ódio e atacar instituições.

A Polícia Federal dissecou o funcionamento de uma máquina de desinformação. Ela atua de forma coordenada, com disparos em massa, uso de robôs e impulsionamento de conteúdo. É uma estrutura profissional, que depende de apoio financeiro para gerar resultado.

Entre os alvos da operação, estão os empresários Luciano Hang, da Havan, e Edgard Corona, da SmartFit. Eles integram o Brasil 200, que se apresentava como um movimento liberal. Por trás da fachada reformista, estimulavam ataques a parlamentares, juízes e jornalistas.

O ministro Alexandre de Moraes determinou a quebra dos sigilos da dupla desde julho de 2018. Seguindo o dinheiro, os policiais poderão esclarecer mistérios da eleição presidencial. As descobertas terão potencial para abastecer ações em curso no TSE.

A investigação também atinge ativistas de extrema direita como Sara Winter. Ex-feminista, ela chegou a organizar protestos contra o então deputado Jair Bolsonaro. Hoje integra uma milícia governista, que idolatra o capitão e defende o fechamento do Congresso e do STF.

Sua reação às buscas ilustra as práticas da turma. Em vídeos agressivos, ela ameaçou “infernizar a vida” do ministro Moraes. “O senhor nunca mais vai ter paz”, anunciou, entre ofensas e palavrões.

Os habitantes da cloaca dizem representar a “voz do povo” e ameaçam pegar em armas contra “traidores da pátria”. Puro fascismo, que encontra eco no discurso de deputados alinhados ao Planalto. Oito deles terão que depor à PF. Serão questionados sobre o gabinete do ódio, que tem conexões com a família presidencial.

Em mais um ato de submissão, o procurador Augusto Aras pediu a suspensão do inquérito. Bolsonaro acusou o golpe e convocou uma reunião de emergência no palácio. No dia em que o Brasil chegou a 25 mil mortes pelo coronavírus, o presidente voltou a ignorar a pandemia. Preferiu socorrer a sua milícia virtual.

Ministro do TCU suspende anúncios do BB em sites acusados de espalhar fake news

Adriana Fernandes, 
O Estado de S.Paulo

Após reclamação de Carlos Bolsonaro, Banco do Brasil havia retirado veto a publicidade ao Jornal da Cidade Online, que divulga informações falsas

  Foto: Dida Sampaio/Estadão 
O ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União 

BRASÍLIA – O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas determinou que o Banco do Brasil (BB) suspenda imediatamente qualquer veiculação de publicidade em sites, blogs, portais e redes sociais acusados de espalhar fake news.

Pela decisão, ficam excluídos da suspensão os portais, sites, blogs e redes sociais vinculados a empresas concessionárias de serviços de radiodifusão. Também estão fora da decisão os veículos vinculados a jornais e revistas que existam há mais de dez anos.

A decisão ficará valendo até que a Controladoria-Geral da União (CGU), num prazo de 90 dias, prepare um manual de boas práticas. O normativo terá que ser seguido por todos os órgãos do governo federal, inclusive as empresas estatais. Ele deverá trazer uma certificação de sites, blogs, portais e redes sociais que poderão receber recursos públicos (monetização) via anúncios publicitários. 

A CGU terá que montar um grupo de trabalho com outros órgãos para fazer esse normativo. Entre os participantes do grupo, estarão as secretarias de Comunicação Social da Presidência da República, do Supremo Tribunal Federal, do Conselho de Comunicação Social do Congresso, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI),  Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (ABRAJI) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (ABERT). 

Cópia do processo será encaminhado ao STF com subsídio ao inquérito que investiga a existência de notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações que atingem  a Corte e os seus ministros. 

O parecer atende pedido do Ministério Público junto ao TCU para investigar interferência indevida da família do presidente Jair Bolsonaro na gestão de publicidade do BB. O MP cita twitter do secretário de comunicação, Fábio Wajngarten, sugerindo a intervenção no BB para que o banco revisse a decisão de suspender anúncios em site condenado na Justiça pela difusão de fake news (notícias falsas), o Jornal da Cidade Online. 

Como mostrou o Estadão, o BB decidiu retirar o veto ao site Jornal da Cidade Online para receber publicidade do banco, após o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, ter criticado o bloqueio.

A área de marketing e comunicação do BB, cujo gerente é Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, considerou exagerado o bloqueio e retomou a permissão para que o site, alinhado à direita conservadora, receba publicidade do banco ontem mesmo. A decisão, no entanto, não foi divulgada.

Na quarta-feira, Carlos Bolsonaro criticou a atitude da área de comunicação que disse que vetaria anúncios no site. “Marketing do @BancodoBrasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas. Não falarei nada pois dirão que estou atrapalhando... agora é você ligar os pontinhos mais uma vez e eu apanhar de novo, com muito orgulho! Obs: não conheço ninguém do @JornalDaCidadeO”, escreveu o filho do presidente no Twitter. 

A decisão de Dantas ocorreu poucos dias depois de divulgada fala do presidente do BB, Rubem Novaes, na reunião ministerial  do dia 22 de abril chamando o TCU de “usina do terror”. 

Caos do mercado pode não acabar tão cedo, dizem investidores

Exame.com
Com informações Bloomberg

O dólar já subiu 30% neste ano, tornando a moeda brasileira a de pior desempenho do mundo; e a bolsa já perdeu quase metade do seu valor

 (Cris Faga/Getty Images)
Bolsas de valores: apesar de todas as incertezas, alguns 
ainda veem fatores que podem impulsionar as ações

Os preços dos ativos brasileiros caíram tanto e tão rápido que alguns investidores poderiam pensar que é hora de comprar. Mas, na verdade, poucos especialistas arriscam dizer que o fundo do poço já ficou para trás.

Investidores já não consideram o mercado brasileiro uma pechincha, dado que a resposta confusa do governo à pandemia transformou o país em novo epicentro do coronavírus. O Brasil é, atualmente, o país onde o número de casos avança mais rápido e o terceiro no mundo com mais infectados. Além disso, a crise política colocou a ambiciosa agenda de reformas na gaveta, ressuscitando preocupações sobre a trajetória fiscal do país.

“Não há um catalizador evidente ainda,” para uma recuperação disse Paulo Pereira Miguel, sócio do Julius Baer Family Office. “Há um ceticismo com a perspectiva fiscal do país após a crise, que levará a uma dívida mais alta.”

O dólar já subiu 30% neste ano contra o real, tornando a moeda brasileira a de pior desempenho do mundo. A bolsa brasileira, por sua vez, perdeu quase metade do seu valor em dólares. A curva de juros se inclinou para refletir o risco de deterioração fiscal, enquanto títulos em dólar se mostram mais resilientes, sustentados pelas reservas internacionais de US$ 340 bilhões.

Para o real, as perspectivas são especialmente fracas por conta dos cortes da Selic para estimular o crescimento, que reduzem o apelo da moeda no carry trade. O dólar subiu para R$ 5,97 no início do mês e o Deutsche Bank diz que a taxa pode chegar a R$ 6,5 diante do que pode ser a pior recessão já enfrentada pelo país.

“A aposta pessimista para o real é uma visão de consenso”, disse Alvise Marino, estrategista do Credit Suisse, em Nova York, que projeta câmbio de R$ 6,20. “Não há como escapar disso.”

O mercado acionário também atrai apostas negativas. A Persevera Asset Management, sob o comando de ex-executivos do HSBC, tem uma posição vendida em bolsa e acredita que o Ibovespa pode voltar para perto dos 60.000 pontos antes de entrar em uma trajetória altista mais sustentável.

 “O legado econômico que a crise deixa é mais destrutivo do que o que o mercado está colocando na conta”, disse Guilherme Abbud, sócio-fundador e diretor de investimentos da gestora. Ele diz que o PIB brasileiro pode apresentar queda de até 10% neste ano.

Muitos fundos têm preferido o mercado acionário dos EUA em uma base relativa. A Verde Asset Management disse em carta recente aos clientes que a “neblina de incertezas” do país prejudica as decisões de investimento.

“A demissão de autoridades do governo pelo presidente Bolsonaro e a renúncia de Sergio Moro elevaram o risco político a um nível em que nos sentimos desconfortáveis”, escreveu em nota Brendan McKenna, estrategista de câmbio do Wells Fargo, em Nova York.

Apesar de todas as incertezas, alguns ainda veem fatores que podem impulsionar as ações. O Goldman Sachs recomendou uma posição comprada no Ibovespa, colocando a bolsa como “candidata ideal para uma recuperação” com o maior apetite por ativos de risco e retomada dos preços das commodities. Estrategistas do Morgan Stanley liderados por Guilherme Paiva disseram que a Selic em mínima histórica deve continuar a atrair mais recursos para o mercado acionário.

Agora, cresce a preocupação de que medidas de isolamento mais rígidas possam afetar ainda mais a economia, que deve encolher 5,1% neste ano. Enquanto Estados Unidos e países europeus dão os primeiros passos para retomar a atividade econômica, a Schroders diz que o Brasil pode ser a última economia do mundo a fazê-lo.

“A economia brasileira foi duramente afetada pela crise do Covid-19”, disse Katrina Butt, economista sênior para a América Latina da AllianceBernstein, em Nova York. “A incerteza sobre a reabertura econômica no mundo todo deve aumentar a demanda por dólares em relação à maioria das moedas, especialmente as de mercados emergentes, no curto prazo.”


'Investidor estrangeiro tem dúvida sobre avanço das reformas no Brasil'

Thaís Barcellos, 
O Estado de S.Paulo

Para chefe de Economia do Bank of America, interesse do exterior, que já estava baixo antes da pandemia, cai ainda mais com a "crise tripla" que o País atravessa

  Foto: Alex Proimos/Wikimedia Commons
Bank of America 

Entrevista com
David Beker, chefe de Economia e Estratégia para o País do Bank of America


 O investidor estrangeiro está pessimista com o Brasil, afirma o chefe de Economia e Estratégia para o País do Bank of America (BofA), David Beker. Após cerca de 40 reuniões com investidores institucionais da Europa e dos Estados Unidos nas últimas duas semanas, Beker contou ao Estadão/Broadcast que o sentimento deve-se à percepção de que o Brasil está combinando três crises ao mesmo tempo: de saúde, com o coronavírus, política e fiscal.

Beker diz que, com uma sinalização mais firme sobre o compromisso com o cenário de ajuste fiscal, é possível o retorno de fluxo de capital externo de curto prazo para ativos brasileiros. Sobre o fluxo de crescimento, de capital de prazo mais longo, o mais importante para o País, Beker traça um cenário de que "algum" retorno do estrangeiro pode ocorrer na passagem do terceiro para o quarto trimestre, quando a atividade econômica deve começar a se recuperar.

O estrategista lembra, contudo, que o interesse sobre o Brasil já estava baixo antes da pandemia de coronavírus, com desconfiança do estrangeiro sobre a aceleração do crescimento, e que, agora, o desconforto aumentou. "Se estava difícil antes, agora a 'barra' está mais alta e nossos fundamentos estão piorados."

Recentemente, o BofA cortou novamente a projeção de Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, passando a prever queda de 7,7%, de contração de 3,5% anteriormente. Para 2021, a expectativa foi mantida em alta de 3,5%. 

Leia abaixo os principais pontos da entrevista:


Qual é a percepção que os investidores estrangeiros têm do Brasil em meio à essa crise?

Nas últimas duas semanas, fiz reuniões virtuais com investidores institucionais. Foram em torno de 40 reuniões, com, principalmente, investidores de renda fixa, metade da Europa e metade dos Estados Unidos. De forma geral, eu diria que o sentimento é negativo, principalmente pela percepção que estamos combinando três crises: de saúde, por conta do vírus, uma crise política, por conta do ruído, e fiscal. Ninguém discorda da necessidade de resposta de políticas neste momento tão delicado para todos os países, mas a percepção é de que vamos ter ao longo dos próximos anos um risco de crescimento muito grande da relação dívida/PIB. E mesmo o resultado primário neste ano vai ser um déficit muito grande, nossa projeção é de 9,3% do PIB. Quando você combina essas três incertezas, o tom dos investidores é negativo.

Mas quais são as principais preocupações?

Uma preocupação que eles manifestam é a questão do câmbio, embora nos últimos dias até tenha melhorado um pouco. Mas o posicionamento estava bem negativo e vimos uma depreciação bem importante do câmbio. E aí a pergunta é: como isso vai se refletir ao longo do tempo nas expectativas e na inflação, qual é o risco desse movimento ao longo do tempo para a inflação? Embora todo mundo concorde que, no curto prazo, a fraca atividade econômica não permite o repasse, há dúvidas do que eventualmente pode acontecer adiante. Na questão fiscal, a pergunta é, basicamente, como o País 'reancora' a questão fiscal. O que eles perguntam é se vai existir consenso político para retomar a agenda de reformas. Sabemos que a equipe econômica tem dito que isso é temporário e que as coisas vão voltar ao normal, e que eles vão voltar a perseguir todas as reformas que queriam fazer antes. Mas, diante de todo o ruído político, os investidores estrangeiros têm dúvida se efetivamente o governo vai conseguir criar uma base de sustentação para avançar nessas reformas.


E o que você diz para os investidores estrangeiros sobre esses pontos?

Estamos vendo uma deterioração fiscal neste ano, necessária porque temos que dar uma resposta para o covid-19 e os impactos disso na população. Por enquanto, estamos vendo uma sinalização por parte do governo de que vai continuar perseguindo uma responsabilidade fiscal ao longo do tempo. A nossa hipótese de trabalho é de que é algo contido neste ano e, no ano que vem, começa a se normalizar. O que eu estou monitorando é a possibilidade do Congresso retomar essa agenda mais estrutural em algum momento. As reformas estruturais se tornaram ainda mais importantes neste momento. Em relação ao câmbio, neste ano, não vemos risco de inflação. Nossa projeção é de 2,0%, com risco de baixa. Para o ano que vem, ainda é cedo para falar, mas se tivermos um câmbio depreciado por muito tempo e risco de depreciação adicional, em um ambiente em que a questão fiscal está se deteriorando, o risco para as expectativas aumenta. Para coordenar as expectativas, precisa-se de uma combinação de fatores e, neste momento, os investidores estão pressionando esses fatores. Então, embora o nosso cenário seja de que, no ano que vem, a inflação estará em linha com as metas, dependemos também desse equacionamento fiscal. Temos uma preocupação fiscal e o grau de preocupação depende muito de como essa questão será manejada pelo governo. Então é importante que possamos retomar o processo de reformas estruturais.

Como você analisa os sinais políticos, como a tentativa de aproximação do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão, em relação à retomada da agenda fiscal?

Acho que ainda é cedo para dizer, porque, como estamos no meio da pandemia, o foco do Congresso tem sido as medidas relacionadas ao coronavírus. Temos de monitorar esses sinais de aproximação, sem dúvida, o próprio fato do Bolsonaro ter se encontrado com o presidente da Câmara, o Rodrigo Maia. Tem sinais importantes de aproximação, mas ainda é preciso monitorar como vão evoluir nas próximas semanas. O Congresso só vai poder voltar discutir questões mais estruturais quando passar essa crise.

Mas é possível pensar em expectativa de retorno do investidor estrangeiro para o Brasil ainda este ano?

Eu diria que, se tivesse uma sinalização mais concreta de arrumação de casa na questão fiscal, o fluxo [de capital de curto prazo] poderia aparecer. Mas o fluxo principal que o Brasil precisa neste momento, que é o fluxo do crescimento, como o Investimento Direto no País, fluxo para compra de ativos, IPOs e follow-on, depende da combinação de um fiscal encaminhado conjuntamente com sinais de que o fundo do poço ficou para trás e de que a economia começa a se recuperar. Esse processo de crescimento da economia, nos nossos números, começaria do terceiro para o quarto trimestre, mas ainda tem muita incerteza. Eu acho importante mencionar que, antes de tudo isso começar, não estávamos vendo grandes fluxos do estrangeiro para o Brasil. Antes, estávamos vendo um pouco de fluxo para Bolsa de estrangeiro e, na renda fixa, o estrangeiro já havia reduzido a alocação. O que temos visto agora é que a posição do estrangeiro na renda fixa continua muito baixa e, na renda variável, estamos vendo saídas. Antes de tudo isso começar, já tinham as dúvidas fiscais, mas a principal preocupação era a questão do crescimento, muita gente, antes de tudo isso, já tinha uma desconfiança com a aceleração do crescimento. Então, já havia desconfiança e vem tudo isso, então cria-se um desconforto maior para esses investidores. Agora, além do crescimento, tem outras coisas, o ponto de partida piorou. É possível argumentar que o Brasil não está sozinho na história, tem outros emergentes também. O Brasil tem sofrido um pouco mais do que a média, mas a deterioração fiscal não é só Brasil. No limite, está todo mundo no mesmo cenário, mas tem que fazer alguma diferenciação.


Então o retorno deve ficar mais para 2021?

Na verdade, acho que a foto pode mudar no terceiro ou quarto trimestre. Mas tem várias discussões não só no Brasil, mas no mundo: o risco da segunda onda, o formato da recuperação global, se vai ser 'V'. Na verdade, as pessoas têm ficado mais preocupadas com a chance de 'U' ou 'W'. É difícil precisar o timing, porque ainda tem muita incerteza. Mas é possível construir um cenário em que, no fim do terceiro e no quarto trimestre, comecemos a ver algum tipo de fluxo. Mas acho que sempre vale a pena dizer que, se estava difícil antes, agora a barra está mais alta e nossos fundamentos estão piorados.

Recentemente, o BofA piorou a expectativa de recessão este ano, de 3,5% para 7,7%, mas manteve a projeção de alta em 2021 em 3,5%. O cenário então é de recuperação mais lenta?

Ainda não temos a projeção para 2022, mas basicamente se atrasou o processo de voltar para o patamar anterior [ao coronavírus]. Há muita incerteza, se vai ter empresas quebrando, há risco para pequenas e médias empresas, aumento do desemprego, alta da inadimplência. Acho que é a combinação de fatores. Mas isso não é só no Brasil. Revisamos nossa projeção para os Estados Unidos também. Tínhamos queda de 6% passou para recuo 8% e tínhamos alta de 6,1% para 2021 e revisamos para 4%. Os economistas estão repensando o grau de crescimento que a economia pode voltar a mostrar no ano que vem.

A combinação de recessão com o câmbio depreciado pode, de alguma forma, ajudar as contas externas brasileiras?

Nossa projeção de déficit de conta corrente é de US$ 24,9 bilhões, caindo pela metade em relação ao ano passado (US$ 49,452 bilhões). Mas, quando olha-se o pano de fundo do câmbio, a conta corrente melhora bem, mas ainda é um déficit, talvez um déficit ainda menor do que estamos projetando. E também temos que olhar para a conta capital. Há dúvida do que vai ocorrer com investimentos em portfólio e com o IDP, com o fluxo de recursos em geral. Mas concordo que o câmbio depreciado combinado com uma recessão vai provocar um ajuste importante na conta corrente no Brasil. Não tenho um número zero, mas, a depender da evolução do cenário, não dá para descartar. Nos meus números, já tem uma melhora significativa. Agora, eu diria que tem que olhar com cuidado o IDP, há incerteza. O que vai se repetir é que a conta corrente no Brasil quando há episódios de recessão combinados com depreciação cambial há redução importante do déficit em conta corrente. Na crise anterior, o IDP foi bem resistente: se a participação no capital caísse, os empréstimos intercompanhias subiam. Não sabemos como vai se comportar dessa vez. Nas nossas projeções, a expectativa é de que o IDP caia para US$ 60 bilhões.

Qual é a projeção para a taxa Selic?

Hoje, o cenário base é de 2,25% no Copom de junho e ficaria nesse patamar por um bom tempo.

Não teria espaço para mais quedas?

Acredito que não teria mais espaço. Devemos ficar com os juros estáveis por um bom tempo. Eu acho que olhando para as variáveis e para os riscos que mencionamos, estamos perto do piso dos juros que podemos conviver no Brasil.

Centrão mata outra agenda de campanha de Bolsonaro, as privatizações

Robson Bonin  
Revista VEJA

Por amizade ao PTB de Roberto Jefferson, presidente anunciou nesta quinta que a Casa da Moeda não será mais privatizada

  Amanda Perobelli/Reuters
Entre Salim Mattar e Roberto Jefferson, Bolsonaro preferiu 
rifar o plano de privatização do secretário e abraçar o cacique do centrão

Salim Mattar deve estar se peguntando o que ainda faz o secretário de Desestatização num governo que não privatiza nada. Bilionário, Mattar pode usar a rotina de “autoridade” para satisfazer o ego, aquela parte da vida de todo endinheirado que só a política ou a fama podem preencher. Mas o desprezo presidencial por suas funções, pouco aproveitadas, está cada vez mais evidente.

Veja que situação. Mattar, que seria o poderoso e temido privatista da máquina estatal herdada por Bolsonaro de Michel Temer e do PT, foi avisado pelo presidente, nesta quinta, que a Casa da Moeda não será mais privatizada. O presidente afirmou que decidiu retirar a empresa da lista de privatizações por entender ser uma empresa “estratégica”. 

A pergunta aqui é, estratégica para quem? Para o PTB do amigão Roberto Jefferson, que aparelhou o lugar durante anos nas gestões petistas.

Não é mais segredo que Bolsonaro recorre ao toma lá dá cá para manter-se longe do risco de impeachment no Congresso. Sabe que seu governo virou um grande problema ao país, como mostra a capa de VEJA desta semana. Nessa guerra, vale até dormir com ex-amantes petistas.

Um bom programa ao bolsonarismo que sonhou com a nova política e o combate à corrupção? Digitar no Google: “Casa da Moeda, PTB, corrupção”. Tem leitura lá para o fim de semana inteiro.

Após 2 meses, BC libera apenas 21% do R$ 1,2 tri prometido a bancos na crise

Fabrício de Castro, 
O Estado de S.Paulo

Cada vez mais seletivos com o temor de aumento de calotes, bancos não usam a maior parte dos instrumentos colocados à disposição pelo Banco Central

  Foto: André Dusek/Estadão
Banco Central disse que os recursos disponibilizados estão
 atendendo 'plenamente as demandas das instituições'. 

BRASÍLIA - Só 21% do arsenal de R$ 1,2 trilhão anunciado pelo Banco Central para evitar crises bancárias e manter o funcionamento do crédito durante a pandemia do novo coronavírus foram usados até o momento, passados dois meses do lançamento do pacote de medidas feito pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto. O valor liberado aos bancos no período foi de R$ 260,2 bilhões.

O pacote de R$ 1,2 trilhão representaria o equivalente a 16,6% do Produto Interno Bruto (PIB) – um porcentual bastante superior aos 3,8% do PIB ofertados aos bancos após a crise financeira de 2008.

Na época do anúncio, o discurso do BC era de que as medidas permitiriam manter a oferta de recursos para as instituições financeiras, evitando dificuldades e possíveis quebras durante a pandemia. Além disso, a injeção de recursos permitiria que os bancos pudessem atender ao aumento da demanda por crédito por empresas e famílias, neste momento de crise.

Cada vez mais seletivos com o temor do aumento no nível de calotes, os bancos, porém, não usaram a maior parte dos instrumentos colocados à disposição pelo Banco Central, mostram os dados logo após os dois meses do anúncio. A autarquia também demorou na regulamentação de linhas atreladas a letras financeiras e debêntures (título de dívida corporativa). A maior parte  liberada foi em compulsórios (recursos que as instituições são obrigadas a deixar no BC para fazer frente aos riscos dos empréstimos).

“Avaliar o quanto foi disponibilizado e o quanto poderia virar crédito é difícil”, afirma a economista Isabela Tavares, especialista em crédito da Tendências Consultoria Integrada. “Dentro dos bancos, há recursos que podem virar provisão de crédito, porque as instituições estão pensando no risco de aumento da inadimplência.”

Para o economista Ricardo Rocha, professor do Insper, os bancos não estão neste momento com problema de liquidez. “Não é falta de dinheiro para emprestar. O problema é o risco.” Segundo o economista, o problema enfrentado pelas empresas para acessar o crédito passa pela falta de garantias a serem dadas aos bancos. “Como fazer chegar o crédito para quem não tem a garantia? Esta é a dificuldade”, diz ele. 

De acordo com o BC, as concessões de crédito despencaram 16,5% em abril ante março, considerando a série estatística livre de influências sazonais. No caso específico das empresas, essas concessões recuaram 21,1%. Entre as famílias, a baixa foi de 13,2%.

Outro lado

Em nota, o Banco Central afirmou que “até o momento os recursos disponibilizados atenderam plenamente as demandas das instituições financeiras”. De acordo com a autarquia, os recursos liberados foram suficientes para que os bancos “tivessem condições de atender a demanda de seus clientes, mas sem colocar em risco a capacidade de honrar seus compromissos com seus depositantes e investidores”.

O BC pontuou ainda que os números apresentados no anúncio das medidas em março, em um total de R$ 1,2 trilhão, “representam o impacto máximo das medidas”. “Algumas, como liberação de compulsório e de capital já apresentaram resultado integral”, afirmou. “Outras vão depender de duração e severidade de impacto da crise, comportamento dos mercados doméstico e internacional, demanda por parte de famílias e empresas, bem como apetite e gestão de risco por parte das instituições financeiras”.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou, por meio de nota, que “na conjuntura atual não existem restrições relevantes de liquidez” no sistema financeiro. Segundo a associação, “a relação entre o potencial de liberação de recursos das medidas e a liberação efetiva dos recursos deve ser analisada com cautela”. Isso porque, de acordo com a Febraban, “parte dessas medidas tem implementação gradual e o seu potencial pleno só poderá ser mensurado a médio e longo prazo" porque ainda está no início da implementação. 

A Febraban disse ainda que “a simples adoção dessas medidas já produz efeitos indiretos importantes, uma vez que sinaliza ao mercado que haverá novas fontes à disposição dos bancos”. Para a entidade, “isto faz com que a liquidez circule de forma mais efetiva, reduzindo/eliminando os chamados empoçamentos de liquidez e contribuindo para dar mais eficiência ao mercado”.

O presidente da Febraban, Isaac Sidney, também se pronunciou ao Estadão/Broadcast, por meio de nota. “A fase mais aguda da crise de liquidez, que se manifestou especialmente logo após a decretação da pandemia pela OMS, no final de março e início de abril, está sendo superada”, disse Sidney. “O Banco Central foi ágil e eficiente na adoção de medidas, não só de liberação de recursos, mas também na disponibilidade de linhas de assistência de liquidez e na implementação de ajustes regulatórios que deram mais flexibilidade para a atuação do sistema bancário."


Desempenho do agronegócio na pandemia sustenta exportações brasileiras

Fabrício de Castro, 
O Estado de S.Paulo

Entre fevereiro e abril vendas de soja e carnes para o exterior cresceram 2$% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as exportações em geral subiram apenas 0,7%

Foto: Germano Rorato/Estadão - 24/8/2018
Vendas de soja e de carnes responderam por um terço
 das exportações brasileiras de fevereiro a abril

BRASÍLIA - Em pouco mais de três meses da crise global provocada pelo novo coronavírus, o agronegócio é o setor que apresenta os melhores resultados no Brasil, sustentando boa parte das vendas de mercadorias para outros países. 

De fevereiro a abril, as exportações de produtos em geral somaram US$ 52,822 bilhões, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia. Somente as vendas de soja e derivados e de carnes - dois dos principais itens da pauta brasileira - somaram US$ 16,438 bilhões no período, cerca de um terço do total.

As vendas de soja e derivados e de carnes no intervalo de fevereiro - quando os efeitos da covid-19 sobre o comércio global se intensificaram - a abril mostram um aumento de 24% em relação ao mesmo período do ano passado. Em comparação, as exportações em geral de fevereiro a abril subiram apenas 0,7%.

Para o economista Simão Davi Silber, doutor em Economia Internacional e professor da Universidade de São Paulo (USP), o desempenho positivo do agronegócio, mesmo neste momento de crise global, tem uma explicação simples. “A primeira necessidade é ‘comer’. E, para proteicos, o Brasil é fundamental”, afirma.

Mesmo assim, o avanço do coronavírus no Brasil começa a preocupar os compradores estrangeiros. A China já recomendou às empresas de alimentos que aumentem os estoques de grãos e oleaginosas. Uma das principais questões levantadas pelos chineses, segundo a agência Reuters, é como o avanço da pandemia no Brasil poderá prejudicar o envio de produtos como carne, soja e outros grãos. 

Os países da Ásia são os principais clientes do Brasil. Com uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, China, Hong Kong e Macau compraram de fevereiro a abril o equivalente a US$ 17,734 bilhões em mercadorias brasileiras - a maior parte do setor agrícola. De cada US$ 100 em vendas feitas pelo País, um terço (US$ 33,57) foi para a região.

Além da forte demanda dos países asiáticos, consumidores de alimentos, o agronegócio é favorecido pelo câmbio. A pandemia do novo coronavírus e a crise política que atinge o governo de Jair Bolsonaro fizeram o dólar disparar nos últimos meses em relação ao real. Na quinta-feira, 21, a moeda americana à vista encerrou a sessão cotada a R$ 5,5818. A alta acumulada em 2020 é de 39%. Para as companhias do agronegócio, isso significa mais reais no caixa para cada dólar de exportação.

Esse cenário faz o setor aparecer como uma espécie de “ilha de bonança” no Brasil, em meio à derrocada econômica na pandemia. Dados do relatório Focus, do Banco Central, mostram que os economistas do mercado financeiro projetam atualmente retração de 5,12% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Enquanto o PIB de serviços - fortemente afetado pelo isolamento social - deve despencar 4%, o PIB da agropecuária pode subir 2,48%, conforme as projeções dos economistas.

“É possível que a queda do PIB no Brasil seja menor por conta do PIB agrícola”, comenta a economista Vitoria Saddi, professora do Insper em São Paulo. Com a experiência de ter atuado em instituições internacionais como JP Morgan e Citibank, Saddi acredita que o comércio global após a pandemia poderá trazer oportunidades ao Brasil.

“Em momentos de crise profunda, como foi a da década de 1870 nos EUA (o Pânico de 1873) ou a Grande Depressão (iniciada em 1929), o mundo tende a se fechar”, alerta a economista. “É quase como um subproduto da crise o fechamento do comércio no mundo.”

Ainda assim, países com grande população a ser alimentada, como a China, precisarão continuar a acessar as cadeias globais de comércio. “Tendo a pensar que talvez os países venham a reprimir e impor sanções à China”, afirma Saddi. “Isso seria uma oportunidade para os produtos brasileiros.”

Guerra comercial       

Desde antes da covid-19, Estados Unidos e China vinham protagonizando episódios de guerra comercial, na esteira de uma política mais protecionista adotada pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Nas últimas semanas, Trump elevou o tom das críticas contra a China e passou a culpar o país asiático pela pandemia.

No Brasil, esse cenário tem sido discutido pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em comentários públicos, ele vem pontuando que, após a pandemia, o comércio global poderá passar por mudanças - não necessariamente positivas.

Na última quarta-feira, 20, porém, Campos Neto lembrou que o setor agrícola brasileiro se tornou uma potência ao longo dos anos. “No resto, ficamos para trás dos países que se inseriram na cadeia de comércio”, afirmou, durante evento ligado ao setor de infraestrutura.

Plano de retomada de Guedes será centrado na agenda de reformas

Martha Beck e Simone Iglesias, Bloomberg News
Exame.com

Secretário do ministro acredita que a crise econômica e política pela qual passa o governo Bolsonaro não impede que o Brasil possa seguir plano inicial

(Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Ministro Paulo Guedes 

O plano de retomada da economia discutido pela equipe do ministro Paulo Guedes é centrado na mesma agenda de reformas que estava sobre a mesa antes da pandemia do novo coronavírus. “O diagnóstico do que precisa ser feito não mudou. É o mesmo que existia antes da crise e envolve reformas tributária, administrativa, fiscal, abertura comercial, melhoria regulatória e desburocratização, disse o secretário-executivo do Ministério da Economia, Marcelo Guaranys, em entrevista.

“Depois da crise, a gente vai estar no buraco. A gente vai destravar a economia como? Criando benefícios para os mesmos setores de sempre ou estruturando medidas para todos ganharem?”, afirmou.

Guaranys acredita que a crise econômica e política pela qual passa o governo do presidente Jair Bolsonaro não impede que o Brasil possa realizar as reformas: “Basta que se construa a narrativa correta. Você acha que alguém tem dúvida de que o sistema tributário brasileiro é confuso?”, disse o secretário.

Desoneração é prioridade

A desoneração da folha de pagamento das empresas é uma das prioridades da equipe econômica. Quando a economia começar a reagir, diz ele, haverá uma massa de trabalhadores na informalidade que precisam ser visíveis ao Estado e que terão mais chances de conseguir emprego se houver contratos mais flexíveis.

“O que está se pensando é como ter modelos diferentes com desonerações que permitam que se gere empregabilidade maior”, afirmou o secretário. Segundo ele, as resistências a essas mudanças, como flexibilizar a cobrança de FGTS e décimo terceiro salário são enormes, mas devem ser analisadas à luz da massa de pessoas que não têm postos de trabalho.

Segundo ele, é preciso acabar com a contribuição da folha que se paga excessivamente no país. “É difícil fazer isso quando todos estão empregados, mas será que não consigo fazer isso para essa massa de desempregados gigantesca? O que adianta cobrar FGTS, 13o. se temos 13 milhões de desempregados no país?”

Apoio de Bolsonaro

O veto do presidente Jair Bolsonaro ao aumento salarial do funcionalismo público até o fim de 2021 e o apoio demonstrado à visão de Guedes de que a retomada tem que vir do investimento privado foram dois sinais importantes para mostrar que o Brasil continua trilhando o mesmo caminho na economia, disse o secretário. Os problemas políticos criam uma cortina de fumaça, mas não contaminam o ambiente econômico efetivamente.

Segundo ele, embora existam visões divergentes da de Guedes no governo, o caminho que Bolsonaro segue é o indicado pelo ministro. O secretário ressaltou que os contratos de concessão continuam a ser seguros e o Brasil ainda é um mercado enorme com necessidade de investimentos em infraestrutura. O capital vai entender isso, disse ele. Guaranys lembrou o sucesso dos leilões dos aeroportos para a iniciativa privada em meio à Operação Lava Jato, o que mostra o quanto pesa o pragmatismo do investimento, mesmo com turbulências políticas.


Auxílio é temporário

A prorrogação do auxílio emergencial está sendo avaliada e seu formato vai depender de como a situação estiver depois de junho, quando a medida tem previsão de acabar. A certeza, segundo o secretário, é que a ajuda não se tornará permanente. Ele disse que poderá ser mantido por mais um período e que, para isso, os cálculos de seu custo estão sendo feitos. O auxílio emergencial custa R$ 50 bilhões por mês. Se virar permanente, com certeza contamina o futuro, disse.

Embora o Tesouro estude usar lucro do BC e esteja tomando empréstimos para financiar medidas contra a crise, não há preocupação com o gerenciamento da dívida pública.

Brasil continua com o plano de ingressar como membro na OCDE, explicou Guaranys. A saída de Sérgio Moro do comando do Ministério da Justiça pode ter gerado dúvidas naturais em relação ao combate à corrupção no Brasil, mas o plano continua, mesmo com todo o processo dentro da organização estar desacelerando por causa da pandemia.

Desemprego sobe em abril e atinge 12,8 milhões de pessoas

Da redação, Exame.com
Com informações Agência  Reuters

Taxa de desemprego no Brasil ficou em 12,6 por cento nos três meses até abril, de acordo com o IBGE

(Gabriel Ramos/Getty Images)
Carteira de trabalho; CLT; FGTS 

A taxa de desemprego no Brasil ficou em 12,6 por cento nos três meses até abril, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira. Em relação ao trimestre anterior móvel anterior, de novembro a janeiro, a taxa saltou 1,3 ponto percentual. A população desempregada chegou a 12,8 milhões de pessoas, um aumento de 7,5%, com 898 mil pessoas a mais.
A população desalentada, de 5 milhões de pessoas, foi recorde da série, crescendo 7,0% em relação ao trimestre anterior. O termo desalento refere-se a quem desistiu de procurar emprego.

O número de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado caiu para 32,2 milhões de pessoas, menor nível da série histórica, caindo 4,5% frente ao trimestre anterior.

A taxa de informalidade foi de 38,8% da população ocupada, representando um contingente de 34,6 milhões de trabalhadores informais, o menor da série, iniciada em 2016.

O BRASIL QUE NÃO PAROU: Apesar da pandemia de covid-19, mercado anima produtor de soja e carne

José Maria Tomazela, 
O Estado de S. Paulo

Preço bom e vendas estáveis em plena pandemia levam agricultor a comercializar até 40% da sua próxima safra de forma antecipada

  Foto: Valdir Fries/Acervo Pessoal
Produção de soja de Valdir Fries, em Itambé (Paraná); 
ele pretende plantar mais na próxima safra. 

SOROCABA - Em fevereiro deste ano, quando o epicentro da epidemia do coronavírus ainda estava na China, o agricultor Valdir Fries, de Itambé, no Paraná, viu as exportações da soja brasileira despencarem e os preços caírem. “A saca baixou para R$ 80 na região, uma perda de R$ 5 por saca, devido à incerteza sobre o que poderia acontecer. Acreditamos que não era hora de se apavorar, esperávamos que fosse melhorar em abril ou maio, afinal o mundo precisa da soja brasileira. E foi o que aconteceu”, disse.

Naquele mês, ele conta que havia comercializado pouco mais de um terço da produção no mercado futuro. “Diante dos preços da época, o que fizemos de melhor foi aguardar a melhora dos preços internos e felizmente acabamos acertando”, disse. Puxado pelas importações asiáticas, o preço da soja subiu e o produtor não esconde a animação. “Vendemos agora acima de R$ 95, chegando a R$ 100 a saca na região. Não só eu, outros produtores também aproveitaram e venderam grande parte da soja disponível. O que nos resta da safra passada é muito pouco.”

Aproveitando o momento de boa cotação, Fries já vendeu 40% da soja que vai produzir na safra 2020/21 no mercado futuro. “Na relação da troca com os insumos, o preço atual nos beneficiou. Com todo esse mercado favorável, grande parte da soja foi para incrementar a exportação que cresceu bastante. Com a desvalorização do real, os asiáticos estão aproveitando para comprar volumes maiores”, disse. O produtor lembra que o ganho se deve à valorização do dólar frente ao real. “Não fosse isso, estaríamos em situação difícil. O dólar caiu um pouco nos últimos dias, mas ainda está em um patamar bom para quem exporta.”

Fries cultiva 220 hectares de soja por safra no sítio Rancho da Mata, na região de Maringá, noroeste do Estado. Ele já prepara o próximo plantio. “Estamos com os insumos comprados para a próxima safra e vamos plantar mais soja. Há uma necessidade no mundo e principalmente dos asiáticos pela soja do Brasil. Com certeza, com a previsão de bom clima, vamos ter uma boa produção. A boa notícia de hoje (ontem), é que as chuvas estão chegando por aqui. O cenário é animador”, disse.

Carne

O crescimento nas exportações de carne evitou que os preços internos do boi sofressem desvalorização, como era a expectativa dos produtores no início da pandemia. Mas o criador precisa ficar atento à desvalorização do real frente ao dólar, alerta o pecuarista Higino Hernandes Neto, de Camapuã, no centro-oeste de Mato Grosso do Sul. “O frigorífico está pagando hoje R$ 172,50 por arroba, com o dólar a R$ 5,56, o que dá média de US$ 31 por arroba. Em maio do ano passado, a gente vendia nesse mesmo preço, mas com o dólar a R$ 3,80, o que fazia a mesma arroba valer US$ 45 dólares”, exemplificou. 

  Foto: Higino Hernandes Neto/Acervo Pessoal
Produtor tem de ficar atento ao dólar, diz Higino H. Neto. 

O criador lembra que os insumos do gado são dolarizados, o que também aumenta os custos da produção. O custo alto fez com que Hernandes Neto desistisse de engordar bois em confinamento. “Colocar todo o insumo na boca do boi fica muito caro. Soja, milho e outros grãos também tiveram os preços puxados pela exportação e o custo do gado no cocho ficou muito alto.” O cenário incerto fez com que os frigoríficos deixassem de comprar boi no mercado a termo, com preço fixo para agosto ou setembro, o que deixa o mercado interno vagaroso, segundo ele.

Para melhorar a margem, o pecuarista investe na formação e venda de bois jovens para terminação, que saem a até R$ 250 a arroba. “Prefiro trabalhar com as duas coisas, mas ganho mais vendendo bezerros do que boi.” Ele produz em Camapuã e Rio Verde (MT).