sexta-feira, janeiro 06, 2012

Dilma e o confisco do salário mínimo patrocinado pelo governo dos “trabalhadores”.

Adelson Elias Vasconcellos

Há um ano, quando a presidente Dilma fixou o salário mínimo em R$ 545,00, e nada além disto, se disse que o valor era fruto de uma fórmula ajustada por Lula com os sindicatos e centrais.  Comentei e provei que o acordo era uma falácia e o embuste escondia um confisco cada vez mais agressivo de parte do governo federal sobre as rendas menores dos trabalhadores.

No artigo publicado (link abaixo), apresentei um quadro histórico da evolução do salário mínimo comparado ao do imposto de renda na fonte  para desqualificar com fatos, e não conversa fiada,  que  a propaganda dos “aumentos reais” de que o governo petista se ufana tanto, na verdade, era pura lorota.
Se de um lado, Lula deu continuidade à política de recuperação do poder de compra do salário mínimo iniciada por Fernando Henrique, de outro, aplicou um garrote duro e contínuo de verdadeiro confisco, via Imposto de renda na fonte. Ao assumir em 2003, a isenção de imposto ia até 5,29 salários mínimos. Ao transferir o bastão para Dilma, o garrote iniciava já em menos de 3 salários, mais precisamente, em 2,96 salários mínimos. E para não contrariar a política de confisco inaugurada por Lula, a atual presidente prosseguiu no assalto, tanto em 2011 quanto agora.

Em resumo, o que temos é o seguinte:

Em 2002 (último ano de FHC)
Salário mínimo -    R$ 200,00    
Faixa de isenção de IRF : até R$ 1.058,00 ou até 5,29 salários mínimo

Em 2010 (último ano de Lula):
Salário mínimo: R$ 510,00
Faixa de isenção do IRF:  até R$ 1.499,15 ou 2,94 salários mínimos

Em 2011 (primeiro ano de Dilma):
 Salário mínimo: R$ 545,00
Isentos de IRF: até R$ 1.566,61 ou  2,87 salários mínimos

Em 2012 (segundo ano de Dilma ou o décimo do governo petista)
Salário Mínimo: R$ 622,00
Isentos de IRF: até R$ 1.637,11 ou 2,63 salários mínimos

Ou seja, em dez anos de governo petista, a massa de trabalhadores que passaram a ter seu salário tributado na fonte, praticamente dobrou. E eles  ainda fazem propaganda sobre o aumento real do salário, mas ignoram e mentem quanto ao confisco. E a imprensa o que diz? E as centrais sindicais, o que falam? E os sindicatos, como se declaram? Como diria Nelson Rodrigues, dinheiro no  Brasil compra até amor verdadeiro...

Já nem vou me referir as não opiniões da turma da oposição que, ao que parece,  mudaram de país. Por aqui, não apenas ela deixou de existir, mas tornou-se desprezível! Quanto aos esquerdistas empedernidos, nem percam tempo em tentar contra argumentar:  basta que demonstrem, se puderem, que os números acima são mentirosos...

Ou seja, no governo do Partido dos Trabalhadores é cada vez maior o número de assalariados que passaram a pagar imposto de renda na fonte, já que a correção do salário foi maior do que a da tabela do imposto de renda na fonte.

Mas o confisco fica ainda mais evidente se os leitores analisarem a série histórica que publicamos no artigo de 2011 (ver link abaixo) acompanhando, ano após ano, o nº de salários isentos do imposto.

Ou seja, enquanto o salário mínimo cresceu no período de R$ 100,00, em 1995, para R$ 622,00, em 2012, representando um acréscimo de 522%, a faixa de isenção foi ampliada de R$ 676,70, em 1995, para R$ 1.637,11, em 2012,  representando uma correção de apenas 141,93%.

Conforme aquele texto de 2011 lembrava, (...) “...Se a gente observar apenas o período do governo Lula, a partir de 2003, veremos que o confisco foi brutal. O “pai dos pobres”, ao assumir, encontrou uma faixa de isenção de imposto de renda na fonte de até 5,29 salários mínimos. Ao entregar o mandato, a faixa de isenção caíra para ridículos 2,94 salários mínimos. Ou seja, enquanto Lula concedia aumentos reais de salário mínimo e disto fazia enorme propaganda e barulho, de outro, e sem propaganda, se apropriava de parcela cada vez mais significativas dos salários na forma de imposto na fonte”.(...)

Os números estão aí e demonstram, claramente, que Lula foi implacável contra os pobres. Seu governo confiscou os salários de tal forma que, todo o aumento real acabou corroído pela inflação de um lado, e pela tributação infame e impiedosa, de outro. E mais: a continuar a festa do confisco patrocinada pelos governos petistas, logo logo estarão isentos de imposto apenas os rendimentos provenientes do Bolsa Família. É o que se pode chamar de redistribuição de renda às avessas, bastando comparar o confisco sobre os rendimentos dos assalariados com os ganhos do sistema bancário, estes cada vez maiores (e mais isentos).

E, claro, fica a pergunta de sempre: por que o país todo se cala diante deste verdadeiro crime contra os mais pobres, aqueles que realmente trabalham e constroem e carregam o país todo nas costas? O que esperam ganhar com a omissão? De certo, alguma comissão deve servir-lhes de cala-a-boca!!! Porque, senhores,  fazer festa com o tamanho do PIB até é fácil, mas mostrar que toda esta riqueza permanece concentrada nas mãos dos mesmos gigolôs, aí é preciso ter caráter, não só coragem...

(*) Clique aqui e reveja a evolução histórica do salário mínimo e da tabela do imposto de renda na fonte, a partir de 1995.

A Boca Família

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Camilo de Holanda, presidente da Paraíba (antes de 30 os governadores eram chamados de presidentes), tinha uma namorada. A namorada era mulher de um sargento do Polícia Militar. Uma vez por semana, já de propósito, o tenente-comandante dava prontidão noturna no quartel. E o velho Camilo, sem sustos, saía do palácio e ia ver seu amor.

Uma noite, Camilo ia chegando à casa dela e viu, pendurado numa cadeira da sala, o dólmã do sargento. Voltou furioso ao quartel:

- Tenente, e minhas ordens?
- Que ordens, presidente?
- Prontidão rigorosa, que a segurança pública está ameaçada.

O tenente mandou tocar a corneta. Dentro de pouco tempo, o batalhão estava todo lá, de prontidão absoluta. Não faltava ninguém. Meia-noite, Camilo voltou lépido:

- Tenente, relaxa a prontidão que a ameaça à segurança já passou.
A ameaça era ele.

***
CALCINHAS
O general Jorge Felix, chefe do gabinete de Segurança Institucional do presidente Lula, humorista primoroso, disse que “quanto menor a transparência, maior a segurança” (“Veja”). Camilo de Holanda também achava a mesma coisa. E as calcinhas do carnaval na Sapucaí, nem se fala.

Desde 2003, no começo do governo Lula, o Tribunal de Contas da União vem advertindo que era preciso abrir a caixa-preta dos “cartões corporativos” da presidência da República. O general Jorge Felix, do gabinete de Segurança Institucional, o tenente-comandante da Presidência, dizia que era impossível porque “é uma questão de segurança nacional”.

Quando a oposição disse que ia fazer uma CPI, o general filosofou:

“Quanto menor a transparência, maior a segurança”.

Como as calcinhas da Sapucaí.

***
CARTÕES
Em 2008, a corneta tocou. Até então, a imprensa poderosa não queria tratar dos “cartões corporativos” porque significava tratar sobretudo das despesas secretas do presidente e da família presidencial.

O nome “cartão corporativo” já é uma trampa. Por que “corporativo”? O governo não é uma “corporação”, é uma “instituição”. Inventaram um nome que é um subterfúgio para enganar a população. O cartão tinha que ser chamado pelo nome verdadeiro: cartão oficial.

Depois do que a “Veja”, “IstoÉ”, “O Globo”, “Folha” enfim publicaram, acabou a desculpa de Camilo Holanda no governo Lula. Caíram as calcinhas.

***
MILHÕES
1 – “IstoÉ”: - “Escândalo dos cartões – R$ 5,8 milhões em dinheiro vivo para Lula, Marisa e suas equipes – As contas do Siafi sobre os gastos mais secretos dos cartões corporativos da presidência“.

Sergio Pardellas dá detalhes: “Apenas 10 foram destacados para atender especificamente às necessidades do presidente, da primeira-dama e de um círculo restrito de auxiliares mais próximos dos dois”.

2 – “Dona Marisa tem sua ecônoma preferida: Maria Emilia Matheus Évora. Até o início de 2005, ela resgatava sozinha os valores em dinheiro destinados a cobrir as despesas da primeira-dama. Mas a servidora deixou de ser exclusiva de Marisa depois que seu nome veio a público”.

3 – A “Veja” informava : “Os dez maiores gastadores do Palácio do Planalto gastaram no governo Lula, desde 2003, R$ 11,6 milhões de reais”.

4 – “O Globo” confirmava: “Em 2007, a Presidência da República gastou R$ 5,2 milhões com cartões, sendo R$ 551,8 mil em saques. A funcionária Maria Emilia Mateus, que trabalha para a primeira-dama, sacou, entre 2003 e 2005, R$ 614,7 mil em dinheiro vivo. E gastou, no total, R$ 870 mil“.

***
SALÁRIO INDIRETO
O então líder do PSDB no Senado, Artur Virgilio, reagiu:

1 – “Chegaram ao ridículo de dizer que é questão de segurança nacional, como se o presidente e a primeira-dama estivessem enriquecendo urânio. Na verdade, não querem que o povo descubra que o cartão virou uma fonte de salário indireto para quem já tem tudo regularmente pago pelos cofres públicos”.

2 – E o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia: “Como eles vão explicar esses gastos milionários, descabidos, tanto dinheiro para o presidente e a primeira-dama, que já têm toda uma estrutura de palácios e viagens resolvidas por licitações?

O cartão corporativo virou “Boca Família’”.

***
SUPREMO
Não apenas políticos e imprensa se escandalizaram. A Justiça também. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal, denunciou:

1 – “Se a Presidência da República tem gastos, estes gastos devem ser revelados. Não há preceito na Constituição Federal que, interpretado e aplicado, direcione esse sigilo quanto aos gastos do poder píblico”.

2 – Mozart Valadares, presidente da AMB (Associação dos Magistrados do Brasil), insistiu na denúncia:

“Toda autoridade tem o dever de prestar os esclarecimentos, já que se trata de dinheiro público. A tentativa de sigilo não tem amparo legal. O administrador público tem a obrigação de prestar contas à sociedade”.

Só uma poderosa corneta nacional acabará com “Boca família”. Mas de lá para cá, nada mudou. A festa continua.

Loteamento irregular

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

A ordem da presidente Dilma Rousseff para que sejam adotados critérios técnicos na distribuição de recursos para prevenção e combate a enchentes nos Estados é um gesto alentador.

Traduz atenção e conexão com o que se passa no País, ainda que a chefe de Estado esteja em férias, além de marcar positivamente mais uma distinção comparativa com o governo antecessor, que preferia ignorar ou brigar com as más notícias.

Dilma reagiu à revelação, feita pelo Estado, de que 90% das verbas de prevenção e combate a enchentes do Ministério da Integração Nacional foram destinadas para Pernambuco - onde o ministro Fernando Bezerra será candidato a governador.

Desalentador, porém, é o fato de que a ação da presidente tenha caráter meramente simbólico, uma vez que a determinação para que as liberações passem a ser feitas sob o crivo da Casa Civil não anula a prática da influência política.

A força do governador Eduardo Campos, como aliado de primeira linha, junto ao Palácio do Planalto, não será por isso minimamente abalada e, portanto, o potencial de desequilíbrio no tratamento dado a este ou àquele Estado permanece inalterado na prática. Tanto que, segundo o ministro, a liberação foi devidamente discutida da Casa Civil e no Planejamento, com o conhecimento da presidente.

Além disso, só a necessidade de existir uma ordem expressa da presidente para que sejam observados critérios técnicos na distribuição de recursos já diz quase tudo sobre a distorção do modelo de coalizão governamental em vigor.

A rigor, os protocolos administrativos servem para serem seguidos como regra geral e não para que o administrador seja lembrado de que não podem ser exceção e chamado às pressas das férias para dar explicações a respeito.

Nada contra o socorro a Pernambuco ou a qualquer outro Estado necessitado, mas a concentração de verbas configura um evidente privilégio e é a expressão material do sistema de loteamento que transforma o ministério em extensão dos partidos.

Vida que segue. 
Eles perdem os anéis, mas conservam os dedos em perfeito estado. Dos seis ministros obrigados a deixar os cargos por ação ou omissão em algum tipo de atividade suspeita, cinco tocam a vida sem enfrentar qualquer consequência.

Antônio Palocci (Casa Civil) voltou às consultorias e à atividade de bastidor no PT. Pedro Novais (Turismo) é deputado federal, Alfredo Nascimento (Transportes) é senador, Orlando Silva (Esportes) é candidato a vereador e Carlos Lupi comanda a máquina do PDT.

O único com contas a prestar é Wagner Rossi (Agricultura), indiciado pela Polícia Federal em inquérito sobre fraude em convênio com a PUC.

Não sobra um. 
Dos partidos governistas com assento no Ministério, só o PSB até agora não tinha sido pego na curva dos desvios.

Com o gentil patrocínio do pernambucano Fernando Bezerra, titular do Ministério da Integração Nacional, na concessão de 90% das verbas contra enchentes para o Estado no qual se candidatará a governador, o partido de Eduardo Campos entra na roda e fecha o círculo.

Nenhuma legenda da coalizão saiu ilesa no primeiro ano de governo, mas nem por isso deixarão de compartilhar o poder nos próximos três anos.

Mão de obra. 
Uma grande e urgente contribuição do setor privado de serviços ao pacote de medidas para estimular a vinda, e facilitar a vida, dos turistas estrangeiros que o governo vai lançar em breve seria o investimento pesado no treinamento de mão de obra.

Aí incluídos atendentes de lojas, restaurantes, aeroportos, taxistas etc. E não é só o idioma. É, sobretudo, o padrão de comportamento, a maneira leniente e pouco profissional no trato com a clientela.

Com gente displicente e desqualificada não se pode nem pensar em receber bem a quantidade de visitantes esperados para a Copa e a Olimpíada.

Isso sem falar nos preços escorchantes cobrados no Brasil.

URSS, Coréia do Norte, Cuba e o que alguns chamam de “sonho socialista”

Bolívar Lamounier, Portal Exame

De alguns anos para cá, graças a umas poucas fotos e seqüencias de televisão,  pudemos ter pelo menos uma vaga  noção a respeito da Coréia do Norte.  Com a morte de  Kim Jong-il e a confirmação de seu  filho para o comando do país,  mais algumas imagens  e informações fragmentárias chegaram ao Ocidente.

Pelas  informações eu passo batido, pois não sei que valor têm.  Pelas imagens, devo confessar que  tenho um enorme interesse.

Se  a frase acima levou o leitor  a me imaginar decifrando a alma de um país distante  através de  fotografias, apresso-me  a esclarecer que não se trata disso. Não sou  possuidor desse  ou de qualquer outro dom misterioso. A  alma que eu tento decifrar não é a dos norte-coreanos, é a nossa mesmo: a dos brasileiros, ou dos latino-americanos, como queiram. A alma de uma parte ponderável da nossa juventude, especialmente.

Junto com Cuba, a Coréia do Norte é o que sobrou do antigo sonho socialista (leia-se: marxista-leninista).

Do ponto de vista econômico, a situação da Coréia do Norte deve ser parecida com a de Cuba. O que a torna diferente é o seu poder de chantagem. Rigorosamente militarizado, o país tem um programa nuclear (sabe Deus em que estágio) e uma razoável capacidade para disparar mísseis de médio alcance. Disto sabem muito bem os coreanos do Sul e os japoneses.

Sim, a Coréia do Norte é um país paupérrimo, e a pobreza obviamente reforça o seu jeitão macabro. E a Alemanha Oriental, na antiga e orgulhosa Prússia, tinha um jeito alegre e jovial? Outro dia eu falei sobre o filme “A vida dos outros” e me perguntei por que  os jovens que ainda cultivam o mito da revolução não se munem de coragem para assisti-lo.  De coragem e de honestidade intelectual para refletir sobre ele.

Volto, porém, às fotos e imagens de TV. E ao que chamei de velho sonho socialista. Olho de novo a foto do jovem Kim Jong-un em uniforme militar, tento imaginar o cotidiano da sociedade que ele de um jeito ou de outro encarna, e  me pergunto: ainda há no mundo alguém capaz de se inspirar nisso?

Estarei por acaso forçando a barra? Minha indagação é capciosa? Duas interpelações eu antecipo sem nenhuma dificuldade.  A  primeira: “a Coréia do Norte pode não inspirar, mas por que você não fala de Cuba?”

De Cuba eu não  tenho falado porque não vejo necessidade.   Temos tido muitas notícias de lá, e aqueles a quem Deus aquinhoou com a virtude da paciência podem até entrar no site do Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista cubano. Os textos que ele imprime não estão em coreano, estão em espanhol, e o próprio governo já desistiu de fazer segredo. Diz para quem quiser ouvir que a situação da ilha é catastrófica.

Segunda interpelação: “nenhum ‘caso concreto’ invalida o sonho socialista. Você está falando do ‘socialismo realmente existente’, não do socialismo como sonho, teoria e projeto histórico”.

Isso é verdade: falei de dois “casos concretos”. O sonho, a teoria e o projeto  surgiram em meados do século 19: cerca de 160 anos atrás. Levado à prática , a ferro e fogo, o projeto transformou a URSS numa grande potência militar. Finda a guerra de 1939-45, a URSS logo atingiu a paridade com os Estados Unidos em capacidade destrutiva e dominou direta ou indiretamente quase metade do planeta.

Chegou até à insensatez  – vejam só – de atender  a um desatinado pedido do companheiro Fidel Castro: instalou mísseis com ogivas nucleares em Cuba. Mas, como diz o conhecido refrão, o mundo roda e a Lusitana voa. Ao completar  75 anos, a grande potência não se agüentava mais. Desmoronou como um castelo de cartas.

E sobre a teoria e o sonho, que posso dizer neste exíguo espaço? Não muito, evidentemente, mas o meu desejo, de qualquer forma, é tocar só em dois pontos.

Vladmir I. Lênin podia ter mil defeitos, mas tinha duas grandes qualidades: dizia o que pensava e escrevia com uma clareza de dar inveja.  Após a Revolução de 1917, com a experiência  que havia adquirido em debates com os socialistas na Rússia e fora dela, ele logo avisou, curto e grosso: a teoria é uma só e a interpretação correta é a do Partido.  Doa em quem doer.

E, de fato, doeu em muita gente. Morto em janeiro de 1924, Lênin não chegou a ver  em quanta gente, mas realmente não foi em pouca. Em todos os “casos concretos” do “socialismo realmente existente”, sem exceção, o partido e a polícia política desenvolveram técnicas assaz eficientes para impedir discordâncias teóricas ou oníricas.

Meu segundo e último ponto é sobre o lugar da psicologia na teoria marxista. Há nela um axioma  não-escrito que ao fim e ao cabo se revelou mais importante que a maioria dos axiomas escritos que a compõem. Ele diz que, do ponto de vista psicológico, os líderes marxistas são inteiramente homogêneos. São todos iguais, rigorosamente equivalentes – e admiráveis. Nenhum é maluco, mau caráter ou paranóico.  Todos altruístas, fortes, destemidos, equilibrados etc.

Este pilar não-escrito da teoria  nenhum marxista de destaque jamais conseguiu questionar…e permanecer no partido. Lênin, se não tivesse falecido, talvez o fizesse. No leito de morte, ele redigiu e deixou com sua mulher o que veio a ser conhecido como seu “testamento”. Era para ser lido no próximo congresso do PC.

Nesse documento, Lenin fazia uma recomendação ao mesmo tempo grave e enfática: o partido precisava tirar Stálin da Secretaria Geral – a posição de poder em que ele se abotoara. No lugar dele, era imprescindível – vou citar literalmente – colocar alguém “mais tolerante, mais leal,mais cortês, que tenha mais consideração pelos camaradas, que seja menos caprichoso etc”.

Para bom entendedor, pingo é letra.

Tragédias com aviso-prévio

 Gil Castello Branco, O Globo

O verão e as calamidades estão apenas começando, tal como acontece no Brasil há anos. No início do século XIX, as cartas de um funcionário da Secretaria de Estado do Rio de Janeiro a seu pai, o bibliotecário da Livraria da Ajuda, Francisco José dos Santos Marrocos, já registravam fatos relacionados às enchentes na Bahia. Em um dos trechos o autor comenta: “S. A. R. (Sua Alteza Real) mandou daqui a toda a pressa o Architecto José da Costa com hum grande numero de outros Architectos e Engenheiros, para alinharem huma Cidade nova fóra da eminencia dos morros e montanhas, de que ainda agora continuão a despegar-se pedaços, que arrazão tudo que encontrão.”

Desde o Império, portanto, a natureza anda de braços dados com a falta de planejamento e o improviso, em níveis municipal, estadual e federal. Os desastres são considerados fatalidades pelos governantes, como se nenhuma culpa lhes coubesse.

Em 2011, levantamento do Serviço Geológico do Brasil constatou que em 251 municípios brasileiros existem possibilidades de acidentes. Em 28 dessas cidades residem 178,5 mil pessoas, com risco alto ou muito alto de serem afetadas por enchentes ou desabamentos. Na raiz do problema está o fracasso da política habitacional, o que propiciou ocupações precárias e invasões, sob a vista grossa das autoridades públicas. Apesar da crescente preocupação com as questões sociais, na última década a quantidade de pessoas que vivem em favelas quase dobrou, passando de 6,5 milhões em 2000 para 11,4 milhões em 2010. Nesse cenário, as catástrofes naturais são previsíveis.

Curiosamente, dos R$ 155,6 milhões pagos, a maior parte (R$ 34,2 milhões) foi destinada a Pernambuco, estado do atual ministro, Fernando Bezerra.

O governo federal, por exemplo, possui programa com o sugestivo título de “Prevenção e Preparação para Desastres”. Nos últimos 8 anos, as dotações autorizadas pelo Congresso Nacional para esta rubrica somaram R$ 2,8 bilhões, mas apenas R$ 695,4 milhões foram aplicados. Em outras palavras, de cada R$ 4 previstos em orçamento, apenas R$ 1 foi gasto. Além disso, o ditado “é melhor prevenir do que remediar” é praticado às avessas. No mesmo período, o programa “Resposta aos Desastres e Reconstrução” consumiu R$ 5,9 bilhões, 7 vezes mais do que o aplicado na prevenção.

No ano passado, não foi diferente. Foram autorizados R$ 508,5 milhões para o programa de prevenção, porém somente R$ 155,6 milhões (30,6%) foram pagos. Em contrapartida, R$ 1 bilhão foi desembolsado com o programa de reconstrução. A explicação do Ministério da Integração Nacional é que os estados e os municípios não apresentaram propostas de obras preventivas, o que levou a Pasta a editar “cartilha” sobre intervenções em áreas de risco. Curiosamente, dos R$ 155,6 milhões pagos, a maior parte (R$ 34,2 milhões) foi destinada a Pernambuco, estado do atual ministro, Fernando Bezerra. O fato pode levar à conclusão irônica que os projetos que podem evitar tragédias, assim como o frevo, são tipicamente pernambucanos.

É certo que obras de macrodrenagem, de urbanização de assentamentos precários e, ainda, o Minha Casa, Minha Vida, também contribuem para minimizar as tragédias. De qualquer forma, a incompetência no uso dos recursos do programa de “Prevenção e Preparação para Desastres” é impressionante.

Alguns avanços, porém, devem ser reconhecidos. Entre eles, o uso do Cartão de Pagamento de Defesa Civil, que dará transparência e celeridade aos gastos. Ademais, a implantação do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad) — cogitada desde 2004 — sairá do papel. Até novembro passado, o que existia eram alguns servidores, sem um meteorologista sequer, atuando precariamente em três salas do Ministério da Integração Nacional.

Agora, o grupo irá trabalhar em local adequado tecnicamente, inclusive em plantão de 24 horas, até porque os fenômenos climáticos não respeitam o horário comercial. Entretanto, o concurso destinado à contratação de 52 profissionais para o Cenad só acontecerá em março. Até lá, estão sendo recrutados servidores de outros órgãos, verdadeiro “exército de Brancaleone”, que irá monitorar as chuvas deste início de ano.

Diante dos fatos, o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, admitiu o óbvio, ou seja, que o governo não será capaz de impedir as mortes decorrentes das chuvas, neste e nos próximos verões. Assim, é provável que os morros e as montanhas continuem a desabar aos pedaços, arrasando tudo o que encontram pelo caminho, tal como há 200 anos.

Dilma e as ‘heranças malditas’

O Globo - Editorial

As causas de muitos desastres ditos naturais, em que inundações e desmoronamentos deixam um rastro de destruição e mortes a cada temporada de chuvas, estão numa longa história de imprevidências.

Entre as principais, incúria administrativa e populismo de políticos despreocupados com a favelização e ocupação desordenada de áreas de risco.

A descoberta do mau uso de verbas do Ministério de Integração Nacional, de Fernando Bezerra, do PSB de Pernambuco, acrescenta mais um elo nessa cadeia de explicações: o clientelismo na devolução à sociedade de parte do enorme volume de recursos extraídos do contribuinte por meio de escorchante carga tributária.

Pois, embora o ano passado, o primeiro de Dilma Rousseff no Planalto, tenha começado com a catástrofe ocorrida na Serra Fluminense, onde, entre Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, mais de 900 pessoas morreram, o estado que mais recebeu recursos do Programa de Prevenção e Preparação para Desastres do ministério foi o da base eleitoral do ministro — Pernambuco, com R$ 34,2 milhões, 22% do total dos recursos liberados (R$ 155,6 milhões).

O Rio de Janeiro liderou a lista dos gastos em reconstrução (R$297,9 milhões, ou 29,5% do total de R$ 1,06 bilhão), mas não faz sentido que uma região atingida por uma catástrofe como aquela não precise de obras de prevenção. Aliás, como tem sido mostrado com a devida insistência pela imprensa, faltam também obras de reconstrução.

No terceiro dia do ano já eclode a primeira crise de 2012 no ministério de Dilma. Terça, a presidente resgatou a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, da folga de fim de ano e a despachou para o Planalto, enquanto a chuva já castigava, com os dramáticos resultados de sempre, Minas e Rio de Janeiro.

Teria sido decretada intervenção da Casa Civil no ministério de Fernando Bezerra, negada ontem por Gleisi.
Dilma exige o mínimo: parâmetros técnicos na liberação dos recursos. Em defesa do correligionário, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, afirmou que Bezerra concentrou o dinheiro no estado por sugestão da presidente, diante das chuvas ocorridas em 2010 na Zona da Mata.

Algo a esclarecer. Em entrevista coletiva, Bezerra lembrou o fato e ainda argumentou que Pernambuco não pode ser discriminado por ser o estado do ministro. Por suposto. Mas tem sido costume subordinar o orçamento do ministério à bússola político-eleitoral do ministro do momento.

Bezerra seguiu o modelo de Geddel Vieira (PMDB), dono do ministério no final do governo Lula. Geddel despejou o grosso do dinheiro do programa contra acidentes na Bahia, onde disputa votos.

Na essência, repete-se na Integração Nacional a distorção verificada no Ministério da Agricultura de Wagner Rossi (PMDB), no Turismo de Pedro Novais (PMDB), no Transporte de Alfredo Nascimento (PR), Esporte de Orlando Silva (PCdoB) e Trabalho de Lupi (PDT).

Corrupção à parte — pelo menos por enquanto —, Bezerra seguiu o figurino patrimonialista de usar o dinheiro público com fins privados: adubar o terreno em que pretende colher votos no futuro.

Terá de ser mais convincente nas explicações. O caso parece ser mais uma herança maldita que Dilma recebe do modelo fisiológico de montagem de governo pelo lulopetismo.

Há fortes evidências de que o ministério foi “doado” ao PSB de Bezerra, como tantos a outros aliados. O problema é que surgem na cena, de maneira visível, destruição e morte.

Glórias acadêmicas lulianas

Olavo De Carvalho, Mídia Sem Máscara (*) 

Todo mundo sabe que, neste país, para subir na carreira universitária não é preciso conhecimento nenhum, apenas ter as amizades certas e emitir, nos momentos decisivos, as opiniões políticas recomendáveis.

O sr. Paulo Moreira Leite, que no exercício do jornalismo assumiu como sua particular missão e glória nunca entender nada, escreve que as reclamações contra a pletora de títulos universitários concedidos ao ex-presidente Luís Inácio da Silva refletem um preconceito, um pedantismo acadêmico que não se conforma em ver subir na vida um self made man cuja pobreza o impediu de adquirir educação escolar.

Anos atrás dei ao sr. Moreira o apelido de sr. Moleira, por me parecer que a formação do seu aparato craniano tinha sido ainda mais incompleta que a educação do sr. Lula. Seu palpite de agora sugere que ela tenha mesmo retrocedido um pouco.

Quem quer que conheça a história intelectual do nosso país sabe que é uma constante da sociedade brasileira o ódio à inteligência, misto de temor e despeito, e acompanhado, à guisa de compensação neurótica, pelo culto devoto aos títulos, cargos e honrarias exteriores que a substituem eficazmente em festividades acadêmicas e homenagens parlamentares.

A mentalidade geral, já antiga e tão bem retratada por Lima Barreto, segue a das vizinhas fofoqueiras do Major Quaresma, que, ao ver pela janela a biblioteca daquele infausto patriota, comentavam: "Para que tanto livro, se ele não é nem bacharel?"

Que, em contrapartida, faltem livros nas estantes dos bacharéis e doutores, onde abundam garrafas de uísque e fotos de viagens internacionais, é coisa que não ofende nem choca a alma nacional. O estudante universitário brasileiro lê em média menos de dois livros por ano, e nem por isso deixa de receber seu diplominha e tornar-se, no devido tempo, chefe de departamento, reitor ou ministro. 

Um amigo meu, nascido e criado no Morro da Rocinha, no Rio de Janeiro, confessava: "Sofri mais discriminação na favela, por ler livros, do que aqui na cidade por ser preto".

Todo mundo sabe que, neste país, para subir na carreira universitária não é preciso conhecimento nenhum, apenas ter as amizades certas e emitir, nos momentos decisivos, as opiniões políticas recomendáveis. Pessoas ilustres como o dr. Emir Sader, o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, o ex-reitor da UnB, Christovam Buarque, assim como inumeráveis outras cujos pensamentos e obras exaltei em O Imbecil Coletivo, já deram provas sobejas de que uma sólida incultura e uma inépcia pertinaz são não somente úteis mas indispensáveis ao sucesso acadêmico, desde que acompanhadas de uma carteirinha do PT ou documento equivalente.

Se os títulos acadêmicos são tidos como valores absolutos em si mesmos, independentemente de quaisquer méritos intelectuais correspondentes, e se estes, por sua vez, nada valem se desacompanhados daqueles, a razão disso está nos profundos sentimentos democráticos do povo brasileiro. 

A inteligência e o talento são dons inatos, que a natureza ou a Providência distribuem desigualmente aos seres humanos, criando entre eles uma diferenciação hierárquica que, do ponto de vista dos mal dotados, é uma humilhação permanente, uma ofensa intolerável e um mecanismo de exclusão verdadeiramente fascista. 

Os títulos acadêmicos foram inventados para aplanar essa diferença, dando aos incapazes e medíocres uma oportunidade de se sentir, ao menos em público e oficialmente, igualados aos maiores gênios criadores das artes, das letras, das ciências e da filosofia, se não mesmo aos santos da Igreja, aos anjos do céu e até à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, como é precisamente o caso do sr. Lula.

Ao contrário do que diz o sr. Moleira, o que faltou a este último não foi a educação formal, foi justamente a educação informal, aquela que um trabalhador impedido de frequentar escola adquire em casa, em ônibus, em trens ou no metrô, lendo livros. O sr. Lula já expressou mais de uma vez sua invencível ojeriza a essa atividade dolorosa, na qual tantos escritores brasileiros, pobres como ele ou ainda mais pobres, adquiriram a única formação que tiveram.

A diferença entre eles e o sr. Lula reside precisamente aí: eles conquistaram seus méritos intelectuais por seu próprio esforço solitário, sem a ajuda de professores, do Estado ou de qualquer entidade que fosse, ao passo que o sr. Lula preferiu subir na vida sem precisar de méritos intelectuais ou morais nenhuns, contando apenas com a ajuda de algumas dezenas de organizações bilionárias – empresas, bancos, sindicatos, partidos – e o dinheiro do Mensalão.

Isso não o torna nem um pouco diferente dos bacharéis e doutores, apenas mostra que ele levou à perfeição o sonho de todos eles: ostentar um punhado de títulos universitários sem precisar, para isso, ter estudado ou aprendido absolutamente nada exceto a arte sublime do alpinismo social.

Quando cidadãos de nível universitário reclamam das glórias acadêmicas lulianas, não o fazem, como o imagina o sr. Moleira, por elitismo intelectual genuíno, que ao menos supõe algum amor ao conhecimento. Fazem-no por pura inveja do concorrente desleal que conquistou mais títulos sabendo ainda menos. 

Quem fala pela boca deles não é a inteligência humilhada pelo sucesso da ignorância: é o corporativismo do establishment acadêmico, que gostaria de reservar para si o monopólio da produção de analfabetos diplomados, sem dividi-lo com a mídia e os partidos políticos.

O sr. Moleira imagina que se opõe a essas criaturas, mas na verdade expressa melhor que ninguém o sentimento delas todas, ao proclamar que os títulos acadêmicos de Lula devem ser motivo de orgulho nacional. Que maior motivo de orgulho existe, numa alma de brasileiro, senão o título enquanto tal, o título em si, o título sem nada dentro? 


(*) Publicado no Diário do Comércio.

A tesoura de Marshall

Alexandre Schwartsman - Folha de São Paulo

Parece haver um paradoxo no mercado de trabalho: a geração líquida de empregos formais (já ajustada pelo padrão sazonal) nitidamente se desacelerou no segundo semestre de 2011, vindo de 160 mil/170 mil postos de trabalho mensais para 100 mil/110 mil. Por outro lado, a taxa de desemprego, também sazonalmente ajustada, caiu no período, atingindo em novembro o nível mais baixo desde 2002.

Esse padrão poderia ser reconciliado caso um número expressivo de pessoas desempregadas tivesse abandonado a busca por trabalho. Sob tais circunstâncias, seria concebível que a taxa de desemprego se mantivesse reduzida a despeito da baixa geração de emprego.

Entretanto, um exame mais atento dos dados do mercado de trabalho sugere não ser esse o caso. Nos últimos meses, a proporção das pessoas em idade ativa trabalhando ou buscando trabalho (taxa de participação) tem se mantido razoavelmente estável e próxima da sua média. É verdade que na primeira metade do ano a taxa de participação se achava algo acima da média.

Todavia, a redução no segundo semestre é insuficiente para explicar o comportamento discrepante da geração de empregos vis-à-vis a taxa de desemprego.

O paradoxo aparente, porém, pode decorrer de uma suposição implícita na análise acima, qual seja, que a desaceleração do ritmo de criação líquida de postos de trabalho refletiria apenas da moderação da demanda por trabalho, fruto da expansão mais lenta do produto. Há, contudo, ao menos em tese, a possibilidade de que isso decorra também de limitações pelo lado da oferta.

Quando há um elevado contingente de desempregados e a demanda por trabalho se expande rapidamente, é razoável esperar que a geração líquida de empregos se traduza em redução da taxa de desemprego. Todavia, à medida que nos aproximamos de uma situação em que parcela crescente da mão de obra capacitada se encontra empregada, a geração líquida deve se desacelerar, pois agora um novo posto de trabalho não é obrigatoriamente ocupado por alguém previamente desempregado; passa a haver chance cada vez maior de tal posto ser tomado por alguém que já estava empregado.

Num caso extremo, irreal, mas que ajuda a ilustrar o problema, se todo novo emprego fosse tomado por um trabalhador previamente ocupado, a geração líquida de empregos seria zero, mas a taxa de desemprego permaneceria inalterada e baixa, como verificado no Brasil.

Dito isso, se o problema resultar da oferta de trabalho, deve haver reflexo nos salários. Caso só seja possível preencher uma nova vaga com um trabalhador já empregado, o salário oferecido ao novo candidato deverá ser superior ao que recebia anteriormente, isto é, o salário de admissão deve não apenas subir, mas também crescer mais do que o salário de demissão.

Segundo os dados do Ministério do Trabalho, é precisamente isso que temos observado. O ritmo de crescimento do salário médio de admissão se acelerou na segunda metade do ano, de 9% para 11% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Além disso, tem também superado a velocidade de crescimento do salário de demissão nessa mesma base de comparação. Essa evidência é consistente com a hipótese de limitações de oferta de trabalho terem desempenhado um papel mais relevante na moderação do ritmo de criação de empregos formais do que o observado até recentemente. Como a tesoura, a análise do mercado precisa de duas lâminas.

Embora essa não seja necessariamente a única razão por trás da desaceleração verificada na segunda metade de 2011, chega a ser surpreendente que essa hipótese tenha sido até agora ignorada. A identificação da natureza dos movimentos em qualquer mercado não pode deixar de lado a evidência pertinente aos preços, muito menos no caso do mercado de trabalho.

Isso só reforça minha impressão de que, quando a análise já parte da conclusão, a lógica do argumento fica irremediavelmente prejudicada.

Caso em aberto

J.R. Guzzo, Revista Veja

O ano de 2012 começa com uma porção de coisas que deveriam ter sido resolvidas pelo governo em 2011 e não foram. É natural. Não dá mesmo para resolver tudo, e menos ainda para resolver tudo da maneira mais certa. Robert McNamara, homem que muito mandou e muito errou no governo dos Estados Unidos, durante os sete anos mais complicados da Guerra do Vietnã, dizia que o grande problema dos governos deste mundo é que o dia tem 24 horas. É logicamente impossível, sustentava McNamara, qualquer governo fazer tudo o que precisa ser feito durante as 24 horas diárias que tem para funcionar; não dá tempo, pura e simplesmente. Como não há tempo, não se decide, ou então se decide com pressa – e aí é fatal que se acabem tomando decisões erradas. Tudo fica ainda pior, é claro, quando a essa dificuldade toda se junta a deliberação de não resolver questões que nada têm a ver com o relógio, na esperança de que elas desapareçam sozinhas. O problema, então, não é falta de tempo. É falta de vontade, e para isso não existe remédio.

Em matéria de história não resolvida, poucas se comparam à do ministro Fernando Pimentel, da Indústria e Comércio, que a esta altura poderia perfeitamente estar na condição de ex-ministro e de ex-problema. O que sem dúvida daria mais sossego para o governo e não faria a menor diferença para a indústria ou para o comércio. Mas não, eis que ele continua aí, sobrevivendo no ministério com equipamento de respiração artificial, e servindo de exemplo vivo de um desses surtos de rompimento com a realidade que se tomaram um dos hábitos mais curiosos do governo da presidenta Dilma Rousseff. Como se sabe, segundo revelou O Globo no começo de dezembro, Pimentel recebeu 2 milhões de reais durante os anos de 2009 e 2010, período entre sua saída da prefeitura de Belo Horizonte e sua entrada no ministério Dilma; pelo que disse, esse dinheiro lhe foi pago por clientes privados, em troca de serviços descritos como de “consultoria”. A história, em si, não é boa. Seu principal cliente, pelo que deu para entender, foi a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), conhecido cartório que representa interesses particulares mas se alimenta de dinheiro público para sobreviver, como acontece com suas irmãs espalhadas pelos demais estados brasileiros. Já o próprio Pimentel, na época em que recebeu os seus 2 milhões, era um personagem muito público; embora parte desse tempo, aliás, trabalhou abertamente como um dos chefes da campanha para a eleição de Dilma. Estaria certa uma coisa dessas? Não deu nem para começar a discussão – na verdade, não deu sequer para saber, até agora, se ele fez mesmo o trabalho pelo qual foi pago, ou se apenas recebeu o dinheiro. A presidente, o ministro e todo o governo decidiram, automaticamente, que não havia coisa nenhuma para discutir, informar ou esclarecer. O que aconteceu foi um negócio entre particulares. É confidencial. Ninguém tem nada a ver com isso. Caso encerrado.

No mundo da lógica, normalmente, o procedimento é examinar primeiro os fatos e só depois, com base no que foi constatado nesse exame, chegar a uma conclusão. No governo Dilma Rousseff chega-se primeiro à conclusão – e por aí mesmo se fica.

A consequência, como no episódio das consultorias de Pimentel, é que os problemas não fecham. Como poderiam fechar, se não são respondidas perguntas básicas sobre o que realmente aconteceu? Toda consultoria, no mundo das realidades, exige reuniões entre consultor e consultado, entrevistas com uma porção de gente, apresentações em PowerPoint, gráficos coloridos, curvas disso e daquilo. Mais que tudo, exige a apresentação de um relatório por escrito ao fim do trabalho, com as recomendações do consultor ao cliente. No caso, nem a Fiemg nem Pimentel comprovaram que houve qualquer reunião. Entrevista, apresentação etc. E o relatório final? Isso, pelo menos, existe? Ninguém, até agora, respondeu a nenhuma pergunta a respeito. Outro enigma são as conferências que, segundo a Fiemg, Pimentel fez para seus associados, e que justificariam uma boa parte dos pagamentos que recebeu. De novo, aqui, temos problemas com a realidade. Onde foram dadas essas palestras? Em que dias? A que horas? Quem assistiu a elas? Não se sabe.

A respeito disso tudo, a presidente da República, no fim do ano, fez uma declaração extraordinária. “Se quiser falar, ele fala”, disse Dilma. “Se não quiser, ele não fala”. O governo imagina, ao tratar o público dessa maneira, que está sendo forte. Está sendo apenas incompreensível.

Controladoria Geral da União e Polícia Federal mostram que é possível combater a corrupção. Só falta vontade política.

Carlos Newton, Tribuna da Imprensa

Duas instituições têm mostrado serviço no combate à corrupção – a Controladoria Geral da República, desde a gestão de Waldir Pires e depois na gestão do ministro Jorge Hage, e a Polícia Federal. Agora, reportagem de Fernando Mello, na Folha, mostra que as operações da Polícia Federal flagraram desvio de R$ 3,2 bilhões de recursos públicos em 2011, dinheiro que teria alimentado o pagamento de propina a funcionários públicos, empresários e políticos.

Detalhe importante: O valor é mais do que o dobro do apurado pela polícia em 2010 (R$ 1,5 bilhão) e 15 vezes o apontado em 2009 (R$ 219 milhões). A título de comparação, representa quase metade do dinheiro previsto para as obras de transposição do rio São Francisco. E o total de servidores públicos presos também aumentou: de 124, em 2010, para 225, no ano passado.

Os números da corrupção no Brasil são incomensuráveis. Como no antigo programa de TV, só o céu é o limite. Apesar do relatório da Polícia Federal coincidir com o ano em que houve a chamada “faxina” no ministério de Dilma Rousseff, com a queda de cinco ministros, essas grandes operações decorrem de investigações mais antigas.

No caso dos ministros derrubados, as investigações de desvio de recursos públicos em órgãos federais identificaram ao menos 88 servidores públicos, de carreira ou não, suspeitos de envolvimento em ações escusas que acumulam dano potencial de R$ 1,1 bilhão.

Esse valor inclui recursos pagos e também dinheiro cuja liberação chegou a ser barrada antes do pagamento. A recuperação do que saiu irregularmente dos cofres públicos ainda dependerá de um longo e penoso processo, até que parte desse dinheiro retorne ao Erário.

Os desvios foram constatados em investigações da Controladoria Geral da União (CGU) e dos cinco ministérios cujos titulares foram exonerados — Transportes (Alfredo Nascimento/PR), Agricultura (Wagner Rossi/PMDB)), Turismo (Pedro Novais/PMDB), Esporte (Orlando Silva/PCdoB) e Trabalh (Carlos Lupi/PDT).

Outros dois ministros — da Casa Civil e da Defesa — caíram em 2011, mas não por irregularidades neste governo. Antonio Palocci (Casa Civil) saiu por tráfico de influência antes de virar ministro, e Nelson Jobim (Defesa), após fazer críticas ao governo.

A contabilidade exclui investigações ainda não encerradas pela Polícia Federal, que apura se houve ou não pagamento de propina a servidores, apontados como facilitadores dos esquemas de corrupção em Brasília e nos braços estaduais dos órgãos federais. Somente nas últimas semanas, a Polícia Federal desmontou três esquemas de corrupção intimamente ligados às denúncias.

Para delegados de Polícia Fazendária, área que investiga os desvios de verbas, o aumento da comprovação do rombo deve-se à formação de equipes especializadas. É o caso de Bahia, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Nas próximas semanas, será criada unidade específica, em Brasília, de Repressão a Desvios de Verbas Públicas.

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PODRIDÃO NA RECEITA E NO DNIT
A Polícia Federal investigou também corrupção na Receita Federal e no Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte). A maior apreensão de dinheiro da história das investigações no Brasil – o equivalente a R$ 13,7 milhões – foi feita em casas de auditores da Receita Federal em Osasco (SP).

Foi durante a Operação Paraíso Fiscal. O dinheiro estava em caixas de leite, fundos falsos de armário e em forros. Em quatro meses, a PF flagrou um dos acusados comprando três carros de luxo à vista e em dinheiro vivo. A partir da operação, o Ministério Público Federal denunciou oito auditores, acusados de selecionar empresas para fiscalização e exigir delas propina para engavetar ou relaxar a cobrança de débitos tributários. Eles negam, é claro.

Em outra operação, a Casa 101, a PF descobriu que, na região de Recife, quase todos os contratos entre Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte) e construtoras eram fiscalizados por apenas um servidor.

Pagamentos eram liberados mesmo com fortes indícios de superfaturamento. Resultado: em um contrato, a PF calculou prejuízo de R$ 67 milhões. Segundo a investigação, o servidor do Dnit recebeu um pedaço do dinheiro desviado.

Na Operação Saúde, do Rio Grande do Sul, 34 funcionários públicos municipais foram presos, acusados de desviar verbas federais destinadas à compra de medicamentos. Em um ano, o grupo teria movimentado um total de R$ 70 milhões.

Diante desse quadro, por que a Polícia Federal não investiga a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. Ia ser uma verdadeira festa. Mas falta vontade política.

Visão restrita

 Merval Pereira, O Globo

Pernambuco, estado de origem do ministro Fernando Bezerra, ter recebido 90% das verbas de combate contra enchentes reflete um hábito dos políticos que ocupam o Ministério da Integração Nacional.

Quando o ministro era Geddel Vieira Lima, do PMDB, a Bahia foi o estado que mais recebeu verbas, e assim será sempre que os ministérios forem ocupados por prepostos dos partidos políticos.

Tão mais grave é a descoberta de que, um ano depois das grandes enchentes no Estado do Rio, além do desvio de verbas em municípios para as providências emergenciais, o governo estadual não conseguiu distribuir nenhum centavo do orçamento previsto para a construção de casas populares na região, que agora são anunciadas como prestes a serem começadas.

Esse é um dos muitos problemas que a divisão do Ministério por partidos e por estados provoca. O político entra num ministério desses devendo favores a seus pares, que no final das contas foram os que o escolheram, ao governador que o apoiou, e não ao governo federal e, sobretudo, a um projeto de governo.

Esse problema recorrente só será resolvido quando a composição do Ministério for feita com base em um programa de governo. Para isso não é preciso necessariamente ter um Ministério composto só de técnicos, mas de pessoas com visão técnica dos problemas que a pasta tem de enfrentar. E uma visão nacional, que abranja o país como um conjunto, e não o seu estado ou a região em que atua.

Se não for alterado o critério de ocupação de um ministério como esse, haverá sempre problemas, pois o ministro se sentirá obrigado a ajudar seu estado, seu governador, seu partido, e assim o ministério perde a visão nacional dos problemas, que deveria ser a missão do governo.

A intervenção feita pela Casa Civil, com a ministra Gleisi Hoffmann assumindo o controle das ações do ministério, indica que a próxima reforma ministerial tem mais um candidato à degola.

Mas, certamente, haverá problemas, pois o governador Eduardo Campos, chefe do PSB, partido do ministro, já saiu em sua defesa e na defesa de Pernambuco.

Ele é um dos mais importantes apoios políticos do Palácio do Planalto e, certamente, não quererá que seu partido perca o controle de um ministério estratégico como o da Integração Nacional.

Esse sistema de montagem de governo deve-se a uma "depravação do processo" de formação de um "presidencialismo de coalizão", segundo o cientista político Sérgio Abranches, que, em trabalho de 1988, cunhou essa definição para explicar nosso sistema de governo.

Ele parte do princípio de que um país heterogêneo como o nosso vai ser sempre multipartidário, tornando inevitáveis os governos de coalizão. Essa fragmentação partidária reflete a federação e ocorreria do mesmo modo se tivéssemos sistema bipartidário como nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano do Texas tem pouco a ver com o Partido Republicano de Nova York.

Com a formalização de uma estrutura multipartidária, a coalizão tem que incluir os partidos que apoiam o governo, e o processo de formação da coalizão é que tem que obedecer a critérios que, com o correr dos tempos, no Brasil foram se corrompendo.

Normalmente a coalizão eleitoral corresponde à coalizão governamental, e é mais raro no mundo do que aqui acontecer de partidos aderirem ao governo depois de apoiar outro candidato na eleição presidencial.

Com isso, o eleitor sabe que aqueles partidos que apoiaram determinado candidato apoiam também o programa de governo que foi apresentado na campanha eleitoral.

Os partidos, para dar apoio a um determinado candidato, exigem dele que adote esse ou aquele tipo de política pública, ou até mesmo de posição internacional — menos comum no Brasil, embora a política externa venha se tornando um tema relevante nas campanhas eleitorais, com o progressivo aumento de prestígio internacional do país.

A partir do momento em que um partido vê incluído na plataforma eleitoral de determinado candidato um ponto de seu interesse — como a política de meio ambiente pelo Partido Verde, por exemplo —, ele terá condições de apoiar sua eleição e, mais adiante, ocupará esse ministério que representa sua melhor aptidão.

Da maneira como é feita hoje, a distribuição de ministérios corresponde a interesses eleitorais dos partidos políticos, e não aos seus programas de governo.

É difícil entender qual é a especialização exigida para um determinado ministério, já que a troca de partidos obedece mais a interesses imediatos de alocação de aliados do que exatamente à vocação política.

Também o contingenciamento das verbas transforma o Orçamento em uma ação política, e não técnica, e a liberação de verbas virou instrumento de ação do Executivo para conseguir o apoio de setores partidários.

Por isso, tanto o ministro Bezerra quanto o governador Campos alegam que a presidente Dilma sabia da distribuição de verbas para Pernambuco. Talvez não lhe tenha sido avisado que o ministério destinaria 90% da verba para o estado do ministro, mas isso é um detalhe.

Se a partilha de cargos é inevitável no nosso presidencialismo de coalizão, pelo menos se deveria dar tratamento diferenciado aos órgãos partilhados, e não entregar os ministérios de "porteira fechada", como acabou sendo o costume no primeiro ano do governo Dilma.

Outra providência necessária seria a instituição de pré-requisitos para a nomeação para certos cargos, obrigando os partidos a encontrar pessoas minimamente qualificadas para indicar.

A presidente tem uma chance especial para testar novos procedimentos na reforma ministerial que anuncia para breve. Se reduzir o número de ministérios e aprimorar os critérios de nomeações, estará dando passo decisivo para reorganizar a máquina administrativa do país num ano em que as dificuldades econômicas provavelmente serão maiores do que até então.

Talvez os políticos, diante das dificuldades que se prenunciam, rejeitem alguns ministérios, o que pode facilitar a vida da presidente. Mas, infelizmente, o mais provável é que pouca coisa mude.

Por que Bezerra tanto se preocupa com Pernambuco

Luciana Marques, Veja online

Ministro da Integração Nacional beneficiou estado em repasses de verbas para prevenção de desastres. Os planos dele para 2014: ser eleito governador de PE

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, 
durante coletiva em que tentou explicar o repasse de verbas 
para seu estado natal, Pernambuco
(Valter Campanato/ABr)

Não foi sem propósito que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, privilegiou o estado de Pernambuco na liberação de recursos para ações de prevenção de desastres. Apesar de dizer que “qualquer brasileiro” o faria em seu lugar, não é qualquer um que tem as pretensões políticas do ministro. Inicialmente, Bezerra sinalizou que disputaria a prefeitura do Recife pelo PSB este ano. Até trocou o domicílio eleitoral de Petrolina para Recife, a fim de cumprir exigência da legislação eleitoral caso saísse de fato candidato. 

Para concorrer, no entanto, teria que comprar briga com o atual prefeito da capital, o petista João da Costa, que pretende disputar a reeleição, apesar de ser mal avaliado pelos recifenses em pesquisas locais. Nem o PT está unido em torno do nome do prefeito e outros postulantes são cogitados para a candidatura, como o do ex-prefeito João Paulo Lima, do senador Humberto Costa e do Secretário do Governo de Pernambuco, Maurício Rands.

Para evitar a queda de braço com o PT, tanto Bezerra, quanto o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, decidiram baixar o tom. Agora, dizem que o PSB só deve decidir se lançará candidatura para prefeitura do Recife depois que o PT bater martelo sobre o assunto, o que deve ocorrer em fevereiro.

O recuo de Campos, padrinho político do ministro, tem motivo. Ele negocia com o PT a aliança entre os partidos nas eleições de 2014. Em outras palavras, quer abrir mão da prefeitura da capital para que o PSB continue no comando do governo do estado, com apoio do PT. O nome mais forte para substituir Campos é justamente o do ministro Fernando Bezerra.

Outro nome também cogitado pela legenda é o do Secretário das Cidades do estado, Danilo Cabral. A avaliação, porém, é que ele tem menos experiência política do que o ministro. Bezerra foi prefeito de Petrolina por três mandatos, deputado estadual e federal e secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de Pernambuco antes de comandar a pasta da Integração Nacional. 

Outro motivo que levou a cúpula do PSB a mudar de posição foi o receio de perder o Ministério da Integração, se comprasse a briga com o PT. “Eduardo Campos não quer perder o ministério e fez essa jogada”, diz um petista da região. Ele disse ainda que, por enquanto, não há nenhum acordo do PT com o PSB para as eleições de 2014. 

Desconforto – 
O governador também resolveu baixar a guarda depois que conversas de petistas insatisfeitos com sua atuação vazaram na imprensa local. Eles teriam dito que Eduardo Campos estava tentando impor suas posições para conquistar mais espaço para o PSB. Teriam lembrado ainda que a mãe do governador, Ana Arraes, conseguiu ocupar uma cadeira no Tribunal de Contas da União (TCU), graças a sua força política. Para evitar maiores conflitos com os petistas, Campos e Bezerra amenizaram o discurso. Assim como ocorreu com as verbas destinadas prioritariamente a Pernambuco, a decisão não está dissociada de intenções políticas.

Pernambuco pegou carona em crédito emergencial para enchentes

Marta Salomon, de O Estado de S.Paulo

Estado obteve verba milionária a obras de barragens a partir de Medida Provisória que destinava R$ 700 milhões a Sul e Sudeste

BRASÍLIA - A construção de barragens em Pernambuco - obras que inflaram os gastos do Ministério da Integração Nacional no Estado do ministro Fernando Bezerra Coelho - pegou carona numa autorização extraordinária de gastos destinada a combater os efeitos das enchentes nas Regiões Sudeste e Sul. As obras milionárias em Pernambuco nem sequer haviam sido autorizadas pela lei orçamentária de 2011, mas consumiram quase 90% dos pagamentos feitos no programa de prevenção de desastres.

Questionada, a equipe da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, informou que coube ao Ministério da Integração definir o destino dos gastos extraordinários anunciados em meio aos efeitos da tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, no início do ano passado.

A reportagem refez o caminho do dinheiro pago a Pernambuco e identificou a origem em medida provisória editada pela presidente Dilma Rousseff em 12 de janeiro passado. Por meio da medida, o Ministério da Integração ficou autorizado a gastar R$ 700 milhões extras para enfrentar desastres provocados "por fortes chuvas e inundações" no Sudeste e no Sul, e pela estiagem no Nordeste. Em nenhum momento, a MP menciona as chuvas do ano anterior no Nordeste.

Apenas 18 dias antes de a medida provisória perder a validade por falta de votação no Congresso, o Ministério da Integração se comprometeu a investir R$ 50 milhões em duas barragens em Pernambuco, a de Panelas 2, em Cupira, e a de Gatos, no município de Lagoa dos Gatos.

O compromisso de gastos (tecnicamente, uma nota de empenho) foi registrado pelo Tesouro Nacional no mesmo 3 de maio, dia em que a presidente Dilma Rousseff recebeu em seu gabinete o governador Eduardo Campos e Fernando Bezerra para tratar dos projetos de Pernambuco, defendido com entusiasmo ontem pelo ministro.

"Qualquer brasileiro que estivesse sentado nessa cadeira (de ministro) teria liberado o dinheiro", disse Bezerra ao ser questionado se a verba teria sido providenciada tão rapidamente se ele não fosse pernambucano nem correligionário do governador.

As duas primeiras barragens fazem parte de um conjunto de cinco grandes obras para conter enchentes nos rios Una e Sirinhaem. A próxima barragem, a maior delas, já está em licitação em Pernambuco. A barragem de Serro Azul terá um paredão de quase um quilômetro de extensão e vai criar um grande lago nos municípios de Catende, Palmares e Bonito. Além de conter as enchentes, o governo tem planos de usar a barragem para o abastecimento de água e a criação de peixes.

O projeto completo tem custo estimado em R$ 650 milhões. O governo federal entraria com a metade desse valor. A previsão é inaugurar o conjunto de barragens em 2013, antes da próxima eleição presidencial.

"O governador apresentou o pedido para iniciar a construção das barragens e não houve tempo de colocar a obra no Orçamento da União", confirmou ontem o ministro da Integração.

Fernando Bezerra afirmou que o ministério deverá recorrer a novos créditos extraordinários (quando os gastos não são previstos pela lei orçamentária) para garantir verbas às barragens este ano. Sem créditos extras, o Estado de Pernambuco continua como principal destino do Ministério da Integração no programa de gestão de riscos e respostas a desastres, que integrará todas as ações de prevenção a desastres naturais do governo.

Segundo pesquisa da ONG Contas Abertas, o ministério teve autorizados R$ 81,4 milhões de gastos em Pernambuco, mais do que qualquer outro Estado no rateio de R$ 701,8 milhões previstos no Orçamento de 2012 para gestão de risco.

A desastrosa performance dos partidos

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Que balanço pode ser feito sobre a atuação dos partidos políticos, no ano que terminou? Desastroso, diriam uns. Insuficiente, para outros. Claro que nas opiniões não se incluirão os líderes e dirigentes das legendas, seja porque em grande maioria tiveram realizados seus objetivos pessoais, seja porque costumam enganar-se tanto quanto o avestruz, que enterra a cabeça na areia em meio à tempestade.

Tome-se o PT, que iniciou 2011 sob a euforia da posse de Dilma Rousseff na presidência da República, empenhados os companheiros em manter ou ampliar espaços de poder na máquina pública. Preservaram ministérios, avançaram sobre presidências e diretorias de empresas estatais e preencheram a maioria dos 35 mil cargos federais em comissão, sem concurso, espalhados por todo o território nacional. Também não hesitaram em criar ONGs e empresas capazes de captar recursos públicos, em parte sem a prestação dos serviços e obras devidas.

Não apenas elegeram a sucessora do Lula, mas a maior bancada na Câmara dos Deputados e a segunda no Senado. É verdade que em matéria de governadores, só cinco em 27, no caso Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Bahia, Sergipe e Acre. Ganharam a eleição, é indiscutível, e teriam direito aos despojos, ainda que tenham passado em branco o reverso da medalha. Porque deixaram para trás os ideais de reformar a sociedade brasileira.

Não promoveram as prometidas reformas estruturais na legislação e nas instituições. Acomodaram-se aos despojos devidos ao vencedor, esquecidos da luta e das promessas de décadas anteriores, quando se julgavam diferentes. Mostraram ser iguais aos adversários. Evidência maior foi a debandada de seus intelectuais e mentores ideológicos, decepcionados até com o chefe de todos.

Não poderia faltar nessa resenha o PMDB, outrora maior partido nacional, aríete de todos nós na derrubada da ditadura. Trincheira de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Tancredo Neves, dos autênticos e tantos mais, o antigo MDB transformou-se em viveiro de urubus, ávidos de ganhar a carniça deixada pelo PT. Do que suas principais figuras cuidaram o ano inteiro foi de ocupar lugares no governo, sem um projeto sequer capaz de consolidar a democracia, noves fora a farsa da reforma política que abandonaram docemente constrangidos depois de vencido o prazo para sua aplicação nas eleições de 2012.

Transformado em vice-presidente da República, seu líder principal, Michel Temer, entrou em cone de sombra. Envergonhado de exercer o papel de porta-voz das reivindicações fisiológicas junto a Dilma Rousseff, cedeu o lugar para José Sarney e outros, mas corre o risco de passar à crônica futura como o coveiro da legenda que salvou o país.

Dispõe da maior bancada no Senado, aliás dividida entre oito saudosistas da luta anterior e outro tanto de acomodados. Na Câmara, já perdeu a supremacia, e nos governos estaduais, ficou apenas com o Rio de Janeiro, Maranhão, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ficará a perigo caso não eleja prefeitos de capitais importantes.

Em seguida vem o PSDB, esquadrilha de tucanos sem plano de vôo, depenados nas últimas três eleições presidenciais e sem controle do Congresso, ainda que mantendo os governos do Paraná, São Paulo, Minas e Tocantins. Fazendo oposição desconexa, perdem a oportunidade de sensibilizar parte da opinião pública por conta dos erros do governo federal.

O ninho virou fogueira das vaidades, pois José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Sergio Guerra e tantos mais dão a vida para prejudicar a trajetória, estes, daqueles. Já era para o PSDB ter definido, senão o seu candidato para 2014, ao menos o perfil e os projetos de quem o representará. A confusão, porém, é tão grande que lembra a história do cidadão que colocou um monte de grilos numa caixa de sapato e no dia seguinte, quando abriu, não havia mais nenhum: uns tinham comido os outros.

Depois, o DEM, ex-PFL, antiga Arena, que anda à procura de uma nova sigla, porque a atual não pegou. Apesar de bissextos e competentes adversários do palácio do Planalto, como Demóstenes Torres e José Agripino, o partido anda em clima de fim de festa. Se não conseguir reciclar-se, condena-se a desaparecer, sem candidato presidencial desde Aureliano Chaves e vendo minguar suas bancadas parlamentares. Só elegeu os governadores de Santa Catarina e do Rio Grande do Norte.

Nos últimos meses assistiu a debandada de parte de seus deputados para o recém-criado PSD, de Gilberto Kassab, e por razão muito simples: os democratas cansaram de fazer oposição, alguns procuram lugar sob o guarda-chuva do governo, objetivo do prefeito paulistano. Já que os tucanos, seus aliados, não ganham, para que ficar na sua cola?

O Partido Socialista deu a impressão de constituir-se em algo novo, nesse picadeiro esfarrapado, tendo em vista a liderança do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes. Governa ainda o Espírito Santo e o Ceará, este com Cid Gomes, mas aqui começam os problemas. O irmão do governador, Ciro, gostaria de disputar mais uma vez a presidência da República, garfado que foi pelo Lula nas eleições passadas. O problema é que Eduardo Campos também quer e os dois, mesmo sem ser tucanos, começaram a bicar-se. Num partido grande essas brigas costumam ser críticas. Nos pequenos, são letais. Alem do que, quem ousaria definir a ideologia dos socialistas? Não existe.

O lugar seria de examinar os trabalhistas, PTB e PDT. Pobres Getúlio Vargas e Leonel Brizola, se estiverem olhando, lá de cima. O PTB, liderado pelo mensaleiro Roberto Jefferson, sequer apresentou um projeto de melhoria das condições do trabalhador. Nenhum reclamo pela merreca do novo salário mínimo, de 622 reais. Faz parte do governo, engole o que vier e nem mesmo um ministro possui. Já o PDT passou pela máquina de moer carne e não se recompôs, desde que seu presidente, Carlos Lupi, viu-se obrigado a renunciar. Nenhum dos dois partidos trabalhistas possui governadores.

O PP sobrevive, não apenas à sombra do palácio do Planalto, que por passe de mágica até agora sustentou Mário Negromonte no ministério das Cidades, mas em função de um milagre chamado Francisco Dornelles, dos mais respeitados senadores e homem público. Sozinho, porém, luta uma batalha inglória, sem governadores. Para cada lado que se vire, colhe problemas, entre eles Paulo Maluf.

Sobram outros partidos, porque são mais de 30, alguns com um ou dois deputados, todos lutando pela sobrevivência, mas a conclusão é de que nenhum deles, dos pequenos aos médios e aos grandes, disse a que veio em 2011. Quem sabe em 2012?

Ano bom para os bandidos

Rodolfo Oliveira , Mídia Sem Máscara (*)




Os bandidos no Brasil estão em polvorosa. Enquanto os nobres parlamentares brasileiros aprovam a Lei da Palmada e o desarmamento civil, os criminosos impõem, a ferro e fogo, a Lei da Bala. O Brasil é uma festa. Aqui, as pessoas chamam assassinos de “ex-ativista político” e terroristas de “jovens guerrilheiros ideológicos”. Tentem dar uma palmada no seu filho.

O moleque jogou gasolina na irmãzinha mais nova e tentou atear fogo na coitada. Você corre lá, arranca os fósforos da mão do guri e lhe aplica uma palmada no bumbum. Pronto. Você terá agora que lidar com todo tipo de militante politicamente correto e pró “direitos humanos” pelo resto da vida, militantes estes que lhe encherão o saco até você reconhecer que sim, “sou um monstro ignóbil, um ser vil, um destruidor de infâncias alheias e mereço ir para a cadeia por causada daquele atentado contra a juventude (a palmada)”.

Mas eu falava sobre a violência. De acordo com o Mapa da Violência 2012, 50 mil brasileiros morrem vítima da violência todos os anos. Um ser extraterrestre, vendo tais números, poderia me questionar. “Mas como?”. Simples, meu caro ET. Esses dados são consequência direta de uma política pró-bandido. 

O pacote é completo e inclui a adequação de certas nomenclaturas à nova realidade (assassino de 17 anos de idade não é um assassino, e sim, um jovem em situação de risco e em conflito com a lei), a criação de mitos (vamos todos promover o desarmamento civil, ainda que 99% dos crimes sejam cometidos por bandidos com armas ilegais) e, também, a glorificação da carreira de bandido (no cinema, na literatura, na música popular brasileira, bandido é sempre o excluído lutando contra a falta de oportunidade de um mundo indiferente e capitalista, enquanto as forças da lei são os caretas).

O fato é que carreira de bandido, no Brasil, compensa, e muito. Ora, eu tenho uma arma ilegal (que eu comprei à luz do dia em um mercado popular) e a lei a meu favor (sabe como é, só faço 18 anos no ano que vem). Vou pular o muro da casa do leitor e roubar lá o que tiver de roubar, afinal, eu sei que o governo praticamente impede que cidadão de bem tenha uma arma legal para defender a si e a sua família. 

Para o azar do leitor, ele estava em casa na hora do ocorrido e, ossos do ofício, toma um tiro e morre. Pergunta. O que acontecerá com o bandido? Nada, é um “jovem em conflito com a lei”. O que acontece ao leitor? Vira estatística. Feliz Natal, leitores, e se não desejo um feliz Natal para os bandidos também, é só porque eu sei que eles já tiveram um ótimo ano.

(*) Publicado no jornal O Estado  

Planalto não tem pressa em votar PNE (ou quando Educação é só discurso)

Angela Pimenta, Portal Exame

Ao contrário do que deseja o deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), relator do Plano Nacional de Educação, o PNE, se depender do Palácio do Planalto a matéria não será aprovada pela Câmara nos termos do relatório aprovado no começo de dezembro.

O relatório prevê a elevação dos gastos em educação dos governos federal, estaduais e municipais dos atuais 5,3% para 8% do PIB – sem nenhum compromisso com o aprimoramento efetivo e mensurável da lastimável qualidade do ensino público no país.

Estima-se que cada ponto percentual do PIB em aumento de gastos signifique um desembolso adicional de 40 bilhões de reais por ano.

Além de se manifestar adepta da meritocracia – sistema que o relatório do PNE não contempla – a presidente Dilma Rousseff não gosta da ideia de ter “dinheiro carimbado” no orçamento, sobretudo num cenário econômico internacional preocupante.

Caso necessário, Dilma poderia acionar dois ilustres petistas conterrâneos de Vanhoni para demovê-lo da ideia de votar o PNE na abertura dos trabalhos na Câmara: a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e seu marido, Paulo Bernardo, o ministro das Comunicações.

Ambos também enfrentariam as fortes pressões petistas – e dos sindicatos dos professores – pela votação do PNE. O grande argumento pela aprovação da nova lei é de que ela já deveria estar vigorando desde o início da década.

O PNE reúne 20 metas e 10 diretrizes genéricas para a educação no país. Depois de votada na Câmara, a matéria precisa ser aprovada no Senado e sancionada por Dilma.

Nível político cai abaixo de zero: país é saqueado todo dia

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Reportagens de Roberto Maltchik e Gerson Camaroti, no Globo, e de Cristiane Samarco e Marta Salomon, O Estado de São Paulo, manchetes principais das duas edições de quarta-feira 4, revelam que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, destinou 90% das verbas de prevenção de calamidades para o estado de Pernambuco onde exerce atividades políticas. Os recursos reservados deveriam ser aplicados em 56 municípios listados. Nenhum pernambucano.

O contraste é total e, em diversos casos, tornou-se fatal. Eram 30 milhões de reais carimbados. São Paulo recebeu 0,16%. O Rio de Janeiro zero por cento. O Globo e O Estado de São Paulo afirmaram que a presidente Dilma Rousseff teve que intervir. O titular da pasta, responsável pela desintegração das verbas, balança. Poderá se tornar mais um a ser demitido. Ou, ao menos, ter de pedir exoneração. No Globo, a foto que acompanha a matéria é de Carlos Rienck. No Estado de São Paulo de Beto Barata.

Mais um triste episódio administrativo, cujo conteúdo foi deslocado para o plano da política por ela mesma. O nível político, confrontando-se o presente com o passado, não há como negar, caiu assustadoramente. Aliás desabou. A incompetência aliou-se à corrupção. Galopante. O país, na realidade, é saqueado diariamente. Não transcorre uma semana sem que os jornais e revistas denunciem etapas seguidas de uma avalanche de irregularidades e ilegitimidades.

Demissões em série. No governo Lula, começaram com o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e se encerraram com Erenice Guerra. No período inicial de Dilma, seis escândalos, agora o sétimo. Ocupantes de cargos importantes, em vez de se empenharem em ações construtivas, pois este é o verdadeiro sentido da sua atividade, deslocam sua visão para situações pessoais e de grupos. Não para a ótica coletiva. Como se o povo, não existisse.

O ser humano deveria ser o sujeito e o objeto direto da atuação de ministros, governadores e prefeitos. Mas não. É remetido para uma esfera maias que secundária do panorama.Em consequência, os problemas se agravam e eternizam, a concentração de renda segue seu ciclo ampliando a falta de solução para tudo e todas as coisas.

Neste caso do Ministério da Integração Nacional até a prevenção em áreas de extremo risco foi suplantada na consciência de Fernando Bezerra. Se não sair do cargo, como poderá ele sentar-se à mesa das reuniões ministeriais e se dirigir, sem constrangimento, à opinião pública? Não poderá. Ninguém escapa de si mesmo. Mas isso não serve de consolo aos desabrigados, vítimas diretas da omissão e da divisão absolutamente desigual dos recursos previstos.Para Pernambuco, 90%. Para São Paulo 0,16. Para o Rio de Janeiro apenas zero.

No passado, anos dourados de JK, nenhum fato desse tipo ocorreu. Ao contrário. O presidente da República criou, por exemplo, a Sudene, e para ela nomeou Celso Furtado exatamente para que as secas não continuassem a ser uma indústria das oligarquias regionais. O Nordeste iniciou um processo de industrialização, o coronelismo entrou em declínio. Porém, impressionantemente, reviveu de parte daqueles que o combatiam como uma vergonha para o país, emblema do atraso brasileiro.

Os interesses político partidários ressurgiram e nessa onda de ressurgimento apareceu o ministro Fernando Bezerra, alguém que representa a face do passado. A utilização de recursos públicos de prevenção transformou-se em instrumento de edificação eleitoral. Noventa por cento das verbas para as urnas. Os dez por cento restantes para as ruas de mais de 50 cidades arriscadas a submergir. Como no ano passado, submergiram Friburgo e Teresópolis. Este ano Friburgo voltou a sentir o peso da catástrofe que, em Minas inundou uma série de cidades, entre elas a histórica Ouro Preto.

Francamente é não ter consciência do que seja, de fato, integração nacional. As decisões de Fernando Bezerra não o desintegram somente como administrador, mas também a própria estrutura política que, de instrumento de realização coletiva,  passou à categoria de mera ilusão pelo voto.