quarta-feira, junho 25, 2014

É cada vez menor a chance do Catar ficar com a Copa de 2022

Guilherme Dearo
Exame.com

Com as denúncias de corrupção envolvendo a escolha do Catar, a Fifa ficou em uma situação delicada - e terá de repensar seriamente o país como anfitrião

Marwan Naamani/AFP 
Jovem segura uma réplica da taça da Copa do Mundo em Doha, 
no Catar: pressão para mudar a sede da Copa de 2022

São Paulo - A Fifa escolheu o Catar como sede da Copa do Mundo de 2022. O país até já planejou gastar 100 bilhões de dólares (sim, bilhões) com o evento.

Mas as chances da Copa mudar de casa aumentam a cada dia.

Críticas sobre o calor excessivo e as péssimas condições de trabalho dos operários locais já eram feitas desde 2013. Até a preocupação com ataques terroristas fora pontuada. Mas a Fifa ignorava qualquer alerta.
Agora, com denúncias crescentes - e cada vez mais contundentes - de que os votos dos membros da Fifa na votação pela escolha da sede foram comprados, a entidade ficou em uma situação bem mais delicada.

A Fifa pode contornar a pressão a respeito do calor, mas um escândalo de corrupção é forte o bastante para pressionar Joseph Blatter.

Se a sede for realmente trocada, será um fato raro. A última vez em que isso ocorreu foi em 1986, quando o México organizou às pressas a Copa depois da Colômbia desistir do evento.

Em Doha, delegação da Fifa 
olha maquete de estádio para a Copa do Mundo no Catar


1. Corrupção
A denúncia principal vem de milhares de documentos e e-mails de um homem do alto escalão da Fifa, que mostram que um ex-presidente da entidade, Mohamed bin Hammam, natural do Catar, distribuiu 5 milhões de dólares para vários membros para garantir o apoio ao Catar.

Hammam teria dado dinheiro ao ex-jogador George Weah, por exemplo. Outro indício aponta que ele deu 1,6 milhão de dólares ao ex-presidente da Fifa Jack Warner, incluindo 450 mil dólares antes da votação.

Outros 415 mil dólares teriam ido para outro ex-presidente, Reynald Temarii. Ele teria, ao todo, dado dinheiro a representantes de 30 associações africanas de futebol.

Não seria a primeira vez que Mohamed bin Hammam estaria envolvido com corrupção. Em 2012, ele foi destituído do comitê executivo da Fifa depois de ser flagrado, em 2011, comprando votospara sua campanha a presidente da Confederação Asiática de Futebol.

Já em março desse ano, o The Telegraph descobriu que uma empresa do Catar tinha pagado à Fifa dois milhões de dólares. A transação está sendo investigada pelo FBI.

Alexandra Wrage, uma canadense presidente da organização Trace Internacional, que oferece consultoria sobre como evitar subornos e corrupção para grandes empresas, foi contratada em 2013 pela Fifa. Mas ela desistiu do projeto e disse que tinha sido "o projeto menos produtivo de sua carreira".

Segundo ela, os conselhos não tinham espaço na entidade. Ela disse que, se a Fifa fosse gerida como uma grande empresa tradicional, Joseph Blatter jamais se manteria seu presidente.

2. Calor, muito calor

Projeto de um dos estádios para a Copa do Mundo de 2022, no Catar

Outra razão para as críticas: o calor local. Durante os jogos, a temperatura poderia atingir os 50 graus Celsius. Um perigo óbvio à saúde dos atletas.

Mesmo com um relatório técnico prévio da Fifa, concluindo que o calor era preocupante e o Catar, portanto, não deveria ser escolhido, a decisão foi tomada.

Mas a própria entidade já admitiu que a escolha foi um erro. Ao canal suíço RTS, em maio, Blatter disse: "É claro, foi um erro. Eu sei, nessa vida sempre cometemos erros".

Foi levantada a ideia de que os jogos poderiam ser no inverno local, em outubro ou novembro, mas as chances da mudança realmente ocorrer são quase nulas.

Além da "quebra de tradição", que deixaria muita gente incomodada e até ofendida, vários gigantes do esporte já mostraram o cartão vermelho.

O canal Fox não quer a mudança, já que os jogos entrariam em conflito com a transmissão do NFL, a liga de futebol americano dos Estados Unidos.

O Comitê Olímpico Internacional também não gostou da ideia, já que iria interferir nos Jogos de Inverno de 2022.

A Premier League, a primeira divisão do futebol inglês, também reprovou a hipótese, já que seu campeonato aconteceria no meio da Copa.