quarta-feira, janeiro 16, 2013

Economia travada


Adelson Elias Vasconcellos

O ano de 2012 ainda não tinha se apagado e as previsões tanto de crescimento do PIB quanto da alta de preços para 2013, sofriam sua primeira revisão. O PIB para baixo, e a inflação para cima, seguiam, assim, o mesmo roteiro do ano inteiro. A expectativa de todo o país é quando esta lógica se inverterá, ou seja, quando o PIB terá perspectiva de alta, e os preços, de baixa. 

Semana passada, veio a segunda revisão. Hoje, antes do fechamento da primeira quinzena de janeiro, e eis nova revisão: crescimento menor, inflação mais alta. 

Quanto mais o tempo passa, mais o pibão da Dilma se torna um sonho distante, uma quimera a se perder na curva do desenvolvimento. Aproximando-se este crescimento agora da margem de 3,0% ao que parece, o governo federal não conseguiu traçar um diagnóstico preciso do que é preciso fazer para  reverter as tendências. 

Preocupa, sobremodo, a insistência do governo Dilma em abandonar o centro da meta de inflação. Em tempos de crescimento baixo, inflação persistentemente em alta é um mau negócio. Quem perde mais é a camada mais pobre da população que agora se vê menos protegida ainda: de um lado, o IRF sobre os salários será ainda maior, o seguro desemprego alterou seu critério de revisão e subiu menos, as aposentadorias do setor privado continuam sendo comprimidas ano após ano, e a correção do salário mínimo já não repõe a inflação pelo aumento da carga tributária. Ou seja: mais e mais os trabalhadores de menor renda se tornam bolsa-dependentes do Estado. Não há cidadania que suporte tamanho grau de escravização.

A entrevista que publicamos nesta edição, concedida à Revista Infovias pelo antropólogo Edward Luz, em que ele denuncia que as ONGs internacionais, que se dizem defensoras de questões indígenas e ambientais, freiam por mais de três décadas o crescimento do Brasil, aponta para um dos nossos grandes gargalos. Defender o meio ambiente não é desculpa para uma licença demandar mais de 8 anos para ser liberada, como tem sido costume neste lado dos trópicos. Isto não é proteção, é omissão, é incompetência, até se poderia afirmar, é sabotagem. 

Há também um breve apanhado de outra entrevista, desta vez concedida à Folha de São Paulo, pelo economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES no primeiro mandato de Lula.  
De tudo o que diz, há uma questão central que serve para colocar em cheque, para que lado se pretende conduzir o Brasil (se é que exista algum!).  Lessa é categórico quando afirma: 
“...Vejo a Petrobras vendendo refinarias no exterior, dizendo que está perdendo dinheiro com gasolina, com gás de cozinha. Isso faz os empresários brasileiros duvidarem de que a Petrobras tocará para a frente o seu programa. Aí, se a Petrobras não vai, serei eu, dono da lanchonete da esquina, que vou apostar no crescimento brasileiro?...”. 
Pois é...
O economista que foi professor de Economia brasileira de Dona Dilma, fala com imenso respeito sobre sua ex-aluna, mas não se furta em dizer que, apesar da boas ideias, falta à presidente a coragem necessária para colocá-las em prática. Na verdade, a meu ver, falta à presidente duas coisas fundamentais, e nenhuma tem alguma coisa a ver com “falta de coragem” como se viu por sua recente queda de braço na questão das renovações das concessões elétricas. De um lado, falta ideologia atualizada à Dilma. Está  amarrada a um nacionalismo caquético, ultrapassado, que foi testado e implementado por Ernesto Geisel e que levou o Brasil a mais de um quarto de século de atraso e estagnação. Sua opção deveria ser pelo desenvolvimento sim, mas sustentado por equilíbrio fiscal,  priorizando investimentos ao invés de alargar a gastança estúpida que o aparelhamento do Estado sempre provoca em qualquer economia. 

O segundo aspecto é que Dilma, mesmo que não diga e não aparente, está sim atada a agenda de poder do petismo, e isto faz uma enorme diferença prejudicial  a gestão pública, colocando e erguendo barreiras ao capital privado sem o qual o crescimento não se realiza. 

Assim, amarrada a uma cartilha defasada de desenvolvimento, e engessada por projeto de poder em detrimento do projeto de país, o resultado é triste e  não poderia ser melhor do que o que estamos assistindo. 

Mais do que nunca vai ficando claro que o Brasil continua amarrado à reação da economia mundial. Se ela for positiva, o país anda bem. Se for recessiva, o Brasil não sai do lugar. É possível andar de forma mais autônoma? Claro que há, e exemplos temos aqui bem perto de nós, Peru, Colômbia, Chile crescem quatro vezes mais do que o Brasil. Claro que a crise que aflige a União Europeia e da qual os Estados Unidos tentam se livrar, cria percalços e dificuldades. Mas isto não impediria o Brasil de fazer mais e melhor do que tem feito. Para quem acompanha o blog, lembrará que faz tempo que alertamos para o fato de que estamos perdendo o trem da história, deixando de aproveitar o imenso volume de recursos que circula o mundo em busca de oportunidades para se realizar. E, no entanto, continuamos tratando mal quem só nos pode fazer bem.

Em sua coluna de hoje, no jornal O Globo, o jornalista Elio Gaspari afirma que o Brasil vai bem, obrigado. Só se for para ele e os políticos em geral, para os quais não há crises.  Por exemplo, senhor Gaspari: aponte-nos um único serviço público a cargo do atual governo que tenha evoluído consistentemente neste últimos dez anos? Na economia, o país atravessou esta primeira metade do  mandato de dona Dilma com inflação em alta e crescimento em baixa. Investimentos, privados ou públicos, também vêm caindo.  No horizonte de curto prazo, as expectativas não são nada animadoras.  Que tal olhar para o mais de um milhão de empregos fechados na indústria nacional nos últimos 3 anos? Apesar dos pacotes, pacotinhos e assemelhados, o país está travado. Não anda. Não há projetos. O governo não consegue investir sequer metade do que está projetado em orçamento e, apesar disto, a dívida pública saltou impressionantes 600 bilhões nos últimos dois anos.  A menos que o senhor Gaspari tenha mudado de profissão, e se tornado sem que saibamos mais um político abençoado pelo Tesouro Nacional, o Brasil que ele vê não é o mesmo Brasil em que o brasileiros vive.  Quanto aqueles 50 milhões de trabalhadores formais  que Gaspari comemora, melhor faria o jornalista se consultasse as estatísticas do IBGE. A sua conta simplesmente não fecha...

Não há um indicador qualitativo em que o Brasil tenha se destacado. Nossa capacidade de competir no comércio mundial se deteriora ano e ano. Um quarto da população brasileira é cliente cativa de programas de distribuição de renda, quantidade sem perspectiva de reduzir-se, a demonstrar que o programa não se completa na emancipação de seus beneficiários. 

Um governo que se utiliza de artifícios contábeis para mascarar suas contas, que leva estatais como Petrobrás e Eletrobrás, por exemplo, a um estado de inanição financeira apenas para manipular a inflação que corre solta, não merece crédito, muito menos os efusivos aplausos com que se diverte Elio Gaspari em seu paraíso artificial...

Economia brasileira: credibilidade ameaçada


Raul Velloso
O Globo

Credibilidade é tudo em economia. A nossa foi gradualmente dilapidada ao longo de várias “décadas perdidas”, e agora estamos diante de uma nova ameaça. Enfrentamos a crise da dívida de 1982 praticamente sem dólares no caixa, deixamos a situação social se deteriorar, e finalmente chegamos à hiperinflação. Até bem pouco, assim, a percepção externa era de que o Brasil estava preso num labirinto, sem chances de encontrar uma saída racional.

De 1995 a 2008, o quadro mudou radicalmente, pois domamos a inflação instituindo o tripé metas de inflação/superávits fiscais altos/câmbio flutuante e passando a controlar a dívida pública; reduzimos consideravelmente os índices de pobreza; e, sem recursos públicos, colocamos em prática um modelo de expansão dos serviços públicos baseado fortemente no capital privado.

Graças a isso, o crescimento sustentável do PIB passou de 2,7% para algo ao redor de 5% ao ano.

Há várias áreas problemáticas da atuação pública que ainda precisam ser azeitadas, algo que demandará bastante tempo. Temos sido incapazes de realizar uma reforma administrativa com letras maiúsculas, e, assim, uma área crítica é a de administração e gestão.

O problema previdenciário tende a se agravar consideravelmente nos próximos anos. Ou seja, há muito o que reestruturar.

Enquanto a produção industrial do mundo inteiro desabava com a crise de 2008/2009 e até hoje muitos continuam abaixo do pico prévio, a do Brasil caía igualmente, mas fomos campeões em recuperá-la ao nível prévio em apenas um ano.

Já em 2010, o PIB passava a crescer a 7,5%, deixando o mundo perplexo. Dobraram, assim, as apostas no Brasil como um dos principais destinos para investimento estrangeiro. Parecia que a crise, em que pese sua gravidade, não fora capaz de abalar a credibilidade construída ao longo da década precedente.

Só que, de lá para cá, tudo parece mudar no sentido oposto, criando-se rapidamente uma nova percepção desfavorável sobre o Brasil no exterior. As análises sintetizam a deterioração do quadro econômico com a constatação de que, apesar das promessas de algo melhor, o PIB só cresceu 2,7% em 2011 e deve crescer apenas 1% em 2012, longe dos 5% que parecia ser a taxa sustentável.

E, em adição, há cinco trimestres a razão investimento global/PIB só cai, depois de longo período em que subia seguidamente. Em parte, esse desempenho se explica pela desabada da produção (e talvez do investimento) industrial que, desde a rápida recuperação inicial pós-crise, só cai, em que pese medidas de apoio e a desvalorização do real.

Além disso, os resultados fiscais, computados sem manobras contábeis, vêm caindo sistematicamente, embora sem por em risco, ainda, a trajetória declinante da razão entre a dívida pública e o PIB.

E no setor de serviços, por que os investimentos não crescem mais? Ali, maiores rentabilidades seriam garantidas por demanda crescente e impossibilidade de importar. Nesse caso, contudo, sujeito a forte intervenção governamental, o ambiente de negócios para o setor privado em geral vem se tornando crescentemente desfavorável, diante da transição, que vem sendo posta em prática desde 2003, para um modelo de expansão que pode ser caracterizado como de capitalismo de estado, após a escalada liberal da era FHC.

Por essa visão, que guarda um certo paralelismo com o movimento antiliberal que se esboça no mundo desenvolvido em crise (veja, a propósito, o artigo de Dani Rodrik no “Valor” de 10/01/13), o ideal seria o próprio Estado atuar diretamente em vários segmentos da área de serviços, e oferecer os menores preços imagináveis para a sociedade.

Sem recursos, busca-se, alternativamente, um certo compadrio com segmentos do setor privado. Nesse esquema, o governo exige que o concessionário do serviço público cobre a menor tarifa imaginável pela prestação de serviços, em troca de empréstimos oficiais subsidiados e outras benesses que atenuem os efeitos deletérios sobre a as respectivas rentabilidades.

A maior limitação que trava essa transição aparece, contudo, no lado operacional. Na prática, as agências reguladoras estão se tornando parte da administração direta, e nesta a gestão pública é caótica.

Dessa forma, as coisas não andam, e, por exemplo, o desempenho das concessões da infraestrutura de transportes pós-2007, claramente sob um esquema de compadrio, tem sido abaixo da crítica.

É só comparar o montante de investimentos realizados nessa com os da fase anterior, e a situação das rodovias nos dois casos.

Setúbal, do Itaú, estava certo quando destacou recentemente, na “Folha de S.Paulo”, a importância de retornos atrativos para atiçar o espírito animal de empresários. A visão de que o capital privado só se excita quando vê demanda crescendo é míope. Para investir, é preciso ter retorno.

Se voltarmos a querer tocar o Brasil a partir de ideias populistas e estatizantes, que já não deram certo no passado, achando que há espaço fiscal para gastar mais (quando na realidade não há), daremos com os burros n’água.

Perderíamos credibilidade e o atual governo estaria queimando a herança bendita das últimas décadas.

Uma receita federal manca


Adelson Elias Vasconcellos

O artigo do Ricardo Noblat postado em seu blog, traçando uma biografia sucinta de Henrique Alves, candidato à presidir à Câmara de Deputados, no mundo político brasileiro não é uma exceção: é a regra.

Raríssimos são os políticos brasileiros que podem se dar ao luxo de comprovar, com os rendimentos do mandato, a origem legal dos recursos com que construíram o patrimônio acumulado na vida pública.

Semana passada, a Receita Federal na ofensiva sobre grande empresas, aplicou multas milionárias à Natura, MMX (leia-se Eike Batista), Fibria e Santos Brasil, no montante de cerca de R$ 6,4  bilhões no total.

Claro que as empresas poderão recorrer, discutir, talvez venham a anular o procedimento da Receita Federal. Mas, convenhamos, é muito fácil para RF ir atrás de grandes empresas, principalmente as que precisam manter uma aparência de seriedade por terem ações em Bolsa de Valores. A imagem é fundamental neste caso.

Além disto, grandes empresa mantém contabilidades muito bem estruturadas, facilitando qualquer trabalho de fiscalização e auditoria. 

Já no caso de políticos, e principalmente aqueles com relações muito bem estabelecidas com autoridades governamentais, p processo de investigação é bem mais complicado. Muito embora um grande número exiba sinais exteriores de enriquecimento que não se coadunam com os rendimentos que declaram à Receita Federal, não se tem noticia de ações ostensivas da Receita Federal sobre esta pobre gente rica.

É comum a imprensa noticiar com certa frequência casos de personalidades políticas e  celebridades se enroscam em casos complicados com o fisco em países da Europa e Estados Unidos. Aqui, contudo, apenas que seja um empresário que tenha falido, pessoas físicas, principalmente, personalidades pública do alto escalão,   parecem dormir tranquilas por não saberem que o fisco verde-amarelo não lhes importunará com estas questões.

O caso de Henrique Eduardo Alves, narrado pelo jornalista Noblat, é bem sintomático  desta incompreensível falta de seriedade da Receita Federal para com as nossas autoridades. Deveriam ser elas a serem as primeiras a serem investigadas ou fiscalizadas, uma vez que sua relação promíscua com o Tesouro é fato inconteste.

Isto dá bem a dimensão da distância que separa o Brasil do  mundo desenvolvido. Não apenas no campo da fiscalização sobre sinais exteriores de riqueza incompatíveis com os rendimentos legais da vida pública, como também pelo excesso de imoralidades que são pendurados no salários dos “nobres” políticos. E, fechando o arco do nosso atraso, a completa falta de transparência da destinação que se dá ao dinheiro público.

Reportagem do site Contas Abertas, nos informa que o governo federal, em 2012, aplicou apenas 7% do total previsto para o Fundo Antidrogas. Se formos fazer um balanço rigoroso, vamos ver que, praticamente, nenhum programa ou ministério conseguiu gastar 100% do que estava previsto em orçamento. Como o governo precisou fazer um malabarismo maluco para cumprir as meta do superávit, que é a economia para pagamento de parte do serviço da dívida pública, é de se perguntar:  onde, afinal de contas, o governo federal está gastando o dinheiro que lhe cai no colo entregue de maneira extorsiva pela sociedade?

Vimos aqui, semana passada, reportagem do estado informando a enormidade de gastos bancados com cartão corporativo dos quais, a Presidência mantém sob injustificável sigilo cerca de 95% do total. Mais: existem cerca de 13 000 mil cartões sendo usados e, estou certo, mais da metade disto, sequer é necessário. E se toda esta imoralidade fosse pouca, há o fato de muito do que se gasta em cartões, é em saques diretos na boca do caixa.

Assim como Henrique Alves emprega laranjas e notas frias para justificar o uso de verbas públicas, também aquele servidor de posse de cartão corporativo poderá se valer dos mesmos ardis para comprovar despesas que na verdade não executou, muito embora tenha usado a verba pública.  Ora, se 95% da despesa é mantida em sigilo, como a sociedade poderá acompanhar e fiscalizar o uso que se faz do dinheiro que, no frigir dos ovos, pertence a ela, sociedade, e não ao servidor público.

Henrique Alves já esteve enrolado em outras ocasiões , mas já cumpre 42 anos de vida pública.  Que ele seja quem é, não se pode evitar. Trata-se do seu caráter – bom ou mau. Porém, como entender que os eleitores estejam a lhe conferir mandatos sucessivos por tão largo tempo? 

E é aí que se entende as razões para que a educação brasileira seja o lixo que é. Num país cuja maioria do povo fosse instruída, informada  e que recebesse uma educação de qualidade ímpar, políticos deste nível quando conseguem prosperar, duram pouco. Vários são os países do mundo em que políticos, quando desmascarados e flagrados em crime contra o Estado e a sociedade, sequer esperam processo judicial para se afastarem de sues mandatos e cargos. Imediatamente, são compelidos a pedir demissão.

Aqui, mesmo condenados pela Justiça frequentam a vida pública com a maior desfaçatez e ainda se dão ao desfrute de desafiarem o Judiciário ao afirmar de modo cretino que só aceitam serem afastados por seus pares. Casos de Genoíno, Waldemar Costa Neto, dentre outros tantos políticos já condenados e que, desgraçadamente, cumprem mandatos.

Quando a opinião pública brasileira iguala o se passa aqui com situações como as que vivem seguidamente Argentina e Venezuela, por exemplo, logo se diz que no Brasil é diferente. Não é, não. Podemos até cumprir roteiros diferentes, mas a falta de ética pública no país é tão constante e escandalosa, talvez até mais grave porque dissimulada, do que nos vizinhos sul-americanos.

No dia em que no Congresso nacional,  político condenado não assumir  ou, se tiver assumido, for  imediatamente expulso, no dia em que  a Receita Federal também realizar  operações ostensivas contra políticos cujos patrimônios estão em total dissonância com seus rendimentos,   pode ser que o Brasil comece a tomar jeito. Até lá, seremos o paraíso fiscal de Sarney, Barbalho, Calheiros, Henrique Alves, Cabral, e tantos outros que encharcam de lama a política brasileira. Com gente assim, e até porque ninguém pode oferecer o que não tem, devemos nos resignar em sermos um país do  atraso, medíocre, subdesenvolvido, medieval. A Receita Federal brasileira é uma instituição manca.

Ou as instituições e seus ocupantes se devotam em  servir ao país de forma integral, ou seremos esta nação rica com governantes medíocres. E, por consequência, com um povo ignorante e escravizado. 

O primeiro passo para esta depuração moral tão necessária é a educação.  Os resultados que temos neste campo são calamitosos. Cá prá nós: por pior que a educação brasileira estivesse em 2003, e não estava, com dez anos no poder o petismo já poderia ter realizado metade do caminho de uma verdadeira revolução. Contudo, o que se tem é que, a cada dia, o ensino se torna mais ideológico e vazio, e o resultado é que o analfabetismo já alcançou mais de um terço dos nossos universitários. Um quinto dos nossos jovens de 17 a 24 anos compõem a geração nem-nem: não estudam, não trabalham. E 47% dos alunos formados pelo ensino fundamental, estão fora do ensino médio. O custo disto é o país andar para trás, por mais marquetagem que a propaganda asquerosamente mentirosa do oficialismo federal tente esconder. 

Deste modo, seria interessante que a Receita Federal também "fiscalizasse" alguns agentes públicos, cujo patrimônio acumulado não se coaduna com os rendimentos recebidos. Correr apenas de peixes graúdos do ramo empresarial é fácil, e até dá menos trabalho. É preciso correr atrás dos graúdos, também, da vida pública. É ali que o bicho pega.

Fiscais acusados de assédio moral, no aeroporto de Brasília
A Receita Federal está às voltas com denúncias de humilhações e assédio moral no desembarque de vôos internacionais, em Brasília. Fiscais até obrigam passageiros a sentar-se diante de computador e preencher a própria autuação. Um deles, identificado por Jânio, irritado por nada encontrar nas malas reviradas de um jovem casal, retirou e desdobrou calcinhas da moça, uma a uma, com sorriso provocador e nervoso nos lábios. Parecia tentar forçar o rapaz a perder a calma.

A atitude dos fiscais da Receita surpreende quem estava habituado à cordialidade desde a inauguração de voos internacionais, em Brasília.

Funcionários da Receita afirmam que os colegas lotados no aeroporto de Brasília estariam ameaçando greve ou em plena “operação padrão”.

A Receita prometeu “levantamento” de denúncias contra seus fiscais. E informou que o contribuinte pode denunciar abusos a sua corregedoria. 

O homem que sabe de tudo


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Congresso, Assembleias e Câmaras em recesso, ministros de Estado em férias - e há até quem note que não estão trabalhando (ainda bem: sai mais barato). Os condenados estão soltos, alguns subindo na vida, assumindo seus carguinhos bem remunerados. Mês morno, este janeiro. Há tanta falta de notícia que estão até descobrindo que Henrique Alves e Renan Calheiros, futuros comandantes do Congresso Nacional, dificilmente poderiam ser candidatos à canonização.

Mas as coisas podem mudar de uma hora para outra: o homem que sabe tudo, Geovani Pereira da Silva, foragido há quase um ano, condenado a 13 anos de cadeia, contador do bicheiro Carlinhos Cachoeira, de repente resolveu se entregar. Geovani tinha sido o único a escapar da prisão na Operação Monte Carlo e, de lá para cá, ninguém foi capaz de encontrá-lo. Mas quem sabe os sentimentos que se escondem no coração humano? Segundo seu advogado, ele decidiu se entregar "porque ninguém consegue viver escondido". Preferiu viver preso. Então, tá.

Mas imaginemos que ele tenha chegado a um acordo para contar o que sabe. Será um terremoto: o relacionamento legal ou ilegal de Carlinhos Cachoeira passa pela gigantesca empreiteira Delta e seu dono Fernando Cavendish (companheiro do governador fluminense Sérgio Cabral naquela grotesca Noite dos Guardanapos e dos Sapatos Vermelhos, em Paris), pelo governador goiano Marconi Perillo, por tudo o que se possa imaginar, envolvendo partidos diversos e dinheiro à vontade. 

Haverá quem tenha saudades dos dias mornos de até agora.

Só ele? 
Geovani Pereira da Silva disse que passou todo esse tempo foragido "porque tinha medo". Quem sabe o que se imagina que ele saiba certamente terá medo. 

E medo mesmo devem ter aqueles que gostariam que Geovani continuasse sumido.

Bandidos com voto
Um dos melhores repórteres do país, Eduardo Faustini, da Rede Globo, num trabalho excepcional, mostra o Brasil de verdade: aquele em que os prefeitos que deixam os cargos devastam o que podem para prejudicar seus sucessores, e o cidadão que se dane. 

Em doze cidades distribuídas pelo país, Faustini encontrou a luz desligada por falta de pagamento, computadores com informações essenciais desaparecidos, abastecimento de água cortado (e só R$ 2,10 nos cofres municipais para todas as despesas, inclusive aluguel de caminhões-pipa). Arquivos? Sumiram. Uma prefeita levou o computador e os móveis para casa, alegando que eram dela. Em outros municípios, os computadores estavam no lugar, mas os discos rígidos tinham sido formatados, apagando toda e qualquer informação. Levaram até o aparelho de raios-X do hospital e o motor de um carro oficial. 


Guerra religiosa, não 1
O Governo está sendo criticado por dar passaporte diplomático ao apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. É esquisito; mas o Governo dá passaportes diplomáticos a autoridades religiosas, como cardeais católicos, e não poderia discriminar outras religiões. 

Errado, no caso, não é dar o passaporte diplomático a Santiago: é dar passaporte diplomático a líderes religiosos, sejam quais forem. Que cada um tire seu passaporte normal, e pronto.

Guerra religiosa, não 2
A Rede Record atacou pesadamente, no Domingo Espetacular, dois programas da concorrente Rede Globo: Salve Jorge e Canto da Sereia. Motivo alegado: os dois programas seriam favoráveis a cultos afrobrasileiros. 

Admitamos que sejam. E daí? Se forem favoráveis ao islamismo, budismo, judaísmo, catolicismo, protestantismo, qual o problema? Combater a liberdade religiosa é absurdo (e ilegal); e traz à memória os tempos tristes da perseguição a quem pensa diferente.

Homicídio anunciado
Lembre aquela moça de 25 anos, grávida de nove meses, que foi assaltada e morreu com um tiro na cabeça. Agora, acompanhe a história do assassínio que podia ter sido evitado e não foi. Alex Alcântara de Arruda, 22 anos, principal suspeito do crime, estava preso em regime semiaberto por tentativa de roubo. Fugiu em 10 de novembro de 2011. Duas semanas depois, o Conselho Nacional de Justiça, que não tinha sido informado da fuga, deu-lhe liberdade condicional. Só nos últimos dois meses, Alex foi preso duas vezes; em ambas foi liberado pela Justiça, por não haver mandado de prisão contra ele.

Deveria haver: se ganhou condicional sem tê-la merecido, por que não houve uma correção no seu tratamento? Enfim, ele estava solto. E por isso, por ele estar entre nós, uma moça de 25 anos, grávida de nove meses, levou um tiro na cabeça, e já não está entre nós.

Ação oficial
Os sucessivos encontros da presidente Dilma Rousseff com grandes empresários não se limitam à tentativa de levá-los a investir mais (até porque só investirão se o investimento for economicamente viável). Mas é bom lembrar que a Odebrecht, a Cosan, o Bradesco e a Vale Fertilizantes estão entre os principais doadores de campanhas eleitorais.

Atraí-los, e separá-los dos adversários, é ótimo.

carlos@brickmann.com.br 
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O tempo dirá. Ou não


Pedro Malan
O Estado de S.Paulo

Coincidência ou não, vale o simbolismo: o governo federal escolheu dois 7 de Setembro (2009 e 2012), dias de nossa Independência, para anunciar mudanças importantes nos regimes de concessão nas áreas de petróleo e energia elétrica.

No caso do petróleo, como notei em artigo anterior, "deixe-mos de lado uma pergunta fundamental: era mesmo preciso mudar totalmente a Lei do Petróleo de 1997 apenas para aumentar a fatia do governo no pré-sal?". (Algo que o regime de concessões, adaptado já permitiria, dizem especialistas, por meio de aumento da "participação especial"para os novos campos.) Mas a questão relevante, após a controvertida decisão da mudança de regime, passou a ser a viabilização dos investimentos para a empreitada, principalmente com a Petrobrás tendo de assumir a posição de operadora, com pelo menos 30% de todos os campos do pré-sal a serem explorados.

Opiniões à parte, são fatos que a mudança de regime atrasou o processo, que há quatro anos não há licitações de nenhuma área e que a Petrobrás, como notou Adriano Pires, é a única grande empresa do mundo que, apesar do petróleo a mais de US$ 100 o barril, perde dinheiro quando vende gasolina (cujo consumo aumentou 60% de 2008 a 2012), porque paga mais caro pela gasolina que importa do que recebe pela gasolina que vende, já que seus preços estão controlados por decisão do acionista majoritário. E isso certamente afetou a sua capacidade de investimento. Investimentos que passariam de US$ 174 bilhões (2009-2013) para US$ 225 bilhões (2010-2014 e 2011-2015) para US$ 236 bilhões (2012-2016). Haja Tesouro.

No dia 7 de setembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff anunciou mudanças na legislação sobre o setor elétrico. O governo federal temo direito, estabelecido em lei, de renovar ou não as concessões de geradoras de energia quando os seus contratos terminarem. Era sabido que vários contratos de concessão importantes expiravam em 2015-2017. O governo, buscando o objetivo meritório de reduzir o custo de energia, decidiu propor a renovação antecipada (para 2013) das concessões às empresas de geração e de transmissão que aceitassem reduzir desde logo (2013) as tarifas aos níveis desejados pelo próprio governo.

De novo a questão fundamental, como no caso do petróleo, é: as novas regras contribuirão ou não para aumentar o grau de confiança dos investidores no setor de geração de energia? Em particular, e para usar outras palavras, as novas tarifas (20% mais baixas), tal como estabelecido, permitem às empresas cobrir os seus custos de operação e manutenção - além de efetivar os investimentos necessários à expansão de seus negócios? Há quem diga que sim. Há quem diga que o governo federal terá, cedo ou tarde, de capitalizar as geradoras da Eletrobrás, que seguiu a orientação de seus acionistas controladores de reduzir em mais de 20% a sua receita. E há novos riscos. Haja Tesouro...

Os casos do petróleo e da energia elétrica não são isolados. Problemas assemelhados existem em outras áreas, como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, trens-bala, saneamento, abastecimento de água. O papel do Estado e o do setor privado continuam sendo tema de infindável controvérsia na própria sociedade e, certamente, no âmbito do próprio governo, no qual convivem diferentes posições sobre o tema. Que contribuem, talvez, para confirmar o chiste de Luís da Câmara Cascudo: "O Brasil não tem problemas, apenas soluções adiadas".

Em momentos como este, é fundamental um esforço para melhorar a qualidade do debate público. Apenas quatro observações a esse respeito.

Primeiro, não deveria existir uma política macroeconômica de esquerda, progressista e desenvolvimentista, à qual se contraporia uma política macroeconômica de direita, monetarista, conservadora e "neoliberal". Na verdade, em cada contexto há um espectro de políticas macro mais ou menos adequadas do ponto de vista de sua consistência intertemporal. E um legítimo debate profissional sobre o grau de responsabilidade, de coerência e de credibilidade de uma dada política.

Segundo, não deveria existir, a meu juízo, quando se está discutindo, de boa-fé, na prática, a eficácia de uma política pública específica numa área definida, seja educação, saúde ou segurança, uma posição de esquerda, ou progressista, ou desenvolvimentista em oposição maniqueísta a uma outra posição de direita, ou fiscalista, ou "neoliberal".

Terceiro, há claros limites para a expansão acelerada dos gastos governamentais, ainda quando justificáveis como fundamentais para reduzir injustiças sociais e mitigar efeitos cíclicos de crises econômicas. Como escreveu Luiz Felipe de Alencastro, "a ideia de que se pode alcançar a justiça social às custas das ações do Estado chegou ao limite. É preciso buscar novos caminhos e mobilizar a sociedade em um ambiente onde também atuem mecanismos de mercado".

Quarto, é desonestidade intelectual, além de falta de ética no debate público, imputar a indivíduos, e a supostas escolas de pensamento a que pertenceriam, o descaso com o desenvolvimento econômico e a inclusão social, porque essa "preocupação" teria sido já apropriada e transformada em monopólio de autointitulados "social-desenvolvimentistas". Vimos, recentemente, a tentativa de um partido de se apropriar do monopólio da ética na política. Deu no que deu. O enfrentamento dos difíceis desafios à frente seria mais efetivo se pudéssemos perder menos tempo, talento e energia com falsos dilemas, dicotomias simplórias, diálogos de surdos, pregações dirigidas aos já convertidos e rotulagens destituídas de sentido, exceto para militantes ansiosos por palavras de ordem.

O Brasil merece algo melhor em termos de qualidade de debate público. E acho que, apesar das tentativas em contrário, estamos avançando.

Acabou a desculpa para o Brasil não crescer


Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

Quem analisa a economia com um olho na estrada e outro no retrovisor é incapaz de reconhecer no cenário projetado para o Brasil em 2013 o mesmo país de três anos atrás.

Naquele momento - mais precisamente em 2010 -, o governo jactava-se de que o Brasil ia muito bem, obrigado. E fazia questão de dizer que os países desenvolvidos estavam mergulhados numa crise que acabaria por levá-los para o fundo do poço. Hoje, o cenário é outro.

O mundo parece recuperado ou, pelo menos, estar saindo da situação de maior apuro, enquanto o Brasil, na melhor das hipóteses, parece empacado.

Segundo um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado ontem, as perspectivas de crescimento do Brasil este ano são menos otimistas do que a de países que sofreram as consequências mais agudas da crise (conforme mostra reportagem na edição de hoje do Brasil Econômico).

Para 2013, a maioria dos países do mundo (inclusive os da Europa) esperam taxas de crescimento superiores às projetadas para o Brasil. Nos Estados Unidos, a expansão deve ser consistente: cerca de 2,5% em 2013 e pelo menos um ponto percentual acima disso em 2014.

Caso as hipóteses de um crescimento mais robusto da Europa, dos Estados Unidos e da China se confirmem, cairá por terra a desculpa que apontava a crise internacional como o maior obstáculo ao crescimento brasileiro nos últimos anos.

Sim. Muito embora existisse em 2010 a crença generalizada de que o Brasil ia bem em meio à crise mundial por haver adotado um modelo de crescimento baseado na inclusão social, o fato é que o país não teve forças para crescer nos últimos dois anos.

A opção por um modelo fiscal estúpido, um monte de picuinhas políticas e outros problemas na mesma linha tiraram a competitividade da indústria e impediram que o país atraísse os recursos necessários para financiar o crescimento.

Enquanto esse modelo persistir, a economia brasileira só crescerá quando os países desenvolvidos estiverem em expansão. Por essa razão, a provável reação da economia mundial é a melhor notícia que o Brasil poderia receber neste momento em que o cenário ganha ares nebulosos.

Mais do que os programas de distribuição de renda, a expansão do crédito e o estímulo ao consumo por meio de renúncias fiscais, o que assegurou o crescimento em 2010 foi o modelo baseado na exportação de commodities.

Tanto isso é verdade que, no ano passado, o governo fez tentativas de expandir o consumo muito mais ousadas do que as de 2009 e 2010. Só que a economia não reagiu. Com a China e a Europa crescendo, as vendas de minério de ferro, de soja e de outros alimentos devem crescer.

E, como isso, todo o resto. Será mais uma oportunidade de consertar o que está errado para que o país deixe de depender tanto das commodities para crescer.

Ou a economia embala ou o Brasil dá marcha à ré


Marco Antonio Rocha
O Estado de S. Paulo

Anos de descaso, desleixo e negligências com a área de educação e ensino geraram tudo isto que está aí

Os editores do primeiro número do ano da revista “Veja” encontraram uma ideia feliz – a de um leopardo – para resumir o desafio que nosso desenvolvimento enfrenta: o país precisa de muita velocidade na solução dos seus problemas, para que eles não cresçam mais do que a capacidade de alcançá-la.

Poderiam ter acrescentado que a alternativa é perder o bonde da história, da corrida das nações, e começar a andar para trás – como a Argentina. Nosso vizinho era Primeiro Mundo antes de a expressão virar moda. Sem estratégia sensata para se manter no pódio, assolado por governos estúpidos, foi perdendo gás como nadador cansado, e nunca chegou à praia.

O Brasil já teve momento de trem-bala. Entre 1930 e 1970, o PIB brasileiro gozou do mais longo período de bonança entre os de muitos países: média de 6% a 7% de crescimento anual, por anos a fio. Só a China iguala isso, hoje em dia, depois de dois séculos, ou mais, de pobreza abjeta. E seu povo está longe ainda de superar o atraso social e econômico, apesar da propaganda de obras do seu governo.

Desde a crise da dívida e do petróleo dos anos 70, a locomotiva brasileira deixou seu andamento prestissimo, foi caindo para o moderato, entrou num adágio no governo Dilma e, agora, no ano passado, chegou a resfolegar como Maria-Fumaça dos anos 20.

O resumo da ópera é muito simples: ou recalçamos a bota de sete léguas que puxou a República do Jeca-Tatu do século 19 para o Brasil da Embraer, da Embrapa, da USP, da Unicamp, do ITA, do IPT, da Poli, da indústria de ponta, da internet, da TV digital, da 6.ª ou 7.ª economia do mundo, ou todas essas realizações começarão a sentir o peso do trem de carga que arrastam e não vão aguentar.

A boa discussão não é como, quando e por onde construiremos um trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro, pois a China construiu quatro, enquanto discutimos um. A questão é como, quando e de que modo colocaremos toda a economia dentro de um trem-bala, para que ela cresça mais velozmente do que as necessidades e carências da população, que ganham mais velocidade quanto mais se acumulam. Exemplo: quanto mais demoram os recursos, os planos, a montagem do arcabouço institucional para atacar com vigor o problema do saneamento, mais as doenças resultantes da sua falta assolam a população. E mais os hospitais, ambulatórios e creches se tornam insuficientes para o atendimento, gerando maior disseminação das doenças.

Anos de descaso, desleixo e negligências com a área de educação e ensino geraram tudo isto que está aí: escolas que não ensinam direito, alunos que não aprendem direito, professores que não atendem à qualificação mínima para o ofício. Ou advogados e médicos reprovados anualmente nos testes básicos de capacitação. Engenheiros e arquitetos, também. E, para cada brasileiro que se sobressai, até internacionalmente, na qualificação para a Matemática, em exames individuais, existem milhares, talvez milhões, que precisam mostrar os dedos para saber quanto é dois mais dois.

Ora, esse é um atraso que não se corrige de uma hora para outra, como pode ser a construção de uma ponte ou a reconstrução dos estragos de uma enchente. Mas nem isso conseguimos fazer com a velocidade necessária, haja vista as reportagens sobre os estragos do ano passado, a maioria ainda estragada.

Na virada à direita da Rua da Consolação para a Avenida Dr. Arnaldo, a Prefeitura de São Paulo levou quase um ano reparando a calçada de apenas uma quadra, no ano passado. O Viaduto Orlando Murgel está há meses com meia pista à espera de reparos por causa de um incêndio. Assim ficou também a Ponte do Limão durante anos, por um pequeno problema de estrutura na administração Pitta.

Cito pequenos casos porque são os que todo mundo que mora em São Paulo testemunha diariamente. Tenho certeza de que, no resto do Brasil, o povo também testemunha, diariamente, a falência da administração pública. Em quase tudo: rodovias, ferrovias, ruas, pontes, hospitais, escolas, delegacias, tribunais, creches – enfim, uma presença cada vez mais precária do Estado e do setor público.

E, no entanto, o Estado brasileiro dispõe de recursos crescentes, de impostos, de empréstimos, de moeda estrangeira, de endividamento interno e de poder político interno. Nisso, nunca teve tanto poder, a não ser na ditadura. E dispõe também de quadros técnicos competentes, produzidos por escolas de elite, de engenharia e de administração pública.

O que é que falta?

Em primeiro lugar, falta foco.

Em segundo, velocidade, nas decisões e nas ações.

Em terceiro, continuidade das tarefas e dos trabalhos.

Não dá para aguentar que, em cada mudança de governo, nos planos municipal, estadual ou federal, se mude o foco, criem-se vários focos, perca-se velocidade e ritmo e, principalmente, se descontinuem as tarefas e os trabalhos.

Brasileiro só tem ritmo nos pés, para o futebol e para o samba – já disse um crítico. Para o resto, é uma pasmaceira. É verdade. O ritmo do leopardo só apareceu na construção dos estádios para a Copa.

A “Grande Falha” brasileira


Paulo Rabello De Castro
Brasil Econômico

A economia vai mal porque a falha principal permanece convenientemente camuflada

O economista indiano Rhaguran Rajan é reconhecido por sua contribuição ao entendimento da crise financeira. Em livro recente, que lhe deu fama mundial, intitulado “Fault Lines” — em português, “Linhas de Falha”— Rajan aponta as falhas estruturais da economia mundial.

Ele as compara às falhas tectônicas do planeta, escondidas, que podem trazer destruição grave no caso de súbita movimentação de placas. A metáfora é interessante. O termo já foi incorporado à linguagem econômica para designar situações de vulnerabilidade de uma estrutura econômica, seja nacional, regional ou mundial.

Cresce no Brasil o debate sobre “falhas” no modelo brasileiro. Há flagrante descompasso entre a capacidade de gastar e as de produzir e investir. O consumo das famílias e do governo no Brasil é que sustenta a geração de empregos, concentrados no setor de comércio e serviços, e em geral vinculados à lenta evolução da produtividade da economia nacional. Até ano passado, éramos os campeões mundiais dos juros altos.

Somos donos da Copa do Mundo da burocracia tributária: são horas sem fim, despendidas pelas empresas para cumprir as regras de impostos, as mais variadas e complicadas do planeta. Nem precisamos apelar para a existência de outras falhas estruturais, como baixa educação e treinamento, infraestrutura péssima e sofrível grau de inovação industrial, para explicar porque temos crescido tão pouco. Juros e impostos são causas dominantes.

Problemas crônicos de saúde e educação já existiam nos anos 1960 ou 1970. No entanto, naquelas décadas, chegamos à fronteira do crescimento, com PIB evoluindo acima de 7% ao ano, chegando ao topo, com 10% ao ano. Depois trombamos contra uma parede de má gestão macroeconômica. Esta foi, e ainda é, a principal falha brasileira: o diagnóstico equivocado dos nossos erros, não qualquer outra falha pontual.

A economia vai mal porque a falha principal permanece convenientemente camuflada. A debilidade do PIB brasileiro decorre da enorme falha no modo de financiamento dos gastos do Estado, que crescem, há mais de uma década, acima do PIB privado. Recursos bons são sugados para financiar o consumo no setor público.

A ferramenta que opera tal sucção vampiresca é a tributação acrescida (marginal), hoje em torno de 70% da renda nacional acrescida. De tudo que se acrescenta ao PIB durante o ano, mais de metade – chegou a 70% em 2011! – é desviada do setor privado para financiar o setor público.

A tributação na margem vem comendo parcela majoritária dos acréscimos de renda gerados pelas empresas, inviabilizando novos investimentos pelos lucros acumulados.

Tais lucros são sugados antes, e viram consumo público. As máquinas políticas, em Brasília e nas assembleias estaduais, têm endossado esse procedimento vampiresco, com argumentos absurdos como “fazer os empresários pagarem a conta” ou “investir mais no social”.

O resultado escondido da tributação brutal é a anemia do PIB. Rever a carga fiscal, controlar o gasto público com metas estritas, simplificar e cortar impostos, este é o ÚNICO remédio imediato e de amplo espectro contra o Pibinho. Esta, sim, é a grande falha brasileira. Persistente, injusta e quase criminosa. Mas dá pra consertar.

Um mandato sem meta


Míriam Leitão 
O Globo

O Copom esta semana deve manter a taxa de juros, em grande parte pelo baixo ritmo de crescimento econômico do ano passado. A previsão de inflação calculada pela pesquisa do Banco Central está em 5,53%, para este ano, e 5,5%, para o ano que vem. Se for isso, o governo Dilma acabará sem que a inflação esteja no centro da meta. Ninguém acredita mais no que o Banco Central promete.

A expectativa dos analistas já é de uma taxa um ponto maior do que o centro da meta este ano e no próximo. Mesmo com a queda do preço da energia, que puxará para baixo a inflação neste começo do ano, ninguém calcula que ela voltará ao nível em que deveria estar. Essa pesquisa feita pelo Banco Central, das projeções das instituições financeiras, costuma ser otimista a médio prazo. Para o ano seguinte, em geral, o mercado prevê que a inflação ficará em torno da meta e que o crescimento vai ser o prometido pelo governo. O que a pesquisa mostra agora é que o BC está perdendo a batalha das expectativas.

Controlar as expectativas é o ponto de partida do sistema de metas de inflação. Funciona assim: o Banco Central diz qual é o seu alvo, ou seja, o centro da meta, e se compromete a levar a inflação para esse patamar, subindo ou reduzindo os juros. A partir daí, o mercado reajusta os preços levando em consideração esse compromisso, explica o economista e consultor Alexandre Schwartsman.

- A importância das expectativas é enorme. Imagine uma universidade que precisa reajustar a mensalidade, o que só acontece uma vez por ano. Se ela acredita que a inflação será de 4,5%, vai subir o preço para se proteger dessa perda. Mas se ela acha que a inflação será de 6%, vai subir um pouco mais. A lógica é a mesma para sindicatos, que brigam por salários, empresários, investidores, para a economia toda - disse.

No começo do governo Dilma, a inflação entrou acelerando e o Banco Central avisou que naquele ano não atingiria o centro da meta, mas em 2012, sim. Não foi o que ocorreu. Em 2011, ficou em 6,5%, e só não houve estouro do teto da meta porque alguns aumentos foram postergados; no ano passado, fechou em 5,84% porque mudanças no cálculo do índice e adiamentos de alguns reajustes, como gasolina, ajudaram. 

Alguns economistas calculam que a inflação em 12 meses continuará subindo nos primeiros meses do ano. Schwartsman acha que o IPCA vai encostar em 6,5% ao fim do primeiro semestre e fechará 2013 na casa de 6%. Um dos problemas está na inflação de serviços, que há dois anos roda a casa de 8% e 9%.

- A economia cresce pouco, mas a inflação continua alta, em grande parte porque o mercado de trabalho está apertado. O setor de serviços consegue repassar esses reajustes salariais para os preços porque não tem concorrência. Mas o setor industrial não consegue. Isso tira competitividade da indústria e se reflete no crescimento da economia. Temos um tipo de estagflação - disse.

O Banco Central manterá os juros exatamente porque está nesse dilema: de um lado, inflação ainda alta, e de outro, crescimento muito fraco. Se fosse apenas pelo nível de atividade, deveria aumentar o incentivo ao crescimento, reduzindo as taxas; se fosse só pela inflação, era hora de elevar a taxa. O problema é que o BC está sozinho nas duas pontas. No crescimento, o governo tem investido pouco; no combate à inflação, o governo aumentou gastos e manipulou índices fiscais.

Para 2013, há a vantagem da queda do preço da energia, no curto prazo, que terá um efeito positivo no índice, mas a médio prazo há várias pressões: o uso das usinas termelétricas aumentará o custo da energia; a gasolina deverá subir de preço para atender a Petrobras, que tem reclamado que o adiamento do reajuste afeta seu caixa e capacidade de investimentos.

Se a previsão do mercado se confirmar, a inflação não verá o centro da meta durante todo o mandato da presidente Dilma Rousseff. Mas isso não é o mais importante. O que preocupa é que o regime de metas se baseia na confiança de que o Banco Central levará a inflação ao centro da meta. O espaço de flutuação é apenas para acomodar inesperados. Mas a atitude do BC está cristalizando a convicção de ele aceita um pouco mais de inflação. É essa ideia que a autoridade monetária terá que desfazer.

Imaginação


Delfim Neto
Folha de São Paulo

A imaginosa operação realizada pelo governo para fingir o cumprimento do superavit primário foi irritante.

Teria sido muito melhor para a sua credibilidade reconhecer que, com um crescimento do PIB de 1% e uma queda de 2% na produção industrial, recomenda-se um afrouxamento fiscal e monetário e um estímulo aos investimentos. O aspecto mais preocupante foi a revelação da má qualidade do portfólio do BNDESPar empurrado para a Caixa Econômica Federal.

Tal evidência aconselha que se incluam na dívida líquida alguns dos empréstimos do Tesouro ao banco. Tem razão o TCU quando insiste em tomar conhecimento das garantias oferecidas aos empréstimos do BNDES, o que não está protegido pelo "segredo bancário".

Entretanto, por mais desastrada que tenha sido a operação na essência e na oportunidade, ela está longe de sugerir, como se tem afirmado, que "o governo perdeu o controle fiscal, a última peça restante do tripé". Afinal, terminamos o ano com um deficit nominal em torno de 2,4% do PIB, com uma taxa de inflação de quase 5,8% e com uma relação dívida líquida/PIB em torno de 36%, o que não prenuncia nenhum descontrole. Mas o deficit em conta-corrente de quase 2,5% do PIB sugere algum cuidado.

Há uma angústia provocada pela repetição de "truques" contábeis que, às vezes, chegam à transmutação de dívida pública (chumbo) em receita pública (ouro) graças à obra e à arte de alquimistas na busca da pedra "filosofal" capaz de produzir o "ilusionismo geral". A preocupação é legítima. Eles ameaçam reconstruir relações incestuosas entre o Tesouro Nacional, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

Estamos diante de uma sucessão de "espertezas" capazes de, desapercebidamente, destruir o esforço de transparência que vem sendo preparado desde 1983, que levou à eliminação da famosa "conta-movimento" do BB e culminou na magnífica Lei de Responsabilidade Fiscal, até hoje duramente combatida pelo Partido dos Trabalhadores.

Agora mesmo, o governo introduziu de contrabando, numa medida provisória, um dispositivo prejudicial ao equilíbrio fiscal, o que justifica a tal angústia.

É uma pena. Isso torna ainda mais difícil superar a desconfiança que, hoje, existe entre o setor privado capaz de produzir as obras de infraestrutura e a sua interface no governo. A experiência recente mostrou que esta tem mais "poder" do que "competência", evidenciado no fato de atacar os problemas certos, mas de tentar resolvê-los sempre com mais calor do que luz!

Margem de manobra encolheu


José Paulo Kupfer
O Estado de S.Paulo

Não são confortáveis, seja qual for o ângulo de avaliação, as perspectivas para a inflação, neste ano que está começando. O IPCA, índice de preços ao consumidor que serve de baliza para o sistema de metas de inflação, fechou mal 2012 e dá sinais de que começará mal 2013.

Mais do que a variação forte em dezembro, alcançando 0,79%, acima das expectativas do mercado, chamou a atenção a persistência do índice de difusão, que sinaliza o quanto as pressões dos preços estão disseminadas pelos itens que compõem o IPCA. Em dezembro passado, 70% deles registraram altas de preços, configurando o maior espalhamento em quatro anos.

Assim como em 2011, o mais provável é que, no acumulado em 12 meses, a variação do IPCA, mês a mês, supere os 6,5% do teto do intervalo da meta de inflação definida para 2013. Analistas só esperam um alívio a partir do quarto trimestre do ano, com a eventual distensão liderada pelos alimentos.

É esse alívio que faz a mediana das projeções do momento, coletadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, apontar para uma evolução de 5,6%, no fechamento do ano, abaixo do registrado em 2012 e 2011. Se confirmada a estimativa, o índice terá ficado dentro do intervalo das metas, mas acima do seu centro, como ocorrido em 12 dos 15 anos de vigência do sistema.

As pressões inflacionárias mais importantes, em 2012, como no ano anterior, vieram dos alimentos e do setor de serviços. Os alimentos produziram, a partir de meados do ano, choques de oferta, com origem principal em aumentos de cotações internacionais, que refletiram quebras de safras nos Estados Unidos, em razão de uma seca forte e prolongada. As altas nos serviços, de seu lado, espelham as dinâmicas do mercado de trabalho e estas continuam favoráveis a pressionar os preços, como, aliás, ocorre há pelo menos cinco anos.

Safras mais abundantes, tanto no Brasil como no mercado internacional, tendem a reduzir, este ano, o peso dos alimentos no IPCA. Os componentes dos serviços, no entanto, continuarão com forte presença nas altas de preços, evoluindo acima da média dos outros setores. Como eles respondem por cerca de um terço do índice, seu impacto negativo sobre o ritmo de convergência da inflação para o centro da meta será relevante.

Não daria muito trabalho listar uma série de outros preços importantes para os quais se projetam efeitos positivos e negativos sobre os índices de inflação, em 2013, com potencial para uns compensarem outros, neutralizando variações para cima ou para baixo. Ao previsível aumento dos preços dos combustíveis, por exemplo, pode-se contrapor a previsível redução das tarifas de energia elétrica.

Altas em tarifas de transportes urbanos e nos preços de automóveis e eletrodomésticos, represados em 2012, do mesmo modo, podem ser compensadas pelo reajuste menor do salário mínimo. E por aí vai, sem falar na dinâmica de variáveis macroeconômicas, tais como os efeitos deflacionários de uma previsível estabilização da taxa de câmbio ou de ligeira apreciação cambial, neutralizáveis, por sua vez, pelos impactos inflacionários de um também possível ritmo melhor de crescimento da economia.

No balanço das pressões entre opostos nas tendências da inflação, sobressai a necessidade de redobrar cautelas e cuidados nas projeções das variações dos índices de preços, diante do ambiente volátil em que eles devem evoluir. Seria arriscado, em resumo, tanto apostar em descontrole das taxas de inflação quanto cravar fichas numa convergência rápida para o centro da meta.

Não há risco quase nenhum, contudo, em projetar a trajetória do IPCA em 2013 - e possivelmente em 2014 - em patamares desconfortavelmente altos. Nem em considerar que, em razão da difusão das pressões inflacionárias, encolheu o intervalo de manobra da política econômica.

Um conjunto acima do normal de "trade offs" - jargão dos economistas para designar escolhas conflitantes, em que a solução de um problema pode causar outro - assombrará, neste ano, a ação econômica do governo. Um dos mais evidentes, embora nem de longe o único, é o que envolve a política cambial.

Desvalorizar a taxa de câmbio teria, certamente, impacto benéfico sobre os investimentos, a variável crucial da equação econômica do momento, e a competitividade geral da abalada indústria brasileira. Mas sua consequência deletéria sobre uma inflação já pressionada inviabiliza completamente a alternativa.

A regra da poupança


Fabio Giambiagi
O Globo

Os novos depósitos poderão perder da inflação, se a remuneração se mantiver nos níveis atuais

Em 2012, o Governo modificou a regra da caderneta de poupança. A mudança foi bem recebida e pode ser qualificada como engenhosa. De fato, o Governo conseguiu o que queria — “destravar” o processo de redução dos juros, eliminando o piso associado à antiga regra da poupança — e, ao mesmo tempo, ao definir que a regra valeria apenas para os casos em que a Selic fosse igual ou inferior a 8,5% — mantendo a regra antiga caso fosse superior a isso — evitou um problema futuro, como seria a vinculação com a Selic se esta tivesse que voltar a aumentar por alguma razão.

Por outro lado, a fórmula encontrada — correção de TR + 70% da Selic para os depósitos novos e manutenção da regra de TR + 0,5% ao mês para os depósitos antigos — não está isenta de problemas. Há dois deles para os quais convém prestar atenção.

O primeiro é o risco de perda em relação à inflação. Tomemos como referência uma Selic como a atual, de 7,25% ao ano. Nesses níveis, a TR tende a ser nula, o que significa que a remuneração da poupança é de 70% da Selic para os depósitos feitos a partir de 4 de maio, quando a medida passou a vigorar e de 0,5% ao mês para os antigos. Como 70% de 7,25% é 5,08%, isso quer dizer que os novos depósitos rendem anualmente esse percentual, enquanto que os antigos rendem 6,17% — taxa anual do rendimento mensal de 0,5%. Caso a inflação seja maior que 5,08%, o depositante terá perda real. O que cabe avaliar é: nesse contexto, qual está sendo a inflação? Vejamos alguns indicadores. Taxa dos últimos 12 meses (IPCA): 5,8%. Taxa anualizada dos últimos 3 meses: 8,2%. Taxa anualizada da média dos núcleos de inflação nos últimos três meses: 6,7%. Expectativa de inflação captada pelo Banco Central (BC) através do Boletim Focus para 2013: 5,5%. Expectativa de inflação captada pelo BC através do Focus para aqueles que mais têm acertado a curto prazo (os “Top 5”): 5,7%. O que se observa, então, é que os novos depósitos poderão perder da inflação, se a remuneração se mantiver nos níveis atuais.

O segundo problema é o risco de descasamento. Ele ocorreria qualquer que seja a inflação, para uma Selic igual ou inferior a 8,5%, mas para não confundir os efeitos, vamos deixar a inflação de lado. E vamos continuar com nossa Selic de 7,25% e, portanto, com os novos depósitos sendo corrigidos a 5,08% ao ano, enquanto que os depósitos antigos são remunerados a 6,17%. Vamos imaginar que o sistema que opera com base em captações da poupança — como o mercado imobiliário — estivesse em equilíbrio antes da mudança da regra. Isso significa captar a uma taxa x, ter um certo “spread” e emprestar a uma taxa y, sendo esta maior do que x.

O que ocorre na nova situação? Imaginemos que com a Selic a 9%, a remuneração da poupança fosse 7% e a taxa de mercado nos financiamentos imobiliários fosse 10 %, com um “spread” de aproximadamente 3%. Estamos adotando uma série de simplificações, apenas para facilitar a compreensão do problema por parte do leitor. Vamos supor que a Selic agora seja de 7% e que nesse contexto de queda de juros, a ponta dos empréstimos tenha passado a ser de 8% — 1% superior à Selic e, como no caso desta, 2% abaixo da taxa original. 

É claro que há entraves práticos a uma mudança de contratos, mas é razoável pensar que se a taxa é 8%, cedo ou tarde o mutuário que pagava 10% consegue um novo empréstimo para quitar o antigo e pagar a nova taxa. No limite, o sistema vai estar emprestando a 8%. Não haveria maiores problemas se a taxa de captação do sistema fosse 70% da Selic, ou seja, no caso, 4,9%. Porém, se a maior parte dos depósitos forem antigos, o custo de captação será de 6,17%. O spread terá caído nesse caso de 3% para menos de 2%. Se houver elevada alavancagem e riscos altos de inadimplência, poderão aparecer problemas. E se o spread não cair, a queda da Selic não seria acompanhada pelos juros do sistema. Evidentemente, o problema aqui abordado agrava-se caso a Selic caia mais ainda. Nesse caso, a intermediação financeira do sistema de habitação será um desafio maiúsculo. Portanto, se os juros baixos forem um fenômeno duradouro, a regra deveria ser revista e a correção de todos os depósitos deveria ser unificada adotando a norma que vale para os depósitos novos.

Bem-vindo, Henrique. Você merece o cargo!


Ricardo Noblat

Depois de 42 anos como deputado federal, Henrique Eduardo Alves, atual líder do PMDB, está prontinho para presidir a Câmara a partir de fevereiro próximo.

Sabe tudo o que se passa ali dentro. Sabe como fazer passar tudo ali dentro.

Sabe quem importa ali dentro e quem não importa. E conta com os votos da maioria esmagadora dos partidos, do governo à oposição. Sem falar do apoio da presidente Dilma.

O que falta para que ele dê como certa sua eleição?

A apuração dos votos. E que até lá o deixem em paz, ocupado em cabalar votos em troca de cargos na direção e em gabinetes da Câmara, nos ministérios e empresas estatais onde o PMDB manda.


Um conselho: e nada de investigar o passado remoto ou recente de Henrique. Porque quem procura acha. E o que acha quase sempre desfavorece o alvo do achado.

No último fim de semana, a Folha de São Paulo e a Veja publicaram preciosos achados que, por um lado, reforçam as chances de Henrique junto aos seus colegas e, por outro, o deixam mal com o distinto público.

Os colegas poderão dizer com orgulho: “É um dos nossos”. Quanto ao que dirá o distinto público... O que importa?

Quantos políticos vagabundos, desonestos, encrencados com a Justiça não se elegem e se reelegem com o voto irresponsável do distinto público?

Leandro Colon, repórter da Folha, descobriu que uma parte do dinheiro das emendas ao Orçamento da União apresentadas por Henrique foi parar na Bonacci Engenharia, empresa de Aluizio Dutra de Almeida, tesoureiro do PMDB no Rio Grande do Norte, Estado de Henrique.

Aluizio é assessor de Henrique desde 1998. A Folha identificou três prefeituras que contrataram a Bonacci Engenharia com dinheiro federal obtido por Henrique.

Em 2009, Henrique destinou R$ 200 mil de suas emendas para a construção de uma praça em Campo Grande, a quase 300 quilômetros de Natal. No ano seguinte, o dinheiro saiu e a prefeitura contratou a empresa do assessor de Henrique para tocar a obra.

Repetiu-se o script com obras nas cidades de São Gonçalo do Amarante e Brejinho.

Os mais lenientes dirão: a Bonacci deve engordar o Caixa 2 das campanhas de Henrique. Qual o político que dispensa Caixa 2?

Jamais esqueçam: Caixa 2 é crime.

Os mais desconfiados dirão: Henrique deve ser sócio oculto da Bonacci.

Sem prova robusta, substancial não vale.

Quem sabe a teoria do domínio do fato não dá um jeito nisso? Deu no mensalão. Condenou cabeças coroadas.

(Mudou de assunto, foi, Noblat? Abandonou Henrique?)

O indigitado recusou-se a comentar a reportagem da Folha. Talvez porque ao comentar a da Veja tenha se dado muito mal.

A Veja conta que Henrique gasta R$ 8.300,00 com aluguel mensal de veículos.

Ocorre que as notas fiscais apresentadas por ele para reembolso pela Câmara são emitidas por uma empresa registrada em nome de uma laranja.

Com endereço na periferia de Brasília, a empresa atende pelo nome de Global Transportes. Sua falsa dona é Viviane dos Santos, ex-vendedora de tapetes. Viviane diz que emprestou seu nome a uma tia. E que a Global não possui carros. Nunca possuiu.

Kelen Gomes, a tia, é quem fornece as notas fiscais para o gabinete de Henrique.

À Veja, primeiro Henrique disse que usa seu próprio carro quando está em Brasília. Corrigiu-se em seguida: admitiu que usa carros alugados, embora não lembre do modelo de nenhum deles.

Por fim, escalou um assessor para explicar melhor a história. “Talvez o deputado não se lembre, mas foi ele quem mandou contratar essa empresa”, explicou melhor a história Wellington Costa, o assessor.

Henrique tem uma queda especial por viver perigosamente. Que o diga seu par constante, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), candidato a líder do partido na Câmara (foto abaixo).


Por duas vezes pelo menos, episódios desabonadores obrigaram Henrique a submergir para escapar do risco de perder o mandato.

Em maio de 2002, escolhido para ser vice na chapa presidencial encabeçada por José Serra, quase que Henrique afundou de vez.

Foi acusado pela ex-mulher, Mônica Infante de Azambuja Alves, de ter R$ 15 milhões em paraísos fiscais nas Bahamas, no Canal da Mancha e em Genebra, além de uma conta no Lloyds Bank em Miami, nos Estados Unidos.

Mônica e Henrique enfrentavam um processo de divórcio litigioso. Ela queria mais do que Henrique estava disposto a dar. Então entregou a seus advogados extratos bancários, contas telefônicas, comprovantes de despesas de cartão de crédito e bilhetes de Henrique como provas do que dizia.

E o que ela dizia no processo mantido em segredo pela Justiça foi parar nas páginas da revista IstoÉ. Uma conta telefônica de janeiro de 1995 mostrou alto número de ligações de Henrique para o banco suíço Union Bancaire Privée (UBP): apenas numa semana foram feitas 38 chamadas.

Em bilhete manuscrito enviado por fax ao banco, o deputado autorizava uma aplicação de US$ 420 mil por seis meses. A conta 2453333 HM no UBP de Jersey mostrou uma movimentação de US$ 500 mil em 1996.

Mônica acabou se entendendo com Henrique. Retirou o que dissera contra ele. Vendeu caro seu silêncio. E ainda conseguiu um emprego na Infraero arranjado pelo ex-marido.

A Receita Federal fez de conta que tudo não passara de uma reles briga de casal – e não investigou a denúncia de Mônica.

Serra foi derrotado por Lula. Henrique aderiu ao governo Lula. Cinco anos depois se meteu em outra enrascada. Usou notas fiscais do jornal Tribuna do Norte para receber da Câmara parte da verba indenizatória.

De R$ 15 mil mensais à época, a verba servia para reembolsar gastos com consultores, combustível, transporte e outras pequenas despesas.

Em janeiro de 2007, Henrique alegou ter gastado R$ 25 mil com a divulgação de suas atividades por meio do jornal que pertencia a ele e à sua família. O jornal sempre abrira espaço de graça para projetar seu dono. Passou a cobrar, disse Henrique.

Parece crível? À direção da Câmara pareceu, sim.

O ritual de passagem de Henrique foi cumprido.

De volta ao começo: “Depois de 42 anos como deputado federal, Henrique Eduardo Alves está prontinho para presidir a Câmara a partir de fevereiro próximo”.

A automutilação do Congresso


O Estado de S.Paulo

A proximidade da renovação das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, na abertura do ano legislativo a se iniciar em fevereiro, põe em foco - mais uma vez - a esqualidez do Congresso Nacional, que deveria ser a principal instituição política da República. Expõe também os deploráveis usos e costumes dos seus prováveis dirigentes na segunda metade da atual legislatura, decerto compartilhados por sabe-se lá quantos de seus pares. O definhamento do Congresso, diga-se desde logo, não resulta de terem sido as suas funções usurpadas pelos dois outros Poderes - o Executivo e o Judiciário. O Legislativo só tem a si próprio a culpar pela sua consolidada desimportância e a degradação incessante de sua imagem. A instituição parlamentar renunciou, por livre e espontânea vontade, à posição que lhe cabia ocupar na vida política brasileira.

Os seus integrantes de há muito deixaram de ser os formuladores da agenda nacional e os interlocutores por excelência da sociedade, nas suas agruras e aspirações. Possuídos pelo varejo dos seus cálculos de conveniência, prontos a trocar a sua primogenitura na família institucional do País pelos pratos de lentilhas saídos da cozinha do Planalto, deputados e senadores formam uma versão mumificada do vibrante corpo legislativo que deu ao País a Carta de 1988 - avalie-se como se queira o produto de seu trabalho. Nas democracias autênticas, o Parlamento deve fiscalizar os atos do governo, legislar e debater as questões nacionais. No Brasil, o Congresso não faz nada disso. O seu papel fiscalizador ele mesmo desmoralizou com as suas CPIs de fancaria, criadas a partir de interesses partidários, conduzidas com escandaloso facciosismo pela maioria de turno e encerradas sob acordos espúrios para salvar a pele dos suspeitos de lá e de cá.

Quanto às leis, ora as leis. Se os congressistas se permitem terminar um período dito legislativo sem votar nem ao menos o Orçamento da União para o ano vindouro - o projeto mais importante que incumbe ao Parlamento a cada exercício -, que dirá de tudo o mais? Propostas de autoria própria nascem, em geral, para constar. As excelências preferem contrabandear para dentro das medidas provisórias (MPs) do Executivo cláusulas que convêm às clientelas patrocinadoras de suas campanhas - e que não guardam a menor relação com o objeto da MP. O governo, por sua vez, aceita a farsa. De todo modo, se vetar partes do projeto de conversão afinal aprovado, a vida segue - mais de 3 mil vetos, muitos já encanecidos, aguardam apreciação parlamentar. O debate dos grandes assuntos, por fim, foi abandonado. O sistema de funcionamento das duas Casas do Congresso desencoraja, na prática, os pronunciamentos e réplicas que mereceriam ocupar o horário nobre de uma sessão. Em consequência, o plenário se tornou irrelevante para a imprensa.

Ao mesmo tempo, Câmara e Senado criaram monumentais aparatos multimídia de comunicação, que servem para os seus membros, reduzidos muitos à condição de vereadores federais, mostrarem serviço às bases e prepararem a sua reeleição. A regra não escrita é simples: os representantes do povo pervertem em privilégios as prerrogativas que se conferiram a pretexto de atender os seus representados.

Não há perigo de melhorar. O favorito para presidir a Câmara é o atual líder do PMDB, Henrique Alves, na Casa há 42 anos. O Ministério Público o acusa de enriquecimento ilícito. Em 2002, a sua ex-mulher informou que ele tinha US$ 15 milhões em contas não declaradas no exterior. Naquele ano, o seu patrimônio declarado era de R$ 1,2 milhão. Em 2010, somou R$ 5,5 milhões. Segundo a Folha de S.Paulo, dinheiro de emendas parlamentares de sua autoria e de um órgão federal por ele controlado beneficiou a empresa de um de seus assessores.

Já o Senado voltará a ser presidido pelo também peemedebista Renan Calheiros. Em 2007, acusado de ter despesas pessoais pagas pelo lobista de uma empreiteira, renunciou ao cargo para escapar (por pouco) à cassação do mandato. Há inquérito sobre o caso no Supremo Tribunal Federal, onde Calheiros é alvo de mais duas investigações. No Congresso, em suma, tudo que pode dar errado dá errado.

PT e o governo apoiam dois corruptos para presidir Câmara e Senado. É retrato da política brasileira.


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

Já mostramos aqui no Blog da Tribuna quem é o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RJ), que será o próximo presidente da Câmara, com apoio irrestrito do Planalto e do PT. O parlamentar tem uma boa cota federal que já vem de longa data e foi mantida pelo governo Dilma Rousseff: o Departamento Nacional de Obras contra Secas (DNOCS). É ele quem controla esse importante órgão federal, que lhe dá prestígio e poder em seu 11º mandato consecutivo.

Sua ex-mulher Monica Infante de Azambuja Alves, no processo de separação litigiosa, revelou que o deputado tinha uma dinheirama invejável em, no mínimo, três paraísos fiscais: Nassau, nas Bahamas; Ilhas Jersey, no canal da Mancha; e Genebra, na Suíça.

A movimentação de Alves era coordenada pelo banco suíço Union Bancaire Privée (UBP), uma instituição financeira com clientela internacional refinada, atendida através de agências espalhadas por vários paraísos fiscais. Henrique Alves tinha também uma conta no Lloyds Bank, em Miami. E nada disso constava nas declarações de renda do deputado.

Para garantir os votos do PT na eleição da Câmara, Henrique Eduardo Alves anuncia que não cumprirá a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a perda automática do mandato dos condenados no julgamento do mensalão – Valdemar Costa Neto (PR-SP), Pedro Henry (PP-MT), João Paulo Cunha (PT-SP) e o recém-empossado José Genoino.

NOVAS ACUSAÇÕES
Agora, surgem novas acusações contra ele, pois uma parte dos recursos de suas emendas orçamentárias foi parar na empresa de um assessor de seu próprio gabinete, Aluizio Dutra, que é tesoureiro do PMDB regional em Natal, presidido pelo deputado, e sócio da Bonacci Engenharia e Comércio Ltda.

Essa é a segunda denúncia envolvendo o deputado surgida nos últimos dias. Em outro caso, ele teria alugado carros da empresa-fantasma Global Transportes, que teria por trás o ex-assessor do PMDB César Cunha.

O que se questiona é o seguinte: como é que dois políticos comprovadamente corruptos, como o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN)  e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) podem ser candidatos a presidir Câmara e Senado, com irrestrito apoio do PT e do governo Lula Rousseff?

Dilma e a burguesia


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff parece convencida de que tem de mudar sua maneira de tratar os empresários e o mundo dos negócios.

Nos dois últimos dias chamou para uma conversa alguns dos empresários mais ativos para deles saber o que falta para que voltem a investir.

Essa iniciativa vem num momento em que se espraia pelo mundo (e não só pelo Brasil) a percepção de que o governo Dilma não disfarça atitudes "antibusiness". As críticas manifestadas pelo mais importante semanário de Economia e Política, a revista inglesa The Economist, são desdobramentos dessa imagem ou, se não isso, das contradições com que vem tratando o mundo dos negócios.

O governo Lula chegara à conclusão de que não poderia só cultivar relações com sindicatos, trabalhadores e povão - afinal, suas raízes. Talvez inspirado no modelo corporativista do presidente Getúlio Vargas, formado por sindicatos dos trabalhadores de um lado e por sindicatos patronais de outro (cujas versões políticas foram o PTB e o antigo PSD), Lula entendeu que tinha, também, de dar acolhimento especial para a chamada burguesia empresarial. Para vice-presidente, escolheu um empresário de sucesso, o Zé Alencar. Para passar a impressão de que o homem de negócios participaria do governo, criou um superteatro, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.

Embora tenha herdado muita coisa da administração Lula, a presidente Dilma parece ter concepção própria do mundo dos negócios. Parece entender que tanto as empresas públicas como as do setor privado têm de fazer o jogo do governo, fortemente intervencionista.

É simplista e equivocado dizer que o governo Dilma seja ou estatizante ou antiprivatizante. Ela tanto reforçou como prejudicou o setor estatal, como também reforçou e prejudicou grandes segmentos do setor privado.

Reforçou o setor estatal na medida em que injetou recursos do Tesouro, aumentou ou manteve alguns dos seus privilégios. E tudo fez para preservar elefantes oficiais - como a Infraero e bancos públicos. Mas também sangrou e vem sangrando empresas estatais - Petrobrás, Eletrobrás e os próprios bancos oficiais -, por deliberadamente sacrificar seu caixa e seu Ebitda, com o intuito de garantir determinadas prioridades de sua política.

Dualidade equivalente vem sendo reservada ao setor privado. De um lado, favoreceu-o com a derrubada dos juros, com a desvalorização do real, com providências destinadas a reduzir as tarifas de energia elétrica, com a redução (ou isenção) do IPI sobre bens de consumo durável, com a desoneração dos encargos trabalhistas e com a criação de reservas de mercado para os fornecedores da Petrobrás e para a indústria de veículos.

De outro, também prejudicou o setor privado, como o do etanol, as empreiteiras, as concessionárias de energia elétrica, as empresas de comunicação e os bancos. O governo Dilma mudou, sem consulta ou negociação prévia, importantes regras do jogo.

Agora, por exemplo, encoraja a Receita Federal a despachar multas multimilionárias a grandes empresas, escorada em legislação tributária intencionalmente confusa e ambígua.

O resultado líquido desses procedimentos é certa erosão de confiança. Mesmo quando não atingido por esses repentes de vontade política, o empresário sente que há uma espada de Dâmocles oscilando ameaçadoramente sobre a sua cabeça. Sempre teme que a política que atropela regras de jogo e que corrói o caixa das estatais acabe derrubando seus negócios. Por isso, prefere manter o breque de mão puxado, não se empenha em modernizar sua empresa e até ri desenxabido quando a presidente Dilma faz apelos insistentes para que, afinal, libere seu espírito animal.

O gigante pela própria natureza está precisando de um choque de capitalismo e de uma mudança radical na maneira como o governo está encarando o mundo dos negócios - tanto os do setor público como os do privado. Embora a presidente Dilma já tenha ultrapassado a metade do seu atual mandato, não é tarde demais para isso.