sábado, dezembro 11, 2010

Uma herança ruim prá danar

Adelson Elias Vasconcellos

Não sigo a manada. Creio ter independência e informações suficientes para ter minhas teses, ideias e opiniões. Sendo assim, ao contrário do que a maioria afirma, digo que a herança que o governo Lula deixará para sua sucessora, dada as condições que desfrutou para governar e fazer o melhor em oito anos, não poderia ser pior do que será. Na terça feira, 07, abordamos aqui algumas verdades sobre a herança de Lula e que contrastam, inteiramente, com a qualificação de “bendita” que, tanto Lula quanto Dilma, lhe tem apregoado.

Vimos o desastre sacramentado na educação brasileira, com o resultado final do exame de avaliação internacional, PISA, para estudantes do ensino médio, em que nos colocamos na desconfortável e humilhante colocação nº 53, dentre 65 países avaliados. Em outros artigos publicados nesta semana, não apenas este desastre se comprova ainda mais, como também ficam claras as muitas carências de que padecemos, e os enormes desafios a enfrentar se, de fato, desejamos ingressar, a médio prazo, no seleto rol das nações mais desenvolvidas do planeta. Já disse que a questão da educação brasileira ser a droga que é, não se deve a falta de recursos. Falta-nos melhor gestão, planejamento e comprometimento de todo o país para considerar a educação como prioridade máxima para nosso pleno desenvolvimento. Não se pode tentar aplicar o engodo de que, num país em que mais de 70% de sua população é analfabeta funcional, em que a avaliação internacional, já por vários anos, nos situa na rabeira da comunidade internacional, vá se tornar uma potência mundial apenas porque possui frota aérea moderna, submarinos nucleares, trem bala, usinas de energia nuclear, e outros desvarios e fantasias brotadas nas cabeças toscas de governantes cretinos. Tudo isto é puro lixo diante de um povo brasileiro com as carências sociais e atraso educacional como é a nossa triste realidade atual.

Não há outra receita ou caminho a seguir: ou educamos de forma plena o povo brasileiro, ou navegaremos nas águas obscuras do subdesenvolvimento. Que fique a lição: a China está se tornando uma potência mundial de primeira, não pelo seu vertiginoso crescimento econômico. Este é decorrente da excelência com que a educação de seu povo é encarado por toda a sociedade. Neste rumo, anos antes, a Coreía do Sul também logrou uma vitória exemplar. Não por outra razão, a China obeve o primeiro lugar na mesma avaliação que nos deixa na divisão de descenso.

Mas disto já tínhamos conhecimento. O surpreendente é sabermos que, após oito anos de Bolsa Família, cantada em prosa e verso como a galinha dos ovos de ouro de uma revolução social, 40% de seus beneficiários ainda moram na situação de miseráveis. E onde ficaram, então, aqueles quase trinta milhões de brasileiros que, segundo o governo atual, migraram para a “nova classe média”? Bem, já explicamos o truque. A mudança não se deu na qualidade de vida de tantos milhões, apenas que se manipulou, de forma vigarista, e para baixo, os diversos degraus de renda. Assim ficou fácil enganar a tantos. O Bolsa Família, da forma como o governo o conduz, não passa de uma formidável bolsa caça votos com a “virtude’ de perenizar a pobreza da maioria de seus beneficiários.

Outra surpresa desagradável: os tributos incidentes sobre energia elétrica duplicaram sob a era Lula.

E, nesta semana, 24 horas após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhecer a necessidade cortar gastos e até investimentos, Lula, a exemplo do que já fizera no início do ano, veio desmentir, publicamente, seu Ministro. Afirmou que, para o PAC, não há de faltar um tostão. Bem, no ritmo que o PAC em termos de realização física tem andado desde sua “invenção”, vai ser difícil realizar tudo no tempo que Lula imagina. Quanto a faltar tostão, viu-se ontem, que, apesar de sequer ter atingido 40% de realização física, o governo já realizou em torno de 85% do dispêndio financeiro. Ou seja, já pagou por obras que sequer saíram do papel ou da intenção. O nome disso é vigarice. Não há nada melhor.

Mas, fossem apenas estes os desastres de um governo mentiroso com oito anos de mistificação, a gente ainda poderia encontrar motivos para festejar o outro lado da herança: a economia que, segundo se diz, vai bem obrigado.

Uma ova que vai. Vejam estas manchetes de ontem, apenas:
  • Lenta, desindustrialização já atinge produção e emprego;
  • inflação oficial tem maior alta mensal em mais de 5 anos,
  • poupança tem o pior desempenho em 7 anos,
  • FGTS tem pior rendimento pelo segundo ano seguido e, 2010, terá o menor rendimento desde que o fundo foi criado, em 1966.
Déficit em transações correntes? Recorde histórico: 50 bilhões de dólares. Nada disso tem origem em governos anteriores a Lula: é obra sua, exclusivamente sua. Assumiu com os juros mais altos do planeta, e entrega o governo com os juros mais altos do planeta. Sabemos o quanto o ambiente de negócios no Brasil é hostil. Muito embora haja quem torça o nariz para o fato, o certo é que, como noticiamos aqui,  Philips, Marcolo, Novelis, Vulcabrás/Azaléia e, agora, a fabricante de calçados femininos Schmidt Irmãos, tradicional indústria de Campo Bom/RS, estão tomando o caminho de saírem do país para continuarem sobrevivendo. Afora estas, outras empresas estão mudando seu foco de “fabricantes” para distribuidoras: preferem comprar lá fora o produto pronto, e apenas o distribuírem no mercado interno. Pena que não se tenha uma estatística confiável, mas, certamente, a percepção é de que uma dezena de empresas brasileiras tenham sido adquiridas por multinacionais nos últimos cinco anos, confirmando a tese da desnacionalização. Neste sentido, destaca-se o ramo sucroalcooleiro, em razão do álcool combustível, ou etanol como queiram.

A dívida interna mais do que dobrou neste período – superou a marca de 1,7 bilhões de reais e, a externa, apesar do discurso, ronda a casa dos 230 bilhões de dólares. O leitor dirá: "mas o governo não disse que pagou a divida externa?" Pois é, leitor, como é comum e rotineiro no governo Lula, a mentira tem um enorme peso  e foi disso que se viveu até hoje: na doce e infeliz ilusão de que tudo vai bem.

O superávit primário, a economia para pagamento da dívida, apesar dos malabarismos, não consegue cobrir o valor anual pago para o serviço ou sua rolagem . Resultado: o governo precisa aumentar a dívida, com novos financiamentos, só para quitar os juros anuais.

Juntem tudo isto com um país com a saúde pública na UTI, com metade do país sem saneamento básico, com indicadores educacionais e sociais abaixo da crítica, e vocês terão um Brasil colocado na rabeira do ranking das nações com melhor índice de desenvolvimento humano. Já nem vou falar da carga tributária, do sucateamento da infraestrutura, da insegurança jurídica derivada de uma burocracia asfixiante para as atividades produtivas, e convenhamos: o que há de "bendita" nesta herança para assim ser classificada? A estabilidade econômica? Ora, isto não é obra do senhor Lula, todas as reformas necessárias para consolidação desta conquista, ela as encontrou prontas, muito embora, na oposição, ele e seu partido tenham sido contrários a tudo o que foi feito em benefício do país.

Portanto, temos acima uma pálida ideia do governo real que Lula deixará para Dilma Rousseff. Querem um último exemplo da mistificação encenada por Lula de que ele descobriu o Brasil? Pois bem, Lula, por certo, tentará comparar de forma vigarista, como é de hábito, a média de crescimento de seus oito anos com os de FHC. Claro que esconderá que o mundo, ao tempo de seu antecessor, cresceu na média anual de 1,8%. Com Lula, o mundo prosperou na média anual acima de 7 %. Ou seja, as condições para o Brasil , sob o governo Lula ter prosperado imensamente, foram excelentes. Sem crises, com a economia arrumada, com as reformas principais já implementadas, Lula tivesse mantido apenas a média mundial de crescimento aqui dentro, e o país teria crescido o dobro. Vejam:

* Média anual FHC: 2,28% - Média Mundial: 1,8%
* Média anual Lula: 4,00% - Média Mundial: 7,00%

Mas tem mais: no grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), atuais motores do crescimento mundial, o país é o último da fila. A média do crescimento chinês, por exemplo, foi de 10,95% nos últimos oito anos, enquanto a do indiano foi de 8,2%. Até mesmo a Rússia, cujo Produto Interno Bruto (PIB) despencou 7,9% por causa da crise mundial em 2009, teve média melhor: 4,8%. O Brasil também ficou abaixo da média da América Latina no período: 4,64%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que já tem projeções para 2010.

Considerando as estimativas do FMI, entre 2003 e 2010, o Brasil fica à frente apenas do México, que cresceu 2,1% nesse período, se consideradas as principais economias da América Latina. O país empata com Chile e Paraguai, que também fecharão o período 2003-2010 com crescimento médio de 4%. A Argentina, por exemplo, registrará taxa de 7,4%; o Peru, de 6,4%; e a Venezuela, de 4,6%.

E se Dilma não tomar atenção e agir com rapidez, o problema da desindustrialização e desnacionalização tende a se agravar ainda mais, e ainda estamos próximos de produzir déficits, também, na balança comercial.

Como se disse aqui, um governo deve ser visto pelo ângulo dos resultados que obtém, e não pelos discursos e manipulação da verdade. Sendo assim, e dadas as análises dos resultados sociais, educacionais e econômicos, dá para se dizer que o governo Lula, juntados primeiro e segundo mandatos, foi um pouco além do medíocre. Nada além disso. Não há, como se vê, nada para se comemorar. E olhem que não falei do descalabro da segurança pública, do trânsito caótico, de política externa, da fragmentação institucional do país, e outras miudezas mais, como a percepção de 67,0% da população para o aumento da corrupção...

Se há uma herança ruim prá danar, é a que Lula deixará para sua sucessora que, na campanha pregava um “seguir mudando”. Os fatos estão aí, mesmo que de forma resumida, mas incontestáveis. E, creio até, que a maioria das pessoas tenha consciência deles, mesmo que não alcancem o conjunto completo da obra. Acho que há muito mais para mudar do que prá continuar. Do contrário, Tiririca ficará desmoralizado: com PT no poder, sempre dá para ficar pior do que já está.

A educação como valor

Cláudia Trevisan, Estadão.com

A China não deixa de assombrar o mundo. A mais recente façanha do país que abriga 20% da humanidade foi alcançar o primeiro lugar no teste que avalia a capacidade de alunos do segundo grau em provas de leitura, ciência e matemática, deixando para trás 64 nações, incluindo todo o time dos ricos. O Brasil não passou da 53ª posição e, em tese, teria muito que aprender com Xangai, a única cidade da China onde o teste foi realizado.

É claro que há investimento em educação, treinamento e valorização dos professores. Mas parte significativa da performance dos chineses se deve a questões culturais e ao valor absoluto dado à educação pela sociedade e as famílias. Já viajei muito pela China e estive em vilas rurais pobres, que não tinham água encanada nem saneamento básico. Apesar disso, todos os pais que entrevistei mantinham seus filhos na escola. E olha que a educação na China, mesmo básica, não é gratuita. A situação está mudando no campo, com a isenção ou redução drástica das anuidades, mas poupar para garantir o estudo dos filhos é prioridade na vida de todos os pais chineses.

Pode-se argumentar que a realidade de Xangai não reflete a situação de toda a China, que é enorme e extremamente diversa. Com a maior renda per capita do país, a cidade tem um índice de analfabetismo de 3,81%, comparado a uma média nacional de 7,10%.

Mas o valor dado à educação é generalizado. Em parte isso reflete o confucionismo e sua ênfase no estudo permanente e no mérito. Não por acaso, outras sociedades fortemente influenciada pela filosofia obtiveram bons resultados no exame, como Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Japão, todas entre os dez primeiros colocados.

As crianças chinesas dedicam quase todo o seu tempo aos estudos e permanecem na escola das 8h às 16h, todos os dias. Quando chegam em casa, se dedicam às tarefas, muitas vezes sob supervisão dos pais. Os de famílias mais abastadas ainda têm aulas particulares de inglês, matemática ou música.

A política de filho único também desempenha um papel importante na performance dos estudantes. Os “pequenos imperadores” sofrem pressão constante dos pais para estudarem e garantirem um futuro promissor. Porém mesmo na zona rural, onde as famílias normalmente têm mais de um filho, a exigência dos pais é grande. A educação também é encarada como responsabilidade de toda a família e é comum ver avôs e avós esperarem os netos na saída de escolas chinesas.

A seguir estão algumas fotos de estudantes na zona rural:

Estudantes voltam em fila para casa em vila rural de Henan


Filhos de camponeses na saída de escola em Henan
 

Avô busca neto na escola
 


Saída da escola em vila rural de Hebei
 


Crianças voltam da escola com pais e avós, em vila de Hebei
 




Estrutura precária e falta de docentes explicam desempenho

Wilson Lima e Ricardo Rodrigues - O Estado de São Paulo

Maranhão e Alagoas, os Estados com as piores pontuações, sofrem com carência de material didático e professores

SÃO LUÍS - Janelas e carteiras quebradas, falta de material didático, banheiros sem condições de uso, prédios de prefeituras funcionando como escolas do Estado e quatro secretários da Educação em dois anos. Situações como essas são apontadas por especialistas como as razões principais para que o Maranhão conseguisse apenas a penúltima posição no Pisa.

Os alunos sentem na pele os problemas. "Na minha escola, não vi melhorias. Nossa estrutura não é das melhores", diz a estudante do Centro de Ensino Governador Edison Lobão, Ádria Michele Soares, de 15 anos.

Os alunos também reclamam da falta de professores e de material didático. Nos últimos três anos, o Maranhão tem enfrentado outros problemas. Em 2007 ocorreu a maior greve do setor, que durou mais de 90 dias. Nesse ano, os docentes também realizaram paralisações para cobrar do governo a implementação do Estatuto do Magistério.

Procurada, a Secretaria da Educação do Maranhão não quis se pronunciar.

Em Alagoas, Estado com a pior pontuação no Pisa, alunos também reclamam da falta de professores. "Essa situação não é de agora e está longe de ser resolvida. Entra governo, sai governo e ninguém trata a educação como prioridade", diz o professor Daniel Soares, do Colégio Estadual Benício Dantas.

"São dados que nos entristecem, mas servem também de reflexão, para que possamos encontrar as falhas e reverter esse quadro. Acredito que estamos no caminho", disse Maria do Carmo de Melo Silveira, superintendente de Gestão da Secretaria Estadual de Educação de Alagoas.

Avaliação internacional expõe avanço lento e nível baixo da educação do País

Lisandra Paraguassú - O Estado de S.Paulo

Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) trouxeram uma boa e uma má notícia para o Brasil. As notas mostram que a média do País subiu 33 pontos entre 2000 e 2009. O problema é que a qualidade do ensino é tão ruim que, entre os 20 mil alunos brasileiros que fizeram as provas de leitura, ciências e matemática, mais da metade deles fica sempre com a nota mais baixa, o nível 1.

É esse desempenho abaixo da média nas provas que mantém o Brasil, apesar da melhora ao longo da década, nos últimos lugares do teste internacional - 53.º de 65 países. Em ciências, nenhum aluno brasileiro atingiu o nível 6 do Pisa. E só 20 deles (0,1%) chegaram ao nível 6 em leitura e matemática.

O Pisa, realizado a cada três anos, avalia o nível educacional dos jovens de 15 anos em todos os países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), considerados de Primeiro Mundo, além de convidados, como o Brasil, que participa desde 2000. Nesse período, o País nunca conseguiu ir além das últimas posições - chegou a ficar nos últimos lugares nas primeiras edições. Neste ano, conseguiu passar, na América Latina, Argentina e Colômbia, mas ainda está atrás de México, Chile e Uruguai.

A evolução registrada no teste de 2009 até é significativa - o País foi o terceiro que mais cresceu. Na década, só dois outros países cresceram mais, o Luxemburgo e o Chile.

Nível 1.
Em leitura, 50% dos estudantes ainda alcança apenas o nível 1, o que significa que eles apenas são capazes de encontrar informações explícitas nos textos. Não são analfabetos, mas só têm o nível mínimo de habilidade de leitura. Em matemática, um contingente de 69% dos alunos brasileiros também não passa do nível 1 - eram 73% em 2006. Não conseguem ir além dos problemas mais básicos, têm dificuldades de aplicar a matemática e, na avaliação da OCDE, nem tirariam proveito de uma educação mais avançada.

Em ciências, 54,2 % dos jovens brasileiros testados também ficaram no nível 1 - entendem apenas o óbvio e têm enormes dificuldades para manejar conceitos científicos básicos. Em 2006, 61% estavam nesse nível.

A síntese da qualidade de ruim do ensino brasileiro está na outra ponta dos resultados do Pisa: eles mostram que 98,2% dos estudantes que fizeram a prova não tiveram "alto desempenho" em nenhuma área. A maior parte de jovens brasileiros não alcança a média, que são os níveis 3 e 4.

O nível mais alto de todos, o 6, é difícil mesmo para países desenvolvidos, onde o bom desempenho atinge 3% dos alunos em leitura e 4% em ciências. Já em matemática, há exceções, como Xangai (China), em que 26,6% alcançam o patamar mais alto.

Cenário.
Segundo o relatório do Pisa, a melhora no Brasil se deve à ampliação do investimento e ao crescimento dos testes de avaliação. Mas as políticas públicas para a qualidade do ensino, a começar pela formação e remuneração dos professores, deixam a desejar.

O relatório da OCDE pergunta: "Como são pagos os professores na comparação com outros trabalhadores de alto nível? Você gostaria que seu filho fosse professor?" O Brasil vai mal nas respostas a essas perguntas.

No Brasil, crianças começam a estudar mais tarde
As crianças brasileiras são as que começam a estudar mais tarde. Nossos alunos iniciam a educação primária com 7,4 anos. No Peru e no Chile, eles entram no sistema aos 6 anos.

Os estudantes brasileiros também estudam por menos tempo: passam 216 minutos por semana estudando leitura, enquanto no Chile os alunos têm 312 minutos e, no México, 236. Para ciência, o Brasil dedica 169 minutos e, para matemática, 213.

PARA ENTENDER

Exame incluiu leitura de texto no computador
O principal objetivo do Pisa é apresentar indicadores educacionais que possam ser comparados entre países, mostrando, assim, a eficiência dos sistemas nacionais. As avaliações são feitas a cada três anos, com provas de leitura, matemática e ciências. A cada edição, uma das áreas é enfatizada - neste, o foco foi em leitura e incluiu, pela primeira vez, textos online. Fazem as provas alunos de 15 anos dos 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de mais 31 convidados. O exame dura duas horas e é formado por questões de múltipla escolha e perguntas abertas. Os alunos também responderam a questionários sobre motivações, atitudes e métodos de estudo. A margem de erro do ranking é de 5 pontos.

Conversa vai, conversa vem...

Maria Helena R.R.de Souza

Evanildo, um jovem alagoano de 18 anos, não sabe dividir 8 por 4.

Disse, com a sinceridade que é uma facada em nosso coração: 'preciso da ajuda de um papel' para fazer essa conta!

Li isso em O Globo de hoje e morri um pouquinho.

Leiam isso:

A Escola Estadual Tavares Bastos, onde Evanildo estuda, é considerada uma das melhores e mais disputadas do estado, modelo de inclusão de jovens com deficiência de aprendizado, como autistas e surdos-mudos. Com 24 anos de profissão, a diretora da escola, Rosa Maria Lemos Barbosa, diz acreditar que o mau desempenho dos alunos alagoanos pode ser explicado por problemas como a falta de merendeira nas escolas:

— Os alunos chegam à escola com fome. E ao tentar estudar, vem logo o sono, a dor de cabeça e a dificuldade de aprender. Minha escola só tem duas merendeiras para 400 refeições por dia, juntando os três horários em que funciona. Dando condições aos alunos, escolas em tempo integral e amor, principalmente amor, nós sairemos do último lugar, com o pior ensino do Brasil — disse.

Segundo o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) Alagoas só não perde para o Quirziquistão!

Com que cara os renans, collors e teotônios olham esses meninos? Com a de sempre ou ao menos baixam os olhos?

Nessas horas eu preciso acreditar que Dante foi iluminado por Deus e que sua descrição dos três estágios lá no além é exata, porque essa gentinha arquimiliardária não merece mais do que o último círculo do Inferno.

A fome alimenta a ignorância! A fome de comida, a fome braba que deixa o sujeito fraco das pernas e da cabeça.

Evanildo disse mais: nem ele mesmo sabe como chegou até onde chegou.

E ele quer ser professor de educação física.

Acredito que a professora Rosa Maria seja muito dedicada, mas ela que me desculpe: não faltam merendeiras.

Falta tudo. A começar por decência e honradez nas autoridades municipais, estaduais e federais.

Numa coisa ela tem razão: mais que tudo, falta é amor. O brasileiro não ama o brasileiro.

Terrível constatação...

Professores despreparados para o método adotado no país comprometem desempenho no Pisa

Renata Honorato, Veja online

Falta de formação do corpo docente impede que sistema educacional baseado no construtivismo se reflita em uma educação mais eficiente

“Optar por um modelo democrático construtivista requer professores preparados e essa é uma carência do Brasil” - Neide Noffs, coordenadora do curso de Psicopedagogia da Faculdade de Educação da PUC-SP

O desempenho brasileiro abaixo da média no relatório do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (confira o ranking abaixo) passa por um ciclo vicioso em que o sistema educacional adotado no país - o construtivismo - não funciona porque os professores estão despreparados para aplicá-lo com eficiência. É base do construtivismo que professores trabalhem como tutores e ensinem os alunos a 'construírem', organizarem e controlarem o seu conhecimento. Sem o preparo adequado, quem deveria ser o condutor do aprendizado pode tirá-lo dos trilhos.

Para Cláudio Gomide, professor da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), a desvalorização social do papel do professor reflete em profissionais sem formação inicial e continuada. "Sem um regime de trabalho justo e plano de carreira é impossível que uma instituição mantenha um corpo docente de qualidade apto à função de ensinar”, diz. “Optar por um modelo democrático construtivista requer professores preparados e essa é justamente a carência do Brasil”, afirma Neide Noffs, coordenadora do curso de Psicopedagogia da Faculdade de Educação da PUC-SP. A especialista ainda completa: “É preciso que existam propostas pedagógicas adequadas a cada região. O Brasil é muito grande e não é possível abordar a educação de um ponto de vista único em todos os estados”.

Embora a posição do Brasil no ranking do Pisa seja insatisfatória, os números indicam uma pequena evolução, se comparados aos dados de 2006. Noffs associa essa melhora a algumas mudanças de legislação que ocorreram nos últimos anos. Ela cita, por exemplo, a recente obrigatoriedade na apresentação de planos curriculares na rede pública municipal. “A fiscalização melhorou, mas é preciso que o país acompanhe de perto essas medidas operacionais”, lembra.

Para Gomide, o tímido aperfeiçoamento está vinculado ao crescimento da inclusão educacional no Brasil. “Mais crianças começaram a frequentar a escola e isso melhora o desempenho de modo geral, mas não é suficiente para elevar o nível do setor”, pondera. “Ainda sofremos com a falta de acesso à informação e com o total desconhecimento dos valores que movem cada aluno”, ressalta o especialista ao citar as razões pelas quais os brasileiros são tão mal avaliados em exames internacionais.

Problema invisível – Segundo o relatório do Pisa, com base na opinião de escolas brasileiras, o uso de álcool e drogas ilícitas, aliado a prática do bullying - palavra inglesa usada para designar o ato de intimidar e atormentar –, é o que mais compromete o rendimento dos alunos brasileiros. O problema é velho conhecido de países ricos, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas parece comprometer mais a educação por aqui do que em nações desenvolvidas.

De acordo com os especialistas, há motivos de sobra para tais fatores influenciarem o setor no Brasil. “Faltam psicólogos nas escolas que possam ajudar os alunos e a sociedade a enfrentarem esses problemas. Hoje todas essas questões ficam nos ombros dos professores, que se dividem entre vários colégios para conseguir renda”, lembra Gomide. Noffs concorda com o acadêmico e complementa: “As medidas de penalização em outros países são mais severas. Nos EUA, por exemplo, um aluno de oito anos pode ser preso se for flagrado praticando o bullying. Aqui a gente simplesmente finge que isso não acontece.”

Confira, na íntegra, o ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos:



Cresce diferença entre pública e privada

Simone Iwasso - O Estado de São Paulo

No Brasil, distância entre as pontuações obtidas pelos estudantes das duas redes saltou de 109 para até 121 nos últimos três anos

O fosso que separa as escolas públicas das privadas no País aumentou nos últimos três anos. A distância entre as pontuações obtidas pelos estudantes das duas redes, que chegava a 109 pontos em 2006, cresceu e atingiu até 121 no Pisa 2009. Mais do que pontuações diferentes, os números indicam níveis de conhecimento distintos em leitura, matemática e ciência.

Filipe Araujo/AE
Alunos do ensino médio do Colégio Santa Maria, um dos melhores de São Paulo;
rede particular está no nível 3, enquanto o público fica no 1

Isso quer dizer que enquanto o aluno que estuda numa escola particular alcança 519 pontos em média - o nível 3 na escala de proficiência (patamar considerado razoável pelos organizadores da avaliação) -, o da pública (federal, estadual e municipal) faz 398 pontos e não sai do primeiro nível de desempenho.

Em outras palavras, com 15 anos, os alunos das escolas particulares conseguem ao menos ler um texto e extrair sua ideia principal, identificando argumentos contraditórios e pouco explícitos. Também são capazes de relacionar informações com situações do cotidiano. Estudantes da rede pública só entendem informações explícitas e não são capazes de perceber trechos mais importantes numa leitura.

A exceção nessa comparação fica por conta da rede pública federal, um conjunto pequeno de ilhas de excelência mantidas pelo governo federal que organizam todos os anos processos seletivos bastante disputados entre estudantes - e acabam ficando com os melhores alunos. A pontuação deles está próxima da média dos países desenvolvidos.

Em matemática e ciências, a discrepância continua - e também registra aumento. Em 2003, a diferença de pontuação em matemática era de 109 pontos. Em 2006, saltou para 117 - com os estudantes de toda rede pública incapazes de realizar operações com algoritmos básicos, fórmulas ou números primos.

Em ciências, foi de 107 para 115 a diferença de pontuação entre as redes. Nos dois casos, a distância representa mais de um nível de proficiência na escala de conhecimentos. No nível 1, alunos da rede pública não conseguem explicar como ocorrem fenômenos cotidianos, como ciclo da água na natureza.

Discrepância.
Na opinião da ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) Maria Helena Guimarães de Castro, responsável por incluir o Brasil no Pisa, a novidade dos resultados de 2009 está justamente nesse aprofundamento da discrepância entre os níveis dos alunos de escolas particulares, públicas federais e públicas estaduais e municipais.

"A média dos estudantes de públicas federais e das particulares é mais alta, são índices comparáveis aos alunos dos melhores países do ranking", explica Maria Helena. O problema, segundo ela, é que as escolas federais selecionam estudantes e só as que fazem isso estão conseguindo evoluir, analisa.

"Não adianta que só os bons alunos melhorem. O importante é ter uma média de desempenho que mostre uma qualificação do estudante brasileiro para a sociedade do conhecimento", diz a ex-presidente do Inep.

O coordenador de educação da Unesco no Brasil, Paolo Fontani, ressalta que os países com melhor desempenho são aqueles cujos sistemas educacionais oferecem boas oportunidades de desenvolvimento para todos os alunos, independentemente da classe social. "Criar uma escola somente para os bons alunos não funciona do ponto de vista da equidade."

Fontani diz ser contra selecionar estudantes - como ocorre nas escolas federais e em parte das particulares. "Para alunos de classes sociais mais vulneráveis, é fundamental estudar em boas escolas, senão o ciclo de exclusão não vai parar nunca."

Separação.
Se apenas o resultado dos estudantes das escolas privadas fosse levado em conta, o País ficaria em 9.º lugar em leitura, perto da Austrália e Holanda; 29.º em matemática, perto da Hungria; e 20.º em ciências, próximo a Irlanda.

No entanto, mesmo esse universo (que representa cerca de 10% dos alunos do País) ficaria abaixo dos estudantes da rede pública de vários países.

Colaborou Carlos Lordelo

Alunos brasileiros de escolas públicas ficam atrás

Agência Brasil

Enquanto a média alcançada por escolas particulares foi de 502 pontos, nas públicas o número não passou de 387 pontos

Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) divulgados nesta terça-feira confirmam o que as avaliações internas já indicam há bastante tempo: o desempenho dos alunos da rede pública é inferior ao de estudantes de instituições privadas. Enquanto a média alcançada por eles em escolas particulares foi de 502 pontos, nas públicas foi de 387 pontos.

O Pisa é aplicado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e avalia o conhecimento de estudantes de 15 anos de idade em matemática, leitura e ciências. A média do Brasil, considerando as três disciplinas, foi de 401 pontos.

Dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) mostram que na rede federal de educação básica a média é bastante superior: 528 pontos. É mais do que a meta estabelecida para que o país alcance até 2021 e acima da média dos países da OCDE. Essas escolas são geralmente ligadas às universidades federais e funcionam como laboratórios de novas práticas pedagógicas para os cursos de formação de professores.

“É uma rede pequena, mas mostra que o setor público sabe oferecer boa educação, mas pra isso você tem que remunerar bem o professor, investir em laboratórios, em educação integral, [esses] são componentes do sucesso escolar”, afirmou o ministro da Educação, Fernando Haddad.

Em leitura, os alunos das escolas federais atingiram 535 pontos, os da rede privada, 516, e os da pública não federal, 398. O desempenho em matemática foi de 521 pontos na rede federal, 486 na particular e 372 na pública. Em ciências, as escolas federais ficaram com média 528, as particulares, com 505, e as públicas, 392.

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Apenas 1,3% das escolas estaduais tem nota sete
Alexa Salomão, Exame.com

Tem gente que não leva a sério o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, indicador criado em 2007 para medir a qualidade do ensino no país. O Ideb é apurado com a aplicação de provas aos alunos de mais de 48 mil escolas públicas e privadas. Mas sua base de dados oferece uma visão do tamanho do problema que o Brasil tem para resolver na educação. Um levantamento realizado pela Secretaria de Educação de Minas Gerais é um bom exemplo disso.

A pesquisa, realizada a partir dos dados de 2009, apurou que das 11 755 escolas estaduais do ensino fundamental apenas 149 (o equivalente a 1,3% do total) conseguiram Ideb igual ou maior que sete. O indicador vai de 0 a 10. Nessa minoria, 109 estão em Minas Gerais. O segundo estado é São Paulo, com 22 escolas.

A grande maioria das escolas estaduais do país, 7 848, tem nota mediana, ou seja, entre 4,3 e 6, pendendo mais para baixo do que para cima nessa escala. Um terço está em situação ainda pior. Tem Ideb abaixo de 4,3.

Situação alarmante

O Estado de São Paulo

Embora pareça uma platitude, o ministro da Educação, Fernando Haddad, não deixa de ter razão quando diz que o desempenho dos estudantes brasileiros em avaliações internacionais deve ser visto em "perspectiva histórica". De fato, ao longo do século 20, enquanto um número cada vez maior de países investia pesadamente em educação, "o Brasil custou a despertar para o assunto", recorda o ministro. O problema é que o País não só acordou tarde - o pleno acesso ao ensino fundamental foi obtido apenas na segunda metade da década passada -, como ainda não acordou de todo, se a condição de vigília for medida pela qualidade da educação.

Esta continua longe do mínimo satisfatório, assim como os índices de evasão escolar e o porcentual de estudantes em séries aquém de sua idade. É verdade que os números já foram piores, mas isso não pode servir de consolo. Sem querer negar os progressos alcançados, o patamar em que se encontra o ensino brasileiro é uma chaga social e um freio ao desenvolvimento nacional na era da informação. Nesses dois sentidos essenciais - a educação de qualidade como direito da população e imperativo para uma economia impulsionada pela inovação tecnológica - a metáfora do copo meio cheio e meio vazio não se aplica. A metade vazia é "mais igual" do que a metade cheia.

Tomem-se os resultados de 2009 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), iniciado em 2000 e repetido a cada triênio. Os exames, de que participam os 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e 31 nações convidadas, medem a aptidão dos estudantes de 15 anos na sétima série em leitura, matemática e ciência, cada vez com ênfase numa dessas áreas. Da última versão do teste, participaram 20 mil brasileiros. Numa escala de 0 a 1.000, tiveram em média 412 pontos no quesito leitura, 386 em matemática e 405 em ciência. Ou, respectivamente, 4,8%, 4,3% e 3,8% acima das marcas de 2006.

A contar de 2000, apenas dois países (o minúsculo Luxemburgo e o vizinho Chile) avançaram mais do que o Brasil. O relatório da OCDE considerou "impressionante" a evolução do País, agora o 53.º no ranking de leitura e ciência, e o 57.º dos 65 participantes em matemática. Nada a comemorar, sobretudo quando se vê que praticamente a metade dos alunos brasileiros tirou as notas mais baixas em leitura, pouco mais da metade ficou nos mesmos patamares em ciência, assim como perto de 70% na prova de matemática. Apenas 2 em cada 100 tiveram "alto desempenho", na classificação do Pisa, em qualquer das áreas avaliadas. A China (mais especificamente Xangai) lidera nas três modalidades. Os números exprimem uma situação alarmante.

O típico estudante brasileiro naquele grupo de idade sabe ler, mas não entende o que lê - as ideias implícitas nos textos lhes escapam. O padrão se repete em ciência: a maioria entende o óbvio, mas é incapaz de lidar com os conceitos básicos. Em matemática, apenas os problemas mais simples são resolvidos. O baixíssimo nível, adverte a OCDE, representa uma barreira insuperável à aprendizagem em anos futuros. É, por sinal, o que mostra a experiência empírica: as nossas faculdades estão cheias de pessoas com sérios problemas de expressão e compreensão; as profissões também.

As deficiências vêm do berço, por assim dizer. As crianças brasileiras começam a estudar mais tarde (aos 7,4 anos em média) do que as chilenas ou peruanas, por exemplo, para ficar na América Latina. E o número de horas por semana dedicadas ao estudo é também inferior. Além disso, 40% dos alunos repetem pelo menos um ano durante a sua vida escolar. Na relação da OCDE, o Brasil só ganha da Tunísia e de Macau nesse quesito. Mas o maior problema singular do sistema educacional brasileiro é a capacitação insuficiente dos professores, reflexo direto de seus baixos salários e da erosão continuada do seu prestígio social.

Nesse particular, o relatório da OCDE contém duas perguntas embaraçosas para o Brasil: "Como são pagos os professores em comparação com outros trabalhadores de alto nível?" e "Você gostaria que o seu filho fosse professor?"

País tem 38% dos alunos abaixo do nível 1 de avaliação

Exame.com e informações da Agência Estado

Quatro em cada dez brasileiros de 15 anos não conseguem fazer nem mesmo uma conta de multiplicar, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Alunos

Wikimedia Commons
Estudantes brasileiros tiveram resultado ruim nas provas de matemática,
de acordo com o Pisa

Brasília - As dificuldades da educação brasileira em todas as áreas ficaram explícitas nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), divulgados esta semana. O Pisa mostrou que 38% dos 20 mil estudantes que fizeram a avaliação no Brasil ficaram, em matemática, abaixo no nível 1 da prova.

Os resultados do exame mostram que praticamente quatro em cada dez brasileiros de 15 anos não conseguem fazer nem mesmo uma conta de multiplicar - habilidade ensinada até a 4.ª série do ensino fundamental.

Em países europeus que tiveram bons resultados, como a Finlândia apenas 1,4% dos estudantes caiu nessa faixa. Na China continental, também um país em desenvolvimento, foram apenas 1 4%. No México, que figurou um pouco melhor que o Brasil no Pisa 2009, 21,9% dos alunos ficou abaixo do nível 1.

Ficar abaixo do nível 1 do Pisa significa que esses estudantes, apesar de estarem entre a 7.ª série do fundamental e o 1.º ano do ensino médio, não conseguem completar uma simples de multiplicação.

Uma das questões desse nível de dificuldade apresentada pelo Pisa é um cálculo de taxa de câmbio: para chegar à resposta, o aluno precisa multiplicar o valor que a personagem possui em sua moeda (3 mil) pela taxa de câmbio, 4,2. Boa parte dos brasileiros não conseguiu.

“O número de estudantes atingindo o nível 5 ou 6 em matemática e ciências será particularmente importante para países que desejam criar um grupo de trabalhadores capazes de avançar a fronteira do conhecimento científico e tecnológico e, no futuro, competir na economia global”, diz o relatório do Pisa. No Brasil, apenas 0,8% dos estudantes chegaram aos níveis 5 e 6, enquanto na China a metade dos que fizeram a prova estão nesse nível.

‘Economist’: no Brasil, até escolas privadas são medíocres

Sílvio Guedes Crespo, Estadão.com

Quem estuda no Brasil e é capaz de ler estas linhas pode dizer que o problema da educação acomete “o povo brasileiro” – ou seja, “os outros”. Mas não é preciso ser altruísta para ficar indignado com a qualidade do ensino. Nesse assunto, o “povo” inclui, no mínimo, a classe média.

Com base em dados do Pisa (sigla em inglês para Programa para Avaliação Internacional dos Estudantes), a revista britânica “The Economist”, em reportagem até elogiosoa sobre a evolução da educação no País, sintetiza sua opinião em uma frase: “Até as escolas privadas são medíocres [no Brasil]”.

“Os alunos dessas escolas vêm dos lares mais abastados de todos, mas elas despejam garotos de 15 anos que não conseguem fazer mais do que a média das crianças da OCDE”, afirma a revista. A OCDE, Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, é um grupo de 30 países, a maioria deles ricos.

Em resumo: os alunos das famílias mais ricas do Brasil estão, evidentemente, em melhor situação do que os pobres, mas se igualam aos estudantes medianos dos países desenvolvidos.

Com o título “Não mais o último da classe”, o texto da “Economist” mostra que o Brasil teve melhoras significativas nessa área. O País se tornou objeto de um estudo de caso da Pisa chamado “Lições encorajadoras retiradas de um amplo sistema federal”.

A revista atribui essa evolução a medidas tomadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ampliadas pelo atual chefe de governo, Luiz Inácio Lula da Silva. Entre elas estão o piso para gastos das escolas por aluno e para salário de professores, o que “fez uma enorme diferença” em regiões mais pobres.

Os elogios da revista, que fique claro, não são sobre o estado atual da educação no País, mas sobre o avanço nos últimos dez anos. O Brasil “passou do ‘desastroso’ para o ‘muito ruim’”, afirma o semanário.

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“The Guardian” destaca a necessidade de uma reforma da educação no Brasil
Instituto Millenium

Sem uma reforma completa da educação, o milagre do desenvolvimento econômico e a redução da pobreza estão em risco. É o que afirma o artigo “Can Brazil learn from its success?” (‘O Brasil pode aprender com seu sucesso?’) de Siân Herbert, no jornal inglês “The Guardian”, em 27 de setembro. A autora comenta que nenhum dos candidatos à presidência adotou como bandeira uma reforma da educação. Ela elogia os avanços obtidos na àrea social nos últimos anos, mas destaca que o aumento da frequência escolar não foi acompanhado por um aumento também da qualidade do ensino: “A educação é desvalorizada na sociedade brasileira e raramente aparece nos debates na esfera pública ou privada”, diz Herbert. “Lula frequentemente tem usado sua própria falta de educação formal como um instrumento retórico para minar seus adversários políticos, as elites dominantes. De acordo com dados recentes do Relatório de Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe do PNUD, 10 dos 15 países mais desiguais do mundo estão localizados na América Latina. A falta de sistemas de educação estão no cerne deste problema. Não é coincidência que o Brasil é o 10º país mais desigual do mundo.”

A cultura brasileira merece mais respeito e gente melhor

Adelson Elias Vasconcellos

Há uma forte corrente de artistas fazendo lobby pela permanência do senhor Juca Ferreira como Ministro da Cultura. De antemão, me posiciono totalmente contra. Pelo tempo que este senhor já é ministro, não há desculpas para as falhas graves por ele cometidas.

Antes de apontar estas falhas, me permitam algumas rápidas colocações. A tarefa principal de qualquer ministro encarregado pela cultura de um país, pelo menos sendo este um país sério, é a preservação da memória cultural nacional. Principalmente aquela ligada às raízes de um povo, que forjaram e ajudaram a moldar sua identidade como sociedade indivisível. Assim, não apenas as obras devem ser preservadas e conservadas além de divulgadas para o conhecimento de novas gerações, como ainda seus autores, sejam músicos ou poetas, escritores ou compositores, artistas plásticos dos mais diferentes gêneros, artistas cênicos e todo o corpo de coadjuvantes que ajudam e dão forma às obras como coreógrafos, dançarinos, iluminadores, diretores de arte, etc. Mas os grandes criadores que externam um sonho, uma fantasia, eternizando a passagem de sua geração pela existência física, estes, em especial, devem ter sua memória revivida em tempo quase integral.

Uma das formas de se cultivar a lembrança destes monumentos criadores, por exemplo, é sempre preparar-se intensas comemorações pelo centenário de nascimento. É o momento adequado para se prestar justo tributo a estes modeladores da identidade de um povo, difundin ainda mais as suas obras, recordando suas vidas dedicadas às artes, irradiando às novas gerações as verdadeiras raízes de sua formação.

Neste sentido, é indesculpável para um Ministro da Cultura, com plena consciência de sua função maior, deixar passar em branco, a exemplo do senhor Juca Ferreira, os centenários de figuras que, neste ano de 2010, completariam cem anos de vida, se vivos fossem. Reparem nesta pequena lista, elaborada pela Maria Helena R. R. de Souza, nada menos do que a filha de Adoniran Barbosa, um verdadeiro timaço fora de série:

• Claudionor Cruz - 1º/4;
• Jorge Veiga -14/4;
• Custodio Mesquita - 25/4;
• Vadico - 24/6;
• Luiz Barbosa - 7/7;
• Haroldo Lobo - 22/7;
• Adoniran Barbosa - 6/8;
• Nássara - 11/11, e
• Noel Rosa 11/12.

É um ultraje. Não há desculpa para tamanho esquecimento, tamanha ingratidão com qualquer um dos grandes artistas que foram as grandes figuras acima.

É tratar a arte musical brasileira, tão brasileiramente esculpida por eles, com menos caso. Um ministro da Cultura que, num país sério, cometessem tamanho deslize, sequer teria oportunidade para uma segunda oportunidade, quanto mais para ser reconduzido ao mesmo cargo no qual se mostrou tão inepto e incompetente.

O senhor Juca Ferreira até pode ser boa pessoa, ter boas intenções de fazer um trabalho bem feito. Mas isso só não basta. Quando teve a preciosa chance de demonstrar seu apreço para com os grandes nomes que engrandeceram com suas maravilhosas obras e participações a cultura nacional, falhou miseravelmente. E isto é imperdoável.

O senhor Juca Ferreira já havia aprontado uma palhaçada que também marcou de forma incompetente, para se dizer o mínimo, sua passagem pelo Ministério, quando da escolha do filme brasileiro para representar o país na escolha de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2011. Criou no site do Ministério uma enquete para que o povo escolhesse de uma relação, qual deveria representar o Brasil. E, muito embora "Nosso Lar", lograsse 70% da escolha popular, a turma da “curtura” resolveu escolher o filme sobre Lula que, na enquete, ficara apenas em um sexto lugar. Babação de ovo? Sem dúvida. Sequer o filme teve sucesso de público e crítica e, a rigor, como produção cinematográfica, é um filme bastante pobre, ao contrário, por exemplo, de "Nosso Lar".

Esse Zé-faz-nada tem sido, até aqui, bastante competente apenas para puxar o saco do presidente de plantão e "facilitar" alguns patrocínios para a turma que agora o apoia. Contudo, a cultura brasileira é patrimônio do povo, e não de seu presidente ou de seus ministros. Assim, merece um pouco mais de respeito.

Portanto, creio que os artistas, que engrossam fileira em favor do senhor Juca Ferreira, deveriam vir à público tentar justificar a razão de que sua escolha em favor do atual ministro, tenha maior peso do que os motivos comprovados pelos quais este senhor não tem a menor competência e aptidão para cargo tão importante. Certo mesmo é sua intransigente omissão em relação a herança deixada por artistas que dedicaram suas vidas para enriquecer a identidade nacional com obras de reconhecida expressão cultural.

Creio que um país em que a Educação já é tão maltratada e que, ao contrário do discurso de nossos governantes, tem sido relegada a uma posição de menor destaque, colocar à frente do Ministério da Cultura alguém que sequer é capaz de respeitar, resgatar e manter viva a memória de nossos monstros sagrados das artes, é uma ofensa que podemos e precisamos evitar. Que o senhor Juca Ferreira vá se dedicar a outros afazeres e deixe o espaço que ocupa livre para alguém com maior apreço e comprometimento com a cultura brasileira.

Na Cultura, embate sobre destino de Juca Ferreira

Carolina Benevides e Dandara Tinoco, O Globo

" Se Juca fica ou não fica é um problema menor "

" O ministério cumpriu o seu papel com o Gil e o Juca. Agora é momento de se ter um pensamento diferenciado, de dar um salto para construir uma indústria criativa do século 21 "

RIO - Após o lobby de artistas que se reuniram no Rio e em São Paulo para manifestar apoio à permanência do ministro Juca Ferreira à frente do Ministério da Cultura (Minc), o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto afirmou que, na área em que atua, há "95% de descontentamento com as políticas que são executadas pelo ministério". Segundo ele, iniciativas que partem dos artistas são recusadas.

- Se Juca fica ou não fica é um problema menor. O que é preciso é mudar a concepção de política cultural, é preciso conciliar o Brasil arcaico com o moderno. Defendo um ministro antenado com a convergência tecnológica do século 21, que crie políticas diferenciadas para, por exemplo, artesanato e as que são ligadas ao processos industriais. Já estamos perdendo 10 anos do século 21, o ministério tem um modelo dos séculos 19 e 20 - defendeu Luiz Carlos Barreto, que nesta quinta-feira publicou artigo no jornal "Folha de S. Paulo" afirmando que a mobilização em torno de Juca é uma "pressão injustificável" e que a discussão em torno da sucessão do ministro se tornou uma campanha eleitoral.

O produtor afirmou ainda que o movimento pela permanência de Juca Ferreira foi um "apoio orquestrado".

Artistas que participaram das manifestações a favor do ministro reagiram. A cantora Fernanda Abreu, uma das organizadoras de um almoço no Rio , criticou o artigo do produtor, classificando-o de "leviano":

- Barretão foi leviano ao dizer que a manifestação é artificial. Ninguém foi forçado a ir ao almoço. O movimento avalia que a gestão do Juca e do Gilberto Gil (ex-ministro do governo Lula) colocou o ministério num outro patamar. Não estamos declarando apoio geral e irrestrito, não concordamos com tudo o que foi feito, mas gostaríamos de proteger o ministério da cota de política partidária - disse.

Para o ator Marco Nanini, a saída de Juca pode comprometer a continuidade de medidas que vêm sendo adotadas pelo ministério:

- O meu medo é que, nessa divisão política, o ministério seja prejudicado, que o trabalho que vem sendo feito e pode render frutos acabe. O Vale-Cultura, por exemplo, é democrático e precisa ter continuidade. Tenho medo que o ministério sirva para barganha política.

O diretor de teatro Aderbal Freire Filho também saiu em defesa de Juca. Ele negou, no entanto, que exista uma pressão para que o ministro permaneça no cargo.

- Sou inteiramente a favor da continuidade. O ministério era desprezado e desarticulado. E desde o Gil, começou a existir de fato. Não acho que existe pressão, o que existe é a defesa de um projeto. Mesmo quem discorda do ministério devia apoiá-lo, por ser aberto a discussões - disse.

Para o produtor de teatro Eduardo Barata, o movimento é espontâneo:

- As manifestações não são orquestradas, as pessoas que se manifestaram não estão ligadas a um partido, não têm tradição de partido.

Já a produtora Mariza Leão se manifestou a favor de Barretão:

- O ministério cumpriu o seu papel com o Gil e o Juca. Agora é momento de se ter um pensamento diferenciado, de dar um salto para construir uma indústria criativa do século 21, dentro de um modelo mais ambicioso. A discussão de quem fica ou quem sai não me interessa. O Juca é correto e honesto, mas acho que sempre quem está à frente do cargo há um tempo tem o momento de sair.

A grande desculpa

J.R. Guzzo, Revista Veja

O Brasil, e não apenas o Rio de Janeiro, está colhendo nestes dias de guerra civil em miniatura nos morros cariocas o que foi plantado pelas melhores intenções de sua elite pensante, ou por suas dores de consciência, ao longo dos últimos vinte anos. Foi semeada a insensatez. Colhe-se agora, no Rio de Janeiro, o seu resultado inevitável – ou, mais exatamente, um banho de sangue por atacado, em vez do massacre a varejo e em câmera lema que há ta mo tempo tem feito parte da vida diária das principais cidades brasileiras. A origem do mal está na decisão mental, tomada por juristas, legisladores, governos e pela maioria dos que têm acesso aos meios de comunicação para pregar suas opiniões, de que o crime não pode ser reprimido para valer numa democracia; tem de ser entendido como resultado das diferenças de renda, das injustiças sociais, das desigualdades entre pobres e não pobres e de tudo o mais que há de errado no Brasil.

Nessa visão da vida, uma coisa é certa: a culpa pela prática de crimes pode ser de todo mundo, menos do criminoso. Ele seria, na verdade, uma vítima, ou quase isso. Mata, rouba, estupra e viola o Código Penal do primeiro ao último artigo porque “a sociedade” praticamente o obriga a agir assim; é, no fundo, uma espécie de legítima defesa. O resumo dessa maneira de pensar está na sentença que o país já se cansou de ouvir: “A culpa é de todos nós”. Somos nós, portanto, que temos de mudar para diminuir a criminalidade não os criminosos. A eles cabe esperar que as injustiças do Brasil sejam eliminadas para, aí sim, mudar de conduta.

Os defensores da ideia geral de que o crime não se combate com repressão, pois “problema social”, como afirmam, “não é caso de polícia”, podem evitar o emprego de uma linguagem igual à utilizada no parágrafo acima, mas na essência o que estão dizendo é exatamente isso. Mais do que dizer, fizeram – como mostra a evolução das leis penais brasileiras durante as duas últimas décadas. O Brasil é um caso curioso, e possivelmente único no mundo, de país que decidiu combater a criminalidade reduzindo as penas para os crimes, dentro do raciocínio de que punições mais pesadas iriam na contramão da moderna doutrina penal. Ao mesmo tempo, nesse período, as leis ampliaram mais do que em qualquer outra época da história brasileira os direitos dos que são acusados de crimes; na fase da investigação, no estágio judicial e até no regime penitenciário, nas ocasiões em que o sistema consegue prender, processar, condenar e trancar alguém na cadeia. Não importa o tipo de crime cometido, por mais selvagem que seja – o réu tem direito a cumprir apenas um sexto da pena, se for primário. Mesmo nos crimes que a lei considera “hediondos” os condenados fazem jus a esse benefício; o Congresso Nacional decidiu que não deveriam fazer, mas o superior entendimento do Supremo Tribunal Federal resolveu o contrário.

O fundamento dessa filosofia toda, ainda que não seja admitido abertamente, está na crença de que o princípio da responsabilidade individual é algo que se tornou obsoleto ou só pode ser aplicado com restrições. Segundo essa maneira de encarar a criminalidade, não é justo considerar que cada cidadão, basicamente, é responsável por aquilo que faz. Se ele é pobre, mora numa favela ou não tem emprego, seria um dever da sociedade tratá-lo de maneira diferenciada; a responsabilidade pessoal, assim, só deve começar a partir de um determinado nível de renda. Ao mesmo tempo, há estrita vigilância sobre pontos de vista diferentes. Dizer que a pobreza, por si mesma, não torna ninguém mais virtuoso, nem dispensa quem quer que seja de cumprir a lei, é visto como procedimento antipovo, insensível e elitista. Para completar, toma-se a impunidade cada vez mais agressiva que protege os criminosos em atuação na vida pública, e de forma geral todos os que têm dinheiro para se beneficiar de um sistema judicial organizado sob medida para dificultar ao máximo qualquer punição efetiva, como desculpa para deixar tudo como está. Ou seja: em vez de esforços reais para combater a impunidade nas classes de cima, a solução mais democrática é estendê-la para as classes de baixo.Nessas horas, como comprovam os episódios do Rio, é inútil esperar por luzes das lideranças nacionais, a começar pela primeira delas. O Exército e a Marinha estão na linha de frente das operações, mas o seu comandante em chefe demorou para aparecer. Fez o de sempre: esperou o sucesso se consumar e só então entrou em cena.

Corte de despesas, imprensa e política externa : para não dizerem que não falei de flores

Bolívar Lamounier, Exame.com

No momento o Brasil tem dois presidentes – Lula saindo e Dilma entrando. Ministros eu não sei ao certo quantos são, suponho que uns 50, contando os 37 do governo Lula e alguns novos que vão integrar o governo Dilma.

Com tanta gente sondando, auscultando, dando palpite e decidindo, não dá para imaginar que todos vão cantar no mesmo tom. Alguma desafinação vai haver.

Mas ouvir Mantega e Lula desafinando num assunto tão sério como o ajuste fiscal, convenhamos que é estranho. Na apresentação da nova equipe econômica, ao lado de Miriam Belchior (Planejamento) e Alexandre Tombini (Banco Central), Mantega foi enfático. Disse que o ajuste seria feito e que haveria um corte substancial de despesas.

Aos ouvidos do mercado e dos mortais comuns que pagam impostos, isso soou como música. No governo Lula, a gastança aumentou que foi uma grandeza e o ajuste foi feito pelo lado da arrecadação.

E há muita coisa em jogo. Quando Lula chegar a São Bernardo e girar a chave na porta de sua casa, sua visão do Brasil como “uma ilha de tranqüilidade num mundo em turbulência” (qualquer semelhança com o slogan do general Geisel não é mera coincidência) já deverá estar a caminho de algum arquivo.

A economia mundial ainda parece longe de se recuperar da crise de 2008. A americana cambaleia. Mais dia, menos dia, a estagnação global irá forçando a China a reduzir seu crescimento, complicando o saldo comercial brasileiro.

Ao mesmo tempo, o aquecimento excessivo da economia brasileira e o real super-valorizado provocam forte aumento nas importações. Moral da história, é preciso desaquecer e desvalorizar. Um ajuste fiscal corajoso e bem feito serve para as duas coisas.

Foi por isso que a ária solfejada dias atrás por Mantega, Belchior e Tombini foi recebida com aplausos pelos mercados. Mantega disse que vai cortar, cortar e cortar. Inclusive no PAC.

Mas hoje no Rio o presidente Lula, com sua conhecida sutileza, disse para cortar onde quiser, desde que não seja no PAC . Quer cortar, corte no custeio, investimento não.

Devemos então entender que Lula está dizendo para cortar na máquina – inclusive ou principalmente nos gastos com o funcionalismo ? Não vou dizer que não acredito, direi apenas “a conferir”.

E com os russos – ou seja, com os partidos da base, a começar pelo PT e pelo PMDB – Lula e Dilma já terão combinado alguma coisa ? Essas gloriosas legendas, como sabemos, podem ser acusados de qualquer coisa, menos de austeridade fiscal.

Outro fato avaliado de maneira positiva foi a indicação de Helena Chagas para a Secretaria Especial de Comunicação, em substituição a Franklin Martins. Afinal, a escolhida, ela mesma jornalista, é filha de Carlos Chagas, um dos jornalistas mais respeitados e liberais do país; presume-se, pois, que sua conduta como secretária será orientada por valores semelhantes aos do pai.

Mas a troca em si parece alvissareira. Significa que a questão do novo marco regulatório para a mídia será tocada pelo Ministro das Comunicações e oxalá bem longe de certos conceitos restritivos a que o ministro Martins vinha dando guarida.

Um terceiro fato auspicioso foi a declaração de Dilma Rousseff sobre o Irã em sua recente entrevista ao Washington Post. Respondendo a uma questão sobre direitos humanos, Dilma criticou de maneira taxativa a posição do governo Lula em dois pontos importantes.

Primeiro, manifestou inconformidade com a situação de Sakineh, a iraniana condenada à morte por adultério, que aguarda a execução por apedrejamento. Segundo, discordou da posição adotada pelo Brasil na ONU, abstendo-se de condenar a conduta do governo do Irã em relação aos direitos humanos.

Não se conhece ainda o pensamento de Dilma a respeito do programa nuclear iraniano, mas no que toca aos direitos humanos ela já marcou uma distância considerável, e irreversível, em relação ao governo Lula. Dir-se-á que é apenas um primeiro passo. De fato, é um apenas primeiro passo, mas é importante.

Se a presidente quer de fato reorientar a nossa política externa, terá claras oportunidades de o fazer em conexão com Cuba. O tratamento dispensado pelo Irã a Sakineh é chocante, mas o que a ditadura cubana tem proporcionado a seus prisioneiros políticos não fica muito longe. Praticamente no mesmo dia em que Lula visitou a ilha, no começo deste ano, um deles morreu após 85 dias em greve de fome.

No caso cubano, a oportunidade brasileira transcende a questão dos direitos humanos. Tem a ver com o equacionamento de um futuro próspero, pacífico e democrático para o país no pós-socialismo.

Mais que notório, agora é público e oficial que o regime dos irmãos Castro chegou ao completo colapso econômico. Raúl Castro e o próprio Partido Comunista não só o admitem sem rodeios como preparam um mega-ajuste fiscal para os próximos meses.

Deste assunto e da política externa, de modo abrangente, Dilma ainda não tratou, e nem caberia esperar que o tivesse feito , mas sua entrevista ao Washington Post foi alvissareira.

Com assessores mais sensatos e livre de certas peias ideológicas de que Lula não quis ou não soube se livrar, ela poderá melhorar sensivelmente o desempenho brasileiro no plano internacional.

Dilma e a Petrobrás

Sebastião Nery

SALVADOR– Ildo Sauer, engenheiro, petista histórico, professor da USP (Universidade de São Paulo), diretor de Energia e Gás da Petrobrás nos quatro anos do primeiro mandato de Lula, em entrevista ao “Globo”, em 27 de outubro ultimo, fez denuncias graves que a grande imprensa, sobretudo a TV, como sempre esqueceu, para o pais também esquecer:

1. - “A ministra Dilma , presidindo o Conselho de Administração da Petrobrás, defendia a urgência de leiloar açodadamente os blocos do pré-sal. Eu contestava, dizendo-lhe que ela não dizia nada porque não dava explicação, apenas mandava. Em algumas reuniões, a Dilma dizia: - “Presidente, a Petrobrás está te enganando, não acredite na Petrobrás. A Petrobrás pensa primeiro nela e depois no povo brasileiro“.

PRE-SAL
2. - “O governo Lula leiloou mais blocos sobre o pré-sal do que o governo Fernando Henrique e adotou por mais tempo o modelo inventado por FHC. Fernando Henrique começou a leiloar em 2000, fez quatro rodadas. Lula leiloou seis, dos quais cinco tinham blocos sobre o pré-sal”.

Nos governos FHC, entre janeiro de 95 e dezembro de 2002, a produção de petróleo aumentou 129%, um crescimento anual de 16%. Nos governos Lula, de janeiro de 2003 a outubro de 2010, a produção de petróleo cresceu apenas 33%, um aumento anual de 4,2%.

EIKE
3. - Na entrevista, o ex-diretor de Lula na Petrobras contou:

- “Os petistas diziam que iriam leiloar fora do pré-sal. Mas leiloaram a franja do pré-sal em 10 blocos. A empresa OGX (de Eike Batista) , criada em 2007, arrancou da Petrobrás o dirigente máximo da área de exploração, o gerente executivo Paulo Mendonça, com a sua equipe. Ele saiu de lá a peso de ouro e foi trabalhar para o investidor privado” ((Eike). 4. - “Recrutaram a equipe em meados de 2007 e em novembro compraram os blocos. Em julho do ano seguinte, venderam 38% do seu capital por R$ 6,7 bilhões. Já anunciaram descobertas de 2,6 bilhões a 5,5 bilhões de barris.Em valor de mercado em torno de R$ 50 a R$ 80 bilhões”.

O governo esconde tudo isso e se esconde atrás da falsa e proclamada “auto suficiência de petróleo”, quando na realidade o Brasil continua a ser importador liquido de petróleo leve e seus derivados. SERRA

Pior e patética é a desinformação do PSDB e inacreditável e intolerável o comportamento de José Serra na campanha, que nada discutiu.

“Passaporte para o futuro, nova etapa na emancipação econômica brasileira, bilhete premiado responsável pela sorte grande”, são expressões usadas em massacrante marketing pelo governo para anunciar o pré-sal. Ex-diretor da Petrobrás, o engenheiro Wagner Freire é didático : - “O pré-sal, invenção brasileira, é uma distorção de marketing inventado pelos políticos do governo. No Brasil, desde 1975, o campo de Badejo, na Bacia de Campos, fica na camada do pré-sal. Em Sergipe, o campo de Carmópolis, desde 1963 em exploração, localiza-se na camada do pré-sal. No golfo do México, Oriente Médio, mar do Norte, a produção de petróleo na chamada camada do pré-sal é realidade mundial”.

HELIO DUQUE
O professor Helio Duque, baiano ilustre da Petrobrás, doutor em Ciências Econômicas, deputado federal do MDB e PMDB do Paraná de 1978 a 1990, me diz que a politização primária tentou vender à sociedade a mágica da descoberta do óleo no pré-sal, quando há décadas a própria Petrobrás já retirava, em pequeno volume, petróleo nas áreas do pré-sal.

O fato novo é a existência em larga escala de reservas tecnicamente comprovadas. A instrumentalização política, pela associação da imagem da Petrobrás com a do governo federal, objetivou conferir paternidade simbólica a Lula. A partir de agora é fundamental que o pré-sal saia do palanque, quando se enfrentarão dificuldades técnicas para a sua extração em escala crescente, em profundidade média de 7.000 metros, numa distância da costa de 180/190 quilômetros. Até 2020, a área do pré-sal agora conhecida deverá atingir seu teto máximo de produção.

Neste dezembro de 2010, as reservas provadas no Brasil atingem 15 bilhões de barris, o que nos coloca na 16ª posição no petróleo do mundo. Agregando as reservas estimadas do pré-sal, ao final da década o Brasil passaria para a 8ª posição, próximo dos 50 bilhões de barris de petróleo.

VENEZUELA
Os três países de maiores reservas são Arábia Saudita com 264 bilhões, a Venezuela 172 bilhões e o Irã 137 bilhões. Este ano, a “United States Geological Survey”, o departamento de geologia do governo norte americano, fez relatório dando à Venezuela a possibilidade da maior reserva de petróleo do mundo, na Bacia do Orinoco: 513 bilhões de barris plenamente comercializáveis. Seria o dobro da Arábia Saudita.

Apesar disso, a Venezuela tem um terço da população abaixo do índice de pobreza. A riqueza do petróleo, desde os governos anteriores, não se traduziu em prosperidade para seu povo. O bolivarianismo de Hugo Chávez exerce um poder populista, autoritário, e é um fracasso econômico.

Petróleo não é passaporte para o futuro. É preciso despolitizar o pré-sal, eliminando os factóides marqueteiros. Ao invés do bilhete premiado, vamos investir em tecnologia, produtividade, deixando a Petrobrás fazer o que sabe com provada e histórica competência.

Duas bandeiras no alto do morro

Demétrio Magnoli (*) - O Estado de São Paulo

"Blindados da Marinha entraram na Vila Cruzeiro. A população não acreditava. Pessoas saíam de casa espantadas. Começaram a tirar fotos, vinham agradecer, como se tivessem sido libertadas" (Ricardo Machado, sargento do Bope). As pessoas foram, de fato, libertadas do poder tirânico, opressivo, do crime organizado. As bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro, fincadas no cume do Complexo do Alemão, simbolizam a soberania do Estado. Do gesto inicial emana a imensa expectativa de consolidação de uma ordem legítima, baseada nos direitos de cidadania.

"Isso vai demonstrar que o Brasil tem responsabilidade e que está resolvendo seus problemas para ter grandes eventos" (Nelson Jobim, ministro da Defesa). As pessoas almejam direitos; Jobim, um homem do Direito, só tem olhos para a imagem externa do País. O ministro da Defesa não possui o dom de iludir típico dos políticos profissionais. Falastrão, ele vocaliza a lógica de um Estado que despreza os direitos das pessoas comuns. A Copa e a Olimpíada passam, a vida segue. Será a operação no Rio uma nova farsa, apenas maior que tantas anteriores?

"(...) ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Saddam Hussein e, depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos (sic) que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?" (José Cláudio Souza Alves, pró-reitor de Extensão da Universidade Rural do Rio de Janeiro). O pró-reitor, que escreve como eu toco piano, representa a visão clássica do brizolismo. Num longo texto, ele até sugere indagações pertinentes, mas as enterra sob os escombros do populismo. Qual é a "verdadeira guerra"? Eis a sua resposta: "(...) quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá (sic) o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade." Se o Estado veicula apenas, sempre e necessariamente, os interesses do poder econômico, ele deve ficar fora dos morros. Um quarto de século atrás, Leonel Brizola abandonou as favelas do Rio ao crime organizado. A abdicação territorial correspondeu a uma mutação no léxico político.

"O Morro da Favella, até então denominado morro da Providência, passa a emprestar seu nome aos aglomerados de casebres sem traçado, arruamento ou acesso aos serviços públicos, construídos em terrenos públicos ou de terceiros (...)" (Licia Valladares, socióloga). Favela, como substantivo genérico, insinuou-se nas páginas da imprensa na segunda década do século passado. O termo passou a definir uma "cidade ilegal", por oposição à "cidade legal". A sua referência era o direito de propriedade - ou melhor, a violação dele no processo de expansão da mancha urbana. Mas a palavra nada dizia sobre os habitantes da "outra cidade". Foi com a intenção de dizer muitas coisas sobre eles que se promoveu a substituição da "favela" pela "comunidade".

"(...) quando os habitantes das Ilhas Shetland mencionam a sua comunidade, eles se referem a uma entidade, uma realidade investida de todo o sentimento ligado ao parentesco, à amizade, à vizinhança, à rivalidade, à familiaridade, à inveja, que informam o processo social do cotidiano. Nesse nível, comunidade (...) articula-se crucialmente à consciência." (Anthony P. Cohen, antropólogo). Comunidade, no lugar de favela, coagula um projeto político: a atribuição de uma "cultura" singular aos habitantes das favelas. Obra coletiva de lideranças políticas, intelectuais, administradores de ONGs e chefes do crime organizado, o projeto equivale a uma demanda de autonomia. A "comunidade" tem direito a representação - ou seja, a intermediários que, em nome dela, dialogam com o Estado. O crime organizado territorializou seu poder sob o escudo dessa doutrina encantatória.

"É uma estratégia sensacional e inovadora, que coloca o Rio na vanguarda" (coronel Hudson Miranda, comandante da PM, 2005). Miranda comemorava a aquisição de um helicóptero, para desembarcar policiais no alto dos morros, e a instalação de uma torre no Complexo da Maré, para visualizar as favelas de uma posição elevada. O coronel da PM é o polo simétrico e complementar dos intelectuais ongueiros que celebram a "comunidade". Os dois polos rejeitam a presença perene da ordem estatal nas favelas. O primeiro organiza "invasões", os segundos preconizam a "autonomia". Ambos enxergam os morros como terra estrangeira: o "Iraque", pecaminoso ou virtuoso, do pró-reitor brizolista.

"Sem dúvida, os arrastões têm relação com reconquista de território e com a nova política de segurança pública do Rio" (Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro). É mesmo? Não há indícios reais dessa relação, proclamada por uma figura que jamais consegue descer do palanque. De qualquer modo, o fracasso de um modelo de convivência pacífica entre as UPPs e o poder paralelo do crime empurrou Cabral para o enfrentamento. Mas permanece intocada a fonte do modelo de convivência: a imbricação entre o Estado e o crime organizado, cuja expressão mais óbvia é a polícia bandida que contamina o aparato oficial de segurança pública.

"O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, antieconômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais)" (Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública). Soares caiu porque pretendia reformar as polícias, extirpando a polícia bandida. Ele aponta o risco de transição para uma nova ordem, baseada no poder das milícias. Uma ordem sem direitos serviria aos "grandes eventos", não à população dos morros. Nessa triste hipótese, as bandeiras que tremulam no Alemão seriam reduzidas ao estatuto de panos costurados: os disfarces de um Estado criminoso.

(*) Sociólogo, é Doutor em Geografia Humana

A despedida de um presidente mimado

Guilherme Fiuza, Revista Época

É claro que isso não ia acabar bem. Um presidente da República que vê seu cargo, acima de tudo, como fator de ascensão social está condenado à frustração. O elevador que o levou ao topo um dia desce – e esse dia está chegando. Luiz Inácio da Silva terá de se acostumar a parar de chamar seus interlocutores de “meu filho”, entre outros tratamentos irritadiços. Enquanto manda e desmanda no ministério da sucessora – seu último ato senhorial –, o ex-operário não disfarça a agonia de sua volta à planície.

Perguntado se estava no Maranhão para retribuir o apoio da oligarquia Sarney, Lula respondeu que o repórter tinha de “se tratar”. De acordo com o presidente, a pergunta demonstrava falta de evolução da imprensa, e em particular daquele repórter: “Você não evoluiu nada. É uma doença”.

O repórter repreendido por Lula não deve se abater. De fato, é difícil evoluir tão rápido, a ponto de compreender todos os avanços proporcionados ao país pela família Sarney. A resistência a essa modernização vertiginosa foi resumida por Roseana, a governadora dos novos tempos: “É preconceito contra a mulher”.

Também deve ser preconceito contra a mulher a reação de alguns ao projeto de compra do AeroDilma. O avião de meio bilhão de reais, que deverá substituir o AeroLula, é fundamental, segundo o presidente, para que o Brasil não se humilhe nas viagens oficiais. Tem toda razão. Chega de humilhação. Já basta o que os líderes do governo popular gastam de sola de sapato por aí, em anos e anos de comícios nos fins de mundo brasileiros. Uma vez eleitos, o mínimo a que têm direito é um salão de baile a 10.000 metros de altura – sem escalas enfadonhas.

Da altitude do poder, é possível esculhambar repórteres que fazem perguntas indesejáveis. Também é possível reescrever a história. No discurso de despedida do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – criado em 2003, e que se tornou muito importante por institucionalizar o bate-papo presidencial em horário de expediente –, Lula se emocionou. Disse que foi vítima de uma tentativa de golpe em 2005 (o ano do mensalão) e agradeceu aos conselheiros que permaneceram a seu lado naquele momento difícil. Deve ser mesmo comovente imaginar que, em menos de um mês, não haverá mais plateias simpáticas como essa para ajudá-lo a acreditar no que ele quiser.

Da altitude do poder, é possível esculhambar repórteres que fazem perguntas indesejáveis.

Em 2003, recém-empossado, Lula recebeu no Palácio da Alvorada a visita dos humoristas do Casseta & planeta, para uma sessão do primeiro filme do grupo. Bussunda, que era fã de Lula, se fixou numa cena: o presidente estava numa cadeira de rodas, por causa de uma torção no pé. Enquanto era empurrado pelos corredores palacianos, um ministro caminhava a seu lado segurando um cinzeiro, para que o chefe batesse a cinza do charuto que fumava. O humorista achou que havia algo errado com a conquista do palácio pelo povo. Pareceu-lhe que o povo era quem tinha sido conquistado pelo palácio.

Lula foi conquistado pelo poder. E este lhe foi mesmo cativante. Foram oito anos vendo o Banco Central governar, surfando na conjuntura econômica generosa e distribuindo bolsas, repetindo bordões fáceis como PAC e pré-sal, engordando o mito do filho do Brasil. Nem convencer o povo de que Dilma é Lula deu trabalho – e aí, realmente, não se pode querer outra vida. Este 1º de janeiro vai ser mesmo difícil para o operário que chegou lá, e enfrentará seu maior desafio: sair de lá.

Essa outra vida promete ser estranha. Certas delícias vão desaparecer, como ignorar por oito anos a segurança pública e poder declarar, diante da ofensiva da polícia carioca contra o tráfico, que “ocupamos o Morro do Alemão”. Mas nem tudo está perdido. Talvez a máquina de arrecadação do PT lhe consiga alguém para segurar seu cinzeiro. E não há de faltar convite para um passeio no AeroDilma.