terça-feira, março 01, 2022

Nós nunca estivemos aqui antes

 Thomas L. Friedman*, The New York Times,

O Estado de S.Paulo

Mundo nunca mais será o mesmo porque esta guerra não tem paralelo histórico

 Foto: Philip Fong/AFP

Esta é a primeira guerra que será coberta no TikTok por indivíduos 

superpoderosos armados apenas com smartphones 

As sete palavras mais perigosas do jornalismo são: “O mundo nunca mais será o mesmo”. Em mais de quatro décadas de reportagem, raramente ousei usar essa frase. Mas vou usar agora após a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin.

Nosso mundo não será o mesmo novamente porque esta guerra não tem paralelo histórico. É uma apropriação de terras ao estilo do século 18 por uma superpotência – mas em um mundo globalizado do século 21. Esta é a primeira guerra que será coberta no TikTok por indivíduos superpoderosos armados apenas com smartphones, então atos de brutalidade serão documentados e transmitidos em todo o mundo sem editores ou filtros. No primeiro dia da guerra, vimos unidades de tanques russos sendo inesperadamente expostas pelos mapas do Google, porque o Google queria alertar os motoristas de que os blindados russos estavam causando engarrafamentos.

Você nunca viu isso antes.

Sim, a tentativa russa de tomar a Ucrânia é um retrocesso aos séculos anteriores – antes das revoluções democráticas na América e na França – quando um monarca europeu ou um czar russo podia simplesmente decidir que queria mais território, que era hora de tomá-lo e assim o fazia. E todos na região sabiam que ele iria devorar o máximo que pudesse e não havia comunidade global para detê-lo.

Ao agir dessa maneira hoje, porém, Putin não está apenas pretendendo reescrever unilateralmente as regras do sistema internacional que estão em vigor desde a 2ª Guerra – que nenhuma nação pode simplesmente engolfar a nação ao lado – ele também está disposto a alterar o equilíbrio de poder que ele sente ter sido imposto à Rússia após a Guerra Fria.

Esse equilíbrio - ou desequilíbrio na visão de Putin - era o equivalente humilhante das imposições do Tratado de Versalhes à Alemanha após a 1ª Guerra, que retirou da esfera de influência da União Soviética não apenas Estados como a Polônia, mas também aqueles que faziam parte da própria União Soviética, como a Ucrânia.

Vejo muitas pessoas citando o belo livro de Robert Kagan “The Jungle Grows Back” como uma espécie de abreviação para o retorno desse estilo brutal de geopolítica que a invasão de Putin manifesta. Mas essa imagem está incompleta. Porque não estamos em 1945 ou 1989. Podemos estar de volta à selva – mas hoje a selva está conectada. E mais intimamente do que nunca pelas telecomunicações; satélites; comércio; Internet; redes rodoviárias, ferroviárias e aéreas; mercados financeiros; e cadeias de suprimentos. Assim, enquanto o drama da guerra se desenrola dentro das fronteiras da Ucrânia, os riscos e as repercussões da invasão de Putin estão sendo sentidos em todo o mundo – mesmo na China, que tem bons motivos para se preocupar com seu amigo no Kremlin.

Bem-vindo à  World War Wired (Guerra Mundial Conectada) — a primeira guerra em um mundo totalmente interconectado. Este será o encontro dos cossacos na World Wide Web. Como eu disse, você nunca esteve aqui antes.

“Faz menos de 24 horas desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, mas já temos mais informações sobre o que está acontecendo lá do que teríamos em uma semana durante a guerra do Iraque”, escreveu Daniel Johnson, que serviu como oficial de infantaria e jornalista do Exército dos EUA no Iraque, na revista Slate, na quinta-feira. “O que está saindo sobre a Ucrânia é simplesmente impossível de produzir em tal escala sem que cidadãos e soldados de todo o país tenham acesso fácil a celulares, internet e, por extensão, aplicativos de mídia social. Uma guerra moderna em larga escala será transmitida ao vivo, minuto a minuto, batalha por batalha, morte por morte, para o mundo. O que está ocorrendo já é horrível, com base nas informações divulgadas apenas no primeiro dia.”

O resultado desta guerra dependerá em grande parte da vontade do resto do mundo de deter e reverter a blitzkrieg de Putin usando principalmente sanções econômicas e armando os ucranianos com armamento antiaéreo e antitanque para tentar retardar seu avanço. Putin também pode ser forçado a considerar o número de mortos de seus próprios camaradas.

Putin será derrubado pelo exagero imperial? É muito cedo para dizer. Mas me lembro hoje em dia do que um outro líder deformado que decidiu devorar seus vizinhos na Europa observou. Seu nome era Adolf Hitler, e ele disse: “O começo de toda guerra é como abrir a porta de um quarto escuro. Nunca se sabe o que está escondido na escuridão.”

No caso de Putin, me pego perguntando: ele sabe o que está escondido à vista de todos e não apenas no escuro? Ele conhece não apenas os pontos fortes da Rússia no novo mundo de hoje, mas também suas fraquezas? Deixe-me enumerá-las.

A Rússia está no processo de assumir à força um país livre com uma população de 44 milhões de pessoas, que é um pouco menos de um terço do tamanho da população da Rússia. E a maioria desses ucranianos luta para fazer parte do Ocidente democrático e de livre mercado há 30 anos, e já forjou inúmeros laços comerciais, culturais e de internet com empresas, instituições e mídia da União Europeia.

Sabemos que Putin melhorou muito as Forças Armadas da Rússia, adicionando tudo, desde capacidades de mísseis hipersônicos a ferramentas avançadas de guerra cibernética. Ele tem o poder de fogo para colocar a Ucrânia de joelhos. Mas nesta era moderna nunca vimos um país não livre, a Rússia, tentar reescrever as regras do sistema internacional e assumir um país livre tão grande quanto a Ucrânia – especialmente quando o país não livre, a Rússia, tem uma economia que é menor que a do Texas.

Então pense nisso: graças à rápida globalização, a UE já é o maior parceiro comercial da Ucrânia – não a Rússia. Em 2012, a Rússia foi o destino de 25,7% das exportações ucranianas, em comparação com 24,9% destinados à UE. Apenas seis anos depois, após a brutal tomada da Crimeia pela Rússia, o apoio aos rebeldes separatistas no Leste da Ucrânia e o estabelecimento de laços mais estreitos com a UE, econômica e politicamente, “a participação da Rússia nas exportações ucranianas caiu para apenas 7,7%, enquanto a participação da UE subiu para 42,6%”, segundo uma análise recente publicada pelo Bruegel.org.

Se Putin não desembaraçar esses laços, a Ucrânia continuará caindo nos braços do Ocidente – e se ele os desembaraçar, estrangulará a economia da Ucrânia. E se a UE boicotar uma Ucrânia controlada pela Rússia, Putin terá que usar o dinheiro da Rússia para manter a economia da Ucrânia à tona.

Isso foi levado em conta em seus planos de guerra? Não parece. Ou como um diplomata russo aposentado em Moscou me disso em um e-mail: “Diga-me como essa guerra termina? Infelizmente, não há ninguém em nenhum lugar para perguntar.”

Mas todos na Rússia poderão assistir. À medida que essa guerra se desenrola no TikTok, Facebook, YouTube e Twitter, Putin não pode proteger sua população russa – muito menos o resto do mundo – das imagens horríveis que sairão dessa guerra ao entrar em sua fase urbana. Apenas no primeiro dia da guerra, mais de 1.300 manifestantes em toda a Rússia, muitos deles gritando “Não à guerra”, foram detidos, informou o Times, citando um grupo de direitos humanos. Esse número não é pequeno em um país onde Putin tolera pouca dissidência.

E quem sabe como essas imagens afetarão a Polônia, principalmente quando ela for invadida por refugiados ucranianos. Menciono particularmente a Polônia porque é a principal ponte terrestre da Rússia para a Alemanha e o resto da Europa Ocidental. Como o estrategista Edward Luttwak apontou no Twitter, se a Polônia apenas parasse o tráfego de caminhões e trens da Rússia para a Alemanha, “como deveria”, isso criaria um caos imediato para a economia da Rússia, porque as rotas alternativas são complicadas e precisam passar por uma agora muito perigosa Ucrânia.

Alguém está disposto a uma greve de caminhoneiros anti-Putin para impedir que mercadorias russas entrem e passem pela Europa Ocidental por meio da Polônia? Observe isso. Alguns cidadãos poloneses superpoderosos com algumas barreiras, picapes e smartphones podem sufocar toda a economia da Rússia neste mundo conectado.

Esta guerra sem paralelo histórico não será um teste de estresse apenas para os EUA e seus aliados europeus. Também será para a China. Putin basicamente jogou a luva para Pequim: “Você vai ficar com aqueles que querem derrubar a ordem liderada pelos americanos ou se juntar ao destacamento do xerife dos EUA?”

Essa não deveria ser – mas é – uma pergunta dolorosa para Pequim. “Os interesses da China e da Rússia hoje não são idênticos”, Nader Mousavizadeh, fundador e CEO da consultoria global Macro Advisory Partners, me disse. “A China quer competir com os Estados Unidos no Super Bowl da economia, inovação e tecnologia – e acha que pode vencer. Putin está pronto para incendiar o estádio e matar todos nele para satisfazer suas queixas”.

O dilema para os chineses, acrescentou Mousavizadeh, “é que sua preferência pelo tipo de ordem, estabilidade e globalização que permitiu seu milagre econômico está em forte tensão com seu autoritarismo ressurgente em casa e sua ambição de suplantar os EUA – seja pela força da China ou a fraqueza americana – como a superpotência dominante do mundo e definidora de regras.”

Tenho poucas dúvidas de que, em seu coração, o presidente da China, Xi Jinping, espera que Putin consiga sequestrar a Ucrânia e humilhar os EUA – tanto melhor para suavizar o mundo por seu desejo de tomar Taiwan e fundi-lo de volta à pátria chinesa .

Mas Xi não é bobo nem nada. Aqui estão alguns outros fatos interessantes do mundo conectado: primeiro, a economia da China é mais dependente da Ucrânia do que a da Rússia. Segundo a Reuters, “a China ultrapassou a Rússia para se tornar o maior parceiro comercial da Ucrânia em 2019, com o comércio totalizando US$ 18,98 bilhões no ano passado, um salto de quase 80% em relação a 2013. A China se tornou o maior importador de cevada ucraniana na comercialização de 2020-21 ano”, e cerca de 30% de todas as importações de milho da China no ano passado vieram de fazendas na Ucrânia.

Em segundo lugar, a China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial da União Europeia em 2020, e Pequim não pode pagar pela UE estar envolvida em um conflito com uma Rússia cada vez mais agressiva e um Putin instável. A estabilidade da China depende – e a legitimidade do Partido Comunista no poder depende – da capacidade de Xi de sustentar e aumentar sua mastodôntica classe média. E isso depende de uma economia mundial estável e crescente.

Não espero que a China imponha sanções à Rússia, muito menos arme os ucranianos, como os EUA e a UE. Tudo o que Pequim fez até agora foi murmurar que a invasão de Putin “não era o que esperávamos ver” – enquanto rapidamente insinuava que Washington era o “culpado” por “atiçar chamas” com a expansão da Otan e seus recentes alertas de um iminente ataque russo.

Portanto, a China está obviamente dividida, mas das três principais superpotências com armas nucleares - EUA, China e Rússia - a China, pelo que diz ou não diz, tem um peso muito grande na decisão se Putin se safa ou não de sua fúria contra a Ucrânia.

Liderar é escolher, e se a China tem qualquer pretensão de suplantar os EUA como líder mundial, terá que fazer mais do que murmurar.

Finalmente, há algo mais que Putin encontrará escondido à vista de todos. No mundo interconectado de hoje, a “esfera de influência” de um líder não é mais um direito da história e da geografia, mas é algo que deve ser conquistado e reconquistado todos os dias, inspirando e não obrigando outros a segui-lo.

A musicista e atriz Selena Gomez tem o dobro de seguidores no Instagram – mais de 298 milhões – do que a Rússia tem cidadãos. Sim, Vladimir, posso ouvir você rindo daqui e ecoando a piada de Stalin sobre o papa: “Quantas divisões tem Selena Gomez?”

Ela não tem nenhuma. Mas ela é uma influenciadora com seguidores, e existem milhares e milhares de Selenas por aí na World Wide Web, incluindo celebridades russas que estão postando no Instagram sobre sua oposição à guerra. E embora eles não possam reverter seus tanques, eles podem fazer com que todos os líderes do Ocidente enrolem o tapete vermelho para você, para que você e seus comparsas nunca possam viajar para seus países. Você agora é oficialmente um pária global. Espero que goste de comida chinesa e norte-coreana.

Por todas essas razões, neste estágio inicial, vou arriscar apenas uma previsão sobre Putin: Vladimir, o primeiro dia desta guerra foi o melhor dia do resto de sua vida. Não tenho dúvidas de que, no curto prazo, suas Forças Armadas prevalecerão. Mas, a longo prazo, os líderes que tentam enterrar o futuro com o passado não se saem bem. A longo prazo, seu nome viverá na infâmia.

Eu sei, eu sei, Vladimir, você não se importa – não mais do que você se importa por ter começado essa guerra no meio de uma pandemia furiosa. E eu tenho que admitir que isso é o que é mais assustador nesta World War Wired. O longo prazo pode estar muito longe e o resto de nós não está isolado de sua loucura. Ou seja, eu gostaria de poder prever alegremente que a Ucrânia será o Waterloo de Putin – e somente dele. Mas não posso, porque em nosso mundo conectado, o que acontece em Waterloo não fica em Waterloo.

De fato, se você me perguntar qual é o aspecto mais perigoso do mundo de hoje, eu diria que é o fato de Putin ter mais poder descontrolado do que qualquer outro líder russo desde Stalin. E Xi tem mais poder descontrolado do que qualquer outro líder chinês desde Mao. Mas na época de Stalin, seus excessos eram em grande parte confinados à Rússia e às fronteiras que ele controlava. E na época de Mao, a China estava tão isolada que seus excessos tocavam apenas o povo chinês.

Não mais - o mundo de hoje está baseado em dois extremos simultâneos: nunca os líderes de duas das três nações nucleares mais poderosas - Putin e Xi - tiveram poder tão descontrolado e nunca mais pessoas de um extremo ao outro do mundo estiveram tão conectadas. Assim, o que esses dois líderes decidirem fazer com seu poder descontrolado afetará praticamente todos nós, direta ou indiretamente.

A invasão da Ucrânia por Putin é o nosso aperitivo real de quão louco e instável esse tipo de mundo conectado pode ficar. Não será o nosso último.


Contra as democracias

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Nikolai Patrushev é o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Rússia e o principal ideólogo da “turma” de Vladimir Putin, um grupo de ex-membros da KGB que comanda o governo. Sua visão básica: o Ocidente pretende esmagar a Rússia, impondo-lhe “agressivamente os valores neoliberais que contradizem nossa visão de mundo” (citado em The Economist, edição de 19 a 25 de fevereiro).

Qual visão de mundo? Não é a volta do comunismo, até por razões pessoais. É dinheiro. Esses ex-agentes da KGB, como o próprio Putin, acumularam fortunas quando caiu o regime soviético e foram introduzidas reformas capitalistas. Acumularam não pela capacidade como investidores. Foi roubo.

Primeiro, nas privatizações das grandes estatais. Aqueles funcionários tiveram acesso privilegiado a informações e a “moedas de privatização”, como títulos da dívida pública, vendidos a preço de banana e aceitos a preço de ouro na compra das estatais.

Depois, seguiram ganhando concessões “informais” de negócios nas áreas de energia, infraestrutura e bancos, principalmente.

Em resumo, um caso de capitalismo de amigos, levado ao limite.

Ao mesmo tempo, porém, foram introduzidas reformas capitalistas, como amplo direito à propriedade privada de bens e serviços, proteção do lucro e abertura de negócios para o exterior. Há uma política econômica baseada em metas de inflação, controle das contas públicas e taxa de câmbio mais ou menos flutuante. Com empresas privadas e seus acionistas, a Bolsa de Valores de Moscou passou a ser um alvo de investidores ocidentais.

Nesse quadro, surgiram magnatas não oriundos do regime soviético, mas investidores e negociantes que souberam aproveitar oportunidades na Rússia e, depois, em toda a Europa Ocidental. A formação de uma classe média cosmopolita foi a consequência direta — classe que se sente europeia.

Por que, então, o ideólogo de Putin tem tamanha bronca dos “valores neoliberais”? Ele se refere a direitos e liberdades individuais. Na visão de mundo de Putin e sua turma, a democracia à ocidental é ineficiente, incapaz de gerir a economia e a sociedade.

Dito de maneira direta: oposição só cria caso e atrapalha o governo; imprensa livre só serve para inventar fake news; as minorias são um estorvo; liberdade partidária divide o povo.

Essa é também a visão de mundo da China. Quando as democracias ocidentais enfrentavam dificuldades para lidar com crises financeiras e com a pandemia, o presidente Xi Jinping decretou o fim desse “modelo” e o sucesso do modo chinês de administrar um capitalismo de Estado.

De certo modo, Putin cometeu um erro ao acreditar demasiado nessa versão. Para ele, as democracias ocidentais — com suas liberdades dentro e fora dos países — jamais conseguiriam se unir para enfrentar seu expansionismo.

Foi o contrário, pelo que se vê até agora. Entre as principais democracias, é praticamente unânime a condenação da Rússia e o acordo para impor pesadas sanções econômicas a governo, empresas e indivíduos.

Sim, o Ocidente também pagará um preço pelo bloqueio aos negócios russos, mergulhados principalmente na economia europeia. Mas a ideia é provocar uma reação das elites empresariais russas e da classe média.

Até agora, as elites, em privado, manifestavam desagrado com o regime. Mas, como estavam ganhando dinheiro e em expansão, bom, deixa pra lá. Declaravam-se neutras e não se metiam em política.

Mas, se a economia russa for levada a uma forte recessão e perda de riqueza, muita gente por lá vai cogitar: tudo isso para anexar a Ucrânia? Tudo isso para alimentar as ambições sanguinárias de Putin?

Não existe a possibilidade de uma invasão à Rússia para derrubar o governo Putin. Seria iniciar uma guerra mundial nuclear. Mas é real a possibilidade de os próprios russos perceberem os danos causados pela turma de Putin.

Também é real a possibilidade de Putin endurecer ainda mais o regime ao se sentir pressionado internamente. Esse é um problema que os russos terão de resolver.


Ambos acham que sabem o que falam.

 Carlos Brickmann 

 O presidente Bolsonaro atravessou metade do mundo para se solidarizar com o indefensável Putin. O vice-presidente Mourão se opôs: ele, general de quatro estrelas, acha que a Rússia tem de ser contida à força.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, que inclui os EUA, tem poder para derrotar a Rússia. Só há um problema: o poderio russo, que inclui foguetes intercontinentais e bombas de hidrogênio, não é suficiente para ganhar a guerra, mas pode destruir seus inimigos. A Rússia, como os Estados Unidos, tem uma quantidade de armas capaz de destruir o mundo mais de uma vez – o nome militar disso é “overkill”, exagero de mortes. Como disse Albert Einstein, a Terceira Guerra Mundial seria travada com as armas nucleares. Já a Quarta Guerra seria travada com paus e pedras, tudo o que teria restado no mundo após o conflito atômico.

Bolsonaro falou besteira: ao se solidarizar com Putin, pôs o Brasil no mesmo balaio de China, Venezuela e Cuba, regimes que odeia. Para agradar a Putin, seu tipo inesquecível, autoritário, metido a machão, que consegue mandar no Parlamento e na Justiça, afastou-se politicamente do Ocidente e hoje não conseguiria nem badalar seu também ídolo Donald Trump. Mourão, que há tempos se desentendeu com Bolsonaro, não aproveitou a chance de defender a única saída viável, a de busca da paz. Não explicou, também, como conter a Rússia à força.

Quem colocaria o guizo no pescoço do gato?

No dia de hoje

Putin, por enquanto, dá um baile nos líderes ocidentais. Preparou-se com calma para a crise, reforçando as reservas russas de divisas e fazendo da Rússia um dos maiores fornecedores de gás natural e petróleo para a Europa. Já a OTAN acompanhou por quatro meses a concentração de tropas e nada fez. Mas, caso a guerra se prolongue, as sanções ocidentais talvez tenham efeito: bloqueio de operações financeiras, apreensão de navios nos portos, proibição de vendas essenciais às empresas russas. Nada decisivo, mas obriga os agressores a desviar a atenção da guerra e a cuidar da própria vida.

Por que se luta

Além de problemas políticos e ideológicos, há motivos econômicos para ocupar a Ucrânia. O país tem grandes reservas de urânio, titânio, manganês, ferro, mercúrio, xisto (do qual se extrai petróleo e gás), carvão. Suas terras são extremamente férteis – estima-se que possam garantir alimentação a 600 milhões de pessoas. A capacidade industrial é grande, até mesmo para lançar satélites. Se o motivo da invasão for econômico, o prêmio é grande.

O retrato de agora

Faltam dez meses para as eleições, e isso é muito tempo. Até uma semana antes das eleições de 1988 em São Paulo, Maluf era favorito, João Mellão era o segundo, Erundina estava em quarto. Ela se elegeu. Tancredo ganhou, na véspera da posse precisou ser operado e Sarney foi o presidente. Enfim, a fotografia de hoje mostra Lula muito próximo de ser eleito no primeiro turno, com mais votos do que todos os adversários somados. A pesquisa é do Ipespe e mostra Lula com 43%, contra 26% de Bolsonaro, 8% de Moro, 7% de Ciro e os outros bem abaixo. Há outras indicações ruins para Bolsonaro: quase 70% acham que a política econômica está errada; no segundo turno, perderia para Ciro, Moro e até Doria – no caso, um empate técnico, mas a contagem é Doria 39 x Bolsonaro 36.

E, antes que resolvam implicar, sei que houve muitas pesquisas erradas na história. Truman iria perder de Thomas Dewey, por exemplo, e ganhou. Mas, se pesquisa não serve para nada, por que empresas privadas gastam tanto pesquisando a aceitação de seus produtos?

Ruim para Bolsonaro 1

O Instituto Brasileiro de Mineração, Ibram, que reúne as treze maiores mineradoras do país, inclusive a Vale, passa agora a ser dirigido por Raul Jungmann, que foi ministro da Reforma Agrária de Fernando Henrique e, com Michel Temer, ministro da Defesa e ministro extraordinário da Segurança Pública. Bolsonaro não gosta dele, embora tenha sido seu colega na Câmara Federal. E, ao que se saiba, é correspondido.

Ruim para Bolsonaro 2

Tarcísio de Freitas, ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, que o aprecia  a ponto de querer transformá-lo em governador de São Paulo (ele pretende se candidatar, assim que descobrir onde fica o estado), foi apanhado numa gravação constrangedora: diz a caminhoneiros que iria “dar um tempo em fiscalizações desnecessárias”. Entre elas, aquele perigosíssimo monstrengo que é o caminhão arqueado, em que a traseira fica muito mais alta que a dianteira e que é inseguro a qualquer velocidade.

Tarcísio, depois de contar que vai compor um grupo de trabalho com Silvinei Vasques, diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, “para eliminar o que está enchendo o saco, gerando autuação e não contribui para a segurança”, revela que a fiscalização será seletiva. O Ministério Público Federal já abriu inquérito sobre o caso.

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Putin já foi o motorista Vladimir

 Elio Gaspari

O Globo

Esse anônimo burocrata, que viu o fim do império soviético e a exaustão do Estado russo, governa o país há 22 anos com mão de ferro

Outro dia, antes do início da guerra na Ucrânia, o jornalista americano Thomas Friedman escreveu que o melhor lugar para se acompanhar a crise é tentando entrar “na cabeça de Vladimir Putin”.

Diversas pessoas já tentaram mapear essa cabeça, da alemã Angela Merkel à ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright. O presidente russo é frio como cobra.

Em dezembro de 1989 ele estava na sede da KGB, em Dresden, na falecida Alemanha Oriental, quando uma multidão se aproximou da casa. Ele foi para o portão, disse que era um intérprete e recomendou que fossem embora, do contrário seus compatriotas atirariam. Deu certo, mas não havia atiradores.

Dois anos depois a Alemanha Oriental se acabara, a União Soviética derretera e a Rússia perdera cerca da metade de seu Produto Interno. Putin havia voltado para São Petersburgo e trabalhava com o prefeito da cidade. Para fechar o orçamento familiar, fazia bicos como motorista. Lembrando essa época numa entrevista, foi breve: “É desagradável falar sobre isso, mas infelizmente foi o caso”.

Esse anônimo burocrata, que viu o fim do império soviético e a exaustão do Estado russo, governa o país há 22 anos com mão de ferro. Fortaleceu a economia e reequipou suas Forças Armadas. (Em 1991 o quartel do regimento Preobrazhensky, criado no século XVIII e provado em todas as guerras russas, estava aos pandarecos. No dia de hoje, há 105 anos, os amotinados do regimento aderiram à Revolução Democrática de Fevereiro. Dias depois o czar Nicolau II abdicou.)

Vendo-se a figura de Putin nos salões da Rússia imperial, vale a pena lembrar que Vladimir já teve que trabalhar como chofer para fechar as contas.

Mourão e 1938

A referência do vice-presidente Hamilton Mourão ao xadrez diplomático de 1938, quando o primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain e muita gente do andar de cima inglês defendiam uma política de “apaziguamento” com Hitler, ecoa um livro que saiu em 2019 nos Estados Unidos. Chama-se “Appeasement” (“Apaziguamento”), do historiador inglês Tim Bouverie. Magnificamente pesquisado, ele mostra friamente como e porque Chamberlain construiu a política que o levou a Munique, onde entregou parte da Tchecoslováquia aos alemães. Tinha o apoio da cúpula militar e dos principais jornais ingleses.

Faltava-lhe a simpatia de um leão: Winston Churchill. Ele assumiria o cargo de primeiro-ministro em 1940.

Com o tempo, a conta do apaziguamento foi toda para Chamberlain. Bouverie mostra que não foi bem assim. Em julho de 1938, Lord Halifax, ilustre conservador e ministro das Relações Exteriores, disse a um ajudante de ordens de Hitler que gostaria de ver o Führer em Londres, sendo aplaudido ao lado do rei George VI. Em setembro, Chamberlain foi a Munique e acertou-se com Hitler.

Dias depois a tropa alemã ocupou parte da Tchecoslováquia e em março de 1939 tomou o resto.

Problemas para amanhã

Na melhor das hipóteses, a invasão da Ucrânia criou dois problemas para amanhã. Cada um para um lado da questão:

Putin deverá lidar com o movimento de resistência dos nacionalistas ucranianos.

Os países europeus deverão lidar com centenas de milhares, senão milhões, de refugiados em busca de fronteiras que estiverem abertas para recebê-los.

Aqui canta o sabiá

O presidente Joe Biden ameaça transformar Putin num “pária”.

Na terra das palmeiras, onde canta o sabiá, o chanceler Ernesto Araújo orgulhava-se dessa condição.

Prazo de validade

De quem já viu de tudo:

Putin tem no máximo uma semana para se livrar do peso de suas operações militares e iniciar conversações diplomáticas, mesmo que as conduza em segredo.

Em 1962, a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba começou no dia 22 de outubro com o presidente americano John Kennedy anunciando o bloqueio naval de Cuba.

O mundo passou dias à beira de uma guerra e parte da liderança soviética deixou Moscou.

No dia 27, o embaixador soviético Anatoly Dobrynin encontrou-se com Robert Kennedy, irmão do presidente. O diplomata ofereceu a retirada dos mísseis e pediu que os americanos tirassem seus foguetes da Turquia (eram 15). Fecharam negócio, mas o lado turco do acerto deveria ficar em segredo, pois o país era membro da Otan.

No dia seguinte Moscou anunciou a retirada dos mísseis.

Shannon disse tudo

Thomas Shannon, ex-embaixador americano no Brasil e ex-subsecretário de Estado, disse tudo na sua entrevista à repórter Janaína Figueiredo:

— Ainda não vejo uma terceira guerra mundial. Mas teremos enormes tensões de segurança na Europa. Os EUA e a Otan tomaram a decisão certa de não transformar a Ucrânia num campo de batalha. Mas a Otan deverá repensar seus propósitos, e a União Europeia também. O que estamos vendo deve lembrar que a Rússia não pode ser esquecida e que ainda tem um poder global significativo. Isso deve ser entendido.

Em 1965 ele estava perto do olho do furacão quando o presidente Lyndon Johnson ordenou a invasão da República Dominicana. O Brasil apoiou a iniciativa e mandou tropas para lá. Ao final, a intervenção foi bem-sucedida.

Inexplicável

Está numa das gavetas de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, o ato de posse do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, eleito há dois anos.

Entre as suas atribuições, está a de realizar estudos, pareceres e outras solicitações encaminhadas pelos parlamentares sobre liberdade de expressão, monopólio e oligopólio dos meios de comunicação e sobre a programação das emissoras de rádio e TV.

Seus 13 integrantes foram eleitos em março de 2020, veio a pandemia e foi suspenso o trabalho das comissões do Congresso.

Num ano de campanha eleitoral, com a inevitável disseminação de mentiras, o funcionamento dessa comissão teria alguma utilidade, até porque seu congelamento é inexplicável.

Risco evangélico

Se o senador Rodrigo Pacheco acelerar a tramitação do projeto que legaliza a jogatina, aprovado na Câmara, e se o presidente Bolsonaro vier a sancioná-lo, vai-se embora um pedaço de sua base eleitoral evangélica.

Ele já prometeu vetar a iniciativa, mas tanto Bolsonaro como o ministro Paulo Guedes já flertaram com a ideia da jogatina em cassinos apelidando-os de resorts.

Planos de saúde no STJ

As operadoras de planos de saúde cuidam tão pouco de suas próprias imagens que podem ser acusadas de tudo e serão carimbadas como culpadas.

Está em curso no Superior Tribunal de Justiça um julgamento que trata da obrigatoriedade de cobertura para tratamentos que não estão arrolados pela Agência Nacional de Saúde. Por exemplo, um tratamento para crianças autistas.

Nada a ver. O caso dos autistas não está em questão e, quando estiver, terá caducado.

Ademais, o que o tribunal está decidindo é a obrigatoriedade da cobertura para tratamentos cientificamente comprovados. Se não há a eficácia científica (como é o caso da cloroquina, que alguns planos empurravam nos pacientes) não pode haver obrigatoriedade. E está decidindo a favor da clientela.

O julgamento foi suspenso por um pedido de vista. Até lá, o melhor a se fazer é brigar para que a lista da ANS reflita o progresso da ciência.


A guerra de Putin deixou o Brasil de Bolsonaro mais vulnerável

 José Casado 

Veja online

Preços em alta, incertezas de abastecimento e BC separando reservas para proteger o real: eleição vai avançar em ambiente economicamente minado

 — Johanna Geron/AFP 

Se efetivado o bloqueio na escala enunciada por Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, a partir de hoje a Rússia começa a ficar financeiramente aleijada no comércio exterior, com o congelamento de quase toda suas reservas, estimadas em US$ 630 bilhões 

O bloqueio das operações do Banco Central da Rússia, anunciado ontem à noite pelos Estados Unidos e a União Europeia, deu dimensão global à guerra de Vladimir Putin na Ucrânia.

Se efetivado na escala enunciada por Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, haverá congelamento da quase totalidade das reservas russas depositadas no exterior — estimadas em US$ 630 bilhões.

Com o Banco Central imobilizado, sem poder concluir pagamentos nas transações públicas e privadas de compra e venda, a consequência previsível é de aumento exponencial dos custos para se realizar negócios de qualquer natureza dentro da Rússia — das estruturadas negociações empresariais ao simples pagamento de um jantar com cartão de crédito.

A cereja do bolo no pacote de sanções econômicas de ontem foi o anúncio da suspensão de alguns bancos russos do sistema internacional de mensagens financeiras (SWIFT). O sistema bancário perderia parte da sua capacidade de intermediar exportações e importações. A partir de hoje, a Rússia ficaria financeiramente aleijada no comércio exterior.

É conflito econômico de repercussão planetária. O Brasil, é inevitável, será diretamente afetado, tanto pelos aumentos de preços quanto pelas incertezas no abastecimento de produtos importados essenciais.

A três meses do início da safra (2022/2023), o agronegócio brasileiro está em xeque. O país é totalmente dependente das importações de fertilizantes, compra no exterior nada menos que 90% do que consome na adubagem das lavouras.

Depende muito do suprimento de insumos agrícolas de quatro países que estão na zona de conflito — Rússia, Bielorrússia, Ucrânia e Lituânia. Quase metade (48%) do potássio tem sido adquirido de fornecedores russos e bielorrussos. A dependência da Rússia em nitrato de amônio é total (98%).

Os aumentos de preços tendem a se espraiar. Petróleo, trigo e milho, entre outros, estão subindo desde o dia da invasão da Ucrânia.

Ganha forma o risco de aumento da inflação durante toda a temporada eleitoral, em comparação com o ano passado (10%), por efeito de reajustes de preços em produtos como gasolina, diesel, gás, pão e carnes.

Há tempestade no horizonte: alta das cotações internacionais e do custo doméstico de produção, combinada com dificuldades no suprimento. As rotas de comércio marítimo estão sendo alteradas por causa do conflito — na sexta-feira, um navio cargueiro da Cargill foi bombardeado no Mar Negro.

A guerra de Putin vai custar caro à Rússia, indicam as sanções anunciadas ontem. Mas as sequelas econômicas serão globais.

A guerra de Putin deixou o Brasil de Jair Bolsonaro ainda mais vulnerável. Num exemplo, o Banco Central atravessou a semana separando uma fatia das reservas cambiais, que somam R$ 350 bilhões, para tentar blindar a moeda, o real, de ataques especulativos.

A campanha eleitoral vai avançar num ambiente economicamente minado pela  insatisfação do eleitorado.


Com mais de 530 células, concentradas no Sul e Sudeste, Brasil é o país onde extremismo de direita mais avança

 Janaína Figueiredo

O Globo

Monitoramento do Observatório da Extrema Direita aponta que São Paulo é o estado com maior presença desses grupos, chegando a um total de 137, dos quais 51 estão na capital

 Foto: Mateus Valadares / Reprodução

Bandeira do Brasil em preto e branco com símbolos da suástica 

RIO - Quando figuras como Bruno Aiub, o Monark, defendem aberta e publicamente o nazismo — no caso específico do YouTuber, a criação de um partido nazista no Brasil —, elas falam para um público que vem se expandindo de forma expressiva nos últimos anos. Dados da ONG Anti-Defamation League (ADL) mostram que hoje o Brasil é o país no mundo onde mais cresce o número de grupos de extrema direita, concentrados, de acordo com monitoramento do Observatório da Extrema Direita (formado por acadêmicos de mais de dez universidades brasileiras e de outros países) e de pesquisa da professora Adriana Dias, da Universidade de Campinas (Unicamp), nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Os últimos dados em mãos dos pesquisadores consultados, passados com exclusividade para O GLOBO, confirmam que São Paulo é o estado com maior presença de grupos, chegando a um total de 137, dos quais 51 estão na capital. Também foram encontradas células de extrema direita em Piracicaba, Campinas, Ribeirão Preto e São Carlos.

Em todo o país, já são mais de 530 células extremistas que, em relatório feito nos primeiros meses deste ano, Adriana dividiu em categorias, de acordo com suas ideologias, como Hitlerista/Nazista, Negação do Holocausto, Ultranacionalista Branco, Radical Catolicismo, Fascismo, Supremacista, Criatividade Brasil, Masculinismo Supremacia Misógina e Neo-Paganismo racista. Em 2019, a especialista detectou 334 células.

No Rio de Janeiro, foram encontrados 36 grupos, 15 deles na capital. Entre os bairros cariocas com maior presença de células de extrema-direita estão Méier, Tijuca e Copacabana. Em Niterói, os pesquisadores identificaram outras duas agrupações. Uma delas se apresenta como Cali, e foi responsável pelo ataque à produtora do grupo de humor Porta dos Fundos, em 2019.

— Desde 2018, o Brasil se transformou no país com maior crescimento de grupos de extrema direita. Este fenômeno tem a ver com a eleição de Jair Bolsonaro que, num nível subterrâneo, está vinculado a estas ideologias. Hoje, estima-se que 15% dos brasileiros são de extrema direita — afirma Michel Gherman, membro do Observatório da Extrema Direita, professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Instituto Brasil-Israel.

Gherman afirma que a eleição de Bolsonaro criou no Brasil uma “Disneylândia do neonazismo”, pois os que o defendem “passaram a se sentir mais à vontade”.

Segundo o professor, apesar de muitos grupos já existirem antes de 2018, o que se observava era “algo periférico”, sem a legitimidade de agora. A opinião é compartilhada por Karl Schuster, professor das Universidades de Pernambuco e Vigo, na Espanha:

— Estas mais de 530 células ganharam autorização para aparecer. A pergunta fundamental não é se estes grupos são ou não fascistas, e sim por que eles trazem para si aspectos do fascismo histórico. O que eles ganham se aproximando desses discursos?

Schuster é especialista em História Contemporânea e acaba de lançar, junto a Francisco Carlos Teixeira, o livro “Passageiros da tempestade: fascistas e negacionistas no tempo presente”.

— Estes grupos seguem o princípio da alteridade, de negar o outro. Muitos negam o Holocausto, outros dizem que o Holocausto foi o único erro do fascismo histórico. Querem ressignificar o sentimento de culpa — diz Schuster.

O fascismo, diz o especialista, atrai nas redes um público cada vez maior. O importante, reflete, é tentar entender por que tantas pessoas se aproximam desse discurso, e por que estes grupos estão crescendo. O professor, que também monitora o avanço da extrema direita, diz que, além de grupos, há os chamados lobos solitários, como em Pernambuco. Ele observa a necessidade de saber se tais lobos estão em contato com redes dentro e fora do Brasil.

O professor de História Contemporânea da UFJF, Odilon Caldeira, autor do livro “O fascismo em camisas verdes”, também encontrou grupos de extrema direita no Ceará, a maioria em Fortaleza. Ele afirma que “a extrema direita veio pra ficar no Brasil” e que ela busca permanentemente referências internacionais, articulações e incorporar agendas da extrema direita global:

— Nossa extrema direita tem várias facetas, vertentes, origens e tradições históricas. Um setor busca se articular em torno de Bolsonaro, mas outros vão além. Incorporam a teoria política russa, ucraniana, americana e do centro da Europa. Mesmo se Bolsonaro não se reeleger, a extrema direita permanecerá — frisa.

Como no resto do mundo, os grupos atuantes no Brasil debatem em redes sociais nas quais se sentem mais protegidos, principalmente Telegram e VK (Vkontakte), com sede em São Petersburgo, na Rússia, que acaba de ser comprada (ou seja, nacionalizada) pelo governo de Vladimir Putin. A VK, também chamada de Facebook russo, foi fundada em 2006 pelo atual proprietário da Telegram, Pavel Durov, e tem cerca de 47 milhões de usuários russos, de acordo com dados da empresa. Putin usou uma das principais fontes de renda do Estado russo, a estatal de gás Gazprom, para adquirir uma companhia, que sempre esteve na mira de seu governo.

Em ambas as redes, não existe controle sobre a publicação de conteúdo e os usuários podem declarar livremente, sem medo a qualquer tipo de punição ou bloqueio de conta, o que pensam sobre qualquer coisa. Como explica Karina Stange Caladrin, 

pesquisadora do Instituto Brasil/Israel e coordenadora de Juventude da Fundação B-nai B-rith, organização internacional de defesa dos direitos humanos, “o Brasil é parte de uma onda internacional de proliferação de grupos de extrema direita, muito forte na Rússia, Hungria, Ucrânia, Polônia e EUA”.

— Existem grupos antigos, e outros mais recentes. Todos têm crescido muito. Influenciadores como Monark e políticos como o deputado Kim Kataguiri têm um público grande, principalmente jovens, que se relacionam numa bolha — comentou a pesquisadora, que alerta para o grau de desinformação de muitos dos seguidores deste tipo de personalidades:

— Muitos têm um total desconhecimento sobre o que foi o nazismo, o que são neonazismo e comunismo. Um dos perigos é que nazismo, partindo dessa desinformação, passou a ser passível de defesa.

Existem, também, grupos mais organizados, intelectualizados e adoutrinados. No Rio, pesquisadores apontam relações entre grupos de extrema direita e milícias. A facilitação do acesso a armas desde que Bolsonaro assumiu a Presidência preocupa quem acompanha de perto os movimentos da extrema direita brasileira. Todos estes grupos são contrários a qualquer tipo de nova regulamentação para voltar a restringir o acesso a armas e munições.

Em São Paulo, lembra Gherman, a extrema direita começou a crescer e se fortalecer na década de 80, como reação ao movimento sindical.

— Houve, por exemplo, uma rejeição aos nordestinos, vistos como pessoas que tiravam espaço e empregos dos paulistanos “originais”. O anti-nordestinismo é fundamental para entender as origens mais recentes da extrema direita paulista — diz o pesquisador do observatório.

A eleição de Bolsonaro, conclui Gherman, foi possível, em grande medida, “porque no Sul e no Sudeste foram desinterditados o neonazismo e a extrema direita. Já o Nordeste protege o resto do Brasil, pois é onde a extrema direita tem dificuldade de penetrar. O melhor termômetro disso é a derrota de Bolsonaro na região, em 2018. O Nordeste tem uma história de resistência e, nos últimos anos, foi, majoritariamente, antifascista”.


A Rússia invade a Ucrânia, o mundo reage e Bolsonaro está em outro planeta

 Eliane Cantanhêde*, 

O Estado de S.Paulo

No dia da invasão, o presidente deu duas entrevistas, mas falou de futebol e não deu uma palavra sobre o conflito

  Foto: Isac Nóbrega/Presidência da República

Enquanto o mundo afunda em ameaças e incertezas 

com a guerra na Ucrânia, Bolsonaro faz motociatas.  

Enquanto a Bahia afundava em dor, lama e mortes, o presidente Jair Bolsonaro gastava R$ 900 mil para andar de jet ski no lindo mar azul de Santa Catarina. Enquanto o mundo afunda em ameaças e incertezas com a guerra na Ucrânia, Bolsonaro faz motociatas por aí. Para que serve um presidente? Para curtir a vida e fazer campanha?

Na definição do ex-chanceler Celso Amorim, a posição brasileira é “esquizofrênica”. Bolsonaro lava as mãos, como quem não tem nada a ver com isso, o vice Hamilton Mourão radicaliza, defendendo o “uso da força” contra a Rússia, e o Itamaraty faz contorcionismos em busca de racionalidade.

Essa “esquizofrenia” tem origem na incapacidade de Bolsonaro de presidir o País e na certeza de que Vladimir Putin não invadiria a Ucrânia. Por isso, Bolsonaro manteve a ida a Moscou quando o mundo já dava a guerra como certa e o Itamaraty não orientou os brasileiros que vivem na Ucrânia a deixarem o país, a exemplo de vários outros.

A guerra pegou o Brasil de calças curtas. No dia da invasão, Bolsonaro deu duas entrevistas, mas falou de futebol e não deu uma palavra sobre Rússia e Ucrânia. À noite, desautorizou Mourão. No meio-tempo, disse num post que estava “totalmente empenhado” em proteger os 500 brasileiros na Ucrânia.

O Itamaraty corrigiu: não era bem assim. E, na live com Bolsonaro, o chanceler Carlos França disse que: (1) “já estamos elaborando um plano”. Como assim? Elaborando? Já deviam ter um há muito tempo e já começado a tirar as pessoas; (2) esperavam “condições ideais de segurança”. Durante a guerra? Não era melhor antes?; (3) por fim, pediu “paciência”. Não é pedir demais a quem está sob bombardeio?

  Foto: Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin

Eliane Cantanhêde: 'Na definição do ex-chanceler 

Celso Amorim, a posição brasileira é 'esquizofrênica''.  

Os EUA advertiram contra a ida de Bolsonaro a Moscou, reclamaram da “solidariedade” à Rússia e pediram o voto na ONU. Em entrevista inédita, embaixadores ou encarregados de negócios do G7 (países mais industrializados), da União Europeia e da Ucrânia cobraram uma posição firme do Brasil.

Apesar dos temores e de Bolsonaro, venceram os diplomatas, os militares e a pressão internacional, e o Brasil votou contra a Rússia no Conselho de Segurança da ONU. Depois, registrou que tentara amenizar o texto, mas só para inglês ver. Ou melhor, para russo ver. Durante todo o tempo e toda a tensão, o grande ausente foi... Jair Bolsonaro, que disputa a reeleição a uma Presidência que nunca ocupou.

Dida Sampaio

Numa cobertura na Venezuela, tive sinusite e febre alta e Dida Sampaio, apesar dos pesados equipamentos, carregava meu laptop e minha mala e cuidava dos lugares nos eventos e no avião militar para mim. Eternamente grata. Grande fotógrafo, querida pessoa.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Europa percebe tarde que detém pouco controle sobre seu destino

 Carlos Frederico de Souza Coelho* e Guilherme Moreira Dias*, 

O Estado de S.Paulo

Haverá um enorme desafio de convencer a sociedade europeia que um aumento de gastos em Defesa é necessário, algo recentemente visto com desconfiança e como desnecessário

  Foto: Stringer/ EFE

Soldados russos em direção à Ucrânia; 

conflito deverá gerar choque nos preços de commodities 

O ex-Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, conhecido pelo seu realismo e pragmatismo na seara da política externa, ao tratar da União Europeia, perguntou certa vez para quem deveria ligar, se quisesse tratar de assuntos internacionais de importância.

A crítica implícita na pergunta ganha novos contornos em face do atual conflito na Ucrânia, que desafia os países europeus a apresentarem uma resposta uníssona e efetiva em matéria de Defesa.

Com efeito, a Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da União Europeia trazida pelo Tratado de Maastricht (1992) como um de seus pilares é historicamente uma área de difícil colaboração e coordenação, problema que não foi resolvido com a criação do cargo de Alto Representante para a PESC em 1999.

Notadamente, as dificuldades apenas aumentaram com as recentes pressões à integração europeia, entre as quais está incluída a saída do Reino Unido do bloco.

A análise de gastos em Defesa dos países europeus mostra que se em 1990 os países da União Europeia gastavam cerca de 2,5% de suas economias em Defesa, tal número hoje é mais próximo de 1,5%, abaixo dos 2% recomendados pela Otan como patamar mínimo necessário. Esta diferença  corresponde a 85 bilhões de dólares anuais. 

Não por acaso, em meio a sua histriônica condução da política externa americana, Donald Trump fez questão de contestar a conduta europeia em relação a Otan, colocando os tradicionais parceiros contra a parede e deixando claro que o eixo central dos interesses dos EUA tinha sido deslocado para a Ásia.

Talvez a mensagem tenha se perdido em meio ao personagem, mas o então Presidente dos EUA não poderia ter sido mais claro quando advertiu a Alemanha quanto à necessidade aumentar os seus gastos em Defesa. 

As sucessivas reduções de tropas americanas no continente europeu acentuaram a necessidade de a Europa encontrar soluções próprias para a sua defesa coletiva.

A contínua dependência do artigo 5 da Otan, que estabelece o compromisso coletivo de defesa em caso de ataque armado a um de seus membros, parece pouco para o continente europeu dormir tranquilo, em especial no que se refere aos seus membros orientais.

A ação russa causa apreensão em membros mais recentes da União Europeia e da Otan e um cenário possível para o deslinde da hoje questão ucraniana é aquele no qual a Rússia testará a resiliência e apetite destas organizações quanto à contenção de possíveis pretensões expansionistas. 

As sanções atualmente em discussão, embora importantes, não parecem ter o condão de impedir qualquer conduta beligerante. Por sua vez, Moscou sabe que é responsável por mais de 40% do gás e do carvão que aquecem e fazem girar a economia europeia, e não hesita em usar tal dependência como anteparo que evitará sanções com maior capacidade de impactar sua economia.

A Europa tardiamente parece perceber que detém pouco controle sobre seu destino. Na seara energética e estratégica, várias foram as escolhas que levaram em conta a redução de custos imediatos e desconsideraram os efeitos colaterais estratégicos de tais opções. Do outro lado, a incapacidade de construir alternativas energéticas coloca a Europa como refém dos interesses russos.

Haverá um enorme desafio de convencer a sociedade europeia que um aumento de gastos em Defesa é necessário, algo recentemente visto com desconfiança e como desnecessário.

Se os líderes europeus um dia acreditaram que a Otan seria a mãe de todas as soluções, fica a lembrança do saudoso craque brasileiro Garrincha, que ao receber instruções técnicas antes de um jogo na Copa de 1958, perguntou: o Senhor já combinou com os russos?

* Carlos Frederico de Souza Coelho é Professor da ECEME e da PUC-Rio.

* Guilherme Moreira Dias é Professor da ECEME. 


Cerco ao centro

 Dora Kramer 

Veja online

Lula e Kassab dão sinais de que atuam juntos para assegurar embate entre PT e Bolsonaro

  Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Kassab e Lula: políticos graduados e doutorados em astúcia no ramo  

Luiz Inácio da Silva e Gilberto Kassab não deixam a menor dúvida. São dois políticos graduados e doutorados em astúcia no ramo. Por isso mesmo o primeiro não dá por decidida a parada eleitoral de outubro apesar da folgada dianteira; o segundo não põe fé sincera num embate diferente do indicado desde já nas pesquisas e ambos sinalizam a execução de uma operação casada. Parecem atuar juntos para obstruir o caminho da dita terceira via.

Se o bloqueio será exitoso, veremos. Política, notadamente a brasileira, não se submete a regras perenes. Muda, diz a tradição, na cadência das nuvens. Mas, hoje, o que temos nos quatro principais colégios eleitorais do país é um quadro de cerco às chamadas forças de centro.

No primeiro, São Paulo, firma-se candidatura própria do PT ao governo na pessoa de Fernando Haddad, com a retirada da cena estadual de Geraldo Alckmin, que estava apalavrado com o PSD de Kassab para se filiar e concorrer ao Palácio dos Bandeirantes, mas cogita integrar a chapa de Lula como candidato a vice-¬presidente.

No segundo colégio eleitoral, Minas Gerais, o PT articula apoio ao prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, do PSD. No terceiro, Rio de Janeiro, o apoio do PT seria a Marcelo Freixo, do PSB, com morde e assopra que talvez possa mudar de posição o prefeito Eduardo Paes (PSD). No quarto colégio, a Bahia, Lula já admite abrir mão do senador Jaques Wagner na disputa ao governo para apoiar a candidatura do senador Otto Alencar. De qual partido? PSD de Gilberto Kassab.

Como se vê, embora Lula praticamente não saia de casa, não circule, não vá às ruas, não significa que esteja jogando parado, como registram alguns analistas. Ao contrário, movimenta-se muito. Já o presidente Jair Bolsonaro circula, vai às ruas, cria de fatos a factoides, mas até agora não conseguiu fechar acordos ou encaminhar negociações político-¬partidárias nos colégios mais poderosos tão inicialmente consistentes quanto as de seu principal adversário.

“Lula e Kassab dão sinais de que atuam juntos 

para assegurar embate entre PT e Bolsonaro”

Bolsonaro fechou com a candidatura de seu ministro (Infraestrutura) Tarcísio Gomes de Freitas em São Paulo, consolidou aliança com o governador do Rio, Cláudio Castro, mas ainda não obteve confirmação de apoios promissores nesses dois estados. Nos outros em que Lula atua fortemente, Bahia e Minas, o presidente conta com mais dúvidas que certezas.

Na realidade, o cenário é adverso no geral. Seus aliados do Centrão em algumas localidades estão divididos, em outras, como no Nordeste, ficam com Lula. Isso a despeito de todas as benesses ofertadas, da entrega da agenda do Congresso ao mando do presidente da Câmara e da cessão do manejo do Orçamento da União e da função de arbitrar divergências entre ministérios ao PP de Ciro Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil. O presidente deu de tudo e até agora não lhe foi assegurada a esperada reciprocidade.

Enquanto Lula joga sua rede de pesca no mar do centro e da direita, Bolsonaro resiste a sair da bolha de fiéis. Insiste em agradá-los com a produção de conflitos ora inúteis, ora francamente prejudiciais à saúde da democracia. O ambiente de repúdio contra si construído pelo presidente faz dele o adversário ideal para o PT.

Gilberto Kassab tem sido de grande ajuda nesse projeto. Ao atrair o governador Eduardo Leite para o PSD, robustece os acenos de Lula ao centro, especificamente à ala do PSDB insatisfeita com a candidatura do governador João Doria. Semearia, assim, terreno para o segundo turno. Em princípio não haveria interesse dele em se aliar ao PT já no primeiro, quando os candidatos regionais do partido estariam livres para conquistar votos entre eleitores de todos os matizes.

O trabalho de interdição de outras candidaturas consolida a ideia de que nenhum cenário é possível além da disputa entre Lula e Bolsonaro. A profecia vai, assim, sendo escrita como realidade inescapável. Um movimento em nada saudável para a democracia, pois, se tudo se resume a impedir a reeleição de Bolsonaro, o PT se desobriga de dar respostas consistentes às demandas da sociedade.

Fica livre de dizer, por exemplo, como seria a relação com o Congresso e como o governo faria para impedir a repetição de condutas que levaram à compra de votos de parlamentares e às ligações perigosas que resultaram no assalto à Petrobras.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 2 de março de 2022, edição nº 2778


Vícios privados, malefícios públicos

 Felipe Salto, 

O Estado de S.Paulo

Qualquer reforma administrativa deve começar por este ponto: a extinção de todos os privilégios.

É preciso reverter a perda de bem-estar social derivada da captura do Estado por verdadeiros caçadores do erário. É hora de escancarar os custos das políticas públicas, para que a sociedade possa colocar na balança e comparar, por exemplo, uma isenção fiscal para um grupo de empresas ao pagamento de uma transferência social. Surrada, mas inescapável, a palavra-chave é transparência. E, a partir dela, ações de governo para rever gastos ruins e abrir espaço para o que importa.

A ideia de que a ação autocentrada pode levar ao progresso econômico tem quase dois séculos e meio. É a lógica da “mão invisível”, de Adam Smith, segundo a qual as forças da oferta e da procura seriam vetores suficientes para o funcionamento da economia, mesmo na presença do egoísmo, digamos assim. O bom funcionamento dos mercados é, de fato, a base para estimular a atividade produtiva, que gera emprego e renda.

Mas há uma condição: a existência de leis, regras e regulamentações da vida em sociedade e da economia. É o papel do Estado e da atividade política. Quando falham, quando a aplicação das leis é torta, lenta ou desigual e, sobretudo, quando a mobilização e a ação de certos grupos distorcem a alocação dos recursos públicos, então o bem-estar social diminui.

Atualmente, há um sem-número de benefícios tributários, regimes especiais, isenções fiscais e vantagens inscritas nos orçamentos públicos.

Isso inclui o pagamento de salários acima do teto constitucional remuneratório. O Estado mostrou, recentemente, que há contracheques, no Judiciário, de mais de R$ 440 mil mensais. O salário mínimo, hoje, está em R$ 1.212,00 e a renda média do brasileiro não passa de cerca de duas vezes esse valor.

A chamada Comissão do Extrateto, criada em 2016 pelo Senado Federal, produziu um bom projeto para resolver o problema. Ele foi aprovado, mas ainda tramita na Câmara dos Deputados. Essa força de setores do alto escalão do funcionalismo público relega a último plano a busca pelo interesse da coletividade. Prejudica, inclusive, a própria necessidade de valorização dentro do serviço público.

Em artigo para o Valor Econômico, em 16 de setembro de 2014 (Transparência e democracia), o economista Marcos Lisboa e eu escrevemos: “Mancur Olson, em A lógica da ação coletiva (1965), argumentou que a possibilidade de obter benefícios do Estado estimula a mobilização coletiva de grupos relativamente pequenos e homogêneos (...) A natureza difusa e pouco transparente dos custos dessas ações, no entanto, que recaem sobre o restante da sociedade, dificulta o debate democrático e a deliberação sobre o uso mais eficiente dos recursos públicos”.

Tal acesso privilegiado ao “poder” garante a perpetuação, por décadas, de programas ruins, além de ensejar a criação de outros. A apropriação de nacos do orçamento público ocorre na penumbra, onde todos os gatos são pardos. As crianças, as famílias pobres, os desempregados, a base do serviço público, os trabalhadores informais, os marginalizados e os seus interesses, que deveriam ser as prioridades de uma nação ainda tão desigual, são preteridos.

Quando não são preteridos, inserem-se no Orçamento, em geral, sem qualquer corte naqueles gastos de péssima qualidade. Aumentou-se, por exemplo, entre 2021 e 2022, o valor previsto para o Auxílio Brasil (sucessor do Bolsa Família), de cerca de R$ 35 bilhões para quase R$ 90 bilhões. Uma despesa nova necessária e legítima, a meu ver. Mas nem um centavo foi cortado em outras rubricas. Ainda, a despesa social serviu de desculpa para mudar o teto de gastos e abrir espaço para outras demandas não relacionadas ao social.

Para ter claro, não prego uma redução geral e irrestrita de gastos de pessoal e de políticas de incentivo à produção. Proponho, sim, transparência, para que a sociedade tenha conhecimento, por exemplo, de que os descontos autorizados no Imposto de Renda podem chegar a R$ 20 bilhões ao ano. Por que manter esse benefício para os ricos?

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, há mais de cinco anos, tem contribuído para aumentar a transparência. Seu papel, no entanto, limita-se a mostrar custos e alertar. Há um segundo desafio, a partir disso, que é introjetar, na prática de governo e no cotidiano da política, a dimensão da responsabilidade com o dinheiro público. A Revisão do Gasto, ou Spending Review, pode ajudar. Amplamente adotada no âmbito da OCDE, essa boa prática propõe-se justamente a questionar a “base orçamentária” existente.

Vale dizer, no caso dos servidores, que há realidades completamente distintas coexistindo. De um lado, os supersalários, que parecem intocáveis. De outro, os baixos salários dos professores da educação básica. Qualquer reforma administrativa deve começar por este ponto: a extinção de todos os privilégios. Sem isso, não terá legitimidade.

Os vícios destes grupos de interesse, esta caça ao tesouro, precisam ser combatidos com veemência. Caso contrário, a necessidade de novos gastos públicos – já imposta pela demografia, pela pobreza e pela desigualdade – terá de ser suprida com mais e mais carga tributária e dívida pública. É preciso espantar os caçadores de renda para longe da administração pública.

*

DIRETOR-EXECUTIVO DA IFI. AS OPINIÕES NÃO VINCULAM A INSTITUIÇÃO


O mito que mata

 Ynaê Lopes dos Santos 

Deutsche Welle

Mito da democracia racial está por trás de assassinatos bárbaros, como o de Moïse Kabagambe e Durval Teófilo Filho, afirma a colunista.

 © Fotoarena/imago images

Tentei começar esse texto de inúmeras maneiras. Mas logo entendi que nenhuma delas seria capaz de dar conta de todo o horror que aconteceu com Moïse Kabagambe, há exatamente um mês, no dia 24 de janeiro, num quiosque na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em plena luz do dia. Barbárie é pouco. Confesso que não tive condições de assistir por completo as imagens que documentam o assassinato. E que acompanhar as investigações da polícia tem sido igualmente abjeto.

São camadas e mais camadas de violência, crueldade, e covardia, apontando que o racismo é como as rochas sedimentares: formado pela decomposição e consequente cimentação do que há de pior em nossa matéria orgânica.

Na camada mais visível estão os homens presos pelo crime, que advogam (em defesa própria) que não tinham a intenção de matar Moïse. Também são taxativos em se defender de qualquer acusação de racismo e xenofobia. O assassinato do jovem congolês teria sido, em tese, o desdobramento de uma raiva extravasada sobre uma pessoa que parecia estar perturbando a paz em Tropicália. Quem acompanhou por alto o assassinato, sabe que o traumatismo de tórax que foi a causa morte de Moïse não foi resultado de um acidente, mas consequência de inúmeras pauladas que ele recebeu enquanto estava preso, absolutamente indefeso.

No entanto, chega a ser perverso e curioso, que esses homens não consigam (ou não queiram) enxergar que a raiva por eles extravasada tenha tido um destino certo. Um homem negro. Um jovem homem negro.

A camada que sustenta essa raiva toda, e principalmente, a possibilidade de extravasá-la é a da desumanização historicamente construída sob a vida de toda e qualquer pessoa negra. Uma camada muito mais antiga, mais solidificada, que, infelizmente faz com que, junto com toda atrocidade, dor e revolta que circundam especificamente morte de Moïse, ela seja mais um HOMEM NEGRO ASSASSINADO.

Quando achei que era possível respirar e lidar com todo o horror que envolve essa história e seus desdobramentos, mais uma notícia: no dia 02 de fevereiro, na região metropolitana do Rio de Janeiro, mas especificamente na cidade de São Gonçalo, outro homem negro foi assassinado. Na volta de mais um dia de trabalho, Durval Teófilo Filho, de 38 anos, foi assassinado com três tiros por seu vizinho, no condomínio onde ambos moravam. Achando que se tratasse de um criminoso, o sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra disparou três tiros contra Durval, que deixou viúva e uma filha pequena.

O que está por trás dos assassinatos bárbaros desses dois homens negros não é uma novidade no Brasil racista. Aqui, a vida das pessoas negras nada vale. Sobretudo, a vida dos homens negros. Contudo, o que me parece mais assustador é que esse mesmo Brasil que assassina homens negros "sem intenção de matar", ou porque supõe que esses homens sejam criminosos (lembrando que aqui a pena de morte não é oficialmente legalizada), é o país sob o qual paira o Mito da Democracia Racial.

É constante ouvirmos de brasileiros (inclusive de homens que estão no poder) que o no Brasil não há racismo. Sobretudo quando comparado com a dinâmica que organiza outros lugares, como os Estados Unidos. Para essas pessoas, o Brasil seria uma espécie de paraíso racial, e a miscigenação da população brasileira seria um dos maiores argumentos utilizados por quem defende esse mito – que vem sendo reinventado nos últimos 180 anos da nossa história.

Isso ficou especialmente evidente no caso de Moïse, quando os assassinos argumentaram que não tinham intenção de matá-lo. Uma desculpa que tem a cara do racismo no Brasil.

Pois bem, o mito da democracia racial é apenas mais uma ferramenta de perpetuação do racismo brasileiro. Uma ferramenta muito eficiente, vale dizer, pois ela cria uma espécie de névoa que dificulta que possamos enxergar que o racismo está construído a partir da crença na supremacia branca.

As mesmas pessoas que acreditam que o Brasil é um paraíso racial – e que os assassinatos de Moïse e Durval são casos isolados –, também acreditam e defendem a superioridade da população branca, utilizando para isso a falaciosa ideologia da meritocracia.

O Brasil não é nem nunca foi uma democracia racial.

Foi a localidade das Américas que mais recebeu africanos escravizados, o último país a abolir a escravidão, uma República que se fundou na marginalização e exclusão sistemática da população negra, um país cuja elite intelectual por muito tempo abraçou e disseminou o racismo científico, impedindo legalmente que imigrantes africanos livres pudessem entrar no Brasil e engrossar a massa de trabalhadores do país.

Todos os fatos descritos acima são exemplos de escolhas feitas pelos dirigentes políticos do país ao longo de nossa história. As mesmas elites que investiram na construção de um mito que escamoteia o tamanho do racismo no Brasil.

A Democracia racial brasileira não existe. E o mito em torno dela segue matando negros e negras.


Procuram-se estadistas

 Editorial

O Estado de São Paulo

Não há dúvida de que a invasão da Ucrânia pela Rússia foi amplamente planejada, mas certamente só aconteceu agora porque o momento não poderia ser mais favorável ao presidente russo, Vladimir Putin, por lhe oferecer uma conjunção de fraqueza, mediocridade e desarticulação no Ocidente.

Considere-se o G7. A Alemanha tem um governo de transição liderado por um chanceler que está aprendendo o ofício à sombra de uma estadista incomparável como Angela Merkel; o primeiro-ministro japonês é igualmente um neófito, reputado como bom administrador, mas de personalidade apagada; o líder italiano é também um tecnocrata competente, mas a política do país segue se consumindo em idiossincrasias partidárias; o primeiro-ministro canadense parece só ter olhos para sua agenda de costumes progressista; o presidente francês está embrenhado em sua disputa eleitoral; e o premiê britânico está enfraquecido pelos escândalos envolvendo festas privadas durante a pandemia.

Nos EUA, Joe Biden foi eleito como um representante experiente do establishment para uma missão de conciliação: construir pontes com os republicanos não intoxicados pelo populismo de Donald Trump e refrear os excessos dos radicais democratas. Mas não fez nem uma coisa nem outra. Seu principal desafio militar, a retirada do Afeganistão, foi um fracasso retumbante que debilitou a confiança de seus aliados e da população. Hoje sua popularidade está na lona.

Em contraste, como disse o historiador Paul Johnson, “Putin é o mais formidável potentado russo desde Stalin”, pois “tem um programa claro – reconstruir o império soviético – e é totalmente implacável em sua busca”. Treinado na KGB, comentou Johnson, “Putin é um mentiroso, falsificador e intimidador profissional, cujos instintos são uma mescla brilhante de desaforo e enganação”. Putin também tem a vassalagem da antiga hierarquia soviética e o apoio de uma parte importante da opinião pública. “Ele pode, portanto, posar como um populista e agir como um tirano.”

A política de confronto com o Ocidente, que agora atinge o seu pico, começou em 2007, quando Putin fez um discurso combativo na Conferência de Segurança de Munique. No ano seguinte, foi à guerra na Geórgia; em 2014, atacou a Ucrânia e anexou a Crimeia.

Tudo isso foi recebido no Ocidente com protestos protocolares, sanções inócuas e indiferença, o que certamente encorajou Putin a embalar seus sonhos de restabelecimento do império russo – sua permanência como “czar” já está garantida.

Putin tem a seu favor todo o estoque de arsenais legados pela URSS e imensos recursos energéticos. As antigas colônias soviéticas estão repletas de antigas lideranças desapropriadas e minorias étnicas relegadas à condição de cidadãos de segunda classe, aptas a serem intoxicadas pela nostalgia da Grande Rússia.

Mas Putin também tem suas fraquezas. É vaidoso, como mostram as suas fotos públicas de torso nu ou as cerimônias pomposas no Kremlin. E é dado a aventuras, manobras de alto risco e belicosidade imprudente.

A economia da Rússia é menor que a da Coreia do Sul. O parque industrial russo é atrasado. Os recursos das exportações de commodities são consumidos com os gastos militares e da cleptocracia no Kremlin. À população ele vende segurança e estabilidade após o caos dos anos 90, mas sua burocracia custosa e incompetente é incapaz de produzir qualquer melhora no padrão de vida.

Hoje sua popularidade está relativamente baixa e ele é confrontado por dissidentes ousados e expressivos, como Alexey Navalny. A distância entre o estilo de vida dos russos e o de populações prósperas no Ocidente aumenta e aumentará mais com as sanções econômicas. Mais importante, os russos veem os ucranianos como irmãos e quaisquer atrocidades durante a invasão serão recebidas com amargura e revolta.

Essas fraquezas podem ser exploradas, mas isso exigirá líderes capazes de amalgamar força, determinação e paciência, e sobretudo capazes de se unir em torno de prioridades claras. Para azar dos ucranianos, parece que esses líderes ainda não existem.


Se Putin vencer, será o retorno à barbárie

 Miodrag Soric

Deutsche Welle

Na guerra da Rússia contra a Ucrânia, não está apenas em jogo o destino de um país. Caso o mundo não acorde, passará a valer apenas a lei do mais forte. Paz e liberdade também exigem sacrifícios, opina Miodrag Soric. 

© ALEXANDER ERMOCHENKO/REUTERS

Vladimir Putin precisa vencer rápido a sua guerra de ofensiva contra a Ucrânia. Não porque tenha uma consciência ou escrúpulos. A questão é, antes, que caixões de jovens russos mortos na luta contra o povo-irmão ortodoxo suscitam dúvidas quanto à propaganda estatal de que esta seria uma guerra defensiva.

Em breve chega no Leste Europeu a época de jejum pré-pascoal, que o ex-homem da KGB, o serviço secreto da União Soviética, aproveitará para se apresentar como cristão devoto, de vela na mão. Só que isso não combina com as imagens de mulheres, crianças e homens que, por estes dias, morrem nos ataques do exército da Rússia.

Mas essa guerra não vai passar tão rápido. Mesmo que tenham que lutar com coquetéis molotov e com as mãos nuas, os ucranianos não vão desistir! O povo russo provou grande capacidade de sofrer durante a era soviética, e coragem na Segunda Guerra Mundial, mas os ucranianos não ficam nada atrás. Além disso, têm a primazia moral: estão defendendo seu país, suas famílias, sua vida. Os soldados russos, em contrapartida, chegam como agressores, ocupadores, fratricidas.

Paz e liberdade não são grátis

Para o tão reticente Ocidente, a questão é a seguinte: até agora, não havia hostilidade em relação à Rùssia. Pelo contrário: fazíamos negócios, cooperávamos na política, cultura e ciência. Milhões de russos vinham como turistas à Espanha, Turquia ou Grécia, lá onde também os europeus ocidentais passam suas férias. Justamente por isso, quase ninguém no Ocidente conseguia imaginar que Putin cometeria esse crime, e que os russos seguiriam essa loucura.

Sim, o presidente da Rússia tem razão: os europeus estão mal equipados, têm tomado a sua vida na prosperidade como um fato inquestionável. Mas isso está mudando, agora mesmo. Pois todo europeu que ame a liberdade e a paz percebe essa ofensiva contra os ucranianos como um ataque contra si mesmo. Todo mundo está vendo que Putin mente quando abre a boca, que não se atém a nenhum pacto nem regra internacional.

De repente, muitos na Alemanha compreendem, com nitidez maior do que lhes conviria, que só os Estados Unidos garantem a sua segurança – e estão gratos por isso. Mas é justo exigir de uma mãe do Mississipi que seus filhos se engajem pela segurança da Europa, quando outra mãe em Berlim não está disposta a isso? A Alemanha precisa acordar e compreender: a paz, a liberdade e a nossa democracia não são de graça.

A disposição de tornar as Forças Armadas alemãs novamente aptas à mobilização e a fortalecer a Otan cresce com cada foto de mulheres e crianças em prantos nos metrôs de Kiev, onde vão buscar proteção das bombas russas. Os europeus de dispõem a fazer sacrifícios em nome de seus valores. E vão fazer frente à declaração de guerra da Rússia contra a ordem pacítica da Europa.

Putin mente, China observa

As perspectivas que o mundo civilizado tem de ganhar essa luta, são boas. Putin pode bem tentar convencer seus compatriotas e o mundo de que a Rússia é forte, mas também isso é uma mentira. A moral dos russos é forte quando eles sabem que estão do lado do bem. Apesar da imprensa manipulada pelo Estado, vão cada vez mais perceber que sua guerra contra o povo-irmão ucraniano é um crime.

Além disso, a Rússia está economicamente fraca, pois Putin é incapaz de modernizar seu país. A atual classe política é ainda mais corrupta do que nos tempos do líder do Soviete Supremo Leonid Brejnev. E o presente chefe do Kremlin só suporta a seu redor servidores submissos, que ainda por cima humilha diante das câmeras.

Sanções econômicas e gastos de defesa significativamente mais altos não bastarão para vencer a confrontação com o ditador. A elite criminosa da Rússia tem que ser isolada; as relações diplomáticas, reduzidas ao mínimo.

Acima de tudo, entretanto, o Ocidente não deve fechar suas portas aos jovens russos. A economia alemã e americana procura desesperadamente centenas de milhares de profissionais. Quem queira emigra da Rússia, a fim de levar uma vida normal em ambiente seguro, deve ser bem-vindo.

Pois uma coisa é certa: a guerra da Rússia contra a Ucrânia vai custar muito dinheiro. Putin só conseguirá manter seu domínio se transformar seu país num grande presídio – como a China.

O que, aliás, é mais um motivo por que a civilização amante da liberdade deve vencer esse conflito: Pequim está acompanhando minuciosamente o que ocorre na Ucrânia. Caso Putin tenha sucesso, a China atacará Taiwan e, em algum momento, também outras nações.

Aí, só o que vai valer por todo o mundo é a lei do mais forte. A humanidade se precipitaria de volta na barbárie. Mas a coisa não precisa ir tão longe se, a partir de já, estivermos dispostos a também fazermos sacrifícios em nome da nossa liberdade.

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Miodrag Soric é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.


Putin quer o trono de czar em uma nova geopolítica

 Denise Mirás

Revista ISTOÉ  

Mesmo estando aqui, a paulistana de classe média, a anos-luz do aprendizado sobre estratégia militar de Vladimir Putin na KGB, é possível destacar alguns pontos – que agora temos mais claros – sobre os preparativos feitos pelo presidente russo antes do ataque à Ucrânia. E, pelo que parece, poderá culminar em um novo desenho da geopolítica do planeta.

O presidente russo esperou momentos importantes para agir, política ou economicamente, envolvendo as principais lideranças mundiais. Joe Biden estava placidamente pensando no quê fazer com a alta da inflação em seu país e em sua reeleição, quando pulou da cadeira com um choque (ainda mais com Donald Trump chamando Putin de “gênio”, sarcasticamente).

Emmanuel Macron, presidente da França, se bandeou para os quatro cantos do mundo tentando garantir a paz – que, se fosse possível conseguir, lhe valeria um título de salvador da pátria antes das eleições de abril na França, onde também é candidato.

E Olaf Scholz, premier da Alemanha, teve de abrir mão de um segundo gasoduto que dobraria o fornecimento de gás (russo) a seu país. Torce agora para Putin não fechar a torneirinha do primeiro, porque seus concidadãos teriam de buscar o quê para se aquecerem no inverno? Carvão?

Com os três em arapucas pessoais, Putin já deixou pronto um plano financeiro próprio, porque esperava as sanções financeiras que começaram a ser implantadas, e o mais importante: deu as costas à Europa e se voltou para a China, assinando um documento crucial com Xi Jinping no início do mês, um pacto de apoio mútuo e irrestrito (leia-se comercial e militar), garantindo a venda aos parceiros chineses o gás que eventualmente os europeus recusarem. Do tabuleiro de xadrez, passa fluidamente para outro: o go, jogo chinês de 2.500 anos em que peças brancas e pretas procuram se cercar e se comer.

A OTAN, a aliança militar na Europa contra os russos, teoricamente perdeu seu papel depois do fim da Guerra Fria, mas seguiu avançando para o Leste e agora passa ao largo da Ucrânia (país não-membro). Como a União Européia, condena o ataque, mas visa aos interesses dos países membros (e suas economias e empresários) em primeiro lugar. Europe first, como diria Trump sobre os EUA. Assim, Putin abriu caminho para “conflitar” em outros lugares, como nos Bálcãs (na Bósnia, por exemplo) ou vizinhos de vizinhos, como a Lituânia, ou quem ele puser na fila. E a China, claro, já se arvorou e pode partir para cima de Taiwan, justamente um líder no setor tecnológico, que desenvolve e produz chips de última geração.

Putin se mostra anacrônico em um mundo onde relações comerciais e sistemas online importam bem mais do que fronteiras. Sonha com sua reencarnação de Nicolau I, ainda de antes da revolução comunista que formou a União Soviética (URSS), talvez com uma releitura do Império Austro-Húngaro: czar mão-de-ferro com pretensões de oligarca neoliberal. Delírio? De uns cinco anos para cá, não duvido de mais nada.


Guerra, sombra e água fresca

 Editorial

O Estado de São Paulo 

Enquanto dirigentes dos principais países se mobilizavam para evitar o agravamento da crise internacional provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia e minimizar seus múltiplos impactos sobre a economia mundial, despreocupadamente o presidente Jair Bolsonaro caminhava no meio de apoiadores em nítido clima de campanha eleitoral fora de época e participava de “motociata” no interior de São Paulo. Era como se o Brasil estivesse livre das consequências que com certeza terá de enfrentar. Pressões sobre os preços internos por conta do aumento da cotação do petróleo, dificuldades de suprimento de bens essenciais, como fertilizantes e trigo, e queda da demanda de importantes itens da pauta de exportações do País são alguns dos efeitos previsíveis, embora seu impacto ainda seja difícil de aferir. A atividade econômica interna, já baixa demais, pode diminuir.

Agindo de modo irresponsável na questão russo-ucraniana, inclusive com um encontro em Moscou com o autocrata russo, Vladimir Putin, e uma declaração antecipada de “solidariedade” ao país poucos dias antes da invasão da Ucrânia, Bolsonaro apenas se mostra, mais uma vez, como efetivamente é. Desde sua posse, exibe incrível inaptidão para o cargo, desconhecimento de seu papel nos planos interno e internacional e desprezo por tudo que não lhe renda supostos ganhos eleitorais.

Mas não quer perder a pose. Quando soube que o vice-presidente da República, general da reserva Hamilton Mourão, cobrara um posicionamento mais firme do Brasil em defesa da soberania das nações, o que significa uma crítica clara ao governo russo, Bolsonaro reagiu à sua moda. Em sua live semanal das quintas-feiras, afirmou que “quem fala sobre o assunto (relações exteriores) é o presidente da República, e chama-se Jair Bolsonaro”. Nem precisava dizer: a desastrosa política externa brasileira tem a assinatura inconfundível de Jair Bolsonaro.

Sempre que resolve exercer a autoridade que julga não ser reconhecida, o País padece. Que o digam os que sofreram ou sofrem com a pandemia de covid-19 e com a crise econômica e social que trava o crescimento, retarda a recuperação do mercado de trabalho, comprime a renda de quem consegue manter uma ocupação e empurra milhões de cidadãos para abaixo da linha de pobreza.

A respeito da agressão russa contra a Ucrânia, que lançou o mundo em grave incerteza, Bolsonaro, malgrado reivindicar o poder que a Constituição já lhe garante, não teve nada relevante a dizer. Pior: tampouco anunciou qualquer iniciativa para demonstrar que seu governo está mobilizado para elaborar medidas coordenadas no sentido de minimizar o impacto da crise no Brasil, que tende a ser considerável.

Com a iminência da chegada ao Brasil das consequências mais diretas da invasão da Ucrânia sobre a atividade econômica, Bolsonaro provavelmente já está empenhado em arranjar mais desculpas – sua especialidade – para fugir da responsabilidade que, esta sim, é própria de seu cargo. 

Especialista em criar ilusionismos, Bolsonaro talvez diga ao eleitorado que o País vinha bem, mas a guerra na Europa, ora vejam, impediu que a recuperação se acelerasse. Se fizer isso, mentirá duas vezes: uma, porque o País já vinha mal, mesmo antes da pandemia de covid-19, e a guerra, assim como o vírus, nada tem a ver com a incompetência do governo; outra, porque, se a questão ucraniana afetar a economia brasileira, como se presume, apenas acentuará os erros que se acumularam nos últimos três anos.

O País já se acostumou, e até faz piada disso, com as seguidas promessas de “recuperação em V” anunciadas pelo desacreditado ministro da Economia, Paulo Guedes, mesmo diante de indicadores que demonstram crescimento medíocre, inflação e persistente desemprego. O problema é que a piada está ficando muito sem graça – e o isolamento progressivo do Brasil no cenário internacional, intensificado por ações, inações e declarações obtusas de Bolsonaro sobre a crise europeia, somado à dedicação exclusiva do presidente à reeleição, tende a piorar uma situação que já seria ruim mesmo se o Brasil tivesse um governo decente.