domingo, janeiro 27, 2013

A falácia das tarifas


Adelson Elias Vasconcellos


Para não tomar remédios contra asia, vou ignorar o discurso de dona Dilma sobre a redução das tarifas de energia. Novamente, contrariando a regra, a soberana não apenas aumentou o desconto como ainda o antecipou. Como o calendário das calendário das empresas segue a lógica do calendário, reduzir tarifas no dia 23 do mês corrente, impõem às concessionárias o pesado ônus de fazer cálculos adicionais seguindo a proporcionalidade imposta. Isto, senhores, seria a menor das preocupações. Porque, no fundo, todos sairiam ganhando. Isto se...

...se o governo tivesse um pingo de juízo, e não se utilizasse de maneira vergonhosa estapafúrdia a se utilizar de políticas públicas estratégicas ao desenvolvimento, para impor sua agenda pré-eleitoral. Dilma recém iniciou sua segunda metade do mandato, e, sem que tivesse apresentado algum resultado positivo na primeira metade, já armou seu palanque e parte, dolorosamente, para um populismo cuja gfaturea ainda nos causará muita dor de cabeça. Para ela, o desenvolvimento sustentável, constante e harmônico do país, é o que menos importa. O que lhe interessa é garantir mais quatro anos de poder absolutista, para si e seu partido.

Novamente, acusou seus críticos sobre coisas que eles não disseram. Ninguém é contra a redução das tarifas. Eu mesmo várias vezes, ao longo destes anos de blog, tenho criticado o alto (injustificado) preço que é cobrado tanto do consumidor residencial quanto empresarial. 

O que se criticou foi a forma como a redução tarifária está sendo imposta. e o que é pior: sem o devido debate com os interessados. Tanto o governo estava (e ainda está) errado em relação ao pacote anunciado que, ele próprio, se obrigou a rever o valor das indenizações a a serem pagas às concessionárias que concordarem em antecipar a renovação dos contratos.

Nesta nova versão anunciada por Dilma, infelizmente, o populismo falou mais alto do que a racionalidade. Antes, em razão de que as concessionárias dos estados de São Paulo, Minas e Paraná não aceitarem os termos propostos de antecipação das  renovações, a manutenção do desconto seriam bancada pelo Tesouro Nacional a um custo, segundo estimativas do próprio governo, em torno de R$ 3 bilhões anuais.  Agora, seja pela antecipação em que o desconto passa a vigorar quanto pelo tamanho deste desconto ter sido elevado, a conta que o Tesouro bancará será de R$ 8 bilhões, ou seja, como o Tesouro é sustentado pelos impostos pelos brasileiros, no fundo, todos pagaremos as mesmas tarifas, só que modo escamoteado. Infelizmente, tivéssemos uma oposição de verdade, esta farsa seria facilmente desmascarada. Como aqueles que se dizem de “oposição” não passa de um bando de covardes, a mistificação subirá o palanque eleitoral como um grande feito!

Desde que o tal pacote envolto na MP 579 foi anunciado, indicamos que o melhor caminho seria produzir uma redução tarifária em menor escala e escalonada, em razão de que são altas as nossas necessidades de investimentos no setor elétrico. Do modo como se arbitrou, queda abrupta das receitas das concessionárias e num único momento, vai retirar destas concessionárias um volume enorme de receitas, reduzindo a zero sua capacidade de investir. E não apenas isto: o governo acenou que, para  estes investimentos, abrirá linhas de crédito especiais via BNDES, a juros camaradas. A questão não são os juros camaradas, mas sim obrigar aas concessionárias ao endividamento desnecessário. Além disto, endividamento, numa atividade com baixíssimo retorno, nunca é a melhor escolha. O que não faltam no Brasil são concessionárias quebradas ou financeiramente estranguladas. E isto hoje, imaginem daqui a um certo tempo...

Provei, e até agora ninguém mostrou que estávamos errados,  que o maior custo das tarifas caras de energia praticadas no Brasil não está na tarifa em si, e sim nos impostos e penduricalhos que sobre ela incidem. E mais: demonstramos que, nestes anos de PT no poder, foi ele quem elevou em mais de 100% este custo tributário. Saltamos de 22% da era FHC, para mais de 48% na era PT.  Se havia desejo (e necessidade) de se reduzir o custo final ao consumidor, fosse ele residencial ou industrial, o governo Dilma tinha gordura suficiente para queimar na rubrica “imposto e adereços”, que são de sua própria lavra e competência. Assim, poderia praticar um redução menor na tarifa em si, sem comprometer a capacidade de investimento das concessionárias, e praticar um corte mais profundo de carga tributária.   Atingiria o mesmo objetivo, mas de forma racional equilibrada, sem precisar apelar pra a demagogia, para o populismo e sem colocar em risco o próprio futuro do setor elétrico. Infelizmente, como já disse acima, esta fatura nos será apresentada mais tarde, com ou sem chuvas.

Quanto as “previsões” alarmistas e pessimistas, a arrogância só falou mais alto depois que o período de chuvas elevou um pouquinho os reservatórios afastando no curto prazo o perigo de racionamento e que só não aconteceu por conta do baixíssimo crescimento econômico que o país viveu n os dois últimos anos. Tivéssemos crescido dentro das metas do próprio governo, e não apenas os apagões e apaguinhos teriam se intensificado, como o racionamento teria sido inevitável.  O Brasil, queira o governo Dilma ou não, é ainda dependente ao extremo das chuvas e quanto elas escasseiam as nuvens no nosso horizonte ficam pesadas. 

O nível dos reservatórios invadiram o nível crítico e não fossem as termoelétricas construídas, ATENÇÃO DONA DILMA, no governo FHC, e certamente a soberana não teria exibido aquele ar arrogante com que se exibiu em frente às câmeras de TV. Já apresentamos aqui a lista das termoelétricas em funcionamento no país, com sua capacidade de geração, período de construção  e início da operação. E, apesar desta listagem estar disponível a todos, não se ouve ninguém da oposição se levantar para contrapor às mentiras e absurdos proferidos pela dona presidente do país. Talvez Dilma até se reeleja, mas por seus méritos, os quais estão a desejar. Não pelos resultados de sua gestão, que são pífios e ridículos. Mas terá mais quatro anos no poder por absoluta falta de uma oposição competente que não consegue sair de sua irrelevância. É ruim? Claro que é, ao erro de comando, o Brasil precisa encontrar alternativas e opções de se fazer o certo pelos métodos certos. Estamos apostando muito no “se”, no risco, na improvisação, nos arremedos, nas vigarices. E, não canso de repetir, estamos cometendo os mesmos erros das décadas de 70 e 80, e isto nos valeu 25 anos de estagnação. Estamos abusando do direito de errar. 

Se tinha a opção, portanto, de se reduzir a tarifa sem empurrar a milionária conta para o Tesouro que, é bom lembrar, não é um ente autônomo, uma empresa capaz de, por si, gerar receitas. Ele se alimenta exclusivamente dos impostos que pagamos.  Assim, a tarifa vai continuar a mesma de antes, com a diferença que os brasileiros a pagarão em duas parcelas: uma na própria conta com a mesma carga tributária estúpida imposta pelos governos petistas. E outra, através dos impostos que, já se vê, terão que ser mantidos nos atuais níveis (exagerados), sem espaços para sua obrigatória redução.  

Claro que o governo fará festa e tentará lucrar politicamente ao máximo com o tal corte. Mas jamais poderá negar a grande mentira que está aplicando. Primeiro, dobrou, com Lula, a carga tributária. E, às custas das concessionárias, aplica um garrote na sua receita em “nome do povo.”  O “capitalismo” socialista do PT. Às custas dos outros, lógico. 

Para terminar, Dona Dilma, nossa  soberana imperial,  instada por repórteres a falar sobre aumento da gasolina, respondeu: Eu não falo do aumento do preço de gasolina. Falo da redução do preço da energia.

Se é assim, bem que os repórteres poderiam ter inquirido a presidente por que o governo preferiu mexer mais nas tarifas das concessionárias e menos nos impostos do poder público? E, para completar, por que nos últimos dez anos o governo petista dobrou a carga tributária incidente sobre as tarifas? 

Repórter não precisa temer autoridades, quanto mais aquelas que preferem a truculência do que a transparência. Devem insistir em perguntar principalmente sobre aquilo que governantes tentam esconder da opinião pública. Porque, qualquer autoridade, cujo salário é pago com dinheiro público, TEM OBRIGAÇÃO DE PRESTAR CONTAS DE SEUS ATOS. E até aqui, sobre a questão da redução tarifária, Dilma nos deve muitas respostas. 

E o que foi cobrado a mais, será devolvido quando? 
Muito embora o governo Lula soubesse do valor a maior que estava sendo cobrado nas faturas de energia, e ainda quando Dilma era Ministra das Minas e Energia, a garfada só foi suspensa em 2007. Já comentamos este fato aqui várias vezes. Nunca o governo Lula, tampouco o de Dilma,  se prontificou em devolver ao consumidor estes valores que, em 2012, chegavam em valores atualizados, perto dos R$ 11 bilhões.  Ou seja, o governo Dilma banca o tal desconto com o próprio bolso do contribuinte. E ainda empurra uma milionária diferença de 8, bi para o Tesouro. Que país é este, afinal?

O governo Dilma faz enorme pressão junto ao TCU para que não “oficialize” o assalto.  Façam suas contas, senhores: o tal desconto, provavelmente, e sem que o governo confesse, não é nenhum favor: é apenas a devolução simbólica do que os consumidores pagaram a mais durante 5 anos. No final link para vocês saberem mais. 

Governo Dilma estuda fim da Eletrobrás
Pois é, tudo aquilo que dissemos em relação ao pacote elétrico da soberana, agora se confirma: a forma como a redução das tarifas de energia foi praticada, é um tiro no pé. É uma medida de um pensamento mesquinho, fruto de um projeto pessoal de poder, eleitoreiro e populista em todo o seu conteúdo. A Eletrobrás, gigante estatal, viu suas ações derreterem na Bolsa justamente porque os investidores olharam para os números e concluíram que o pacote de Dilma, inviabilizaria a companhia, a menos que bilhões de reais do Tesouro fossem despejados para capitalizar a empresa que a teimosia, a birra, a arrogância, o arbítrio, o autoritarismo rombudo e atrasado conseguiu produzir: o esvaziamento do capital e da capacidade da companhia de fazer gente às novas exigências.

O mercado não é otário não. Ele tem percepção suficiente para vislumbrar o barco furado no qual lhe oferecem carona, mas agradece o convite e cai fora. Investidores não acham dinheiro no lixo, não se dispõem a praticar caridade para governantes incompetentes.  

O simples do governo reunir-se para discutir uma reestruturação da Eletrobrás já é prova suficiente de que o tal pacote, como proposto, é uma aberração. 

Dilma mudou a constituição?
Segundo reportagem do Valor nesta quinta-feira, Dilma Rousseff teria afirmado, a respeito das especulações para 2014, que seu mandato seria de 8 anos, tentando afastar hipóteses sobre um provável retorno de Lula.  Dilma tem até o direito de concorrer à sua reeleição no ano que vem, mas a constituição afirma, sem meias palavras, que o mandato presidencial é quatro e não de oito anos. Assim, ela precisa vencer o pleito no próximo para, aí sim, completar um ciclo de oito anos  no poder, que seria a soma de dois mandatos de quatro anos. Não é pelo fato de haver conquistado o primeiro mandato, que ela assegura, automaticamente, a permanência de mais quatro anos no poder.

Lula continua popular
Apesar de afastado (?) da presidência, Lula continua esbanjando popularidade. Em votação popular, e apesar das tentativas de fraude, não teve para ninguém: Lula venceu a disputa das Algemas de Ouro 2012, que elegeu o brasileiro mais corrupto do ano. A briga foi acirrada com Demóstenes Torres, por exemplo. Mas o ex presidente acabou vencendo comprovando o quanto sua popularidade continua em alta junto às massas ...

Fatos & Fotos
O continente bolivariano se agitou contra o jornal El País por exibir em primeira página foto de Hugo Chavez entubado. A Venezuela diz que tomará providências legais, etc., etc., etc. Pois bem, se a foto é falsa, por que o governo venezuelano não exibe uma foto verdadeira de Chavez em tratamento em Cuba? Até agora, que se saiba, nem fotos nem fatos sobre a doença de Chavez puderam ser comprovados com as versões oficiosas do governo venezuelano. Negar, pura e simplesmente, a veracidade da foto do El País não serve para nada. Só para aumentar as suspeitas sobre a saúde do presidente empossado sem ter assumido.  A atitude do El País até pode ser condenável do ponto de vista ético, contudo, ela nos encaminha para uma questão ainda mais grave: há um vácuo de poder da Venezuela que suas autoridades tentam esconder da população. O espaço está sendo preenchido por um intrometido, que sequer eleito foi. 

* Charge reproduzida do blog Alerta Total

LEIA TAMBÉM: 

Erro na conta de luz pode superar R$ 11 bilhões



É o povo quem banca a conta do Tesouro Nacional, viu, Dona Dilma.


Adelson Elias Vasconcellos

No post seguinte, iremos comentar a milionária conta que o governo Dilma está empurrando para o Tesouro, para que se banque a redução tarifária nas contas de energia elétrica. Serão mais de R$ 8 bilhões que, é preciso esclarecer, serão bancados, no fundo, por todos nós, mesmo aqueles que vivem iluminados por lampiões ou velas. 

É preocupante o modo irresponsável como o governo Dilma tem empurrado, com constância cada vez maior, diferenças de valores para o Tesouro pagar. Os bilhões, por exemplo, que o BNDES enxuga todo ano em ação para amigos do poder, tem atingido cifras inimagináveis, perigosamente inimagináveis. Não só isso: algumas das operações de alto risco, tem se demonstrado verdadeiros caixões de defunto. E o prejuízo quem suporta? O Tesouro Nacional.

Ora, o Tesouro Nacional, é preciso esclarecer, não é uma empresa com vida própria, capaz de gerar riquezas e obter receitas próprias. Quem o sustenta somos todos nós, via impostos.

Nesta semana, divulgou-se que os brasileiros gastaram em compras no exterior  cerca de R$ 22 bilhões, apenas em 2012.  Não se tratam de viagens de turismo. Grande parte foram viagens para compras. E por quê? Porque tudo no Brasil está caro demais e os altos preços que se pratica são decorrentes da altíssima carga de impostos que incidem sobre bens e serviços. E até poderia acrescentar: sobre salários. O brutal confisco que o governo petista vem praticando sobre os assalariados é um escândalo jamais visto em nossa história. Vimos nesta edição que a defasagem na tabela do imposto de renda na fonte está calculada em impressionantes 66%!!! Que a oposição se mantenha quieta diante deste descalabro até se compreende dada a sua irrelevância e covardia. Mas os sindicatos e centrais sindicais, por que se calam? E a imprensa, por que não se agita e denuncia com maior ênfase, cobrando do governo federal medidas saneadoras para por fim ao assalto? É sempre oportuno lembrar que, ao assumir, Lula encontrou a tabela com faixa de isenção em 5 salários mínimos. Dez anos depois, a isenção caiu pela metade. Ou seja, mais pobres passaram a ter seus rendimentos tributados pelo governo ...dos pobres. E Dilma vem acentuando a cada ano este esbulho!

Voltemos ao Tesouro que, frise-se, é nada mais nada menos do que o gigantesco cofre onde o governo deposita os impostos que recolhe da sociedade. Portanto, quando ele diz que tal e qual valor será bancado pelo Tesouro, ele está dizendo que tal e qual valor será bancado por todos os brasileiros.

Assim, como tem sido recorrente o governo Dilma empurrar à responsabilidade do Tesouro bancar determinados populismos, ele está na verdade pendurando a fatura nas nossas costas. 

Sabe o governo, por exemplo, que seu pacote elétrico causará um rombo enorme na contabilidade da Eletrobrás. Como se trata de uma estatal, e o próprio governo já disse isto, se a Eletrobrás necessitar de aportes de capital para bancar a festa populista de Dilma Rousseff em seu pacotinho elétrico, o Tesouro arcará com a conta. Ah, a Petrobrás está tendo prejuízo com o subsídio da gasolina? Não tem problema: o Tesouro mais adiante recompensará a estatal com novos aportes de capital provenientes do ... Tesouro Nacional. E assim se faz com o Banco do Brasil, a Caixa Federal – aliás lembram daquela patacoada com o Panamericano? Pois é, quem livrou a cara (e falência) do senhor Silvio Santos foi você, meu nobre contribuinte!

Alias, qualquer estatal é bancada pela sociedade, inclusive, e principalmente, as que são  completamente inúteis, que servem apenas de milionário cabide de empregos para os vagabundos e inúteis companheiros se manterem no ócio...

Portanto, sempre que o governo anunciar que “Tesouro arcará com a conta”, qualquer brasileiro terá o sagrado direito de sentir-se um pouco mais assaltado em seu bolso.  

Há alguns dias o governo vem anunciando que subsidiará os voos regionais. Sabe o que isto significa? Mais impostos para os otários pagarem, mesmo os que não viajam de avião. E vai sendo assim, de subsídio em subsídio, de manipulação em manipulação, que o PT vai destruindo o futuro do país. Porque quanto todos nós sobreviveremos a esta farsa populista, será o dia em que a conta terá de ser paga.  

Se, por outro lado, o governo brasileiro oferecesse em troca saúde digna, educação de qualidade, segurança segura, dentre outros serviços, a gente até que poderia sorrir: sou assaltado mas sou feliz. Não precisaria colocar o filho em escola privada evitando ser contaminada por um ensino de péssimo nível da escola pública. Ou não precisaríamos gastar em planos de saúde particulares para sermos atendidos na hora que mais precisamos. Ou, ainda, escondermo-nos dentre verdadeiras muralhas para preservação nossa integridade física e nossa própria residência dos assaltos. E o que dizer então das belas carroças de lata que trafegam nas vias públicas e que o governo tem o peito de chamar de “transporte público”, quando até gado levado ao matadouro recebe melhor tratamento e conforto? 

Vejam lá: o governo se ufana de haver desonerado bilhões e mais bilhões na economia, para incentivar nosso crescimento econômico. Certo? Porém, vejam que coisa, objetivo num ano de crescimento insípido, um crescimento real na arrecadação de impostos. Ou seja, apesar do país não ter crescido, apesar das tais desonerações bilionárias na economia, a arrecadação em impostos ultrapassou a casa de 1 trilhão, recorde histórico, crescimento real superior ao da economia. Sabem por quê? O truque é desonerar de um lado, e fazer festa em cima disto, e compensar com aumentos em outras áreas e itens, de outro. Vejam, por exemplo, a desoneração da folha de pagamentos sobre algumas atividades (por só de umas e não de todas?).  No fundo, o que acontece não é desoneração para a empresa. Um percentual X, que é cobrado sobre o total da folha de pagamentos será trocado por um percentual Y que incidirá a mais sobre o faturamento.  Assim, no fundo, a diferença entre uma forma e outra resulta em um montante menor a ser recolhido aos cofres públicos. Mas o governo comemora o quê? Apenas o que deixou de incidir sobre a folha. Mas quando vamos observar o total recolhido pelo governo, o truque logo aparece. 

Em resumo, devemos ficar alerta para o que vem acontecendo com a inflação. Nos últimos três anos, ela se mantém na média de 6%. Para um país com crescimentos tão baixos, é um sinal de alerta. Há uma tentativa deliberada do governo Dilma de desfazer o conjunto de âncoras sobre os quais se assentavam a economia brasileira, construídas por Fernando Henrique e que Lula conservou, mas que a soberana insistir em remontar. O problema é que as bases construídas pelo Plano Real faziam parte de um projeto de modernização da economia brasileira, mas nele havia harmonia de ações e regras que pertenciam a um todo coeso.  

O que vemos agora, são ações avulsas, que não seguem um padrão de conjunto, de harmonia, e que as vezes até se digladiam entre si. Podemos afirmar com segurança que se assiste a um desarranjo da política econômica que nos trouxe até aqui.  Observa a falta de um plano único de ação. Sucedem-se medidas estanques, sem ligação entre si, cada uma, a seu jeito, tentando desfazer o conjunto de âncoras do Plano Real.  Ora, você pode alterar partes de um conjunto, com a pretensão de achar que o conjunto da obra são sofrerá impactos negativos. Ou se parte de um projeto único de remodelação da política econômica, ou se corre o risco de jogar por terra o gigantesco esforço empreendido até aqui para a manutenção de uma estabilidade econômica. Não se vê reformas estruturais, e sim improvisações calcadas em verdadeiros mitos ideológicos que não encontram o universo econômica, nenhuma sustentação.

Dito isto, convém o governo Dilma atentar pra duas situações: uma, o excesso de bagagem que tem empurrado para o Tesouro bancar. Cedo ou tarde a conta terá que ser paga. Foi esta irresponsabilidade fiscal ao longo de décadas que levou parte dos países europeus à bancarrota. Não se distribui benefícios sociais além da capacidade das nações em gerar riquezas suficientes para bancá-los. Infelizmente, estamos cometendo o mesmo erro. 

E a segunda situação, é a inflação resistente e em um índice elevado além do razoável. Inflação sempre se disse acaba se voltando para os mais pobres, por terem menos recursos para se defenderem. Logo, logo, sindicatos gritarão por indexação de salários (de certa forma, ele já existe), e esta praga logo se disseminará para contratos de prazos mais curtos, os financiamentos começarão a embutir custos financeiros  mais elevados e, sem alardes, logo toda a economia se alimentará de reajustes sobre reajustes. Dizer que uma inflação em 6% ao ano numa economia de crescimento baixo, e que se repete já há três anos e com perspectivas de permanecer de pé por mais três, está sob controle, é achar que o discurso tolo é suficiente para nos cegar. Não cega, não engana. 

Assim, melhor faria o governo Dilma se colocasse freios em seus gastos, parasse de tentar manipular preços para evitar que a inflação dispare, e ainda interrompesse de vez esta mania de empurrar sua má gestão das contas públicas para o Tesouro sustentar. Isto, sabemos após anos de triste experiência vivida em passado recente, é o caminho mais curto para trazer de volta o dragão inflacionário. Dilma tem todo o direito de lutar para, em 2014, tentar reeleger-se para um segundo mandato. Mas ninguém lhe delegou poderes para jogar no lixo o esforço descomunal empreendido pelo país para conquistar estabilidade econômica, recuperar sua credibilidade junto à comunidade internacional e recuperar parte do enorme débito social acumulado ao longo de décadas e mais décadas de desmandos. 

Não apenas é preocupante esta carga pesada que está sendo jogada para o Tesouro, mas sobretudo, a manipulação de contas e de preços, a demonstrar que se está utilizando de tais disfarces para falsear juma realidade que, por mais artifícios que venham empregar, acabar por mostrar a sua cara. 

O roteiro que se pede e que Dilma deve seguir é o da seriedade, jamais o do populismo botocudo de triste memória para os brasileiros. Olha, dona Dilma, ponha um fim nesta mentirada toda: pagar a energia na fatura e nos impostos via Tesouro Nacional, dá na mesma, é trocar seis por meia dúzia. Já nos bastam os Renans, Sarneys & Cia metendo a mão sem medo de ficarem milionários fora da cadeia!

Mudou, sim. E não funciona


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

É a maldição: em política econômica, toda gambiarra gera uma contra-gambiarra

Trata-se de uma quase unanimidade. Tirante os economistas do Banco Central, praticamente todos os demais acham que a inflação brasileira não alcança a meta oficial (4,5%, pelo IPCA, índice do IBGE) nem neste ano, nem no próximo, nem sabe-se lá quando.

Mas depois desse consenso, as opiniões começam a se dividir. Uma turma acha que isso é grave, que não se pode brincar com a inflação no Brasil e que a alta de preços é um imposto contra os mais pobres. Aliás, a inflação das famílias mais pobres está mais elevada do que a dos ricos.

Outra turma, dos economistas do governo ou aliados, acha que não tem nada demais numa inflação de 6,5% ao ano, número que estaria dentro da meta. Não é bem assim. Convém explicar: a meta, fixada pelo Conselho Monetário Nacional, é de 4,5% ao ano. Admite uma margem de tolerância (ou de erro, se quiserem) de dois pontos abaixo ou acima, isso para situações excepcionais, fora do controle do Banco Central.

Mas três anos seguidos com inflação na média de 6% ao ano não podem ser chamados de excepcionais. Pelos dados divulgados ontem pelo IBGE, a inflação corrente subiu de novo para os 6%. Ou seja, este é o ritmo de alta de preços no Brasil, acima da meta, abusando da margem de tolerância.

E isso apesar dos truques, como aquele, quase permanente, de segurar o preço da gasolina e outro, mais recente, de acertar com os prefeitos do Rio e São Paulo o adiamento do reajuste das tarifas de ônibus, previsto para este mês. No primeiro caso, estraga as contas da Petrobrás. No segundo, das prefeituras. É a maldição: em política econômica, toda gambiarra gera uma contra-gambiarra.

Mas todo esse debate poderia ser resolvido de modo muito fácil, dizem aliados do governo. Basta dizer que a meta de inflação agora é de até 6,5%. Mesma coisa que esses mesmos economistas estão propondo para o superávit primário. Em vez de o governo roubar nas contas para atingi-lo, basta reduzir o alvo.

Por que o governo não fez isso?

Reparem que é o mesmo padrão no caso do dólar, tratado aqui na semana passada. Todo mundo sabe que o real foi deliberadamente desvalorizado pelo governo e que a cotação agora varia numa banda de R$ 2,00 a 2,10 por dólar. De novo, críticos e aliados da presidente Dilma concordam nessa constatação, os primeiros, claro, achando errado, os segundos, certo. Mas o governo jura que não tem banda e sim uma clássica de taxa de câmbio flutuante.

Economistas ligados à linha desenvolvimentista (alguns preferem neo-desenvolvimentismo, sabe-se lá por que) sempre sustentaram que um país emergente terá inflação mais alta que os desenvolvidos e estáveis. Não haveria problema com alta de preços de 10% ou até 15% ao ano, se esse fosse o custo para uma expansão acelerada. Mais inflação em troca de mais crescimento, tal é o mote.

Acrescentam-se a essa receita a moeda desvalorizada e gastos públicos elevados.

Se o governo Dilma não está fazendo isso, então faz algo muito parecido. Mais ainda: havia mesmo a expectativa de que a presidente fosse pouco a pouco alterando os parâmetros da política econômica herdados da era FHC e que haviam sido mantidos por Lula por necessidade e não por convicção.

Assim, resultam duas possibilidades. Ou a política não mudou, apenas estaria sendo, digamos, mal executada. Ou mudou e o governo não quer admitir isso para não criar expectativas negativas, sobretudo lá fora, ou porque a mudança não está funcionando.

Afinal, temos inflação elevada e baixíssimo crescimento. O governo aumenta seus gastos e as obras não aparecem. O real foi desvalorizado, mas as importações crescem e os brasileiros continuam torrando dólares lá fora (US$ 22 bilhões no ano passado!).

Até aqui pelo menos, os fatos dizem o seguinte: a política mudou e não deu certo. Que fazer? Voltar ao padrão clássico ou aumentar a aposta neodesenvolvimentista?

Pode ser também que o governo não tenha uma política, mas apenas alvos. E cada vez que atira em um, acerta no que não devia. Um exemplo da hora: a redução das tarifas de energia vai estimular famílias e empresas a consumir mais, lógico. Isso em um momento em que os reservatórios das hidrelétricas, a energia mais barata, estão em ponto crítico, exigindo o auxílio das usinas termoelétricas, mais caras. O processo ainda retira recursos das companhias hidrelétricas, diminuindo sua capacidade de investir em novas fontes.

O pior de tudo é que o Brasil já viu isso nos anos 70 e 80.

Congresso morreu no FPE. E não foi para o céu


Josias de Souza


 Revelado: o autor da tese segundo a qual o Brasil é um gigante adormecido olhava para o Congresso quando cunhou o raciocínio. Mergulhados em sono profundo, os congressistas brasileiros por vezes passam a impressão de já estar mortos. Ainda não se deram conta, mas não foram para o céu.

A penúltima do Congresso envolve o FPE, o Fundo de Participação dos Estados. Regulamentado provisoriamente em 1989, o fundo deveria ter sido redefinido pelo Legislativo dois anos depois. Nada. Em fevereiro de 2010, foi declarado inconstitucional pelo STF. O tribunal fixou prazo para a queda da ficha do Parlamento: até 31 de dezembro de 2012. Necas.

Agora, a pretexto de evitar que o Apocalipse recaísse sobre as tesourarias estaduais, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, esticou por cinco meses o prazo de vigência das velhas regras do FPE. Se os parlamentares descruzarem os braços antes disso, esclareceu o ministro, as novas normas entram em vigor imediatamente.

Ao comentar a decisão de Lewandowski, o tetrapresidente do Senado José Sarney não se deu por achado: “No despacho ele não dá prazo para o Congresso.” Hã?!? “Ele apenas mantém a decisão que o Supremo tinha tomado de uma nova regulamentação do Fundo. E diz que, durante cinco meses, serão mantidas as mesmas regras.”

Para Sarney, o novo calendário fixado por Lewandowski “é mais dirigido ao Poder Executivo” do que ao Legislativo. Visa apenas assegurar que as verbas que a União manda para os Estados via FPE continuem escorrendo normalmente com base nas regras já tachadas de inconstitucionais.

Boceja daqui, esfrega os olhos dali, Sarney soou assim: “Nós já estamos trabalhando nisso, estamos numa fase de conclusão. E não vejo por que não resolvamos isso até no mês de fevereiro, se tivermos certa boa vontade das bancadas.” Hummm!

Diabéticos ou diabólicos?


Aldir Blanc
O Globo

Não há psiquiatras no Planalto para cortar esse delírio?

Em junho de 2010, Originais já estocadas para a Copa, passei mal. Era a diabetes-2, a “boazinha” (apreciada marca de cachaça). Com o tempo, fui vendo que a filha da... da falha pancreática era uma porção de coisas, menos boazinha. Tive crises de hipoglicemia, um troço horroroso, Lila e Paulinho da Viola me salvaram de uma delas, meus antebraços descascavam com a glicose normal, como se eu estivesse trocando de pele, mordidas de mosquito transformavam-se em perebas assustadoras... 

Não vou listar o conjunto de aberrações com que a diabetes-2 me presenteou, mas fiquei impressionado com uma: depois de um ano com essa porcaria, chegaram, como os Hells Angels em cidade do interior, os pesadelos diabéticos. Vou tentar descrevê-los, mas não acredito que possa transmitir o medo que me causam. Por exemplo, estou lendo o jornal na varanda e começo a arfar. Leio uma notícia absurda: o aumento do IPTU pode chegar a um reajuste de 14.000%! Bom, viro a página. Supermercados, entre 01 e 15 de janeiro, também “reajustaram” os preços. Para ser preciso, seis vezes em quinze dias! Começa a sudorese, com sensação de engasgo. Melhor forçar a leitura do que se entregar à sintomatologia. Continuemos: aquela sábia macróbia (desculpe, Tia Zulmira) que ocupa, num toma lá – dá cá vergonhoso, o MinC, vangloria-se de um tal vale-cultura no valor de 50 reais por mês. Os trabalhadores poderão comprar revistas de quinta categoria, DVDs, CDs, livros, além da sistemática ida a teatros, cinemas, shows, óperas, concertos e... peraí. Tudo isso com 50 reais? Não há psiquiatras no Planalto para cortar esse delírio com medicação apropriada?

O telefone não para. Amigos se queixam das absurdas contas de IPVA. Um outro me liga: voltou à presidência do bloco aqui da rua um cc (calhorda e caloteiro). Ele se gaba de ser rubro-negro. Acredito. Deixa a rua rubra de vergonha e tem a consciência negra.

Espio a telinha com o canto do olho. Lars Grael, orgulho nacional, espinafra a Marina da Glória, privatizada. A câmera mostra as águas fervilhando de fezes. Lars afirmou, com sua indiscutível autoridade, que vamos passar uma grande vergonha nas Olimpíadas de 2016.

Enquanto isso, a Furacão do Planalto, que jurou não ser periguete, e que só posou nua para pagar despesas advocatícias, foi eleita Rainha dos Gays. Compareceu na festança sem calcinha e levou um grupo de apoio: três assessores, um secretário particular, advogados, seguranças, maquiadores, cabeleireiros, um economista do BNDES, um ginecologista e três levantadores de silicone (um deles, ex-medalhista olímpico no vôlei), além dos pastores alemães gêmeos, Gunther e Fritz, da aristocrática família Von Syffeharen.

Chegam do cinema os netos. Grito para me sacudirem. Milena, que passou brilhantemente para medicina, me adverte:

— Vô, não tem pesadelo, não. Você está acordado.

Valha-me, como diria meu pai asmático, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!

Dilma tem muito a fazer antes do forró da reeleição


Editorial
Valor Econômico

A viagem da presidente Dilma Rousseff ao Piauí, na última sexta-feira, confirmou ao país o que muitos desconfiavam e o Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, adiantou na quarta-feira da semana passada: o governo já está empenhado - e nem faz questão de disfarçar - na campanha de reeleição da presidente da República.

Não só o governo, que cola a agenda da governante com a da candidata, como também o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um mestre na arte de criar e eleger candidatos, como comprovaram eleições recentes.

Dilma só não contava com o "apagão" de 30 minutos que antecedeu sua chegada a Teresina. Não chegou a estragar a festa, mas serviu para advertir o governo do muito que precisa ser feito, efetivamente, antes de 2014.

Dilma chega a 2013, véspera do ano sucessório, sem ter uma grande obra a apresentar. E as obras da "herança bendita" que recebeu do governo Lula, na área de infraestrutura, ainda estão à espera do esforço governamental para serem concluídas.

Obras que contribuíram para a reeleição do próprio Lula, em 2006, e a eleição de Dilma, em 2010, como a transposição do rio São Francisco.

Trata-se de uma obra-símbolo da falta de pejo de governantes petistas para transformar projetos de grande anseio popular em produtos de marketing eleitoral.

O fim da seca do Nordeste está no imaginário de qualquer nordestino, como também de todos os brasileiros.

As evidências mostram que as férias devolveram uma Dilma Rousseff diferente no modo de governar. Mais solta, buscando a iniciativa em ações de grande visibilidade, como os encontros que manteve nas duas últimas semanas com os maiores empresários do país.

Obviamente, é impossível afirmar que o objetivo da presidente era o de produzir ações de marketing com vistas à campanha. Mas é difícil ignorar as cenas de Dilma com chapéu de vaqueiro e aplaudindo, sorridente, os sanfoneiros que animaram a entrega de retroescavadeiras e apartamentos em Teresina, ao som de Asa Branca e de outros hits da região. Parecia o forró da reeleição.

Num momento sensível do processo econômico em que a inflação mostra os dentes, ameaça de racionamento de energia elétrica e de dúvidas sobre a capacidade de o país assegurar os encargos que assumiu para sediar a Copa do Mundo de 2014, o que menos se espera de Dilma é a mistura da governança com o processo da sucessão presidencial do próximo ano.

São grandes os desafios que aguardam a presidente em 2013. Antes de pensar na reeleição, Dilma deve pensar em enfrentar e resolver esses desafios. Ou pelo menos deixá-los encaminhados, até porque uma coisa levará à outra.

É quase uma inevitabilidade. O mesmo não se pode dizer se as coisas acontecerem de modo contrário.

Há muito a ser efeito, projetos que de maneira alguma podem entrar na fila das "obras prioritárias" só em véspera de eleição, como parece ser o caso da transposição do rio São Francisco.

Afinal de contas, os problemas do fornecimento de energia elétrica estão mesmo equacionados, sob o controle das autoridades responsáveis, ou continuarão a se repetir "apagões-relâmpagos" como o que recepcionou a presidente na viagem a Teresina?

Os aeroportos, tão necessários para receber eventos como a Copa do Mundo quanto para atender um país em crescimento, ficarão prontos no tempo necessário ou correm o risco de ficar na situação da refinaria Abreu Lima - outra promessa de Lula na campanha da reeleição -, projeto cujo orçamento já aumentou quase sete vezes?

E as obras de mobilidade urbana, essas sim um autêntico legado da Copa?

Para Dilma se eleger presidente da República, as agendas da chefe da Casa Civil com a de Lula foram embaralhadas. Não justifica, mas a ideia era tornar conhecida uma candidata retirada do bolso do colete do então presidente e que nunca antes disputara uma eleição.

A popularidade de Dilma agora ronda os 62%. O desconhecimento não é argumento para transformar atos de governo em campanha. É natural que o PT esteja no palanque.

Mas o PIB de 2012 mostra que o momento atual é delicado e requer a atenção integral da presidente da República.

Lulândia, o reino da avacalhação


Maria Lucia Victor Barbosa
Alerta Total

Bastou o intervalo das festas de fim de ano, das férias nas praias ou no exterior quando ninguém pensa em dívidas, contas a pagar, despesas que virão para que Lula da Silva ressurgisse do conveniente mutismo e retomasse os preparativos para sua “treeleição”.

De fato o ex-presidente nunca deixou de exercer o poder. Recorde-se que tentou impedir o julgamento do mensalão chantageando o ministro Gilmar Mendes para que esse adiasse o julgamento. Como isto não funcionou ordenou ao Congresso que realizasse a CPI do Cachoeira, uma espécie de cortina de fumaça para desviar a atenção sobre as condenações dos quadrilheiros do PT que poderiam atrapalhar as eleições municipais de 2012. A CPI acabou condenando apenas o senador Demóstenes Torres e prendendo o contraventor sem que nada acontecesse à Delta e à grande rede nacional de políticos envolvidos na trama. Deste modo a farsa se converteu em um dos maiores espetáculos de degradação já apresentados pelo Congresso Nacional.

Consta também que a presidente Rousseff, gerente dos apagões e pibinhos, não dá um passo sem consultar seu chefe e inventor que assim demonstra quem é o verdadeiro presidente da República.

Contudo, após as acusações de Marcos Valério que indicaram Lula da Silva como chefe e beneficiário do “mensalão”, este se calou. Especialmente depois da eclosão do fragoroso escândalo no qual ficou demonstrado que a amante, Rosemary Nóvoa de Noronha, não só desfrutava de maravilhosas viagens presidenciais pagas por nós, os contribuintes, mas nomeava através do “tio Lula” uma quadrilha de trambiqueiros, falsificadores, fraudadores de pareceres, o ex-presidente deu em fugir da imprensa. Fato grotesco ocorreu em Barcelona quando o poderoso Lula bateu em veloz retirada através da lavanderia do hotel em que se encontrava hospedado e escapuliu dos repórteres pela porta dos fundos.

Agora, enquanto o povo em férias se entretém com os preparativos do carnaval, Lula da Silva emerge anunciando futuras caravanas pelo Brasil. Ao mesmo tempo, faz saber que assumirá as negociações com a base aliada. Portanto, após ter nomeado o ministério de Rousseff na prática está demitindo a fiel Ideli de suas funções de ministra das Relações Institucionais, ou seja, do ministério do balcão de negócios, posto muito conveniente para quem é candidato.

Além do mais, para mostrar quem manda de verdade Lula da Silva se reuniu com seu outro poste, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad e secretariado para dar as ordens e ministrar lições de populismo. 

Em países de instituições sólidas, Poderes independentes e igualmente fortes, de oposição para valer tal avacalhação seria impensável. Mesmo no Brasil nenhum ex-presidente chegaria a tanta desfaçatez e lambança. Mas, na Lulândia tudo é permitido porque o povo elegeu e continua aplaudir o grão senhor Lula. Algo que faz parte de nossa cultura da avacalhação desde os tempos coloniais. 

Além do mais, como não existe oposição, exceto uma ou outra voz solitária, Genoino, um dos condenados petista do mensalão tomou posse como deputado federal decretando o fim da ficha limpa. Se isto foi legal, como dizem seus defensores, foi imoral e abjeto.

Em outra manifestação típica da Lulândia membros do PT, inclusive, a juventude petista organizaram um jantar com o objetivo de arrecadar fundos para pagar as multas dos companheiros criminosos. Alguns militantes acreditam ou fingem acreditar que os companheiros quadrilheiros, coitadinhos, foram injustiçados, condenados sem provas, vítimas da imprensa maldosa e da oposição que não existe. Por sua vez a CUT, braço sindical do PT, fez ato para anular sentenças do STF. Hilariante piada de salão como diria Delúbio Soares.

Enquanto segue a politicagem, por mais que ministro Mantega distorça dados da economia e faça mágicas para adulterar resultados, a inflação acelera, progride a inadimplência, aumenta a devolução de cheques sem fundo. 

Com a projeção do endividamento da Petrobrás virá o aumento dos combustíveis tantas vezes adiado politicamente e com ele mais inflação, apesar de que os reajustes previstos apenas amenizarão a piora do endividamento. 

Acrescente-se que as previsões da economia para 2013 não são das melhores. Segundo, por exemplo, Flávio Castelo Branco, gerente executivo do Núcleo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI): “Se a economia seguir um padrão fraco como o de 2012, a desaceleração alcança o mercado de serviços e aí podemos ter uma contaminação do mercado de trabalho”.

Rousseff está em campanha e fez comício em cadeia nacional de rádio e TV para anunciar redução de tarifas de energia. Entretanto, no cenário sombrio que se desenha para a economia de 2013, a quem o povo recorrerá como salvador da pátria? É fácil adivinhar. Que o digam os invasores do Instituto Lula que não perderam tempo indo à Brasília.

Abre-te, Sésamo.


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Pode ficar escandalizado desde já: na semana que vem, o senador Renan Calheiros deve ser eleito presidente do Senado (e, portanto, presidente do Congresso). Continue escandalizado: a menos que aconteça algo totalmente inesperado, o deputado Henrique Alves será eleito presidente da Câmara (e, portanto, o segundo na linha sucessória da Presidência da República, atrás apenas do vice-presidente Michel Temer). Aliás, se por qualquer motivo Alves não puder substituir a presidente da República, o próximo na linha sucessória será Renan.

Pode deixar de escandalizar-se. Renan e Henrique Alves, ambos do PMDB, são amplamente conhecidos pelos eleitores. Renan já teve de renunciar à Presidência do Senado, para não ser cassado, quando alguns dos assuntos que julgava particulares foram trazidos a público. Henrique Alves brigou com a própria irmã gêmea, Ana Catarina, por disputa de poder político; brigou com a ex-esposa, Mônica Azambuja, pela partilha de bens depois do divórcio (ela o acusou de subestimar o patrimônio do casal e de ter remetido irregularmente muito dinheiro ao Exterior). No caso dele, tudo já está certo: esta sua ex-esposa - bem como o filho de Henrique Alves - estão bem empregados em Brasília, na Conab, Cia. Nacional de Abastecimento, velho feudo do partido de ambos, o PMDB.

Nada disso é secreto; e, nas campanhas eleitorais, foi levantado por seus adversários. Mesmo assim, ambos foram eleitos. Então, caro eleitor, assuma a culpa: eles não chegaram lá sozinhos. 

Jamais teriam êxito sem seu precioso voto.

O erro de Lula
Renan deve ser eleito presidente do Senado pela maioria dos 81 senadores; Henrique Alves deve ser eleito presidente da Câmara pela maioria dos 513 deputados federais. Todos os parlamentares conhecem o suficiente de ambos para saber que votar neles significa, no mínimo, aprovar seus métodos e transformar em currículos aquilo que seria mais correto classificar como folhas corridas. Quando Lula (antes de ser eleito presidente) disse que no Congresso havia 300 picaretas, foi muito criticado por isso.

Lula efetivamente estava errado: calculou por baixo.

Sustentabilíssimo
Depois de dois anos de silêncio, após as eleições de 2010 - quando ficou em terceiro, com imensa votação, e se transformou na maior revelação da disputa - Marina Silva está de volta. Agora, pensa em criar um novo partido, seguindo o exemplo do ex-prefeito Gilberto Kassab. O partido que Marina quer é verde, mas não é o Partido Verde, que considera não muito adequado (e tem razão: o presidente dos Verdes é o ex-ministro Sarney Filho - exatamente, é aquele em quem o caro leitor está pensando). 

As articulações para o novo partido começaram ontem, 22, em São Paulo, numa reunião dosmarineiros do Movimento por uma Nova Política com possíveis aliados. Marina quer atrair a alagoana Heloísa Helena, fundadora do PSOL; e tem o sonho de convencer Fernando Gabeira, símbolo do movimento verde brasileiro, a acompanhá-la. Será difícil: Gabeira acha que o mais adequado para ela seria entrar no Partido Verde, já estruturado em todo o país, arejá-lo e modernizá-lo. Não é este, ao menos por enquanto, o projeto de Marina. 

Em seus planos, o novo partido será fundado em meados de fevereiro, no Rio, com o nome escolhido numa enquete promovida entre os simpatizantes.

Alô, nobres senhores! 
A Polícia Federal prendeu no aeroporto internacional de Guarulhos, SP, um passageiro com mais de três quilos de cocaína na cueca, com passagem firmada para Doha, no Qatar. Está quase virando moda: já houve a prisão, também no aeroporto, de um cavalheiro que carregava US$ 100 mil na cueca, e que até hoje, vários anos depois, ainda não revelou a origem e o destino do dinheiro. 

O homem das cuecas com dinheiro era assessor e homem de confiança do deputado José Nobre Guimarães (hoje líder do PT na Câmara Federal). Importante: nunca foi comprovada qualquer participação do deputado no episódio. O novo preso, o das cuecas com cocaína, será assessor de alguma figura ilustre deste nosso país?

Quem canta... 
Jamelão, grande cantor popular, compositor e puxador dos sambas da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, nasceu em 1913. Este é o ano de seu centenário; ano ideal para uma homenagem da escola onde nasceu, cresceu e morreu, cujo samba puxou por 58 anos e da qual foi presidente de honra de 1999 até o ano de sua morte, 2008. E qual será o samba-enredo da Mangueira?

Não, nada de Jamelão: nem quando era vivo poderia arcar com os custos da homenagem. O enredo do samba depende hoje do patrocinador. Mangueira vai cantar a história de Cuiabá, a bela capital de Mato Grosso. Cuiabá, conforme informações não oficiais, prometeu ajuda de R$ 5 milhões ao Carnaval da Mangueira. E qual a relação de Cuiabá com a Mangueira? Fortíssima: R$ 5 milhões. 

...mais forte
E Jamelão? A homenagem foi terceirizada, caro leitor. Um dos maiores símbolos da história da Mangueira será cantado pela Unidos do Jacarezinho, uma escola que acaba de chegar à segunda divisão do samba carioca.

Jamelão que fique num canto do sambódromo: morto não reclama, morto não paga.

carlos@brickmann.com.br 
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Dilma, preste atenção: o país é de todos


Miriam Leitão
O Globo

A mensagem da parte final da fala da presidente Dilma Rousseff lembrou o princípio usado na propaganda oficial do governo Médici. Confundiu crítica, ou análise que contrarie o discurso oficial, com falta de amor à pátria. Misturou governo e nação.

Como sabem os que combateram o regime, entre eles a própria presidente, governos são sempre temporários e não são a encarnação da país.

Discordar de uma decisão governamental, apontar riscos, não é torcer contra. Só governos de índole autoritária fazem esse tipo de interpretação. Se esse for o tom da campanha da presidente por mais um mandato será lamentável.

Convocar rede nacional de TV e rádio para o início extemporâneo de campanha eleitoral é irregular. A rede está à disposição do governante para assuntos de interesse coletivo e para informações úteis para a população.

Convocá-la para anunciar a queda do preço da energia faz sentido, o que transformou a natureza do pronunciamento foi o tom escolhido pelo marqueteiro da presidente, na segunda metade do texto lido por ela, de ataque a todos os que não cultuam o governo. Seria, segundo diz a peça publicitária, coisa de gente sem fé no Brasil.

A primeira parte foi apresentação entusiasmada da sua visão da conjuntura, o que é normal. Depois, virou palanque fora de época. Mas, por uma questão de método, nenhum gestor, público ou privado, deve acreditar na inexistência de risco de curto, médio e longo prazos em qualquer projeto.

A queda do preço da energia tem o benéfico efeito de reduzir o custo das empresas, aumentando a competitividade do país, e de diminuir o peso da luz no orçamento das famílias. Ótimo.

O problema é que a medida teria que vir com uma campanha de redução do consumo, porque neste exato momento o baixo nível dos reservatórios está exigindo o uso das térmicas que encarecem a energia. Portanto, quanto maior for a demanda, mais alta fica a conta a ser paga mais tarde.

Se a redução do preço for entendido como um estímulo ao consumo, num momento de escassez, o resultado será o oposto do que busca o programa.

Parte da redução do preço será coberta por recursos do Tesouro, o que, no final das contas, é dinheiro de todos nós. Parte é resultado da antecipação do fim dos contratos com as empresas. A elas foi dado um prazo exíguo e duas opções: permanecer com o mesmo contrato até a sua expiração ou renová-lo por 30 anos com uma indenização pelo investimento ainda não amortizado. Os cálculos do que seria pago às empresas foram abaixo do que se esperava.

Algumas recusaram e isso não as faz inimigas do país, integrantes do pessoal “do contra”. Foi uma decisão gerencial. Se o próprio governo ofereceu dois caminhos é porque ambos eram possíveis e tinham perdas e ganhos. A maioria das que aceitaram a fórmula do governo é de estatais federais.

Há vários fios desencapados no setor de energia e seria bom se o governo tivesse uma atitude mais sóbria em relação ao tema.

O atraso nas linhas de transmissão, principalmente as que estão sob a responsabilidade da Chesf, é uma das inúmeras frentes de trabalho. O setor de transmissão precisa de muito mais investimento para renovação das linhas e modernização de sistemas obsoletos. As empresas têm que investir mais, e a maneira como foi conduzido esse programa as descapitalizou.

A queda das ações torna difícil buscar recursos no mercado de capitais e limita o endividamento.

As hidrelétricas construídas muito longe dos centros de consumo exigirão um enorme esforço para não se reproduzir, em grande escala, o que está acontecendo com os parques eólicos: começarem a gerar antes de estarem prontas as linhas de transmissão. O custo total para o país de não usar os parques eólicos pode chegar a R$ 1 bilhão.

Há dentro do governo relatórios alertando para vários desses riscos. De vez em quando a imprensa consegue capturar um. Ou há gente “do contra” infiltrada ou o governo deveria avaliar esses alertas internos com mais atenção.

Há fatos intrigando especialistas ouvidos pelo governo que podem indicar que há sistemas de previsão internos que precisam ser aperfeiçoados. Tudo isso deveria estar sendo analisado com cuidado. Mas o governo preferiu transformar a energia em bandeira política e entregou o tema ao maniqueísmo próprio dos marqueteiros das campanhas eleitorais.

Para quem só tem martelo…


Alexandre Schwartsman
Folha de S.Paulo

O Brasil cresce pouco por problemas do lado da oferta: expansão medíocre da produtividade, educação inadequada e investimento insuficiente

O governo crê que pode sacrificar a estabilidade em troca de mais crescimento, mas colhe só mais inflação
Tudo é prego. Se tivesse que resumir as várias tentativas fracassadas para reviver a economia, acho que nada descreveria melhor o insucesso do que a imagem de alguém tentando resolver um problema com instrumentos inadequados e, pior, sem perceber o desajuste.

Na verdade, da mesma forma que dizem que os generais sempre lutam a última guerra, o governo parece resolvido a lidar com as dificuldades de hoje recorrendo aos instrumentos que usou para superar a recessão de 2008-09.

Ocorre que, na época, a natureza do problema era outra. Naquele momento a crise financeira levou a uma recessão mundial sincronizada, traduzida, por exemplo, em quedas de dois dígitos na produção industrial em qualquer meridiano ou paralelo que se olhasse. Era um caso clássico de insuficiência de demanda, expressa na queda tanto do consumo quanto do investimento.

Em razão disso, o desemprego (já ajustado à sazonalidade e à fuga de parcela da população do mercado de trabalho, o chamado “desalento”) saltou de 7% para 9% da força de trabalho em poucos meses.

Sob essas circunstâncias, políticas de incentivo ao consumo têm boa chance de recolocar a economia na rota de expansão, às vezes até demais, como os exageros de 2009 e 2010 demonstraram (mas, você sabe, havia eleição a ganhar).

Em contraste, a desaceleração do crescimento em 2011 e 2012 para níveis inferiores a 2% ao ano foi acompanhada de queda persistente do desemprego. Nesse contexto, a tentativa de impulsionar a economia pelo aumento do consumo perde muito da sua eficácia.

Parte desse aumento se dirige ao consumo de serviços, que, em sua esmagadora maioria, precisam ser produzidos localmente (quase ninguém manda os filhos para a escola em Buenos Aires ou vai se tratar com um médico nova-iorquino), exigindo maior emprego no setor.

Isso não é um problema enquanto a mão de obra é abundante, mas, com desemprego reduzido, leva a aumentos salariais que superam em muito o crescimento acanhado da produtividade.

O setor de serviços convive com isso aumentando seus preços, o que nos ajuda a entender por que a inflação desse segmento tem rodado na casa dos 9% ao ano e segue acelerando.

Já a indústria, pressionada pela competição externa, não consegue fazê-lo, o que se traduz em redução de margens e problemas de competitividade e, portanto, dificuldades para aumentar a produção.

Assim, o aumento das importações (o “vazamento” da demanda para o exterior) é a forma pela qual a economia consegue compatibilizar a maior demanda por bens e a incapacidade industrial em competir, não apenas com o exterior mas, principalmente, com os serviços pela mão de obra agora escassa.

Por esse motivo, políticas de incentivo à demanda acabam apresentando pouca tração em termos de crescimento. E, por não entender essa dinâmica, o governo insiste com o martelo, na esperança de achar, em algum lugar, um mísero prego.

É contra esse pano de fundo que se entende o abandono do tripé macroeconômico. Seu arranjo impedia as marteladas, já que o limite para a taxa de juros era a meta de inflação, enquanto a meta fiscal restringia (ainda que de modo muito imperfeito) a expansão desmesurada do gasto.

Não se trata, portanto, de dizer que a desaceleração econômica resultou do abandono do tripé, mas, pelo contrário, que a conjugação de baixa expansão com a percepção errônea da natureza do problema levou à deterioração da política macroeconômica.

O Brasil cresce pouco por problemas do lado da oferta: expansão medíocre da produtividade, educação inadequada e investimento insuficiente.

Por falta desse entendimento o governo acredita que pode sacrificar a estabilidade em troca de mais crescimento, mas colhe apenas mais inflação sem ganho perceptível de produto.

E, pelo andar da carruagem, prosseguirá com os sacrifícios, sem a devida atenção aos efeitos colaterais das suas marteladas.

A sombra no pé de Dilma


Sandro Vaia
Blog do Noblat

Enquanto a oposição pisava nos astros distraída e a presidente ia à televisão anunciar uma redução mágica nas contas de energia que pagaremos do mesmo jeito via impostos, era dada a largada da luta sucessória de 2014.

Por enquanto, é uma luta sucessória inusitada: todos os candidatos , assumidos ou não, são do mesmo lado, o do governo. Tudo indica que Dilma será candidata à sua própria sucessão, mas o voluntarismo de Lula intrometendo-se nos governos de suas criaturas, dá o que pensar.

Eduardo Campos, esse estranho projeto de semi-oposicionista a longo prazo e incondicional situacionista a curto prazo, parece mais um ensaio de orquestra para o concerto de 2018 do que uma opção real para 2014.

No campo da oposição, parece certo que o ungido é mesmo o senador Aécio Neves (apesar da eloquentemente silenciosa falta de apoio do eterno José Serra), embora o processo de aquecimento das suas turbinas oposicionistas seja de uma lerdeza exasperante, considerando a sua ausência dos debates nacionais que exigem vozes consistentes que digam efetivamente a que vieram e o que querem para o País.

Tanto é verdade que depois do rancoroso pronunciamento da presidente da República, ao anunciar a redução das tarifas de energia ao mesmo tempo em que acusava a oposição de quase crime de lesa pátria, a sua voz de protesto só se fez ouvir timidamente por escrito depois da fria e dura nota escrita pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra.

A oposição sequer teve força de manifestar, com a devida veemência, a sua opinião a respeito da escandalosa intromissão do ex-presidente Lula nos assuntos administrativos da prefeitura de São Paulo e na sua auto-nomeação como coordenador político da base do governo no Congresso.

Lula não suporta o silêncio e não consegue viver sem ser cortejado pelos admiradores de seus poderes para-divinos, que não se envergonham de compará-lo a Deus de maneira tão bajulatória que ele próprio parece ter se convencido de seus poderes extra-terrenos.

Todas as vozes oficiais do governismo saíram a repetir disciplinadamente que a presidente Dilma será candidata à sua própria sucessão, mas ninguém parece ter se dado conta de que a sombra do Criador não desgruda da imagem da Criatura e que isso só faz diminuir-lhe a autonomia e a estatura de estadista que ela possa pretender construir para si.

A fala zangada da TV no dia do anúncio da redução das tarifas de energia foi, inequivocamente, uma reafirmação de sua candidatura.

Resta saber se ela está mais incomodada mesmo com a inoperante e inofensiva oposição ou com a sombra que não larga do seu pé.


Naufrágio tributário


Ives Gandra
O Estado de S. Paulo

Considerar que a função das empresas é gerar receita tributária emperra o país. Dilma deve impor concepção desenvolvimentista à Receita

Talvez um dos principais fatores do fracasso econômico do governo Dilma Rousseff em seus dois primeiros anos -com alta inflação, baixo PIB, um dos últimos lugares em crescimento na América Latina, pouco investimento, perda de competitividade internacional e crescimento da esclerosada máquina burocrática- seja o confuso, arcaico e oneroso sistema tributário.

Mediante ciclópicos autos de infração, a produção de complexas normas auxilia a fragilizar as empresas.

Militando há 55 anos na área fiscal e tendo convivido com os pais do Direito Tributário brasileiro, à época em que as leis eram feitas por juristas e não por “regulamenteiros”, tenho acompanhado a deterioração do sistema.

O cidadão, jamais consultado, vê-se de mais em mais envolvido num emaranhado de leis, portarias, instruções normativas, soluções de consulta. A única certeza que se apresenta é a insegurança jurídica.

Pretende a presidente Dilma atrair investimentos, mas a Receita Federal auxilia a afastá-los, considerando operações suspeitas fusões, incorporações e outras formas de agregação de sociedades. Isso tisna a agilidade competitiva das empresas brasileiras perante aquelas de outros países.

A famosa norma antielisão (LC 104/01), que ainda não foi regulamentada, é, sob disfarces diferentes, amplamente utilizada para inviabilizar tais operações, sob a alegação de que, ao escolher entre duas soluções rigorosamente legais, deve o contribuinte sempre adotar a que se apresentar tributariamente mais onerosa.

Não discuto a idoneidade dos agentes fiscais, mas, sim, a errônea filosofia de que a função da empresa é gerar receita tributária e não provocar o desenvolvimento econômico e social do país. Essa filosofia está emperrando, definitivamente, o governo da presidente Dilma, não só com medíocre performance econômica, mas também com a desestabilização do terceiro setor -que faz o que o governo deveria fazer com nossos tributos-, sendo perseguido pelo poder público como se fosse fonte de receita tributária e não de assistência social e educação.

Participei da comissão de especialistas nomeada pelo Senado para propor uma reformulação do pacto federativo e do sistema tributário. Éramos 13 e, após seis meses de intensos trabalhos, apresentamos 12 propostas de emendas constitucionais, leis complementares, resoluções do Senado e leis ordinárias. Entregues em 30/10/2012 ao presidente do Senado, elas continham soluções para o equacionamento da guerra fiscal, novos critérios para os fundos de participação dos Estados e municípios, para os royalties do petróleo e para a reformulação da partilha tributária.

Apenas no que concerne à guerra fiscal, o governo federal aproveitou as sugestões.

Como o mandato não foi renovado, não pudemos continuar o trabalho para uma reforma tributária completa. Enquanto isso, o país naufraga num sistema que o próprio governo reconhece de há muito ultrapassado.

Na década de 60, no Canadá, a “Royal Comission of Taxation” se voltou a promover justiça social e desenvolvimento por meio de uma política tributária correta, que privilegia esses objetivos em lugar da mera arrecadação. Seu incremento decorre, necessariamente, do atingimento de ambos.

Creio que, se a presidente Dilma não impuser uma filosofia desenvolvimentista à Receita Federal, baseada no modelo canadense, dificilmente sairemos dos últimos lugares de desenvolvimento e seu governo continuará a ostentar um dos piores índices da América Latina, com baixo crescimento e alta inflação.

Um cidadão acima de qualquer suspeita


Marco Antonio Villa
O Globo

São abundantes os indícios que ligam Lula a um conjunto de escândalos. O que está faltando é o passo inicial que tem de ser dado pelo Ministério Público: a investigação das denúncias

Luís Inácio Lula da Silva se considera um cidadão acima de qualquer suspeita. Mais ainda: acha que paira sobre as leis e a Constituição. Presume que pode fazer qualquer ato, sem ter que responder por suas consequências.

Simula ignorar as graves acusações que pesam sobre sua longa passagem pela Presidência da República. Não gosta de perguntas que considera incômodas. Conhecedor da política brasileira, sabe que os limites do poder são muito elásticos. E espera que logo tudo caia no esquecimento.

Como um moderno Pedro Malasartes vai se desviando dos escândalos. Finge ser vítima dos seus opositores e, como um sujeito safo, nas sábias palavras do ministro Marco Aurélio, ignora as gravíssimas acusações de corrupção que pesam sobre o seu governo e que teriam contado, algumas delas, com seu envolvimento direto.

Exigindo impunidade para seus atos, o ex-presidente ainda ameaça aqueles que apontam seus desvios éticos e as improbidades administrativas. Não faltam acólitos para secundá-lo. Afinal, a burra governamental parece infinita e sem qualquer controle.

Indiferente às turbulências, como numa comédia pastelão, Lula continua representando o papel de guia genial dos povos. Recentemente, teve a desfaçatez de ditar publicamente ordens ao prefeito paulistano Fernando Haddad, que considerou a humilhação, por incrível que pareça, uma homenagem.

Contudo, um espectro passou a rondar os dias e noites de Luís Inácio Lula da Silva, o espectro da justiça. Quem confundiu impunidade com licença eterna para cometer atos ilícitos, está, agora, numa sinuca de bico.
O vazamento do depoimento de Marcos Valério – sentenciado no processo do mensalão a 40 anos de prisão - e as denúncias que pesam sobre a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, deixam Lula contra a parede. O figurino de presidente que nada sabe, o Forrest Gump tupiniquim, está desgastado.

No processo do mensalão Lula representou o papel do traído, que desconhecia tratativas realizadas inclusive no Palácio do Planalto – o relator Joaquim Barbosa chamou de "reuniões clandestinas" -; do mesmo modo, nada viu de estranho quando, em 2002, o então Partido Liberal foi comprado por 10 milhões, em uma reunião que contou com sua presença.

Não percebeu a relação entre o favorecimento na concessão para efetuar operações de crédito consignado ao BMG, a posterior venda da carteira para a Caixa Econômica Federal e o lucro milionário obtido pelo banco.

Também pressionou de todas as formas, para que, em abril de 2006, não constasse do relatório final da CPMI dos Correios, as nebulosas relações do seu filho, Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, e uma empresa de telefonia.

No ano passado, ameaçou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Fez chantagem. Foi repelido. Temia o resultado do julgamento do mensalão, pois sabia de tudo. Tinha sido, não custa lembrar, o grande favorecido pelo esquema de assalto ao poder, verdadeira tentativa de golpe de Estado.

A resposta dos ministros do STF foi efetuar um julgamento limpo, transparente, e a condenação do núcleo político do esquema do mensalão, inclusive do chefe da quadrilha – denominação dada pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel – sentenciado também por corrupção ativa, o ex-ministro (e todo poderoso) José Dirceu, a 10 anos e 10 meses de prisão. Para meio entendedor, meia palavra basta.

As últimas denúncias reforçam seu desprezo pelo respeito às leis. Uma delas demonstra como sempre agiu. Nomeou Rosemary Noronha para um cargo de responsabilidade. Como é sabido, não havia nenhum interesse público na designação.

Segundo revelações divulgadas na imprensa, desde 1993 tinham um "relacionamento íntimo" (para os simples mortais a denominação é bem distinta). Levou-a a mais de duas dúzias de viagens internacionais – algumas vezes de forma clandestina -, sem que ela tenha tido qualquer atribuição administrativa.

Nem vale a pena revelar os detalhes sórdidos descritos por aqueles que acompanharam estas viagens. Tudo foi pago pelo contribuinte. E a decoração stalinista do escritório da presidência em São Paulo? Também foi efetuada com recursos públicos.

E, principalmente, as ações criminosas dos nomeados por Lula - para agradar Rosemary – que produziram prejuízos ao Erário, além de outros danos? Ele não é o principal responsável? Afinal, ao menos, não perguntou as razões para tais nomeações?

Se isto é motivo de júbilo, ele pode se orgulhar de ter sido o primeiro presidente que, sem nenhum pudor, misturou assuntos pessoais com os negócios de Estado em escala nunca vista no Brasil. E o mais grave é que ele está ofendido com as revelações (parte delas, registre-se: e os 120 telefonemas trocados entre ele e Rosemary?).

Lula sequer veio a público para apresentar alguma justificativa. Como se nós, os cidadãos que pagamos com os impostos todas as mazelas realizadas pelo ex-presidente, fossemos uns intrusos e ingratos, por estarmos "invadindo a sua vida pessoal."

Hoje, são abundantes os indícios que ligam Lula a um conjunto de escândalos. O que está faltando é o passo inicial que tem de ser dado pelo Ministério Público Federal: a investigação das denúncias, cumprindo sua atribuição constitucional.

Ex-presidente, é bom que se registre, não tem prerrogativa de estar acima da lei. Em um Estado Democrático de Direito ninguém tem este privilégio, obviamente. Portanto, a palavra agora está com o Ministério Público Federal.

Dilma erra ao explorar energia como tema político


Editorial 
O Globo 

A redução das tarifas é bem-vinda porque aumentará a competitividade do país, e não fazia sentido o consumidor arcar com tantos encargos

A redução do custo da energia elétrica, especialmente para o setor produtivo, é bem-vinda, pois a população como um todo se beneficiará à medida que as empresas ganhem mais competitividade. Não faz sentido que esse custo tenha permanecido entre os mais elevados do mundo, tendo o Brasil uma matriz de base hídrica, renovável, e com manutenção relativamente barata.

O consumidor brasileiro de energia elétrica financiou por décadas vários programas, sejam sociais ou relacionados a novos investimentos do setor. Estava mais que na hora de reduzir esses encargos.

O que não é correto é o governo ter transformado a questão da energia, tão séria e delicada para o país, em tema de exploração política. Desde as eleições gerais de 2002, ocorre esse tipo de exploração, pois o PT fez do racionamento um dos seus principais cavalos de batalha, atribuindo à administração Fernando Henrique Cardoso inteira responsabilidade pelo que tinha acontecido (embora a mobilização da sociedade para evitar consequências mais drásticas de uma eventual escassez de energia elétrica possa ser apontada como uma das inciativas mais positivas do governo FH ao fim de seu mandato).

Agora, o governo Dilma esteve próximo de provar do mesmo veneno. O lado negativo de ser uma matriz calcada em base hídrica é que, se das chuvas não veem nas quantidade, nos lugares certos e no tempo usualmente esperado, o sistema começa a entrar em risco. Para que se possa reduzir esse risco, mas sem anulá-lo completamente, o país deve ter também uma parte de sua matriz em base térmica, que pode ser acionada independentemente do regime de chuvas.

No entanto, o acionamento dessa base térmica aumenta o custo da geração de energia elétrica. Diante do nível ainda baixo dos reservatórios das hidrelétricas, é natural que hoje se trabalhe com projeções do custo de energia que incorporem a possibilidade de uso mais prolongado das usinas térmicas. Isso talvez possa frustrar, em parte, o anúncio da redução das tarifas de energia feito com toda a pompa antes de iniciado, meses atrás, o chamado período úmido. Como em janeiro as chuvas caíram em volume suficiente para elevar o nível dos reservatórios — porém não a ponto de afastar completamente a necessidade de uso prolongado das térmicas —, a presidente Dilma se sentiu encorajada a voltar à exploração política da questão da energia, antecipando a redução de tarifas prometida ao consumidor, e acusando de pessimistas e alarmistas — em um tom apelativo, beirando o sentimento de patriotismo a que governos autoritários militares recorriam com frequência — aqueles que revelam preocupação, não infundada, com o setor.

A redução dos custo da energia é mérito do governo Dilma. E é demérito continuar explorando politicamente a questão, que não se equaciona com bravatas nem com injeções sem fim de dinheiro do Tesouro. 

O império da lei e a esculhambação reinante no Brasil


Sandra Starling
Tribuna da Imprensa

Recebo e-mail saudando minha posição contra aqueles que aceitam o jugo dos tiranos na América Latina. A bem da verdade, há muito, penso assim e provei-o de várias maneiras ao longo de minha vida, inclusive dentro de meu antigo partido. E só não me estendi mais sobre a temática – presente também em todas as tentativas de implantação do socialismo no mundo até hoje – porque não tenho espaço suficiente para isso neste jornal.

Hoje quero tratar de outro aspecto presente no cotidiano da vida dos brasileiros em geral e, para espanto de alguns, algo que tanto pode atingir o pobre (com mais amplitude, é verdade), quanto o rico. Refiro-me ao desrespeito às leis. Claro que vou começar pelo mais conhecido: a violação dos direitos dos consumidores. Nos Procons pelo Brasil afora, avultam campeões, como as telefônicas e os bancos, mas basta ir a uma loja ou contratar uma pessoa para um pequeno reparo em sua residência para estar diante da cara de pau dos que nos vendem mercadorias ou nos prestam serviços.

O bombeiro chega em sua casa, simula um conserto necessário e arranca, de uma tabela que só ele conhece, o preço “da visita”, eufemismo já consagrado para camuflar as intermináveis lutas que todos temos para obter o mínimo de atenção a preços exorbitantes.

O consumidor adentra uma loja como rei e sai como lacaio. Desde que tenha aberto a carteira e pago à vista ou no crediário, adeus respeito: prazos de entrega ficam ao bel-prazer da empresa vendedora, defeitos visíveis não ensejam a pronta devolução da mercadoria, trocas são um verdadeiro martírio para quem delas precisar. Empresários se queixam sobre os “apadrinhamentos” que precisam obter caso sejam credores da União, Estados ou municípios, ou se somente precisam de um documento capaz de liberar sua atuação em determinado ramo de negócio.

OS SÍNDICOS…
O problema dos síndicos, de maneira geral, é uma calamidade pública: a partir do momento em que são investidos em suas funções, tornam-se pouco mais que vice-reis no pedaço. Mandam e desmandam, cumprem ou descumprem decisões de assembleias, e tudo fica por isso mesmo. No caso, a maioria dos condôminos não quer ou não tem tempo de se tornar síndico, e não se usa de fato o direito de escolha de alguém de fora porque isso custa dinheiro.

Constato que nem sequer são cumpridos os requisitos da feitura de simples inventários: pagos os impostos e emolumentos devidos, ninguém registra os novos proprietários de imóveis herdados do “de cujus” e fica por isso mesmo. Agora ando às voltas com problemas de locação porque tentam me tirar de imóvel locado sem a menor observância de prazos e com absurda elevação de preço. Haja paciência.

Por isso, gostaria que interessados me escrevessem caso precisem dos serviços de marcenaria: nessa esculhambação toda, acabei de ter maravilhosa experiência com empresa cuja propaganda reservadamente me disponho a fazer. Podem me enviar e-mail. Só não posso, creio, dar o nome aos bois pelo jornal.

Começou a campanha


O Estado de S. Paulo 

A presidente Dilma Rousseff acaba de fazer o seu primeiro comício para a reeleição. Ao anunciar em cadeia nacional de rádio e TV, na quarta-feira, a entrada em vigor, no dia seguinte (e não mais em 5 de fevereiro), da redução das tarifas de energia elétrica, maior do que a antecipada - 18%, em vez de 16,2%, para os consumidores residenciais e 32%, em vez de 28%, para a indústria -, discursou como se estivesse em um palanque. A sua fala até que foi breve (8 minutos), mas suficiente para cobrir de lantejoulas as supostas realizações de seu governo, que estariam deixando "para trás" os seus críticos, carimbados rombudamente como "aqueles que são sempre do contra". Lembrou, na ênfase, nas alegações e no descaso com a realidade, o seu patrono Luiz Inácio Lula da Silva: por pouco não se saiu literalmente com um "nunca antes na história deste nosso país". Ficou no "hoje podemos ver como erraram feio os que não acreditaram que era possível crescer e distribuir renda", e na apoteose de um Brasil "cada vez maior e imune a ser atingido por previsões alarmistas", tanto que "nos últimos anos o time vencedor tem sido dos que têm fé e apostam no País". O microfone, assim como o papel, aceita tudo.

Alheia ao pibinho de 2012 e à comparação desfavorável com as taxas de crescimento das economias emergentes, também torceu os fatos sem enrubescer, ao assegurar que "estamos ampliando investimentos na infraestrutura" - cujo montante caiu mais de 20% nos dois últimos anos.

Fez de conta que a ampliação do sistema energético não padece de atrasos perigosos e deficiências cruciais, e minimizou o significado da decisão de recorrer intensivamente à eletricidade de origem térmica, mais cara e poluente, para reduzir o risco de "apagões". Não fosse a quase estagnação da economia, a oferta de energia dificilmente daria conta da demanda. Por outro lado, cumprir a promessa de não sangrar o Tesouro para compensar a redução das contas de luz equivalerá à proverbial quadratura do círculo. Sem falar nos prejuízos causados ao setor elétrico pela medida provisória, sancionada no último dia 14, que autorizou a renovação dos contratos de geração de energia em vias de se esgotar para as empresas que concordassem em baixar as suas tarifas. A Cemig e a Cesp não aceitaram, sobrando para o erário bancar a bondade para os consumidores de Minas Gerais e São Paulo.

Deixando patente o caráter eleitoral do seu show televisivo, Dilma se referiu à questão de forma a deixar mal os governos tucanos desses Estados. "Espero que, em breve, até mesmo aqueles que foram contrá- rios à redução da tarifa venham a concordar com o que estou dizendo", fingiu exortar, com ar superior.

Dilma, efetivamente, está cheia de si. Há pouco, segundo o repórter Raymundo Costa, do Valor, disse com todas as letras a um interlocutor: "Meu mandato é de oito anos".

Ele teria ficado perplexo com a determinação da presidente. Com isso, Dilma deixou escancarado o seu confronto com o PT - recentemente vencido por ela - sobre a sucessão de 2014. À medida que foram se acumulando as suas não realizações, embora ainda não tenham afetado os seus índices de aprovação, que se sustêm no binômio emprego-renda, a eventualidade de uma nova candidatura Lula começou a ganhar corpo no partido. Nos últimos tempos, não foram só empresários os queixosos que procuraram o ex-presidente. Companheiros fizeram o mesmo, decerto na expectativa de animá-lo a substituir Dilma, que eles ainda mal consideram "uma de nós", na próxima disputa pelo Planalto.

Sem se tornar, ao que se sabe, um movimento estruturado, a versão contemporânea do "queremismo" pró-Vargas de 1945 ganhou espaço político a ponto de induzir o próprio Lula a se pronunciar a respeito. Fez isso, dias atrás, por intermédio de três colaboradores próximos, aben- çoando a reeleição de Dilma. A rigor, quando ela falou em oito anos, deveria acrescentar "com uma elei- ção no meio". Mas a mensagem que buscava transmitir era a da legitimidade de suas aspirações ao segundo mandato, reconhecidas ao que tudo indica.

O ano terá de ser de muitos fracassos para que ressurja entre os petistas o "Volta, Lula".