quinta-feira, maio 07, 2020

CALA A BOCA, CAPITÃO!!!!!

Comentando a Notícia


Tentei pesquisar a origem da expressão “cala boca já morreu” mas não fui feliz. Sei, contudo, que se trata de uma expressão bastante antiga e usual. Quando garoto, adolescente (faz tempo, hein?) esta expressão era bastante empregada. Isto é pelos anos 60/70 do século passado quando o Brasil vivia o tacão da ditadura militar, onde se censurava o ruído causado por alguém mascando chiclete. Quem quer que divergisse era logo taxado de comunista ou subversivo e ia trancafiado, torturado, às vezes morto nos porões dos quartéis (vide Vladimir Herzog).

Mas nas rodinhas da garotada alguém sair-se com esta expressão “cala boca já morreu, quem manda em mim sou eu”. Afinal, as reações dos adolescentes de ontem e hoje são as mesmas em termos de rebeldia. 

Na medida que o país retornava ao regime democrático e com ele a sociedade retomava suas liberdades e garantias, a expressão pouco a pouco foi caindo em desuso. Voltou a ser lembrada, mais recentemente, pela ministra do STF, Carmem Lúcia, ao proferir uma palestra, em 2015, sob o tema Imprensa. E nesta semana, diante da ação ensandecida e tresloucada do presidente Bolsonaro ao mandar, por três vezes, os jornalistas que o aguardavam na saída do Alvorada, vociferar um “oca”  de forma agressiva e desequilibrada. 

Ora, quem mais do que o senhor Bolsonaro tem que calar a boca?  Só que, no dia do pedido de demissão de Sérgio Moro, do Ministério  da Justiça e Segurança Pública, em seu discurso de despedida, o ex-ministro alinhou uma série de acusações contra o presidente, pela manhã, Bolsonaro à tarde, desviando-se das acusações e tentando chamar Moro de mentiroso além de desqualificá-lo o quanto pode, ele se auto incriminou confirmando boa parte das acusações, principalmente quando afirmou que precisava, no comando da Policia Federal, “alguém de sua confiança, com quem pudesse interagir, telefonar, e receber relatórios confidenciais”. Não precisava acrescentar mais nada. 

Nesta terça-feira, para rebater a mensagem que Moro enviara para o |Jornal Nacional, em que Bolsonaro remete a Moro um link de O Antagonista sobre políticos estarem sendo investigados sobre manifestações antidemocráticas, e afirmar “Mais um motivo para troca”, não só Bolsonaro confirmou a acusação que o ex-ministro lhe dirigira, como deixou à mostra seu repúdio à ação de repressão ao garimpo ilegal quando foram incendiados máquinas e equipamentos dos criminosos.

Além disto, e apesar de  números demonstrarem o contrário, o senhor presidente ainda insiste em minimizar a pandemia, insistir em acabar com as medidas restritivas que evitam o aumento do contágio, sempre que pode, este senhor mente descaradamente, distorce os fatos para que se encaixem em seu discurso genocida. 

Sempre que pode, Bolsonaro sai chutando as canelas da imprensa, dos ministros do STF e da turma do Congresso, sempre de maneira grosseira, intempestiva, destemperada e desequilibrada. 

Como se nota pelos atos e palavras deste escroto, quem precisa colocar-se em frente ao próprio espelho é Bolsonaro, para dirigir-se a si mesmo a e berrar “CALA BOCA CAPITÃO”. 

Combate à pandemia – 

Foi preciso morrerem 9.146 mortes e 135.106 pessoas infectadas pelo coronavírus (fora as milhares de subnotificações) e o sistema de saúde colapsar com serviços funerários esgotarem sua capacidade de sepultamento, para o senhor Bolsonaro finalmente acordar. Segundo o anúncio do ministro da Saúde na coletiva desta quarta-feira, o governo prepara uma campanha publicitaria de esclarecimento da população sobre a pandemia do covid-19. O preço que o país está pagando pelo descaso e irresponsabilidade do presidente tem sido alto demais. Bolsonaro com sua ação desastrada, não só agravou a pandemia, mas com as crises políticas sucessivas desviou da sociedade daquilo que seria maias prioritário: combater o vírus. 

Mas isto só ainda é insuficiente: enquanto prefeitos e governadores não imporem multas pesadas e até detenção quando for o caso, a população brasileira não vai tomar consciência do seu papel quanto ao isolamento. Tem muita gente festeira e irresponsável pouco se lixando para o contágio ser universal.  
Outra Ação indispensável: tornar obrigatório em todo o território nacional o uso de máscaras. Vai entrar no transporte público sem máscara? Simplesmente ser impedido de entrar. Andando nas ruas sem a máscara? Multa e detenção. Ou levamos a sério ou ainda vamos lamentar o crescente número de infectados e óbitos.

Claro que muito político, jornalista e jurista se posicionará contra. Em países de primeiro mundo isto foi praticado e poucos reclamaram e os resultados positivos apareceram. Está na hora do Brasil deixar de bonzinho com o vírus e agir de forma drástica para combate-lo. Isto é trabalho de cada um e de todos. 

É política de guerra. Não tem outo jeito, ou faltará espaço nos cemitérios. Nos hospitais quase já não há mais.

Os reais (e escusos) interesses na PF do Rio-

 Quatro investigações e informações contidas em inquéritos da PF, no Rio,  se relacionam com filhos ou pessoas próximas ao presidente, como o deputado Hélio Lopes e Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Um quinto caso envolveu o desejo do presidente de mudar o delegado da Receita Federal no Porto de Itaguaí.

Quando a estupidez faz morada -  

Nem bem fechou-se 24 horas do Brasil ter batido o recorde de mortes em um único  dia e eis Bolsonaro, com ministros e empresários, dirigindo-se  ao STF, em audiência fora da agenda com o ministro Dias Toffoli, para pressionar aquela instância para que o Judiciário decidisse em favor da flexibilização da quarentena. Isto é uma patifaria descomunal. E mais: na tal comitiva, cadê a presença do ministro da Saúde?

Ora, contágios e mortes estão em linha ascendente, e Bolsonaro resolve manter seu discurso genocida de liberar geral? Convenhamos, este senhor perdeu o juízo e joga no lixo toda a condição para continuar governando o Brasil.  É intolerável o senhor Bolsonaro querer transferir para o Judiciário uma responsabilidade exclusivamente sua. 

Por sorte, Toffoli foi inteligentíssimo ao cobrar do governo “qual é o plano?”. Bolsonaro e empresários simplesmente chegaram de mãos vazias: eles não têm plano nenhum e cabe à Presidência coordenar com governadores e prefeitos um plano de ação.  E um detalhe: ao contrário do que apregoa o presidente, a economia não está parada. Muitos setores da indústria, dos transportes, do agronegócio, da produção e do comércio estão em atividade plena.

Reajuste sem propósito – 

Não é que o Congresso resolveu aprovar um socorro de R$ 120 bilhões para estados e municípios colocando um bônus cafajeste de liberar reajustes para até 70% dos servidores. Ou seja querem dinheiro de graça, sem contrapartida? Canalhice suprema.

Bolsonaro diz que vai vetar a pedido do Paulo Guedes. Detalhe: segundo se comenta no Congresso, (Major Olímpio, líder do governo), quem autorizou o reajuste foi o próprio Bolsonaro. Ou seja, trata-se mesmo de um escroto.

Um recado para Bolsonaro: sem pessoas vivas e sãs não haverá economia pra desfrutar. Questões econômicas depois é possível recuperar, vidas não. E se você, seu escroto não quer ajudar a combater o vírus, pare de incentivar a morte e a doença.

Um mau militar

Editorial
O Estado de S.Paulo

Jair Bolsonaro nada aprendeu nas aulas sobre respeito e civilidade ministradas nas escolas militares. No modelo do general Ernesto Geisel, ele é “um mau militar”, que deixou pela porta dos fundos esta honrada profissão

As Forças Armadas desfrutam do merecido apreço da maioria dos brasileiros, como há tempos atestam pesquisas de opinião. Merecido porque, desde a redemocratização do Brasil, souberam manter-se à margem do desgastante processo político, limitando-se às suas elevadas funções constitucionais. “Se a política entra pela porta da frente de um quartel, a disciplina e a hierarquia saem pela porta dos fundos”, disse, com razão, o vice-presidente Hamilton Mourão, general da reserva, ao comentar o movimento grevista da Polícia Militar do Ceará, em março passado.

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro, contudo, vem impondo um complexo desafio para as Forças Armadas. O presidente Bolsonaro, ele mesmo um oriundo dos quadros do Exército, cercou-se de militares em seu gabinete, alguns inclusive na ativa – como o ministro da Secretaria-Geral de Governo, general Luiz Eduardo Ramos.

Tornou-se inevitável, assim, uma associação entre a imagem das Forças Armadas e a do governo, mesmo que a maioria dos militares que hoje servem ao presidente seja da reserva e mesmo que a cúpula das Forças reafirme constantemente seu distanciamento da cozinha política do Palácio do Planalto. Mais do que isso: em muitos momentos, Bolsonaro se refere às Forças Armadas como “as nossas Forças”, modo nada sutil de indicar uma unidade de pensamento e ação entre ele e os quartéis.
No domingo passado, em mais um de seus comícios de caráter golpista, o presidente foi ainda mais longe e, depois de dizer que “acabou a paciência” em relação àqueles que, seguindo a Constituição, impõem limites a seu poder, declarou que “as Forças Armadas estão do nosso lado”.

Com isso, o presidente Bolsonaro explicitamente tenta vincular seu governo às Forças Armadas e, pior, em oposição ao Judiciário e ao Congresso – cujo fechamento a militância bolsonarista defende dia e noite, estimulada pela retórica agressiva de seu líder. Ante o mal-estar causado pelas declarações autoritárias de Bolsonaro, o Ministério da Defesa teve de emitir uma nota em que afirma que “Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado” – o que seria uma platitude se o presidente não fosse Jair Bolsonaro, que confunde o Estado com o quintal de sua casa.

Bolsonaro cercou-se de militares na presunção de que estes lhe dedicariam absoluta lealdade, à moda dos quartéis. Essa exigência ficou clara com a demissão, em junho do ano passado, do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, então ministro da Secretaria-Geral de Governo, depois que este ousou atravessar o caminho do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e eminência parda do regime. O episódio serviu para mostrar aos demais ministros, inclusive os militares, que ninguém no governo pode colocar os interesses de Estado acima dos interesses do clã Bolsonaro.

Assim, os militares que aceitaram cargos no governo, tidos como os “adultos na sala”, isto é, aqueles que temperariam o comportamento explosivo e errático do presidente, tornaram-se instrumentos de Bolsonaro em seu projeto autoritário de poder. O passo seguinte, no roteiro bolsonarista, é enredar as Forças Armadas.

Certamente é do mais absoluto interesse dos comandantes militares do País preservar a imagem de respeito e dedicação à Constituição, sem falar nos princípios civilizatórios. Se assim é, urge deixar claro que um presidente que ataca a imprensa diariamente – e manda jornalistas calarem a boca, como fez ontem com duas repórteres que insistiram, ora vejam, em lhe fazer perguntas – não representa os valores dos quartéis; urge deixar claro que Bolsonaro, ao desdenhar seguidamente dos mortos na pandemia de covid-19, agride princípios humanitários compartilhados pelos militares; urge deixar claro que tratar os Poderes Judiciário e Legislativo como inimigos e estimular manifestações golpistas, como fazem Bolsonaro e os bolsonaristas a todo momento, ofende a ordem democrática que os militares juraram respeitar; urge, por fim, deixar claro que as grosserias de Bolsonaro demonstram que ele nada aprendeu nas aulas sobre respeito e civilidade ministradas nas escolas militares. É, no modelo do general Ernesto Geisel, “um mau militar”, que, é bom não esquecer, deixou pela porta dos fundos esta honrada profissão.

A esperança, o poeta e o tempo

 Míriam Leitão
O Globo

Nossa esperança de novo se equilibra. Perdemos quem cantou para o país que dores pungentes não podem ser inutilmente. Com seu talento, Aldir Blanc fez do sofrimento de um tempo extremo músicas que nos ajudaram a seguir por um trilho estreito. É impensável tudo isso que anda acontecendo, mas a verdade é que tantos anos depois, de novo, a tarde parece cair como um viaduto. A doença que o atingiu já levou mais de sete mil brasileiros, e o Brasil dança na corda bamba. Várias cordas, todas bambas. A da luta diária pela vida, a de um país atormentado, a de velhas sombras que o próprio governante joga sobre nós.

As más intenções estão sendo ditas pelo presidente Jair Bolsonaro, por atos e palavras. Todos os dias. Ele se reuniu com os militares no domingo. Ouvi um general do alto escalão do governo, e ele me disse que existe uma “extrapolação de funções por parte do Judiciário”, e que isso vem desde 2014. Citou dois exemplos, a escolha de auxiliares e a política externa. Seriam prerrogativas do chefe do Executivo que foram invadidas. Portanto, o que senti nessa autoridade foi apoio ao presidente em dois fatos específicos: a suspensão da nomeação do diretor-geral da Polícia Federal e o problema dos diplomatas venezuelanos. Bom, uma coisa é a fricção que possa existir entre os poderes. Normal. Outra é fazer o que Bolsonaro fez.

Bolsonaro usou as Forças Armadas para ameaçar quem pensa diferente daqueles que, ao seu lado, na manifestação de domingo, pediam a volta da ditadura. O protesto contra a democracia poderia ser um evento menor, ainda que sujeito à punição legal, mas o ato se agiganta quando o presidente comparece e afirma: “As Forças Armadas estão do nosso lado.” E quem não está daquele lado deve pensar o quê?

O Brasil tem vivido entre cantos e chibatas há tempo demais. Há muitas pedras pisadas nesse nosso cais. Não é possível, à luz da história, reduzir a gravidade do que tem acontecido diante de nós, na frente de prédios que simbolizam o poder no Brasil. Quem viveu não pode dizer que não vê. Os olhos dos fotógrafos veem melhor. São agudos, têm foco, não se perdem na multidão. E por isso sobre eles veio a agressão de domingo no ato em que o presidente se divertia espalhando ultimatos para os poderes.

Da autoridade com quem eu tentei entender como o ato de Bolsonaro era visto, eu só ouvi crítica aos manifestantes. Alguns teriam “ideias radicais e que não param em pé”. A fonte garantiu que “ninguém vai embarcar numa aventura”. É o mesmo que ouvi de outras fontes há duas semanas, quando o presidente também participou de uma manifestação contra a democracia. Essa primeira é objeto de um inquérito. Portanto, Bolsonaro participou de um evento semelhante a outro que está sob investigação. Ele dobrou a aposta.

As Forças Armadas no começo da tarde soltaram a segunda nota em apenas 15 dias. Disseram que são democráticas, repudiam as agressões aos jornalistas e que “estão do lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”. Bolsonaro também listou esses quatro, “lei, ordem, democracia, liberdade”. E acrescentou: “estão do nosso lado.” O Ministério da Defesa não refutou essa insinuação de estar a favor de manifestantes que querem fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Fica mais um silêncio pesando sobre o país.

A tibieza das instituições, a desenvoltura com que o presidente fere as leis, a agressividade que ele autoriza que seus apoiadores pratiquem, ao lançar, ele mesmo, ofensas verbais contra pessoas ou instituições, o assalto aos órgãos de Estado. Tudo vai se misturando, tudo lembra o passado. “Batidas na porta da frente. É o tempo.”

Quando Aldir Blanc e João Bosco lançaram a música que virou hino, “O bêbado e a equilibrista”, a gente vivia sentimentos mistos. O país carregava muitos anos de dor, mas o irmão do Henfil estava voltando e “tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Então era cantar bem forte, junto com Elis, o fim daquele exílio. E agora? Qual é a melhor resposta ao tempo que bate na porta? Que ele passe. Porque tudo isso foi há muito tempo nas águas da Guanabara. E para o poeta que nos deixou, vítima da pandemia, a gente pode cantar sua música que fica como um legado, um carinho, no meio de tantas lutas inglórias.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

Como Bolsonaro, Mussolini iniciou a instauração do fascismo com ameaças ao Parlamento e à liberdade de expressão

Juan Arias
El Pais

Aqueles que hoje insistem que Bolsonaro é apenas um desequilibrado que nunca arrastaria o Brasil para uma aventura mussoliniana, deveriam recordar algumas afirmações feitas por ele antes de eleito

  UESLEI MARCELINO / REUTERS 
Bolsonaro, com um exemplar do jornal Folha de S.Paulo nas mãos,
 ameaça jornalistas e manda repórteres calarem a boca, na manhã desta terça-feira, em Brasília.

Quase todas as rupturas democráticas na história moderna começaram da mesma maneira: com ataques à liberdade de expressão e ao Congresso, e acabaram em sangue. Foi assim, por exemplo, cem anos atrás, quando Benito Mussolini criou o fascismo.

Quem hoje no Brasil minimiza essas mesmas táticas autoritárias do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores mais fanáticos, poderá despertar amanhã em um país algemado e um regime ditatorial.

Daí a responsabilidade daqueles que não dão importância às ameaças de Bolsonaro às instituições, alegando que são apenas bravatas e ameaças puramente verbais. Ou os que defendem que as instituições continuam fortes o suficiente para deter esses arroubos ditatoriais que se multiplicam a cada dia. Ameaças que, apoiadas por esse exército que vai sendo criado de seguidores mais fanáticos, começam a se materializar em violência física, como acabamos de ver contra agentes da saúde e jornalistas.

O momento é mais grave ainda porque o Brasil, e também o restante do mundo, atravessa a crise de uma pandemia que ameaça não só semear a morte pelo país, como também a quebra de toda a economia e a chegada de uma pobreza que é um terreno fértil para os anseios dos novos aprendizes de ditadores.

Bastaria um passar de olhos pelo início do fascismo mussoliniano para constatar as semelhanças com o momento em que vive o Brasil, onde as instituições se veem cada vez mais sitiadas e ameaçadas, e se começa a sentir gritos de guerra civil.

Como hoje o ex-capitão Bolsonaro, também na época Mussolini, presidente do Conselho de Ministros [primeiro-ministro], começou a lembrar ao Parlamento que, se quisesse, poderia prescindir dele e governar por decreto. Disse aos congressistas que ele poderia “fazer deste plenário surdo e cinza um acampamento de soldados”. E acrescentou, lembrando que estava começando a contar com seu exército de voluntários violentos, os fascios: "Eu poderia fechar este Parlamento e construir um Governo exclusivamente fascista. Eu poderia, mas não quis, pelo menos neste momento”.

Hoje sabemos que não eram simples ameaças vazias e retóricas do Duce, que acabou se tornando um dos ditadores mais perigosos da história e levou a Itália não só à bancarrota econômica, mas também à guerra e ao obscurantismo. E isso com a bênção de boa parte dos intelectuais da época e da mesma Igreja diante da qual Mussolini, que era ateu confesso, acabou ajoelhando-se.

Aqueles que hoje insistem que Bolsonaro é apenas um desequilibrado que vocifera sem convicção do que diz e que nunca arrastaria o país para uma aventura mussoliniana, deveriam recordar algumas afirmações feitas por ele antes ainda de vencer as eleições.

De acordo com artigo da Folha de S.Paulo em 3 de junho de 2018, Bolsonaro em 1999 chegou a defender um novo golpe militar. Segundo o então deputado, não havia solução para o Brasil “por meio do voto popular”. Mais ainda, em entrevista ao programa Câmera Aberta, questionado pelo entrevistador se fecharia o Congresso Nacional se um dia fosse presidente da República, ele respondeu: "Não há menor dúvida, daria golpe no mesmo dia! Não funciona! E tenho certeza de que pelo menos 90% da população ia fazer festa, ia bater palma, porque não funciona”.

Bolsonaro foi ainda mais longe. Na mesma entrevista, declarou que não acreditava que existisse uma solução para o Brasil por meio da democracia e defendeu a morte de “30.000”, incluindo civis e o então presidente Fernando Henrique Cardoso. O hoje presidente disse que “através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30.000, começando pelo FHC, não deixar ele pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”

Bolsonaro sonhava, então, com uma ditadura de verdade, pois, para ele, a do Brasil havia sido pequena. Nem havia chegado a ser uma de fato, e ele sentia desgosto por não ter havido mais mortos na época, já que, segundo ele, não valia a pena torturar pessoas, teria sido melhor matá-las.

É importante recordar hoje essas declarações arrepiantes de Bolsonaro anos atrás, agora que está com o poder em suas mãos e que de novo volta a ameaçar fechar o Congresso e meios de comunicação.

Naquela ocasião o deputado Bolsonaro foi acusado de atacar os valores democráticos, mas o então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, deu parecer favorável ao arquivamento de suas declarações, alegando que, como deputado, gozava de imunidade parlamentar. Voltaremos hoje a acreditar que suas ameaças, sendo agora presidente, são simples retórica amparada na liberdade de expressão que ele abomina e combate?

Não é possível analisar ameaças ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e aos meios de comunicação sem levar em conta os antecedentes políticos do presidente. Já está claro que a cada dia ele dá mais um passo em seu projeto autoritário.

Querer minimizar as ideias de Bolsonaro contra as liberdades democráticas ou atribuí-las a um puro exercício de linguagem, como fez dias atrás o presidente do Supremo, José Antonio Dias Toffoli, é mais do que uma imprudência, é uma grave irresponsabilidade. Afirmar, como fez o magistrado comentando com entusiasmo a bravata pública e as ameaças às liberdades do Presidente, que “talvez a maneira de ele falar não seja a mais correta ou adequada. Pode ser que a forma prejudique o conteúdo”, é um eufemismo grave que parece querer ignorar o momento delicado e talvez sem volta atrás que a democracia está sofrendo neste país.

Esses eufemismos pronunciados pelo presidente da mais alta corte indicam que as forças democráticas responsáveis por vigiar e defender os valores intocáveis das liberdades ainda não entenderam o que aconteceu em todos os movimentos da história que acabaram em opressão e na negação dos valores do Estado moderno, e que produziram jorros de sangue inocentes. Todos eles começaram ameaçando a fazer o que acabaria se tornando realidade.

Os eufemismos são válidos quando se trata de aliviar a dor ou o horror, mas quando as liberdades são ameaçadas, quando os diferentes são ofendidos e atacados, quando se dá luz verde à violência dos grupos mais exaltados do ódio, é preciso ter a coragem de chamar as coisas por seu verdadeiro nome.
Não é forma, mas conteúdo quando Bolsonaro, diante da dor das mortes que o coronavírus está causando, exclama com cinismo: “E daí?” Não se trata de um problema de linguagem. Quando exalta a tortura, debocha de outros povos e ameaça com rupturas institucionais, suas palavras, dados os seus antecedentes já desde jovem, não podem ser tratadas como um mero exercício lexical.

Como escreveu Miriam Leitão em sua coluna de O Globo, as ameaças do presidente são “explícitas. Não cabem mais silêncios”. Neste momento, tentar minimizar as ameaças às liberdades por parte de Bolsonaro significa ser seu cúmplice.

Por tudo isso, a responsabilidade máxima pelo que poderá ser o futuro do Brasil, ante as ameaças que suas conquistas democráticas, que foram orgulho do mundo, estão sofrendo dia após dia, recai neste momento nas instituições que, segundo a Constituição, têm o direito e o dever de conter essa loucura de nostalgias fascistas.

E como já afirmei em outro artigo, isso tem que ser já, porque amanhã pode ser tarde demais. E então de nada adiantará chorar. E não se iludam, quem pagaria o maior preço seriam os mais desvalidos, os duplamente perdedores, como em todos os fascismos e nazismos que hoje estão tentando ressuscitar com sua carga de dor e sangue.

É isso o que os responsáveis de hoje, os que deveriam ser os guardiões da democracia, querem para o Brasil, que já sonhou com dias mais luminosos?

Fez bem o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, ao declarar que as Forças Armadas estão comprometidas “com a democracia" e que “as Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade". Agora será preciso ver, de modo concreto, se as Forças Armadas, que estão massivamente no Governo Bolsonaro, lhe permitirão seguir em frente em seus ataques à democracia, sem tomar decisões concretas, já que estamos nos acostumando demais a constatar que as palavras não bastam quando a realidade se vai impondo cada dia mais ameaçadora e sombria.

Bolsonaro semeia a anarquia militar

Elio Gaspari
O Globo

Influência da família no governo é ingrediente tóxico

Quando Jair Bolsonaro falou que “o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia, da liberdade e da verdade, também estão ao nosso lado”, não disse coisa nenhuma. Foi apenas uma construção astuciosa mas, como o capitão não consegue parar, acrescentou: “Não tem mais conversa. Daqui para frente, não só exigiremos. Faremos cumprir a Constituição. Será cumprida a qualquer preço.” Logo ele, que se julga “realmente, a Constituição” e se referiu às “minhas Forças Armadas”. Ganha um resfriadinho em Caracas quem não conseguir juntar lé com cré.

Para quem vive uma pandemia com a marca dos dez mil mortos batendo à porta e uma inédita recessão já instalada na economia, esse tipo de encrenca não era necessária.

O capitão passou mais tempo no baixo clero da Câmara do que no Exército, onde conheceu melhor as sendas da indisciplina do que as normas da corporação. Nelas também não se enquadrava, por exemplo, o major e ex-deputado Curió do Araguaia. Levado ao Planalto por um sentimento antipetista, Bolsonaro flerta com a anarquia militar.

Essa anarquia, resultante de divisões dentro das Forças Armadas, se fez sentir na política brasileira do século passado, até que perdeu ímpeto em 1977 e desapareceu com a redemocratização.

Na crise que Bolsonaro incentiva misturam-se ingredientes tóxicos. O primeiro deles é a influência de sua família no governo.

O que restava do prestígio militar do marechal Henrique Lott, poderoso ministro da Guerra de 1954 a 1959, esvaiu-se em 1962, quando sua filha Edna elegeu-se deputada estadual. Com três dos cinco presidentes-generais (Castello Branco, Emílio Médici e Ernesto Geisel) a história foi outra, e seus familiares não se metiam no governo. Castello demitiu um irmão porque aceitou um presente e não moveu um dedo quando a Marinha negou ao seu filho a promoção a almirante. 

O segundo ingrediente tóxico vem a ser o “núcleo militar” formado no Planalto. É composto por militares da reserva e por um general da ativa agregado. Governos que não tiveram essa bizarrice funcionaram: José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Os que a tiveram: Costa e Silva e, de certa forma, Figueiredo, deram-se mal. Fora da linha de comando só há a bagunça.

O terceiro ingrediente é a simpatia de Bolsonaro pela opinião de sargentos e suboficiais, somada ao expresso apoio dado a policiais militares amotinados. A ele se junta uma militância parruda e agressiva.

Nos últimos 50 anos o Brasil teve dois tipos de chefes militares no Exército, aqueles de quem se sabia o nome e aqueles de quem não se sabia. Orlando Geisel e Leônidas Pires Gonçalves estiveram no primeiro grupo. Um enquadrou os generais depois da anarquia de 1969, na crise da doença de Costa e Silva. O outro, comandou-os no governo Sarney, quando baixou o chanfalho no capitão Bolsonaro. Depois, no segundo grupo, vieram dois chefes que comandaram a Força por treze anos. Deles não se fala e eles também não falam. Quem cruzar com os generais Gleuber Vieira e Enzo Peri na rua, não saberá quem são.

A ambos aplica-se a lição que Ernesto Geisel deu a um paisano que lhe perguntou quem era um general que ele promoveu à quarta estrela.

 “Um grande oficial, e a prova disso é que você não sabe quem é.”

Chamava-se Jorge de Sá Pinho.


Crise sobre crise

Eliane Cantanhêde, 
O Estado de S.Paulo

A covid-19 avança, mas o tipo de crise de que Bolsonaro gosta é outro. Melhor não alimentá-lo

O objetivo não era esse, mas o ministro do Supremo Alexandre de Moraes pode ter salvo, ou ao menos aliviado, o presidente Jair Bolsonaro no processo em que é acusado pelo ex-ministro Sérgio Moro de investir contra a autonomia da Polícia Federal para obter informações sigilosas e interferir em processos autorizados pelo próprio Supremo.

Até onde se sabe, Moro acusa o presidente de “intenções”. Se o ministro Moraes não tivesse impedido a posse do delegado Alexandre Ramagem na direção-geral da PF, estariam criadas as circunstâncias para que essas “intenções” se transformassem em atos – ou não. Sem Ramagem e com o delegado Rolando Alexandre de Souza na PF, os cuidados serão naturalmente redobrados para não jogar álcool na fogueira.

Logo, Alexandre de Moraes pode ter obtido o efeito inverso ao pretendido, dando uma mão para Bolsonaro e evitando que ele saísse do mundo da vontade para o da execução, caso Ramagem já chegasse reunindo investigações sobre este ou aquele amigo, este ou aquele inimigo do presidente e enviando diretamente para o Planalto. A subjetividade teria adquirido materialidade.

Por ora, é a palavra de Moro contra a de Bolsonaro. Os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, apontados pelo ex-colega como testemunhas, não podem nem mentir para a Justiça nem incriminar o chefe. Basta confirmar que Bolsonaro exigia, sim, trocar o diretor da PF e ameaçava, sim, demitir o ministro da Justiça. E daí? É atribuição do presidente nomear e demitir o outro.

Com Moro autorizando a divulgação de seu depoimento de oito horas à própria PF e ao Ministério Público, pode-se vir a saber e balancear o que ele entregou. Com 22 anos de magistratura, não seria ingênuo de fazer acusações pesadas, e justamente contra o presidente, sem provas. De outro lado, ele teria apagado as conversas pelo celular, preservando apenas as dos últimos 15 dias antes da queda.

Se for assim, o torpedo mais letal contra Bolsonaro é a mensagem, já divulgada pela Rede Globo, em que ele reclama de investigações sobre “dez a doze deputados do PSL” e termina com uma frase bastante comprometedora: “Mais um motivo para a troca (na PF)”. Mas será que Moro só tem isso?

Como as demonstrações de Bolsonaro contra o STF e o Congresso, houve um consenso contra ele e pró-Alexandre de Moraes. Porém, juristas, o presidente do Supremo, Dias Toffoli, e os militares do Planalto estão convencidos de que Moraes extrapolou. E, assim, deu pretexto para Bolsonaro ameaçar também extrapolar. O risco é crise institucional.

E assim vai-se vivendo, de manifestação em manifestação de inspiração golpista, embalada pelo presidente da República e pelos símbolos e cores nacionais e agora com ataques covardes a enfermeiros e a jornalistas, como os brilhantes fotógrafos Dida Sampaio, do Estado, e Orlando Brito, um veterano, e ao motorista Marcos Pereira.

A cada provocação de Bolsonaro e de bolsonaristas, o Ministério da Defesa tem de acertar o tom na defesa da democracia sem atacar Bolsonaro e pregar “a independência e a harmonia entre os Poderes”. Está virando rotina. O coronavírus atinge mais de cem mil brasileiros e mata mais de 7 mil, mas o presidente não está nem aí. O tipo de crise de que ele gosta é bem outro. Quanto menos se alimentar, melhor.

Equilibristas. Nos deixaram na segunda-feira, 4, além de Flávio Migliaccio, o iluminado Aldir Blanc, autor do hino informal da reabertura política, e o grande político Guilherme Palmeira, que liderou com Marco Maciel e Jorge Bornhausen a dissidência do regime que se revelou fundamental para enterrar a ditadura. A morte de ambos traz memórias e reflexões preciosas neste momento difícil, às vezes assustador.


Gasto público é inevitável. Desperdício, não

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Governos que aproveitaram anos de crescimento para ajustar contas estão em posição mais confortável para gastar

Lá pelas tantas, já na saída da crise de 2009, a revista “Economist” referiu-se à gigante GM, a maior montadora de veículos dos EUA, como “Government Motors”. Para salvar a companhia, o governo de Barack Obama havia comprado ações da empresa em tal quantidade que se poderia chamar de estatização. Não era esse o objetivo.

A tremenda recessão que se seguiu ao desastre financeiro deixou a GM e muitas outras empresas à beira da falência: sem consumidores e sem crédito. As opções, portanto, eram três: deixar quebrar (paciência, são coisas do mercado); emprestar dinheiro público (já que os bancos privados não queriam se arriscar); ou comprar ações, o governo tornando-se sócio das companhias.

No final das contas, houve uma combinação disso tudo. Muitas empresas eram mesmo inviáveis, a crise apenas apressando o fim. Mas outras — em número incalculável, de gigantes a pequenas — foram resgatadas pelo governo via empréstimos ou aquisição de ações.

No geral, deu certo. Tanto que o período de Obama foi marcado por uma forte aceleração do crescimento. Ele assumiu em janeiro de 2009, na crise, com a taxa de desemprego subindo para 10%. Em janeiro de 2017, entregou o governo com os EUA de novo liderando o crescimento global, com taxa de desemprego a 4,5% — nível considerado de pleno emprego.

A GM era de novo General Motors. O governo havia vendido as ações e até feito uns bons trocados no processo. Ontem, a empresa divulgou os resultados do primeiro trimestre: um lucro de US$ 247 milhões, queda de 88% em relação ao mesmo período de 2019, número muito bem recebido já que as fábricas ficaram fechadas parte do período.

Aliás, já estão se preparando para reabrir— mas não é isso que interessa para o caso. O que interessa é o seguinte: depois da crise de 2009, empresas, famílias e governos saíram endividados. Muitas empresas, especialmente na Europa, saíram estatizadas. As receitas foram quase sempre as mesmas: governos tomando dívida ou imprimindo moeda para financiar empresas, pessoas e os próprios gastos públicos.

O que se seguiu foi diferente. Em alguns países, restabeleceu-se o ajuste fiscal e a retirada dos governos para suas funções essenciais. Em outros, lideranças políticas e econômicas aproveitaram as circunstâncias para sustentar que o capitalismo chegara ao fim, para dar início a algum novo tipo de socialismo ou social-democracia ou Estado de Bem-Estar.

Sim, estou simplificando. No período, apareceram outros fenômenos, como os populismos de direita ou de esquerda, uma reação política equivocada a determinadas situações econômicas: aumento de desigualdade de renda, o crescimento do número dos muitos ricos e uma legião de trabalhadores que foram deixados para trás pela introdução de novas tecnologias.

E foi assim que chegamos ao coronavírus. De novo, os governos estão se endividando para pagar o combate à pandemia, o que inclui desde gastos com o sistema de saúde até socorro a pessoas que perdem seu trabalho e empresas que perdem seus consumidores e seus créditos.

O que faz a diferença? Uma está, certamente, nas finanças públicas. Os governos que aproveitaram os anos de crescimento para ajustar as contas encontram-se agora em posição mais confortável para gastar. Outra diferença está na eficiência do gasto público. Houve governos que salvaram as suas GMs, outros salvaram as companhias que financiavam seus partidos e seus líderes — como aconteceu largamente na América Latina.

Assim, em muitos lugares, Brasil incluído, faltaram dinheiro (roubado) e competência para o estabelecimento de regimes saudáveis, inclusive na infraestrutura social (saúde, educação, segurança). Sobraram empresas podres e serviços inadequados. Não é de hoje que há falhas na saúde pública.

Mas peguemos exemplos de fora. A Alemanha tinha até ontem 167.575 casos de Covid-19, com 7.190 mortos. Na França, 170.694 casos, para 25.538 óbitos. A diferença, claro, está na eficiência na construção e operação do sistema de saúde.

Eis aonde queremos chegar: o governo brasileiro está multiplicando sua dívida. Inevitável. Assim como será inevitável o contribuinte pagar isso depois. Mas tem muito gasto que não presta. Nosso próximo tema.

A renda básica

Sérgio Vale
Exame.com

Distribuir um valor mensal a todos é uma solução? programas focados costumam trazer melhores resultados

Foto: Getty Images /  (/)


O ineditismo da tragédia da covid-19 tem trazido mudanças radicais na atuação da política econômica mundo afora. Tem sido uma constante mesmo países com elevado endividamento optarem por aumentar de forma significativa os gastos públicos para conter a crise.

De fato, ao compararmos o tamanho da dívida pública bruta em porcentagem do produto interno bruto com o estímulo fiscal contra a crise, notamos que não há nenhuma relação entre eles. Ou seja, países muito ou pouco endividados estão gastando o que acham necessário, sobretudo com saúde. E o que acham necessário pode estar relacionado com a riqueza da economia: os países mais ricos têm mais potência para usar política econômica do que os mais pobres, o que é um resultado esperado. Países muito endividados ou com situação fiscal precária, como o Brasil, vão ter de se ajustar de alguma forma para diminuir uma dívida pública bruta que deve chegar a quase 90% do PIB neste ano. Parte desse ajuste será certamente feita com aumento de imposto, provavelmente sobre a renda. Para 2021, devemos esperar a volta da discussão sobre aumento da alíquota de imposto de renda e maior taxação da pessoa jurídica.

Neste mundo de gastos maiores com saúde, piora fiscal significativa e parte da solução via aumento de impostos, surgiu a ideia de uma renda básica universal (RBU) como opção no cardápio de gastos para mitigar o efeito da crise. A ideia da RBU é antiga, com proponentes ilustres, como Milton Friedman, que sugeria um imposto de renda negativo, que basicamente é a mesma coisa que a RBU. Essa política pública se caracteriza por um valor mensal que seria dado de forma permanente a toda a população de um país. Distancia-se, assim, dos programas sociais focados, como o Bolsa Família no Brasil. Por trás dessa política pública há a filosofia de que é melhor deixar a pessoa decidir o que fazer com o dinheiro em vez de o Estado direcionar programas específicos.

A discussão da RBU certamente crescerá nos próximos anos com o empobrecimento advindo da crise da covid-19, que se junta às mudanças tecnológicas. Mas em que pese ser uma proposta relativamente antiga, poucos países a implementaram. Na verdade, não há nenhum caso até hoje de RBU dada a toda a população de um país. Os exemplos são temporários e para uma parcela de pessoas. A Finlândia deu dinheiro a 2.000 pessoas desempregadas escolhidas aleatoriamente entre 2017 e 2018. Há um experimento neste momento no Quênia, em que foram escolhidas quase 15.000 famílias de diversas categorias para receber RBU durante 12 anos. O estudo começou em 2017 e ainda não há avaliação sobre os impactos do programa. O exemplo mais avançado é o do Alasca, estado americano que dá, por meio do Fundo Permanente do Alasca, 2.000 dólares a cada pessoa por ano desde 1982.

Parte da dificuldade que se encontra na aplicação dessa política são os custos. Por exemplo, nos Estados Unidos estima-se que, se fossem dados 1.000 dólares mensalmente a cada americano acima de 18 anos, o valor anual seria de 3 trilhões de dólares, que representa 75% do gasto público americano total. Mesmo que outros programas sociais fossem cortados, ainda assim seria em torno de 50% do gasto público total do país. Outra dificuldade é saber se as pessoas que vão receber esses valores continuarão a procurar emprego ou não. Os resultados empíricos aqui são positivos e mostram que não há mudança significativa de emprego quando esse valor é dado. Os desempregados da Finlândia que receberam os recursos não deixaram de procurar emprego. Há a percepção de que o trabalho tem valor social relevante. Em pesquisa nos Estados Unidos, relatada por Abhijit Banerjee e Esther Duflo em seu livro Good Economics for Hard Times, 87% da população não deixaria o trabalho nem pararia de trabalhar se estivesse recebendo a RBU.

No caso brasileiro, suponha que fossem dados 500 reais mensais a todos os indivíduos com mais de 18 anos de idade. O gasto anual seria da ordem de 930 bilhões de reais, ou 65% do gasto público federal total. Teria de haver corte significativo em outros programas e mesmo em educação e saúde para que se contemplassem recursos dessa ordem para todos. Os estudos têm mostrado que programas focados têm trazido mais resultados para quem mais precisa. Por isso, o que se deve fazer, neste momento de crise, é ampliar o foco de recursos para a população mais pobre, especialmente os que estão na economia informal. Isso daria cerca de 30 bilhões de reais por mês caso permanecessem os 600 reais estipulados pelo Congresso para cerca de 30 milhões de pessoas. São recursos que poderiam ser ampliados e estendidos por seis meses, pelo menos, enquanto o pior da crise se mantivesse. Seria uma renda básica quase universal, mas temporária, o que parece possível, dadas as condições fiscais do país, e ajudaria de fato quem mais precisa neste momento. O que é necessário agora é celeridade para esses recursos chegarem logo a quem necessita.



Bolsonaro disse que Forças Armadas “estão com o povo”. Mas elas estão com Bolsonaro?

Olavo Soares
Gazeta do Povo (Paraná)

  
 | Foto: Marcos Corrêa/PR
O presidente Jair Bolsonaro com membros das Forças Armadas

Um dos momentos de mais repercussão no ato governista do último domingo (3) foi a fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em que ele mencionou uma suposta conexão entre sua gestão e as Forças Armadas. "Tenho certeza de uma coisa, nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, e pela liberdade", disse, numa declaração direcionada ao público que acompanhava a transmissão do ato pela internet. Ao fim da manifestação, o presidente reiterou: "vocês sabem, o povo está conosco, as Forças Armadas estão ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade, também estão ao nosso lado".

Além do apoio a Bolsonaro, o ato contou com cartazes e palavras de ordem contra a Câmara dos Deputados, o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF), como tem ocorrido em outras manifestações governistas. Bolsonaro disse que chegou ao seu "limite": "peço a Deus que não tenhamos problemas esta semana. Porque chegamos no limite, não tem mais conversa. Daqui pra frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição".

Nos dias anteriores, o presidente vira duas determinações suas serem barradas pelo STF, a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal e a expulsão de diplomatas venezuelanos. As decisões da corte motivaram críticas de bolsonaristas, que viram nos atos um ataque à independência dos poderes.

A menção de Bolsonaro às Forças Armadas e a contestação aos outros poderes abriu caminho a críticas e especulações sobre o vínculo entre os militares e o presidente. Bolsonaro é o primeiro presidente de formação militar desde a redemocratização do país e também o primeiro a defender a ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Além disso, recheou o primeiro escalão do seu governo de fardados. Até que ponto os militares estariam dispostos a defender Bolsonaro? E mais: os militares teriam interesse em uma ruptura institucional, como defendem parte dos apoiadores do presidente, que pedem fechamento do Congresso e STF e um novo AI-5?


“Day after” foi de negativas

Às 14h36 da segunda-feira (4), o Ministério da Defesa divulgou uma nota cuja primeira linha diz: “As Forças Armadas cumprem a sua missão Constitucional”. Outros trechos do texto trazem as frases “Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do País" e “a liberdade de expressão é requisito fundamental de um País democrático". A nota ainda critica a agressão praticada por apoiadores de Bolsonaro a profissionais da imprensa que cobriam o ato do domingo.

O texto fala também sobre a Covid-19 – “enfrentamos uma Pandemia de consequências sanitárias e sociais ainda imprevisíveis” – e é encerrado com as frases “As Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade. Este é o nosso compromisso”.

O posicionamento do Ministério da Defesa, assinado pelo titular da pasta, General Fernando Azevedo e Silva, foi uma das manifestações da segunda que buscaram diminuir a temperatura do dia anterior, e tentar fazer com que o clima de racha institucional não evolua.

Outra fala neste sentido foi apresentada pelo ministro da da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos. Durante entrevista no Palácio do Planalto para falar sobre as ações do Executivo no combate ao coronavírus, Ramos negou interesse em se tornar o novo comandante do Exército, em substituição a Edson Pujol.

A possibilidade de substituição ganhou força nos últimos dias, numa alteração que seria coordenada pelo próprio Ramos. O ministro também negou, em seu perfil no Twitter, a especulação: “NÃO há possibilidade de eu assumir o comando do Exército por contrariar os Preceitos básicos da hierarquia e os valores mais caros do Exército Brasileiro como a honra e lealdade".

Já o General Paulo Chagas, que foi candidato ao governo do Distrito Federal em 2018 com o apoio de Bolsonaro, também utilizou as redes sociais para dizer que não vê possibilidade de uma ruptura chefiada pelas Forças Armadas. “Estar ao lado do povo é estar ao lado da lei e da ordem. Não sou porta-voz das FFAA, mas asseguro que elas estarão sempre ao lado da lei e da ordem e não apoiarão nenhum golpe, tenha ele a origem que tiver", publicou, na manhã da segunda-feira.


A imagem dos militares

Um dia antes do ato a favor de seu governo, Bolsonaro se reuniu com a cúpula das Forças Armadas, em Brasília. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, uma das pautas do encontro foi a série de derrotas impostas pelo STF a Bolsonaro, e discussões sobre como o presidente deveria “reagir” às medidas do Judiciário. A matéria menciona também que o encontro encorajou Bolsonaro a dizer que “as Forças Armadas estão ao lado do povo".

O discurso de Bolsonaro, porém, desagradou integrantes da cúpula das Forças Armadas. Outra reportagem do Estadão apontou que generais veem na atitude do presidente uma tentativa de puxar para seu governo o prestígio que os militares detêm. Uma matéria da Folha de S. Paulo, publicada também nesta segunda, relata que Bolsonaro espera reforçar a presença de militares em seu governo para contrabalancear o aumento de apadrinhados do Centrão, o que fará para ampliar seu apoio no Congresso.

Já um integrante das Forças Armadas que conversou de modo reservado com a Gazeta do Povo endossou a ideia de que propostas de golpe ou “intervenção militar constitucional” não têm o apoio dos membros mais graduados de Exército, Marinha e Aeronáutica. “É o tipo de coisa que só quem é de fora fala. Para quem está dentro, é algo como mula-sem-cabeça, bruxa, nada além de folclore", afirmou o militar.


Jogo de assombrações

Rosângela Bittar, 
O Estado de S.Paulo

Provocar a cizânia na tropa é o pior dos ataques a um comando militar

  Foto: Ueslei Marcelino / Reuters
O presidente da República, Jair Bolsonaro, 
em conversa com a imprensa no Palácio da Alvorada 

Sabe-se, com certeza, apenas que golpe não é. Mas não se conhece o significado real da invocação do presidente Jair Bolsonaro às Forças Armadas, cujo apoio ele alardeia para ameaçar, exatamente, com o golpe.

Os comandos militares não atendem ao convite à intervenção consentida. Este é o modelo reclamado nos domingueiros e violentos piqueniques golpistas da Praça dos Três Poderes. As manifestações, animadas pelo presidente, sua família e amigos, descomprometidos com a civilidade, alimentam falsa tensão política.

Desviam, com crueldade, o foco da dura e letal realidade da pandemia que mata brasileiros e brasileiras. Até que ponto não passa de blefe o compromisso incondicional da força militar que o presidente propaga?

Os escalões profissionais das Forças pretendem manter-se no papel constitucional que cumprem, à risca, há décadas. Para o que pretende Bolsonaro, aí está o problema.

Por enquanto, ainda não se cansaram de redigir notas reafirmando a observância rigorosa das atribuições constitucionais. É um texto esperado, que surge sempre em seguida às manifestações de que participa o presidente, à frente de um grupo de fanáticos. Assim, de ameaça em ameaça, e explicação em explicação, o suspense é mantido. Por mais que se reúnam com Bolsonaro nas vésperas dos atos extremistas, permitindo-lhe mostrar força, os militares não parecem dispostos ao papel de algozes da democracia.

Reforça o enredo do terror o fato de terem quadros e indicações para todas as funções. Hamilton Mourão, Braga Neto e Fernando Azevedo constituem praticamente uma “junta” natural. Luiz Eduardo Ramos, da ativa, é regra três para assumir o comando da tropa, em substituição a Edson Leal Pujol. Apesar do seu veemente desmentido, a notícia de que daria a rasteira já havia cumprido seu objetivo de confundir. Em evidente relevância aos temores lançados nos comícios em que paira a ameaça de intervenção militar. Tudo se encaixa, nada é por acaso. Se a interpretação é exagerada, o que significam as insinuações de Bolsonaro de que dispõe dos militares para o que der e vier?

Selecionemos duas hipóteses de explicação adequadas à conduta do presidente. Numa, é possível concluir que os militares são vítimas e estão sendo provocados para aceitarem se engajar nas esquisitices do governo. Embora não estejam dispostos a tudo, não têm meios para reagir às pressões públicas de Bolsonaro.

Como resistem, ficam na mira. De quem? Do Gabinete do Ódio, o operador oficial, de dentro do Palácio, desse tipo de enredo. Atua sempre sob o comando do filho vereador e do professor virtual que, de Richmond, tutela o governo, em Brasília.

Bem-sucedido, o grupo já conseguiu, para ficar apenas no tema em questão, demitir Santos Cruz, abalar Hamilton Mourão, denegrir Rocha Paiva (melancia), irritar Villas Boas, e iniciar, agora, uma guerra contra Pujol. Acham que ele não atua politicamente e não coloca sua tropa a serviço do interesse do governo. Confiam que, se não conseguirem arrastar o comandante para o embate político, pelo menos promovem a divisão, pois consideram os escalões intermediários já engajados na dialética presidencial. Provocar a cizânia na tropa é o pior dos ataques a um comando militar.

Uma segunda hipótese, de significado também realista, mostra o presidente atormentado por inquéritos que o colocam, bem como a sua família, no alvo da incursão em crime. Ameaçado, ele ameaça.

E o que acossa Bolsonaro são, sobretudo, as investigações em três frentes: as das fake news, cujo aprofundamento pode retroagir a sua eleição; a dos gabinetes parlamentares controlados pela família e suas conexões, no Rio; e a das denúncias do ex-ministro Sérgio Moro.

De assombrado, Bolsonaro partiu para cima e virou assombração.


A geração que enfrentou a fome, a pólio e a guerra teria vergonha de nós

Cal Thomas*
Gazeta do Povo (Paraná)


 Foto: Reprodução/ Wikipedia
Aquelas gerações anteriores balançariam negativamente a cabeça
 ao verem como estamos reagindo aos atuais desafios econômicos

Fazer com que meus pais e avós falassem sobre suas experiências durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial sempre foi difícil. Eles viveram numa época pré-Dr. Phil [psicólogo celebridade dos Estados Unidos], antes que as pessoas expusessem em público seus pensamentos mais profundos.

Imagino como eles reagiriam ao pânico atual causado pela pandemia de Covid-19. Acho que a reação deles seria bem diferente da nossa.

Entre 1931 e 1940, a taxa de desemprego durante a Grande Depressão ultrapassou os 14%. Um em cada 4 norte-americanos estavam sem trabalho. Não chegamos a esse nível hoje, mas no último mês a quantidade de norte-americanos que pediu o seguro-desemprego chegou a 22 milhões. Alguns preveem que a situação ainda vai piorar.

A Comissão Orçamentária do Congresso prevê que a taxa de desemprego chegará a 16% em setembro. Temos uma população maior hoje e potencialmente mais postos a serem perdidos do que havia nas gerações anteriores.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os homens eram recrutados em todos os lugares. Jovens, muitos dos quais sem jamais terem saído de suas cidadezinhas, foram enviados para o exterior. Mais de 418 mil militares e civis norte-americanos morreram na Segunda Guerra Mundial. A quantidade de mortes atribuídas à Covid-19 nos Estados Unidos é de aproximadamente 55 mil. Naquela época, uma única morte era relevante; toda morte hoje é mais do que estamos preparados para suportar. Temos de fazer de tudo para reverter a maré.

Alguns de nós reclamamos por termos de fazer fila para entrar no supermercado, por usarmos máscaras ou por praticarmos o distanciamento social. As gerações anteriores tinham cupons de racionamento e viviam sem boa parte dos alimentos e facilidades de que gozamos hoje em dia. E eles viveram assim por 15 anos, de 1930, quando a Grande Depressão realmente começou a afetar as pessoas, até o Dia da Vitória, em 1945. Algumas pessoas passaram por dificuldades durante vários anos depois do fim da guerra.

Acho que, em parte, reclamamos porque aqueles de nós que nos beneficiamos dos sacrifícios dos nossos pais e avós jamais tivemos de passar pelo que eles passaram. Essa era uma das motivações por trás da ideia de “segui sempre em frente”, isto é, se sacrificar para que seus filhos e netos não tivessem de passar pela mesma coisa.

Isso foi uma bênção, mas também uma maldição.

Por não precisarmos sacrificar nada e por nos dizerem que sempre devemos esperar mais e melhor de tudo, sentimos que nossos direitos nos foram roubados. Sem sabermos o que é o sacrifício, parece que somos incapazes de reagir à adversidade de uma forma positiva, uma forma que provavelmente vai nos tirar da situação atual ou ao menos vai nos manter de pé nela.

Aquelas gerações anteriores balançariam negativamente a cabeça ao verem como estamos reagindo aos atuais desafios econômicos.

Eles lidaram com a varíola e a pólio. Eles leram nos jornais ou ouviram no rádio as pessoas dizendo que os Estados Unidos jamais seriam os mesmos? Não, eles ouviram Franklin Roosevelt dizer “A única coisa a temer é o medo em si” e Winston Churchill dizendo aos britânicos: “Nunca desista. Nunca desista. Nunca, nunca, nunca, nunca – em nada, grande ou pequeno, importante ou não – nunca se renda, a não ser à sua honra e ao bom-senso”.

O presidente Donald Trump tenta ser otimista, dizendo que os Estados Unidos sairão dessa mais fortes do que antes da pandemia, mas ele está sendo silenciado pelas vozes do pessimismo e derrotismo que soariam estranhas às gerações anteriores.

Parafraseando a música, se não conseguimos vencer nos Estados Unidos, onde é que vamos conseguir? Abençoados os governadores que estão reabrindo algumas empresas em seus estados. Levará algum tempo para sabermos se as decisões deles foram boas ou ruins, mas esses líderes estão se comportando de um jeito que aqueles que já se foram admirariam.

O segredo é a atitude. Foi o que meus pais e avós me ensinaram, não tanto com palavras, mas dando o exemplo.*Cal Thomas é colunista, escritor, apresentador e palestrante.

Política brasileira é tão esculhambada que os brazilianistas desistiram de entendê-la

Carlos Newton
Tribuna da Internet



Charge do Latuff (Brasil de Fato)

A política brasileira é a maior esculhambação. Até mesmo para os brasileiros fica muito difícil acompanhar e entender a evolução da conjuntura, por isso é necessário haver tradução simultânea. Antigamente a política era menos complicada, surgiram muitos analistas internacionais que passaram a estudar e a escrever sobre o país. Eram tantos estrangeiros a se dedicar a isso que foi até criada uma denominação para identificá-los, e passamos a chamá-los de “brazilianistas”.

Nos últimos anos, porém, a política brasileira foi ficando tão bagunçada que eles simplesmente desistiram de acompanhar o que acontece aqui no Brazil, que é a maior filial da matriz USA, a ponto de já ter até adotado oficialmente o nome de Estados Unidos do Brasil, que era uma maneira  educada de denominar o Brasil dos Estados Unidos. E hoje não temos mais brazilianistas.

DIFICULDADE ENORME –

Realmente, o grau de dificuldade para entender o Brazil é gigantesco e desanimador. Nem mesmo a eleição de um presidente americanófilo como Jair Bolsonaro, a ponto de achar que Donald Trump é genial, foi capaz de incentivar a formação de novos brazilianistas.

Mas como é que um estrangeiro pode entender um pais cujo presidente foi condenado em vários processos por corrupção e lavagem de dinheiro, ficou um tempo preso numa suíte privê, onde podia receber visitas variadas e íntimas diariamente, assistir TV e dar entrevistas?

Como entender que o mau elemento foi solto, porque na filial Brazil criminoso só pode ser preso após julgado quatro vezes? E como entender que ele tem direito a dois carros de luxo blindados e oito assessores, ganha uma elevada pensão do partido, paga com recursos públicos, e pode viajar livremente ao exterior?

NINGUÉ PODE ENTENDER – 

Da mesma forma, como entender que uma ex-presidente da República tenha sido cassada e sofrido impeachment, mas continua a ter direitos políticos e dispor de dois carros blindados e oito assessores, com licença para viajar com eles pelo exterior, para falar mal do Brasil?

Aliás, como entender um presidente que era capitão paraquedista, liderou uma rebelião, queria explodir bombas em quarteis, foi  “inocentado”, elegeu-se presidente, anuncia apoio a uma golpe militar para se transformar em ditador, e não acontece nada?

E NADA ACONTECE… – 

Como entender que esse presidente incentive a população a quebrar o isolamento social determinado pelas autoridades internacional e pelo Ministério da Saúde, jamais use máscara protetora e estimule aglomerações, porém nada lhe acontece?

Também não é possível entender por que ele afirme ter apoio das Forças Armadas, ameace os outros poderes da República, dizendo que estão descumprindo as leis do país, e proclame: “Eu sou a Constituição!!!”. E ainda pior: por que até agora não foi tenha sido examinado por uma junta médica capaz de dizer se ele tem condições de governar ou não?

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P.S. – É justamente por isso que não há mais brazilianistas aqui na filial. Eles simplesmente desistiram. E tão cedo não pretendem voltar. (C.N.)

“Bolsonaro tentar submeter a PF é ilegal, mas a competência para lidar com isso é do Congresso, não do STF”

Flávia Marreiro
El Pais

Rafael Mafei, da USP, diz que Supremo usa controversa decisão de Alexandre de Moraes para tentar conter o presidente num cenário de omissão do Parlamento. Para ele, Maia erra ao descartar análise de impeachment

  UESLEI MARCELINO / REUTERS 
Os magistrados do STF Gilmar Mendes e Toffoli na posse 
de novos ministros de Bolsonaro (em primeiro plano).

O Supremo Tribunal Federal está disposto a conter Jair Bolsonaro. A sequência de decisões da Corte que contrariam os interesses do Planalto apenas na última semana não deixam dúvidas. O decano Celso de Mello autorizou, na segunda-feira, um inquérito para investigar as acusações de Sergio Moro de que o presidente agiu para interferir na Polícia Federal. De quebra, na quinta, o magistrado aumentou a voltagem do tema dando um prazo de cinco dias, e não 60 dias como havia dito a princípio, para que ex-ministro da Justiça apresente as provas que tem, o que foi feito neste sábado. Também nesta quinta, todos os ministros do Supremo votaram para referendar uma liminar de Alexandre de Moraes que impede o Governo Bolsonaro de limitar o acesso a informações públicas durante o combate ao coronavírus. E, no sábado, o ministro Luís Roberto Barroso suspendeu por dez dias a ordem do Planalto para que 34 diplomatas venezuelanos que representam o Governo de Nicolás Maduro deixem o Brasil.

A sessão sobre a liminar de Moraes, na quinta, foi uma deixa para que ministros da Corte mostrassem apoio ao magistrado, autor da decisão mais ruidosa de todas nesta semana: a de impedir a posse de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, como diretor-geral da Polícia Federal. O veto enfureceu o presidente, que fez questão dizer que ainda não “engoliu” o revés. Moraes decidiu barrar a indicação do presidente na esteira das acusações de Moro. Ainda que não se trate de uma medida inédita —afinal, uma decisão do tribunal impediu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ser ministro do Governo Dilma Rousseff em 2016—, ela foi lida como uma declaração de guerra da Corte ao Planalto, ainda mais depois de todo o endosso público dos magistrados a ele. Como no caso de Lula, no entanto, ela provocou amplo debate no mundo jurídico.

Um dos críticos da decisão de Moraes é o professor da Faculdade de Direito da USP Rafael Mafei Rabelo Queiroz. Mafei vê no veto a Ramagem uma extrapolação do papel da Corte: “É claro que a conduta de tentar submeter a Polícia Federal ao mando pessoal do presidente da República e interferir por critérios políticos no desempenho da atividade investigativa da polícia é ilegal, é proibido. Minha questão é que a natureza dessa ilegalidade é a de um crime de responsabilidade. E a competência para lidar com ela é do Congresso, em um processo de impeachment, e não do Judiciário”, argumenta.

Um dos aspectos problemáticos da decisão de Moraes, aponta Mafei, é que ela é baseada em cláusulas “abstratas e pouco concretizáveis” que citam critérios para se ocupar postos públicos, como impessoalidade, moralidade e probidade. “Se a gente der ao Judiciário o poder de barrar, por ação solitária de um magistrado, um ato que é privativamente do chefe do Executivo, ninguém nunca mais nomeia ninguém”, aponta, citando não apenas a Presidência da República como as outras chefias do Executivo na federação, como governadores e prefeitos. O mesmo risco, ele argumenta, o STF assumiu ao barrar Lula ou Cristiane Brasil, impedida de tomar posse como ministra do Trabalho do Governo Michel Temer em 2017 por já ter sido condenada pela Justiça do Trabalho. “Quem falou que uma pessoa condenada na Justiça do Trabalho não pode ser ministra do Trabalho? Por que isso é um critério? De onde se tirou isso?"

É pelo fato de o Supremo entrar numa área de exclusiva atuação da presidência da República que Mafei acredita que a decisão de Moraes elevou o conflito entre os poderes a outro patamar. “O que está acontecendo é que o STF está usando esta decisão para se colocar dentro do conflito propriamente político, que envolve as contenções dos abusos de Bolsonaro. O lugar de onde a gente poderia esperar esse freio, que é o Congresso, já declarou que não vai se preocupar com isso agora e o Judiciário resolveu ocupar esse poder”, afirma.

Para o professor, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, erra ao não manter aberta a possibilidade de discutir, no futuro próximo, quando o pior da pandemia passar, um processo de impeachment contra Bolsonaro —há ao menos 30 pedidos de destituição à espera de análise. “Bolsonaro ganha uma licença-pandemia para praticar crimes de responsabilidade”, afirma Mafei, enquanto, com a decisão de Moraes, seus apoiadores ganham munição para acusar o STF de romper os limites legais para cercear o Planalto.

“É um momento ruim. Tudo sinaliza para uma escalada do Governo. A resposta que Bolsonaro deu a Moro sobre a PF é muito chocante. Ele praticamente confessa que não consegue distinguir entre instituições de Estado e as suas conveniências de Governo e insiste em enxergar a parcela do eleitorado que o apoia como o genuíno povo. Esse é o coração jurídico de todo governo ditatorial”, lamenta o professor da USP. Quem pode pará-lo? “Só vai escalar enquanto o Congresso seguir dizendo que, não importa o que Bolsonaro faça, impeachment é uma carta fora do baralho.”

Por que um abraço faz tanta falta durante a quarentena?

Giovana Girardi, 
O Estado de S. Paulo

O que diz a ciência sobre o abraço, esse gesto tão escasso hoje, e sua importância

Foto: Marcos Muller/Estadão
 Por que um abraço faz falta?

Desde que iniciamos o isolamento – meus pais e minha irmã no interior de São Paulo, eu na capital –, temos conversado com uma frequência muito maior do que na época em que a vida era normal, quase sempre por vídeo. Almoçamos juntos, minha mãe me mostra suas orquídeas, eu mostro meus gatos, compartilhamos imagens do que estamos comendo. Estamos próximos, estamos bem, mas minha mãe outro dia me confidenciou: “O que eu sinto falta mesmo é de te dar um abraço, filha”.

Uma amiga do jornal tem um plano bem claro para quando sairmos desta crise sanitária imposta pelo coronavírus: “Vou abraçar todo mundo em um daqueles abraços de sair rolando pelo chão”.

Trago relatos pessoais aqui, mas todo mundo tem os seus. A saudade daquele abraço forte talvez seja a que mais dói nesses tempos tão incertos. Somos um povo acostumado ao toque, aos beijos, ao carinho fácil, é verdade, mas a falta que isso faz em meio à pandemia é tão universal quanto ela. 

É do ser humano. É evolutivo. Nós aprendemos de bebê, com nossas mães, na amamentação, a importância do carinho. Mas até nossos parentes primatas sabem disso muito bem, tanto que criam laços no grupo ao catarem piolhos uns nos outros. A ciência – novamente ela – explica por que isso é tão importante. 

A primeira evidência veio de série de experimentos, alguns deles cruéis, conduzida por um controverso, mas brilhante, psicólogo americano entre os anos 1950 e 60. Harry Harlow provou para um sociedade pós-guerra que não valorizava demonstrações de afeto – nem mesmo com crianças – que o amor não só é desejado como vital para o desenvolvimento da espécie.

O pesquisador usou macacos rhesus bebês para mostrar que o acolhimento, o aconchego físico, o amor transmitido via toque, são tão importantes quanto a própria alimentação. 

Em seu laboratório na Universidade de Wisconsin, ele separou os filhotes de suas mães e os colocou na presença de duas estruturas bizarras de arame. Uma delas era apenas a armação. A outra foi coberta com um pano felpudo e ganhou uma carinha de macaco. 

Harlow observou que os macaquinhos claramente preferiam ficar junto com a estrutura macia, mesmo quando a outra era equipada com uma espécie de mamadeira que lhes oferecia leite. Uma foto deste experimento mostra um macaquinho “no colo” da estrutura peludinha, se esticando para pegar o leite na “mãe” só de arame. 

Os bebês também se esforçavam para abrir uma janela em que pudessem olhar a “mãe” coberta com pano e corriam em direção a ela quando se sentiam assustados com alguma coisa e precisavam de conforto. Por outro lado, quando só a estrutura de arame estava por perto, eles se sentiam inseguros, paralisados e não conseguiam explorar o ambiente.

O trabalho, apesar de controverso, acabou reafirmando a importância do amor e do carinho – em uma época em que se considerava que abraçar ou beijar crianças poderia deixá-las carentes e exigentes.

Outros estudos que se seguiram a esse revelaram que o contato físico é importante para desenvolver confiança e empatia e que isso teve implicações na evolução da espécie humana. Descobriu-se que beijos e abraços na infância podem até mesmo alterar o DNA.

“Um carinho modifica a expressão de nossos genes, a produção de oxitocina, o julgamento, o impacto sobre o desenvolvimento humano e sua falta pode ter consequências duradouras”, explica o neurocientista Stevens Rehen, professor da UFRJ e pesquisador do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).

A oxitocina é um hormônio liberado num abraço afetuoso, no momento da amamentação, no sexo. Diversas pesquisas apontam que ela age como um neurotransmissor no cérebro, influenciando as interações sociais e até a reprodução. Tem um papel importante para formar laços entre as pessoas, propiciando comportamentos de empatia, generosidade, confiança. No nível individual, é importante inclusive como antídoto para sentimentos mais depressivos e ansiosos.

É algo que começa com a amamentação, como explica a psiquiatra Helena Brentani, cientista responsável pelo programa do espectro autista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

“Em um primeiro momento, a comunicação do bebê com a mãe é muito dependente do contato físico. Assim, no começo da vida o contato físico é a base para o aprendizado do cérebro sobre a definição do eu, do outro, reforçar e sinalizar laços e hierarquias sociais assim como programar sistemas relacionados ao estresse”, explica a pesquisadora. 

Ela lembra um estudo de 2007 feito pelos pesquisadores americanos Arie Kaffman e Michael Meaney que mostrou que o comportamento de lamber filhotes ao nascer em ratos é fundamental para programar a reatividade a situações de estresse ao longo da vida, mediado por alterações epigenéticas (no funcionamento dos genes) no cérebro.


Contato muda o cérebro

Também para os humanos, a oxitocina impacta mecanismos interativos, relacionados a contato físico para o resto da vida. Helena cita outra pesquisa, de 2016, do alemão Jens Brauer, que mostrou que o contato físico muda o cérebro. “Os pesquisadores mostraram que a frequência do toque materno durante uma sessão de brincadeira entre mães e seus filhos de cinco anos estava associada à conectividade do cérebro”, afirma.

“Podemos dizer que precisamos de contato físico sempre. Isso propicia sensações e experiências que vão aumentando o repertório de conhecimentos do cérebro sobre o eu e o mundo. Isso ajuda a construção do nosso modelo mental do mundo, fundamental para que o cérebro possa fazer boas previsões, explicando sinais de entradas sensoriais. Isso nos garante reforço afetivo, social e motivação”, diz Helena.

E o que isso pode significar em tempos de pandemia? “Teoricamente a falta desse contato pode trazer alterações das respostas emotivas e da regulação do eixo hipotálamo-hipófise e portanto da percepção do estresse. Estudos mostram que animais e crianças com falta de contato podem ter mais ansiedade e depressão ao longo da vida”, opina a pesquisadora.

“Somos seres sociais e o isolamento necessário diante da pandemia nos faz perceber mais fortemente a falta que faz o carinho em nossas vidas. Um abraço apertado é capaz de alterar o padrão de metilação (expressão) de nossos genes. A epigenética das relações sociais não acontece via zoom. Vai ter implicações para a nossa sociedade”, complementa Rehen.



O Brasil está matando o Brasil

Eliane Brum
El Pais

Governado por um maníaco e com as mortes se multiplicando, o país se torna uma ameaça para os vizinhos

  AMANDA PEROBELLI / REUTERS
Protesto em São Paulo contra as medidas de quarentena.

O Brasil abriu a semana com a morte de Aldir Blanc, o poeta que, em uma das canções mais pungentes contra a ditadura militar, escreveu: “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Morto aos 73 anos por covid-19, o show de Aldir Blanc não pôde continuar. A esperança já não consegue se equilibrar no Brasil e deslizou para o abismo. O país de Aldir Blanc e todo o seu imaginário foram mortos pelo perverso que se embriaga com a própria boçalidade, espirra e aperta com dedos lambuzados as mãos de seus seguidores. E então diz, diante das milhares de vítimas da pandemia e de sua irresponsabilidade: “E daí?”. A morte do poeta oficializa que o Brasil continental perdeu seu continente ―sua carne, sua alma e seus contornos― e a poesia já não nasce.

Desgovernado por Jair Bolsonaro, o Brasil vai se tornando uma ameaça na América Latina. Já é o terceiro no mundo em número de mortes em 24 horas, mesmo com evidências de enorme subnotificação, e tem apavorados os vizinhos. “Se o Brasil espirra, o Paraguai tem uma pneumonia”, escreveu no Twitter Guillermo Sequera, diretor de vigilância de saúde do Paraguai em 1 de Maio. Naquele dia, 63 dos 67 casos confirmados no país eram de pessoas que tinham vindo do Brasil. Outros países que fazem fronteira com o país já expressaram sua preocupação com a expansão da covid-19 em meio ao aumento exponencial da turbulência política.

O Brasil não só é um gigante com 210 milhões de habitantes, tanto vítimas quanto transmissores potenciais do novo coronavírus, como um gigante liderado pelo vilão número um do mundo em pandemia. No domingo, mais uma vez, Jair Bolsonaro estimulou e compareceu a uma manifestação que clamava pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Os golpistas são minoria no país, mas estimulados pela família presidencial que tenta impedir o avanço das investigações sobre seu envolvimento com as milícias.

Enquanto as imagens de corpos empilhados e covas abertas se sucedem, Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro ensaiam um duelo sem honra: Moro, o herói decaído, tentando desinfetar sua biografia carregada de possíveis ilegalidades; Bolsonaro tentando sobreviver às revelações de seu ex-superministro, subitamente acometido por um surto de moralidade. Conta com o apoio dos generais encantados em voltar ao poder, algo até há pouco impensável num país em que milhares ainda não encontraram os corpos de seus familiares executados pela ditadura militar de 21 anos.

Ao mesmo tempo, a covid-19 vai devastando a Amazônia e converte cidades como Manaus em necrotério. Enquanto o vírus atinge o corpo dos indígenas, o corpo da floresta é destruído pelas motosserras. Os alertas mostram que o desmatamento da Amazônia explode, os caminhões enfileiram-se nas estradas carregados de cadáveres de gigantes.

Só algumas horas depois de Aldir Blanc, o Brasil perdia também Flávio Migliaccio, um dos atores mais queridos de gerações de brasileiros. Associado à alegria por milhões de fãs, ele se suicidou. Como Aldir Blanc escreveu: “O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil”.