quarta-feira, janeiro 16, 2013

Economia travada


Adelson Elias Vasconcellos

O ano de 2012 ainda não tinha se apagado e as previsões tanto de crescimento do PIB quanto da alta de preços para 2013, sofriam sua primeira revisão. O PIB para baixo, e a inflação para cima, seguiam, assim, o mesmo roteiro do ano inteiro. A expectativa de todo o país é quando esta lógica se inverterá, ou seja, quando o PIB terá perspectiva de alta, e os preços, de baixa. 

Semana passada, veio a segunda revisão. Hoje, antes do fechamento da primeira quinzena de janeiro, e eis nova revisão: crescimento menor, inflação mais alta. 

Quanto mais o tempo passa, mais o pibão da Dilma se torna um sonho distante, uma quimera a se perder na curva do desenvolvimento. Aproximando-se este crescimento agora da margem de 3,0% ao que parece, o governo federal não conseguiu traçar um diagnóstico preciso do que é preciso fazer para  reverter as tendências. 

Preocupa, sobremodo, a insistência do governo Dilma em abandonar o centro da meta de inflação. Em tempos de crescimento baixo, inflação persistentemente em alta é um mau negócio. Quem perde mais é a camada mais pobre da população que agora se vê menos protegida ainda: de um lado, o IRF sobre os salários será ainda maior, o seguro desemprego alterou seu critério de revisão e subiu menos, as aposentadorias do setor privado continuam sendo comprimidas ano após ano, e a correção do salário mínimo já não repõe a inflação pelo aumento da carga tributária. Ou seja: mais e mais os trabalhadores de menor renda se tornam bolsa-dependentes do Estado. Não há cidadania que suporte tamanho grau de escravização.

A entrevista que publicamos nesta edição, concedida à Revista Infovias pelo antropólogo Edward Luz, em que ele denuncia que as ONGs internacionais, que se dizem defensoras de questões indígenas e ambientais, freiam por mais de três décadas o crescimento do Brasil, aponta para um dos nossos grandes gargalos. Defender o meio ambiente não é desculpa para uma licença demandar mais de 8 anos para ser liberada, como tem sido costume neste lado dos trópicos. Isto não é proteção, é omissão, é incompetência, até se poderia afirmar, é sabotagem. 

Há também um breve apanhado de outra entrevista, desta vez concedida à Folha de São Paulo, pelo economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES no primeiro mandato de Lula.  
De tudo o que diz, há uma questão central que serve para colocar em cheque, para que lado se pretende conduzir o Brasil (se é que exista algum!).  Lessa é categórico quando afirma: 
“...Vejo a Petrobras vendendo refinarias no exterior, dizendo que está perdendo dinheiro com gasolina, com gás de cozinha. Isso faz os empresários brasileiros duvidarem de que a Petrobras tocará para a frente o seu programa. Aí, se a Petrobras não vai, serei eu, dono da lanchonete da esquina, que vou apostar no crescimento brasileiro?...”. 
Pois é...
O economista que foi professor de Economia brasileira de Dona Dilma, fala com imenso respeito sobre sua ex-aluna, mas não se furta em dizer que, apesar da boas ideias, falta à presidente a coragem necessária para colocá-las em prática. Na verdade, a meu ver, falta à presidente duas coisas fundamentais, e nenhuma tem alguma coisa a ver com “falta de coragem” como se viu por sua recente queda de braço na questão das renovações das concessões elétricas. De um lado, falta ideologia atualizada à Dilma. Está  amarrada a um nacionalismo caquético, ultrapassado, que foi testado e implementado por Ernesto Geisel e que levou o Brasil a mais de um quarto de século de atraso e estagnação. Sua opção deveria ser pelo desenvolvimento sim, mas sustentado por equilíbrio fiscal,  priorizando investimentos ao invés de alargar a gastança estúpida que o aparelhamento do Estado sempre provoca em qualquer economia. 

O segundo aspecto é que Dilma, mesmo que não diga e não aparente, está sim atada a agenda de poder do petismo, e isto faz uma enorme diferença prejudicial  a gestão pública, colocando e erguendo barreiras ao capital privado sem o qual o crescimento não se realiza. 

Assim, amarrada a uma cartilha defasada de desenvolvimento, e engessada por projeto de poder em detrimento do projeto de país, o resultado é triste e  não poderia ser melhor do que o que estamos assistindo. 

Mais do que nunca vai ficando claro que o Brasil continua amarrado à reação da economia mundial. Se ela for positiva, o país anda bem. Se for recessiva, o Brasil não sai do lugar. É possível andar de forma mais autônoma? Claro que há, e exemplos temos aqui bem perto de nós, Peru, Colômbia, Chile crescem quatro vezes mais do que o Brasil. Claro que a crise que aflige a União Europeia e da qual os Estados Unidos tentam se livrar, cria percalços e dificuldades. Mas isto não impediria o Brasil de fazer mais e melhor do que tem feito. Para quem acompanha o blog, lembrará que faz tempo que alertamos para o fato de que estamos perdendo o trem da história, deixando de aproveitar o imenso volume de recursos que circula o mundo em busca de oportunidades para se realizar. E, no entanto, continuamos tratando mal quem só nos pode fazer bem.

Em sua coluna de hoje, no jornal O Globo, o jornalista Elio Gaspari afirma que o Brasil vai bem, obrigado. Só se for para ele e os políticos em geral, para os quais não há crises.  Por exemplo, senhor Gaspari: aponte-nos um único serviço público a cargo do atual governo que tenha evoluído consistentemente neste últimos dez anos? Na economia, o país atravessou esta primeira metade do  mandato de dona Dilma com inflação em alta e crescimento em baixa. Investimentos, privados ou públicos, também vêm caindo.  No horizonte de curto prazo, as expectativas não são nada animadoras.  Que tal olhar para o mais de um milhão de empregos fechados na indústria nacional nos últimos 3 anos? Apesar dos pacotes, pacotinhos e assemelhados, o país está travado. Não anda. Não há projetos. O governo não consegue investir sequer metade do que está projetado em orçamento e, apesar disto, a dívida pública saltou impressionantes 600 bilhões nos últimos dois anos.  A menos que o senhor Gaspari tenha mudado de profissão, e se tornado sem que saibamos mais um político abençoado pelo Tesouro Nacional, o Brasil que ele vê não é o mesmo Brasil em que o brasileiros vive.  Quanto aqueles 50 milhões de trabalhadores formais  que Gaspari comemora, melhor faria o jornalista se consultasse as estatísticas do IBGE. A sua conta simplesmente não fecha...

Não há um indicador qualitativo em que o Brasil tenha se destacado. Nossa capacidade de competir no comércio mundial se deteriora ano e ano. Um quarto da população brasileira é cliente cativa de programas de distribuição de renda, quantidade sem perspectiva de reduzir-se, a demonstrar que o programa não se completa na emancipação de seus beneficiários. 

Um governo que se utiliza de artifícios contábeis para mascarar suas contas, que leva estatais como Petrobrás e Eletrobrás, por exemplo, a um estado de inanição financeira apenas para manipular a inflação que corre solta, não merece crédito, muito menos os efusivos aplausos com que se diverte Elio Gaspari em seu paraíso artificial...