Adelson Elias Vasconcellos
A presidente tropeçando no Pessimismo
Antigamente, resultado negativo era fruto de má gestão. De repente, com a chegada do PT ao poder, resultado ruim passou a ter outras causas. Primeiro, plantaram no pensamento do brasileiro que era a tal “herança maldita” do governo anterior que, de maldita como todos sabemos não tinha nada. Pelo contrário. Maldita, em todos os sentidos, era herança que FHC recebeu dos governos que o antecederam, à exceção de Itamar Franco, em cujo período foram plantadas as sementes do Plano Real.
Depois que a desculpa deixou de fazer sentido, dado o longo tempo no poder, os petistas apelaram para a tal crise externa, tsunami cambial, dentre outras pérolas. O discurso perdeu espaço quando, mesmo países em crise, passaram a crescer mais do que o Brasil.
Era preciso arranjar outro personagem. Bem que, se pudesse, a senhora Rousseff até teria apelado para a tal “herança maldita”, uma vez que a deterioração das contas públicas face à irresponsabilidade cometida com o gasto público começou no segundo mandato de Lula. Mas ficou impedida tendo em vista que devia a ele, Lula, estar sentada na cadeira presidencial.
Tentaram aplicar a vigarice do complô das direitas, da mídia golpista. Não colou. Os resultados continuavam ruins, até quando a mídia elogiava e a oposição se aquietava.
Claro, não poderia faltar no rol dos culpados, a tal “elite branca de são Paulo”. Mas esta, por ser muito estúpida, não durou além de uma semana. Até o próprio Gilberto Carvalho acabou negando-a.
Então, algum gênio da raça resolveu aplicar o truque de converter a consequência em efeito. Em razão dos resultados serem ruins, os investidores e empresários começaram a puxar o freio de mão. Assim, os investimentos caíram abruptamente, desapareceu o tal espírito animal dos empresários, e as críticas do setor produtivo começaram a incomodar os governistas. Nas pesquisas feitas para apurar a confiança de empresários e consumidores, cresceu a curva negativa. Como o governo Dilma insistisse em maquiar os maus resultados, a confiança do empresariado foi decaindo, semana após semana.
O pessimismo foi tomando conta em razão dos maus resultados, da falta de políticas coerentes e permanentes na economia, e também devido as muitas escolhas erradas feitas pelo governo da senhora Rousseff.
O investimento não cresce? Culpa deste ser pecaminoso chamado Pessimismo.
A balança comercial despenca? Culpa do ser intragável chamado Pessimismo.
A inflação resiste em se manter próxima ao teto da meta? Culpa deste ser endiabrado chamado Pessimismo.
Os juros? O rombo histórico nas contas correntes? Serviços públicos ruins? Produção industrial estagnada há 3 anos e meio? Sim, caros leitores, todos estes males que afligem a nação não são culpa do governo Dilma e seus ministros. O único sujeito oculto, mau caráter, sabotador, hediondo, capaz de tornar este governo medíocre é o danado do Pessimismo. Ou seja, o Pessimismo, que seria resultante do governo medíocre, passou a ser a causa de todos males e mediocridade do próprio governo.
O último bastião da virtude do governo dito “popular” e “progressista” era a geração de empregos. Ah, diziam, mas o Brasil petista gera empregos, não provoca recessão, distribui renda.
Semana passada, guardei um texto da Exame.com onde se lê “...A Copa do Mundo foi responsável pela geração de 1 milhão de empregos, dos quais 710 mil permanentes, segundo balanço preliminar do governo sobre os ganhos decorrentes da realização do Mundial de futebol no País.”
Não havia muito, o blog havia publicado outro texto, desta vez elaborado por Camilla Veras Mota, Denise Neumann e Luciano Maximo, do jornal Valor, informando justamente o contrário. A matéria tinha o sugestivo titulo “Copa contribuiu pouco para criar empregos formais” (leia a íntegra aqui).
Destacamos este trecho que desmente a afirmação do governo. Vejam:
“...A Copa do Mundo deu, pelo menos até o primeiro quadrimestre, uma ajuda modesta ao emprego formal. Nas cidades-sede do evento esportivo e nos setores diretamente beneficiados - alojamento, alimentação e agências de turismo - foram criados apenas 3 mil empregos no mercado formal de janeiro a abril. Embora seja o dobro do número de vagas registradas no mesmo período do ano passado, o número é considerado baixo...”
Quando li o texto da Exame.com com a tal informação “1 milhão de empregos por causa da Copa”, logo veio a seguinte questão: ora, se boa parte do comércio vai fechar em dias de jogos, por conta dos pontos facultativos e feriados decretados nas cidades sedes, se boa parte da indústria concedeu férias coletivas durante a realização do evento, de onde o governo tirou aquele fantástico número? Das duas, uma: ou ele sabe mais do que todo mundo, ou o número informado é pura fantasia, delírio, chutometria.
E, hoje, eis que é divulgado um fantástico dado que desmonta o discurso governista. O mês de maio, segundo o IBGE, gerou o menor número de vagas considerados os últimos 22 anos. Foram criadas apenas 58,8 mil novas vagas.
Mas eis que o ministro do Trabalho e Emprego, sem explicar aquele 1 milhão informado na semana passada, ao ser questionado pela redução drástica na geração de emprego, logo encontrou o culpado para o resultado ruim: a culpa é... do Pessimismo. Incrível, não?
Então, ficamos assim: o governo é ótimo e competente, os ministros são figuras de excelente capacidade de gestão, as políticas públicas estão todas bem desenhadas, a política econômica seguiu os princípios básicos do manual do bom economista e, não fosse este demônio chamado “Pessimismo”, tudo correria às mil maravilhas, e o Brasil não despencaria tão seguidamente no ranking que mede a competitividade e o ambiente de negócios dos países. Talvez até na educação nossos índices seriam de primeiro mundo, não fosse este ser intragável conhecido por “Pessimismo”.
Se o povo brasileiro está julgando cada mais negativamente o governo da senhora Rousseff, de quem é a culpa? Das futricas do senhor Pessimismo, que fez a cabeça dos milhões de classe média que só se sentem pobres, porque o senhor Pessimismo lhes mostrou que suas rendas não são tão médias assim.
E o que se dizer da corrupção, então, não é resultado de pura sacanagem do Pessimismo que, por querer um governo honesto, não aceita um superfaturamento aqui, um desvio ali, ou uma remessa para paraíso fiscal de dinheiro público, acolá! Este cara sequer é capaz de aceitar um subornozinho mequetrefe que seja! Eita sujeito chato este Pessimismo!
Ah, se o Brasil não ganhar a Copa e a Dilma perder a reeleição, não culpem nem a oposição, nem as forças malignas da direita, tampouco a mídia golpista. O culpado de todos os males que afligem o país chama-se Pessimismo, ok? Só não sei se é possível enquadrá-lo na lei de segurança nacional, ou mesmo em algum dos artigos do Código Penal , para mantê-lo preso, de preferência na Papuda, bem longe dos mensaleiros petistas. Vai que o Pessimismo os convença de que são culpados?




