sábado, abril 20, 2013

Terrorismo: pode acontecer aqui?


Leopoldo Mateus, Murilo Ramos, Leandro Loyola E Martha Mendonça, Com Flávia Tavares
Revista ÉPOCA

O atentado de Boston aumentou a preocupação das autoridades brasileiras com ações terroristas na Copa. Para o Ministério Público, estamos atrasados

(Foto: Alexandre Vieira/Ag. O Dia)
PRONTOS
Policiais do Bope treinam operação no Corcovado. 
Polícias e Forças Armadas se preparam para garantir a segurança na Copa e na Olimpíada 

O que diferencia o terrorismo do simples homicídio está no nome. Seu objetivo é aterrorizar. Não os mortos, cujas vidas são interrompidas sem que eles nem saibam o motivo. O terrorismo espalha o medo entre os vivos, e seus efeitos não escolhem grupos sociais nem respeitam fronteiras. Prédios de escritórios, bares, aviões comerciais, trens, metrôs, hotéis, nas Américas, na Europa, na África ou na Ásia: qualquer lugar pode ser alvo de uma ação terrorista, desde que ela possa causar um grande número de mortos e espalhar medo. Com 500 mil pessoas nas ruas para acompanhá-la, a Maratona de Boston era um alvo potencial. O Brasil não tem histórico de atividades terroristas, mas organizará, até 2016, alguns dos maiores eventos esportivos do planeta, com a presença de delegações de todas as partes do mundo. O Brasil pode ser escolhido por algum grupo armado como palco de um ataque? Sim. O país pode garantir que um atentado, caso planejado, não aconteça? Essa é a missão das autoridades brasileiras.

Na última quinta-feira (18), às 10h30, o ministro da Defesa, Celso Amorim, reuniu-se com seus principais auxiliares. Queria saber como andam os preparativos para garantir a segurança durante a Copa das Confederações, marcada para junho próximo, e na Copa do Mundo, no ano que vem. A reunião ganhou contornos mais preocupantes após o atentado à bomba em Boston. Amorim estava especialmente interessado nas informações do general Marco Antônio Freire Gomes, comandante da Brigada de Operações Especiais, localizada em Goiânia. Freire Gomes é o responsável pelo destacamento encarregado das ações contraterrorismo durante grandes eventos. Essa elite militar conta com 1.200 homens especializados em atividades delicadas, como o desarme de bombas e artefatos químicos e radiativos. Entram em ação em situações extremas. Para um país com histórico pacífico, tamanha preparação pode até parecer desmedida. A natureza do terrorismo, revelada na tragédia de Boston, prova que não é.

Os preparativos para a segurança dos grandes eventos começaram há cerca de dois anos. O governo federal distribuiu a responsabilidade da organização entre o Ministério da Defesa e o Ministério da Justiça. Criou até a Secretaria Extraordinária de Segurança para os Grandes Eventos (Sesge), responsável por organizar as ações de segurança pública. É da Sesge a responsabilidade de proteger aeroportos, estradas, portos, rede hoteleira, locais de exibições públicas, pontos turísticos e colaborar nos estádios e centros de treinamento. Até a Copa do Mundo contará com quase R$ 1,2 bilhão para comprar equipamentos e distribuir a Estados e municípios. Ao Ministério da Defesa, cabe organizar a proteção ao espaço aéreo, à área marítima e hidroviária, a usinas hidrelétricas, a subestações de energia e às fronteiras. No caso das fronteiras, há uma divisão de tarefas com a Sesge. Para cumprir sua missão, o ministério conta com R$ 768 milhões. As ações de segurança na Copa serão coor¬denadas nacionalmente pela Sesge e pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA).

As iniciativas do governo, em suas várias esferas, têm sido acompanhadas de perto pelo Ministério Público Federal. O órgão criou um Grupo de Trabalho, o GT Copa, que produz balanços trimestrais sobre as medidas e os gastos para garantir a segurança na Copa das Confederações e na Copa de 2014. O último Relatório Parcial, produzido pelo procurador da República José Roberto Pimenta Oliveira e obtido com exclusividade por ÉPOCA, traz em detalhes o que os órgãos envolvidos têm – ou não – feito. A conclusão do procurador preocupa. “Considerando que a Copa das Confederações já será agora e que ela integrava todo esse planejamento, é manifesto que as providências estão atrasadas”, diz José Roberto Pimenta. “É necessária uma atuação mais eficiente da administração pública.”

(Foto: Celso Junior/ÉPOCA)
TROPA DE ELITE
Treino das Forças Especiais do Exército em Goiás. 
O grupo tem sido preparado para enfrentar possíveis ameaças terroristas em território brasileiro 

No final de 2012, o MPF requisitou de todos os órgãos públicos envolvidos um resumo das medidas tomadas por cada um até então. Os governos do Rio Grande do Norte, Paraná, Distrito Federal e Amazonas nem sequer responderam. Também ficaram em silêncio as prefeituras de Manaus, Natal e Salvador. A Sesge disse ter executado, já em 2011, seu ano de criação, um orçamento de mais de R$ 193 milhões, vindos do Fundo Nacional de Segurança Pública. Ela informou ao MPF ter estabelecido convênios com secretarias de Segurança estaduais e municipais para comprar equipamentos e investir em capacitação das polícias e Guardas Municipais. Entre as principais medidas tomadas, está um convênio com a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro para implementar o Centro Integrado de Comando de Controle Nacional Alternativo (CICCNA), um centro de operações, em construção, na Praça Onze, centro do Rio. A empresa KPMG foi contratada, por quase R$ 10 milhões, para diagnosticar os serviços de todos os centros locais, instalados em cada cidade sede, de processos operacionais a tecnologia da informação e comunicação. A Sesge também fechou um Termo de Cooperação com a Receita Federal para comprar equipamentos a ser instalados nas fronteiras, no valor de quase R$ 40 milhões.

Ainda segundo os dados enviados ao MPF, dos R$ 52 milhões destinados à Marinha, R$ 29 milhões serão aplicados principalmente em centros de comando e controle e força de contraterrorismo. O restante será distribuído para o corpo de fuzileiros navais. A Aeronáutica ficou com R$ 63 milhões, dos quais grande parte será aplicada em suprimentos e manutenção de aeronaves, capacitação de recursos humanos e no sistema de controle do espaço aéreo. O Exército ainda deve um balanço das medidas tomadas até agora. Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal enviaram ao Ministério Público Federal explicações genéricas, com relação à liberação de verbas. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ter firmado um Termo de Cooperação Técnica com a Sesge para a implementação do Projeto Arena, destinado à avaliação de monitoramento de riscos em grandes eventos.

Entre os Estados que já responderam os ofícios do Ministério Público, um dos que mais detalharam suas medidas foi Pernambuco. O governo local afirmou ter criado a Comissão Estadual de Segurança Pública para grandes eventos, além de um Comitê Gestor de Ações Estratégicas Integradas. Pernambuco comunicou ainda ter apresentado uma lista de equipamentos que devem ser comprados pela Sesge e repassados ao Estado, como 118 pistolas elétricas, um conjunto antibomba e mais de 200 kits de equipamentos. A prefeitura do Rio de Janeiro disse que colocará 8 mil guardas municipais nas ruas durante o Mundial.

Além de identificar atraso na preparação geral, o MPF diz se preocupar com a existência de dois centros de controle, um civil e outro militar. “O problema será a comunicação desses centros de controle para ter uma situa¬ção relativamente integrada, pois eles precisam ter uma sintonia perfeita”, diz o procurador Pimenta. A falta de um comando centralizado, seja na prevenção ou no combate a ações terroristas, já foi um grave problema no passado. No atentado da Olimpíada de Munique, em 1972, a existência de várias unidades de comando prejudicou a tentativa de salvar os atletas israelenses. Em 2001, nos Estados Unidos, a falta de sintonia entre o FBI e a CIA permitiu que os terroristas da al-Qaeda realizassem os ataques de 11 de setembro.

(Fotos: Daniel Basil/Divulgação e Antônio Gaudério/Folhapress)


ÉPOCA conversou com os responsáveis pela segurança dos grandes eventos brasileiros. Segundo eles, entre as medidas estratégicas que serão tomadas para minimizar ameaças à segurança à Copa das Confederações e à Copa do Mundo estão: 1)vistoria prévia de todos os setores dos estádios, com o uso de equipamentos de raios X; 2) revista dos torcedores, com detectores de metal e aparelhos de raios X, além de imagens de circuitos internos de TV; 3) isolamento de uma área em torno do estádio, para veículos, num raio de 1 quilômetro a 1,5 quilômetro; 4) criação do Centro Integrado de Comando e Controle, estrutura de vigilância que concentrará imagens de câmeras instaladas em aeroportos, caminhões, helicópteros, ruas e informações colhidas por agentes de segurança; 5)em partidas consideradas críticas, alocação de um agente de segurança para cada 30 torcedores; 6) criação de zonas de exclusão do espaço aéreo, geralmente próximas aos estádios do Mundial; 7) 10 mil membros das Forças Armadas a postos, como força de contingência para situações emergenciais; 8) reforço, a partir de maio, da fiscalização das fronteiras; 9) escoltas e batedores para equipes esportivas.

Neste ano, a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, com a presença do papa Francisco, serão os primeiros desafios das autoridades. O general José Alberto da Costa Abreu, coordenador de Defesa da Área Rio nos grandes eventos e comandante da Primeira Divisão de Exército, diz que, já para os eventos de 2013, um efetivo de 7.500 homens estará nas ruas cariocas ou pronto para atuar em ações de defesa – antiterrorismo, defesa química bacteriológica e controle do espaço aéreo. No aeroporto do Galeão, farão a segurança das comitivas. “Estaremos bastante invisíveis em nossas funções, o que é importante em eventos esportivos. Estaremos a postos e controlando tudo de nosso centro de comando”, afirma. Grupos militares também planejam estar presentes em áreas estratégicas da infraestrutura da cidade, como reservatórios de água e subestações de energia elétrica. “Muito se fala em terrorismo, mas há tipos de sabotagem que podem prejudicar o andamento dos eventos, caso falte água ou luz na cidade”, afirma.

O Brasil vem treinando equipes de policiais e militares para que estejam capacitados a enfrentar as situações mais complexas e arriscadas de um possível atentado terrorista na Copa do Mundo ou na Olimpíada do Rio. A principal delas é o Batalhão de Forças Especiais do Exército. Seus integrantes são selecionados entre oficiais voluntários vindos da Academia Militar das Agulhas Negras ou da Escola de Sargentos das Armas. Apenas 30% desses voluntários ganham o direito de sustentar, na altura do ombro, a designação “Forças Especiais”. O processo de seleção não é para qualquer um – e não há condescendência. Um militar das Forças Especiais precisa ser forte, ágil, resistente, frio e agressivo. Tem de atirar com exatidão, saltar de paraquedas e mergulhar com destreza. É a tropa brasileira que mais se assemelha aos Seals, a unidade de elite da Marinha americana que matou Osama bin Laden, líder da al-Qaeda.

Um galpão de blocos, num terreno do Exército na periferia de Goiânia, Goiás, é onde as Forças Especiais têm sido treinadas para emergências militares. Na semana passada, num final de tarde, 12 homens armados esgueiravam-se silenciosamente, rente à parede externa. Vestiam grossos uniformes camuflados, forrados com uma camada de carvão ativado, para evitar a contaminação por agentes químicos. Seus rostos estavam cobertos com máscaras de gás, equipadas com rádio. Armados com submetralhadoras MP-5, os homens entravam numa sala atirando e gritando frases em código. Os tiros acertavam os alvos na cabeça e no peito. A casa invadida era uma célula terrorista simulada, montada com paredes, móveis, fogão, geladeira e freezer. A operação treinada pelas Forças Especiais conta ainda com especialistas em armas químicas, que revistam o local à procura de produtos perigosos. Parece filme, mas é apenas o tipo de situação extrema para a qual tropas brasileiras precisam estar preparadas.

O general José Carlos De Nardi, chefe do Estado-Maior do conjunto do Ministério da Defesa, diz que os atentados em Boston serviram para que o Brasil ficasse ainda mais atento à segurança para os grandes eventos. “O Brasil está se preparando bem. Temos mandado nosso pes¬soal para acompanhar importantes eventos e ganhar experiência”, afirma. O secretário da Sesge, Valdinho Caetano, nega que a Copa das Confederações seja apenas um teste para o Brasil, de menor importância. “É um grande evento, reunirá jogos importantes de grandes seleções. Um teste pressupõe uma possibilidade de falha. E nós não pressupomos falhas”, afirma. O governo americano tem elogiado o Brasil em seus preparativos para a Copa do Mundo. O chefe de segurança da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Paul Kennedy, disse a ÉPOCA que, após uma resistência inicial a falar sobre terrorismo, o Brasil recebeu bem a ajuda americana na preparação contra esse tipo de ameaça, oferecida em 2011. “Os brasileiros querem aprender e são abertos a isso.” A ajuda veio em forma de treinamento. Vinte cursos foram ministrados por agentes americanos para brasileiros envolvidos na segurança do Mundial de 2014.

O governo reconhece ainda não ter mobilizado a população para o problema da segurança. Nos Estados Unidos e na Europa, cartazes e anúncios em alto-falantes em locais de grande movimento alertam as pessoas sobre os riscos envolvendo objetos abandonados – eles podem ser uma bomba. Segundo a Secretaria de Grandes Eventos, a Copa das Confederações não contará com esse tipo de alerta, mas campanhas nesse sentido poderão ser feitas na Copa do Mundo e na Olimpíada. Para o delegado Luiz Fernando Corrêa, diretor de segurança do Comitê Organizador da Rio 2016, o envolvimento do público será essencial. “Há cidades frias em relação a grandes eventos. A população do Rio é o oposto: participa, se orgulha, torce a favor. Cada cidadão ou turista acaba se sentindo um pouco responsável para que tudo dê certo.” Muitas coisas nos preparativos, tanto da Copa como da Olimpíada, já não deram certo – de obras atrasadas a projetos cancelados. A diferença, quando o tema é segurança, é que essa possibilidade não existe. Se algo der errado, o custo pode ser a perda de vidas – e a propagação do medo. O Brasil precisa fazer de tudo para garantir a vitória do esporte e da celebração sobre o terrorismo.

Uma nova face do terror: mortal e barato


Mariana Queiroz Barboza
Revista ISTOÉ

As bombas rudimentares, de fabricação caseira, e os extremistas aparentemente integrados ao cotidiano dos EUA, sem conexão com redes internacionais, alertam para a disseminação de um terrorismo difuso que assusta o mundo


Aos 78 anos, com 45 corridas de longa distância no currículo, três delas em Boston, o americano Bill Iffrig é um maratonista experimentado. Nunca, no entanto, suas pernas haviam fraquejado tão próximo da linha de chegada como na segunda-feira 15, Dia do Patriota nos Estados Unidos. Faltavam menos de cinco metros da Boylston Street para o fim da prova e Iffrig estava orgulhoso de seu tempo. Foi quando ele sentiu o corpo tremer, atingido pelas ondas de choque da explosão de uma bomba. Iffrig viu as pernas sem controle e precisou se apoiar no chão, enquanto uma nuvem de fumaça envolvia tudo ao seu redor. A imagem do veterano atleta abatido, com sua camiseta laranja e short preto, socorrido por policiais que pareciam bailar a sua frente, se tornaria um emblema do primeiro atentado terrorista ocorrido nos EUA desde o fatídico 11 de setembro de 2001. Sem ferimentos, Iffrig é um homem de sorte. Perto do local de sua queda, estavam mortos Martin Richard, um menino de 8 anos, Krystle Campbell, 29 anos, gerente de um restaurante, e a estudante chinesa Lu Lingzi, 23 anos. Outras 179 pessoas sofriam e sangravam em meio à destruição provocada pelas duas bombas que explodiram quase simultaneamente na Boylston Street.

EXTREMISTAS
Os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev foram identificados
como responsáveis pelo atentado na Maratona de Boston

Foi um novo tipo de terror que abalou os Estados Unidos. Um terror ao mesmo tempo vulgar e alarmante. Seus autores não precisaram de grandes ferramentas, tecnologias sofisticadas, componentes de difícil acesso ou explosivos contrabandeados para preparar seus artefatos mortais. Os terroristas apenas foram às compras. Como qualquer cidadão, sem chamar a atenção de ninguém. Utilizaram panelas de pressão, pregos, roldanas e todo lixo metálico que pudesse ferir, como estilhaços de granada. O detonador rudimentar, montado em latas de energéticos e acionado por telefone celular, e um explosivo, que tem fabricação detalhada pela internet, completavam a engenhoca. Bomba simplória, para ser usada por qualquer mente doentia. O horror banalizado, de varejo, e por isso mesmo ainda mais difícil de controlar, desafia os avanços da última década, que permitiram o monitoramento de redes do terror internacional e da compra de explosivos e materiais suspeitos. “Não é mais necessário sair do país para se radicalizar”, diz Steve Emerson, diretor-executivo do Investigative Project on Terrorism, um dos maiores bancos de dados sobre grupos terroristas do mundo.  Ele lembra que há três anos circula na internet um artigo em inglês da revista “Inspire” (ligada à Al-Qaeda), intitulado “Faça uma bomba na cozinha de sua mãe”. A construção de um artefato explosivo caseiro é mostrada passo a passo. Esse tipo de bomba já vinha sendo usado para atacar soldados americanos no Afeganistão, mas num ambiente civil, onde não há uniformes de proteção, seu poder é ainda mais letal.


Na quinta-feira 18 o mundo começou a conhecer os rostos dos homens que carregaram a bomba de panela de pressão em Boston. O FBI divulgou as imagens de dois rapazes comuns, vestindo jaquetas de moletom escuras, bonés de beisebol e mochilas nas costas. “Alguém aí fora conhece esses indivíduos”, afirmou o agente especial responsável pelo escritório da polícia federal em Boston, Richard DesLauriers. Eram os irmãos Tsarnaev, russos nascidos na região da Chechênia.  Tamerlan, 26 anos, e Dzhokhar, 19, se mudaram com os pais para Cambridge, nos Estados Unidos, há cerca de uma década. Tamerlan estudava engenharia no Bunker Hill Community College e praticava boxe. Dzhokhar estava registrado na Universidade de Massachusets – Dartmouth (UMD) e foi um atleta popular durante o ensino médio. “Um anjo”, segundo definiu o pai, Anzor. À imprensa americana, os vizinhos de Dzhokhar repetiram versões de que nada em seu caráter ou conduta poderia sugerir um comportamento terrorista. Descrito como bom funcionário, que sempre aparecia no horário, Dzhokhar trabalhou como salva-vidas na piscina da Universidade Harvard, segundo a rede CNN. Ele morava num dos dormitórios da UMD  e era ativo nas redes sociais. Em seu perfil numa rede russa, Dzhokhar classifica sua “visão de mundo” como islâmica, sua “prioridade pessoal” como “carreira e dinheiro” e admitiu que apoia a causa da libertação da Chechênia. Na conta do Twitter atribuída a ele, publicou na terça-feira 16, às 10h43 da noite: “Eu sou o tipo de cara livre de estresse.”

VETERANO
Bill Iffrig, maratonista de 78 anos, se apoiou no chão da Boylston Street
quando o impacto das bombas fez suas pernas tremerem

Ao canal de tevê CBS, um tio dos irmãos Tsarnaev disse que a ação de seus sobrinhos causara vergonha à sua família e a toda a comunidade chechena. Outro tio contou que Tamerlan havia ligado para ele após o atentado pedindo perdão. A tia Maret Tsarnaev questionou, em entrevista ao jornal “Toronto Sun”: “Por que raios eles fariam isso?” A resposta completa ainda está longe de ser esclarecida, mas já tem uma forte pista: “Seria surpreendente se não houvesse um elemento islâmico nesta história”, disse à ISTOÉ Anatol Lieven, pesquisador da New America Foundation, em Washington. Lieven, que é autor de vários livros sobre a antiga União Soviética, lembra que o Taleban está na Chechênia desde os anos 90, embora sua influência na região hoje não seja muito ampla. “Há, contudo, muitos relatos de chechenos que viajaram ao Afeganistão e participaram de ataques a alvos americanos”, afirma. A Chechênia é atualmente uma das repúblicas da Federação da Rússia e fez parte da União Soviética até seu desmantelamento. Desde então, luta por sua independência por meio de conflitos armados. Ao menos três grupos chechenos estão incluídos na lista terrorista dos EUA.


Logo que começaram as investigações sobre o atentado, a polícia pediu aos milhares de pessoas que estiveram no local da maratona que contribuíssem com pistas, fotos e vídeos registrados em seus smartphones. Na era das redes sociais, em poucas horas, mais de duas mil pistas já tinham sido entregues às autoridades. Quando o FBI divulgou a imagem dos suspeitos, também colocou no ar o site bostonmarathontips.com, com um formulário simples por onde deveriam ser enviadas as informações sobre os suspeitos e uma linha de telefone foi disponibilizada. Durante a noite, a polícia foi chamada pelo roubo a uma loja de conveniência próxima ao Massachusetts Institute of Technology. Surpreendentemente, os ladrões eram os irmãos Tsarnaev, que fugiram em direção à universidade, trocando tiros com seguranças. Na fuga, Tamerlan e Dzhokhar roubaram um SUV Mercedes-Benz que acabou sendo localizado pela polícia. Começou, então, uma perseguição cinematográfica. No subúrbio de Boston, em Watertown, os irmãos jogaram explosivos e atiraram contra os policiais, matando um deles e ferindo outros. No tiroteio, Tamerlan morreu. Junto a seu corpo, foram encontrados mais artefatos explosivos. Dzhokhar fugiu e, até o fechamento desta edição, ainda não havia sido capturado. “Acho que é justo dizer que, durante toda esta semana, estivemos num confronto direto com o mal”, disse o secretário de Estado, John Kerry.





O medo difuso do mal a que se refere Kerry assustou os Estados Unidos desde o início da semana. No fim da tarde da segunda-feira 15, a região da Times Square, a mais turística de Nova York, já se mostrava mais frenética do que de costume. A sensação era de que todos queriam voltar para casa o quanto antes. Qualquer transeunte usando capuz e mochila atraía os olhares. Tudo piorou nos dias seguintes, quando se soube que, em Washington, duas cartas envenenadas foram enviadas à Casa Branca e ao senador Roger Wicker. O suspeito de ter encaminhado os envelopes, Paul Kevin Curtis, 45 anos, foi preso em sua casa no Mississippi na quarta-feira 18, e qualquer relação dele com o atentado foi descartada. Curtis, que tem histórico de problemas mentais,  acreditava ter descoberto uma conspiração sobre a venda de partes humanas no mercado negro. 


BOSTON
Sitiada Policiais isolam áreana caçada aos suspeitos.
Moradores foram orientados a não sair de casa

Em Boston, onde logo depois do atentado 12 quarteirões foram isolados pela perícia, turistas e moradores tiveram que deixar seus hotéis e casas – alguns nem mesmo puderam recolher seus documentos. Com o avanço das investigações, a volta para casa foi autorizada aos poucos, mediante a revista de bolsas e mochilas. Ao mesmo tempo, as feridas da cidade atingida foram sendo cicatrizadas por demonstrações públicas de solidariedade. Crianças entregaram flores brancas para maratonistas pedindo que voltassem à corrida do ano que vem e uma loja do Starbucks distribuiu cafés e donuts gratuitamente. Um fundo criado para ajudar as vítimas da tragédia levantou mais de US$ 7 milhões em apenas 24 horas. Na quinta-feira 18, durante ato ecumênico em memória das vítimas na Catedral de Santa Cruz de Boston, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou: “Nós vamos terminar a corrida. Não podemos deixar algo como isso nos parar.” Na sexta-feira 19, enquanto Dzhokhar ainda era perseguido, a polícia de Boston pedia para ninguém sair de casa e paralisou todo o sistema de transporte público. Era como se Boston estivesse sitiada.

Num país rescaldado pelos atentados de 11 de Setembro, Boston mostrou que estava preparada para atender as vítimas e que pode ser um exemplo para o mundo. Quatro dias após o ocorrido, a expectativa realista era de que todos os feridos resgatados com vida sobreviveriam, embora alguns ainda permanecessem internados em estado grave. Quando as bombas explodiram, os seguranças do evento esportivo evacuaram o local com rapidez, desviando o caminho dos corredores para a Commonwealth Avenue e abrindo espaço para o atendimento às vítimas. Numa tenda médica montada para eventuais emergências da maratona (basicamente, atletas com mal-estar e desidratação), pessoas feridas foram classificadas conforme seu estado de saúde e encaminhadas a oito hospitais da região em questão de minutos. Segundo o relato do cirurgião Atul Gawande, do Brigham and Women’s Hospital de Boston, à revista “New Yorker”, a mobilização começou logo que apareceram as primeiras notícias na tevê e foram espalhadas entre os médicos e enfermeiros por mensagens de texto, Twitter e aplicativos para smartphones. As equipes de atendimento dobraram, enquanto leitos eram esvaziados. Praticamente todos os hospitais têm profissionais com experiência em campos de batalha, no Iraque ou no Afeganistão, e em desastres traumáticos, como o terremoto no Haiti.


Juliette Kayyem, ex-assessora de Obama no Departamento de Segurança Nacional e colunista do jornal “Boston Globe”, disse que a mesma estratégia de pedir ajuda ao público foi usada para identificar os autores dos atentados ao metrô de Londres em 2005. “A tecnologia faz parte inevitável das perseguições”, escreveu no Twitter. “A internet oferece uma quantidade absurda de informações, mas também facilita o trabalho de rastrear essas atividades e encontrar suspeitos”, disse à ISTOÉ Brooke Rogers, professora de risco e terror do departamento de estudos de guerra do King’s College, de Londres. As duas especialistas concordam que o terrorismo internacional está hoje menos organizado do que costumava ser. “As redes como a Al-Qaeda tiveram que mudar sua estrutura drasticamente não só pela morte de seus principais líderes, mas para evitar novas prisões”, afirmou Rogers. “O que também mudou no mundo pós-11 de Setembro é que as pessoas estão conscientes de que o terrorismo é uma ameaça real e há muito pouco a fazer para evitá-lo.”

Obama: “Ainda há muitas perguntas sem respostas” sobre atentado em Boston


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"Vamos investigar qualquer associação que esses terroristas tenham tido”, disse presidente depois da captura de Dzhokhar Tsarnaev

Mario Tama/Getty Images/AFP 

Policia vasculha casa de suspeito do atentado na Maratona de Boston  

Em pronunciamento na noite desta sexta-feira sobre a captura do segundo suspeito do atentado em Boston, o presidente Barack Obama agradeceu aos profissionais envolvidos na perseguição e disse que ainda há muitas questões a serem respondidas. Por isso, o FBI, a polícia federal americana, continuará a receber todos os recursos necessários para prosseguir com a investigação, assinalou.

“Ainda permanecem muitas perguntas sem respostas. Entre elas, por que jovens que cresceram e estudaram aqui, fazendo parte de nossas comunidades e nosso país, recorrem a tal violência? Como eles planejaram esses ataques? Tiveram alguma ajuda?”, enumerou Obama. “As famílias das vítimas, os feridos, merecem as respostas”.

O presidente prometeu conseguir as respostas: “Vamos averiguar o que aconteceu. Vamos investigar qualquer associação que esses terroristas tenham tido”.

Dzhokhar Tsarnaev foi capturado depois de uma longa caçada, que começou ainda na noite de quinta-feira. O cerco final foi feito em torno de um barco que estava no quintal de uma casa em Watertown, região metropolitana de Boston. A polícia disse que houve troca de tiros durante a captura, e o jovem de 19 anos foi levado ao hospital com ferimentos graves. 

AP Photo/FBI, BRIC 

Dzhokhar A. Tsarnaev, de 19 anos, seria o suspeito número 2, que é perseguido em Boston  

A caça pelos terroristas responsáveis pelo atentado em Boston colocou os Estados Unidos e o mundo diante de uma intricada parte da história mundial, na instável região do Cáucaso, que envolve questões étnicas, linguísticas, religiosas e políticas.

A origem exata dos suspeitos de perpetrarem o ataque, os irmãos Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, de 19 e 26 respectivamente, ainda não está clara. Autoridades do Quirguistão (localizado na Ásia Central, ex-República Soviética) sugerem que ambos nasceram no país e são de etnia chechena, enquanto familiares afirmam que Tamerlan na verdade nasceu no Daguestão, território russo vizinho da Chechênia. Seus pais teriam vivido no Daguestão, no Quirguistão e no Casaquistão, antes de se mudar para os Estados Unidos, após receberem asilo político do governo americano.

Dzhokar chegou aos Estados Unidos com um visto de turista, em 1º de julho de 2002, quando tinha oito anos de idade. Ele conseguiu a cidadania americana dez anos depois, no dia 11 de setembro de 2012. Tamerlan, o irmão mais velho que morreu depois de um tiroteio contra a polícia, chegou aos EUA em 6 de setembro de 2006, aos 20 anos de idade, e conseguiu um visto de residência no país, segundo a rede CNN. Os irmãos também têm passaporte do Quirguistão. 

A Chechênia, parte do território russo, possui 1,3 milhão de habitantes e está localizada no norte do Cáucaso, entre o mar Negro e o mar Cáspio. Além do Daguestão, são seus vizinhos a Ingushétia, a Ossétia do Norte, a Kabardino-Balkaria, a Karachay-Cherkessia e a Adygea. Ao contrário dos países localizados no sul do Cáucaso, como Geórgia, Armênia e Azerbaijão, o norte do Cáucaso continua pertencendo à Rússia após o colapso da União Soviética e enfrenta uma instabilidade perene. Atos violentos são comuns. Seu terreno acidentado abre espaço para divisões étnicas e linguísticas - só no Daguestão, há 40 grupos diferentes. Manter controle sobre a região tem sido um imperativo geopolítico para Moscou. 



Disputas - 
O Cáucaso é um ponto estratégico de defesa para a Rússia, pois ao Sul se encontram duas grandes nações muçulmanas, a Turquia e o Irã. Não é uma região fácil de controlar. No século XVIII, durante a expansão do Império Russo, houve forte resistência dos persas e dos otomanos no norte do Cáucaso. No período soviético, o ditador Josef Stalin criou zonas administrativas para lidar com grupos étnicos que apresentavam maior resistência e deportou um grande número de pessoas do norte do Cáucaso. Centenas de milhares de muçulmanos caucasianos, principalmente chechenos, foram enviados à força especialmente para o Cazaquistão e o Quirguistão - localizados na região central da Ásia, perto da China. 

No final da década de 1980, reformas no sistema governamental permitiram que parte dessas populações regressasse a suas terras de origem. A volta dessas pessoas levou ao surgimento de movimentos nacionalistas e separatistas semelhantes às que se espalharam pelas repúblicas soviéticas à época. A diferença delas é que as repúblicas poderiam declarar sua independência, enquanto regiões autônomas como a Chechênia, não. Essa questão foi motivo de inúmeros conflitos no início da era pós-soviética: a Rússia travou duas guerras com a Chechênia na década de 1990, devido à ambição desta última de se tornar um estado independente. Nesse período, muitos voltaram à Ásia Central, para onde haviam sido deportados anteriormente. Isso pode explicar por que membros da família Tsarnaev viveram nesses países antes de se mudarem para os EUA.

Religião - 
Embora os conflitos com a Rússia tenham começado a partir da aspiração separatista dos diferentes grupos caucasianos, aos poucos a religião se tornou um ponto importante de disputa. A Chechênia, assim como os vizinhos Daguestão e Inguchétia, tem uma população de maioria muçulmana. As guerras contra os russos ganharam conotação de jihad para certos grupos chechenos, que conseguiram atrair combatentes islâmicos de outros países e apoio material e ideológico de governos como o da Arábia Saudita. 

Explorando as divisões internas entre nacionalistas e islamitas chechenos, a Rússia conseguiu reprimir os separatistas, mas não eliminar os conflitos na região. Os grupos extremistas islâmicos continuaram tentando reunir recursos para estabelecer um califado em todo o norte do Cáucaso, muitas vezes lançando mão de táticas terroristas. Na última década, a Rússia ampliou suas operações de segurança no norte do Cáucaso, mas, em contrapartida, é frequentemente atacada por insurgentes. Os desafios políticos continuam.

Polícia captura segundo suspeito do atentado em Boston com vida

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Dzhokhar Tsarnaev foi levado ao hospital com ferimentos graves. Caçada teve início ainda na noite de quinta-feira

Robert Ray/AP  
Dzhokhar Tsarnaev, suspeito de executar o atendado durante a Maratona de Boston  

O segundo suspeito de envolvimento no atentado em Boston foi capturado com vida, informou a polícia de Boston. A polícia de Boston informou que houve troca de tiros durante a ação e que Dzhokhar Tsarnaev foi levado ao hospital com ferimentos graves. A caçada começou ainda na noite de quinta-feira e, nas últimas horas, estava focada em um barco no quintal de uma casa em Watertown, Massachusetts. Depois que a informação sobre a prisão do suspeito foi confirmada, moradores saíram às ruas para comemorar. Os policiais também festejaram. 

A comemoração também foi registrada nas redes sociais. O departamento de polícia de Boston publicou no Twitter: "CAPTURADO!!! A caçada terminou. A busca foi feita. O terror acabou. E a justiça venceu. Suspeito sob custódia". O prefeito de Boston, Tom Menino, também se manifestou: "Nós o pegamos".

Há informações de que três outras pessoas foram detidas para interrogatório em New Bedford. Elas teriam ligação com o atentado. O outro suspeito, Tamerlan Tsarnaev, irmão de Dzhokhar, foi morto em uma troca de tiros com a polícia ainda na noite de quinta-feira.  

Nesta sexta, o governador do estado, Deval Patrick, chegou a retirar o toque de recolher imposto aos habitantes da zona oeste de Boston e de seis cidades vizinhas, inclusive Watertown. Pouco depois, no entanto, houve uma sequência de tiros e a recomendação para que os moradores permanecessem em local seguro voltou a ser dada pela polícia. 

FBI/Reuters 

Tamerlan Tsarnaev e Dzhokhar Tsarnaev, irmãos suspeitos 
de terem realizado o atentado durante a Maratona de Boston  

Caçada –
A longa perseguição aos suspeitos começou na noite de quinta-feira, quando polícia local e o FBI foram acionados após relatos de um tiroteio no prédio 32 no campus do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), em Cambridge. A troca de tiros deixou um guarda universitário morto (1). 















O atentado ocorreu na segunda-feira, perto da linha de chegada da Maratona de Boston (B). Na noite de quinta, um policial foi morto em um tiroteio no MIT (1). Em seguida, um motorista foi sequestrado por dois homens armados (2). Ele foi liberado pouco depois, em um posto de gasolina (3). Imagens de um dos suspeitos foram captadas por câmeras em um posto bancário (4). A polícia iniciou uma caçada pelos suspeitos em Watertown (5). Em uma troca de tiros, um dos suspeitos foi morto. Os policiais também fizeram buscas no apartamento dos suspeitos (A).

A polícia local, agentes do FBI e integrantes da SWAT, o esquadrão de operações especiais da polícia americana, cercaram o campus, mas os suspeitos conseguiram escapar. Pouco depois, a polícia recebeu a informação de que um motorista havia sido sequestrado por dois homens armados (2). Cerca de 30 minutos depois, o motorista foi deixado em um posto de gasolina em Cambridge (3). Ele não sofreu ferimentos.

Mais tarde, a polícia divulgou imagens de Dzhokhar captadas pela câmera de segurança de um posto bancário (4), no fim da noite de quinta. A partir daí, foi montada uma megaoperação policial, com mais de 9.000 policiais, veículos blindados e helicópteros, para cercar os fugitivos na cidade de Watertown (5), região metropolitana de Boston.

Durante a perseguição ao veículo que havia sido roubado, os fugitivos atiram explosivos contra os policiais. Encurralados, os suspeitos trocaram tiros com a polícia usando o carro como barricada. Ferido na troca de tiros, Tamerlan foi preso e foi declarado morto no início da madrugada de sexta, já no hospital. Dzhokhar conseguiu fugir.

A partir daí, a caça ao suspeito número 2, considerado "armado e perigoso" pelo FBI, se concentrou em Watertown, uma localidade de 35.000 habitantes. O sistema de transporte foi interrompido e a polícia estadual aconselhou que todos os moradores da zona oeste de Boston e de seis cidades vizinhas ficassem dentro de casa. Todas as escolas e também os prédios de Harvard e do MIT foram fechados.




Durante a caçada a Dzhokhar, o apartamento dos irmãos em Cambridge (A) também foi revistado. Um esquadrão antibomba chegou a ser acionado para realizar uma explosão controlada, mas a suspeita sobre a existência de explosivos no local não chegou a ser confirmada. 



FBI entrevistou em 2011 suspeito de explosões em Boston


Exame,com
Com Agência Reuters

Relações do FBI com Tamerlan Tsarnaev, que morreu durante a noite passada em um tiroteio com a polícia, não produziram qualquer informação "depreciativa", diz fonte

REUTERS/Julia Malakie/The Sun of Lowell, Mass./Handout 

Tamerlan Tsarnaev:o FBI entrevistou em 2011 o mais velho 
dos dois irmãos suspeitos de cometer os atentados em Boston,
 atendendo a pedido de um governo estrangeiro não identificado.

Washington - A polícia federal norte-americana (FBI) entrevistou em 2011 o mais velho dos dois irmãos suspeitos de cometer os atentados em Boston no início desta semana, atendendo ao pedido de um governo estrangeiro não identificado, disse uma fonte de segurança dos Estados Unidos nesta sexta-feira.

As relações do FBI com Tamerlan Tsarnaev, que morreu durante a noite passada em um tiroteio com a polícia, não produziram qualquer informação "depreciativa", e o assunto foi colocado de lado, disse a fonte, falando sob condição de anonimato.

A revelação é a primeira indicação de que Tamerlan Tsarnaev e seu irmão mais novo, Dzhokhar, eram conhecidos por autoridades de segurança dos Estados Unidos antes das explosões de segunda-feira na Maratona de Boston, disseram autoridades norte-americanas.

Cai de vez a máscara do chavismo e regime reage aos resultados eleitorais como uma ditadura


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Reuters) 

Em Caracas, manifestação pela recontagem de votos -- 
sempre com grande presença de policiais. Policiais e militares 
vêm agindo com energia e, não raro, com violência, mas o 
chavismo está culpando a oposição por mortos e feridos 

O esquema de sempre está em marcha na Venezuela, agora que o caudilho Hugo Chávez, morto dia 5 de março, tem em seu lugar o sucessor que queria, Nicolás Maduro: a oposição — que pode ter ganho as eleições presidenciais do domingo passado se houver recontagem de votos — está nas ruas, a polícia bate a torto e a direito, há 8 mortos, várias dezenas de feridos e 170 pessoas presas e a culpa, é claro, é dos oposicionistas, que pretendem “um golpe”, no qual estaria envolvido o “imperialismo americano”, o que resultará, conforme prometeu Maduro, no “aprofundamento da revolução”.

Mas vamos examinar as coisas com calma.

Com o candidato da oposição, Henrique Capriles, tendo supostamente perdido por ínfima diferença — pouco mais de 200 mil votos em mais de 15 milhões –, e sobretudo com militantes oposicionistas havendo recolhido 3.200 casos de possível fraude, é mais do que natural que, no mínimo, Capriles peça a recontagem dos votos. (A votação no país é eletrônica, mas cada eleitor deposita numa urna, em seguida ao voto, uma cópia em papel de sua opção.)

No chocho discurso de “vitória”, na noite de domingo, 15, em que mesmo nos momentos de maior empolgação Maduro arrancou poucos aplausos da multidão chavista reunida para saudá-lo — ninguém me contou, assisti ao discurso inteirinho –, o candidato de Chávez disse, com todas as letras, que aceitava a recontagem.

Mas aí entra em funcionamento o esquema ditatorial armado pelo chavismo ao longo de 14 anos de poder.

Em primeiro lugar, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), equivalente, no Brasil, à Justiça Eleitoral, pela palavra de sua presidente, Tibisay Lucena, negou liminarmente a contagem, sem sequer examinar uma única das 3.200 alegações de fraude.

Pudera: dos cinco integrantes do CNE, quatro são chavistas, todos eles já flagrados anteriormente em solenidades oficiais de punhos levantados.

Em segundo lugar, a presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Luisa Estella Morales, contra todas as evidências, disse que “não é possível” uma contagem manual de votos e, deixando de lado a isenção que se espera de magistrados, criticou a oposição por “incitar” a opinião pública a algo que não pode ser efetuado e insinuou a responsabilidade dos oposicionistas por “mortos e feridos”.

Em outra espantosa declaração, Morales, chefe do Poder Judiciário venezuelano, aconselhou aos juízes de todo o país que evitassem “formalismos inúteis” quando se tratasse de responder a denúncias ou de punir culpados. Garantias do cidadão foram transformadas, assim, pela principal magistrada da República, em “formalismos inúteis”.

Pudera: desde que entrou em vigor a Constituição promovida por Chávez, em dezembro de 1999, o Tribunal presidido por Morales, integrado por 32 magistrados — sete deles, os mais importantes, integrantes da chamada “sala constitucional” — não proferiu NENHUMA decisão contrária a atos do governo. Todos os ministros foram nomeados por Chávez.

Em terceiro lugar, a procuradora-geral da República, Cilia Flores, fez declarações ameaçando responsabilizar pessoalmente Capriles pelos mortos e feridos — sem que, até agora, NENHUM caso haja sido investigado para comprovar quem matou ou feriu. Um dos oposicionistas próximos a Capriles, Leopoldo López, chegou a anunciar pelo Twitter que haveria uma ordem de captura contra ele próprio e o candidato.

(Foto: AFP) 

Protestos também em Maracaibo, coração da indústria 
do petróleo -- com tanques do Exército ao fundo 

Em quarto lugar, o próprio Maduro, sem qualquer base ou fundamento legal, anunciou a possibilidade de cortar repasse de recursos federais (previstos na Constituição) para o Estado de Miranda, de que Capriles é seu adversário. O líder oposicionista está sendo cercado por todos os lados, como se vê.

Em quinto lugar, o presidente da Assembleia Nacional, Deosdato Cabello — muito ligado aos principais chefes militares –, atropelando um batalhão de normas legais, passou a negar sumariamente a palavra a deputados de oposição que não reconheçam a vitória de Maduro.

A oposição, portanto, no coração do Poder Legislativo, está sendo calada na marra! Além disso, Cabello destituiu deputados oposicionistas do comando de comissões da Casa. O deputado chavista Pedro Carreño, chefe da Controladoria da Assembleia, está pedindo punição para jornalistas e órgãos de imprensa que “estimulem a violência” — ou seja, que cubram os protestos de militantes de oposição exigindo a recontagem dos votos.

Em sexto lugar, Maduro, deixando de lado qualquer linguagem diplomática, e retomando a retórica chavista anti-Estados Unidos — cujo governo pretende aguardar uma recontagem antes de reconhecer o novo presidente –, gritou, durante reunião com políticos, contra o secretário de Estado, John Kerry, nos seguintes termos:

– Tire os olhos da Venezuela, John Kerry! Fora daqui!

Ou seja, os Estados Unidos não estão preocupados com o atentado terrorista em Boston, nem com as cartas envenenadas enviadas para o presidente Barack Obama e outros políticos, muito menos com a ameaça de ataque nuclear da Coreia do Norte a instalações americanas  e sul-coreanas. Como o próprio Maduro assinalara antes, a movimentação popular por Capriles não é espontânea, mas tem o dedo do “imperialismo”.

Em sétimo lugar, políticos chavistas continuam se referindo a eleitores de Capriles como “traidores” e integrantes de uma “oposição apátrida”.

Eles acham que podem governar a despeito — e contra — metade do país.

Imprensa livre sob ameaça na América Latina


Rennan Setti
O Globo

Em Argentina, Equador e Venezuela, há pressão. No México, assassinatos

RIO — A liberdade de imprensa está sob ameaça constante em países da América Latina. Seja por causa de governantes que tentam chantagear veículos de comunicação impondo restrições à publicidade ou mesmo propondo a criação de órgãos e leis que visam a controlar a mídia, seja por meio de cartéis de narcotraficantes que executam repórteres e editores que expuseram (ou não) os meandros desses negócios criminosos.

O assunto foi discutido no encontro do Grupo de Diarios América (GDA), cujos representantes estiveram no Rio durante a semana passada para debater os rumos do setor de mídia e da organização, que reúne jornais de veículos de 11 países da região, incluindo O GLOBO.

Em três desses países, as restrições ao trabalho da imprensa são flagrantes. Na Argentina, segundo Luis Saguier, diretor-executivo do diário “La Nación”, o governo da presidente Cristina Kirchner “não tolera qualquer tipo de crítica” e busca atingir a mídia independente proibindo as principais cadeias de supermercado de anunciar nos jornais para reduzir receitas desses grupos.

No México, segundo Roberto Rock, diretor-editorial do “El Universal”, os frequentes assassinatos de jornalistas impuseram um clima de medo em que a principal ameaça à liberdade de expressão é a autocensura. O país já perdeu uma centena de jornalistas na última década, vítimas de traficantes de drogas que se vingaram depois que detalhes de seus cartéis criminosos foram revelados.

Segundo Marco Arauz, subdiretor-geral do “El Comercio”, o personalismo do presidente equatoriano Rafael Correa criou um clima de permanente tensão entre governo e mídia. A situação pode piorar com a proposta de criação de um conselho que terá o poder de aplicar sanções contra conteúdo publicado por veículos de imprensa. Até autoridades são proibidas de dar entrevistas e, a exemplo de Hugo Chávez, Correa fala horas na TV.

Após ser interrompido por homem, Maduro toma posse na Venezuela

Pablo Uchoa
BBC Brasil 


Após interrupção, o presidente venezuelano admitiu falha na segurança

Um homem usando uma blusa vermelha invadiu nesta sexta-feira a tribuna onde o recém-eleito presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fazia seu discurso de posse.

O homem conseguiu empurrar e tirar o microfone do presidente, mas não houve consequências graves. Logo depois de dizer "Nicolás, meu nome é Yendrick. Me ajude, por favor", o homem foi detido pelos seguranças, e Maduro retomou o discurso.

"Vamos retomar. Mas houve uma falha na segurança aqui. Podiam ter me dado um tiro. Mesmo um companheiro precisa saber quando existem regras a serem cumpridas. E o que ele fez foi errado", disse o presidente.

Não foram fornecidos detalhes sobre a identidade do homem. Durante o incidente, a TV estatal, que transmitia a posse, foi tirada do ar, gerando dúvidas sobre a segurança do presidente.

Conversa

Após ser empossado, Maduro se disse disposto a dialogar com a oposição

Pouco depois, Maduro disse que o incidente havia sido superado e indicou que depois conversaria com o rapaz. "Quem sabe que tipo de preocupação ele carrega?"

O presidente disse ainda que o ocorrido serviu para lhe lembrar de temas como a segurança e a disciplina do povo venezuelano.

"Eu não tenho problemas. A minha vida está posta a serviço desta pátria."

A cerimônia de posse foi acompanhada por diversos líderes mundiais, especialmente da América Latina, como a presidente Dilma Rousseff, o boliviano Evo Morales, o uruguaio José Mujica, o cubano Raúl Castro e a argentina Cristina Kirchner. O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, também compareceu.

Após ser empossado, Maduro disse ainda que estava pronto para dialogar com a oposição.

"Eu faço um apelo a eles para que haja conversas onde for possível. Estou pronto para dialogar até mesmo com o diabo, que Deus me perdoe, e até com o novo Carmona, se isso for necessário, para pôr um fim ao seu ódio contra mim e contra o povo, para pôr um fim em sua intolerância", disse o venezuelano, em referência ao seu opositor, Henrique Caprilles, e a Pedro Carmona, autoproclamado presidente da Venezuela durante o fracassado golpe de Estado ocorrido no país em 2002.

Venezuela: à espera do pior


Ricardo Noblat

De Hugo Chávez, seus adeptos e admiradores dentro e fora da Venezuela costumavam dizer que representava o partido dos pobres, e que por isso ganhava uma eleição atrás da outra. Em 14 anos, ganhou quase todas as 17 que patrocinou.

Eleito presidente no último domingo por uma exígua margem de votos, Maduro está longe de se parecer com Chávez. Mas foi apresentado por Chávez como o seu herdeiro político. E se apresentou durante a campanha como “o filho do Chávez”.


A fascinação exercida por Chávez sobre os pobres não resistiu à passagem do 30º dia da morte dele, vítima de um câncer tratado em Cuba. Uma fatia dos pobres preferiu votar no candidato da oposição. E a eleição terminou quase empatada.

Carece de cabimento dizer que os pobres estão com o chavismo e que o resto, a burguesia e os interesses internacionais, com a oposição liderada por Henrique Caprilles, o candidato derrotado por Maduro.

A herança maldita legada por Chávez a Maduro é desde domingo uma Venezuela politicamente partida ao meio e confrontada com sérias dificuldades econômicas. O crescimento da inflação é apenas uma delas.

O desaparecimento de produtos das prateleiras dos supermercados, outra. Está faltando até papel higiênico. Um mal alimenta o outro e ameaça implodir a panela de pressão.

A economia capenga assusta os donos do capital que seguram os investimentos, e aumenta a insatisfação dos pobres – antes conduzidos por Chávez na base do gogó.

A divisão política tende a tornar um inferno o governo de Maduro. Uma coisa é ter sido chanceler durante 10 anos de um governo cujo líder não abria espaço para ninguém. O chanceler estava dispensado de ser um gênio.

Outra coisa é governar tendo logo de saída sua legitimidade posta em dúvida. Maduro ganhou com 300 mil votos de vantagem em números redondos. A oposição diz colecionar provas do desvio para Maduro de algo como um milhão de votos.

No discurso da vitória, em cadeia nacional de rádio e televisão, Maduro afirmou que concordava com uma auditoria no resultado da eleição. Capriles pedia mais do que isso. Cobrava uma recontagem dos votos – cerca de 14 milhões.

Devem ter dito ao inexperiente Maduro que auditoria ou recontagem poderia ser um tiro no pé. O recuo então foi imediato. No dia seguinte, Maduro esqueceu o que dissera, negou o que Caprilles pedira e se deixou proclamar presidente.

Só há duas maneiras de governar um país nas condições atuais da Venezuela. A primeira: negociando com a oposição, dona de 48% e mais um quebrado dos votos. A segunda: de chicote na mão e disposto a usá-lo sem dó nem piedade.

A oposição se recusa a reconhecer a vitória de Maduro. Promoveu um panelaço. Cercou escritórios nos Estados do Conselho Nacional Eleitoral. Saiu em passeata. Queimou pneus. Morreram sete pessoas até aqui. Mais de 100 saíram feridas.

Maduro proibiu a marcha que a oposição faria, hoje, sobre Caracas. E ameaçou apelar para o chicote. A marcha foi suspensa – o que por enquanto significa apenas que ela foi suspensa, nada mais do que isso.

O Brasil é o país da conciliação. O Império foi derrubado sem que se disparasse um único tiro. Um presidente da República – no caso, Lula – correu o risco de sofrer um processo de impeachment, mas a oposição preferiu deixar para lá.

A história da Venezuela é marcada por conflitos com muitas mortes. O sangue, ali, corre fácil. Maduro pelejará com a oposição, mas também com parte das forças que apoiavam Chávez e que a contragosto o apoiam.

É pouco provável que o desfecho seja pacífico. Ou que se arraste por longos anos.

A dura repressão dos militares na Venezuela a manifestantes pacíficos

Ricardo Setti
Veja online

Os militares chegam, entram sem ordem judicial numa casa particular, forçando o portão, e, sem dizer uma palavra, atiram  a curta distância com balas de borracha e granadas de gás lacrimogêneo em jovens que se manifestavam pacificamente.

O vídeo que vocês verão abaixo é um dos tantos feitos com celulares por simpatizantes da oposição na Venezuela mostrando a brutalidade na repressão aos protestos de cidadãos em diferentes cidades contra os resultados da eleição de domingo passado, em que partidários do candidato à Presidência Henrique Capriles acusavam de fraudulenta a vitória do presidente interino Nicolás Maduro, apontado pelo falecido caudilho Hugo Chávez como sucessor.

Os fatos mostrados no vídeo ocorreram em Barquisimeto, a quinta maior cidade da Venezuela, com 1,4 milhão de habitantes. O vídeo foi feito por uma mulher, entre as grades da janela de um prédio na Avenida Concordia, aparentemente no meio de um grupo de pessoas que observavam a cena e gritavam ofensas para os militares.


A herança de Chávez poderá sobreviver como o peronismo?


Cecília Araújo
Veja online

Nas eleições deste domingo, o movimento criado por Chávez enfrenta seu primeiro teste. Especialistas comparam suas características às do peronismo argentino, que, transfigurado, persiste quase 40 anos após a morte de Perón

AFP 
O presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro e o 
candidato opositor Henrique Capriles durante campanha 

"Hoje, o peronismo é visto como um partido, um movimento, uma doutrina, uma ideologia, mas, acima de tudo, uma cultura política - muitas vezes radical -, que reflete as ambiguidades, complexidades e contradições da sociedade argentina"

A morte de Hugo Chávez, no dia 5 de março, abalou um dos pilares de regimes totalitários como o ensaiado pelo coronel na Venezuela: o culto à personalidade. Agora, o esforço dos órfãos políticos de Chávez é manter sua figura presente para os venezuelanos, que vão às urnas neste domingo, nas eleições presidenciais. O clima de comoção nacional criado após a morte, com um velório prolongado e até mesmo o fracassado plano de embalsamar o caudilho, deve favorecer os governistas na disputa com o oposicionista Henrique Capriles. Mesmo com uma possível vitória, no entanto, não parece plausível acreditar que Nicolás Maduro, presidente interino e candidato oficialista, conseguirá manter inalterado o cenário na Venezuela. Diante da interrogação deixada por Chávez, cabe perguntar se o movimento que ganhou o nome do coronel pode perdurar ainda que em uma versão diluída, como aconteceu com o peronismo na Argentina. 

Juan Domingo Perón (1895-1974) e Hugo Chávez (1954-2013) tinham em comum os discursos populistas. Ambos mostraram traços autoritários, em muitos momentos ignoraram os direitos individuais e polarizaram a sociedade. Foram criticados pelos setores empresariais e pelos partidos políticos mais tradicionais. Mesmo assim, foram eleitos e reeleitos. Porém, há diferenças consistentes na evolução dos movimentos liderados pelas duas figuras, que indicam que o chavismo pode ter um destino diferente do peronismo. 

“A principal diferença entre os dois movimentos é que Perón se tornou moderado ao longo de seus mandatos, mostrando uma flexibilidade ideológica que Chávez nunca mostrou”, diz o analista político e historiador argentino Rosendo Fraga, diretor do centro de estudos Unión para la Nueva Mayoría. 

Outra questão a ser considerada é que o peronismo hoje, na Argentina, desmembrou-se em várias vertentes. A herança populista e autoritária de Perón passou a servir para qualquer propósito político, da extrema direita à extrema esquerda. 

“Vários grupos da sociedade se assumem peronistas, mas muitos deles pouco têm a ver com os ideais originais de seu líder inspirador. Cristina Kirchner, por exemplo, nada tem a ver com Perón ou mesmo Néstor, embora também se considere peronista”, diz o argentino Mario Gaspar Sacchi, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM.

Segundo Julio Blanck, editor-chefe do jornal argentino Clarín, observadores internacionais - e mesmo os próprios argentinos - muitas vezes se perguntam o que é o peronismo hoje, tantas décadas depois de sua criação. “O movimento continua vigente na Argentina porque é visto por diversos setores e pela opinião pública como o único partido verdadeiramente capaz de governar de forma sólida o país. Ao longo dos anos, o peronismo se tornou muito amplo, e hoje reúne grupos de esquerda e direita, cristãos e não cristãos, conservadores e liberais”, afirma o jornalista. 

“Se no ano de seu surgimento, em 1944, o peronismo tinha raízes populares, com forte presença no mundo sindical e entre os trabalhadores, mais recentemente ele é o partido que transmite a sensação de que, para além das ideologias, pode ajudar diferentes setores a alcançar suas próprias reivindicações”, acrescenta. 

Na análise do historiador Fraga, o peronismo presente na Argentina hoje é mais do que qualquer outra coisa, uma cultura política. "Hoje, o peronismo é visto como um partido, um movimento, uma doutrina, uma ideologia, mas, acima de tudo, uma cultura política - muitas vezes radical -, que reflete as ambiguidades, complexidades e contradições da sociedade argentina. Ele ampliou sua capacidade de representação e é defendido por diversos setores muito diferentes. Na última eleição presidencial, por exemplo, a centro-esquerda peronista votou por um setor do peronismo, que é o kirchnerismo, ao mesmo tempo em que setores mais conservadores, também peronistas, votaram pelos candidatos do peronismo anti-kirchnerista”.

Cecília Araújo
Com a eleição do novo papa, espalharam-se por Buenos Aires cartazes 
com a foto do pontífice e a frase: “Francisco. Argentino e peronista”

Papa Francisco – 
O peronismo de Botox de Cristina Kirchner já é uma variação do kirchnerismo de Néstor Kirchner. Com a eleição do novo papa, espalharam-se por Buenos Aires cartazes com a foto do pontífice e a frase: “Francisco. Argentino e peronista”. Um dos maiores críticos do governo durante seu arcebispado na capital argentina, Jorge Bergoglio certamente não faz parte da corrente cristinista, que tem base na classe média e distanciamento da Igreja.

“Como o cargo do papa é de grande destaque no mundo todo, alguns políticos se aproveitaram disso para associar Bergoglio com o peronismo. Na verdade, ele era apenas um religioso de centro-esquerda e com consciência social”, diz Mario Gaspar Sacchi. 

“Bergoglio manteve em sua carreira como sacerdote, bispo e cardeal um contato muito próximo com os sindicatos, com as favelas, com os pobres. Em sua juventude, durante a prisão de Perón, nos anos 1940, ele teria alguma ligação com um grupo conhecido como Guardia de Hierro - que definia o peronismo como a expressão política da fé cristã e que se dissolveu depois que Perón voltou ao poder -, mas nada comprovado”, conta Julio Blanck. 

Como pontífice, ele representa uma ameaça muito maior para a presidente argentina e outros governantes latino-americanos com tentações populistas. Francisco, o simples, ofusca líderes que pretendem ser endeusados e obriga a uma reformulação do discurso social. Mas não inibiu tentativas oportunistas de atrelar a imagem ao novo papa à política regional. Uma das mais risíveis coube exatamente a Nicolás Maduro, que se diz "filho" de Chávez. Segundo a avaliação delirante do herdeiro, Chávez, do além, influenciou na escolha do novo papa.

Chávez ‘peronista’ – 
Chávez se descrevia como um "verdadeiro peronista" – da mesma forma com que se chamava também de marxista e bolivariano –, por se identificar com o "sonho de Perón" de ver a América Latina livre do “imperialismo”. É verdade que, no início, Perón confrontava os EUA, mas ele nunca aderiu ao marxismo-leninismo como fez Chávez até seus últimos dias. O argentino, na verdade, era crítico da revolução cubana, de Fidel Castro e de Che Guevara. Por ter deixado de lado o discurso revolucionário e socialista, o peronismo conseguiu atrair setores da sociedade nacionalistas, conservadores e de direita. 

“Há peronistas que apoiam o governo, e outros que são opositores. Há ainda alguns que fazem parte do estado, mas são críticos da administração de Cristina. Já os chavistas, pelo menos até agora, se mostraram unidos atrás da figura de Chávez – e agora de Maduro – e com diferenças internas menos visíveis”, afirma Blanck.

Para o americano James McGuire, professor da Universidade de Wesleyan e autor do livroPeronismo sem Perón (1999), outro fator que favoreceu o peronismo foi o movimento ter criado uma base forte de apoiadores nas instituições sindicais, que já tinham uma longa história de autonomia e independência antes de Perón. "Mesmo que o partido peronista fosse proibido de participar das eleições, por exemplo, as pessoas que acreditam no peronismo poderiam usar os sindicatos para manter sua identidade viva. Na Venezuela, não há nada parecido. Todas as organizações ligadas ao chavismo foram criadas pelo próprio governo de Chávez", diz.

Futuro - 
Pode ser que o chavismo vire um movimento com vida própria, sustentado na visão do caudilho. Mas ainda é cedo para saber se os que tentam manter inalterado o poder na Venezuela terão força para enfrentar problemas de ordem prática, especialmente os econômicos e os ligados à questão da segurança pública. Além de terem de enfrentar a realidade de que lhes falta o carisma do coronel. 

“O peronismo se mostrou capaz de se reciclar de acordo com as distintas demandas da sociedade argentina ao longo dos anos. Só saberemos se o chavismo vai sobreviver daqui a algumas décadas, se vai conseguir representar setores tão diferentes em seu país”, diz Blanck. 

“Para que o chavismo persista, é preciso que haja uma transformação do movimento em uma cultura política, para além da ideologia. O peronismo hoje pode ser de esquerda ou de direita. Resta saber se o chavismo será capaz de se estender dessa maneira.”, completa Fraga.