quarta-feira, julho 11, 2012

Petrobras - O custo Lula


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Há menos de três anos, em 17 de setembro de 2009, o então presidente Lula apresentou-se triunfante em uma entrevista ao jornal “Valor Econômico”.

Entre outras coisas, contou, sem meias palavras, que a Petrobras não queria construir refinarias e ainda apresentara um plano pífio de investimentos em 2008.

“Convoquei o conselho” da empresa, contou Lula. Resultado: não uma, mas quatro refinarias no plano de investimentos, além de previsões fantásticas para a produção de óleo.

Em 25 de junho último, a Petrobras informa oficialmente aos investidores que, das quatro, apenas uma refinaria, Abreu e Lima, de Pernambuco, continua no plano com data para terminar. E, ainda assim, com atraso, aumento de custo e sem o dinheiro e óleo da PDVSA de Chávez.

Todas as metas de produção foram reduzidas. As anteriores eras “irrealistas”, disse a presidente da companhia, Graça Foster, acrescentando que faria uma revisão de processos e métodos. Entre outros equívocos, revelou que equipamentos eram comprados antes de os projetos estarem prontos e aprovados.

Nada se disse ainda sobre os custos disso tudo para a Petrobras. Graça Foster informou que a refinaria de Pernambuco começará a funcionar em novembro de 2014, com 14 meses de atraso em relação à meta anterior, e custará US$ 17 bilhões, três bi a mais. Na verdade, as metas agora revistas já haviam sido alteradas. O equívoco é muito maior.

Quando anunciada por Lula, a refinaria custaria US$ 4 bilhões e ficaria pronta antes de 2010. Como uma empresa como a Petrobras pode cometer um erro de planejamento desse tamanho? A resposta é simples: a estatal não tinha projeto algum para isso, Lula decidiu, mandou fazer e a diretoria da estatal improvisou umas plantas. Anunciaram e os presidentes fizeram várias inaugurações.

O nome disso é populismo. E custo Lula. Sim, porque o resultado é um prejuízo para os acionistas da Petrobras, do governo e do setor privado, de responsabilidade do ex-presidente e da diretoria que topou a montagem.

Tem mais na conta. Na mesma entrevista, Lula disse que mandou o Banco do Brasil comprar o Votorantim, porque este tinha uma boa carteira de financiamento de carros usados e era preciso incentivar esse setor.

O BB comprou, salvou o Votorantim e engoliu prejuízo de mais de bilhão de reais, pois a inadimplência ultrapassou todos os padrões. Ou seja, um péssimo negócio, conforme muita gente alertava. Mas como o próprio Lula explicou: “Quando fui comprar 50% do Votorantim, tive que me lixar para a especulação.”

Quem escapou de prejuízo maior foi a Vale. Na mesma entrevista, Lula confirmou que estava, digamos, convencendo a Vale a investir em siderúrgicas e fábricas de latas de alumínio.

Quando os jornalistas comentam que a empresa talvez não topasse esses investimentos por causa do custo, Lula argumentou que a empresa privada tem seu primeiro compromisso com o nacionalismo.

A Vale topou muita coisa vinda de Lula, inclusive a troca do presidente da companhia, mas se tivesse feito as siderúrgicas estaria quebrada ou perto disso. Idem para o alumínio, cuja produção exige muita energia elétrica, que continua a mais cara do mundo.

Ou seja, não era momento, nem havia condições de fazer refinarias e siderúrgicas. Os técnicos estavam certos. Lula estava errado. As empresas privadas foram se virando, mas as estatais se curvaram.

Ressalva: o BNDES, apesar das pressões de Brasília, não emprestou dinheiro para a PDVSA colocar na refinaria de Pernambuco. Ponto para seu corpo técnico.

Quantos outros projetos e metas do governo Lula são equivocados? As obras de transposição do Rio São Francisco estão igualmente atrasadas e muito mais caras. O projeto do trem-bala começou custando R$ 10 bilhões e já passa dos 35 bi.

Assim como se fez a revisão dos planos da Petrobras, é urgente uma análise de todas as demais grandes obras. Mas há um outro ponto, político. A presidente Dilma estava no governo Lula, em posições de mando na área da Petrobras. Graça Foster era diretora da estatal. Não é possível imaginar que Graça Foster tenha feito essa incrível autocrítica sem autorização de Dilma.

Ora, será que as duas só tomaram consciência dos problemas agora? Ou sabiam perfeitamente dos erros então cometidos, mas tiveram que calar diante da força e do autoritarismo de Lula? De todo modo, o custo Lula está aparecendo mais cedo do que se imaginava. Inclusive na política.

Em busca do planejamento perdido


Raul Velloso  
O Estado de S.Paulo

Para quem atuou no governo antes dos anos 90, era fácil perceber que não existia mais planejamento de longo prazo no Brasil. Quase 100% das energias eram concentradas no equacionamento do problema central, a inflação crônica e ascendente, e seus desdobramentos nocivos. A sensação era de que o curto prazo era péssimo, mas uma hora as atenções se voltariam para o futuro, em que o Brasil sempre foi visto com muito otimismo. Não éramos o "país do futuro"?

Só que, mesmo tendo comemorado os 18 anos de vida do bem-sucedido Plano Real, o País parece ainda voltado basicamente para o curto prazo. Ou seja, falta planejamento estratégico de longo prazo, algo que é trivial para a maioria das empresas. Falo de algo bem simples: metas macroeconômicas básicas, diagnóstico dos principais problemas e delineamento de caminhos para chegar lá.

Em parte isso pode ser explicado pelas crises recentes. É difícil falar de longo prazo quando estouram crises da magnitude das crises americana e europeia. Mas o fato é que, no geral, os dirigentes políticos tendem a pensar principalmente na sua manutenção no poder, o que encurta fortemente o horizonte de tempo de suas análises, como se não fosse fundamental ter um roteiro básico de prazo mais longo para ir orientando os passos do País em suas ações diárias, anticrise ou não. Bom, esse roteiro pode até existir na cabeça de alguns, mas os sinais emitidos sobre o seu conteúdo são sempre muito fracos.

Seguem dois exemplos para ilustrar o significado da falta de planejamento de longo prazo.

Primeiro, a questão da poupança pública. Os dados sobre a decomposição da poupança interna do País são complicados de analisar, mas há pouca dúvida de que a tendência da taxa de poupança pública seja descendente nas últimas décadas, e talvez tenha sido mesmo negativa em vários anos mais recentes no âmbito federal. Isso explica a queda dos investimentos públicos e uma série de mazelas que a falta destes e a não substituição por um mínimo de inversões privadas têm causado. Como a carga tributária tem subido velozmente no mesmo período - o que é péssimo, por vários motivos conhecidos -, isso significa que os gastos correntes, não importa os seus eventuais efeitos favoráveis, têm crescido demasiadamente.

Como nenhum sinal na direção contrária tem sido emitido, é provável, tudo o mais mantido inalterado, que a poupança pública continue caindo à frente, e com ela os investimentos públicos e a capacidade de produção da economia, ou seja, o crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB). Com efeito, em estudo recente, elaborado com parceiros, ficou evidente que a tendência futura de queda da poupança pública federal é explosiva. Basta que se mantenham: 1) a atual regra de reajuste do salário mínimo, que prevê a correção anual pelo crescimento nominal do PIB; 2) mesmo apenas uma parte da intensidade dos reajustes salariais e do crescimento das contratações governamentais dos últimos anos; e 3) os demais parâmetros em vigor na área de assistência social. Além disso, que os fatores demográficos prossigam na direção de transformar o Brasil num país de idosos daqui a algumas décadas, numa velocidade bem maior do que ocorreu nos países mais desenvolvidos.

Nesses termos, era preciso que o País formulasse um roteiro bem elaborado, mesmo que não fosse para corrigir a poupança pública negativa de hoje, mas ao menos para impedir que a situação continue a se deteriorar nos próximos anos. Mostrar à sociedade os problemas que ocorrerão ou se agravarão nos próximos anos - como os derivados do estado atual de terra arrasada na infraestrutura - pode ser um instrumento de defesa eficiente para conter as pressões por maiores gastos correntes cada vez mais presentes no dia a dia do Congresso Nacional.

A presidente está certa quando diz que não podemos brincar com o aumento de certo tipo de gasto num ambiente crítico como o atual. Mas faltou dizer que, com ou sem crise, é preciso cortar gastos correntes no setor público, para recolocar o País no trilho do maior crescimento sustentado. Alguém pode argumentar que é preciso o governo gastar mais quando a economia está cambaleando, como agora. A resposta é afirmativa, mas apenas em investimentos comprovadamente produtivos, e não em gastos correntes camuflados de investimento. Assim, reativa-se a economia e, ao mesmo tempo, amplia-se a capacidade de produzir.

Outro exemplo é a falta de uma discussão mais completa sobre as reais possibilidades de crescimento sustentado do País, tema central do planejamento estratégico global. Autoridades vibraram à época quando saiu o crescimento do PIB em 2010:7,5%. Lá fora, muitos pensaram que o Brasil estava chegando ao patamar chinês de crescimento: 10% ao ano. Agora, diante da perspectiva de o PIB crescer menos de 2%, baixou uma depressão geral. Ora, se olharmos os fatores objetivos, o Brasil não crescerá mais de 3,5% ao ano de forma sustentável, a não ser que muita coisa mude, uma delas a reversão da trajetória descendente de poupança pública acima mencionada. Mas isso já é assunto demais para um único artigo.

A pedido da Petrobras, gasolina terá mais álcool


Veja online
Com Agência Estado

Sem definir prazos, ministro Edison Lobão explica que a pasta aguarda um aumento da produção da safra de cana-de-açúcar para elevar a cota de álcool

(Antonio Scorza/AFP) 
Graça Foster, Presidente da Petrobras: 
estatal quer minimizar perdas com importação de gasolina 

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, revelou nesta segunda-feira que o governo aumentará "a qualquer momento" a cota de álcool anidro na gasolina de 20% para 25%. O assunto, segundo o ministro, está em análise pelo governo e ainda não há um prazo estabelecido para que a alteração seja feita.

A decisão do governo tem como artífice a própria Petrobras, que pretende conter as perdas financeiras com a importação de gasolina por meio do aumento no álcool na mistura do combustível. Este ano, de janeiro a abril, a estatal importou cerca de 80 mil barris por dia. A expectativa é de que o aumento do etanol na mistura reduza em cerca de 40% o volume de importação do produto. A mistura reduziria gastos da empresa estimados em 375 milhões de dólares com importação, segundo dados da Bloomberg.

O pedido da Petrobras foi enviado ao Ministério no final de junho e só agora a pasta se pronunciou publicamente sobre o tema. Lobão afirmou que o ministério aguarda um aumento da produção da safra de cana-de-açúcar para elevar a presença do anidro de volta aos 25%, como ocorria até outubro do ano passado.

Em outubro de 2011, o ministro Lobão reduziu o coeficiente de álcool afirmando que a medida era uma precaução contra a possibilidade de desabastecimento de etanol no mercado brasileiro, devido à queda da produção das usinas. 

Em evento no mês passado, logo depois que a estatal fez o pedido formal de aumento da cota ao ministério, o presidente da Petrobras Biocombustível, Miguel Rossetto, foi a público para defender a proposta. "Seria uma medida importante voltarmos ao patamar de 25% do anidro na gasolina. Seria positiva para o setor, pois ampliaria o mercado para o etanol. Há capacidade de assegurar esta oferta e, obviamente, ajudaria numa redução da importação de gasolina", afirmou o executivo.

Desde 2011, o etanol tem perdido a batalha com a gasolina - já que o abastecimento com o biocombustível perdeu a competitividade devido ao aumento do preço do açúcar no mercado internacional. A alta acabou estimulando o setor a desacelerar investimentos e produção de etanol. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), o etanol abastece atualmente 35% da frota nacional de veículos médios. Em 2009, essa proporção era de 54%.

O ministro, que participou da cerimônia de entrega do navio Sérgio Buarque de Holanda à Transpetro nesta segunda-feira, disse ainda que a 13ª rodada de licitação de blocos de petróleo continua sem data definida, à espera de uma decisão da presidente Dilma Rousseff.

A estagnação da Petrobrás


O Estado de S.Paulo

A incapacidade da Petrobrás de atingir as metas de extração de petróleo e gás fixadas por sua administração superior se tornou uma marca do modelo de gestão da empresa desde que o PT passou a controlá-la. De 2003, primeiro ano do governo Lula, até 2011, já no governo Dilma, em nenhum ano as metas foram alcançadas. Trata-se de incapacidade gerencial sistemática, que produz fracassos igualmente sistemáticos. Com a produção praticamente estagnada nos últimos três anos - período em que o PIB brasileiro cresceu mais de 10% -, a empresa está montando um plano de emergência para tentar recuperar sua eficiência.

O choque de realismo nos programas e nas metas da Petrobrás, anunciado por sua presidente Graça Foster, é uma boa indicação de que uma nova orientação está sendo imprimida à gestão da estatal. Mas será difícil e demorado remover o peso da herança deixada pelo governo Lula, que usou a empresa para alcançar objetivos políticos. Planos mirabolantes foram anunciados, mas quase nunca executados - e, quando isso ocorreu, os atrasos e os aumentos de custo foram muito grandes.

À lista de fracassos como o descumprimento das metas de extração, mostrado em reportagem do Estado (1/7), podem ser acrescentados vários outros. Anunciados para agradar a governadores e políticos das regiões que seriam beneficiadas, os planos de construção do complexo petroquímico do Rio (Comperj) e das refinarias do Maranhão, do Ceará e de Pernambuco renderam ao ex-presidente a oportunidade de lançar pedras fundamentais e aparecer como grande realizador de obras, mas nada renderam para a população.

Passados vários anos da exploração política da necessidade de ampliar a capacidade de refino da Petrobrás, pouca coisa avançou. As refinarias do Maranhão e do Ceará mal saíram do papel. A Comperj é um imenso canteiro de obras que não têm prazo de conclusão.

A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, foi anunciada como resultado da sociedade entre a Petrobrás e a venezuelana PDVSA, de acordo com os delírios terceiro-mundistas e bolivarianos do ex-presidente. Mas até agora o presuntivo sócio venezuelano não aplicou nenhum tostão nessa obra que está muito atrasada (deveria ter sido inaugurada em 2011, mas só ficará pronta em 2014) e que deveria custar US$ 4 bilhões, mas exigirá US$ 17 bilhões.

A Petrobrás perdeu eficiência e não ampliou sua produção nem sua capacidade de refino. Ela tem sido obrigada a importar cada vez mais combustíveis para abastecer o mercado doméstico. A reação imediata dos investidores diante do quadro real da empresa apresentado por sua presidente, no cargo há apenas cinco meses, não poderia ser outra senão a decepção e a desconfiança.

A estagnação de sua produção, que a está forçando a adotar um plano de emergência, é apenas uma das faces das múltiplas consequências da gestão imposta à empresa de 2003 até o início deste ano. Buscam-se explicações técnicas para a situação a que ela chegou. Atribuiu-se à queda da eficiência operacional na Bacia de Campos - a principal do País e responsável por até 85% do petróleo consumido internamente - o problema hoje enfrentado pela Petrobrás. Na semana passada, sua presidente se referiu a essa questão ao expor o Plano de Negócios da empresa para os próximos cinco anos. "É preciso que aumentemos urgentemente a eficiência operacional da Bacia de Campos", disse Graça Fortes.

A ação tornou-se urgente porque nada foi feito desde que surgiram os sinais de que a produção de óleo e gás de grandes áreas produtoras da Bacia de Campos, como o Campo de Marlim, vinha diminuindo, com o aumento da proporção de água no volume de hidrocarbonetos extraídos. Para enfrentar o problema, a empresa anunciou a adoção do Programa de Aumento de Eficiência Operacional (Proef), voltado especificamente para a Bacia de Campos.

Ao declínio da taxa de recuperação de óleo e gás, normal em campos maduros, é muito provável que tenha se somado a perda de eficiência - que agora, sob os olhos ainda desconfiados dos investidores, sua direção anuncia que pretende recuperar - decorrente do uso político da empresa.

Da gabolice a realidade


Paulo Brossard 
Zero Hora

O Instituto Brasileiro de Economia da FGV, prevê queda de 4,3% da produção industrial, a maior em 32 meses

No fim de maio, faz pouco mais de mês, a senhora presidente da República declarou que o Brasil estava preparadíssimo para enfrentar os efeitos da crise que se repetia na Europa; assoalhou que, se em 2008 o Brasil fora o último país a nela entrar, o primeiro a dela sair, agora estava em situação muito mais cômoda, 100%, 200%, 300% melhor; indo à Feira de Hannover, com uma parada no Porto para nutrir-se com memorável bacalhoada, que atrasou sua chegada à Alemanha, distribuiu conselhos aos governantes europeus.

No entanto, a desindustrialização de importante setor da indústria soou como severa advertência acerca da nossa situação. É claro que o inusitado dessa declaração, partindo de uma chefe do Estado e do governo não poderia causar-me boa impressão, a começar de sua gratuidade e da óbvia inconsequência. De mais a mais, jactar-se de uma superioridade sobre dados estranhos a seu domínio, soa como mera jactância. Outrossim, a assertiva segundo a qual os efeitos da crise estancavam nas fronteiras brasileiras não passavam de vã pretensão. Basta lembrar, v.g., que o fato da China suspender a importação do minério de ferro foi o suficiente para a queda do seu preço e uma queda vertical nas exportações brasileiras.

Mais ou menos coincidente com o fenômeno lúgubre da desindustrialização foi o crescimento do PIB no segundo trimestre, em apenas 0,2%,  comparado com o do último trimestre do ano passado.

Evidentemente, a proclamada inviolabilidade das nossas fronteiras lembrava a da Linha Maginot… e os fatos se encarregaram de demonstrar. O Banco Central, nada menos que o Banco Central, contestou frontalmente a versão presidencial.

Em audiência pública, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do Banco Central declarou que os sinais de desaceleração econômica “vêm de todos os lados”, isto porque “longe de uma solução, a crise externa fará com que os mercados financeiros operem voláteis e a economia global tenha ritmo fraco em um período de até dois anos” e, para quem ainda duvidasse, aditou que a economia global deveria seguir em ritmo aquém do previsto.

Suponho que ninguém atribuirá malquerença a essa alta autoridade que, em lugar público e perante uma comissão do Senado, fez as declarações ora reproduzidas, bem como ninguém pode deixar de dar-lhes natural importância.

Não ficou nisso. Além da advertência do presidente do Banco Central, o próprio Banco Central em exposição trimestral em que avalia as variações da economia nacional, corrigiu de 3,5% para 2,5% sua projeção para o crescimento do PIB em 2012. É de lembrar-se que quando se tornou conhecido o aumento do PIB no segundo trimestre de 2012, em apenas 0,2%, o ministro da Fazenda entrou a delirar, afiançando que seria tão grande o crescimento no terceiro trimestre que já estava a assegurar um crescimento esplêndido de todo o ano em curso!

Desde o fim do ano passado, o governo fez sete anúncios de pacotes na expectativa de reverter a desaceleração da economia interna. O último, no final de junho, foi recebido com ceticismo, diante de redução da produtividade da economia brasileira. O Instituto Brasileiro de Economia da FGV, prevê queda de 4,3% da produção industrial, a maior em 32 meses e a previsão de redução do PIB para 2%, analistas já admitem chegar a 1,7%.

Não me considero habilitado a opinar em matéria dessa delicadeza, mas me parece claro que a situação não se apresenta como tranquila.

Embaixador paraguaio na OEA: Brasil é 'como um elefante em loja de cristal'


Pablo Uchoa
Da BBC Brasil 

Embaixador paraguaio na OEA critica posição do governo brasileiro em meio à crise no Mercosul


A decisão da Secretaria Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) de não adotar retaliações contra o Paraguai pela deposição do ex-presidente Fernando Lugo, no dia 22 de junho, deixou um diplomata de sorriso no rosto: o representante paraguaio na entidade, Bernardino Hugo Saguier Caballero.

O resultado da missão da OEA ao país joga um balde de água fria na postura dos órgãos sul-americanos, o Mercosul e a Unasul, que suspenderam o Paraguai de seus quadros alegando "ruptura" política no país, sem que um representante de Assunção sequer estivesse presente à reunião onde a medida foi decidida.

Analistas especulam se o isolamento político do Paraguai do Mercosul poderia levar o país a procurar alternativas de integração – inclusive uma maior relação com os Estados Unidos, um dos países por trás da decisão da OEA de não adotar sanções.

Por ora, a avaliação dos analistas é que é difícil ver um futuro para o país longe de esquemas de integração com seus vizinhos. No entanto, em entrevista à BBC Brasil, o embaixador paraguaio disse que a decisão do bloco "feriu" o seu povo e amargou a relação do país com o Brasil.

Durante a sessão da OEA, Hugo Saguier se mostrou particularmente ofendido quando o representante brasileiro no órgão, Breno Dias da Costa, disse que o colega paraguaio estava ali "por generosidade" – indicando que fazia parte de um governo ilegítimo. Quando a OEA não seguiu a decisão do Mercosul, Hugo Saguier sentiu-se vingado.

"Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido dentro de uma loja de cristal: quando se movem, quebram tudo", disse o representante paraguaio à BBC Brasil.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – O sr. acha que as medidas do Mercosul podem afastar de vez o Paraguai do bloco?
Hugo Saguier – Nós não nos afastamos, eles é que nos afastaram. Nos afastaram sem nos dar o direito sequer de estar presente, violando a letra e o espírito -que é o mais importante- de todos os tratados do bloco.

BBC Brasil – Mas agora o Paraguai tem a opção de tentar se aproximar ou continuar se afastando do Mercosul.
Saguier – Nesse momento, o Paraguai iniciou uma ação nos Tribunais do Mercosul questionando as decisões, já que foram feitas sem a nossa presença. Por outro lado, o presidente Federico Franco manifestou que não iniciará nenhuma medida em seu governo para se separar do Mercosul, já que ele considera que em seu período, que é curto, não pode estar hipotecando uma decisão do futuro presidente. Me parece uma atitude séria e responsável. No entanto, há muitos setores da opinião pública paraguaia e setores políticos que se sentem muito incomodados com o Mercosul hoje em dia.

BBC Brasil – Ou seja, o Mercosul será um grande tema das eleições paraguaias.
Saguier – Sem dúvida nenhuma. Mercosul e Unasul serão temas centrais dentro dos programas internos dos partidos políticos e nas eleições nacionais. Será a primeira vez que temas internacionais serão mais importantes nas eleições que a agenda doméstica.

BBC Brasil – O sr. crê que o Mercosul chegou a um impasse ao fechar a porta com o Paraguai?
Saguier – Acho que sim. Acho que cometeram um erro, não mediram as consequências, e a prova está no profundo debate interno que se produziu no seu país.

BBC Brasil –O Brasil?
Saguier – Sim. Nós mesmos já não sabemos quem no Brasil é a favor ou é contra. O embaixador José Botafogo, que foi ministro da Integração, disse que é contra o procedimento do Mercosul. Eu tenho muitos colegas embaixadores brasileiros de quem recebi palavras de alento. Outros bloquearam o nosso número de telefone.

BBC Brasil – E como o sr. crê que sairemos desse impasse?
Saguier – Eu estou muito preocupado. A relação entre Brasil e Paraguai é um casamento forçado. Quando assinamos o Tratado de Itaipú, em 1973, um chanceler disse que os países haviam finalmente assinado um tratado de paz – cem anos depois da guerra. E assim fomos funcionando. Mas essa atitude prepotente, ilegal e irracional do Mercosul afetou e feriu o povo. O que tem o povo a ver com as decisões dos seus governantes? Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido dentro de uma loja de cristal: quando se movem, quebram tudo.

BBC Brasil – Mas o Brasil desde o princípio manifestou que não queria e não quer sanções de ordem econômica contra o Paraguai.
Saguier – Pergunte às cidades fronteiriças como está o comércio nesse momento. Não vou dizer, o sr. mesmo pergunte para ver se não houve consequências econômicas.

Secretário-geral da OEA é contra novas sanções ao Paraguai


Denise Chrispim Marin
O Estado de São Paulo 

José Miguel Insulza não acredita que essa seja a forma de fortalecer a democracia no país

WASHINGTON - A Organização dos Estados Americanos (OEA) não deve suspender ou impor outros tipos de sanções ao Paraguai, defendeu há pouco o secretário-geral da instituição, José Miguel Insulza. A posição foi expressa ao final da leitura do relatório final sobre sua investigação do episódio do impeachment do então presidente Fernando Lugo, durante sessão do Conselho Permanente da OEA.

Luis M. Alvarez/AP
Insulza é contra retaliações ao Paraguai

Conforme destacou Insulza, a adoção pela OEA de medidas similares às aplicadas pela Unasul e pelo Mercosul "não contribuiria para alcançar os nossos objetivos" de fortalecer a democracia do país. A Unasul condenou o processo de impeachment, e o Mercosul suspendeu o Paraguai de participar de suas reuniões.

"Não nos esqueçamos que existe uma situação de normalidade política, social e econômica (no Paraguai), que é conveniente preservar", afirmou Insulza. "A suspensão (do Paraguai) da OEA traria altas implicações econômicas para o país, dado o impacto direto da decisão em outras instituições do sistema interamericano e, de maneira indireta, em outros aspectos do sistema internacional e na vida econômica e financeira do país", completou. Entre essas implicações estaria a suspensão do acesso do Paraguai às linhas de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Insulza reconheceu ter havido "erros" no processo de impeachment. Em particular, no diminuto direito de defesa de Lugo. Mas ponderou também não ser apropriado para a OEA tomar qualquer decisão sobre o caso do Paraguai antes de a Suprema Corte de Justiça do país se pronunciar sobre o recurso de inconstitucionalidade do processo de impeachment, solicitado por Fernando Lugo na semana passada. O ex-presidente deverá ainda decidir se levará o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgao vinculado à OEA.

Os Estados Unidos, o Canadá, o México e o Brasil, entre outros, apoiaram a proposta de cautela na tomada de decisão pela OEA. Com visões distintas entre si sobre o episódio, esses países alegaram ser mais frutífero submeter o relatório de Insulza à avaliação dos governos dos países da organização. O secretário-geral também propôs a formação de uma missão para acompanhar o processo eleitoral no Paraguai ao longo dos próximos nove meses.

A Venezuela, favorável à punição do Paraguai pela OEA por ter desferido um "golpe de Estado parlamentar, desdenhou a missão organizada por Insulza ao Paraguai entre os dias 1 a 3 de julho, seu relatório final e a própria OEA. "Não há nenhuma novidade. Gastaram monte de dinheiro quando se poderia gastar menos de 100 dólares para comprar os jornais e um café", afirmou o embaixador venezuelano, Roy Chaderton. "A OEA é uma (organização) fria. É como sopa de cebola fria, sem a crosta de queijo derretido."

Expansão do ensino superior deve ser diferente


Antonio De Araujo Freitas Junior (*)
Ana Tereza Spinola (**)
Especial para a FOLHA

De 2002 a 2010 foram criadas 15 universidades federais. O modelo de universidades federais é caro e dispendioso. A expansão do ensino poderia ser realizada por meio de institutos superiores de tecnologia e por instituições de ensino superior privadas (com ociosidade superior a 50%), que poderiam responder com mais rapidez, eficiência e eficácia ao atendimento a jovens com bom desempenho no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

A "gestão democrática" nas universidades federais é confundida com eleições diretas para todos os cargos administrativos. "Gestão democrática" é a forma de operacionalização do poder da escola.

A forma de escolha dos gestores das universidades federais tem conduzido a uma distorção, com consequências imprevisíveis na qualidade do ensino. A meritocracia, que é a única opção real para a educação superior de qualidade, não é priorizada, predominando a política partidária e corporativa.

O tratamento dado às universidades federais é privilegiado. Elas já nascem como universidades, mesmo sem ter alunos, professores e pesquisa.

Não há nenhuma previsão de sanções àqueles administradores públicos responsáveis pelas deficiências ou má gestão encontradas na instituição sob sua responsabilidade. O Poder Executivo sempre fornecerá recursos adicionais para a superação das deficiências, mesmo que o problema seja a administração ineficiente e ineficaz do gestor público.

Os gestores de universidades (que são professores) têm capacidade para tocar licitações de obras? Esse é um falso problema, pois o que prevalece é o corporativismo e a certeza de que a "viúva" irá sempre comparecer, de forma complacente, para despejar, de forma ineficiente, o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho.

(*) Antonio de Araujo Freitas Junior é presidente do Conselho Latino Americano de Escolas de Administração
(**) Ana Tereza Spinola é professora universitária

Internet, leitura e reflexão


Carlos Alberto Di Franco 
O Estado de S.Paulo

Usemos a internet, mas tenhamos moderação. Ler é preciso. Jovens, e adultos, precisam investir em leitura e reflexão

Os adolescentes são fascinados pelas ferramentas da era digital. Eles não desgrudam do celular, vivem digitando mensagens de texto, passam horas escrevendo em blogs, navegando na web ou absortos nos videogames. Mas a dependência da internet não é exclusiva dos adolescentes. Todos nós, jovens e menos jovens, sucumbimos aos apelos do mundo virtual. Eu mesmo já fiz o propósito de não acessar meus e-mails nos fins de semana. Tem sido uma luta. Com vitórias, mas também com derrotas. Para o norte-americano Nicholas Carr, formado em Harvard e autor de livros de tecnologia e administração, a dependência da troca de informações pela internet está empobrecendo nossa cultura.

Segundo Carr, o uso exagerado da internet está reduzindo nossa capacidade de pensar com profundidade: “Você fica pulando de um site para o outro. Recebe várias mensagens ao mesmo tempo. É chamado pelo Twitter, pelo Facebook ou pelo Messenger. Isso desenvolve um novo tipo de intelecto, mais adaptado a lidar com as múltiplas funções simultâneas, mas que está perdendo a capacidade de se concentrar, ler atentamente ou pensar com profundidade”.

A nova geração de adolescentes tem mais acesso à informação do que qualquer outra antes dela. Mas isso não se reflete num ganho cultural. Os índices de leitura e de compreensão de texto vêm caindo desde o início dos anos 1990. A conclusão é de que, apesar do maior acesso às novas tecnologias, não se vê um ganho expressivo em termos de apreensão de conhecimento.

A internet é uma magnífica ferramenta. Mas não deve perder o seu caráter instrumental. O excesso de internet termina em compulsão, um tipo de dependência que já começa a preocupar os especialistas em saúde mental. Usemos a internet, mas tenhamos moderação. Ler é preciso. Jovens, e adultos, precisam investir em leitura e reflexão. Só assim, com discernimento e liberdade, se capacitam para conduzir a aventura da própria vida.

Compartilho com você, amigo leitor, algumas obras. Espero, quem sabe, que o estimulem nas férias deste mês de julho.

Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia (Editora Companhia das Letras) é o registro rigoroso de um duro período da nossa História. A partir de um perfil biográfico do lendário coronel do Exército Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió, e da história da guerrilha e de seu extermínio – com base em documentos inéditos e depoimentos de vítimas, testemunhas e protagonistas da repressão militar -, o jornalista Leonencio Nossa, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, lança um poderoso facho de luz numa quadra que pretendia permanecer na sombra. A seriedade na apuração e o texto jornalístico, saboroso e leve, dão ao livro o status de referência obrigatória.

What Were They Thinking? (Harvard Business School Press) é o título de um livro de Jeffrey Pfeffer, professor de Stanford e um dos mais renomados gurus da administração na atualidade. No capítulo 3 ele comenta a grata impressão que lhe causou a experiência que teve como professor visitante no Iese de Barcelona, a escola de negócios da Universidade de Navarra (Espanha).

“Bem na época em que saía a versão para o cinema de O Código Da Vinci”, diz Pfeffer, “eu passava umas semanas na Iese Business School, escola de negócios espanhola que figura entre as líderes do mundo. O que eu encontrei lá não foi nem cilícios, nem cadáveres, nem monges albinos: foi great management. Uma escola de grande sucesso. Eu me perguntava o que é que estaria por trás desse sucesso. Descobri que havia pessoas brilhantes, bem preparadas, que poderiam ter condições econômicas mais rentáveis em outros lugares, mas havia algo que as atraía e as mantinha lá: esse algo é caring culture (cultura de atenção, cuidados, serviço às pessoas). Como eu mesmo experimentei. Minha esposa contraiu uma forte dor de ouvido por ter tido de pegar um voo resfriada. O diretor-geral do Iese, Jordi Canals, não teve dúvida: providenciou primeiro uma consulta com um clínico-geral, depois com um famoso especialista em ouvido, destacou uma funcionária de fala inglesa para acompanhar minha esposa, serviço de táxi, pagou tudo e não nos fez nenhuma pergunta. Isso era algo que não estava previsto no contrato de minha estadia no Iese e simplesmente conquistou nossa eterna gratidão. Para Canals, era algo que fazia parte da missão de serviço aos membros da instituição, mesmo que fossem membros temporários, como era o nosso caso”. O livro, carregado de experiências, suscita inúmeras reflexões.

A Igreja das Revoluções (Editora Quadrante, São Paulo) é o último título da História da Igreja de Cristo, a monumental obra de Daniel-Rops. O autor, membro da Academia Francesa de Letras, estava trabalhando no 11.º, que trataria do Concílio Vaticano II, quando faleceu, em 1965. Emérico da Gama, um editor apaixonado pelo ofício e autêntico artesão das letras, caprichou na qualidade da edição. A multissecular História da Igreja, intimamente relacionada com a História da civilização, é um banho de cultura e um magnífico prazer intelectual.

Los Contenidos de los Medios de Comunicación – Calidad, Rentabilidad y Competencia (Deusto, Barcelona) trata-se de interessante livro do professor Alfonso Sánchez-Tabernero, especialista em empresa informativa e vice-reitor da Universidade de Navarra. A quem acredita que o sucesso das empresas de comunicação depende de sua capacidade de dar ao público o que ele quer (ou imagina que quer) Tabernero propõe uma reflexão: quem só vai atrás de supostas demandas do mercado pode conseguir sucesso imediato, mas corre o risco de perder prestígio a longo prazo. Um belo mapeamento do negócio informativo.

A todos, boa leitura, e aos que viajam, boas férias!

Plano de voo


Miriam Leitão 
O Globo

A crise internacional não terá solução rápida. Nenhum dos caminhos para o fim da crise, que o mercado comemora de vez em quando, é de execução simples ou de curto prazo. Os Estados Unidos têm mostrado menos dinamismo do que era de se esperar de sua economia nestes cinco anos em que tenta superar a crise. A China tem dado sinais de desaceleração. É com esse pano de fundo que tem que se pensar a estratégia para o Brasil.

A Europa vai demorar alguns anos para sair dessa crise. A alta das bolsas depois da última reunião foi provocada pela decisão de trabalhar pela união bancária e permitir o resgate dos bancos sem passar por endividamento dos Estados nacionais. A primeira decisão levará anos para ser concretizada. A segunda é um escapismo.

Que chance existe de que os bancos espanhóis sejam resgatados com dinheiro coletivo — na maior parte alemão — dos fundos de estabilização, sem que isso aumente a dívida do Estado espanhol? Acreditar nisso é apostar em cirurgia sem anestesia e sem dor. Ou em Papai Noel.

A maioria dos bancos espanhóis precisa ser capitalizada e isso vai significar aumento da dívida e aprofundamento dos seus compromissos fiscais. A economia espanhola não cresce, os ativos das famílias perdem valor com a queda do preço dos imóveis, e o mercado de trabalho não cria empregos, principalmente para os jovens.

Na Itália, o problema bancário é menor, o desemprego é mais baixo, mas a dívida federal é muito maior como proporção do PIB.

A chanceler Angela Merkel tem sido contestada em sua própria coalizão. Como todos viram, recentemente, o governador da Bavária, Horst Seehofer, líder do CSU (Partido Social Cristão) fez fortes e públicas críticas a ela. E com o argumento oposto ao usado contra ela nos outros países da Zona do Euro.

O governador considera que ela é condescendente demais. “Que sentido faz o parlamento alemão ficar discutindo como aplicar o pacto fiscal europeu, se no mesmo dia Merkel está concordando em flexibilizar esse pacto fiscal para outros países?”.

O CSU é aliado do CDU (Partido Democrata Cristão), de Merkel. A crítica exibiu a rachadura na coalizão que governa a Alemanha.

A união bancária significa a construção de um edifício regulatório complexo que exigirá tempo, negociação, aprovação nos parlamentos, criação de seguro de depósitos conjuntos. Nenhuma etapa é simples.

No entanto, as bolsas subiram no mundo inteiro após a última reunião de cúpula da Zona do Euro, quando os líderes anunciaram um acordo no sentido de haver mais integração da Europa, tendo como primeiro passo a união bancária.

Foi, de fato, um alívio, já que a alternativa de menos Europa tem desdobramentos imprevisíveis, mas não existe qualquer solução de curto prazo para a Zona do Euro.

A China tem crescido a taxas altas há décadas. O único ano em que não cresceu foi em 1989 e, em consequência, enfrentou uma explosão de insatisfação social que foi calada pela força dos tanques sobre estudantes na Praça da Paz Celestial.

Seu regime totalitário é incompatível com os projetos de potência. Mas ficando no curto prazo, a China tem dado sinais sucessivos de que está tendo dificuldades de manter seu ritmo de crescimento. A queda da inflação anunciada ontem, para inesperados 2,2%, abre espaço para estímulo monetário, mas anuncia também que o país está desacelerando.

O Brasil tem na China seu principal mercado. Foi o boom chinês que sustentou parte do crescimento brasileiro dos últimos anos, produziu o salto dos preços das commodities, elevou a Vale ao grupo das maiores empresas brasileiras em valor de mercado.

No ambiente de crise que se espalhou no mundo, é até melhor depender da China do que dos outros centros mundiais.

Mas bom mesmo é ter uma estrutura de comércio diversificada e não depender apenas de matérias-primas. O Brasil não sabe vender; ele é comprado. Tem uma atitude pouco agressiva no comércio internacional, depende de que o cliente procure seus produtos.

Essa é uma das mudanças a serem feitas. A outra é olhar o mercado interno com mais sabedoria e senso de construção de mudanças estruturais. Dezoito anos depois do Plano Real, o Brasil ainda não tem o projeto para o salto seguinte. Parece, inclusive, em pleno retrocesso.

Discutir o fim do fator previdenciário sem ter uma reforma da previdência é uma insensatez. É preciso lidar com o fato incontornável de que a população está ficando mais velha e a previdência já tem um enorme déficit.

Maior investimento em educação é também inevitável. Não basta elevar o percentual do PIB de gastos dirigidos, é preciso saber o que se quer fazer com o dinheiro a mais dedicado à educação. É preciso ter um plano de melhoria da qualidade.

Os exemplos dados aqui neste jornal, de sucesso de escolas públicas em áreas de baixa renda, mostram que em todas elas houve, na prática, um aumento da carga horária.

A lista das reformas não acaba aqui. Há muito o que fazer. E é completamente insano achar que para sustentar o crescimento basta empurrar as famílias para mais endividamento.

O sinal de alarme para a indústria: aviso ao governo


O Estado de S.Paulo

O Relatório de Mercado (Focus), na sua última edição, reduz mais ainda sua projeção de avanço da produção industrial, que cai de 0,39%, na semana anterior, para 0,10%. Até agora, só os setores que têm redução do IPI mantêm alguma atividade que, na perspectiva de retorno do IPI à taxa normal, não vai além do objetivo de substituir estoques que continuam baixos.

A Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário do mês de maio, que o IBGE acaba de divulgar, já dava um alerta sobre o desempenho do setor manufatureiro. Em relação ao mês anterior, registrou recuo de 0,3% do pessoal ocupado, de 0,6% do número de horas trabalhadas e de 2,5% da folha de pagamentos real. Esses dados já mostravam que a situação se agravava no setor que até agora se apresentava como instrumento de distribuição de renda por meio da folha de pagamentos e, até então, exibia uma produtividade capaz de justificar a elevação dos salários.

A manutenção do número de trabalhadores empregados parecia se explicar pela vontade das empresas em preservar pelo menos os operários mais especializados, numa economia em que se faziam muito escassos. Agora o quadro mudou totalmente e se pode temer uma volta do desemprego no setor industrial, e apesar dos incentivos oferecidos a alguns setores da indústria, não se verifica nenhum investimento para aumentar a produção, o consumo parece ser atendido pela importação e não se observam, no setor manufatureiro, ações decisivas no sentido de reduzir o custo da produção para oferecer preços mais atrativos.

O setor, levando em conta o nível de endividamento da população, prefere, ao contrário, reduzir a produção. Nessa situação, caberia ao governo se convencer de que um aumento da demanda só pode ter origem em investimentos que representem suplemento de distribuição de salários e demanda nova de bens e serviços que poderão dar um impulso e convencer o setor industrial a sair da sua atual letargia.

A falta de ação do governo - que tem verbas para isso - parece explicável pelo receio de iniciar projetos que se acha incapaz de administrar e de manter no orçamento o prazo inicialmente previsto. Receio também de enfrentar uma burocracia que parece trabalhar para impedir que os projetos de investimentos prosperem. Enquanto continuarem de pé todos esses obstáculos, a economia funcionará apenas esporadicamente, nos momentos em que o governo ofereça incentivos fiscais que reduzem suas receitas.

Endividado, brasileiro corta gastos e começa a olhar taxa de juro


Valor Econômico


Após o boom na oferta de crédito nos últimos anos, os consumidores brasileiros agora querem economizar. Uma pesquisa realizada pelo Boston Consulting Group (BCG) em abril, com 1.440 pessoas no país, mostra que, por conta do alto endividamento, já está havendo uma diminuição no consumo e que 56% pretendem reduzir ainda mais seus gastos. Em São Paulo, 20% dos entrevistados informaram que 50% de sua renda já está sendo usada para pagamento de dívidas atreladas a cartão de crédito, cheques pré-datados e empréstimos.

O brasileiro tem dívidas para pagar compras de sapatos/roupas, carros, celulares/tablets, eletrodomésticos e produtos eletrônicos (ver tabela ao lado). A pesquisa da BCG foi feita pela internet com consumidores de todo o país, com renda mensal na casa dos R$ 1,1 mil e de diferentes faixas etárias.

Os entrevistados, segundo o levantamento, já estão reduzindo seu consumo em itens como água engarrafada, produtos lácteos, creme para o rosto, destilados, café e chá, entre outros. No segmento de duráveis foram citados, por exemplo, sapatos, calçados, carros e joias. Em prestação de serviços, houve uma redução de gastos com serviços de internet, telefone fixo, celular/tablet, imóveis e entretenimento.

O atual cenário econômico também está provocando modificações de outra ordem. Conhecido por parcelar as compras conforme o valor da prestação que cabe no bolso, o consumidor começa a prestar atenção na taxa de juros: 30% dos entrevistados querem pagar a vista suas compras para não ter que arcar com os juros.

Uma outra mudança que chama atenção é que agora a principal justificativa do brasileiro para uma aquisição não é mais "porque eu mereço" e sim porque o produto adquirido proporciona melhores resultados. "Hoje, a compra é mais técnica e não tão emocional como antes. Pela primeira vez nas pesquisas no Brasil, a principal justificativa para uma compra é a qualidade ou o que dá mais resultados", explica Olavo Cunha, sócio da consultoria Boston Consulting Group no Brasil. "Essa mudança súbita é por causa do endividamento. Há uma preocupação maior com a qualidade dos gastos", complementou Cunha.

Segundo o executivo, essa alteração no consumo também é um indicativo de maturidade no consumo. Nos Estados Unidos, Japão e países europeu, apenas 21% a 24% dos entrevistados justificam suas compras como "porque eu mereço". Já no Brasil, Rússia, Índia e China esse percentual varia de 40% a 56%.

Nesse novo cenário, o consumidor está fazendo mais pesquisa e a principal ferramenta tem sido a internet. Dos 1.440 entrevistados, 84% responderam que pesquisam preços na web, 83% levam mais tempo fazendo compras, 81% negociam mais o preço ou compram menos roupa de marca. O levantamento do BCG mostra, por exemplo, que 44% dos entrevistados buscam na web informações sobre computadores, tablets e notebooks; 41% comparam preços; 29% adquirem esses equipamentos e 5% postam informações sobre sua aquisição em redes sociais.

A pesquisa mostra também em quais categorias os consumidores estão migrando para produtos mais caros ou mais baratos (movimentos classificados como "trading up" e "trading down"). Há, por exemplo, uma maior demanda por frutas e vegetais frescos em detrimento de comidas congeladas e industrializadas. "É uma demonstração de que o consumidor busca por mais qualidade", diz o sócio do BCG. Outra demanda é o investimento no lar, com decoração e equipamentos para uma melhor qualidade de vida. Ambas as demandas já eram apontadas na pesquisa do ano passado.

O levantamento feito no Brasil faz parte de um pesquisa mais ampla feita pela Boston Consulting Group. Foram ouvidos 15 mil consumidores, em 16 países.

A maioria dos consumidores americanos e europeus afirmou que se sente insegura e ainda mais pessimista quanto à recuperação econômica. Em média, uma em cada quarto pessoas nos Estados Unidos e na Europa está preocupada com a possibilidade de perder o emprego e poucos acreditam que seus filhos terão uma vida melhor.

Já na China, o sentimento é o oposto. Os consumidores chineses e brasileiros lideram a lista dos mais otimistas quanto ao futuro econômico. O trabalho, batizado de Pesquisas sobre o sentimento do consumidor, está em sua 11ª edição.

Alerta: déficit comercial do Amazonas vai a US$ 6 bi


247

Cai volume de produtos manufaturados na região vendidos no exterior; resultado de junho é o terceiro pior do ano, com quase US$ 1 bi de diferença entre importações e exportações

Foto: Divulgação 

A questão é histórica, mas tem de ser enfrentada em benefício da economia do Amazonas. Acostumada a ter déficits comercial, em razão de importar mais insumos do que exporta produtos manufaturados, a região vive um momento particularmente agudo em relação à diferença entre compras e vendas. Desde o início do ano o déficit já chega a US$ 6 bilhões, com o resultado de junho (- US$ 998 milhões) tornando-se o terceiro pior do ano. Um quadro que já preocupa autoridades e entidades de classe.

Abaixo, reportagem publicada no site do jornal A Crítica a respeito do assunto:

Luana Gomes
A Crítica  

Em seis meses, o Amazonas registrou um déficit de US$ 6,01 bilhões na balança comercial, alta de 5,32% em relação a igual período do ano anterior, conforme dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). No mês de junho, o Estado anotou seu terceiro pior resultado do ano, com saldo negativo de US$ 998,68 milhões. O Estado teve uma queda de 13,41% no número de produtos enviados ao exterior, depois de registrar o melhor desempenho quanto ao volume de exportações em 2012, com cifras correspondentes a US$ 88,85 milhões em maio.

Com base no levantamento, o resultado de importações foi o terceiro mais alto anotado no ano, embora tenha sido 14,72% inferior ao de mês imediatamente anterior. Enquanto no quinto mês do ano, a quantia de dólares oriunda de mercadorias enviadas para fora do mercado interno foi de US$ 1,26 bilhão, em junho, estas cifras foram de US$ 1,07 bilhão. Embora com a valorização do dólar, o professor de economia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Renilson da Silva, analisou que a alta deve refletir no desempenho do indicador apenas no segundo semestre, tendo em vista as encomendas antecipadas e, consequentemente, o estoque das indústrias da região.


Apesar dos possíveis reflexos da elevação da moeda americana nos resultados do segundo semestre, Silva lembrou que o Amazonas não é tradicionalmente conhecido por exportar, por isso as mudanças não resultariam em grande impacto. Ele detalhou que uma das opções para impulsionar a sinalização de dados positivos é a instalação de indústrias de semicondutores no País, impedindo a grande demanda de componentes eletrônicos importados. "Se isto acontecesse, poderíamos inverter essa performance da balança comercial", apontou.

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo, comentou que o Amazonas não é "eminente exportador", mas este saldo deve melhorar com a procura de fornecedores de componentes nacionais. "Especialmente quando a importação de componentes caros influi diretamente no preço do bem final, o que significa a perda de competitividade na região".

Dados Nacionais
Entre os dias 2 e 6 de julho, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 623 milhões. No acumulado, o saldo é de US$ 7,69 bilhões, com exportações de US$ 122,57 bilhões e importações de US$ 114,88 bilhões.


A CUT tenta intimidar o STF


O Estado de S.Paulo

Não engana a ninguém o recuo do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, prestes a ser empossado, da sua estrepitosa ameaça ao Supremo Tribunal Federal (STF), a propósito do mensalão. "Não pode ser um julgamento político. Se isso ocorrer, nós questionaremos, iremos para as ruas", afirmou, segundo a Folha de S.Paulo de segunda-feira. Estampado o desafio e decerto repreendido por algum grão-mensaleiro, alertado por sua vez pelos seus advogados, Freitas deu uma aparente guinada. "Não temos dúvida nenhuma de que teremos um julgamento técnico", entoou, magnânimo, aproveitando para cobrir o Supremo de elogios. "Era isso o que eu gostaria de ter dito."

Faltou combinar com o ainda titular da central, Artur Henrique Santos. Em discurso no 11.º congresso da entidade que ele chamou, sem corar, de "independente e autônoma" - mas no qual as estrelas da festa eram os réus "companheiros" José Dirceu, o ex-ministro de Lula, e Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, além do candidato petista à Prefeitura paulistana, Fernando Haddad -, Henrique fez um paralelo entre a denúncia do mensalão e o afastamento do presidente paraguaio Fernando Lugo. Fiel à versão de Lula para o escândalo, devidamente adotada pelo PT, o sindicalista disse que o impeachment de Lugo "foi o que tentaram fazer neste país em 2005", com a revelação, a seu ver fabricada, do esquema da compra de votos de deputados em benefício do governo petista.

Até aí, nada de mais. Faz tempo que jaz em camadas profundas o perdão que Lula pediu aos brasileiros, no momento de fraqueza em que também se declarou traído. O ponto é que, enquanto o bancário Vagner Freitas fingia abafar o repto ao STF, o eletricitário Artur Henrique o inchava. Fazendo praça do fato sabido de que a CUT toma partido na política, embora, como as congêneres, seja subsidiada pelo imposto sindical - todas poupadas por Lula de prestar contas dos milhões embolsados -, Henrique avisou que a organização sairá às ruas "para impedir o retrocesso e a volta da direita". Ele se referia às próximas eleições municipais, mas não seria necessário ostentar a credencial de "petista histórico", como diz a companheirada, para entender que o objeto oculto da falação era o Supremo.

O silogismo é elementar: se o desvendamento do mensalão foi uma tentativa de golpe, o mesmo vale para as suas consequências: a peça do procurador-geral da República, acolhida pela Corte, expondo, um a um, os membros da "sofisticada organização criminosa" responsável pela lambança, e as eventuais condenações dos réus petistas, a começar do ex-presidente da sigla José Dirceu. Veredictos "técnicos", como disse Freitas na sua falsa retratação, serão os que absolverem os mensaleiros. Sentenças condenatórias serão necessariamente políticas, golpistas - merecedoras, antes até que se consumam, da justa ira do "povo trabalhador", como Lula gosta de dizer.

Mas de que "golpe" se trata? Excluída, por insana, a derrubada da presidente Dilma Rousseff, será a possível eleição do tucano José Serra em São Paulo? Ou a reeleição do aecista Márcio Lacerda em Belo Horizonte? Assim como os terrores de que padecem os paranoicos, a teoria conspiratória cutista tem um fundo de verdade.

Perdas eleitorais importantes para o PT este ano - que a sigla tratará de atribuir ao julgamento no STF - poderiam ter efeitos adversos para a reeleição de Dilma, apesar dos seus estelares índices de popularidade. O destino pessoal da presidente por quem a CUT morre cada vez menos de amores é, em si, secundário. O desejo cutista que não ousa dizer o nome é a candidatura Lula já em 2014. Nada deve pôr em risco a perpetuação no poder da sigla de que emana.

A soberba, como se sabe, cega. A truculência também. Imaginam os dirigentes da CUT que o Supremo se deixará intimidar por seus arreganhos? Ou que a organização tem meios de criar no País um clima de convulsão capaz de "melar" o julgamento que tanto temem? Em outras palavras, por quem se tomam? Mas, no seu primarismo, as investidas do pelegato petista servem para lembrar à opinião pública a medida do seu entranhado autoritarismo e de sua aversão à democracia.

Vergonha: a CUT vai as ruas em defesa dos ‘mensaleiros’


Milton Corrêa da Costa
Tribuna da Imprensa

A Central Única dos Trabalhadores, entidade sincalista ligada diretamente ao então partido das vestais (PT), criticava tudo que era amoral e antiético no país e agora sairá as ruas (quem diria?) para cobrar do Supremo Tribunal Federal um julgamento técnico e não político dos mensaleiros (muitos filiados ao PT) acusados de formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito, num esquema ardiloso de propina, que corrompia parlamentares, conforme disse o denunciante, o então deputado federal Roberto Jefferson (PTB), cassado em seguida, e também acusado no processo.

Antes do início da votação, na Câmara Federal, que o cassou em 2005, Jefferson fez um duro discurso contra o PT e o presidente Lula, com “farpas” para o relator de seu processo de cassação – Jairo Carneiro (PFL-BA): “Tirei a roupa do rei. Mostrei ao Brasil quem são esses fariseus”, gritou Jefferson, ao final do discurso, em uma referência aos integrantes do PT envolvidos no escândalo do Mensalão.

Dias atrás, como se não bastasse a tentativa (antiética) do ex-presidente Lula para empurrar, para depois das eleições municipais, o julgamento do processo do ‘mensalão’, há mais de 6 anos em apuração, para fazer cair no esquecimento o maior escândalo da história republicana deste país, o deputado federal André Vargas (PR), secretário nacional de comunicação do PT, tentou desacreditar, perante a sociedade brasileira, a independência e a honradez do próprio Supremo Tribunal Federal.

“Já imaginávamos que ia ter pressão, mas não imaginávamos que segmentos do Supremo seriam tão suscetíveis assim. Infelizmente , as ações do Supremo não são cercadas de austeridade exigida para uma Corte Suprema. Ministro do Supremo não é para ficar sendo aplaudido em restaurante por decisão contra o PT. Nos EUA, eles não podem nem tirar foto, mas aqui tem ministro do Supremo com vocação para pop star”, disse o parlamentar.

Ou seja, tentam de todas as formas possíveis e antiéticas enlamear o Supremo Tribunal Federal e consequentemente a seriedade do julgamento do esquema do ‘mensalão’. No entanto, a sociedade brasileira, em nome do estado democrático, tem o direito à verdade e de ver punidos, com o máximo rigor da lei, os que forem julgados culpados. Que o seja o mais breve possível.

A Central Única dos Trabalhadores posiciona-se, no episódio do mensalão, ao lado do corporativismo, na tentativa desesperada de encobrir a lama na política. Profundamente lamentável. Que se indigne o povo brasileiro contra a falta de ética e decência na política e contra o sindicalismo tendencioso. Os caras-pintadas que compareçam as ruas para sufocar o grito insensato da CUT. Urgentemente, dentro da lei e da ordem democrática.

Centrais resistem a endossar pressão da CUT sobre Supremo


Valor Econômico

As centrais sindicais não parecem dispostas a embarcar na mobilização da Central Única dos Trabalhadores (CUT) para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a não julgar "de forma política" os réus do mensalão - suposto esquema de compra de apoio político no governo Lula. Enquanto a União Geral dos Trabalhadores (UGT), central com grande número de filiados ao PSD, ficou em cima do muro, dirigentes da Força Sindical e Nova Central refutaram qualquer manifestação, que só tem apoio explícito da Central de Trabalhadores do Brasil (CTB).

"Confiamos que o Supremo fará uma avaliação jurídica das denúncias. Se isso não ocorrer, se percebermos que o julgamento está sendo parcial, vamos nos mobilizar para contestar essa posição", afirmou Wagner Gomes, presidente da CTB, central ligada ao PCdoB e formada por dissidentes da CUT em 2007.

Para o sindicalista, "não só as centrais, mas toda a sociedade irá protestar" se o julgamento cair no campo político do debate eleitoral". Ele acredita, porém, que os réus do mensalão já foram punidos. "Se o STF inocentar os acusados, vai pesar muito pouco, porque eles já foram condenados pela grande mídia antes do julgamento", avaliou.

Gomes esteve com dois dos principais réus dos mensalão, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu (PT) e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, na abertura do 11º Congresso da CUT anteontem em São Paulo. Os petistas foram assediados com pedidos de fotos e muito aplaudidos pela plateia de sindicalistas da central, que é umbilicalmente ligada ao partido. Nem Dirceu nem Delúbio quiseram falar com a imprensa.

Na segunda-feira, o futuro presidente da CUT, Vagner Freitas, que toma posse amanhã, declarou ao jornal "Folha de S. Paulo" que os trabalhadores tiveram avanços importantes no governo Lula e que, se o julgamento do mensalão for político, a central irá às ruas em protesto. À noite, ele se disse mal interpretado, embora não tenha negado que a entidade pode fazer manifestações contra o que chamou de "julgamento político".

Para o secretário-geral da Força, João Carlos Gonçalves, o Juruna, a declaração foi "infeliz". "O julgamento não se dá assim, sob pressão. Estamos num período democrático, não na ditadura em que os tribunais serviam aos militares", afirmou. Filiado ao PDT, Juruna garante que a central não sairá às ruas para qualquer protesto referente ao mensalão. "Temos que guardar munição para as campanhas salariais."

Embora não critique a postura da CUT, o presidente da Nova Central, José Calixto Ramos, diz que acredita no julgamento técnico do STF, diante da importância do tema, e que "os de fora" não têm devem dar opinião. "A questão está entregue a quem tem competência para julgar. A Nova Central não irá se envolver nisso de jeito nenhum", afirmou.

O secretário-geral da UGT, Canindé Pegado, diz a central ainda não avaliou o tema e discutirá isso se perceber que a decisão do STF não será técnica. "A gente não quer julgamento político, de quem quer que seja, porque isso é uma afronta à democracia", afirmou.

Em visita à sede da UGT no fim de 2011, quando deu uma palestra sobre economia, Dirceu comentou que esperava que os sindicalistas fossem às ruas para defendê-lo, segundo integrantes da central contaram ao Valor. Pegado negou ontem que o assunto tenha sido debatido.

Que sindicalismo é esse?


Bruno Lima Rocha
Blog Noblat

Ainda estou boquiaberto com a declaração do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o bancário Vagner Freitas, de que a central poderia mobilizar-se pela garantia de um julgamento “técnico” dos réus do Mensalão.

Pouco tempo atrás publiquei um texto comparando a famigerada foto de Lula abraçado a Maluf como um atentado a memória dos contemporâneos de Luiz Inácio nas lutas históricas do ABC. Cheguei a afirmar ser o registro do pragmatismo político um segundo assassinato de Santo Dias, por sinal morto pela polícia militar então comandada pelo arenista hoje mui apreciado parlamentar federal.

Como tudo o que está ruim ainda pode piorar, agora cai por terra – talvez definitivamente - o último suspiro de independência de classe de uma central sindical que nascera durante a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) de1981, vindo a se constituir como o elo de força dos então autênticos em 1983.

Ao contrário dos analistas midiaticamente consagrados, não reclamo jamais quando os sindicatos detêm poder de barganha, organizam milhões e operam como panela de pressão na garantia dos direitos econômicos e sociais da maioria.

Justo ao inverso, enervo-me (e muito) ao ver o pouco de cultura de antagonismo que restara ser jogado fora por um jogo de pressões mal resolvido, entre as correntes político-sindicais que operam entre CUT e PT e a falta de correspondência no exercício do Poder Executivo em função do bloco governista.

Ou seja, qualquer pessoa com um mínimo de identidade militante considerará intolerável atirar no lixo o poder simbólico e os recursos da classe justamente para defender os líderes políticos que pactuaram com antigos inimigos para garantir a tal da governabilidade a todo preço (literalmente).

Não foi esta a primeira aproximação das bases cutistas para defender o governo de centro-esquerda “em disputa”.

Em 2005 saíram com timidez para as ruas, simultaneamente ao inesquecível depoimento de Duda Mendonça.

Se na época já não pegou bem, sete anos depois a imagem é ainda pior. Se o país mudou parcialmente para melhor – pagando o preço de compor forças com banqueiros, oligarcas, latifundiários e grandes empreiteiras - as seis centrais sindicais existentes pouco ou nada arrancaram de conquistas neste período.

Infelizmente o movimento sindical brasileiro tem de ser reinventado, renascendo bem longe de subordinações político-partidárias. Por mais “criativos” que sejam alguns dirigentes, discursos vazios se esgotam diante destas evidências.

A CUT separa Lula de Dilma


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Não é sob os holofotes da cassação do senador Demóstenes Torres que a semana começa.  Duvida-se pouco da decisão do plenário do Senado, mesmo com a votação ainda secreta. Vem da CUT e de seu novo presidente o impacto capaz de abalar estruturas do Executivo e do Judiciário, quando se imaginava o Legislativo no olho do furacão.

Pois como explicar  que o bancário Wagner Freitas, mal empossado na direção da maior central sindical do país, vibre  tacape e  borduna no governo Dilma e no Supremo Tribunal Federal?

No primeiro caso, assumindo a paternidade da greve do funcionalismo público e posicionando-se em favor da paralisação que já atinge mais de 150 mil servidores do governo federal. Durante os oito anos do Lula a CUT portou-se como um bichinho  de pelúcia, renunciando  às lutas sociais em grande parte responsáveis pela ascensão do PT ao poder. Ficou olhando, como ator  desimportante, que agora tenta voltar ao centro do palco.

Diante de Dilma Rousseff, a CUT não apenas estimula o movimento grevista,  mas exige da presidente da República que ceda na queda de braço com o funcionalismo, atenda suas reivindicações e desestabilize a economia através de gastos impossíveis de ser feitos sem a imediata volta à inflação descontrolada.

Mas fez pior o novo presidente da CUT: ameaçou a mais alta corte nacional de justiça com inusitado retorno às ruas caso José Dirceu venha a ser condenado no processo do mensalão. Porque outra leitura não há de sua recente intervenção. Ou estaria, também, empenhado em salvar o pescoço de Waldemar da Costa Neto, Marcos Valério e outros réus? 

Esse posicionamento mostra a força do ex-chefe da Casa Civil junto à entidade, claro que também escudado pelo ex-presidente Lula.  Evitar um julgamento político por parte do Supremo, como exige a CUT,  significa exatamente isso. Por certo que com a absolvição da maioria dos outros integrantes da quadrilha denunciada pela Procuradoria Geral da República.

Ao defender a greve, Wagner Freitas bate de frente com o Executivo. E atropela o Judiciário ao intrometer-se no julgamento do mensalão.  Agiria assim sem o respaldo do primeiro-companheiro?  Estaria nesse súbito renascer da CUT alguma preliminar da sucessão presidencial de 2014?

Antes  e depois  do recesso
 Esta é a última semana de trabalho efetivo no Congresso, antes do recesso que só terminará em agosto. A CPI do Cachoeira parece haver deixado para a volta de deputados e senadores a Brasília as oitivas de Luis Pagot e Fernando Cavendish, mas já sabendo que o ex-diretor-geral do Denit, depois de ameaçar, parece haver sido contemplado em seus pleitos secretos, já disposto a não jogar barro no ventilador. Quanto ao dono da Delta Construções, desde o início que deixou claro: ficará em silêncio, até por gentileza da CPI podendo ser dispensado dois minutos depois de sentar-se na cadeira de testemunha.

Existe, porém, um fator desconhecido capaz de turvar a equação da bonomia. Em maioria, os parlamentares aproveitarão as férias para recarregar baterias junto às suas bases.  E essas poderão cobrar deles mais virilidade no cumprimento de seus deveres.

Nada a declarar


Demétrio Magnoli  
O Estado de S. Paulo

No inverno de 1077, o imperador Henrique IV fez a peregrinação a Canossa, curvando-se perante o papa Gregório VII, que o excomungara. Quase um milênio depois, Lula conheceu a sua Canossa, peregrinando com Fernando Haddad a tiracolo até o jardim da mansão de Paulo Maluf, que expôs publicamente sua troca de afagos com a dupla petista. O cargo federal entregue por Dilma Rousseff a um protegido de Maluf não foi o preço, mas apenas a parcela de superfaturamento cobrada pelo minuto e meio de tempo de TV que o PP vendeu ao candidato lulista à Prefeitura de São Paulo. Conhecedor do valor das obsessões, Maluf impôs a Lula a quitação da dívida por um gesto de humilhação maior que o experimentado pelo soberano do Sacro Império: o papa, afinal, dispunha de poder incomparavelmente superior ao do fugitivo da Interpol.

Luiza Erundina suportaria a aliança com o PP, mas não tolerou a “forma” – a simbologia – que cercou o compromisso. Ela se retirou da chapa à Prefeitura e acusou Lula de uma traição “a princípios”. É um recurso de autoilusão, tão patético quanto suas declarações anteriores, que invocavam a “luta pelo socialismo” para justificar sua parceria com Haddad. O “princípio” exclusivo de Lula são os interesses de seu sistema de poder. O lulismo já celebrou Jader Barbalho, José Sarney e Fernando Collor: o congraçamento com Maluf se inscreve numa linha de coerência e só pode surpreender observadores que se ausentaram do planeta durante a última década.

Antonio Donato, coordenador da campanha de Haddad, reagiu ao episódio criticando uma suposta incoerência de Erundina, não de Lula: “Quem quer mudar o Brasil se preocupa com o conteúdo, e não com a forma”. O seu “realismo”, difundido entre os dirigentes petistas, vai muito além do “realismo” de José Serra, que queria a aliança com o PP (e se aliou com Valdemar Costa Neto, o réu do mensalão que comanda o PR), mas não se sujeitou à exigência de avalizar publicamente a figura de Maluf. Donato está dizendo que a Canossa de Lula vale a pena, se contribui em algo para um projeto de poder já esvaziado de qualquer sentido substantivo de mudança.

Todo o incidente seria apenas tedioso, não fosse a circunstância de que Erundina ficou só no seu protesto quixotesco. Os intelectuais de esquerda que apoiam Haddad não ergueram a voz para questionar, analisar ou explicar o gesto de Lula. Nos dias seguintes à humilhação do jardim, descortinou-se um resultado de dez anos de poder lulista: a morte da crítica de esquerda.

Antonio Cândido, Gabriel Cohn e Eugênio Bucci preferiram nada declarar. Mario Sergio Cortella sugeriu “tocar em frente”, após uma “fase de reflexão”, mas não ofereceu nenhuma “reflexão”. Paul Singer justificou o silêncio como um dever político: “Não tenho interesse em tornar pública qualquer opinião. Vai ficar entre mim e mim mesmo”. Marilena Chauí optou por emular o antigo ministro da Justiça da ditadura, Armando Falcão, cujo célebre “nada a declarar” veiculava seu rancor contra a imprensa: “Não vou dar entrevista, meu bem. Não acho nada. Nadinha. Até logo”.

Ouvi, informalmente, de uma das “intelectuais tucanas” que se converteram aos encantos da candidatura de Haddad, uma versão da justificativa medíocre posta em circulação por dirigentes petistas: “Maluf por Maluf, Serra também queria”. Emir Sader, que dubla como intelectual, mas opera, efetivamente, como militante, expressou o sentido pragmático do denso silêncio geral: “O fundamental é derrotar a ‘tucanalha’ em São Paulo. Eu posso gostar ou não do Maluf, mas vou fazer campanha para o Haddad do mesmo jeito”.

Não é verdade que os intelectuais de esquerda jamais criticaram Lula ou o PT. A crítica existia, pública e intensa, antes da chegada de Lula ao Planalto. Continuou depois, até o “mensalão”, um pouco mais amena, dirigida contra a escolha de José Alencar para a vice-presidência e as “políticas mercadistas” de Henrique Meirelles no Banco Central. Os intelectuais de esquerda justificaram sua adesão ao governo Lula sob a premissa de que, aos poucos, o lulismo se moveria para a esquerda, rompendo a teia de “alianças pragmáticas” indispensáveis no início do “processo”. A profecia não se cumpriu – e, ao contrário, o lulismo se identificou cada vez mais com os aliados conservadores. A crítica, contudo, experimentou progressiva rarefação, até desaparecer.

Quanto mais o lulismo se adapta à ordem tradicional, menos é criticado pelos intelectuais de esquerda. A equação, superficialmente paradoxal, solicita explicação. Uma sedutora hipótese de solução é imaginar que tais intelectuais estão imbuídos pelo nobre sentimento de “patriotismo partidário”. Instado a se subordinar às decisões de um partido comunista que transitava para o controle de Stalin, o dissidente Trotsky invocou a marcha da História rumo ao Futuro: “Certo ou errado, é o meu Partido. Não se pode ter razão contra o Partido ou fora dele”. Singer quase repetiu Trotsky – e deve ter pensado na frase do revolucionário russo ao pronunciar a sua, destituída de cores épicas.

A hipótese, porém, não tem sustentação lógica ou histórica. Trotsky não era um intelectual acadêmico, mas um dirigente bolchevique. Na Rússia, desenrolava-se uma revolução social na moldura da crise geral europeia aberta pela Grande Guerra, não uma eleição municipal no quadro da democracia. A explicação prosaica para a renúncia à crítica é que os intelectuais de esquerda brasileiros encontraram seus lugares à sombra da frondosa árvore do poder lulista. Eles se acostumaram com os benefícios profissionais e, sobretudo, com as “rendas de prestígio” auferidas pela proximidade do governo. No terceiro mandato lulista, e diante da perspectiva de um quarto, interiorizaram como hábitos as normas de elogiar os poderosos e sustar, na hora certa, a inclinação à crítica. A evidência disso é obra de Maluf.

Dilma abre as arcas para os aliados: R$ 823 mi


Josias de Souza


Reza a lei que, em anos de eleição, o governo só pode liberar verbas para obras e convênios novos até o dia 6 de julho. Atento ao calendário, o Planalto travou nos primeiros dias do mês uma corrida contra o relógio. Mandou empenhar na primeira semana do mês R$ 823,7 milhões em emendas de parlamentares.

Deve-se a contabilização do arrastão de liberações às repórteres Isabel Braga e Cristiane Jungblut. Servindo-se de dados disponíveis no Siafi, o sistema que armazena os gastos do governo, a dupla verificou que, só no dia 6 de junho, data limite para as liberações, foram empenhados R$ 402 milhões em emendas. Coisa negociada pela ministra Ideli Salvatti, a gestora do balcão.

A emissão da nota de empenho vale como uma promessa de liberação. As prefeituras beneficiadas com a destinação das verbas podem iniciar as obras e programar os gastos. E os autores das emendas ficam autorizados a gargantear os feitos nas suas bases eleitorais.

Numa conta que inclui todo o primeiro semestre, verifica-se que o Planalto liberou um total de R$ 1,88 bilhão. O que corresponde a 9,01% dos R$ 20,8 bilhões que deputados e senadores penduraram no Orçamento da União de 2012. Em tempos de crise, parece muito. Aos olhos dos congressistas, é pouco.

Em tese, a liberação das emendas é um dever do governo. Aprovado no Congresso, o Orçamento tem peso de lei, com todos os penduricalhos que os parlamentares enfiam nele. As emendas não são, em princípio, nocivas. Por vezes, destinam verbas para municípios pobres que a União esquece. Porém…

O histórico de escândalos azeitados por emendas de parlamentares faz acender uma luz vermelha toda vez que uma nova leva de liberações ganha as manchetes. Nem toda emenda de parlamentar resulta em corrupção. Mas quase toda a corrupção carrega as emendas no seu DNA.

Algo como 80% dos 513 deputados e dos 81 senadores resumem os seus mandatos a duas tarefas. A primeira é atender aos interesses dos grupos políticos e econômicos que os elegeram. A segunda, preparar a caixa da próxima reeleição. Essas duas prioridades terminam por conduzir os deputados para o balcão.

Em troca de apoio congressual ao governo, exige-se a liberação das emendas e a acomodação de apadrinhados em cargos com poder para virar a chave do cofre. O primeiro grande escândalo, o caso dos “Anões do Orçamento”, é de 1993.

O país vinha do impeachment de Fernando Collor. Itamar Franco mal assumira a Presidência quando se descobriu que também o Legislativo caminhava sobre o pântano.

Deputados cobravam propinas de empreteiras e prefeituras para injetar no Orçamento da União recursos destinados a obras públicas. Criou-se uma CPI. Seis deputados tiveram os mandatos cassados. Outros quatro renunciaram. Alteraram-se as regras de elaboração do Orçamento.

Há cinco anos, em 2007, já na gestão Lula, a “Operação Navalha” demonstrou que a mudança de normas não deteve os malfeitos. Sob supervisão do Ministério Público, a Polícia Federal gravou 585 diálogos telefônicos. Conversas vadias, que desnudaram um esquema similar ao dos anões.

A transcrição das fitas recheia um processo de 52 mil folhas. Descrevem o modo como o empreiteiro Zuleido Veras e a sua Gautama beliscavam verbas públicas. Numa ponta, compravam-se os políticos com poder para destinar verbas às obras. Noutra, subornavam-se servidores públicos responsáveis pelas liberações.

A navalha correu em quatro ministérios, seis governos de Estados nordestinos, e dezenas de prefeituras. A vítima mais vistosa foi Silas Rondeau. Acomodado por Lula na pasta de Minas e Energia a pedido de José Sarney (PMDB-AP), Rondeau foi acusado de receber propina de R$ 100 mil.

Entre os anões e a navalha, houve o caso das “Sanguessugas”. Nasceu em 2001, sob FHC, e explodiu em 2006, no final do primeiro reinado de Lula. Envolvia a pasta da Saúde. Na origem do roubo, de novo, as emendas.

Destinavam-se à compra de ambulâncias para prefeituras. A propina aos parlamentares era provida pela empresa Planan, que superfaturava os veículos em até 250%. Uma CPI apontou o envolvimento de 71 congressistas. Nenhum foi cassado. Mas poucos se reelegeram. Sob Dilma, as emendas borrifaram verbas nas ONGs companheiras que inspiraram a pseudofaxina realizada em pastas como Esportes, Turismo e Trabalho.

Além da origem parlamentar, os escândalos têm muito em comum: produzem operações espalhafatosas da PF, dezenas de prisões e quantidade idêntica de habeas corpus. Passado o estrondo, as cadeias se esvaziam e os escaninhos do Judiciário ficam apinhados. Não há vestígio de condenação definitiva. Grassa a impunidade. Daí o pé atrás da platéia com as emendas.