quarta-feira, setembro 17, 2008

ENQUANTO ISSO...

Anote e cobre: Tarso diz que Brasil reduzirá homicídios em 58% em 4 anos

Deu na Folha: O ministro da Justiça, Tarso Genro, disse ontem em Genebra que a meta do governo é reduzir o número de homicídios no Brasil, ao "nível chileno", em quatro anos. Hoje, a média de homicídios no país é de 29 por cada 100 mil habitantes anualmente, enquanto a do vizinho é de 12 --índice 58% menor.

Para obter uma redução de mais de 50% nos assassinatos do país, o governo confia numa combinação de políticas sociais e de segurança, inaugurada com o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), há pouco mais de um ano, com investimento de R$ 6,7 bilhões até 2012.

Fontes do Ministério da Justiça, contudo, admitem que a meta é ambiciosa, e que um terço de redução em quatro anos já seria motivo para festejar.

Tarso Genro apresentou o programa na Conferência de Exame da Declaração de Genebra sobre Violência Armada e Desenvolvimento. Ele aproveitou para propor que o Pronasci seja implantado no Haiti, onde o Brasil tem uma força de paz.Na conferência foi apresentado um relatório sobre violência causada por armas de fogo. Segundo o documento, o custo dos ferimentos provocados por armas de fogo para o Brasil é de US$ 10 bilhões. O número leva em conta gastos com tratamento médico e perdas de produtividade econômica devido a mortes e ferimentos.Somando-se os gastos nos 90 países do estudo, o custo econômico causado por armas de fogo no planeta está entre US$ 95 bilhões e US$ 163 bilhões.O relatório coloca o Brasil em nono lugar entre os países campeões em seqüestros, uma posição acima do Iraque.


Enquanto isso...

Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo, revela ONU

O Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo. É o que revela um relatório divulgado nesta segunda-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o estudo, o país chega à marca de 48 mil mortes ao ano, média de 25 homicídios por 100 mil habitantes. A taxa é duas vezes superior à média mundial.

O documento revela o cenário da violência no país, resultado de uma análise feita pelo relator especial do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extrajudiciais, Philip Alston. O relator esteve no Brasil em novembro de 2007 e reuniu-se com representantes do poder Executivo, Legislativo e Judiciário, além de ONGs de defesa de direitos humanos.

COMENTANDO A NOTÍCIA:

A afirmação de Tarso Genro chega a ser de uma leviandade absurda. Reparem: desde 2003, este governo já lançou cinco pomposos PLANOS DE SEGURANÇA. E o resultado é o que se vê: a criminalidade só fez aumentar, tendo atingido uma das mais altas taxas do mundo.

Ora, se com tantos “planos” a taxa só aumentou ao longo de 5 anos, qual será o “milagre” que Tarso praticará para, em espaço muito menor, conseguir a redução em mais de cinqüenta por cento dos atuais índices? Já se vê que Tarso continua ministro da Justiça do Reino da Fantasia!!! Faz por merecer o título de Rolando Lero do Planalto, sem dúvida !!!

Jobim no fio da navalha

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Caso não sobrevenha um imprevisto, o ministro Nelson Jobim prestará depoimento, hoje, na CPI dos Grampos, na Câmara. Ainda que com todo o respeito, será confrontado com perguntas incômodas. Como explica que tenham chegado ao seu gabinete informações apenas sobre sete escutas telefônicas promovidas no âmbito das Forças Armadas, quando o Superior Tribunal Militar informa terem sido 234, só este ano? Afinal, Exército, Marinha e Aeronáutica possuem aparelhos para grampear telefones?

O que dizer da revelação do jurista Ives Gandra Martins de que em 2007 foram autorizadas 409 mil escutas telefônicas? Os organismos ligados à inteligência devem dispor do direito de grampear telefones e ambientes variados, claro que com autorização judicial? Como punir agentes de informações flagrados promovendo escutas irregulares?

Abre-se para o ministro da Defesa excelente oportunidade de falar pelo governo e repor a crise em seus devidos termos, quer dizer, justificar a existência de instituições aparelhadas para monitorar criminosos, jamais para bisbilhotar a vida de cidadãos acima de suspeitas.

Caso venha a sair-se bem, Jobim poderá receber a grata surpresa de ser incluído no rol dos presidenciáveis, melhor dizendo, dos vice-presidenciáveis, na hipótese de o PMDB insistir na formação de uma chapa com Dilma Rousseff. Perdendo-se em inconsistências, porém, arrisca-se a cair em desgraça no Palácio do Planalto. Dias atrás o presidente Lula determinou-lhe ficar em silêncio para não conturbar ainda mais a crise dos grampos. Se for falar, é porque, no mínimo, foi liberado pelo chefe para transitar pelo fio da navalha.

Números inexplicáveis
De quatro, positivamente, o Brasil não se encontra, ficando a razão com o ministro Guido Mantega. Mas não dá para explicar porque, no auge da crise que levou a Lehman Brothers à breca, tenha a bolsa de valores de Nova York caído 4.42 pontos, enquanto a Bovespa, no mesmo dia, caiu 7.59 pontos. Nosso colchão será mais macio que o deles, permitindo queda mais acentuada?

É bom tomar cuidado, porque cresceu nas últimas semanas a fuga de investimentos externos. O dinheiro sai bem mais do que entra, em nossa economia, coisa que nem o momento mágico do pré-sal consegue evitar. As ações da Petrobras perdem valor quando deveriam constituir-se na taboa de salvação dos especuladores estrangeiros. Tem algo de errado por aí.

Contra Lula, Serra fica em São Paulo
José Serra não confirmará nunca, vai jurar de pés juntos que não disse, mas alguém de sua intimidade revelou sua resposta dada de bate-pronto diante da indagação sobre um hipotético terceiro mandato. Rejeitando a possibilidade de disputar o Palácio do Planalto contra o presidente Lula, em 2010, o governador admitiu, então, concorrer a um segundo mandato em São Paulo.

"E quem seria o candidato do PSDB à presidência da República?" "Ora, o Geraldinho, que já tem experiência...". Ninguém, no ninho, admite que o presidente Lula aceite mudar as regras do jogo para permanecer no poder. Até porque, as oposições não deixariam, imaginam os cardeais do PSDB. Mesmo assim, uma nuvem de carcarás poderá melar o plano de vôo e ofuscar a revoada dos tucanos. Porque se Dilma Rousseff não emplacar, se as pesquisas indicarem no momento apropriado a vitória incontestável de Serra, penas vão se espalhar por todo lado.

Vai sem falar de crise
Dia 22 o presidente Lula estará em Nova York. Será homenageado com jantar oferecido por empresários de lá e de cá, possivelmente conversará com o presidente George W. Bush, em Washington. Seus assessores internacionais já estão preparando a visita, com uma recomendação especial: não abordar a crise financeira americana. Responder, no máximo, que confia na capacidade da economia dos Estados Unidos superar as dificuldades atuais.

Apesar do momento mágico promovido pelo pré-sal, o presidente Lula parece disposto a retomar a campanha proselitista do etanol, até mesmo buscando convencer empresários e governantes americanos de que o produto retirado do álcool é mais barato do que o proveniente do milho. Além, é claro, de não contribuir para a falta de alimentos.

Brasil tolera violência policial, diz ONU

Marcelo Ninio, Folha de São Paulo

Relatório divulgado ontem aponta que, no país, os policiais estão por trás de "uma significativa proporção dos homicídios"

Para o relator, há pouco alarme em relação à violência policial porque a maioria admite que a lei é pouco para combater o crime

Relatório da ONU divulgado ontem ataca as políticas de segurança do Brasil e chama a atenção para a violência policial e "as execuções extrajudiciais" no país, que, diz o estudo, tem um dos índices de homicídios mais altos do mundo.

O relator Philip Alston, autor do documento, inspecionou o Brasil por dez dias em novembro de 2007, quando esteve com autoridades e ativistas e visitou favelas e presídios. Sua conclusão é a de que a violência policial é tolerada pelos governantes e por boa parte da população. Sua principal crítica é em relação às mortes de pessoas já rendidas por policiais. "O assassinato não é uma técnica aceitável nem eficaz de controle do crime", condena Alston.

De acordo com ele, "as execuções extrajudiciais estão desenfreadas em algumas partes do Brasil". Os policiais estão por trás de "uma significativa proporção dos homicídios", diz o relatório. "Policiais da ativa recorrem rotineiramente à força letal, e um grande número de policiais de folga faz parte de esquadrões da morte e outras formas de crime organizado."

Alston aponta ainda que o Brasil não evoluiu desde o último relatório, de 2004. Naquela época, segundo o relatório, o índice de homicídios estava "entre 45 e 50 mil por ano", como atualmente [dados do governo federal, divulgados em janeiro deste ano, indicam que o total de homicídios no país caiu 5,11% em 2004, 1,65% em 2005 e 1,93% em 2006, sempre em relação ao ano anterior].

Também afirma, a exemplo do estudo anterior, que hoje grande parte dos assassinatos é cometida por policiais. "No Rio de Janeiro, a polícia mata três pessoas por dia", diz Alston. "Eles são responsáveis por um em cada cinco assassinatos."

Para o relator, há pouco alarme público em relação à violência policial porque a maioria admite que a lei é pouco para combater o crime. O principal motivo para que muitos policiais se envolvam em milícias ou esquadrões da morte é o baixo salário, conclui o relatório.

Aumento para policiais
O aumento nos vencimentos dos policiais é apenas uma das dezenas de recomendações que o relatório tem para o Brasil. Outra é evitar operações "mega", que geralmente resultam em enorme prejuízo para moradores inocentes.

Segundo o relatório, que usa dados do governo federal e dos Estados, em uma dessas operações, a invasão do complexo do Alemão, no Rio, em 27 de junho de 2007, "ilustra como tal abordagem pode ser uma tentação na teoria, mas na prática causa assassinatos e acaba sendo uma autoderrota".

Para comprovar a tese, Alston lembra que 19 pessoas foram mortas, mas a polícia apreendeu duas metralhadoras, seis pistolas, três fuzis, uma submetralhadora, 2.000 cartuchos e 300 quilos de drogas.

O relatório será apresentado na ONU nos próximos dias, quando o Brasil poderá rebater as críticas. Uma delas é em relação à lentidão da Justiça e a baixa incidência de condenações.

No Rio e em São Paulo, só 10% dos homicídios chegam à Justiça. Em Pernambuco a taxa é de 3%. Dos 10% que são julgados em São Paulo, calcula-se que metade seja condenada. "Esses números são ainda menores nos casos em que há o envolvimento de policiais", diz.

Um dos focos do estudo é a ação das milícias no Rio de Janeiro. Segundo Alston, 92 das cerca de 500 favelas do Rio estão em poder delas. "As milícias são formadas por grupos de policiais, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários e indivíduos que tentam "tomar" áreas geográficas e fazem um "policiamento" paraestatal, explica.

Alston recomenda reformas nas polícias Civil e Militar, Corregedoria de polícia, medicina legal, ouvidorias, promotores públicos, Judiciário e administração carcerária."O escopo das reformas necessárias é assustador", admite, "mas a reforma é possível e necessária", reforça o relator das Nações Unidas.

E a CPMF continua não fazendo falta...

A arrecadação de impostos no Brasil continua acima de qualquer expectativa. Seu crescimento vai além da inflação ou do próprio crescimento do PIB. E, em conseqüência, fica cada vez mais claro que a CPMF que o terrorismo oficial apontou como indispensável ao bem estar da pátria, não estão fazendo falta alguma.

A arrecadação é histórica: nossa carga tributária chegou a 37,27% do PIB. A soma dos tributos federais, estaduais e municipais arrecadados no primeiro semestre de 2008 atingiu nada menos que 37,27% do PIB brasileiro, um aumento de 1,24 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano passado. O cálculo foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, entidade que analisa a arrecadação de tributos no país.A arrecadação nos seis primeiros meses de 2008 foi de R$ 515,36 bilhões, representando um significativo acréscimo aos R$ 444,66 bilhões pagos no primeiro semestre de 2007. Mesmo com a extinção da CPMF, o aumento nominal de arrecadação na relação entre os dois períodos chega aos R$ 70,70 bilhões, o que representa um aumento de 15,90%. Para analistas, a elevação do Imposto sobre Operação Financeira (IOF), que passou de R$ 3,66 bilhões para R$ 9,67 bilhões em 2008, foi um dos principais motivos dessa arrecadação histórica.

Lembrando: sempre que o governo federal anuncia algum tipo de desoneração, reparem que, logo adiante, ele tratará de compensar a “perda” de arrecadação aplicando algum garrote em outros setores. Mas, claro, no discurso, fica bonito dizer que ele “reduziu” impostos, o, que, aliás, seria impraticável para um governo que só faz aumentar a sua própria despesa...

O STF e a estabilidade das instituições

Ives Gandra Da Silva Martins, Folha de São Paulo

Admirando Mendes há anos, tenho a certeza de que não poderia ter sido melhor para o país do que vê-lo dirigir o STF nesta quadra delicada

EM 5 de outubro de 1988, com meridiana clareza, ao ser outorgada uma nova carta política à nação, o constituinte determinou que seu guardião seria o Supremo Tribunal Federal (artigo 102, "caput").

A Constituição, que rege os destinos do Estado democrático de Direito, portanto, sedia no pretório excelso seu elemento de estabilização.

Compreende-se, pois, que, entre os constitucionalistas, tenha-se por assentado que, no capítulo destinado ao Poder Judiciário em sua competência de atribuições (artigos 92 a 126), caiba aos juízos monocráticos e aos tribunais de segundo grau a missão de administrar a Justiça e, aos tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE e STM), dar estabilidade às instituições, exercendo o papel mais relevante, entre eles, a Suprema Corte.

É exatamente isso o que tem ocorrido, nos últimos tempos, no que diz respeito ao direito de maior importância em uma democracia, que é o direito de defesa, inexistente nos Estados totalitários.

Todos os cidadãos dignos, que constituem a esmagadora maioria da nação, são contra a impunidade, a corrupção, o peculato. Há de convir, todavia, que, na busca dos fins legítimos de combate à impunidade, não se pode admitir a utilização de meios ilegítimos, risco de se nivelarem os bons e os maus no desrespeito à ordem jurídica e à lei suprema.

Ora, o simples fato de o país ter percebido, estupefato, que houve 409.000 interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, em 2007, seguido de declarações do ministro da Justiça de que todos devem admitir que podem estar sendo grampeados, ou do ministro chefe do serviço de inteligência de que a melhor forma de não ser grampeado é fechar a boca, está a demonstrar a existência de excessos, com a conseqüente violação desse direito, o que se tornou mais claro na operação da Polícia Federal de maior visibilidade (Satiagraha).

Nada mais natural, portanto, que a Suprema Corte, por imposição constitucional, interviesse -como, efetivamente, interveio- para recolocar em seus devidos termos o direito de investigar e acusar, assim como o direito de defesa, cabendo ao Poder Judiciário julgar, sem preferências ou preconceitos, as questões que lhe são submetidas.

No instante em que foram diagnosticados abusos reais, a corte máxima, de imediato, deflagrou um saudável processo de conscientização de cidadãos e governantes de que tanto os crimes quanto os abusos devem ser coibidos, dando início a processo que desaguará em adequada legislação, necessária ao equilíbrio do contencioso, além, naturalmente, à busca da verdade, com a intervenção judiciária, isenta e justa, dentro da lei.

E, por força dessa tomada de consciência, não só o Conselho Nacional de Justiça impôs regras às autorizações judiciais como o Poder Legislativo examina projeto de lei objetivando evitar tais desvios. Essas medidas permitirão que as águas, que saíram do leito do rio, para ele voltem, com firmeza e serenidade.

Há de realçar, todavia, nos episódios que levaram, novamente, o país a conviver com o primado do Direito -especialmente com a valorização do direito de defesa, garantidor, numa democracia, da certeza de que o cidadão não sofrerá arbítrios-, a figura do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, hoje, indiscutivelmente, um dos maiores constitucionalistas do país, com merecido reconhecimento internacional (é doutor em direito pela Universidade de Münster, na Alemanha, com tese sobre o controle concentrado de constitucionalidade).

Graças à firmeza com que agiu, foi possível não só diagnosticar as violações como deflagrar todo o processo que está levando ao aperfeiçoamento das instituições, em que o combate à corrupção, legítimo, deve, todavia, ser realizado dentro da lei.

Conhecendo e admirando o eminente magistrado há quase 30 anos, a firmeza na condução de assuntos polêmicos, na procura das soluções adequadas e jurídicas, seu perfil de admirável jurista e sua preocupação com a "Justiça justa", tenho a certeza de que não poderia ter sido melhor para o país do que vê-lo dirigir o pretório excelso nesta quadra delicada.

Prova inequívoca da correção de sua atuação é ter contado com o apoio incondicional dos demais ministros, quanto às medidas que tomou, durante a crise.

Parodiando a lenda do moleiro -que não quis ceder suas terras a Frederico da Prússia, dizendo que as defenderia, porque "ainda havia juízes em Berlim"-, posso afirmar: há juízes em Brasília, e dos bons!

Se não fosse o PROER...

Chega a ser divertido ver o governo atual comemorar a blindagem da economia brasileira diante da crise financeira americana. Tudo que aí está foi alvo de duras críticas por todos eles, quando na oposição assistiram a implantação do Plano Real e todas as medidas adotadas e que serviram para dar a base sólida de sustentação da estabilidade atual.

Dentre outros, um dos atos que mais foi torpedeado por Lula e PT, e que vez por outra ainda recebe críticas ácidas do próprio Lula, foi o chamado PROER, plano pelo qual o governo FHC injetou recursos no sistema financeiro não para salvar banqueiros falidos como mentirosamente as esquerdas difundiram, mas para proteger os recursos dos correntistas. Todos os donos de bancos socorridos, pode-se ver, tornaram-se ex-banqueiros, o que prova a mentira deslavada contada por Lula e seus asseclas.

Contudo, não fosse o PROER haver existido e muito provavelmente o país estaria agora mergulhado em uma crise financeira sem precedentes. E por que ela não nos atinge? Porque o PROER cumpriu o papel que lhe cabia que era a de sanear e preservar a integridade do sistema financeiro nacional, resguardando assim intactos os recursos aplicados pelos milhões de brasileiros. E graças ao plano, as instituições bancárias passaram a adotar regras mais conservadoras, o que também acaba por mantê-las estruturalmente fortes e equilibradas.

Quanto vemos o FED americano, e os Bancos Centrais da Inglaterra e da Comunidade Européia injetando bilhões de dólares em seus sistemas financeiros, impossível não reconhecer a correção na aplicação do PROER aqui no Brasil.

A crise até pode nos atingir, mas certamente seus efeitos não se refletirão nas instituições bancárias brasileiras, dada a sua solidez.

Teremos, sim, problemas em nosso balanço de pagamentos que se projeta fechar no vermelho, numa faixa que se imagina de 27 a 34 bilhões de dólares. Contudo, este”vermelho” se deve especificamente a ações implementadas pelo atual governo. E quanto mais os preços das commodities despencarem no mercado internacional, maior tende a ser nosso déficit. O doloroso, no caso, é ver o quanto é perturbador o nível de endividamento interno. Diante dele, e sabendo-se que a maior parte deste bolo acha-se em mãos estrangeiras, nossas “enormes” reservas acabam por tornarem-se pó.

Como dissemos ontem, toda a publicidade oficial não consegue mascarar a realidade de que, diante de uma situação aguda na crise que se desenha, nossa vulnerabilidade se mostrará em toda a sua grandeza. Qual o significado disto? A de que jogamos no lixo um precioso tempo no qual não realizamos nosso dever de casa. Diante da farra e da festa, em que o mundo inteiro sorriu e respirou progresso, foi fácil enganar o povo com discurso imbecil e propagandas cretinas. Enquanto a direção dos ventos muda rapidamente, continuamos comemorando resultados que se tornaram mais do que obrigatórios face o cenário anterior e que ficaram muito aquém do que se poderia ter alcançado. Nunca as condições foram tão positivas e favoráveis ! Espera-se, contudo, que, diante do novo cenário, “alguém” tenha juízo suficiente para adotar medidas preventivas para não sermos atingidos. Repito o que venho afirmando há muito tempo: o governo comemora um resultado que, rigorosamente, se repete em todos os países emergentes do globo. Não é apenas o Brasil que não está sendo atingido pela crise, todos os emergentes estão na mesma situação que a nossa. Porém, bastará que a crise se intensifique e, por certo, nossa vulnerabilidade mostrará o quanto de vazio é feito o discurso oficial. Rezemos, amigos, rezemos.

Maus cidadãos

J.R. Guzzo, Revista VEJA

"O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes"

Se existe alguma coisa a respeito da qual o mundo inteiro está 100% de acordo é que o fumo faz mal à saúde; não apenas de quem fuma, mas também, embora não se saiba claramente com que grau de intensidade, de quem está por perto de um cigarro aceso. Não parece haver nenhuma necessidade, assim, de continuar querendo provar algo que todos consideram mais do que provado. Também não dá para ver como ainda seria possível, em pleno ano de 2008, encontrar algum pecado novo para acrescentar à lista de tudo aquilo que o fumo faz de mal, ou pode fazer, ou se imagina que faça. As medidas de repressão que se poderiam tomar contra o cigarro, enfim, já foram tomadas. É proibido fumar, hoje, em praticamente qualquer local fechado onde haja mais de uma pessoa. Os fumódromos, onde se imaginava que o cidadão poderia fumar sem incomodar ninguém, estão em via de extinção. Nos países que o Brasil considera como os mais iluminados da Terra, os preços foram aumentados até o limite máximo que os governos acham possível impor: o equivalente a mais de 12 reais o maço na França, mais de 15 reais na Inglaterra. Está banida no planeta inteiro, ou quase, toda e qualquer propaganda de cigarro. Não existe à venda uma única carteira que não traga com destaque as mais severas advertências contra os males do fumo – no Brasil, por sinal, elas vêm acompanhadas de imagens especialmente repulsivas, mostrando um homem sem perna, pulmões reduzidos a uma pasta de carvão e daí para pior.

Já não seria o suficiente? Não. O esforço no Brasil, agora, é para proibir o cigarro nos últimos espaços que ainda lhe estão abertos – as áreas reservadas a fumantes nos raros locais públicos, fora do ar livre, que escaparam até o momento das placas dizendo que "é proibido fumar". Salvo vetar o cigarro por lei, coisa que os governos não querem fazer para não perder bilhões em impostos, o que ficaria faltando? Essa parece ser, assim, a última fronteira a ser ganha pelos inimigos do fumo. O governador de São Paulo, José Serra, e o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, para ficar só em gente graúda, disputam atualmente uma corrida para ver quem proíbe mais e proíbe antes. Se um, o outro ou mais alguém conseguirem aprovar leis que acabem de vez com as áreas destinadas a fumantes, nada haverá a discutir: lei é lei. Tudo bem – outras coisas, nesta vida, já foram permitidas um dia e hoje não são mais, e nem por isso o sol deixou de nascer todas as manhãs. O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes. Um clima de neurastenia agressiva é estimulado em torno da questão. Com freqüência dispensa-se, para criticar o tabaco, a necessidade de respeitar um mínimo de lógica, ou a mera verdade dos fatos.

A partir desse ponto de vista, quem fuma vai passando a ser olhado como portador de alguma deficiência moral, ou mau cidadão, ou nocivo à vida em sociedade, ou as três coisas ao mesmo tempo. Empresas encontram meios para não contratar fumantes. Convidados deixam de ser bem-vindos, caso fumem, em residências particulares. Médicos de alta fama estão sempre dispostos a dizer as coisas mais extraordinárias sobre as ruínas que o tabaco seria capaz de causar no organismo humano; já se ouviu, até mesmo, que a fumaça aspirada pelos não-fumantes é pior que a fumaça tragada pelos fumantes, pois estes dispõem de filtros em seus cigarros. Desde que condene o fumo, tudo que se apresenta como "estudo" ou "pesquisa" é automaticamente aceito como verdade científica. Os números oficiais, então, são capazes de qualquer coisa. Sugerem, por exemplo, que falta dinheiro para a saúde porque o SUS gasta muito com doenças causadas pelo fumo; cerca de 340 milhões de reais por ano, segundo um trabalho recente da Fundação Oswaldo Cruz. (Seria interessante observar, a respeito, que só a Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros do país, pagou acima de 3 bilhões de dólares em impostos sobre suas vendas em 2007.) O Ministério da Saúde manda escrever nos maços de cigarro que existem ali "mais de 4 700 substâncias tóxicas". Mais de 4 700? Como um ser humano poderia continuar vivo engolindo tanto veneno assim? E por aí se vai.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse há pouco que todo mundo deve ter o direito de fumar desde que não incomode os outros; garantiu, aliás, que só fuma em sua própria sala. Parece algo de muito bom senso, mas o homem só levou pancada. Hoje em dia, quando o tema é tabaco, ter bom senso já não serve mais para dar razão a ninguém.