segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Ideologia política - partidária não combina com Magistério

Adelson Elias Vasconcellos

Na edição deste domingo, publicamos três artigos sobre o tema Educação. Em todos, há uma terrível coincidência: o descaso com que o tema é tratado no Brasil. E não apenas pela classe política, como comumente se tenta impor. O descaso e o despropósito provém de todos os envolvidos.

E, em todos os artigos, as abordagens e os diagnósticos não fogem de tudo quanto este espaço vem afirmando ao longo do tempo.

Não faz muito, numa abordagem específica, apontamos o grande mal que a presença de sindicatos e associações de classes têm feito não apenas para a categoria, mas o enorme erro que comete uma grande maioria de professores que, se vale destas entidades, para misturar educação com política rasteira.

Não estou, é bom que fique claro, afirmando que a classe não possa ser representada por associações agregadoras. Nada disso. O que está errado no processo é sindicato agir como partido político, revestir-se de ideologias políticas porque, ao assim procederem, tiram de si mesmo a necessária isenção que se lhes é pedida no exercício de sua tarefa profissional.

Também aqui ficou claro que, a partir do momento em que a categoria de professoras se deixou influenciar e contaminar com este ranço, coincidência ou não, a categoria, como um todo, perdeu consistência, relevo e valorização.

O caso recente havido em São Paulo, quando “professores’ submetidos a provas de avaliação, simplesmente tiraram zero, e a reação estúpida de seu sindicato de recorrer à justiça para, através de uma liminar, garantir que incompetentes, desqualificados e iletrados continuem lecionando, é de uma estupidez que não encontra paralelo no mundo. Não no mundo civilizado, pelo menos. Pior ainda, foi o tal senso de justiça emanado de um magistrado, na concessão da liminar.

E nem se venha alegar que, nos exames, algumas questões foram propostas com erros de português em seu texto. Não invalida a incompetência grosseira de quem sequer acertar uma única e miserável das questões propostas, nem nas que não se constatou erro algum.

Mais recentemente, o CEPERS, Rio Grande do Sul, conseguiu ir mais além em sua estupidez.

Leiam o texto seguir. Comentaremos depois.

Cpers acusa Yeda em outdoors contra corrupção
Os outdoors espalhados pela Capital que dizem mostrar a "face da corrupção" serão estampados por uma foto da governadora Yeda Crusius. A revelação foi feita nesta quinta-feira pelo Cpers, que, juntamente com outros nove sindicatos do funcionalismo, bancou a manifestação.

Desde o início do mês, centenas de outdoors foram distribuídos em diversos pontos de Porto Alegre, trazendo um rosto desfocado com frases que faziam menção à corrupção. Agora, além do retrato da governadora, a campanha terá a frase "Essa é a face da destruição do RS. Ela não pode continuar. Fora Yeda".Em carta distribuída às empresas de publicidade que atuaram na campanha, o chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel, informou que o governo poderá acionar a Justiça em razão do tom de desmoralização dos painéis.

Piratini entra com ação contra outdoors de sindicatos
A governadora Yeda Crusius informou na manhã desta sexta-feira que o Piratini já entrou com uma ação de representação criminal contra a campanha revelada na quinta-feira pelo Cpers e por outras nove representações sindicais. Segundo Yeda, a propaganda é ofensiva e pode ser considerada como campanha política antecipada. "Sou representante do povo gaúcho, que não merece passar por isso", alegou.

Em diversos outdoors espalhados pela Capital, uma foto da governadora é acompanhada pela frase "Essa é a face da destruição do RS. Ela não pode continuar. Fora Yeda". Desde o fim de janeiro, os mesmos painéis contavam com um rosto desfocado e frases que faziam menção à corrupção.

Partidos divulgam nota de apoio a Yeda após campanha de sindicatos
Líderes dos seis partidos políticos aliados do governo do Estado (PSDB, PP, PMDB, PPS, PTB e DEM) divulgaram na noite de sexta-feira uma nota de solidariedade à governadora Yeda Crusius em razão da campanha promovida por 10 sindicatos que atribuem a ela a "face da destruição do RS".

"O povo gaúcho não está acostumado com campanhas publicitárias despropositadas, agressivas e com cunho político eleitoral patrocinadas por direções de categorias sindicais", afirma o comunicado. Na nota, os líderes partidários declaram repúdio ao episódio, considerando "a violência das manifestações com conteúdo ofensivo e ideológico".

Seja o que for, mas sendo uma associação que diz representar uma determinada categoria profissional, a partir do momento em que se deixa transformar em um esbirro de partido político como o CPERS há muito tempo já se transformou, assumindo viés ideológico, o que é pior, de uma ideologia que o mundo civilizado já sepultou, esta tal “associação” se travestiu em centro de canalhas e transmudou-se para outro universo de representatividade.

Esquece o CPERS em que estado falimentar a governadora encontrou o Executivo estadual? Esquece a herança maldita legada por Olívio Dutra (PT), que simplesmente quebrou a economia gaúcha, e a tal ponto que o povo não lhe deu uma segunda chance justamente para não tornar a situação pior do que já estava? Esquece o CEPERS que, apesar das dificuldades, a economia se recuperou e as finanças foram reequilibradas? É claro que a turma do CPERS conhece bem a situação e, se fatos localizados de má gestão foram cometidos por alguns de seus auxiliares, a governadora os afastou para que respondam, na forma lei, as acusações existentes.

Há sim um enorme desejo do CPERS de alavancar para o governo do estado, novamente, uma candidatura petista, como se a embalagem pudesse garantir a qualidade do produto!

Retomo o ponto: compete a qualquer associação que diz representar a categoria de professores, lutar para mudar as condições precárias de ensino no país, e não agir, como se vê em São Paulo e no Rio Grande do Sul, como braço intelectualizado de um partido político. Se quer atuar no campo político, pois bem, mudem de profissão, e deixem as salas de aula destinadas aqueles que, realmente, respeitam, dignificam e elevam sua atividade didática.

Há muito para ser feito para que a Educação brasileira possa formar cidadãos aptos a comandar, com competência, o futuro do país, seja atuando na vida privada ou pública. Esta atuação deve envolver a todos, alunos, professores, poder público, pais, diretores de escola e qualquer outro profissional ligado ao magistério.

Contudo, sem que os profissionais de ensino se habilitem com a dedicação, competência, preparo e responsabilidade que lhes é exigida, nada se conseguirá. Como também não se pode fornecer a quem não freqüenta as salas de aulas com a presença mínima que se requer, e o não faz com a qualificação indispensável, que se lhe forneça iguais ganhos de outros que agem com responsabilidade, qualificação e dedicação.

Portanto, está na hora da categoria, onde pontificam profissionais dedicados e exemplares, conquistarem o respeito da sociedade pelo trabalho competente, e não no grito, não nos campos da atuação partidária, porque, neste caso, estarão atuando em outro campo profissional. Melhor fariam se mudasse de profissão.

E, como demonstramos, historicamente, a que levou a Educação brasileira a atuação partidária das entidades representativas dos profissionais de ensino? A tornar o ensino brasileiro em 2007, pior do que fora em 1995, e isto é um fato comprovado, e, em conseqüência, a perda da excelência profissional que a categoria um dia gozou.

Portanto, se é a busca de recuperação, que a categoria já teve, o que interessa, que ela, então, postule de suas entidades, associações e sindicatos livrarem-se, com urgência, primeiro, do ranço ideológico com que se revestiram nestes anos todos. Que tratem de exigir de cada professor ou professora que respeitem a seriedade que a profissão lhes exige, se comportem com a mesma responsabilidade que dizem cobrar dos governantes, e, acima de tudo, que respeitem as instituições do país. A governadora Yeda Crusius foi eleita legitimamente pela maioria do povo gaúcho, em eleição livre e direta. Deste modo, que o CEPERS respeite a vontade popular em primeiro lugar, deixe de se converter em antro de canalhas e adoradores de ranços ideológicos e passe a agir com maturidade e ética profissional. Não há outro caminho para valorizar os profissionais que diz representar. E, a saber, o CEPERS, pelo menos no papel, representa a categoria de professores, e não os políticos, tenham estes a ideologia que tiverem.

Um governo de vira-latas

Adelson Elias Vasconcellos

Antes que qualquer investigação sobre o caso pudesse concluir qualquer coisa, apenas confrontado diante da notícia de que uma brasileira havia sido atacada por 3 bestas humanas na Suíça, Lula saiu dizendo que governo não iria se calar sobre agressão de brasileira na Suíça. No dia seguinte, quando já se noticiava de que a versão da advogada brasileira poderia ser falsa, Lula mudou discurso e diz que não quer se aprofundar no caso. E é aqui que reside um dos grandes erros deste governo, ele não gosta de se “aprofundar” sobre fatos desabonadores de sua conduta. Prefere manter tudo na superficialidade. Ou seja, não quer divulgação, quer os companheiros envolvidos impunes.

No artigo que publicamos sobre fato, já no primeiro parágrafo indicávamos o que deveria prevalecer no caso, isto é, tratava-se de um ato isolado, eventual, ao contrário do que se passa no Brasil que se matam, se seqüestram, se mutilam, se assaltam, se estupram se torturan dezenas de estrangeiros todos os anos, numa rotina miserável e vergonhosa. E, nem por isso, os povos que têm cidadãos seus vitimados pela violência brasileira, saem por aí acusando o povo ou governo brasileiros de xenófobos

Afirmamos, e não retiro uma vírgula sequer da afirmação, sobre o por quê da posição extremada do governo e do Itamaraty em relação ao episódio: entenderam ser uma excelente oportunidade para se livrarem da acusação que a Europa (não só a Itália não!) faz ao governo brasileiro no caso do refúgio concedido ao italiano Cezare Battisti, Estupidez e imbecilidade quando se juntam, formam um casamento perfeito de idiotia. Foi o caso de Lula e Celso Amorin.

Situações como estas exigem certa decoro, certa prudência de parte das autoridades. Não pode um governo sério sair por aí atacando governos e países de forma leviana como se fez, e em casos de inquérito policial ainda mais quando as investigações são preliminares. Não existe xenofobia em relação aos brasileiros, existe, sim, uma certa apreensão para que sejam recebidos em determinados países. Nem como preconceito se pode classificar. Quem sabe como os brasileiros se comportam mal (alguns, não atodos, mas em bom número), conhece bem o drama. Na França, na Inglaterra e na Espanha, nestes três principalmente, mas também na Itália e na Alemanha, têm sido como inúmeras quadrilhas de falsificadores serem desbaratadas, com a forte presença de brasileiros. Além disto, provém do nosso país cerca de 75% da droga que entra na Europa, como não custa lembrar da presença de brasileiros nas quadrilhas de tráfico humano, muito embora, neste caso, a África tem sido imbatível.

Há milhares de brasileiros, contudo, que se encontram na Europa na condição de trabalhadores e estudantes e que se comportam com dignidade. Alguns, inclusive, fazem questão de não exibirem explicitamente sua nacionalidade, em razão do grande número de baderneiros que enxovalham o país. Sentem-se envergonhados pelo comportamento imbecil e até primitivo de seus conterrâneos.

Agora, o Itamaraty se intromete, de novo, para, antes do processo ser aberto pelas autoridades suíças contra a brasileira, com o intuito de trazê-la de volta. Nova estupidez. É o mesmo que assinar um ato de confissão plena de que suas acusações foram mentirosas.

Não podemos, sem que a investigação chegue a conclusões finais, julgar e condenar quem quer que seja, nem a brasileira nem,muito menos, as autoridades suíças. Contudo, é preciso saber que, em países civilizados, não pode infringir as leis impunemente, tal como aqui no Brasil se faz no dia a dia.

Lula e Amorin, e isto ficou bem claro em nosso artigos sobre Cezare Battisti, ao procederem da forma imprudente como fizeram, abriram um perigoso precedente cujo prejuízo maior cairia sobre os ombros dos milhares de brasileiros estudantes, trabalhadores e residentes no exterior.

É constrangedor ver um governo que se mostra tão servil para caudilhos latinos que nos expropriam propriedades de empresas nossas, que se dirigem às nossas instituições de forma agressiva e ofensiva, que permite que brasileiros seja presos sem processo e sem justificativa, para, em contrapartida, partirem para o enfrentamento contra nações democráticas e onde vigora o pleno estado de direito, como se faz com Estados Unidos, Itália e agora a Suíça. Há sim, de parte deste governo que aí está, uma elevadíssima dose de xenofobia contra países dito civilizados, os EUA, principalmente. Porém, se mostram cordeirinhos diante do genocídio no Sudão, ou se declaram aliados de ditadores sanguinários como Fidel Castro, ou caudilhos inconseqüentes como Chávez, Morales e Correa.

Claro que tais figuras, ridículas e ordinárias, são temporárias na vida pública dos países que governam. Cedo ou tarde serão apeados do poder. Contudo, as conseqüências de seus atos irresponsáveis serão resgatados justamente por aqueles que nada tem a ver. Há muito tempo venho alertando de que a imagem externa de Lula está se deteriorando rapidamente lá fora, apesar de muitos acharem que Lula é o mais respeitado de todos os presidentes brasileiros, internacionalmente. Mentira. Se, de alguma forma, sua imagem ridícula era um tanto dissimulada pela opinião internacional, suas últimas atitudes serviram para intensificar a “má impressão” que, ao longo de seu governo, foi sendo formada. Contudo, que fique claro: esta má impressão nada tem a ver com preconceito, e sim, pela sua ação ridícula de governar, pelas atitudes e declarações estúpidas que faz, tanto ele quanto Amorin.

Como alguém já disse há muito tempo atrás, não se consegue enganar a todos por todo tempo. É este o caso.

Quanto a brasileira Paula de Oliveira, qualquer conclusão agora será precipitada. Que as investigações sigam seu curso normal e, se ao cabo delas, se concluir que sua versão era verdadeira, ainda assim, o governo brasileiro deve um pedido de desculpas ao governo e ao povo suíços. E que fique claro: são atitudes intempestivas deste naipe que demonstram, claramente, o quanto não merecemos a tal cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Se antes isto já seria uma idéia absurda, agora, para a segurança mundial, é bom nos mantermos longe dela. Porque o certo é que, seja Paula culpada de fraude ou, de fato, vítima na forma como divulgou e acusou, o governo brasileiro se comportou como verdadeiro vira-lata. E, nesta condição, falta-lhe postura moral para julgar quem quer que seja.

Falência educacional: complô ou lógica?

Gustavo Ioschpe, Revista VEJA

"Quem coloca seus filhos em escolas particulares (12% do total das matrículas da educação básica) comete um grave equívoco: acredita que essas escolas são boas apenas porque são melhores do que as escolas públicas. Assim, despreocupa-se da educação dos filhos e da qualidade da escola pública"

Quando se fala em educação no Brasil, algo não faz sentido. Todos exaltam o benefício da educação e apontam-na como a solução de nossos problemas. Todos parecem engajados em sua melhoria. Apesar desse consenso e da boa vontade, nossas escolas patinam, e sua qualidade só tem decaído. Para explicar essa curiosa dissonância, era comum ouvir, dez anos atrás, a ideia de que nosso fracasso na área se devia à falta de "vontade política" de nossos governantes, ou ainda ao complô das elites pela alienação do proletariado, ou, finalmente, às imposições do Fundo Monetário Internacional (FMI), que supostamente exigia o corte de gastos na educação em seus acordos com o país.

De lá para cá, os dotados de "vontade política" chegaram ao poder, as elites de antanho deram lugar à república dos sindicalistas e o Brasil já não precisa mais da tutela do FMI, ao qual não deve nada. Mas a melhora esperada não veio. O resultado do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2005 é mais baixo que o de 1995. Apesar disso, o discurso da área educacional continua o mesmo. Será que eles estão certos, e que há um complô tão poderoso a favor da nossa ignorância que nem os próprios atores da nossa tragédia percebem a sua insignificância? Estariam as "forças ocultas" de Jânio Quadros rondando novamente os palácios, de onde talvez jamais tenham saído? Ou será que nosso atraso é mais compreensível à luz de uma análise racional dos envolvidos na área, presumindo-se que eles agem de maneira lógica e maldosa? Creio que a segunda hipótese é a mais provável: nossa inércia é compreensível se entendemos a economia política dos grupos envolvidos.

Comecemos pelos alunos. Eles aprendem muito pouco, e são os maiores interessados em seu próprio sucesso acadêmico. Por que não protestam? Há, em primeiro lugar, a questão etária: não é possível imaginar que crianças de 10 ou 12 anos se mobilizem em passeata pública por um ensino de melhor qualidade. Quando os alunos se dão conta das deficiências do seu ensino, costuma já ser tarde demais, e a própria carência educacional dificulta a reclamação: é improvável que um semiletrado escreva um artigo cativante ou uma carta pungente ao seu congressista. Em segundo lugar, os alunos são condicionados pelo seu sistema de ensino a acreditar que o culpado pelo insucesso do aluno é ele mesmo. Nessa missão, seus mestres são extremamente efetivos: em pesquisa recente da Unesco, 82% dos alunos ouvidos dizem que, se o aluno não passa de ano, a culpa é sua, muito mais que da escola (mencionada por apenas 5%) ou dos professores (3,7%). Para piorar, os próprios pais culpam o filho pelo insucesso na escola: pesquisa publicada no livro A Escola Vista por Dentro indica que 63% dos pais da escola municipal e 54% dos da estadual culpam o filho por sua repetência. Cercados por esse mar de desconfiança e assolados pelo próprio desconhecimento, os alunos protestam mais com os pés que com a cabeça: quando entendem que a escola lhes consome muito tempo sem dar muito em troca, abandonam-na.

O FMI SE FOI
E as elites saíram do poder, agora ocupado por governantes com "vontade política", mas a esperada melhora da educação não veio

O próximo grupo de interessados pela educação é o dos pais dos alunos. Por que eles aceitam bovinamente uma péssima educação para seus filhos? Aqui devemos dividir esse universo em dois: há o grupo de classe média e alta, que coloca os filhos em escola particular, e o restante da população, que usa a escola pública.

Quem coloca seus filhos em escolas particulares (12% do total das matrículas da educação básica) comete um grave equívoco: acredita que essas escolas são boas apenas porque são melhores que as escolas públicas. Assim, despreocupa-se da educação dos filhos e da qualidade da escola pública. O problema é que a escola particular é também muito ruim – basta ver os resultados dos alunos de alto nível socioeconômico em testes internacionais como o Pisa, em que nossos alunos ricos têm desempenho pior que o dos alunos mais pobres dos países desenvolvidos. E o segundo problema é que, como a escola pública forma, via de regra, os professores da escola particular, enquanto não melhorarmos todo o sistema, não teremos educação de qualidade para ninguém. Mas os pais das escolas particulares não entendem isso; afastam-se da questão educacional por acreditar que essa problemática não os afeta.

Esperar-se-ia, porém, que os pais de alunos da escola pública (os outros 88% das matrículas) estivessem profundamente descontentes com a educação dos filhos e bradando por sua melhoria. Mas não estão: as pesquisas apontam que, pelo contrário, estão satisfeitos com a escola das crianças. Essa visão não é causada por preguiça ou desinteresse, mas por despreparo. Pesquisa do Inep mostrou que quase 60% dos pais do ensino público não completaram nem o ensino fundamental, 73% têm renda inferior a três salários mínimos, três quartos nunca ou raramente leem jornal. Pesquisas qualitativas mostram que esse pai compara a escola da sua época – em que faltava vaga, não havia merenda nem transporte – com a escola do filho. Vendo todas as benesses materiais que o filho recebe, associa-as a uma educação de boa qualidade. Reclama quando o professor falta à aula, mas é só. Se o pai acha a escola boa e o filho vai mal, então é natural que o pai culpe o filho e exima a escola, perpetuando o sistema roto.

Depois dos pais, temos os diretores escolares. Destes, segundo o MEC, 60% são indicados pelo Poder Executivo de sua cidade ou estado. Menos de 10% são concursados, outros 19,5% são eleitos. É provável que a maioria, indicada por políticos, não esteja disposta a bancar grandes revoluções em suas escolas, que poderiam levar à sua destituição – especialmente se prescrevessem aos seus professores as medidas impopulares que estão associadas ao melhor desempenho acadêmico, como uso constante de dever de casa, avaliação de alunos, redução do absenteísmo docente, uso intensivo de material didático e utilização do tempo de aula para tarefas expositivas, e não cópia do quadro-negro ou realização de exercícios. A maioria dos diretores é composta de ex-professores, o que reforça o corporativismo, e não há no Brasil instituições de ensino que preparem uma pessoa para o ofício de diretor escolar, de forma que mesmo os diretores bem-intencionados são frequentemente despreparados.

Vejamos o professor. Por que ele não produz uma educação de melhor qualidade? Em primeiro lugar, porque não consegue. O professor brasileiro tem uma péssima formação e não é preparado para encarar uma sala de aula do Brasil real, especialmente em áreas de vulnerabilidade social. Em segundo lugar, porque é tomado por um viés ideológico que torna o sucesso acadêmico insignificante. Em pesquisa da Unesco, só 8,9% dos professores indicaram "proporcionar conhecimentos básicos" como uma das finalidades importantes da educação. "Formar cidadãos conscientes" ficou com 72,2% das preferências. Confrontados com o seu fracasso, então, nossos professores têm duas respostas-padrão: ou culpam o aluno e seus pais, ou culpam a visão neoliberal e reducionista de quem reclama da escola que forma analfabetos, porque a educação "é muito mais do que isso".

Finalmente, chegamos à última peça dessa engrenagem, aquela que é paga e eleita para administrar o sistema e zelar pelo bem comum: os políticos. Se o político for desonesto, a educação será um ótimo lugar para tirar dinheiro: não só concentra uma parte grande do orçamento (no mínimo 25%) como ainda é cheia de transferências do governo federal. Tem uma grande vantagem: se o sujeito rouba da saúde e faltam remédios ou médicos, a população chia; se rouba dos transportes e faltam ônibus, os eleitores reclamam; se rouba da educação e os alunos não aprendem, ninguém se importa. Mas, mesmo que o político seja honesto e comprometido com o progresso da sua região, é confrontado com uma decisão indigesta: se ele quiser mesmo reformar seu sistema educacional, terá de parar de investir em merenda ou em prédios e investir na formação de diretores e professores, terá de cobrar o seu desempenho, terá de mobilizar pais e alunos, terá de remanejar professores e funcionários incompetentes. Tudo isso causa desconforto. Se a experiência de estados reformistas na área, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais ou Sergipe, servir de exemplo, o descontentamento descambará em greve. Os professores são uma das categorias profissionais mais numerosas e vocais em suas reclamações. Os beneficiários dessas reformas mal sabem que têm um problema e, portanto, não reconhecerão a melhoria. Se tiverem de deixar de trabalhar para cuidar dos filhos sem aula por causa da greve, perigam ser contrários às reformas. O lógico, nesse caso, para os políticos, é fazer o quê? Exatamente: nada. Assim vamos ficando, ano a ano, mais ignorantes e despreparados.

Guerra em duas frentes

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Além de bombardear o idioma, Lula agora ataca também a estatística

Há mais de 30 anos no comando da guerra contra o idioma, o presidente Lula animou a pajelança dos prefeitos, primeiras-damas e parentes a serviço do interiorzão brasileiro com o improviso que anunciou a abertura de uma segunda frente de combate. Sem abrandar a ofensiva planejada para consumar o extermínio do plural, a capitulação da gramática e a rendição da linguagem culta ao português de quem sabe o que é sifu na vida, Lula chamou para a briga a estatística, a matemática, a porcentagem e a arte de calcular.

Cabelos em desalinho, o rosto colorido por diferentes matizes de vermelho que denunciam almoços que matam a sede, a camisa e a calça inundadas pela catarata de suor, o Terror das Vogais e das Consoantes guardou a declaração de guerra para o trecho do discurso ocupado pelo relatório sobre o analfabetismo concluído recentemente por especialistas do Ministério da Educação. De repente, Lula interrompeu a procissão de cifras e dedicou alguns segundos de silêncio à surpresa causada por alguma descoberta.

Recuperada a voz, caprichou na cara de espanto e soltou a notícia simultaneamente boa (para o orador e seus devotos) e ruim (para o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab, logo ali ao lado, e os oposicionistas em geral). "Pasmem, caiam de costas, Kassab, porque você não sabia e eu não sabia", tentou Lula disfarçar a alegria.

O primeiro tiro avisou que quem puxou o gatilho do trabuco na mão esquerda foi o Flagelo das Concordâncias Verbais. "No Estado de São Paulo", mandou bala na estatística o tresoitão disparado pela mão direita, "nós ainda temos 10% de analfabetos, o estado mais rico da Federação". Simulando tristeza, o pistoleiro ambidestro consolou os feridos com outro plural tão sincero quanto vereador em campanha: "Nós erramos em alguma coisa". Nós? "Na primeira do singular! Na primeira do singular!", teria berrado algum prefeito se não estivessem todos interessados só em saber quando vai chegar o dinheiro do PAC. Nós estamos fora dessa. Quem errou foi o improvisador.

Por não ler nem legenda de filme, Lula sabe ler porcentagens. Por não fazer contas sequer no canhoto do talão de cheques, o maior governante desde as caravelas não sabe calcular. Por não dar atenção a sugestões, lembretes e conselhos murmurados por assessores, ninguém se atreveu a avisar a tempo que é de 4,6% a taxa de analfabetismo registrada em São Paulo. Como o estado concentra 22% do total da população, o índice representa 10% do total de analfabetos espalhados pelo Brasil.

Se falasse menos e pensasse mais, se viajasse menos e estudasse mais, se tratasse com mais compaixão as letras, os números e os brasileiros que nunca se renderão à Era da Mediocridade, Lula se pouparia de maluquices, equívocos e confusões bisonhas como as berradas na terça-feira. "A imprensa parece achar que todos os prefeitos são ladrões", imaginou um trecho do que pareceu um samba-enredo composto por repentistas. "E trata cada um de vocês como se fosse marionete". Muito pior é ser tratado como cretino pelo presidente da República.

O filho começou a imitar a mãe
No começo da década de 90, o governo paulista conseguiu no exterior um empréstimo de R$ 1,8 bilhão e aplicou o dinheiro na expansão do metrô da capital. Como exige a lei, o negócio teve como intermediário o BNDES, que não desembolsou um centavo. Durante o desfile das proezas do PAC promovido pela ministra Dilma Rousseff na pajelança dos prefeitos, para embalar o repouso dos exaustos e distrair os insones, o empréstimo reapareceu fantasiado de "verba federal para o metrô de São Paulo". Que tal a mãe usar o bisturi do BNDES para melhorar ainda mais a cara do filho com o metrô de Caracas e a hidrelétrica no Equador?

A caminho do recorde mundial
O presidente Lula é tão ruim em estatística que há menos de dois anos, depois de avisar que votaria no candidato a governador a seu lado no palanque, lembrou que isso faria o companheiro subir 1% na pesquisa eleitoral. Deveria fazer um cursinho intensivo no Sensus, que sabe tudo de estatística. Para descobrir o que acham do presidente os mais de 130 milhões de eleitores, por exemplo, o instituto só precisou entrevistar 2 mil brasileiros em 136 municípios de 24 estados. Se não atendeu ao critério da proporcionalidade, foram 83 eleitores por estado, 15 por município. Caso contrário, o mundão de cidades pequenas valeu meia dúzia de formulários e um ou dois pesquisadores. Para o Sensus, o que parece pouco é suficiente.

Feitas as contas, os craques do instituto comunicaram à nação que Lula estabeleceu outro recorde de popularidade: 84% dos brasileiros acham bom ou ótimo o desempenho do presidente. Mais duas denúncias, um escândalo, três improvisos delirantes, 5 mil demissões e o campeão chegará à marca para sempre insuperável: 100% de popularidade. Ou 103%, se a margem de erro de 3% (quase 5 milhões de eleitores) fizer a gentileza de oscilar inteirinha para cima. Como os eternos insatisfeitos não passam de 5%, está provado que estão felizes da vida, gratos a Deus e a Lula, também os desempregados, os inadimplentes, os depenados por agiotas, os sem-teto, os ricos, os miseráveis e, por que não?, os flagelados de Santa Catarina.

Fecho de ouro

J.R. Guzzo, Revista VEJA

"Uma pesquisa realizada algum tempo atrás revelou que o bicho que os brasileiros achavam mais parecido com os políticos era o rato"

Michel Temer? José Sarney? Quem são? Todo mundo deveria estar muito impressionado com os dois, pois são os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal; trata-se, segundo garantem os cientistas políticos, de figuras importantíssimas para o presente e o futuro do Brasil. Mas não é nem de um nem de outro que o público está falando. O grande nome do momento no Congresso Nacional é o deputado Edmar Moreira. Normalmente esse Edmar, cuja base eleitoral está no interior de Minas Gerais, não deveria chamar maior atenção – não há muito, no fundo, que o torne diferente de boa parte dos deputados e senadores brasileiros. Ele responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal, acusado de embolsar as contribuições feitas ao INSS por funcionários de suas empresas. Não declarou, nem à Justiça Eleitoral nem ao imposto de renda, um espantoso castelo de 7 500 metros quadrados construído perto de São João Nepomuceno, em Minas, e que tenta vender por 25 milhões de reais. Está sendo processado em São Paulo, numa vara cível, pelo não pagamento de uma dívida de 1,9 milhão de reais ao Banco do Brasil; numa vara penal, é acusado de cometer crimes contra a ordem tributária. Responde a 2 000 ações trabalhistas, é suspeito de desviar verbas funcionais e retira seus salários de deputado em dinheiro vivo, na boca do caixa, o que impede a Justiça de bloqueá-los em favor dos credores. Em resumo: o deputado Edmar Moreira é um retrato perfeito do parlamentar brasileiro de hoje.

Tanto é assim que ele foi eleito segundo-vice-presidente da Mesa da Câmara, na mesma eleição que mobilizou, durante meses, os gigantes da nossa política. Foi eleito, na verdade, de caso pensado: outro traço notável na carreira do deputado, além dos listados acima, é que ele se destacou nos últimos anos como um dos campeões na defesa de colegas ameaçados de punição. Votou contra sete pedidos de cassação de deputados envolvidos no mensalão – e agora, com o seu cargo na Mesa, teria a função de corregedor, ou seja, caberia justo a ele vigiar a moralidade dos colegas. A história toda, como se sabe, acabou em lágrimas. A chave do sucesso, para políticos como Edmar, é falar pouco, fazer menos ainda e aparecer o mínimo possível; não pode ser, numa palavra, o que o povo chama de exibido. Mas o deputado resolveu anunciar que dali por diante, sendo ele o corregedor, a Câmara não iria julgar mais ninguém – e não se recomenda dizer esse tipo de coisa em voz alta.

O Congresso Nacional, de tempos em tempos, funciona por vias misteriosas; uma delas é o seu instinto para cheirar casos perdidos. Nessas horas, como se viu mais uma vez, larga os feridos sangrando na beira da estrada e segue viagem sem olhar para trás. O novo presidente da Câmara chegou a esboçar um "acordo" para o deputado ficar na vice-presidência mas não exercer a função de corregedor, um disparate que não durou mais do que algumas horas, da mesma forma como foram rapidamente a pique outras moles tentativas de salvá-lo. Já no começo da semana passada Edmar demitiu-se da corregedoria, renunciou à vice-presidência e pediu desligamento do seu partido; trata, agora, de segurar o mandato. Os mesmos deputados que tinham acabado de votar nele porque era um defensor da impunidade o abandonaram quando disse em público que continuaria agindo assim mesmo, uma vez instalado na Mesa. Seu partido, o DEM, que há anos acha tudo perfeitamente normal com Edmar, descobriu de repente que sua conduta era intolerável, e iniciou procedimentos para a sua expulsão. O líder do PT, partido que tanto ficou devendo ao deputado na época do mensalão, iniciou o episódio como um dos seus principais advogados; depois sumiu de cena e não foi mais encontrado. Um fecho de ouro, sem dúvida, para uma eleição na qual a palavra mais utilizada durante a campanha foi "traição".

Uma pesquisa realizada algum tempo atrás revelou que o bicho que os brasileiros achavam mais parecido com os políticos era o rato – um duro golpe para os ratos, animais que já têm sérios problemas de imagem junto à opinião pública e realmente não precisavam de mais essa. Não há mudanças à vista. Na semana passada o governo entregou ao Congresso sete projetos de reforma política; nenhum deles muda um milímetro nas causas que produzem espetáculos como o do deputado Edmar, ou que permitem a volta ao status de grandes estrelas do Senado, sob a presidência de José Sarney, dos portadores de alguns dos mais tenebrosos prontuários da casa. O Congresso fica apenas cada vez mais parecido consigo mesmo.

Campanha desbragada

Estadão

Depois de reagir, com veemência (apontando nossa pequenez), quando a imprensa se referiu ao óbvio objetivo eleitoral de seu "pacote de bondades" anunciado no grande Encontro Nacional de Prefeitos e Prefeitas que promoveu em Brasília, o presidente reconheceu - e confessou - que estávamos falando a verdade. E nos dias seguintes, nas visitas que fez a cidades de Pernambuco, já nem tentou disfarçar que o que fazia era o que sempre fez e gostou mais de fazer: campanha eleitoral mesmo, desbragada, em favor da ministra que pretende entronizar como sua sucessora, Dilma Rousseff.

Durante a visita ao município de Escada (PE), sob o pretexto de inspecionar as obras de duplicação da BR-101, o presidente voltou a rasgar elogios à "mãe do PAC", a quem atribuiu "a responsabilidade pelo sonho da duplicação tornar-se realidade". (Quer dizer, sem a ministra não duplicaria.) Horas antes, em Salgueiro (PE), no lançamento da obra de extensão da Ferrovia Transnordestina, o presidente fora mais cauteloso e, embora tenha vestido a camisa do time da região, o Carcará do Sertão, deixou para dois ministros - Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional, e Alfredo Nascimento, dos Transportes - a incumbência de promover sua candidata. No discurso os ministros destacaram a "ternura" e o "carinho de mãe" da ministra com a obra do PAC cuja pedra fundamental estava inaugurando - o que não se coadunaria bem com seu papel passado de ex-guerrilheira, a não ser que se tome ao pé da letra a frase de Che "hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".

Mas forçoso é admitir que a ministra Dilma, em que pese sua inexperiência em campanhas eleitorais, vai se mostrando cada vez mais à vontade ao posar para fotos e dar autógrafos, festejar o encontro com crianças - dispensadas das aulas para encontrá-la -, estimular a emoção regional com promessas locais de governo e tudo o mais que compõe a cena tradicional das campanhas políticas caboclas. Sua disposição para isso é tanta que depois dos comícios de Escada e Salgueiro, na quinta-feira, a candidata voou para São Leopoldo no Rio Grande do Sul, onde sexta-feira de manhã acionou uma máquina de perfuração no futuro canteiro de obras da extensão da linha do trem metropolitano, que será prolongada até Novo Hamburgo, onde Dilma também esteve, depois, para visitar o futuro ponto final do trem. Há, porém, um detalhe nessa euforia sucessória precipitada pelo presidente Lula: essa campanha é ilegal, porque ainda estamos bem longe do período eleitoral do ano que vem. O presidente da República está desrespeitando a legislação eleitoral.

Não foi sem razão, pois, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso abordou essa anomalia, exigindo de seu partido uma reação política - tal como a antecipação da escolha do candidato tucano à Presidência. Por sua vez, o partido Democratas (DEM) se dispõe a atuar, junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), pedindo auditoria nos gastos do governo federal com o encontro, em Brasília, que reuniu 3.500 prefeitos e custou R$ 253 mil à Presidência da República. Na próxima semana DEM e PSDB entrarão com ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com pedido de providências contra o que consideram autopromoção e propaganda ilegal.

Na verdade, o DEM já vinha discutindo a possibilidade de entrar com uma ação por causa das viagens de Lula e Dilma para divulgação do PAC. A realização do encontro em que o presidente anunciou uma série de benefícios para prefeitos de todo o País desencadeou a decisão dos dirigentes partidários. "Entendemos que o abuso desta semana se tornou insuportável. Vamos entrar com ação no TSE para questionar essa conduta. O presidente Lula já mostrou que não tem apreço pelas leis", disse o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia.
"O governo está promovendo um festival de inaugurações, não de obras feitas, mas de pedras fundamentais. Há um esforço óbvio de divulgação da ministra Dilma não pelo que está sendo feito, mas pelas promessas. Pouco importa se a obra está no início ou no meio, o que importa é a foto. Hoje o PAC é só uma campanha eleitoral feita com dinheiro público", sintetizou o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra.

Restaria, então, a indagação elementar: por onde anda a Justiça Eleitoral?

Sem samba-enredo, Lula é um perigo

Elio Gaspari, Folha de São Paulo

Nosso Guia não se achou na crise, mas pensa que pode dizer o que quiser, pois bobos são os outros

O processador de Lula está sobrecarregado. Têm sido frequentes os seus momentos de impaciência e mau humor na rotina do palácio. Obrigado a trocar o triunfalismo do pré-sal e da "marolinha" pelas dificuldades da crise econômica, Nosso Guia está sem agenda.

Há um indicador seguro para medir o aquecimento da placa de Lula. Sem assunto, ele retoma o discurso do nós-contra-eles e vai-se embora pra Pasárgada, onde "a existência é uma aventura".

Durante seu discurso para cerca de 4.000 prefeitos reunidos em Brasília, Nosso Guia ofendeu a inteligência alheia duas vezes. Na primeira fez uma piada à la Maria Antonieta: "Nós cortaremos o batom da dona Dilma, o meu corte de unhas, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC". Lula estava num evento onde estima-se que o governo gastou R$ 240 mil.

Uma manicure de Lula contou que cortava suas unhas duas vezes por mês. Estimando-se que deixe boas gorjetas, Nosso Guia queima R$ 1.000 anuais nesse conforto. Se dona Dilma usar um batom caro (Sisley), gastará, no exagero, outros R$ 1.000. Portanto, só para custear o convescote dos prefeitos, Lula e Dilma precisariam cortar 120 anos de bem-estar.

A vinheta foi apenas uma tirada boba, mas o segundo atentado foi malévolo e enfático. Dirigindo-se ao prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, disse o seguinte: "Você vai cair da cadeira. Você não sabe e eu não sabia, mas no Estado de São Paulo nós ainda temos 10% de analfabetos no Brasil".

A taxa de analfabetismo em São Paulo está em 4,6%, metade do índice nacional. Lula viajou na planilha. São Paulo abriga 10% dos analfabetos do país, o que, pelo tamanho do Estado, não chega a ser motivo para cair da cadeira. (São Paulo tem 36% da frota nacional de veículos.)

Essa foi a quarta vez que o governo de Lula atropelou a boa norma para criticar a rede de ensino paulista. Ela não é uma esquadra inglesa, mas o governo insiste nos golpes baixos. Já divulgou indicadores misturando metodologias, embaralhou notas da Prova Brasil e apresentou listas de desempenho contaminadas por dados errados. Em duas ocasiões as lorotas coincidiram com as campanhas eleitorais.

Um companheiro dizendo tolices não é um grande problema. Um presidente capaz de fazer campanha dizendo não importa o quê, indica que 2010 será um ano feroz.

O inglês vê a "favela" de um jeito novo
A revista "The Economist" insiste: surgiu no mundo uma nova classe e o Brasil é um desses países onde esse fenômeno tornou-se mais visível. Falando de Pindorama, menciona com gosto a inauguração de uma filial das Casas Bahia no bairro paulistano de Paraisópolis.

Há duas semanas, Paraisópolis estava nos jornais tratado como se fosse uma perigosa favela, antro de traficantes, justamente ocupada por uma polícia que obrigava moradores a se identificar. O que é Paraisópolis, um bairro habitado pela classe média emergente da "Economist", ou uma "fábrica de produzir marginal", como o governador Sérgio Cabral já chamou a Rocinha?

Programas de regularização fundiária criaram um mercado de imóveis no local e já ocorreram transações com valores superiores a R$ 100 mil. Oito escolas juntam 6.000 jovens. Números semelhantes podem ser achados em quase todos os bairros da periferia da sociedade brasileira. São fábricas de classe média.

Um barão brasileiro que visitasse os subúrbios de Londres na metade do século 19 veria um favelão. Era a desordem social e urbana da revolução industrial. Felizmente, a cidade teve um escritor como Charles Dickens para mostrar que ali vivia o pedaço de baixo da sociedade inglesa, lembrando ao pedaço de cima que os dois formavam um só povo.

Cobra
De uma serpente, ao ver Nosso Guia na televisão falando do batom de dona Dilma e da sua manicure: "Tem certeza de que não é o Bussunda?"

Fauna arcaica
O PSDB é capaz de tudo. Tem dois candidatos a presidente (José Serra e Aécio Neves) que fazem qualquer coisa para chegar ao Planalto, menos oposição.

Na hora de discutir o comportamento do governo, quem vai para o microfone é Fernando Henrique Cardoso. É como se os republicanos pedissem a George H. W. Bush (o pai) para responder ao pacote de Barack Obama.

Pior: depois de ouvir Nosso Guia dizer que São Paulo tem 10% de analfabetos (uma obra dos 14 anos de governo tucano), Serra teve uma reação inspirada pela bonomia do papa João 23: "Foi uma menção a um número. Só que o número está errado".

Risco zero
Michel Temer assumiu a presidência da Câmara dos Deputados a reboque do castelo de Edmar Moreira e perdeu a chance de liderar a iniciativa pela abertura de todas as pastas com as notas fiscais dos reembolsos cobrados à Viúva por seus colegas.

Como dizia o deputado Luís Eduardo Magalhães: "Não há o menor perigo de dar certo".

Pote de mágoa
Paulo Lacerda, o ex-diretor da Polícia Federal defenestrado para um exílio dourado em Lisboa, acha que Lula jogou-o no mar, sabendo que nunca mandara grampear os outros. A tristeza de Lacerda é grande, mas ainda insuficiente para torná-lo loquaz.

Jack genro
Quando o governo não sabe o que fazer, tira da gaveta um projeto de reforma tributária ou de reforma política.

No ano passado veio a empulhação tributária. Foi ao arquivo. Agora apareceu o comissário Tarso Genro com um projeto de reforma política, "fatiada", para ser votada em partes. Pode-se chamá-la de "Reforma do Jack". O "Estripador" é o patrono da arte de fatiar.

Festa em NY
Depois de ter canalizado algumas centenas de milhares de dólares num encarte da revista "Foreign Affairs", enfeitando-o com publicidade da Petrobras, do BNDES e da Embratur, o comissariado de informações do governo prepara um novo incentivo ao mercado editorial americano. Planeja-se um festim bananeiro para acompanhar a visita de Nosso Guia a Nova York, em março.Gastar dinheiro com publicidade em veículos sérios na busca de simpatia é uma variante do costume de jogá-lo pela janela.

O Planalto dispõe de R$ 150 milhões para promover a imagem do governo no exterior. Os arquivos do palácio informam: todas as iniciativas anteriores serviram para fazer a alegria de alguns bem-aventurados, e mais nada.Um governo que tentou expulsar do país o correspondente do "New York Times" mostra que trocou a linha das bravatas gratuitas pela das besteiras remuneradas.
Pouso forçado
Em janeiro, quando assumiu a presidência da Infraero, o brigadeiro Cleonilson Nicácio Silva trabalhava com a ideia de dispensar 395 funcionários-jabutis (alguém os pôs lá). A lista encolheu para 216. Teme-se que agora esteja em 30.

O futuro pela janela

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

No apartamento discreto da Zona Sul, do Rio, Petrônio Portela, presidente nacional da Arena, estava surpreendentemente intranquilo naquela noite de 1974. A garrafa de uísque, o balde de gelo, dois copos, um jornal, era só. Toca a campainha, o próprio Petrônio abre a porta. Entra Delfim Neto. Gordo, mas ágil, sorridente, meia hora de amena conversa. Petrônio abriu o jogo :

- Delfim, vamos falar de São Paulo. Na verdade, não há o que discutirmos. Há uma decisão tomada e tenho apenas que comunicá-la. Você não pode ser o novo governador de São Paulo.

- Mas isto é uma violência. Tenho sete anos de serviços prestados à revolução. Não posso aceitar este veto.

- Muito mais serviços à revolução, mais do que você e mais do que eu, prestou o Lacerda. E foi tirado de campo (cassado no AI-5 de 1968).

- Mas Lacerda fez a Frente Ampla. De que me acusam?

Delfim
Petrônio serviu um uísque para os dois e continuou:

- Não se trata de acusar, Delfim. O governo Geisel tem uma estratégia para São Paulo e você não está enquadrado nela.

- Não me conformo. Vou disputar na convenção.

- Iria, Delfim. Não vai haver mais convenção. Os diretórios é que indicarão o governador.

- Tenho maioria no diretório.

- Tinha. Não terá mais. Está tudo acertado.

- Então disputo o Senado.

- Também não pode. O governador será o Paulo Egidio e o senador o Carvalho Pinto.

- Quer dizer que estou cassado.

- Não está. Vá para a Câmara Federal ou para um posto no Exterior.

- Não quero. Volto à Universidade.

- Volte. Mas não cometa o erro do Lacerda. Não jogue o futuro pela janela. Deixe a história caminhar.

Despediram-se, Delfim saiu. Delfim tinha tomado três doses de uísque. Petrônio, uma só.

Quercia
A conversa foi na sala. No escritório do apartamento, que era dele, o senador Vitorino Freire ouviu tudo e me contou, com meu compromisso de só publicá-la depois da nomeação de Paulo Egidio para o governo de São Paulo. Nomeado por Geisel em 29 de março de 74, aprovado pela Assembléia Legislativa em outubro de 74, foi empossado em 15 de março de 75. Carvalho Pinto, o senador indicado, levou uma surra de Quércia em 15 de novembro de 1974:

- “Em 15 de novembro, Orestes Quércia (MDB) conquistou uma vitória consagradora, obtendo 4 milhões e 600 mil votos contra 1 milhão e 600 mil de Carvalho Pinto, da Arena” (Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas).

Em janeiro de 75, lancei “As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil”, abrindo com a conversa de Petrônio e Delfim e furando toda a imprensa. Em 7 de fevereiro, Delfim assumia a embaixada do Brasil em Paris, substituindo Lira Tavares, um dos “três patetas” de Ulysses Guimarães.

Dilma
Trinta e cinco anos depois, como Geisel nomeou Paulo Egidio governador e depois João Batista Figueiredo presidente, Lula nomeou Dilma Roussef candidata do PT às eleições presidenciais de 2010.

E, no PSDB, Fernando Henrique quer nomear logo José Serra candidato, só para não disputar prévias com Aécio Neves, que já não ganha nas pesquisas, não ganharia nas prévias e muito menos na eleição.

Ermirio
Durante décadas, o empresário Antonio Ermírio de Morais, dono do monopólio do cimento no País, queixou-se (e com razão) dos bancos e sua gigolotagem social acobertada pelo Banco Central. Escreveram peças para ele, encenadas em nome dele, defendendo teses empresariais contra bancos.

Até que ele fundou o seu. Criou o Banco Votorantim. E logo explodiu na praça. Guloso como os outros, fez do seu tamborete mais um trampolim para ganhar com juros sobre juros. E quebrou. O governo, que ele sempre condenou por entrar no sistema financeiro e no mercado, mandou o Banco do Brasil comprar 49% do Votorantim: 2,4 bilhões.

Nem teve o pudor de dar um tempo para disfarçar. Com os 2,4 bilhões do Banco do Brasil, arranjou mais 2,5 bilhões do BNDES e comprou a Aracruz Celulose por 5 bilhões. O profeta do livre mercado, do governo fora, trocou seu banco bichado por uma empresa verde e limpa.

Itália
A imprensa está cheia de bobos escrevendo baboseiras sobre a Itália e o asilado Battisti. Deviam ler, na “Folha” de quinta, o artigo do jornalista Pedro Del Pichia, correspondente da “Folha” em Roma de 78 a 81.

Discute-se se a luta armada de que ele participou era justa ou errada. A meu ver, erradíssima, porque sem nenhuma chance de vitória. Como também era inviável a luta armada no Brasil, depois do golpe de 1964.

Mas, como a daqui, a de lá foi uma luta política e não pessoal.

Obama
Esse pacote do Obama está parecendo o PAC de Lula. É um PAC, que virou Pec, não entrou no Pique e acaba estourando como um Poc.

Sobre pais, filhos, drogas e trotes

Ruth De Aquino, Revista Época

Não dá para os pais se culparem sempre que o filho desgarra do caminho, mas podem dialogar e mostrar que existem riscos

Quando vi na semana passada a foto de uma mãe abraçando o filho preso por tráfico de drogas na Polícia Federal do Rio e, logo depois, desmaiando no pátio, pensei na dor e na culpa maternas. Quando vi o drama de um calouro de veterinária, de 21 anos, no interior de São Paulo, chicoteado por colegas e obrigado a rolar no chão com bichos em decomposição, pensei no pai dele. E nos pais dos universitários que se comportaram como animais. Pensei nos meus filhos. Pensei em nossos compromissos como mães e pais.

Criar e educar filhos nunca foi fácil. Em ambientes violentos, o desafio é muito mais duro. Ali, nas sutilezas do dia a dia. Não existem receitas. O que funciona para um filho não funciona para outro. Mas o que não pode faltar jamais é o diálogo, a conversa, o papo. Sincero na medida do possível, na medida do respeito, porque pais não são colegas de turma de seus filhos. Não sou educadora, certamente cometi erros como mãe e tive muitas dúvidas. Minha maior preocupação não era se meus filhos iriam experimentar e gostar de maconha. Conversei bastante com eles sobre drogas. Eu desejava sobretudo é que tivessem um bom caráter. Que fossem honestos. Que nunca se comportassem como playboys acima do bem e do mal. Quando vejo as gangues de mauricinhos traficantes de drogas e armas, e os trotes animalescos nas universidades, eu penso nos pais, nas famílias, nas escolas que frequentaram. O que pode ter dado errado?

A psiquiatra Magda Vaissman é pesquisadora do Programa de Ensino e Assistência ao Uso Indevido de Álcool e Drogas, da UFRJ. “Não conheço a família dos rapazes presos, mas certas famílias não conseguem enxergar evidências claras. São chamadas famílias disfuncionais, onde ninguém fala, ouve ou vê nada dentro de casa. Certa vez, atendi o filho de 6 anos de uma socialite, uma criança com vários problemas de convivência. Descobri que o pai era agressivo quando ele fazia besteira e a mãe evitava lidar diretamente com o filho. Os pais então contratavam profissionais para tentar ‘consertá-lo’, inclusive psiquiatras. Essa criação acaba formando adultos sociopatas”, diz.

O papel dos pais, diz Magda, é o de dialogar e estabelecer limites. “Ensinar ao filho, desde cedo, que existem desafios, que tudo de bom precisa de um processo até ser alcançado. Os pais precisam abrir o jogo com os filhos em relação às drogas. Fumar maconha ou beber não levam necessariamente ao vício, mas esse risco existe.”

Não dá para os pais se culparem sempre que o filho desgarra do caminho. Mas qualquer adulto inteligente e instruído tem perfeita consciência de seu desempenho como pai ou mãe. Fiz o possível? Fiquei atento? Estive muito ausente? Fui condescendente demais para compensar minhas ausências? Fui repressor demais para aliviar meus traumas?

A delegada Patrícia Aguiar, da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), em novembro de 2007, quando foram presos nove jovens de classe média envolvidos com tráfico de ecstasy e LSD, chamou a atenção para o comportamento dos pais: “Como eles não percebem que há algo errado com um filho que tem três celulares e fica 16 mil horas ao telefone? Sem falar nos bens de consumo que são levados para casa. Não pensam de onde sai esse dinheiro? Fiquem mais atentos”.

Nossa sociedade também não ajuda. Extremamente hierarquizada, benevolente com os mais ricos, submissa com os poderosos, tolerante com a falta de educação dos endinheirados, e inacreditavelmente omissa diante dos escândalos de corrupção e abusos de poder.

O que acontecerá com os universitários que torturaram o calouro Bruno Ferreira, em Leme, a 189 quilômetros da capital paulista? “Meu filho foi amarrado a um poste e apanhou com chicote. Quem conhece sabe como é a marca de chibata. No hospital, deu entrada como indigente, em coma alcoólico. Foi obrigado a ingerir bebidas. Teve de rolar numa lona com excremento de porco, cavalo e gado. O mau cheiro ainda não saiu do corpo dele”, disse o pai de Bruno, o comerciante Paulo Ferreira.Qual foi, qual será o castigo para esses universitários? Dentro e fora de casa? O que diremos a nossos filhos?