quarta-feira, outubro 24, 2012

A nova revolução industrial muda a forma como os objetos são criados, produzidos e consumidos


Rafael Barifouse, Com Marcos Coronato e Rafael Ciscati
Revista Época

O tênis abaixo não foi fabricado. Ele foi impresso. 
A tecnologia das impressoras tridimensionais pode transformar a forma de criação dos objetos

(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA) 
PEÇA ÚNICA
Protótipo de um tênis de gesso impresso com a tecnologia 3D.
 No futuro, ele poderá ser produzido em casa

No início do século XVIII, não era fácil ter um sapato. Um artesão tinha de cortar e costurar cada parte manualmente. Esse trabalho levava dias. Nas décadas seguintes, sua fabricação ficou mais ágil com a introdução, na Inglaterra, das máquinas de corte e costura operadas manualmente. Foi o início da primeira Revolução Industrial. O sapato ficou mais acessível, mas ainda custava caro. Em meados do século XIX, a produção fabril ficou ainda mais eficiente com a invenção de máquinas movidas a eletricidade. No início do século XX, nos Estados Unidos, o empresário Henry Ford usou-as nas primeiras linhas de produção. Assim como os carros da Ford, milhares de sapatos passaram a ser fabricados simultaneamente, em tempo recorde e a um custo baixo.

Essa produção em massa em grandes fábricas se tornou o símbolo da segunda Revolução Industrial. Agora, após um século, uma nova transformação se anuncia. Ela é trazida por aparelhos do tamanho de um micro-ondas que constroem um objeto real a partir de um arquivo digital: as impressoras tridimensionais. Até há pouco tempo, esses equipamentos custavam centenas de milhares de reais e ficavam restritos às grandes indústrias. Hoje já é possível levar para casa uma impressora 3D e usá-la para fabricar objetos. Como um sapato. “Uma terceira revolução industrial está a caminho”, diz o jornalista e físico Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, em seu livro Makers (Os produtores, numa tradução livre, sem previsão de lançamento no Brasil), que saiu neste mês nos Estados Unidos. “Assim como a internet mudou, redistribuiu e acelerou a difusão da informação, essa tecnologia pode transformar a fabricação de produtos de algo rígido e dependente de capital num processo flexível, baseado em criatividade.”

Nos dias de hoje, a fabricação ainda segue as regras dos tempos de Henry Ford. Criar um produto requer um grande investimento inicial. Do primeiro protótipo ao produto final, é necessário investir milhões de reais em pesquisa e desenvolvimento. Contratar mão de obra especializada consome outros milhões – mesmo que a fábrica seja erguida em países como a China, onde a força trabalhadora custa mais barato. Depois, é preciso comprar máquinas modernas para cada etapa da fabricação. Finalmente, é necessário decidir como será a logística da cadeia de fornecedores e distribuidores, o estoque dos produtos e o marketing de venda. Se houver muita gente interessada em comprar o produto, tudo isso compensa, porque ele pode ser replicado infinitamente. Suas próximas unidades custarão muito menos e renderão margens de lucro muito maiores. É o que se chama economia de escala. Aos poucos, os ganhos com sua produção em massa compensam o alto custo para criá-la. Produtos sem um grande apelo comercial, porém, se tornam inviáveis.

(Foto: Uden Graham / Redlink/Redlink/Corbis,
 Science Photo Library/Ltin Stock e divulgação
(5). Ilustração: Pedro Schimidt)

A impressão 3D desmonta essa lógica. Ela funciona como uma impressora convencional que muitos têm em casa. Basta apertar o botão na tela do computador para que o arquivo digital, com o desenho em três dimensões do objeto a fabricar, seja enviado para a máquina. O programa da impressora divide o desenho em milhares de camadas de até 0,1 milímetro e envia uma série de instruções para a impressora. Em vez de tinta, ela usa materiais como plástico, gesso, silicone, borracha ou metais, para fazer sapatos, próteses dentárias, joias, luminárias, brinquedos ou peças de equipamentos hospitalares.
A produção começa pela base do objeto. O cartucho deposita uma fina camada do material usado no produto sobre uma plataforma. Uma vez formada essa camada inicial, a plataforma desce ligeiramente para que o cartucho aplique outra camada sobre a primeira. O processo se repete com a acumulação de várias camadas até o objeto ficar pronto. Demora entre uma e várias horas, de acordo com o tamanho e a complexidade do modelo. Em vez de fabricar cada parte de um produto separadamente e depois montá-las, é possível imprimir de uma vez só todas as peças já agrupadas. Isso economiza tempo e matéria-prima. Como a impressão 3D barateia os custos, um produto pode ser fabricado localmente em vez de ser feito noutro país e depois importado. Também não há necessidade de criar grandes estoques, já que a produção leva no máximo algumas horas e pode ser iniciada só depois de o item ter sido comprado por um consumidor.

(Foto: David Needleman/Corbis Outline e Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
PIONEIROS
O americano Bre Pettis, da MakerBot (acima), 
e o brasileiro Luiz Fernando Dompieri, da Robtec.
 Eles estão popularizando as impressoras 3D 

O impacto dessa nova forma de produção no modo como a sociedade trabalha e consome pode ser brutal. De novo, pode ser dado o exemplo do sapato: antes da primeira Revolução Industrial, o artesão que fazia o sapato era seu proprietário. Quem fabricava era o dono do produto. Depois que a máquina a vapor substituiu o artesão, quem produzia deixou de ser o dono do sapato. Ele passou a ser propriedade do empresário que controlava a fábrica. Nasceu a classe trabalhadora e assalariada, que ganhava dinheiro para produzir o sapato e adquirir outros bens. A produção em massa de sapatos na segunda revolução desencadeou a explosão do consumo. Além de mais baratos, os modelos se diversificaram e passaram a ser feitos em grande escala. 


 A terceira revolução, com a introdução das impressoras 3D, é mais parecida com aquela da Inglaterra do século XVIII do que com a de Henry Ford. Ela pode permitir que cada unidade produzida seja feita de acordo com o gosto pessoal e a necessidade de cada consumidor – e até pelo próprio consumidor. É a “personalização em massa”. Isso abre oportunidades para que empreendedores, inventores e indústrias possam lançar novos produtos sem se preocupar com vendas em grande escala para torná-los economicamente viáveis. “É o surgimento da manufatura pessoal”, diz Abe Reichental, presidente da 3D Systems, a maior fabricante de impressoras 3D do mundo.

Em casa, fabricar objetos já é realidade para quem tem uma dessas máquinas. Chris Anderson conta em seu livro que suas filhas deixaram de brincar com videogames e agora passam horas fabricando móveis em miniatura para suas casinhas de boneca. “Se você é um fabricante de brinquedos, isso deveria dar calafrios”, diz ele. Os donos dessas impressoras podem ainda fabricar copos e pratos personalizados para uma festa de aniversário. Se uma peça do jogo favorito da família se perdeu, ela pode ser reposta em poucas horas sem que seja preciso ir a uma loja. É possível também criar uma capa nova para celular segundo a cor, estampa e textura mais convenientes para combinar com a roupa da ocasião.

A possibilidade de fazer objetos dessa forma e a proliferação de impressoras mais baratas começaram a mudar o perfil de quem compra essas máquinas também aqui no Brasil. Até o ano passado, a Robtec, que representa algumas das maiores fabricantes de impressoras 3D mundiais, como a 3D Systems e a belga Materialise, vendia as impressoras por, no mínimo, R$ 50 mil. Só grandes empresas as compravam. Hoje há modelos por R$ 6 mil. “Vendemos de 15 a 20 impressoras por mês. Pensávamos que venderíamos no máximo seis”, diz Luiz Fernando Dompieri, diretor-geral da Robtec. Cerca de 80% das vendas são feitas para usuários domésticos e pequenos empresários. “São arquitetos que usam as impressoras para fazer suas próprias maquetes ou gente que deseja imprimir seus próprios objetos de decoração em casa”, diz Dompieri. O artista plástico brasileiro Kiko Azevedo, de 57 anos, começou a usar a impressora 3D há três anos. No começo, apenas para diversão. Fazia uma caixinha de remédio aqui, uma miniatura de avião ali. O hobby virou trabalho. Hoje, Azevedo produz medalhas e troféus com moldes impressos em 3D. Orgulha-se de ter feito uma medalha para o Vaticano.

Com produtos personalizados e sem as amarras financeiras da produção em massa, a tecnologia de impressão 3D favorece o empreendedorismo. Em 2003, o americano Nathan Seidle, então estudante de engenharia, decidiu criar uma empresa depois de muitas dificuldades para encontrar componentes eletrônicos para seus projetos. Hoje, sua empresa, a Sparkfun, é fornecedora de placas de circuitos para montagem de robôs, celulares e outros equipamentos, fabricados com o auxílio de impressoras 3D. Ela fatura US$ 30 milhões por ano. A Brick Arms também surgiu a partir da tecnologia de impressão 3D. É uma empresa americana especializada em fazer armas para bonecos dos blocos de montar da Lego. Mas não são armas quaisquer. São bazucas e rifles M-16 em miniatura que dificilmente seriam fabricados por uma empresa de brinquedos.

A tecnologia das impressoras 3D não é nova. Os equipamentos foram criados há cerca de 30 anos nos Estados Unidos, para facilitar a criação de protótipos de produtos. A princípio, custavam entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão. No fim do século passado, seu preço caíra pela metade, mas ainda era proibitivo para o consumidor comum. Ao longo das duas últimas décadas, entusiastas da tecnologia começaram a desenvolver e a montar modelos mais baratos em suas oficinas caseiras. Foi um movimento semelhante ao que impulsionou o desenvolvimento dos computadores pessoais. E, assim como o PC em meados dos anos 1980, elas agora começam a deixar de ser apenas um hobby para engenheiros e nerds. Em 2012 foram lançadas as primeiras impressoras 3D domésticas realmente acessíveis. A mais recente é a Replicator 2, da MakerBot. Custa US$ 2.199, o mesmo que uma televisão de última geração. Ela faz pequenos objetos de plástico. A empresa acaba de abrir uma loja em Manhattan.“Os consumidores começam a entender que podem fazer objetos como os profissionais. Isso está criando novos produtos e negócios”, diz Bre Pettis, fundador da MakerBot.

Antes de fabricar um objeto, é preciso ter um modelo digital. Criá-los é uma tarefa hoje cumprida por designers e arquitetos habilidosos o suficiente para usar programas de computador sofisticados. Isso também está mudando. Novos softwares mais fáceis de usar permitem a alguém sem habilidades especiais desenhar em três dimensões. O programa 123D, da Autodesk, analisa cerca de 50 fotos de um objeto e cria um modelo virtual. Os programas TinkerCad e Google Sketchup também foram criados para facilitar a vida dos designers amadores. Se o consumidor não quiser desenhar o objeto, pode também baixar gratuitamente ou comprar desenhos feitos por profissionais, disponíveis em sites especializados. O portal Shapeways vende 100 mil desenhos por mês. Um desenho de sapato custa R$ 255. O de um botão, R$ 3. Essas lojas virtuais também se encarregam de imprimir objetos. O designer paulistano Daniel Souza, de 23 anos, criou um portfólio no site brasileiro Imprima 3D. “Os clientes escolhem um design, eu monto um modelo 3D e mando imprimir”, afirma Souza. 

Apesar de a tecnologia ainda ser desconhecida do grande público, existe uma grande indústria em torno dela, que movimenta US$ 1,7 bilhão por ano. Esse valor deverá mais que dobrar nos próximos três anos, para US$ 3,7 bilhões. O crescimento acelerado se deve à melhoria da qualidade final dos produtos feitos com essas máquinas. Atualmente, 28% de todo o dinheiro gasto no mundo em impressão 3D destina-se a imprimir objetos prontos (o restante é gasto para produção de protótipos). Esse índice deverá crescer para 50% até 2016 e atingir 80% no fim desta década.

Algumas grandes companhias passaram a experimentar a impressão 3D em suas linhas de produção. Querem aproveitar as possibilidades de fabricação de peças com design personalizado ou de alta complexidade em impressoras 3D. A Boeing as tem usado para fabricar dutos de ar para o caça F-18, porque a tecnologia permite fazer versões mais leves e eficientes desses itens. Indústrias como Mercedes-Benz e Lockheed Martin usam a impressão 3D para fazer painéis personalizados em carros de luxo. A General Electric desenvolveu uma forma de imprimir o transmissor do aparelho de ultrassom. Trata-se da parte que o médico encosta no paciente para obter uma imagem interna do corpo. O objetivo é reduzir os custos de produção e criar modelos baratos. “A impressora 3D pode fazer muitas coisas complexas demais para uma fábrica tradicional”, afirma João Amato Neto, coordenador da Fundação Vanzolini e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Ainda há muitas aplicações dessa tecnologia em estudo. Em 2011, o cirurgião americano Anthony Atala imprimiu um rim usando células-tronco. O órgão não poderia funcionar, porque ainda faltava criar uma forma de imprimir vasos sanguíneos para irrigá-lo e nutri-lo. Uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology publicada em junho na revista Nature mostrou que isso já é possível. Pode um dia levar ao fim da fila de transplantes e da rejeição de órgãos.

A revolução industrial que pode acontecer a partir das impressoras 3D ainda está em seu estágio inicial. A tecnologia ainda deve levar de cinco a dez anos para ter um real impacto sobre a forma como a massa dos bens de consumo será fabricada. “Toda tecnologia passa por um ciclo: as pessoas enxergam seu potencial e imaginam que ela pode fazer mais do que na verdade é possível. Só algum tempo depois ela amadurece e atinge essas expectativas”, afirma Pete Basiliere, analista da consultoria Gartner. Alguns analistas acreditam que somente quando custarem menos de R$ 1.000 as impressoras 3D serão adotadas em massa. A história, porém, mostra que máquinas inovadoras trazem formas diferentes de criar, produzir e trabalhar. Foi assim com as duas primeiras revoluções industriais. Foi assim com o computador pessoal. O futuro da manufatura ainda pode ser incerto, mas, pela primeira vez em 100 anos, ele parece mais promissor do que nunca.

Aporte à Caixa e BB pressiona aumento da dívida pública


Veja online
Com Agência Estado

Em operação realizada em setembro, a Caixa recebeu aporte de R$ 13 bilhões e o BB, de R$ 8,1 bilhões

(Marcelo Sayão/EFE)
Dívida cresceu 10,02% em setembro

A Dívida Pública Federal (DPF) foi pressionada em setembro pelo aporte de 21,1 bilhões de reais do Tesouro Nacional ao Banco do Brasil (BB) e à Caixa Econômica Federal (CEF). A Caixa recebeu aporte de 13 bilhões de reais e o BB, de 8,1 bilhões de reais. A operação foi feita no final de setembro com títulos públicos.

Em setembro, a dívida aumentou em 10,02%, totalizando 1,904 trilhão de reais. As emissões tiveram saldo líquido de 23,53 bilhões de reais no mês passado. Já a Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) foi ampliada em 2,09% em setembro, chegando a 1,816 trilhão de reais. O resultado foi influenciado pela emissão líquida de 23,74 bilhões de reais e por um pagamento de juros no valor de 13,41 bilhões de reais. Com relação ao estoque da Dívida Pública Federal externa (DPFe), o aumento foi um pouco menor, de 0,57% em setembro. No mês passado, o saldo ficou em 88,93 bilhões de reais.

Aporte – 
A injeção de recursos foi autorizada para aumentar a capacidade de oferta de crédito das duas instituições públicas e impactou o estoque da Dívida Pública Federal em 21,1 bilhões de reais. Em setembro, o Tesouro fez, segundo dados divulgados nesta segunda-feira, emissão líquida de 23,68 bilhões de reais. No ano até setembro, o Tesouro fez resgate líquido de títulos de 115,11 bilhões de reais.

A participação dos investidores estrangeiros na Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) registrou uma leve alta, de 13,34% em agosto, para 13,42% em setembro. Em valores nominais, os estrangeiros detinham 243,68 bilhões de reais no mês passado. Conforme o Tesouro, esse grupo de investidores possuía 78,1% de sua carteira em títulos prefixados.

O coordenador-geral de Operações da Dívida Pública do Tesouro Nacional, Fernando Garrido, projetou nesta segunda-feira que a fatia de títulos indexados à taxa básica de juros (Selic) será de 22% a 23% no final de dezembro. Pelos dados de setembro, a parcela desses papéis da dívida caiu de 24,68% em agosto para 22,79% no mês passado. Segundo Garrido, essa queda é atribuída ao vencimento já esperado de títulos para a data. O valor total dos papéis desse tipo que expiraram no mês passado foi de cerca de 26 bilhões de reais.

Bancos públicos – 
De todas as emissões realizadas no mês passado, Garrido ressaltou que 31,2 bilhões de reais foram de títulos emitidos em oferta pública tradicional, 6,1 bilhões de reais em leilões de troca e 21 bilhões de reais em créditos para Caixa e Banco do Brasil. Questionado sobre se a injeção de recursos nessas instituições – que lideram um movimento de redução dos juros cobrados aos clientes – não seria anticoncorrencial, o coordenador explicou que os bancos públicos têm funções diferentes dos privados, como custeio à safra agrícola e financiamento do Minha Casa, Minha Vida.

O coordenador confirmou também que o prazo médio da Dívida Pública Federal (DPF) fechará o ano num patamar "ligeiramente" acima da banda prevista no Plano Anual de Financiamento (PAF). No PAF, o Tesouro projetava uma banda mínima de 3,6 anos e máxima de 3,8 anos. Em setembro, o prazo médio fechou estável em 4,05 anos – mesmo patamar de agosto que já era recorde histórico. Nesse caso, quanto maior o prazo, melhor para a gestão da dívida pública.

Segundo Garrido, o Tesouro não vê com preocupação o fato de a DPF fechar o ano acima do PAF. Ele ressaltou que o alongamento é positivo. "Temos verificado uma demanda por alongamento bastante significativa por parte dos investidores, buscando maior rentabilidade. Esse alongamento é bastante positivo para o Tesouro. Não vemos com preocupação o fato de estar acima do PAF", disse Garrido.

Dívida líquida pública sobe para 35,1% do PIB em agosto


Com Agência Estado

Segundo o BC, gasto com juros no ano está 0,82 p.p. do PIB abaixo do verificado em 2011, por conta da queda da Selic e menor inflação


A dívida líquida do setor público consolidado subiu de 35% em julho para 35,1% em agosto, informou o Banco Central nesta sexta-feira. A dívida do governo central, governos regionais e empresas estatais terminou o mês passado em 1,522 trilhão de reais. Na comparação com dezembro de 2011, contudo, a dívida líquida apresenta uma redução de 1,3 ponto porcentual (p.p.) do Produto Interno Bruto (PIB). 

De acordo com o BC, o superávit primário no período contribuiu para essa diminuição com 1,7 p.p. do PIB, enquanto o crescimento do PIB corrente ajudou a diminuir o endividamento em 1,6 p.p.. A desvalorização cambial, de 8,6% no acumulado de 2012 até agosto, ajudou em 1,3 p.p. para a queda na relação dívida/PIB. Em sentido contrário, a apropriação de juros elevou o endividamento em 3,4 p.p. do PIB, no mesmo período.

O BC informou ainda que a dívida bruta do governo geral registrou leve queda de julho (57,6% do PIB) para agosto (57,5% do PIB). A dívida bruta encerrou o mês passado em 2,49 trilhões de reais.

Gasto público - 
O setor público gastou 19,118 bilhões de reais em agosto com juros, montante maior do que o visto em julho (17,435 bilhões de reais), mas menor do que o registrado em agosto de 2011 (21,663 bilhões de reais). Somente o governo central gastou 9,303 bilhões de reais com juros, enquanto os governo regionais desembolsaram 9,672 bilhões de reais e as estatais outros 143 milhões de reais. 

No acumulado do ano, a despesa com juros do setor público somou 147,580 bilhões de reais, que correspondem a 5,09% do PIB. Nos 12 meses encerrados em agosto deste ano, o gasto com juros soma 224,046 bilhões de reais, ou 5,17% do PIB.

Segundo o BC, o gasto com juros no ano está 0,82 p.p. do PIB abaixo do verificado no mesmo período de 2011. A queda foi influenciada pela redução da taxa Selic e pela variação menor do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado no ano.

Déficit nominal - 
O setor público consolidado registrou déficit nominal de 16,121 bilhões de reais no mês de agosto, resultado acima dos 11,866 bilhões de reais verificados em julho, mas abaixo de agosto de 2011 (déficit de 17,101 bilhões).

No mês passado, o governo central registrou déficit nominal de 8,130 bilhões de reais, enquanto os governos regionais tiveram um resultado negativo de 8,189 bilhões de reais. Em contrapartida, as empresas estatais tiveram superávit nominal de 198 milhões de reais no mes passado.

No acumulado do ano até agosto, o déficit nominal do setor público consolidado soma 73,355 bilhões de reais, que correspondem a 2,52% do PIB. Em 12 meses encerrados em agosto deste ano, o déficit nominal soma 117,651 bilhões de reais, valor que corresponde e 2,72% do PIB.

BNDES fará novo aporte ao Tesouro para cumprir superávit


Veja online
Com Agência Estado

O reforço do banco ajudará o governo a alcançar 29 bilhões de reais em receitas com dividendos - previsão que consta no relatório do Orçamento

(Vanderlei Almeida/AFP) 
BNDES: resultado do banco ajudará governo a cumprir superávit 

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) fará um novo aporte de dividendos ao Tesouro para reforçar o caixa do governo federal e ajudar no cumprimento da meta de superávit primário (economia de recursos para pagamento da dívida) das contas públicas.

O reforço dos dividendos do BNDES vai ajudar o governo a alcançar 29 bilhões de reais em receitas com dividendos, previsão que consta no último relatório do Orçamento da União, divulgado na semana passada.

Decreto publicado nesta segunda-feira no Diário Oficial da União autoriza o Conselho de Administração do BNDES a repassar à União dividendos, chamados de intermediários, referentes ao lucro líquido do balanço encerrado no primeiro semestre deste ano. Os valores estão sendo apurados pelo BNDES, mas o banco já adiantou que houve lucro líquido de 2,7 bilhões de reais no período.

Segundo a área técnica do Ministério da Fazenda, não se trata de antecipação de receitas e o repasse dos dividendos intermediários está previsto no estatuto do BNDES de 2002. O governo diz que o pagamento desses dividendos não afeta as receitas do ano que vem. Está mantida a previsão de arrecadar 26 bilhões de reais em dividendos em 2013.

Essa é segunda vez este ano que o governo publica decreto para garantir aumento dos dividendos do BNDES. Em agosto, o banco já repassou cerca de 4 bilhões de reais em dividendos à União. Desse total, 3 bilhões de reais em dividendos foram pagos com títulos públicos com vencimento em 2035. O restante foi transferido em dinheiro. Esses dividendos foram entregues depois que decreto permitiu que o BNDES utilizasse a conta destinada apenas ao aumento de capital também para pagar dividendos ao Tesouro.

Ao longo deste ano, o governo já elevou em 9,17 bilhões de reais a previsão de dividendos, mesmo com a redução da lucratividade das empresas estatais. O BNDES e Caixa Econômica Federal, que não têm ações em bolsa, ajudaram a reforçar esse caixa.

Manobra -
O governo diz que não há manobra no repasse dos dividendos, mas o aumento dessas receitas num ano em que as estatais têm queda na lucratividade é visto com desconfiança. A avaliação dos analistas é que essa política de garantir "superdividendos", como vem sendo chamada no mercado, enfraquece os efeitos da política fiscal. A previsão de receitas e dividendos cresceu para acomodar a queda na estimativa de arrecadação. 

O que o Brasil quer da China?


Rubens Barbosa (*)
O Globo

Saída pelo Pacífico para os produtos brasileiros deveria estar no topo de nossa agenda de política comercial e de integração

A China, segunda economia e primeiro exportador global, com um crescente alcance militar e econômico na região Indo-Pacífica, está merecendo um tratamento diferenciado por todos os países. Os EUA, no início de 2012, promoveram a mais profunda mudança estratégica na sua política externa, de defesa e comercial, colocando a China no centro de suas preocupações estratégicas.

Desde a crise econômica internacional de 2008, Brasil e China vêm mantendo consultas frequentes para mitigar os efeitos negativos sobre seus respectivos países. Para refletir esse novo estágio das relações sino-brasileiras, ambos os governos decidiram designá-las Parceria Estratégica Global.

Para promover a implementação do Plano de Ação Conjunta, a presidente Dilma Rousseff e o primeiro-ministro Wen Jiabao assinaram, no Rio de Janeiro, em 21 de junho último, o Plano Decenal de Cooperação Brasil-China. Na ocasião, foi anunciada a elevação das relações bilaterais à condição de Parceria Estratégica Global.

O Plano Decenal tem por objetivo aprofundar a execução do Plano de Ação Conjunta entre o Brasil e a China 2010-2014, visando a fortalecer o desenvolvimento da Parceria Estratégica bilateral em áreas relevantes, e também estabelecer prioridades e projetos-chave dos dois lados de 2012 a 2021.

As ações prioritárias do Plano Decenal para o período 2012-2021 estão agrupadas em cinco seções:

  • ciência, tecnologia, inovação e cooperação espacial que, por iniciativa brasileira, figuram na primeira seção temática do Plano.

  • energia e mineração são tratadas em conjunto com infraestrutura e transportes.

  • investimentos na cooperação industrial, com vistas à diversificação de investimentos chineses no Brasil. É enfatizada a formação de joint ventures nos segmentos de semicondutores; componentes e peças de reposição para o setor automobilístico; geradores de energia eólica; e ferrovias e equipamentos ferroviários.

  • econômico-comercial reitera o objetivo de diversificar as exportações brasileiras para a China em setores de maior valor agregado e estabelece metas de crescimento do comércio bilateral.
  • cooperação cultural e intercâmbio entre as duas sociedades ressalta a relevância do conhecimento mútuo e a aproximação entre os dois povos; o compromisso de intensificar a interação acadêmica e, nessa linha, faz referência específica ao Programa Ciência sem Fronteiras.

O Plano Decenal — que pouca atenção despertou — deveria ser discutido pelos diferentes setores da economia, da indústria e dos trabalhadores dentro de uma perspectiva estratégica. Além dessas prioridades, a saída pelo Pacífico para os produtos brasileiros deveria estar no topo de nossa agenda de política comercial e de integração.

Ao se transformar no principal parceiro comercial do Brasil e um dos maiores investidores no mercado brasileiro, a China deveria merecer uma atenção especial dos nossos formuladores da política externa e comercial para definir o que queremos desse relacionamento.

(*) Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Tombini: visão de que Brasil depende da China é “extremada”. Mas há controvérsias...


Lilian Sobral
Exame.com

Presidente do BC diz que economia chinesa caminha para “pouso suave”, mas impactos no Brasil são limitados

©AFP / yasuyoshi chiba
Para Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, 
visão de que Brasil depende da China é exagerada

São Paulo – Embora o governo da China tenha adotado medidas para impedir uma desaceleração mais pronunciada da economia, ainda persistem os sinais de “pouso suave” no país. Essa é a visão de Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, que participou hoje, em São Paulo, do ciclo de palestras e almoços Encontros EXAME.

Essa desaceleração poderia ter efeitos na economia global, mas de maneira limitada no Brasil. “Existe uma percepção extremada de que a economia brasileira é dependente da economia chinesa”, disse Tombini, que contou que frequentemente os investidores estrangeiros perguntam sobre essa relação de dependência.

O presidente do BC defendeu que essa visão é exagerada por dois motivos. Primeiro porque, segundo ele, o Brasil ainda é uma economia relativamente fechada. “As exportações brasileiras correspondem a apenas 10,7% do nosso PIB”, disse.

Em segundo lugar, porque o país tem uma pauta de vendas diversificadas, tanto em produtos quanto em países de destino. Segundo Tombini, 17,7% das exportações brasileiras vão para a China, ou 2% do PIB.

Isso não quer dizer que o Brasil não sofra nenhum impacto de uma possível desaceleração chinesa. Segundo ele, o fraco desempenho da economia mundial e a desaceleração do ritmo de crescimento da economia chinesa, são fatores que contribuem com o recrudescimento do comércio internacional e têm efeitos sobre o Brasil.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Creio que o presidente do Banco Central está subestimando a importância da China e seu crescimento em relação ao Brasil.

A começar pela balança comercial. Uma repentina e brusca queda no ritmo de crescimento do país asiático provocaria redução nas exportações de nossas commodities. Sem contar na queda dos preços internacionais. Só neste quesito, já teríamos um duplo impacto negativo. Como nossos superávits, desde há muito tempo, são mantidos justamente pelas commodities, qualquer abalo tanto no volume exportado quanto nos preços internacionais conduziriam o país, inevitavelmente, a um déficit comercial. 
Por outro lado, tem sido graças aos importados que a demanda interna tem sido atendida, razão que sustenta, em relativo equilíbrio, nossos índices de inflação.  Se os preços dos produtos chineses se acelerarem, teremos forte impacto nos preços internos. 

Assim, o melhor seria, de um lado, o Brasil alargar suas parcerias  comerciais, além de implementar uma política industrial capaz de devolver competitividade aos manufaturados e semimanufaturados brasileiros. E neste quesito, o pacote de medidas é vasto. E, por outro lado, rezar muito para que este “pouso suave” da economia chinesa seja muito suave, mas muito suave mesmo, do contrário, vai respingar alguma porcaria por aqui, dado o enorme grau de dependência que a nossa economia mantém em relação à chinesa.  

O mercado do gás refém da falta de política estratégica


O Estado de S.Paulo

Predominou o pessimismo nas análises feitas no fórum O Futuro do Gás Natural, promovido na última quarta-feira pelo Estado. Especialistas do Brasil e do exterior apontaram mais problemas do que soluções para esse mercado, transferindo para o longo prazo a possibilidade de aumento da oferta e redução de preço do insumo no País. É um quadro que contrasta com o dos países desenvolvidos, a começar pelos Estados Unidos.

O mercado do gás é controlado quase totalmente pela Petrobrás, que produz o insumo internamente e controla, por intermédio do Gasoduto Bolívia-Brasil, o fornecimento do gás que o País importa da Bolívia. Com raríssimas exceções, a Petrobrás também controla as distribuidoras estaduais de gás.

O preço do gás - US$ 16 por milhão de BTU (unidade térmica britânica), no mercado livre - é elevadíssimo. Empresas que mudaram seu processo produtivo para substituírem o óleo combustível pelo gás, como as indústrias de cerâmica e de vidro, perderam competitividade, mas "não têm como voltar atrás", como afirmou o superintendente da associação Abividro, Lucien Belmonte. Até meados da década passada, o Brasil era fornecedor de vidro plano para quase toda a América do Sul.

Os custos do setor petroquímico dependem tanto do preço do gás que várias fábricas podem fechar.

Na matriz energética brasileira, o gás representa apenas 10%, ante a média mundial de 20%. Faltam políticas estratégicas para o gás, que tratem o insumo como "crucial para a competitividade", enfatizou o professor Edmar de Almeida, da UFRJ.

Nos Estados Unidos, o gás extraído das rochas de xisto (shale gas) tem custo baixo e abre a perspectiva de reduzir o custo da energia naquele país, que detém a segunda reserva mundial, depois da China.

Sem uma política bem definida para o gás, o insumo continuará sendo tratado improvisadamente, aliás, como grande parte do setor de energia. Na semana passada, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) decidiu acionar usinas térmicas movidas a óleo combustível, ao custo de até R$ 711 o MWh. 

Menor custo e menor poluição seriam possíveis, se a alternativa fosse o gás natural. Pior, o governo trata o assunto como "procedimento normal", sem comparar com as alternativas que decorreriam de políticas de longo prazo para estimular a oferta de gás natural.

Promover a concorrência, abrindo o setor aos investimentos privados, poderia ser um primeiro passo para estimular o mercado do gás natural.

Manguinhos volta a ser negociada na bolsa e cai quase 70%


Exame.com
Com Agência Reuters

Bovespa anunciou nesta tarde que as ações voltariam a ser negociadas a partir das 16h36

Divulgação

São Paulo - As ações da Refinaria de Petróleos de Manguinhos voltaram a ser negociadas na Bovespa nesta terça-feira, num leilão que terminou em queda de quase 70 por cento no preço dos papéis.

Faltando menos de uma hora para o final do pregão, a BM&FBovespa informou que recebeu determinação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que fossem retomadas as negociações com ações da Manguinhos.

A reabertura dos negócios se deu às 16h36, num leilão que se estendeu até o fechamento do mercado. O resultado do leilão apontou para um preço de 0,20 real para a ação preferencial -- tombo de 69,69 por cento em relação ao último pregão antes da suspensão dos negócios, em 11 de outobro--, e de 0,27 real para a ação ordinária, com queda de 67,85 por cento.

No dia 11, quando foram suspensas as negociações das ações da Manguinhos, o papel preferencial fechou cotado a 0,66 real, enquanto o ordinário ficou em 0,84 real.

Os negócios ficaram suspensos à pedido da empresa, após decisão do governo do Rio de Janeiro de desapropriar a área onde está situada a refinaria.

Os negócios com as ações da Manguinhos foram listados sob o título de "outros", informou a BM&FBovespa, devido a decreto do governador do Estado do Rio de Janeiro de desapropriação do imóvel da refinaria.

Exclusão de índices - Devido ao reinício das negociações com as ações da Manguinhos sob o título de "outros", a BM&FBovespa informou que as ações ordinárias da Refinaria de Manguinhos serão excluídas do índice IBrX 100 (.IBRX), sendo substituídas pelo papel da Iguatemi.

Além disso, as ações ordinárias e as preferenciais também serão excluídas dos índices Small Caps (.SMLL) e Brasil (.IBRA).

As mudanças valem a partir da quarta-feira.

Eletrobras quer produção hidrelétrica na Amazônia


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Fernanda Nunes, da Agência Estado

Segundo diretor de Geração da estatal, Valter Cardeal, companhia não irá abrir mão da produção na região como fonte prioritária de geração de energia

© Daniel Beltrá / Greenpeace
Imagens das obras de Belo Monte: 
como exemplo de geração hidrelétrica na Amazônia, 
Cardeal citou a construção da usina no Rio Xingu

Rio - A Eletrobras não irá abrir mão da produção hidrelétrica na Amazônia como fonte prioritária de geração de energia, afirmou o diretor de Geração da estatal, Valter Cardeal. Em palestra durante a abertura do XIV Congresso Brasileiro de Energia, a fala do executivo foi típica de um membro do governo, planejador do desenvolvimento econômico a partir da geração energia. Neste sentido, citou dois modelos de exploração dos rios da Amazônia: um que terá como prioridade a produção de riqueza e emprego na região onde são instaladas as usinas e outro que irá privilegiar a preservação do meio ambiente na geração de energia necessária ao desenvolvimento econômico.

Como exemplo de geração hidrelétrica na Amazônia, Cardeal citou a construção da usina de Belo Monte, no Rio Xingu, na área de abrangência do município de Altamira, que, em sua opinião, será diretamente beneficiado com a operação do empreendimento. "A usina é um laboratório vivo do desenvolvimento e conhecimento. Em Belo Monte, faremos o maior centro de pesquisa da América Latina em biodiversidade", afirmou.

Já o complexo de usinas que será construído no Rio Tapajós, também na região amazônica, foi mencionado pelo diretor da Eletrobras como exemplo de projeto que irá priorizar a preservação ambiental. O complexo de Tapajós prevê a instalação de usinas-plataforma, com baixo nível de alagamento da área no entorno.

Financiamento para Belo Monte
Cardeal disse ainda que o financiamento para a hidrelétrica de Belo Monte pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) irá sair até dezembro. O executivo negou que a liberação do financiamento esteja atrasada. "É um financiamento de grande volume. Não é fácil mesmo liberar. Mas não há atraso, faz parte do processo a demora", disse.

Ao sair da palestra, o executivo seguiu para a sede do BNDES, onde disse que trataria do financiamento. O diretor da Eletrobras afirmou que a demora não é fruto de qualquer problema de documentos ou apresentação de garantias financeiras. "O que há são muitos players", argumentou Cardeal, ressaltando que o banco exige informações de todos os acionistas da usina.

Eletronuclear admite novos atrasos na montagem de Angra 3


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Vitor Abdala, da Agência Brasil

Os problemas que afetam a obra retardaram a previsão de entrada em funcionamento para julho de 2016

Divulgação/Eletronuclear
Parte do reator de Angra 3: 
mais de 40% da obra foram concluídos até o momento

Rio de Janeiro – Um mês depois de a Eletronuclear anunciar que a conclusão da usina nuclear de Angra 3 atrasará 7 meses, o presidente da empresa, Othon Luiz Pinheiro da Silva, admitiu, hoje (22), uma demora maior na construção e montagem da unidade.

Os problemas que afetam a obra retardaram a previsão de entrada em funcionamento para julho de 2016. Segundo o presidente da Eletronuclear, o atraso de 7 meses no cronograma inicial, que previa a conclusão de Angra 3 em dezembro de 2015, foi provocado pela necessidade de reforçar as medidas de segurança.

Outra dificuldade são recursos e impugnações apresentados por empresas participantes da licitação para a montagem eletromecânica da usina. Um dos casos é o de uma empresa não habilitada na fase de pré-qualificação, que aguarda julgamento do Tribunal de Contas da União (TCU).

Othon Luiz explica que a obra tem 4 grandes áreas: a construção civil, o fornecimento de equipamentos nacionais, a montagem eletromecânica e o fornecimento por empresas estrangeiras de equipamento de instrumentação e controle.

“Seria irresponsabilidade descartar outros problemas. Nós acompanhamos tudo, mas a garantia de que os fabricantes vão entregar os equipamentos na data certinha é impossível”, disse o presidente da Eletronuclear.

Mais de 40% da obra foram concluídos até o momento. A previsão inicial era que 60% da construção estivesse pronta, caso não houvesse atraso no cronograma. A usina nuclear de Angra 3 terá capacidade de gerar 1.405 megawatts (MW), o suficiente para atender as cidades Belo Horizonte e Brasília.

Olimpíada e Copa levam triplo da verba para ações sociais


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Orçamento do Ministério do Esporte para 2013 prioriza os megaeventos - e coloca em segundo plano as ações voltadas diretamente para a população

(Lumo Arquitetura/Rio-2016/Divulgação)
Zona internacional da Vila Olímpica e Paralímpica, 
onde acontecerão as cerimônias de boas vindas às delegações na Rio-2016

O governo federal decidiu direcionar os gastos do Ministério do Esporte no próximo ano a ações relacionadas aos megaeventos esportivos que o país receberá a partir do próximo ano. Para se ter uma ideia, em 2013 a pasta vai destinar 1,2 bilhão de reais a projetos relativos à Copa das Confederações, que ocorre já no ano que vem, à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016. O valor é quase o triplo do que receberão projetos destinados diretamente à população, como ações educacionais, de lazer e inclusão social: 441,9 milhões de reais. É o que mostra levantamento da ONG Contas Abertas.

O Ministério do Esporte confirmou ao Contas Abertas que é decisão do governo federal priorizar investimentos nos grandes eventos esportivos. Contudo, ressaltou que isso não significa necessariamente que a pasta deixou de atender o esporte educacional, de lazer e inclusão social.

Os valores das ações também deixam clara a diferença no volume de recursos para cada vertente de aplicação. A principal ação do ministério para 2013 será a de “Implantação de Infraestrutura para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016”, que deve contar com 500 milhões de reais em recursos. O dinheiro será utilizado para modernizar e ampliar a infraestrutura necessária para preparação, realização e legado dos jogos, por meio da construção, reforma e adequação de instalações esportivas, laboratoriais e de apoio, aquisição de materiais, equipamentos e contratação de serviços.

A segunda maior iniciativa do ministério para 2013 também é voltada para os megaeventos. A pasta deve aplicar 230 milhões de reais para o apoio à realização da Copa do Mundo de 2014. A ação prevê verbas para a promoção, preparação, organização, realização e legado tanto da Copa de 2014 como da Copa das Confederações. Os recursos serão aplicados ainda em eventos internacionais e campanhas nacionais para a divulgação do Brasil como país-sede e a realização e atualização de estudos, levantamentos e pesquisas (quantitativos e qualitativos) de dados e informações para subsidiar a organização do megaevento.

As iniciativas pertencem ao programa “Esporte e Grandes Eventos Esportivos”, que ao todo tem 1,6 bilhão de reais em recursos. Proporcionalmente, a rubrica foi a principal responsável pelo aumento de pelo menos 17% no total de verbas do ministério. O volume de recursos da pasta passou de 1,6 bilhão de reais em 2012 para 1,9 bilhão de reais no ano que vem. A comparação não inclui as emendas parlamentares, ou seja, são analisadas as propostas orçamentárias do Executivo de 2012 e 2013.

A maior ação de razão “social” que aparece no orçamento do Esporte é “Implantação de Espaços Públicos de Esporte e Lazer”, as chamadas Praças do Esporte, que receberão 199,5 milhões reais. O objetivo é garantir políticas de acessibilidade, gestão e manutenção da infraestrutura (praças da juventude, academias ao ar livre, quadras, ginásios).

Outros 164,4 milhões de reais devem ser aplicados no desenvolvimento de atividades de apoio a projetos de esporte, educação, lazer e inclusão social, por meio do programa Segundo Tempo. Com convênios ou termos de cooperação, a verba deve atender crianças, adolescentes e jovens estudantes, com a oferta de múltiplas vivências esportivas e outras ações para seu desenvolvimento integral, com ênfase nas áreas de vulnerabilidade social.

Bolsa-Atleta - 
Os recursos do governo federal destinados ao programa Bolsa-Atleta serão mais do que triplicados no ano que vem, passando de 56 milhões de reais em 2012 para 183 milhões de reais em 2013. O crescimento é de 226,8% de um período para o outro. Segundo a assessoria do Esporte, o aumento dos recursos foi necessário em razão do Plano Brasil Medalhas 2016, lançado pela presidente Dilma Rousseff em setembro. 

Editora questiona Prêmio Jabuti


Maria Fernanda Rodrigues 
O Estado de S. Paulo

Romance 'Infâmia', de Ana Maria Machado, recebeu nota zero de um dos jurados; 'Nihonjin' foi o vencedor

Uma nota oficial divulgada pelo grupo Objetiva na manhã desta segunda-feira, 22, reacendeu a polêmica envolvendo o Prêmio Jabuti, que na quinta-feira anunciou os vencedores da 54.ª edição. Na apuração, o romance Infâmia, de Ana Maria Machado, ganhou nota zero do jurado C depois de ter recebido 10 e 9,5 dos outros dois jurados - seus nomes só serão revelados na noite da premiação, em 28 /11. Nihonjin (Benvirá), de Oscar Nakasato, foi o livro vencedor.

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Ana Maria Machado é presidente
 da Academia Brasileira de Letras

Esta não é a primeira vez que uma editora se manifesta contra a decisão do Jabuti. Em 2010, a Record reclamou do regulamento, que permitiu que Chico Buarque, segundo lugar em romance, ganhasse o prêmio de livro do ano. Isso não acontece mais.

Presidente do grupo, Roberto Feith questiona, na nota, se quando o jurado C definiu o seu voto no último escrutínio, ele tinha conhecimento dos votos dos demais jurados na fase anterior. Pergunta ainda se o jurado teria atribuído a mesma nota zero ao romance em todas as rodadas de votação. "Ao se confirmarem essas informações, fica evidente uma manipulação do resultado por parte de um dos jurados. Seu voto, em vez de refletir uma avaliação qualificada de cada uma das obras finalistas, pode evidenciar a determinação de eleger uma obra a qualquer custo", escreve Feith.

Segundo a Câmara Brasileira do Livro, já na primeira etapa o jurado C não votou em Ana Maria. "Foi tudo feito dentro do regulamento, mas eu não chamaria este jurado de novo. Vamos melhorar o regulamento", cometa Mansur Bassit, diretor executivo da CBL.

Notas zero de jurado definem categoria romance no Jabuti


Maria Fernanda Rodrigues 
O Estado de S. Paulo

Um dos 3 jurados deu 0 a escritores consagrados e permitiu a vitória de Oscar Nakasato, por ‘Nihonjin’
Em 2010, Oscar Nakasato, então professor de literatura do ensino médio em Apucarana, no Paraná, tirou o romance Nihonjin da gaveta e o inscreveu no 1.º Prêmio Benvirá. Era seu primeiro original. O júri, composto por José Luiz Goldfarb, Nelson de Oliveira e Ana Maria Martins, escolheu a obra por unanimidade e, como prêmio, o professor ganhou R$ 30 mil. O livro, sobre a imigração japonesa, foi editado pela Benvirá, da Saraiva, em 2011. Nesta quinta-feira, 18, Nihonjin foi considerado pelo Prêmio Jabuti como o melhor romance de 2011, desbancando obras como Infâmia, de Ana Maria Machado.

Reprodução
Nakasato desbancou obras como 'Infâmia', de Ana Maria Machado

A nota de um dos três jurados - seu nome só será divulgado na cerimônia em 28 de novembro - foi responsável pela definição do vencedor. Autora de mais de uma centena de livros e presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, por exemplo, recebeu zero em dois critérios: construção de personagem e enredo. Outros concorrentes, como Wilson Bueno, prêmio APCA de romance em 2011 por Mano, a Noite Está Velha, que era um dos finalistas do Jabuti, também tiveram notas baixíssimas.

"Dar um zero a uma autora já consagrada é pesado e exagerado, mas é um direito do jurado. As regras deste ano abriram margem para que uma nota tivesse peso decisivo e o jurado percebeu a influência da matemática", disse José Luiz Goldfarb, curador do tradicional prêmio.

Este ano, os membros do júri puderam dar de 0 a 10 às obras concorrentes. Antes, a pontuação ia de 8 a 10 e era possível usar notas decimais, o que tornava a disputa mais equilibrada. Para a próxima edição, Goldfarb já pensa em mudanças - deve eliminar a nota mais baixa e incluir uma quarta pessoa na comissão formada, no caso da categoria romance, por jornalistas e críticos literários. "Agora, não há o que fazer porque o regulamento é claro e seu voto deve ser respeitado." Segundo o curador, o tal jurado já participou de outras edições do prêmio.

Na conturbada apuração, Naqueles Morros, Depois da Chuva, de Edival Lourenço, ficou em segundo lugar e O Estranho No Corredor, de Chico Lopes, em terceiro. Nakasato e os vencedores das outras 28 categorias ganham a estatueta do Jabuti, R$ 3.500 e chance de concorrer ao prêmio melhor livro do ano, no valor de R$ 30 mil, a ser anunciado na cerimônia. Os segundos e terceiros colocados levam apenas a estatueta.

Esta, porém, não foi a única surpresa da lista, divulgada pela organização. Na categoria conto, Sidney Costa, com seu O Destino das Metáforas, venceu Dalton Trevisan, considerado um dos melhores contistas do País e que concorria com O Anão e A Ninfeta. Na terceira posição ficou Sérgio Sant'Anna, com O Livro de Praga.

Maria Lúcia Dal Farra venceu em poesia com Alumbramentos. Depois vieram Vesúvio, de Zulmira Ribeiro Tavares, e Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista.

O Jabuti premia cada uma das etapas da produção de um livro - seja ele de ficção ou técnico. Capa e tradução são algumas das categorias. O Estado e o Direito Depois da crise, de José Eduardo Faria, editorialista do Estado, ficou em 2.º lugar entre os livros de direito.

Conheça (e ouça) a baleia-branca que imita voz humana

Vanessa Barbosa
Exame.com


Mantida em um centro de pesquisa nos EUA, a beluga NOC aprendeu a fazer sons humanos na tentativa de se comunicar, indica estudo. Espécie está ameaçada de extinção

Wikimedia Commons
Habitante das águas frias em torno do 
círculo polar ártico, a beluga está na Lista Vermelha

São Paulo – Branquinhas, “sorridentes” e extremamente dóceis, as baleias-brancas, também chamadas de belugas, possuem uma outra característica surpreendente: elas são capazes de imitar a voz humana. É o que indica um estudo realizado pela Fundação Nacional de Mamíferos Marítimos em San Diego, EUA, e publicado nesta terça-feira pelo jornal científico Current Biology.

Durante mais de 20 anos, pesquisadores gravaram sons de um tanque com baleias e golfinhos semelhantes aos emitidos por duas pessoas conversando. O estudo detalha o caso de uma baleia-branca chamada NOC, que com seu "falatório" chegou a confundir um mergulhador.

“A baleia foi reconhecida como a fonte dos sons, quando um mergulhador emergiu do tanque onde estava o animal e perguntou: ‘Quem me disse para sair?’ Nossas observações levaram-nos a concluir que o "fora" (“Out”, em inglês”) repetido várias vezes veio da NOC”, contam os pesquisadores.

O curioso é que golfinhos (a baleia beluga é uma parente do golfinho) e papagaios foram ensinados a imitar os padrões de fala humana, mas é raro um animal fazê-lo espontaneamente. Segundo os pesquisadores, a aprendizagem no caso de NOC foi realmente espontânea e o objetivo seria estabelecer contato com os cuidadores.

Com esse estudo, os pesquisadores da fundação esperam influenciar a maneira como os seres humanos pensam e se relacionam com os mamíferos marinhos, e de alguma forma demonstrar a importância da conservação dos oceanos. Habitante das águas frias em torno do círculo polar ártico, a beluga está na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, da IUCN, devido à caça intensa, especialmente no século passado.




Agora, veja o vídeo divulgado pela WWF para a Hora do Planeta 2013 ao som de David Guetta:



Tratar dependente de crack sem internação é impossível


Pâmela Oliveira e Cecília Ritto
Veja online

Clínicas particulares consideram 105 dias de internação o mínimo necessário para o primeiro ciclo contra a dependência química. Na rede pública estadual do Rio, atendimento é apenas ambulatorial

 (Divulgação / SMAS) 
Jovem é conduzido para abrigo após mais 
uma operação de combate ao crack, no Rio

“É difícil manter o paciente em tratamento ambulatorial. O paciente simplesmente não vai ao tratamento. A única forma de tratar o vício do crack é com a internação”, diz Jaber

Entre os muitos caminhos possíveis para combater o crescimento devastador do crack nas cidades brasileiras, pelo menos dois são inescapáveis: é preciso combater o tráfico e os pontos de venda; e é preciso tratar urgentemente os dependentes químicos, grande parte desse grupo formada por menores de idade oriundos de famílias pobres. Em relação ao crack, nada é simples ou barato. E no momento, no Rio de Janeiro, o descompasso entre essas duas ações torna os esforços quase nulos. Como o site de VEJA mostrou ao longo da última semana, o governo do estado empenhou recursos na ocupação da área onde se formou a maior cracolândia do estado, próxima das favelas de Manguinhos e do Jacarezinho. Já no dia seguinte à ocupação, os usuários, mesmo aqueles recolhidos pelas equipes de assistência social, reapareceram nos arredores de outros pontos de venda da droga. Não há como ser diferente: as duas únicas clínicas do estado estavam fechadas, e não há, por enquanto, onde tratar os adultos em situação de dependência.

Sem possibilidade de manter a internação, pacientes interromperam o tratamento. Como os contratos com o estado estavam vencidos, dependentes em recuperação simplesmente receberam alta e voltaram para a rua. A promessa do governo estadual era de, nesta segunda-feira, estabelecer novos contratos com  três clínicas, que juntas ofereceriam 150 vagas.

Como toda medida anunciada sem que se tenha de fato a solução para o problema, a retomada do funcionamento das clínicas não aconteceu. O governo do estado informou que “começará a capacitar” esta semana a equipe que atenderá os dependentes nas clínicas de Santa Cruz e de Campo Grande, bairros da zona oeste do Rio, e da cidade de Casemiro de Abreu. Para quem não conhece o eufemismo das versões oficiais, a mensagem é a seguinte: atualmente não existe tratamento adequado. O governo do estado explica que está em curso uma "reestruturação" do estado para o combate aos usuários de drogas, para iniciar o novo tratamento já na próxima semana. Ou seja: em uma semana o governo do estado considera ser capaz de preparar gente para lidar com dependentes da mais mortal das drogas.

O plano do governo do estado para os dependentes químicos é o seguinte: os usuários que por ventura buscarem tratamento devem procurar um dos Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, os Caps AD. Nesses locais é possível retirar medicamentos e receber tratamento apenas ambulatorial – o dependente químico pode passar o dia em um Caps, mas não há internação ou pernoite. O trabalho dos psicólogos é criar um vínculo com o paciente para estimular o retorno dele. “Não é punição ou recolhimento”, reforça Fernanda San Martin, coordenadora do Observatório Estadual de Gestão e Informação Sobre Drogas do governo do Rio. A equipe desses centros poderá encaminhar os pacientes para outro estágio do tratamento, no Centro de Atendimento Regionalizado para Situação de Álcool e Outras Drogas, estrutura ainda a ser criada, atrelada às secretarias de Assistência Social e Saúde.

Nos centros regionais, quando inaugurados, os dependentes passarão por avaliação médica e entrevistas com equipe multidisciplinar. As portas continuarão abertas para que os usuários saiam quando quiserem. “Todas as clínicas do estado estão abertas. Os lugares devem garantir a liberdade”, diz Fernanda, na contramão do que as clínicas particulares têm feito para conseguir tratar esse tipo de paciente.

Mesmo em condições ideais o tratamento do crack é um caminho tortuoso e dificílimo para paciente, famílias e profissionais envolvidos. Responsável por uma clínica na zona oeste do Rio onde há permanentemente cerca de 50 dependentes em tratamento para se livrar da droga, o médico Jorge Jaber compara o comportamento do usuário de crack ao de um animal em busca de alimento. “O dependente do crack ouve, mas não escuta. Vê, mas não enxerga. O mecanismo de atenção está totalmente voltado para obter a substância. Da mesma forma que um animal faminto, que só enxerga a comida, a única coisa que o usuário enxerga é o crack”, afirma Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas. 

A clínica coordenada por Jaber recebe majoritariamente clientes de planos de saúde. Em clínicas particulares, o custo para o ciclo de tratamento de 105 dias chega a 25 mil reais. Este período inicial, ressalta Jaber, é o mínimo para assegurar o início da recuperação. E ainda assim as chances de sucesso na primeira internação são pequenas: só 30% dos dependentes que recebem tratamento apenas uma vez conseguem não voltar. A maioria precisa de sucessivas internações. Ainda assim, a vigilância deve ser permanente para o resto da vida, alerta Jaber.

“O crack é uma substância com alto poder de causar dependência. Uma pessoa que experimenta e fuma quatro ou cinco vezes em um dia já se torna praticamente dependente. E o tratamento é mais difícil. É mais longo do que o de um dependente em cocaína, por exemplo. Em média, depois de 15 dias de desintoxicação, o usuário de crack precisa de mais 90 dias internado para conseguir desenvolver mecanismos psicológicos para evitar voltar à droga. É o tempo básico. Já o usuário de cocaína precisa de 45, em média”, afirma.

Dado o poder de criar dependência, é improvável que apenas o tratamento ambulatorial seja capaz de reverter o quadro do paciente. E a interrupção do tratamento, como ocorreu nas clínicas do estado do Rio, joga fora qualquer avanço. “É difícil manter o paciente em tratamento ambulatorial. O paciente simplesmente não vai ao tratamento. A única forma de tratar o vício do crack é com a internação”, diz Jaber.

E aí surge outra explicação para os efeitos pífios das políticas públicas contra o crack até o momento: na rede pública de saúde do estado do Rio o atendimento é apenas ambulatorial. Ou seja, o paciente chega, recebe os cuidados médicos e sai quando quer, sem receber o acompanhamento psiquiátrico necessário para reduzir as chances de, novamente, buscar a droga.

Para todo o estado do Rio, havia, antes do fim do contrato com as duas clínicas de dependência química para adultos, 180 vagas para internação disponíveis para todo tipo substância. O total de usuários de crack só na capital é um chute: seriam 3.000 os viciados, entre adultos e crianças. Apesar de o total de vagas no estado ser ínfimo, não chega a haver superlotação. Afinal, o dependente de crack raramente busca tratamento.

A chegada do crack à classe média, no entanto, já cria uma fila para tratamento na rede particular. Pela primeira vez em 20 anos, a Clínica Jorge Jaber, que tem capacidade para receber 70 pacientes, tem fila de espera. “O crack não é mais droga de pobre. Recebo com frequência pacientes de classe média que já foram retirados por suas famílias das ruas, de cracolândias. É muito triste. Essa turma do crack se vende por qualquer coisa, é um negócio deprimente", afirma.

“Geralmente o usuário da classe média que se vicia em crack já usou maconha, álcool ou cocaína sem ficar dependente de imediato. Então acredita que tem um domínio e experimenta. Mas um fim de semana já é suficiente para se viciar”, diz, acrescentando que 30% dos que concluem o tratamento internado pela primeira vez não têm recaídas nos seis meses posteriores. Na cocaína, o índice é de 66% a 72% em 1 ano e 8 meses após a alta da clínica. 

O médico alerta que o tratamento é para sempre. "O perigo é para sempre. É como nascer. Depois que caímos no mundo estamos condenados a viver nele. A única hipótese que nos tira do mundo é a que não queremos, a morte".

Quatro passos do tratamento de usuários de crack

Internação


A fase inicial é de desintoxicação, e se estende pelos primeiros 15 dias. Como o paciente não tem controle nem noção dos prejuízos causados pela droga, o tratamento resume-se a medicamentos para reduzir as crises de abstinência e a ansiedade. O dependente volta a ter horário para dormir e vontade de comer.

Acompanhamento psicológico


Após as duas semanas iniciais, o paciente começa a achar que pode parar de usar a droga sozinho. Mas ele ainda não tem defesas mentais para dizer 'não' ao crack.  Por isso, a continuidade do tratamento é voltada para o acompanhamento psicológico. A medicação é reduzida e o dependente começa a praticar atividades físicas. É como se a pessoa estivesse cursando um intensivo para passar no vestibular da abstinência.

Terapia


O paciente alta da clínica ao fim de 105 dias (três meses e meio), o que não significa que o paciente esteja curado. Para evitar recaídas, ele deve fazer terapia - tanto individual quanto em grupo, dividindo assim suas angústias com outras pessoas que também lutam contra a dependência.

Vigilância eterna e apoio


Todo o modo de vida do paciente precisa mudar após a parte mais intensiva do tratamento, e ele precisa entender que a vigilância para evitar recaídas nunca cessará. Mas não depende apenas dele - a família e as pessoas mais próximas têm papel fundamental neste apoio. É primordial também mudar as companhias e cortar relações com antigos parceiros da droga.

Saiba como melhorar a qualidade da refeição das crianças


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Um adulto com bons hábitos alimentares é formado ainda na infância - mas também não se podem privar os pequenos de uma ou outra guloseima. VEJA desta semana mostra como encontrar o equilíbrio correto entre prazer, disciplina e saúde

(Claudio Gatti) 
Pediatra e nutrólogo Artur Figueiredo Delgado

É preciso redobrar a atenção com o que vem das prateleiras dos supermercados, onde não faltam opções de gostosuras repletas de açúcar, gorduras saturadas e sódio. Escolhas erradas podem significar um atalho para doenças como a obesidade, a hipertensão e o diabetes. Para ajudar os pais a fugir das armadilhas, VEJA levou o pediatra e nutrólogo Artur Figueiredo Delgado, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, às compras. Com a cestinha em mãos, o médico selecionou as melhores opções para compor refeições principais, café da manhã, lanchinhos e sobremesas para crianças com mais de 2 anos. Legumes, verduras e frutas frescas não aparecem na lista do médico, pois são itens obrigatórios na despensa de qualquer família.

Leite integral ou semidesnatado


Por quê: o leite de vaca deve fazer parte da dieta das crianças a partir de 1 ano de idade que deixaram de ser amamentadas - as meninas, em particular, precisam do estoque de cálcio para prevenir a osteoporose no futuro. O desnatado não é recomendado aos pequenos, por não conter os ácidos graxos essenciais de que eles necessitam na fase de crescimento. Já o integral e o semidesnatado contêm a mesma quantidade de proteína e cálcio; se seu filho estiver acima do peso, prefira o segundo. O leite deve ser servido preferencialmente in natura,mas pode ser batido com frutas ou levar uma porção mínima - frise-se, mínima - de achocolatado em pó ou café. A regra é simples: quanto mais clarinho o conteúdo do copo, melhor. O médico recomenda o consumo de três copos de leite por dia. As bebidas achocolatadas prontas, vendidas em caixinha, não devem entrar nessa conta. "Os achocolatados industrializados são ricos em açúcar e gordura e não oferecem os benefícios do cálcio e da proteína do leite", diz o pediatra

Arroz e feijão


Por quê: a combinação é a fonte mais saudável de carboidrato, proteína, vitaminas e sais minerais nas principais refeições do dia. O macarrão, prato preferido de dez em cada dez crianças, fornece apenas carboidratos e pode contribuir para o sobrepeso infantil - portanto, deve ser servido no máximo duas vezes por semana, em companhia de legumes e carne ou outra proteína. O macarrão instantâneo, com elevado teor de sódio, deve ser riscado do cardápio. "Um prato de macarrão instantâneo pode conter 2,5 gramas de cloreto de sódio - ou seja, toda a quantidade de sódio diária que um adulto pode consumir", explica Delgado

Queijos brancos e geleias


Por quê: para acompanhar o pãozinho, o pediatra sugere queijos brancos, como frescal, cottage e ricota, que apresentam baixo teor de gordura saturada e são ricos em cálcio e proteína. Outra opção é a geleia sem adição de açúcar - mas também sem adoçantes artificiais




Água e água de coco

Por quê: poucas crianças têm o hábito de beber água, embora ela seja essencial para o bom funcionamento gastrointestinal. Para completar o cardápio de bebidas, valem os sucos de frutas frescas e a água de coco. Já os sucos artificiais, de caixinha, são um fator importante na obesidade infantil. "É um engano achar que a substituição do refrigerante pelo suco industrializado é saudável. E essa falsa impressão pode resultar no consumo exagerado de um produto rico em sódio e açúcar", explica o médico. Os sucos à base de soja também não oferecem benefícios. "Eles são muito calóricos e trazem poucos nutrientes para a criança", diz o médico. Água gaseificada também hidrata, mas deve ser evitada por conter sódio. Por fim, os refrigerantes devem ficar reservados para situações especiais, como festinhas de aniversário ou o almoço de domingo. O consumo habitual, além de promover o sobrepeso, pode causar cólica e gastrite nas crianças

Picolé de frutas



Por quê: para saciar o desejo por sorvetes, o pediatra indica picolés de frutas. Prefira os de limão ou abacaxi, que apresentam menos corantes que os de uva, por exemplo, o que reduz os riscos de alergias alimentares. Já os sorvetes cremosos, de massa, são contraindicados no dia a dia, por trazerem gordura na composição. Como os refrigerantes, devem ser reservados para ocasiões especiais




Frutas secas e barras de cereais


Por quê: damascos secos e uvas-passas são ricos em fibras e antioxidantes, que combatem os radicais livres, e constituem uma boa opção de lanchinho saudável. As barras de cereais - sem chocolate, que apenas acrescenta gordura e açúcar ao alimento - são uma fonte energética de rápida combustão, ideal para crianças que praticam atividades físicas

Peixes e ovos



Por quê: até a adolescência, as crianças precisam ingerir porções diárias de proteínas. Ovos e carnes magras, como frango e peixe, são ideais para suprir essa necessidade. O médico recomenda particularmente o consumo de peixe, fonte também de ômega-3, que ajuda no desenvolvimento neurológico e imunológico, ao menos duas vezes por semana. Os ovos, que saíram da lista de vilões da saúde, são bem-vindos no cardápio infantil: a clara, rica em proteínas, pode ser consumida diariamente, e a gema, fonte de colina, substância essencial na constituição das membranas celulares, entra na dieta quatro vezes por semana. Os embutidos e as carnes industrializadas são abundantes em sódio e, assim, ficam de fora da lista de compras do pediatra

Biscoito integral


 Por quê: além de conterem menos açúcar e gordura que as versões convencionais, as bolachas e os cookies integrais são ricos em fibras, menos calóricos e menos agressivos aos dentes. Os recheados, que a criançada adora, são os vilões do mundo dos biscoitos. "Eles contêm gordura hidrogenada, que age como a gordura saturada - ou seja, aumenta os níveis de triglicérides e colesterol ruim", explica Delgado

Iogurte natural


Por quê: além de conter cálcio e proteínas, o iogurte natural integral está livre de aromatizantes e corantes, presentes nos que têm sabor de fruta. A opção mais saudável é misturar ou bater o natural com frutas frescas




Pão integral



Por quê: pães contêm grande quantidade de gordura vegetal e sal. A alternativa são os integrais, que, embora também calóricos, são ricos em fibras. Para prevenir a obesidade, é preciso ater-se ao consumo moderado - no máximo duas fatias diárias do pão de fôrma integral


Gelatina


Por quê: fonte de proteína em forma de colágeno - que, por sinal, não substitui a proteína das carnes e dos ovos -, ela agrada a grande parte das crianças