Marco Prates
Exame.com
Em um país onde o improviso impera, Brasília nem parece o Brasil, afirma jornal norte-americano. Reportagem aponta, porém, que pedestres foram esquecidos na "escala desumana"
Shaun Botterill/Getty Images
Vista aérea de Brasília:
mansões deixariam donos de Berverly Hills com a "boca aberta"
São Paulo – A bandeira brasileira diz “ordem e progresso”, mas a palavra ordem não aparece na cabeça do visitante que aproveita a noite carioca embalada em samba, a floresta amazônica ou o trânsito de São Paulo.
Mas quando essa mesma pessoa visita Brasília, aí a coisa muda de figura, observa o jornal The New York Times em reportagem publicada neste domingo.
“Em um país conhecido por seu gosto pela improvisação, Brasília está em contraste chocante, uma cidade tão ordeira, que é difícil acreditar que esteja realmente no Brasil”, afirma a matéria, que chama a capital de “desbrasileira” (un-brazilian, em inglês).
Mas apesar do aparente elogio, a matéria aborda a "escala desumana” da cidade, vitrine do modernismo de Oscar Niemeyer, o "Pelé da arquitetura", e de Lúcio Costa.
“Costa aproveitou o espaço ilimitado que tinha para trabalhar, então a escala de Brasília é intimidante, especialmente para os pedestres, que foram aparentemente esquecidos em meio à paixão de Costa, muito como a de Robert Moses em Nova York, para carregar a cidade em um futuro preenchido pelo automóveis”, afirma um trecho.
Vista a partir da Torre de TV:
avenidas largas para automóveis, mas escala humana "intimidante"
O jornal conta sobre a preocupação de não se construir cercas de forma a permitir o livre fluxo de pessoas - que podem cruzá-la de uma ponta a outra - o que seria algo interessante, “se alguém o fizesse”.
A riqueza de Brasília também é mencionada, com “mansões que fariam um proprietário de Beverly Hills ficar de boca aberta”, e uma das "maiores rendas per capita da América Latina”.
“Você não encontra samba, você não consegue encontrar uma esquina para tomar uma cerveja, e você não consegue encontrar futebol”, diz Henrik Brandão Jönsson, autor de um livro sobre a história da capital, traduzido livremente do inglês como “Ilha da Fantasia: O novo coração valente do Brasil“ ("Fantasy Island: The Brave New Heart of Brazil”).
“Ela nem mesmo tem favelas na área central. É totalmente alienígena para o Brasil”, afirma o mesmo autor na reportagem do Times.
Brasília é reconhecida como uma ideia ousada pelo planejador de transporte urbano de San Francisco, Patrick Gough, que a conheceu agora ao vir assistir à Copa.
“Mas, no final, foi uma experiência fracassada, e eles estão presos com ela. Eu me sinto mal pelas pessoas que vivem aqui e estão tão isoladas umas das outras”, disse Gough ao New York Times.
Apesar de todo criticismo para quem visita a capital do país e não encontra vida nas ruas, vale lembrar que os moradores gostam – e muito – da cidade: pesquisa encomendada por Veja Brasília no ano passado mostrou que 59% deles acham bom ou muito bom viver lá.
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