Alberto Carlos Almeida
Valor Econômico
O Brasil gasta mais em educação do que a média dos países emergentes e também do que os países do G-7
Você, contribuinte, está pagando os salários de professores universitários, a maioria deles com doutorado, que não estão trabalhando, que não estão dando aula. Desde o dia 17 de maio, várias universidades federais que congregam milhares de professores estão em greve. Na primeira semana de junho, os professores grevistas tiveram seus salários pagos integralmente, apesar de não terem trabalhando praticamente metade do mês anterior. Agora, na primeira semana de julho, eles vão receber o salário integral relativo ao mês (não trabalhado) de junho. Trata-se, provavelmente, da maior greve remunerada de que se tem notícia, em prejuízo, obviamente de todos os pagadores de impostos brasileiros.
Não faço ideia de por que o governo não corta o ponto. O fato real é que Lula, o maior líder sindical e o presidente que mais teve sucesso político desde o retorno da democracia no Brasil, nunca conheceu greves remuneradas. Além disso, Lula não tem doutorado. É normal, em qualquer greve, que o patrão corte o ponto dos dias não trabalhados. Os dias descontados entram na pauta de negociação do pós-greve. Lula viveu isso na pele inúmeras vezes. Lula enfrentou dificuldades de fato, enfrentou e as venceu, e por isso teve sucesso. Nossos professores doutores, funcionários públicos e grevistas remunerados, não enfrentam essa dificuldade. Recebem um salário muito maior do que a média da população brasileira, o que os faz pertencer à classe A, e são doutores, o que os qualifica para obter recursos para a universidade que não venham do Tesouro. Mesmo assim, fazem greves remuneradas.
Há vários pontos importantes sobre a educação superior pública no Brasil:
(1) O gasto na educação é um gerador explícito de desigualdade.
(2) Na Coreia do Sul houve, nos últimos 40 anos, um investimento pesado em educação. Em 2007, porém, segundo os dados mais do que confiáveis do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o Brasil superou a Coreia no que diz respeito a gastos com educação. O dado é surpreendente, mas é real.
3) O Brasil gasta mais em educação do que a média dos países emergentes e também do que os países do G-7 (essas informações são facilmente encontradas no Global Education Digest da Unesco).
4) O Brasil está à frente de nossos “hermanos” argentinos, que são conhecidos por sua grande valorização da educação, por seus elevados índices de escolaridade e por sua predileção pela leitura.
5) Dados da mesma fonte mostram que o Brasil gasta 5,1% do PIB na educação pública, mais do que a média do G-7 (4,9%) e a média dos emergentes (4,3%).
Tudo indica, portanto, que os problemas de nossa educação não dizem respeito a quanto é gasto, mas sim à sua (in)eficiência.
Eis aqui uma de nossas grandes injustiças que nenhum governo até hoje ousou combater: o dinheiro público da educação vai para aqueles que podem pagar por ela. No Brasil, quanto mais pobre é uma pessoa, mais paga imposto. Parte desse recurso vai para a educação e lá é rateado pelos ensinos fundamental, médio e superior. Tomando-se o índice 100 para o ensino fundamental, é isso que se gastou por estudante no Brasil em 2006. Mais ou menos o mesmo valor foi para o ensino médio, ao passo que impressionantes 650 foram direcionados para cada aluno do ensino superior. Esse recurso é, basicamente, para sustentar as universidades públicas e gratuitas (conduzidas por professores doutores grevistas remunerados), justamente as que têm os melhores estudantes, aqueles com melhor desempenho no vestibular. Contudo, para alcançar um bom desempenho no vestibular, é preciso, em geral, estudar em escola particular. Ou seja, os pobres sustentam um sistema universitário público e gratuito que é ocupado em sua maioria pelos filhos da classe média e da classe média alta. É uma das maiores injustiças brasileiras, que cristaliza e amplia a desigualdade de renda.
De acordo com os dados comparados do Pisa de 2006, o Brasil é o país que, proporcionalmente, mais investe no ensino universitário. Depois do Brasil vêm Turquia, México e Chile. Estados Unidos e Noruega apresentam um gasto bastante equilibrado quando se coloca de um lado da balança o ensino superior e de outro os ensinos médio e fundamental juntos.
Os pobres são as maiores vítimas da educação de má qualidade, seus filhos não têm como concorrer em igualdade de condições no vestibular para as melhores universidades (que são públicas e financiadas em grande medida pelos pobres) com aqueles que cursam o ensino fundamental e médio de escolas particulares.
Igualmente grave: as 57 universidades federais brasileiras terminaram 2010 com um caixa de R$ 19,7 bilhões, já descontado o pagamento de aposentadorias e pensões. O valor é o mais elevado em duas décadas e representa um salto de quase 120% na comparação com o orçamento de 2005. Esse crescimento de 120% de seus orçamentos não resultou, porém, no crescimento de também 120% (poderia ser até um pouco menos) das vagas oferecidas aos jovens. Dados oficiais do Ministério da Educação revelam que, em 2010, as universidades federais ofereceram 938 mil vagas para graduação, enquanto as universidades privadas ofereceram 4,7 milhões. Em 2005, as federais ofereceram 595 mil vagas na graduação. O crescimento entre 2005 e 2010 foi de apenas 58%, em que pese o aumento de 120% em seu orçamento. Como contribuinte, gostaria de saber por que o aumento da oferta de vagas não correspondeu ao aumento do orçamento.
Fui professor universitário na Universidade Federal Fluminense (UFF), entre 1993 e 2005 (nunca fiz greve) e tenho uma opinião acerca das razões do descompasso entre aumento da oferta de vagas e aumento do orçamento. Isso acontece porque são os próprios professores que tomam a decisão acerca do aumento de vagas e para eles é preferível ter menos estudantes em sala de aula do que ter mais estudantes, simplesmente porque dá menos trabalho. O argumento dos professores não é esse, obviamente. O argumento é travestido de uma visão universal, mas é no fundo profundamente elitista. Eles afirmam que, para treinar bem os estudantes, é preciso menos alunos por sala. É muito provincianismo. Em todos os países desenvolvidos, as melhores universidades têm salas de aula com 100, 200 ou 300 alunos. É assim que o ensino é massificado. Isso não significa necessariamente ensino de baixa qualidade. Eu mesmo frequentei aulas com mais de 100 alunos na London School of Economics, cujo ensino é muito melhor do que em todas as nossas universidades federais.
A vida de nossos professores doutores grevistas remunerados é realmente muito conveniente: o governo aumenta nossos impostos, com isso aumenta os recursos destinados para as universidades federais, mas os professores que lá trabalham não aumentam no mesmo ritmo as vagas para os estudantes. Creio que nossos impostos estejam sendo gastos de forma ineficiente por nossas universidades federais.
A greve é só de aulas. Os professores não param de fazer suas pesquisas, não deixam de ir a seminários científicos no exterior ou no Brasil (nunca recusam viagens pagas pelos contribuintes) nem deixam de enviar seus relatórios de pesquisa para os órgãos de financiamento, como Capes e CNPq. Se fizerem isso, podem vir a perder suas bolsas de produtividade em pesquisa concedidas por esses órgãos, o que é equivalente a ter o ponto cortado. É muita injustiça: eles param uma parte de seu trabalho, as aulas, mas não param pesquisas e viagens. Só há um prejudicado: o estudante.
Há muitos professores que já há bastante tempo deixaram de pedir dinheiro para o governo. Como são doutores bem qualificados, trabalham para pesquisas e cursos oferecidos para empresas. As empresas de petróleo, por exemplo, são importantes contratantes das diversas engenharias da UFRJ. A Coppe da UFRJ é um dos maiores exemplos de eficiência na produção científica e tecnológica no Brasil. Os professores de tais áreas não têm motivo para entrar em greve. Aliás, as empresas que os contratam para desenvolver pesquisas não mais o fariam se eles fizessem “greves” em suas pesquisas.
Toda greve realmente efetiva precisa prejudicar o patrão. Quando os operários do setor automobilístico param, as empresas perdem produção, vendem menos e lucram menos. Os patrões, portanto, têm um grande motivo para negociar. Quando os metroviários param, os governos que pagam seus salários perdem popularidade, e isso os leva a negociar. Quando, porém, professores universitários param de dar aula, seu patrão, o governo federal, não é prejudicado. Somente os estudantes são prejudicados. É por isso que tais greves tendem a ser longas e a não atingir seus objetivos. Só lamento que eu e você, leitor, estejamos pagando os salários de tais grevistas.