quarta-feira, julho 11, 2012

A indecifrável agenda de agosto


Jornal do Brasil
Wilson Figueiredo

Lula perdeu o rumo desde que o terceiro mandato passou a tentá-lo 

O mensalão não diz nem dez por cento do que foi movimentado mediante contas bancárias   

Em agosto — olha ele aí — o planeta Marte, também condenado a girar eternamente ao redor do Sol, mas em órbita externa à da Terra, será visto, no final do mês, mais perto do que nunca antes neste sistema solar. Deve apresentar alguma contribuição nova, além de reavivar as antigas. A oportunidade vem a calhar para a ciência e as superstições. E, entre uma e outras, uma robusta reflexão sobre as comissões parlamentares de inquérito e a baixa produtividade a que se limitam cada vez mais. Até lá, muito terá acontecido e não pouco deixado de acontecer pelas razões de sempre. Na abalizada opinião de Paulo Maluf, o ex-presidente Lula  foi o governante que deu aos banqueiros o melhor tratamento, pelo menos, desde a proclamação da República. E Maluf não ficou no cálculo preliminar de situá-lo à direita e se localizar à esquerda, deixando implícito que amigos são para horas difíceis. E mais não disse, nem precisava, depois  de cobri-lo com silêncio  obsequioso.

Como é sabido, Luiz Inácio Lula da Silva, por extenso, perdeu o rumo desde que o terceiro mandato, ambicionado por fora da órbita constitucional, passou a tentá-lo. Lula ainda não atinou com o papel que possa representar. Ou talvez, por isso mesmo, não modifique a naturalidade com que passa de um ponto de vista para o oposto. No processo do mensalão, declarou nada saber e, mais tarde, confirmou aos procuradores que estava a  par do tudo. Já voltou a negar que soubesse e adotou a negativa, daí por diante. E se esquivou das consequências.

Perdida a esperança do terceiro mandato, apostou as fichas todas na candidatura de Dilma Rousseff. Daí por diante, ninguém conseguiu contê-lo. Os sinais exteriores atestam que se trata de um candidato nato a presidências disponíveis. Uma reeleição, qualquer uma, lhe reserva prioridade e o faz sentir-se na casa da sogra. Sua oratória deita e rola nas assembleias sindicais.

De tanto se repetir, a História também passa perto, mas não cede à farsa do terceiro mandato, embora mantenha a aparência superior de ir para trás mesmo quando segue em frente. Ou vice-versa. Assim, no caso de Lula, o empresário perfeito para a temporada não podia ser senão Paulo Maluf. É o capítulo a ser escrito como lição de que a democracia escolhe  personagens de acordo com as necessidades. Pode ter sido a pedra no caminho de volta do doutor Honoris Causa ao poder.

Agosto, tudo indica, e graças ao mensalão, não ficará para trás. Mas convém relativizar os pressentimentos desatados e as conveniências com peso específico, sempre presentes na tradição brasileira. O hipotético eixo em torno do qual vai girar o mês de agenda indecifrável será aquele mensalão que marcou para sempre o primeiro mandato de Lula e talvez explique o estilo à vontade com que se considera presidente para sempre, mas  sem vice.

O mês em questão é agosto e, pela ordem natural ou qualquer outra, a fatalidade  recairá desta vez sobre os mensaleiros. Para compensar os imprevistos de que nenhuma das Américas, abaixo ou acima do Equador, está livre, o número artístico de abertura da temporada coube à dupla de bailarinos formada por Luiz Inácio Lula da Silva e Paulo Maluf, que estavam em recesso por motivos pessoais de cada um.

A cena foi digna de figurar na Agenda de Agosto: Lula, na condição inferior de ex-presidente, foi procurar ocupação, desafiou a memória nacional e bateu à porta do solar de Paulo Maluf. Ficou sabendo, por intermédio do próprio, que a História  pode não se repetir, mas recicla a matéria-prima acumulada.

Com aumentativo e tudo mais, o mensalão não diz com exatidão o que foi, nem o que será depois do julgamento em agosto. Estava guardado como peça decisiva  para distinguir a democracia,  à moda de Lula, aos bofetões e palavrões. Mesmo como antídoto para os eflúvios do mês, o mensalão veio a ser o recurso a que o PT recorreu em companhia das legendas que não chegam a ser realmente partidos políticos,  nem  acrescentam sequer  elegância  à própria arte de furtar. Em dois mandatos e meio, Lula perdeu tempo irrecuperável e o petismo ficou valendo menos ao câmbio não contabilizado do dinheiro que correu por fora da própria contabilidade.

O mensalão não diz nem dez por cento do que realmente foi movimentado mediante contas bancárias dos prestimosos parlamentares e burocratas arrolados pela oportunidade de servir ao governo e servir-se. Perdeu-se  tempo precioso à espera de não se sabia exatamente o que iria acontecer. Lula se sentiu um gigante, não pela própria natureza, mas por falta de oposição, que não precisa ser golpista  —  nem parecer —  para se apresentar vestida de branco. O país deu uma freada de arrumação, que primeiro desarrumou e agora tenta botar ordem na casa da sogra. Pode parecer, e parece mesmo, que a presidente Dilma se dá por provisoriamente satisfeita, mas nunca se saberá antes de tudo estar consumado.