domingo, janeiro 12, 2014

Um nariz de Pinóquio no índice de inflação

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Como um nariz de Pinóquio, o número final da inflação, 5,91%, desmentiu as promessas de um resultado melhor que o do ano anterior, desmoralizou mais um pouco a intervenção nos preços e comprovou, mais uma vez, a inépcia de uma política populista, voluntarista e irresponsável. A letra V, de verdade, mostra graficamente, com a graça de um desenho animado, a evolução do índice oficial de preços ao consumidor. Na primeira fase, de janeiro a julho, os números decrescem de 0,86% até 0,03%, muito perto de zero. Na segunda, há uma subida quase contínua, a partir do vértice, até 0,92%, uma taxa surpreendente. No mercado financeiro, a mediana das projeções para dezembro indicava uma variação de 0,75%. Seria uma elevação muito grande pelo padrão de qualquer país bem administrado, mas ainda insuficiente para levar a alta acumulada no ano aos 5,84% de 2012. Na primeira parte do V aparecem o efeitos da manipulação dos preços da eletricidade, da gasolina e do transporte público e dos cortes de impostos. Na segunda, os truques se esgotam, as pressões inflacionárias se manifestam mais abertamente e o nariz pinoquiano se expande com rapidez.

Se a estatística, como dizem os incréus, é a arte de mentir com números, faltou arte a quem tentou administrar, pelo voluntarismo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O governo errou, dirá talvez algum companheiro, ao fazer só uma parte do serviço. Interveio na fixação de alguns preços, mas deixou livre a elaboração dos índices. Na Argentina da família Kirchner o trabalho foi mais ambicioso: a intervenção nos preços, além de muito mais ampla e quase rotineira, foi complementada pela manipulação das estatísticas oficiais e pela censura aos índices privados. A inflação medida por especialistas independentes anda perto de 30%. É o triplo da apresentada pelas fontes oficiais.

A situação no Brasil ainda é outra, apesar do culto, oficiado no Palácio do Planalto, aos modelos cubano, bolivariano e kirchneriano. O pessoal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) continua trabalhando sem restrições políticas e produz números e relatórios sem censura. Até o Banco Central (BC) tem divulgado avaliações e projeções constrangedoras para o Executivo, como as estimativas de inflação acima da meta ainda por longo tempo. Bom para o governo: embora prejudicada, sua credibilidade é maior, por enquanto, que a da administração Kirchner.

A presidente Dilma Rousseff e seus auxiliares - pelo menos alguns deles - passaram a cuidar com mais atenção, nos últimos tempos, da credibilidade. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeu fechar o balanço fiscal de 2013 sem recorrer à contabilidade criativa. A promessa foi recebida com sinais de otimismo no mercado financeiro. Mas é difícil consertar em pouco tempo, e apenas com base numa declaração de bons propósitos, uma reputação comprometida por uma longa série de trapalhadas e de truques malsucedidos.

Para acalmar os nervosinhos, como ele mesmo afirmou, o ministro anunciou com antecipação de umas três semanas o resultado das contas do governo central. Foi alcançado, segundo ele, um superávit primário de R$ 75 bilhões. Ficou R$ 2 bilhões acima da meta, mas só obtido com a ajuda de pelo menos R$ 15 bilhões de receitas atípicas. O anúncio pode ter impressionado a velhinha de Taubaté. Para os menos generosos, o governo continua devendo demonstrações mais convincentes. Mas até a fixação da meta fiscal para 2014 foi deixada para mais tarde, como se a presidente e o ministro da Fazenda tivessem medo, na virada do ano, de prometer um resultado muito difícil.

O problema da credibilidade continua sem solução. A agência Moody's anunciou nesta semana a manutenção da nota de crédito do Brasil, já levando em conta as hipóteses de um crescimento econômico medíocre em 2014 (cerca de 2%) e de um superávit primário pouco melhor que o do ano passado (aumento de 1,8% para 2,1%). Mas o anúncio foi acompanhado de uma advertência: a decisão poderá ser revista, nos próximos meses, se o quadro for pior que o previsto e a deterioração econômica se acentuar. A Standard & Poor's, na mesma semana, reafirmou a possibilidade de um corte da nota antes das eleições. Essa possibilidade havia sido indicada no trimestre final de 2013.

Um bom complemento do cenário foi o leilão de títulos federais na quinta-feira. Para vender seu novo papel de longo prazo, a NTN-F-2025, o Tesouro teve de oferecer a taxa de 13,3899%, a mais alta já registrada no lançamento de um título desse tipo. O mercado absorveu todas as notas e o responsável pela operação classificou a venda como um sucesso: o custo foi até um pouco menor que o esperado pelo governo. Do outro lado do balcão as opiniões foram diferentes: as condições do mercado mudaram e o financiamento da dívida pública tende a ser mais caro. Isso se explica tanto por fatores externos - um mercado internacional menos folgado - quanto por problemas internos, a qualidade da política econômica e a baixa credibilidade do governo.

O histórico do governo inclui a tolerância à inflação, a tendência à gastança, a incapacidade de promover um crescimento econômico mais veloz e a má administração das contas externas, em visível deterioração. O aperto financeiro externo, consequência previsível de uma política monetária menos frouxa nos Estados Unidos, nem de longe pode servir como desculpa. Quem tinha juízo e alguma competência tratou de se prevenir e de se manter atraente para o capital estrangeiro. Isso é mais complicado que fazer discursos eleitorais em palanques arrumados pelos companheiros e diante de plateias amigas. A presidente e sua equipe só parecem ter descoberto essa diferença há pouco tempo. Ainda estão, tudo indica, assimilando a novidade.

Hora de rever o modelo pró-consumo

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo

Diante da perda de participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB), o governo tem prometido que “o Brasil não se tornará uma economia de serviços”. Promessa difícil de cumprir, pois os serviços têm um papel de grande destaque em qualquer economia. Uma vez que eles constituem o segmento de maior expressão dentro do grupo dos “não comercializáveis com o exterior”, todo aumento de demanda aí registrado terá de ser atendido por meio da expansão da produção interna. No Brasil, seu peso no PIB chega perto de 70%.

Num cenário como esse, sem investimentos suficientes em serviços de transportes, os fretes sobem muito e a economia cresce menos; se o país não investe em energia elétrica, o risco dos apagões é maior; e assim por diante. Logo, quando o governo não atrapalha as coisas nos segmentos em que tem grande ingerência, é para os serviços que se dirige naturalmente boa parte da poupança disponível na economia. Outra parcela vai para o setor de commodities, em que consumimos pouco em relação ao que produzimos e nos tornamos altamente competitivos nos últimos anos, a despeito das deficiências de infraestrutura. Já para boa parte da indústria, o crescimento do consumo – alimentado pelas fontes de propulsão do atual modelo econômico e por paradoxal que pareça – desestimula os investimentos.

Orientado basicamente para o mercado interno e com os preços em dólar determinados basicamente no exterior, esse segmento é, em princípio, pouco competitivo em relação aos fornecedores de fora. Se a demanda sobe, como aconteceu em 2003-2008, aumenta o preço de serviços em relação aos da indústria, que não consegue pagar os mesmos incrementos de salários que ocorrem naqueles. Sobem também, em consequência, as importações industriais e o déficit com o exterior. Havendo financiamento externo suficiente, esse processo tende a se repetir ao longo do tempo. Ao final, constata-se que ingressou poupança externa adicional para complementar a baixa disponibilidade interna derivada do modelo pró-consumo.

Para boa parte da indústria, o crescimento do consumo – alimentado pelas fontes de propulsão do atual modelo econômico e por paradoxal que pareça – desestimula os investimentos

Visto de outra forma, nas fases de forte expansão do consumo, a economia se movimenta para viabilizar o ingresso de poupança externa, por meio da citada mudança de preços relativos, que só se materializa se houver um déficit externo da mesma magnitude. Essa foi, basicamente, a forma como a economia brasileira passou de um crescimento médio de 2,7% ao ano para cerca de 4,5% entre o início dos anos 2000 e o auge da crise do subprime. Na sequência, o déficit externo poderia continuar crescendo até ficar insustentável, hora em que a taxa de câmbio tenderia a se depreciar, revertendo o processo anterior.

Confrontado com tal realidade, em vez de rediscutir o modelo pró-consumo e buscar uma solução sustentável para a indústria, o governo reagiu com a adoção de: 

1) tarifas aduaneiras mais altas e outras barreiras à entrada de produtos estrangeiros, que passaram a ser contestadas pela OMC; 

2) fartos financiamentos oficiais subsidiados ao setor, especialmente por meio do BNDES;

 3) desvalorização forçada da moeda; 

4) ampla desoneração de tributos incidentes sobre o ramo industrial; e 

5) achatamento de tarifas públicas, principalmente as de energia elétrica, buscando reduzir custos para a indústria, ainda que apenas no curto prazo.

Isso tem trazido uma série de novos – ou velhos – problemas, sem que os indicadores relacionados com a razão investimento/PIB e o nível de produção da indústria tenham esboçado qualquer reação relevante. 

Várias daquelas providências causaram forte deterioração dos resultados fiscais, algo que, mais uma vez, tem assustado os investidores em papéis públicos. Teme-se inclusive uma nova crise na área. Além disso, há óbvia perda de eficiência econômica, um efeito depressivo sobre os investimentos nas áreas em que os preços foram achatados e o impacto inflacionário da desvalorização forçada da moeda. É preciso comparar, assim, os custos e benefícios de todas essa ações e perguntar se, em vez de tanta mexida, não seria a hora de rever o modelo em vigor.

O perigo de uma inflação estabilizada nas alturas

Editorial
O Globo

Existe uma percepção dos mercados que as autoridades governamentais adotaram na prática como alvo o topo, e não o centro da meta

Variações de preços alucinantes ficaram no passado depois do Plano Real, mas, mesmo assim, o país continuou a conviver com uma inflação média superior não só às de economias mais avançadas como às de muitas em estágios de desenvolvimento semelhantes aos seus. Na América do Sul, por exemplo a inflação brasileira só fica abaixo dos índices registrados na Argentina (25%) e na Venezuela (55%), nações cujas economias padecem das decisões de governantes populistas.

Há de fato razões estruturais para a inflação no Brasil não ter se nivelado à média internacional. O reconhecimento dessa realidade acabou levando a equipe econômica no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso a adotar um regime de metas factíveis. Em torno de um ponto central (4,5%), admitiu-se uma faixa de tolerância bem folgada, de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, a fim de absorver o impacto de choques de oferta e demanda até que o país conseguisse superar os desequilíbrios estruturais.

O regime de metas se tornou uma importante peça da política econômica, pois contribuiu para o Brasil conquistar a confiança dos mercados.

No entanto, não só pelas razões estruturais, mas também por fatores conjunturais (a maioria dos quais oriunda do próprio governo), a trajetória da inflação tem se mantido, durante a gestão Dilma, acima do ponto central, oscilando próxima do teto da faixa superior de tolerância (6,5%). Cumpre-se a meta, mas a percepção dos mercados é que as autoridades se tornaram mais lenientes com a inflação, passando a fixar como alvo não mais o ponto central, mas algo acima.

Para um país que conviveu por décadas com uma inflação aguda, é um sério risco que os agentes econômicos tenham esse tipo de percepção. Mecanismos formais de indexação tiveram de ser mantidos para dar mais segurança a produtores, consumidores e poupadores. Acreditava-se que esses mecanismos iriam desaparecer à medida que a inflação fosse cedendo e recuasse para patamares mais baixos, próximos da média internacional. Como não houve o recuo esperado, além dos mecanismos formais a sociedade tende a reativar os informais, recriando um pesadelo que os brasileiros não merecem ter novamente.

Ao longo de 2013, a inflação acumulada em 12 meses chegou a ultrapassar o topo da meta. Não deixa de ser um alívio, mas relativo, que o índice oficial, o IPCA (calculado pelo IBGE), tenha fechado o ano em 5,91%, embora ligeiramente acima do resultado de 2012 (5,84%). Ou seja, a inflação se estabiliza muito acima do centro da meta, o alvo que deve ser atingido. E, mesmo assim, à custa do congelamento de tarifas.

É ineficaz o governo tentar segurar artificialmente preços que administra se o mercado enxerga na política econômica sinais de que que está pondo lenha na fogueira com outra mão. É o caso, por exemplo, da política fiscal, que também conta com metas preestabelecidas, mas cujo alcance está sempre posto em dúvida.

Desastre e fiasco na inflação

O Estado de São Paulo

O governo descumpriu mais uma promessa e fracassou mais uma vez no esforço de maquiar os índices de inflação. Os preços ao consumidor subiram 5,91% em 2013, mais que no ano anterior, quando a alta havia chegado a 5,84%. A presidente Dilma Rousseff e sua equipe haviam prometido um resultado melhor que o de 2012 e tentaram manter essa retórica até o fim do ano. Mas isso foi apenas parte do fiasco. As autoridades, em vez de atacar as pressões inflacionárias, tentaram administrar estatísticas. Controlaram politicamente os preços dos combustíveis, as tarifas de transporte público e as contas de eletricidade, além de encenarem uma desoneração da cesta básica. Também a redução de impostos sobre vários bens duráveis pouco serviu para tornar muito melhor o resultado geral. Todos os truques falharam como freios do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Podem ter impedido um número bem mais feio, mas não evitaram um resultado oficial pior que o do ano anterior e, portanto, mais longe de 4,5%, meta já muito alta pelos padrões internacionais.

Nada garante um cenário muito melhor em 2014. Os primeiros indicadores do ano já trouxeram más notícias. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) havia fechado dezembro com alta de 0,69%. Nas quatro semanas até 7 de janeiro a variação chegou a 0,73%. Essa pesquisa é renovada semanalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e cobre sempre um período equivalente a um mês. Em São Paulo, a primeira prévia do IPC da Fipe também indicou a aceleração dos aumentos. Na primeira quadrissemana houve alta de 0,74%, maior que a constatada na última apuração de dezembro (0,65%) e bem mais ampla que a observada na primeira medição do mês passado (0,45%).

As expectativas do mercado também são ruins. Na primeira pesquisa Focus do ano, realizada pelo Banco Central (BC) em 3 de janeiro, a mediana das previsões para a alta do IPCA em 2014 chegou a 5,97%. Mas o pessoal consultado na pesquisa havia subestimado o número final de 2013 e ainda apostava em 5,74% - um resultado lamentável, mas pouco melhor que o de 2012. Economistas de instituições financeiras e de consultorias são acusados, muitas vezes, de formular projeções pessimistas para pressionar as autoridades a manter os juros altos. Mas suas estimativas têm sido desmentidas, em alguns casos, por números piores que os previstos.

Na prática, um aumento do IPCA pouco maior ou pouco menor que o do ano anterior faz pouca diferença, O significado do desvio, neste caso. é principalmente simbólico, político e até moral e nisso consiste sua maior importância. Escancara mais uma vez a baixa qualidade de uma política econômica marcada pela incompetência, pelos erros de diagnóstico e, para dizer o mínimo, pelo empenho em maquiar os sinais e deixar os problemas intactos.

Autoridades tentaram durante algum tempo atribuir as pressões inflacionárias principalmente a fatores externos. O grande problema seria o aumento das cotações internacionais das commodities. Mas em 2013, os produtos agropecuários ficaram 1,76% mais baratos no atacado, segundo a FGV, e o custo da alimentação continuou subindo no varejo.

Continuou subindo porque havia no País um ambiente inflacionário: crédito fácil na maior parte do ano, emprego elevado (e pouco produtivo), salários em alta e gastança pública desatada - e dificilmente refreável, agora, em ano de eleição.

O índice de serviços do IPCA subiu 8,74% em 2012 e 8,75% em 2013, bem mais que a média dos preços nos dois anos (5,84% e 5,91%). Há uma evidente pressão da demanda, complementada, do lado oposto, por fortes pressões de custo. O exemplo mais visível é a sequência de aumentos salariais bem acima dos ganhos de produtividade. Dirigentes do BC, apesar da conversa sobre inflação importada, apontaram mais de uma vez esses problemas. Mas têm sua fatia de culpa: assumiram o risco de alinhar sua política às preferências da presidente Dilma. Erraram e só voltaram a elevar os juros quando sua imagem estava manchada. Mas o maior prejuízo foi mesmo para o País.

O Maranhão é aqui.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O comando político maranhense é indefensável: nos últimos 50 anos, o Estado foi governado pela família Sarney e seus aliados. Recebeu apoio de todos os lados (de Glauber Rocha, cineasta revolucionário, dos Governos militares, que tiveram Sarney entre os mais fiéis seguidores, dos mais diversos presidentes civis - entre eles o próprio Sarney - e também de Lula e Dilma), e se mantém firme como um dos mais pobres Estados do país, apesar das boas terras e do clima favorável. É indefensável a gestão das prisões maranhenses, em ruínas, superlotadas, dominadas pelo crime organizado. E indefensável é a posição da governadora Roseana Sarney: "Um dos problemas que está piorando a segurança é que o Estado está mais rico, o que aumenta o número de habitantes".

Mas o problema não é só maranhense. No Vale do Paraíba, SP, uma das regiões mais ricas do Estado mais rico do Brasil, a superlotação dos presídios faz o Maranhão parecer um hotel-fazenda. No Maranhão, faltam 3.542 vagas para presos. No Vale do Paraíba, faltam 6.778 vagas. Junte-se o forte calor à aglomeração de presos e imagine-se o nível de tensão. O presidente da Associação dos Servidores Penitenciários, Jenis Andrade, disse ao jornal Valeparaibano que o PCC comanda os presídios - crime organizado, como no Maranhão, como na maior parte do país. 

O Governo diz que o problema ocorre porque a Polícia paulista "coíbe a ação criminosa". Sim, é a Polícia que mais prende no país - mas onde colocar esses presos? Que é que se espera para enfrentar o problema?

Tem gato na tuba
Mas o caro leitor pode ficar tranquilo: na área da Justiça há pessoas preocupadas com problemas mais sérios do que a presença do crime organizado nas prisões (e fora delas), a corrupção que alimenta a entrada de armas, celulares e sabe-se lá mais o que nas celas, a violência de presos contra presos, o assédio sexual a mulheres, mães e filhas que visitam parentes na cadeia. 

Agora vai: o presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso proibiu, pela portaria 554, que seus funcionários alimentem os gatos que moram no prédio, sob pena de punição administrativa. Motivo: "a necessidade de prevenir e combater a proliferação de zoonoses urbanas prevalentes, como forma de promover a saúde de magistrados, de serventuários e dos usuários dos serviços prestados pelo Poder Judiciário Estadual". 

Traduzindo, gato com fome não transmite doenças.

Dos outros
Frase do colunista Cláudio Humberto (http://www.diariodopoder.com.br/):

"A boa notícia: o ministro Mantega (Fazenda) está de férias até esta sexta (10). A má: ele volta a Brasília na segunda-feira".

A culpa é do calor
O Núcleo Regional do Governo do Estado de São Paulo nega que o governador Geraldo Alckmin, PSDB, tenha usado a expressão "consumo inesperado", citada nesta coluna do último dia 8, para justificar a falta de água no Litoral. O Núcleo tem razão: Alckmin não usou a expressão "consumo inesperado". Mas disse que o consumo de água nas praias da Baixada Santista, que costuma ser de 150 litros diários por pessoa, subiu para 350 litros nos feriados de fim de ano. Não houve "consumo inesperado", mas que o Governo não o esperava, não esperava mesmo. 

E o número esperado pelo governador não bate com o fornecido pela Sabesp, a companhia de águas e esgotos que ele comanda: "(...) no Brasil, o consumo por pessoa pode chegar a mais de 200 litros/dia" (http://www.sabesp.com.br/CalandraWeb/CalandraRedirect/?temp=2&temp2=3&proj=sabesp&pub=T&nome=Uso_Racional_Agua_Generico&db=&docid=DAE20C6250A162698325711B005)

No verão, na praia, onde além do banho se usa água para tirar o sal e a areia, esperaria o governador que o consumo diminuísse?

Falta dágua dá multa
Por falar em governador Alckmin, Sabesp e falta dágua no Litoral paulista, o Procon multou a Sabesp em R$ 210 mil, pela falta dágua no Guarujá. De acordo com a empresa, a questão não foi o consumo mais alto e imprevisto: o problema foi provocado por oscilação de energia, que provocou pane elétrica no sistema de bombeamento. A Sabesp tem prazo de 15 dias para recorrer da multa.

Luta pela imagem
Atingido por uma cachoeira de acusações, o governador de Goiás, Marconi Perillo, PSDB, iniciou maciça campanha de recuperação de imagem, envolvendo fortes investimentos oficiais em abundante propaganda. O trabalho, por sinal muito bem feito, está sendo dirigido pelo premiado publicitário Rui Rodrigues, ex-DM9, indicado a Perillo pelo candidato tucano à Presidência, Aécio Neves. 

Boa notícia
A juíza Fernanda Soraia Pacheco Costa, da 4ª Vara Cível, determinou à ANAC, Agência Nacional da Aviação Civil, que obrigue as empresas aéreas a transportar de graça a cadeira de rodas de passageiro com deficiência. As empresas, alegando que a cadeira de rodas não cabe no corredor do avião, só aceitam transportá-la como carga, cobrando à parte. 

Agora a moleza acabou: já basta a ganância de cobrar até copo dágua a bordo. Cadeira de rodas vai sem custo.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Somos escravos felizes?

Juan Arias
El País

A Copa, os possíveis novos protestos e a ida às urnas serão importantes para medir o grau de vontade de quererem ser livres ou de preferirem continuar perpetuando nossa própria escravidão

Sempre me impressionou, desde que estudava os clássicos, a afirmação do historiador e político Tucídides, que há 2.450 anos sustentava que o sucesso dos tiranos reside na felicidade dos escravos com sua própria escravidão, afirmação essa que foi lembrada outro dia pela escritora Rosiska Darcy de Oliveira em sua coluna em O Globo.

Dois milênios e meio mais tarde, a dura e irônica frase de Tucídides continua atual em nosso mundo globalizado, embora com perfis mais modernos e sutis. Hoje, de alguma forma, todos somos de alguma maneira escravos, embora não o admitamos, e até dá a impressão, às vezes, de que somos igualmente felizes. E muitos políticos e governantes continuam exercendo formas de tirania, embora hoje venham revestidas com roupagens de democracia.

Como naquela época, também hoje o sucesso dos que nos governam é uma razão direta do grau de satisfação que demonstramos com a nossa própria escravidão. E seu fracasso será também proporcional à nossa capacidade de nos sentirmos infelizes com as correntes que eles nos impõem e que aceitamos.

Quando, em junho passado, o Brasil se lançou às ruas para reivindicar seus direitos, foi como se de repente as pessoas tivessem se dado conta de que, sem perceberem, estavam amarradas a uma sutil escravidão. E os políticos e governantes se assustaram pelo fato de os cidadãos terem deixado de serem felizes com suas correntes. E tentaram tranquilizá-los prometendo-lhes que os libertariam.

Os brasileiros perceberam, de repente, de que eram de alguma forma escravos quando precisavam usar meios de transporte público que poderiam servir também para o gado; ou os hospitais, ou as escolas. Perceberam que se é escravo politicamente, inclusive na democracia, quando é permitido apenas exercer o direito de voto a cada quatro anos, sem poder participar da gestão da vida pública e sem poder contestar os privilégios escandalosos com que se presenteiam os que decidem sobre nossas vidas. Os políticos decidem livremente, por exemplo, seus fabulosos salários. Por que os professores, por exemplo, não poderiam então fazer a mesma coisa?

Perceberam que se é escravo quando você não pode sair com tranquilidade à rua sem saber se será assaltado, violentado ou sequestrado. E, se você for pobre e negro ou de cor, se poderá acabar barbaramente torturado e morto por policiais corruptos, como um Amarildo qualquer. Ou, se você estiver na prisão, se acabará decapitado. Há muitas formas de ser escravo. E a pior das escravidões é o não saber que se é escravo. Às vezes, os escravos de verdade lutam por sair da sua situação, enquanto os que nos sentimos livres podemos ser mais escravos do que eles, sem sabermos disso. Pode-se ser escravo pela força e escravo por vontade própria. Pode-se ser interiormente livre vivendo na escravidão forçada, e pode-se ser escravo por dentro enquanto acreditamos ser livres.

Hoje, no Brasil, há aqueles que ainda são forçados a viver em condições de trabalho escravo, e quando são descobertos recuperam sua liberdade.

Mas há também os escravos voluntários. Os que não precisam de um feitor que lhes coloque as correntes nos pés; eles mesmos as colocam.

Somos cada vez mais escravos, por exemplo, de um consumismo desenfreado, fomentado não só por nossa natureza, que nos impele a possuir, mas também pela mão invisível do poder que usa todos os modernos instrumentos da publicidade para fazer com que nos sintamos escravos, insignificantes, perdedores e marginalizados se não conseguimos comprar o último modelo de tudo. Somos, afinal, escravos de nossa própria vaidade. Há mulheres da classe média que se sentem desconcertadas vendo que sua empregada pode usar o mesmo perfume que ela ou o mesmo modelo de celular ou a mesma geladeira. Já não se sentem exclusivas em seus objetos de consumo.

Somos escravos da vertigem das tecnologias digitais e nos sentimos felizes por sê-los, a ponto de que adoeceríamos se nos impusessem a abstinência das mesmas. Somos os modernos escravos que amamos nossas próprias correntes. E, como na síndrome de Estocolmo, chegamos a nos apaixonar pelos que nos escravizam, como, por exemplo, nossos políticos corruptos. Assim se explica que os políticos com menos escrúpulos, os mais desavergonhados, os que mais nos escandalizam, os que roubam com mais descaro, e os que são muitas vezes os mais medíocres culturalmente, acabem sendo os mais votados por nós em nossas urnas.

Sentimos mais fascinação pelo político que soube se impor e brilhar graças às suas formas corruptas de atuar e abusar de seu poder do que pelos que se esforçam em impor a ética na política.

É como as crianças que acabam admirando mais o colega violento, arruaceiro e malandro do que o gentil e generoso, mais o que bate do que o que apanha injustamente, mais o que nos subjuga do que o que nos acolhe.

Qualquer tipo de escravidão, livremente buscada ou imposta pelo poder, é uma arma nas mãos dos que nos governam, sobretudo se somos nós mesmos os que aceitamos livremente essas correntes e até nos sentimos confortáveis com elas. A liberdade às vezes nos dá mais medo do que a própria escravidão.

O Brasil vive um momento especial neste 2014, que se resume em três palavras: Copa do Mundo; possíveis novas manifestações de protesto e a ida às urnas.

Três momentos que serão importantes para medir o grau de vontade de quererem ser livres ou de preferirem continuar perpetuando uma parte da nossa própria escravidão.

Com a Copa do Mundo, será possível analisar a capacidade governamental de realizar, perante os olhos do mundo, um acontecimento dessa envergadura com resultados positivos que nos obriguem a nos orgulhar ou, pelo contrário, que demonstrem que não estávamos preparados nem para fazer gastos públicos milionários que não deixam uma marca positiva duradoura nem para suportar a presença de milhões de estrangeiros com nossas infraestruturas precárias (leia-se, por exemplo, aeroportos, estradas, hotéis, etc.) que desafinam diante dos modernismos e dos estádios às vezes inúteis, catedrais efêmeras da vaidade.

As possíveis novas manifestações de protesto, que desta vez poderiam se realizar sem a presença de grupos violentos, já que as forças da ordem agora estarão preparadas para neutralizá-las, serão um teste que revelará se era verdadeiro aquele despertar de junho passado, em que centenas de milhares de cidadãos revelaram que não queriam continuar sendo escravos da má gestão da vida pública e desejavam poder gozar dos benefícios da modernidade.

Ou se preferem continuar vivendo com as mesmas correntes de sempre – já que as promessas dos políticos, então assustados, ficaram quase todas na gaveta –, sem vontade para continuar reivindicando novos espaços de bem estar para todos, de liberdade cidadã e de uma maior participação na vida pública.

E as urnas de outubro serão o terceiro teste que revelará o grau de escravidão que se deseja perpetuar ou a vontade e capacidade de querer se libertar de certas incongruências políticas, como são nossos protestos contra políticos corruptos para depois continuar votando neles porque, no fundo, nos fascinam mais as sombras do que a luz, e esperamos mais dos violentos e prevaricadores, que tudo prometem embora depois nada ofereçam, do que dos honestos que oferecem menos, mas dos quais caberia esperar uma maior esperança de ressurreição e de liberdade.

Somos assim às vezes: escravos felizes.

Ano de fartura na DisneyLula

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Cada rincão onde aterrissar a companheira Dilma será uma apoteose. Ela será reeleita fácil

O ano de 2014 é um dos mais previsíveis dos últimos tempos. Dá até para começar a pensar em 2015. Como a opinião pública brasileira está cada vez mais anestesiada, vale lembrar aos distraídos o que, daqui a 12 meses, terá sido 2014.

Ano de eleição presidencial, portanto festa na DisneyLula. Cada rincão onde aterrissar a companheira Dilma será uma apoteose. Prefeitos e aliados por todo o território nacional, devidamente abastecidos com a dinheirama que arrombou os gastos federais em 2013, farão bonito para receber a presidente-candidata, retribuindo-lhe toda a sua bondade.

Dilma será reeleita com tranquilidade. A campanha será para evitar o aborrecimento de um segundo turno e liberar logo em outubro o Romanée-Conti para a companheirada. Quem preferir Dom Pérignon também poderá se servir à vontade. O governo popular é plural e não discrimina as minorias.

A oposição ganhará novamente o prêmio de melhor coadjuvante do petismo. Os adversários de Dilma tentarão desesperadamente parecer humildes, amigos dos pobres e estatizantes. Tentarão, enfim, com seus modernos marqueteiros, reproduzir a demagogia do PT para ganhar o eleitorado – e darão com os burros n’água mais uma vez, porque o eleitor não é bobo e sabe distinguir um demagogo autêntico de um imitador.

Em 2014, o Brasil sofrerá mais ainda com a pressão inflacionária, fruto da orgia populista. Mas esse e outros problemas reais do país não entrarão no debate eleitoral. O que se discutirá na campanha será o programa Mais Médicos – um truque de marketing fajuto que, sabe-se lá por quê, os brasileiros resolveram achar que é uma genial solução humanitária. A oposição, que só lê pesquisa e não pensa, já viu que a jogada deu certo e aparecerá com alguma versão incrementada da tolice, talvez o programa Muito Mais Médicos (substituindo os doutores cubanos por haitianos).

Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.

O Mais Médicos ajudará na reeleição de Dilma e, principalmente, na eleição do ministro da Saúde – que está há três anos em campanha – para o governo paulista. Depois de eleger prefeito um ex-ministro da Educação que não sabia aplicar provas do Enem, São Paulo não se deu por satisfeito e propiciará ao PT a tríplice coroa. Com o Palácio do Planalto, a prefeitura e o governo de São Paulo nas mãos, o PT mostrará ao país o que é bom para a tosse.

Lula terminará 2014 declarando – com mais ênfase do que nunca – que é preciso “democratizar os meios de comunicação”. Com a tríplice coroa no papo, o PT vai com tudo para o controle da mídia – a plataforma chavista em que o governo popular está mais atrasado, já tendo sido ultrapassado de longe pela companheira Cristina K., a viúva-negra.

O mensalão não será o menor problema para o PT no ano eleitoral. Lula até já disse “estamos juntos” ao condenado José Dirceu. Continua aparecendo nas pesquisas como o único capaz de vencer Dilma. Não tem jeito, eles mentem como ninguém, e o povo adora. Possivelmente, o Brasil ainda termine 2014 com pena dos “presos políticos” do valerioduto. Se o mensaleiro João Paulo Cunha se comparou a Nelson Mandela e não caiu no ridículo definitivo, o caminho está livre para o heroísmo parasitário.

Um mês depois da Copa do Mundo – que terá passeatas de manifestantes lunáticos contra tudo, menos contra quem torra seus impostos para se eternizar no poder –, o PT sentirá que a fatura da reeleição de Dilma está liquidada. E partirá para resolver Minas Gerais. Lula e Dilma gastarão todo o querosene necessário sobrevoando a Serra da Mantiqueira e pousando em cada palanque do ministro Fernando Pimentel, o consultor fantasma.

E ainda será o caso de queimar algum querosene no Rio de Janeiro. Num cenário cheio de candidatos mal-assombrados, o aventureiro Lindbergh Farias será o azarão do PT. E, se essa turma da pesada fizer Rio, São Paulo e Minas, além do Planalto, a grande noite dos vampiros estará longe de terminar. Mas não reclame: duas décadas passam voando (de AeroDilma).

O despreparo da governadora

O Estado de São Paulo

É perda de tempo, a esta altura, discutir se o Maranhão é um caso extremo do conhecido pesadelo prisional do País ou se o terror que se abateu sobre São Luís na semana passada - quando, cumprindo ordens vindas do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, na periferia da capital, bandidos incendiaram um ônibus, matando uma menina de 6 anos - poderia ter atingido, ou poderá atingir a qualquer momento, outras cidades que concentram grandes contingentes do meio milhão de presos no Brasil, quase sempre em condições igualmente desumanas.

Basta registrar que o roteiro da tragédia maranhense foi o já visto: sangrentos conflitos entre gangues pelo controle de cadeias, com mortes a granel, mobilizam forças policiais para "pacificar", com a costumeira brutalidade, os cárceres convulsionados; em represália e para fazer cessar a intervenção, os chefes das facções em confronto mandam destruir patrimônio e atacar civis, indiscriminadamente; as autoridades aparentam de tomar medidas reparadoras, anunciando planos que não passam de variações dos que os precederam e decerto serão tão ineficazes como aqueles.

Ocioso também é discutir os prós e contras da intervenção federal em Pedrinhas, que a Procuradoria-Geral da República estaria inclinada a solicitar. Ela simplesmente não ocorrerá. De um lado, pelas conhecidas resistências do Judiciário à iniciativa - um pedido do gênero, para o presídio Urso Branco, em Rondônia, lembra o noticiário, aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2008. De outro lado, porque não há a menor hipótese de que a presidente Dilma Rousseff, responsável última pelo ato, intervirá em algum Estado, por que motivo for, neste ano eleitoral - e ainda por cima no feudo do oligarca José Sarney, com quem o antecessor de Dilma se amancebou politicamente para carrear ao Planalto o apoio do PMDB.

O que não se pode deixar de ressaltar, isso sim, é o despreparo absoluto da governadora maranhense, Roseana Sarney, para entender e lidar com a crise cujo combate é sua responsabilidade objetiva. Por sinal, ela só invocou essa condição no único momento em que se exaltou na entrevista que só na quinta-feira ela se dignou conceder, ao lado do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ele havia sido despachado a São Luís para que não se dissesse que a chefe, a presidente da República, se omitia diante da tragédia e deixava a aliada à mercê de sua incompetência.

Quando uma repórter perguntou ao ministro se o silêncio de Dilma se devia à sua preocupação em não arranhar as relações do governo com o PMDB e a família Sarney, Roseana o livrou da enrascada para livrar o seu clã. "Isso não existe como família", se pôs a desmentir o óbvio, de cara fechada e indicadores erguidos. "Eu sou a governadora. Se tiverem de penalizar alguém, eu sou a responsável." Note-se, então, com que mentalidade ela responde pela situação. Declarou-se "chocada" com o "inexplicável" número de mortos - 62 - no interior do presídio desde 2013. No ano anterior foram 4. Até setembro passado, eram já 39 - o que, pasme-se, "estava dentro do limite que se esperava".

Trinta e nove homicídios em nove meses não seriam, pois, uma aberração. Os criminosos como que cumpriram a cota com que a governadora já contava. Até aí, em suma, tudo normal. Se a essa macabra contabilidade não se tivessem acrescentados desde então outros 23 corpos - vários decapitados -, a vida seguiria tranquila no Palácio dos Leões, a sede do governo, em meio a finas iguarias como aquelas descritas em dois recentes editais de licitação (um, cancelado) para abastecer as despensas e a adega palacianas - lagostas, caviar, champanhe, vinhos "de primeira qualidade" e scotch 12 anos.

É, o Maranhão vai bem - "um Estado que está se desenvolvendo, que está crescendo", comemorou Roseana na coletiva, antes de emendar: "E um dos problemas que está (sic) piorando a segurança é que nosso Estado está mais rico, mais populoso também". Em breve, de toda maneira, os crimes e castigos no Estado deixarão de ser de sua alçada. Em abril, ela renunciará para disputar uma vaga no Senado e garantir o lugar da família no Congresso. Foi uma decisão do pai.

Mortos sem pedigree

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

Se ninguém dá bola quando bandidos matam pais de família, por que haveria indignação quando presos resolvem decapitar seus pares no Maranhão, onde José Sarney é a fé, a lei e o rei? Que se virem! As trevas maranhenses são apenas um sintoma de um desastre humanitário silencioso.

Em novembro, veio a público o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com os dados referentes a 2012. Os "crimes violentos letais intencionais" (CVLI) somaram 50.108, contra 46.177 em 2011. A taxa saltou de 24 para 25,8 mortos por 100 mil habitantes. Na Alemanha, é de 0,8. No Chile, 3,2. Os "CVLI" incluem homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte. Nota: esses são números oficiais. A verdade deve ser mais sangrenta.

Segundo a ONU, na América Latina e Caribe, com população estimada em 600 milhões, são assassinadas 100 mil pessoas por ano. Com pouco menos de um terço dos habitantes, o Brasil responde por mais da metade dos cadáveres. O governo federal, o PT, o PMDB, o PSDB e o PSB silenciaram. Esse é um país real demais para produtivistas, administrativistas e nefelibatas. A campanha eleitoral já está aí. Situação e oposição engrolarão irrelevâncias sobre o tema. Prometerão mais escolas e mais esmolas. Presídios não!

Algumas dezenas de black blocs mobilizaram o ministro da Justiça, os respectivos secretários de Segurança de São Paulo e Rio e representantes da OAB, do CNJ e do Ministério Público. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, quer até um fórum de conciliação para juntar policiais e manifestantes. Sobre a carnificina de todos os dias, nada! Quem liga para cadáveres "pobres de tão pretos e pretos de tão pobres", como cantavam aqueles? No país em que os aristocratas são, assim, "meio de esquerda", segurança pública é assunto da "direita que rosna", certo? Os 400 e poucos mortos da ditadura mobilizam a máquina do Estado e a imprensa. É justo. Os 50 mil a cada ano só produzem silêncio. Dentro e fora dos presídios, são cadáveres sem pedigree.

E por que esse silêncio? É que os fatos sepultaram as teses "progressistas" sobre a violência. A falácia de que a pobreza induz o crime é preconceito de classe fantasiado de generosidade humanista. A "intelligentsia" acha que pobre é incapaz de fazer escolhas morais sem o concurso de sua mística redentora. Diminuiu a desigualdade nos últimos anos, e a criminalidade explodiu. O crescimento econômico do Nordeste foi superior ao do Brasil, e a violência assumiu dimensões estupefacientes.

Os Estados da região estão entre os que mais matam por 100 mil habitantes: Alagoas: 61,8; Ceará: 42,5; Bahia: 40,7, para citar alguns. Comparem: a taxa de "CVLI" de São Paulo, a segunda menor do país, é de 12,4 (descarta-se a primeira porque inconfiável). Se a nacional correspondesse à paulista, salvar-se-iam por ano 26.027 vidas.

Com 22% da população, São Paulo concentra 36% (195.695) dos presos do país (549.786), ou 633,1 por 100 mil. A taxa de "CVLI" do Rio é quase o dobro (24,5) da paulista, mas a de presos é inferior à metade (281,5). A Bahia tem a maior desproporção entre mortos por 100 mil e (40,7) e encarcerados: 134. Estudo quantitativo do Ipea (bit.ly/1gll0rL) evidencia que "prender mais bandidos e colocar mais policiais na rua são políticas públicas que funcionam na redução da taxa de homicídios".

Isso afronta a estupidez politicamente correta e cruel. Em 2013, o governo federal investiu em presídios 34,2% menos do que no ano anterior -caiu de R$ 361,9 milhões para R$ 238 milhões. Para mais mortos, menos investimento. Os progressistas meio de esquerda são eles. Este colunista é só um reacionário da aritmética. Eles fazem Pedrinhas. Alguém tem de dar as pedradas.

O dilema das prisões

Robert Muggah e Ilona Szabó De Carvalho (*)
O Globo

O sistema judiciário não precisa ser reinventado

A maneira pela qual uma sociedade trata sua população carcerária serve como medida de seus valores e de seu grau de civilidade. Uma análise do sistema de justiça penal brasileiro revela uma cultura que beira o sadismo. O país tem a quarta maior população carcerária do mundo. Mais da metade dos presos aguarda julgamento e um em cada cinco está detido indevidamente. Extremamente violentas e superlotadas, especialistas descrevem as prisões brasileiras como hediondas.

Muitos dos mal administrados presídios brasileiros são comandados por grupos criminosos que recrutam seus membros e organizam suas atividades de dentro das prisões. As penitenciárias brasileiras estão sendo preenchidas em um ritmo mais rápido do que podem ser construídas. A superlotação e as péssimas condições dos presídios existentes foram condenadas recentemente pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, mas, com uma média de 3 mil novos detentos todo mês, a situação se agrava a cada dia.
Além disso, nosso sistema penal é intrinsecamente elitista. À minoria dos detentos com diploma universitário ou cargo público é oferecida prisão especial, em melhores condições. Porém, mais de 80% dos prisioneiros não têm condições de contratar um advogado e em mais de 70% das comarcas não há defensores públicos. Como resultado, acusados são mais presos do que liberados. Os mortos sob custódia do Estado tendem a ser os mais pobres, conforme o Relatório Especial da ONU sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias.

Apesar de o problema das prisões ser amplamente reconhecido, quase nada mudou nos últimos anos, a não ser o aumento do número de presidiários. E por que as condições deploráveis persistem? Uma razão pode ser que a sociedade brasileira tolera o status quo. Criminosos, como o argumento dominante, não são dignos de preocupação pública. Pesquisas de opinião confirmam que muitos brasileiros apoiam penas mais duras e aceitam abusos contra presidiários. E os políticos brasileiros carecem de vontade moral e política que ultrapasse interesses eleitoreiros de curto prazo para levar a cabo reformas na direção certa.

Para que o Brasil resolva de vez a questão de seu sistema penal retrógrado, será necessária uma mudança drástica nas atitudes públicas. Transformações reais dependem de liderança política. A presidente Dilma Rousseff prometeu melhorar as condições das prisões, mas infelizmente essa agenda ficou estacionada. Se reformas fossem feitas, elas deveriam focar na redução da superlotação e no aprimoramento das condições das prisões. No nível federal, mudanças mais do que necessárias na legislação e aplicação da lei de drogas poderiam reduzir drasticamente o número de encarceramento de criminosos não violentos.

Estados deveriam ser encorajados a adotar alternativas à detenção provisória e investir em sentenças que dispensem custódia e em programas de reabilitação. O sistema judiciário não precisa ser reinventado. É preciso a implementação efetiva de algumas provisões básicas da Constituição, como a salvaguarda de direitos garantidos a todos independentemente da situação em que se encontrem.

(*) Robert Muggah é diretor de pesquisa e Ilona Szabó de Carvalho é diretora executiva do Instituto Igarapé

Há uma conta pesada à espera de 2015

Claudia Safatle
Valor

Benefícios fiscais de R$ 323 bilhões não aumentam o PIB

A despesa com benefícios fiscais deve atingir R$ 323,17 bilhões este ano. A evolução dessa conta, que compreende gastos tributários, renúncias de receitas e incentivos financeiros e creditícios concedidos pelo governo, tem sido rápida e crescente. O saldo, que era de R$ 196 bilhões em 2011, subiu para R$ 273,7 bilhões em 2013.

Do total estimado para 2014, com base em dados oficiais, apenas 9% constam do Orçamento da União - são os benefícios financeiros explícitos. Cerca de R$ 305 bilhões passam ao largo das despesas orçamentárias e só aparecem nas estimativas anexadas como demonstrativos dos gastos governamentais indiretos de natureza tributária.

Para se ter noção da ordem de grandeza, esses subsídios superam em muito a soma dos orçamentos dos ministérios da Educação e da Saúde. Este ano, o gasto com benefícios será R$ 130 bilhões a mais que as duas pastas, cujos orçamentos são de R$ 100,3 bilhões (Saúde) e R$ 92,44 bilhões (Educação). Em 2011 a diferença era bem menor, de R$ 55 bilhões.

No momento em que a política fiscal está colocada em xeque e se avolumam as expectativas de medidas fortes para dar um reequilíbrio geral nas contas públicas em 2015, olhar para essa despesa torna-se uma obrigação.

Só em 2011 o governo começou a quantificar, sem qualquer avaliação, as operações feitas de forma implícita (com base em diferenças de preços ou de taxa de juros entre o que o setor público paga e oferece).

José Roberto Afonso e Érica Diniz, especialistas em contas públicas, fizeram um trabalho para a Ibre-FGV, fundamentados nos dados disponíveis desde então e até meados de dezembro. Além de expor o valor dos benefícios fiscais - que em 2014 corresponderá a 6,16% do PIB em comparação com 4,73% do PIB em 2011 - eles mostram que a opção do governo no pós-crise foi avançar mais nas desonerações tributárias e nos financiamentos excepcionais do que no gasto com investimentos.

Em 2013 os benefícios somaram R$ 273,7 bilhões e os investimentos federais, R$ 47,7 bilhões. Para este ano os investimentos estão orçados em R$ 49,5 bilhões frente a mais de R$ 300 bilhões em benefícios.

Para definir a metodologia de cálculo, os autores deram o nome de benefícios fiscais ao total e dividiram os instrumentos em duas modalidades: gastos tributários e renúncias previdenciárias, onde estão incluídas as desonerações da folha, e os benefícios financeiros ou creditícios. Os primeiros se referem a desonerações que não passam pelo Orçamento e reduzem a receita potencial da União. Os demais correspondem a subsídios por meio de equalização de juros e preços, além de programas e fundos oficiais de crédito com juros abaixo do custo de captação do Tesouro Nacional.

Os gastos tributários e renúncias da Previdência somavam R$ 151 bilhões em 2011 e sobem para R$ 250 bilhões este ano, a preços constantes. Os financeiros e creditícios totalizavam R$ 45 bilhões e crescem para R$ 73,4 bilhões em igual período. As renúncias da Previdência somavam R$ 22,8 bilhões em 2011, atingiram R$ 33,7 bilhões no ano passado e chegarão a R$ 53,8 bilhões este ano. A desoneração da folha é a conta que mais pesa nessa rubrica, que era de R$ 800 milhões em 2011, subiu para R$ 5,22 bilhões em 2013 e vai superar R$ 22,7 bilhões este ano, quase 0,5% do PIB.

No governo há quem já faça avaliação crítica das desonerações da folha, sobretudo do seu alcance. Imaginava-se que ao reduzir esses custos da indústria, as empresas aumentariam os investimentos, colaborariam com o controle da inflação, elevariam as exportações e trariam, assim, toda a sorte de vantagens macroeconômicas. O que se mostrou até aqui é que elas usaram o ganho tributário para recuperar a margem de lucro, ficaram líquidas, mas não retomaram os investimentos e, por consequência, não geraram crescimento econômico.

José Roberto Afonso sugere "uma discussão urgente sobre os benefícios fiscais". Não só para o governo avançar na transparência das informações, mas para se ter uma avaliação sobre a eficiência dessa política. É necessário responder a perguntas como se reduzir receitas públicas é melhor do que aumentar gastos com investimentos; se desonerações de impostos e crédito barato resultam em aumento do gasto privado ou se apenas melhoram a rentabilidade e liquidez dos beneficiados.

As desonerações da folha, que têm prazo de validade legal até dezembro de 2014, podem ser cruciais para a indústria, mas talvez não o sejam para todos os mais de 60 setores contemplados. Desde a política de farta concessão de subsídios do governo Geisel, quando as empresas pagavam correção monetária pré-fixada de 20% sobre os empréstimos do BNDES, não há no país uma discussão pública e objetiva sobre os reais efeitos da concessão de subsídios para uns e outros sobre o desenvolvimento do país.

Não se trata de condenar a priori e por razões ideológicas o uso das renúncias, ou incentivos fiscais, como instrumentos para desenvolver políticas industrial ou social, mas de se ter noção da relação custo/benefício disso para alavancar o crescimento do país. Sem o Simples, que este ano custará $$ 58 bilhões, talvez as micro e pequenas empresas não sobrevivessem. Mas, como salientou o economista Marcos Lisboa em entrevista ao Valor, depois de 60 anos e com as ruas entupidas de carros é provável que não seja mais preciso conceder incentivo fiscal para montadoras.

Nos mercados, toda a expectativa de um rearranjo das contas públicas está sendo adiada para 2015, pois em ano de eleições não se faz ajuste fiscal. Pobre do presidente da República que assumirá, tamanho o "mal" que se espera que faça para recolocar receitas e despesas em ordem, seja cortando gastos ou aumentando as receitas de impostos. Reavaliar os benefícios fiscais pode ser um ponto de partida.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Muito oportuno o artigo de Cláudia Safatle sobre o monstro que está criado pelo governo Dilma quanto o tamanho que vai assumindo a conta de benefícios fiscais.Qual o perigo que isto representa? A queda cada vez mais acentuada da capacidade de investimentos do Estado.Não só isso. Na medida que este "monstro vai tomando proporções gigantesca, maior será a necessidade de se autofinanciar, o que implica em manter os juros em patamar elevado para que o governo consiga colocar seus títulos de dívida. 

Como o governo insiste em cortar despesas e diante do quadro acima, o que se observa é mais pressão sobre a inflação. Sobra para o BC tentar conter o dragão e, neste caso, a única ferramenta que lhe sobra é elevar a SELIC. Consequência: dentro deste círculo não sobra espaço para um crescimento mais robusto. 

Como esta  política suicida que vem sendo adotada pelo governo da senhora Rousseff, projeta-se para o próximo presidente, seja ele quem for, o pesado ônus de corrigir o rumo. Se Dilma for reeleita, rezemos para que a política econômica sofra profundas mudanças. Do contrário, estaremos jogando nossa estabilidade no lixo. Acreditem, não há plano B.


Meta cumprida e imaturidade reafirmada

Murillo de Aragão 
Brasil Econômico

A hora é de reafirmar a intenção de fazer um governo que funcione melhor para todos os brasileiros

No último dia 3 de janeiro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou o resultado do superávit fiscal. Disse que queria começar o ano dando boas notícias. Mantega ressaltou que os dados ainda não são definitivos e ajustes poderão ser feitos. Normalmente, esse número é divulgado na última semana de janeiro. O ministro quis antecipar o anúncio para sinalizar comprometimento do governo com a austeridade fiscal, depois de um ano de críticas e desconfiança em relação à política fiscal.

O Brasil cumpriu sua meta de superávit primário de 2013. Tempos atrás, afirmei que dificilmente chegaríamos aos R$ 75 bilhões acordados. Queimei a língua. Conseguimos cumprir a meta com sobra de R$ 2 bilhões. No entanto, ela foi cumprida com base em receitas extraordinárias do final do ano, em especial com o programa de refinanciamento de dívidas tributárias e o leilão do campo de Libra. O Refis rendeu ao governo R$ 20 bilhões. Já o leilão de Libra permitiu uma receita de R$ 15 bilhões. Isso sem falar nas receitas com as concessões Não foram feitas mágicas contábeis, mas tivemos de contar com o extra para cumprir a meta. Boa notícia, em termos. Caso tivéssemos feito o dever de casa, teríamos poupado muito além e reforçado a robustez fiscal do país.Conforme artigo de Miriam leitão, no Jornal O Globo (03/01/14), a meta do governo no início era de R$ 155 bilhões. Depois do governo abater gastos com o PAC e desonerações, foi entregue um resultado de R$ 130 bilhões.

Ao anunciar o cumprimento da meta, Guido Mantega deu um recado aos “nervosinhos” do mercado financeiro, que, como eu, achavam que o Brasil não cumpriria a meta. Em pronunciamento anterior, a presidente Dilma Rousseff também foi na mesma linha, ao atacar a “guerra psicológica” que se faz contra a política econômica. Ambos demonstram certo recalque e imaturidade que não deveriam existir por parte de nossas lideranças.

A credibilidade econômica do país foi abalada por conta de decisões tomadas no âmbito financeiro e fiscal do governo. As idas e vindas nos processos de concessão foram decorrentes de decisões governamentais e não do mercado. Essas decisões podem resultar em um rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de classificação de risco. A Standard & Poor’s anunciou que mudanças na nota brasileira podem ocorrer “antes ou depois” das eleições de outubro. De acordo com o responsável pela América Latina da S&P, Sebastian Briozzo, o descontrole do governo com as contas públicas deixou o país sem condições de contar com a política fiscal para estimular o crescimento. A agência está atenta à piora na relação entre a dívida bruta e o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, hoje em 58,8%, segundo o Banco Central.

Considerados os equívocos de condução da política econômica ao cumprir a meta fiscal com base em receitas extraordinárias, era hora de mostrar humildade, sobriedade e consistência. Mas isso não é suficiente. O governo deve reafirmar compromissos com a boa gestão fiscal do Brasil e com mudanças que façam do país um ambiente ideal para investimentos.

Deveria haver também um comprometimento claro com o cronograma das obras de infraestrutura e com medidas destinadas a acelerar o processo decisório do governo. Não é hora de confronto nem de ironias e, muito menos, de trocos. A hora é de reafirmar a intenção de fazer um governo que funcione melhor para todos os brasileiros.


Dilma governa o país na clandestinidade

Jorge Oliveira
Diário do Poder

Rio – O Brasil está derretendo. Existe uma sensação de vazio no poder e a presidente Dilma parece que administra o país clandestinamente. A inflação está sem controle (a oficial é manipulada por Guido Mantega), a indústria parou de crescer, quase 13 bilhões de dólares deixaram o país em 2013 – o pior resultado desde 2002.  Os recursos para combater o crime estão minguando, presos se estraçalham nos presídios do Maranhão e uma criança morre queimada dentro de um ônibus vandalizado por ordem dos bandidos. E para tumultuar mais ainda o governo vazio da Dilma, os fundamentalistas do PT, sob o comando de Rui Falcão, humilham o candidato Eduardo Campos no site oficial do partido, chamando-o de “tolo e “playboy mimado”, um desrespeito ao ex-aliado.

O desastre do último ano da Dilma é consequência de uma economia confusa, improvisada e atrapalhada do seu governo. A opinião de que Guido Mantega é limitado, obscuro e atabalhoado é unânime entre os importantes economistas brasileiros. Mesmo assim, a presidente tem medo de magoar o ex-presidente Lula, demitindo-o para reorganizar a base econômica que sofre com as decisões improvisadas, tiradas da cachola do ministro. A continuar essa inércia, não precisa ser nenhum expert em economia para prevê que o país desce ladeira abaixo depois de relativa estabilidade nos primeiros anos de Lula que pegou um país arrumado, depois do controle da inflação.

A inflação que está nas ruas, nos supermercados, nos restaurantes, nas passagens aéreas e rodoviárias, nas feiras livres, nos açougues e até nos setores culturais e de entretenimento  chega (um ingresso de cinema no Rio  chega a custar R$ 56,00) não é a mesma medida pelo governo da Dilma, que deveria ir aos supermercados para comprovar que Guido Mantega manipula os números. Dilma não tem parâmetros para medir os índices mentirosos da economia porque não gasta do seu dinheiro para fazer compras já que é mantida pelos contribuintes.

Na política, o PT baixa o nível da competição para impedir que seus concorrentes enfrentem a Dilma em igualdade de condição. Aécio Neves, por exemplo, entregou a família Marinho um relatório em que aponta o privilégio da Dilma no espaço diário do noticiário da TV Globo. Eduardo Campos sofre do mesmo problema. Enquanto a presidente é notícia até em festa de batizado, com destaque nas redes da Globo, os outros dois concorrentes amargam um profundo silêncio até mesmo nas suas atividades políticas.

Dilma anunciou agora que vai intensificar inaugurações do governo em todo o país. Como não tem obras relevantes no seu mandato vai inaugurar centenas de creches que não foram feitas nos primeiros anos do seu governo. Com isso pretende ocupar os espaços na mídia, inferiorizando os outros candidatos. É por ela ser presidente que os meios de comunicação, que embolsam milhões de reais em publicidade oficial, justificam a cobertura jornalística. Uma covardia com os outros candidatos.

A presidente usa um aparato de milhões de reais para cortar os céus do Brasil em campanha. Avião, equipe precursora, assessores federais e estaduais, transporte terrestres, hospedagem e alimentação, tudo gasto para inaugurar obra de vereador  no interior em plena campanha ano eleitoral. Enquanto isso, o governo entra em parafuso às vésperas da Copa do Mundo, cujas obras ainda estão se arrastando a tal ponto de receber críticas da FIFA, uma das organizações mais corruptas do mundo. Na ausência de comando do país, até o Joseph Blatter já puxou a orelha da presidente ao criticar a demora na conclusão das obras da Copa do Mundo, interferência indevida de um estranho na política interna brasileira.

Nessa altura do campeonato, quem sair por último apague a luz. Se até lá, claro, a luz não for cortada.

A ilusão brasileira

Nélida Piñón 
El País

Ibérica de raiz, mestiça, encantada pelo poder, heroica, marinheira, sensual, inclinada à intriga novelesca e à poesia, a alma do Brasil vive seu tempo mais iluminado

Narrativas astutas e mentirosas pautam a nossa história

FRANCESCO ZIZOLA 
Vista da favela da Matinha, junto ao bairro da Tijuca, de classe média. 

O país onde se nasce enseja uma visão utópica. Não há isenção na hora de defini-lo. Abordo o Brasil com cuidados. Acerto e me equivoco. Mas pouco importa. Quem acertaria lidando com um país que ostenta tal magnitude, com um território que ao sobrevoá-lo corre-se o risco de se pensar no Caribe, mas ainda se está dentro de suas fronteiras. E que a despeito desta desmedida, não sofre turbulências linguísticas. Com o privilégio de ser mestiço. No corpo e na memória sincrética. Uma mestiçagem que vai além dos corpos, pois tingiu a alma e devora as entranhas da sua cultura, que é insidiosa e esplêndida, como deve ser.

O Brasil é um amálgama de todos seres e saberes. Entre tantas etnias, somos fundamentalmente ibéricos, filhos da imaginação portuguesa e espanhola. Herdeiros de um universo impregnado de ficção, do faz-de-conta, de peculiar noção de realidade. De uma realidade que, concebida como uma invenção pessoal, cada qual narra segundo seus desígnios. Propensos nós, por conta de uma vocação individualista, a opor-se aos projetos coletivos, às organizações sociais programadas para durar. Com exceção talvez da construção acelerada da capital Brasília, que corresponde às pirâmides do Egito.

O realismo átrio é pautado em geral por forte dose de fantasia. Assim, inventar como fantasiar fazem parte da índole social. Daí agradar-nos aparentar o que não somos, exibir o que nos falta, simular a posse de bens que não temos; pedimos emprestados ao vizinho. Como consequência, proclamamos, eufóricos, que somos amigos do rei, do presidente, comensal do prefeito da cidade. E para ostentar um valor que não temos, tiramos com facilidade do bolso do colete um nome famoso, insinuando intimidade com ele.

Esta dança de aparência e exibição há muito instalou-se entre nós. Somos cortesãos com gosto. O poder é o mel das nossas vidas. Originou-se de variadas etnias, mas especialmente da península ibérica, e prosperou na alma brasileira antes de existirmos como nação. Um comportamento social que nos leva a inquirir sobre a nossa gênese.

Até mesmo os intérpretes brasileiros, que se aventuraram a definir nossa índole brasileira, que tão bem espelha a nossa conduta pública e privada, não puderam assegurar-nos de que linhagem originamo-nos, e o que nos une e nos separa. Ou excursionar com as mãos apalpando o horizonte o que é puramente do âmbito do mistério. Ou mesmo dizerem com exatidão onde se resguarda a matriz do nosso ser. Dizerem por meio das vozes canônicas e populares o que significava ser brasileiro ao longo do século XIX ou não se reconhecer brasileiro nas turbulências do século XXI.

Acaso ser brasileiro, um desígnio que cobre o território nacional, do norte ao sul, portanto oito milhões de quilômetros quadrados, é simplesmente nascer dentro deste território, ou mesmo a beira do oceano Atlântico, já que somos donos das duzentas milhas marítimas? É nascer em um lugar molhado ou seco, que não se vê no mapa nem com lupa? Uma aldeia à margem da civilização, que a mãe, após parir o filho, inventou para assegurar-lhe que embora tivesse vindo ao mundo em um grotão era um brasileiro? Enquanto enchia-lhe a cabeça com devaneios, lendas, narrativas, afim de garantir-lhe certidão de nascimento e humanidade.

Ser brasileiro então é termos epiderme e alma mestiças, resultantes das andanças humanas pelo mundo? Apresentar-se às autoridades municiado do documentos onde está consignada a filiação? Como nome dos pais, data de nascimento, dados enfim que se incorporam a estatística e controlam a cidadania? De que etnia procede seu cabelo, se é fino, encrespado, enquanto o nariz tem narinas dilatadas, de origem bantu, e outros o apêndice curvado para indicar procedência semítica. Etnias que de nada servem aos brasileiros, vale mesmo é ser parte de todas as tribos, proclamar-se filho das andanças humanas pelo mundo.

Acaso ser brasileiro é ter idiossincrasias similares, paixões que se igualam, temperamentos que acenam com a mesma bandeira nacional onde está inscrito o dístico Ordem e Progresso? Nordestinos que padecem da sede e sulistas que se perdem nos pampas, tomando chimarrão como se fossem argentinos?

É-se brasileiro pela língua que se fala no lar, na cama, na via pública? Independente do sotaque que cada região ostenta. Um anasalado, outro mais gutural, outro mais afunilado. Mas cada sotaque soando como música aos ouvidos de quem se emociona com a fragmentação das características. Uma língua vinda de Portugal há mais de quinhentos anos. E que se tornou a língua dos quebrantos, dos desejos eróticos, da eloquência parlamentar, dos sentimentos recônditos. A língua dos amantes e da poesia. Mas também dos guerreiros, dos corruptos que hoje são tantos no território nacional, sobretudo na capital do país, dos ditadores que foram expulsos a partir da implantação democrática em 1988, dos vândalos, dos supliciados de outrora e dos que ainda padecem nas mãos dos que têm poder. Também dos astuciosos, mentirosos, dos falsos donos das palavras, dos doutrinários inescrupulosos que nos tempos atuais, da tribuna da capital, nos ludibriam a pretexto de nos servir. A língua dos vencedores, dos pecadores. Dos que pedem perdão sabendo que incorrerão de novo na mesma culpa.

Há tantas maneiras de ser brasileiro. É rir confrontado com o ridículo que atribuímos ao vizinho como causador da situação constrangedora. Rir para que apreciem o nosso humor. É chorar quando a dor é pública e o nosso pranto prova a excelência do nosso caráter, como somos sensíveis diante da dor alheia. É abraçar quem sofre como se a manifestação de pesar assegurasse ao outro que seríamos eternamente solidários.

Ser brasileiro é dilacerar as cordas vocais na hora do gol, como modo de levarmos a ilusão para casa e com ela enfrentar a semana entrante a despeito do transporte, das dívidas que se acumulam, da educação precária dos filhos, da moradia que um temporal derruba matando dois ou três familiares. É beber a cerveja que o vulgo e a emoção chamam de loura gelada, como se estivessem se referindo quem sabe à loira Marilyn Monroe, criando com a garrafa um vínculo erótico. De forma que busquemos similitudes em torno da mesa e transfiramos para mais tarde as divergências que nos apartem. Já que convém esquecer que são escassos os recursos que nos une. É dizer piadas que atraiam a plateia de vizinhos, tendo como sujeito da nossa crueldade alguém que era necessário castigar. Um gay, por exemplo, um travesti, uma prostituta. Não há piedade em qualquer nação.

Aparentamos, então, ser cervantinos, somos brasileiros como quando abraçamos quem está próximo, o vizinho na hora do gol que decide a partida, fortalecidos pela esperança de vencer os embates da semana entrante. Como quando, emotivos e vulgares, sorvemos a cerveja que cristaliza similitudes em torno da mesa e transfere para o futuro as divergências que ora nos apartam.

Ser brasileiro é aceitar o mistério, convencido de que sendo Deus brasileiro, cabe-lhe solucionar os nossos conflitos. É saber que o Brasil é nossa morada e alojamento dos nossos mortos, e que nada nos faltará. Nem teto, nem a sopa fumegante. A vida supre-nos com sol, sal, alegria e a esperança dos dias vindouros.
Afinal, nos trópicos brasileiros as colheitas se multiplicam como nas bodas de Canaã. É a terra que Pero Vaz de Caminha, em 1500, assegurou ao rei Dom Manuel, em Lisboa, que aqui o que se plantasse, vingaria. Assim nasceram as bananas da infância junto com o fausto do verbo da língua lusa portuguesa. Para nós, cidadãos, é uma espécie de paraíso que bonifica a memória tanto com lembranças como com o esquecimento. Pois temos a propriedade de esquecer o que convém apagar. Também a transcendência, a despeito dos cultos sincréticos, e Deus estar em todos os lugares, não prospera e o enigma não é respeitado. Não há, pois, vocação filosófica, como os alemães. E por conta da força da intriga e da iminência da metáfora, somos voltados para a ficção e para a poesia.

A memória, contudo, que os brasileiros cultivam, corresponde à matéria que guardamos do mundo. Como consequência, para sermos brasileiro, somos gregos, romanos, árabes, hebreus, africanos, orientais. Somos parte essencial das civilizações que aportaram nesta terra onde afloram a abundância, a alegria, a traição, a ingenuidade, o triunfo do bem e do mal, a ilusão, a melancolia. Atributos todos nutridos pelo feijão preto bem temperado, o arroz soltinho, o bolo de fubá, o bife acebolado, e os anjos feitos de açúcar e gema de ovo que enfeitam a paisagem atlântica e sertaneja.

No Brasil, ao longo dos séculos, surgiram narrativas astutas e mentirosas que pautam a nossa história. Heróis e malfeitores, de estirpes emaranhadas. Outrora abominados, hoje reverenciados. Quem se interessa pelo julgamento da história? Mas personagens afinados com as torpezas e as inquietudes do seu tempo. Acomodados à sombra da mangueira que resiste aos anos, enquanto dedilhavam as cordas do violão e do coração.

Berço de heróis e marinheiros, neste litoral os saveiros da imaginação cruzaram os mares, instalaram culturas feitas das sobras alheias. Quem aqui nasceu, ou aqui aportou, fincou no peito brasileiro bandeiras, hábitos, linguagem, loucas demências.

É necessário, portanto, que ao viajar para o Brasil, o estrangeiro se apresse em dominar sua história, suas leis que, conquanto promulgadas, dão margem a interpretações múltiplas, coteje se o tema do seu interesse se harmoniza entre os diversos poderes públicos de Brasília. Se de verdade é o paraíso fiscal em que sonhou investir seu capital volátil, uma pretensão que contraria nossos interesses associados ao real desenvolvimento econômico do país. Sobretudo convém auscultar os sentimentos do brasileiro, sua simpatia, sua astúcia, a vocação com que altera as regras da vida e do mercado econômico. De como no meio de qualquer processo altera leis e diretrizes. De como ganha um tempo que, para o investidor, constitui um prejuízo, mesmo que as autoridades não saibam o que fazer com o tempo que guardou. Convém, sim, sondar o coração do brasileiro, que se reparte entre a família e os amores clandestinos, através da leitura dos intérpretes da pátria, dos ficcionistas, dos poetas. Deles emana a leitura que lhes dará o detalhe, a medida, as substâncias do ser brasileiro. A exegeses que vai fundo a genealogia dos afetos. Que tentou chegar perto deste coração brasileiro. Talvez se deslumbre com este povo singular, que trata o cotidiano com admirável leveza. E que a despeito de carnavalizar a realidade, também ostenta sintomas de melancolia.

É necessário saber e levar em conta, diariamente, de que nasceu no Rio de Janeiro em 1828, durante o Segundo Reinado, o escritor Machado de Assis, com nome de batismo Joaquim, cujo determinismo falhou ao não prever a própria grandeza. E de cuja obra surge o verbo que nos define e concede à nação um destino solar e a alvorada de cada dia.

Amigos, sejam todos bem-vindos a esta terra amada.

Início do futuro

Cristovam Buarque
O Globo

Historiadores vão poder observar se o ano de 2014 foi de início de mudança ou de continuidade

No futuro, quando estudarem nosso tempo, os historiadores ficarão surpresos ao constatar que, no início de 2014, cada criança brasileira nascia com um carimbo na testa, indicando se teria ou não escola de qualidade ao longo da vida. E se surpreenderão com o fato de que apenas entre 10% e 20% delas tinham o carimbo da perspectiva de qualidade na educação que as esperava. Ao aprofundarem os estudos sobre o século XXI, talvez identifiquem que a situação de 2014 teria sido superada por uma revolução educacional que ofereceu educação com qualidade para todos os brasileiros. Ou, em vez disso, os historiadores identificarão a continuidade dos dois carimbos como a causa do atraso brasileiro ao longo do século.

Os historiadores vão poder observar se o novo ano de 2014 foi de início de mudança ou de continuidade; se nas eleições nasceram políticas que apagaram os carimbos ou se mantiveram o Brasil dividido socialmente e separado do resto do mundo da modernidade científica e tecnológica, decorrente da desigualdade como a educação se distribuía e do desperdício por não ter sido oferecida a todas as pessoas.

O que vai inquietar os historiadores é a falta de explicação clara de por que os brasileiros deixaram isso acontecer. Poderão supor que o imaginário brasileiro nunca deu importância aos produtos da mente, preferiram os produtos da indústria; também que éramos um povo imediatista e preferíamos o consumo supérfluo ao investimento, especialmente em infraestrutura de efeito imediato, do que em educação, cujos efeitos são de longo prazo. Dirão ainda que, sendo uma sociedade dividida entre duas castas sociais, ao resolver a educação da casta superior, abandonava-se a educação da população em geral, jogando fora o potencial de dezenas de milhões de cérebros. Alguns especularão sobre estas hipóteses, mas nenhum conseguirá justificar como um país, com um único idioma, um território contínuo e um setor produtivo potente não fez a opção correta pela educação de suas crianças e pelo desenvolvimento de seu imenso potencial intelectual. Não entenderão como isso acontecia sem provocar a indignação das pessoas, nem uma revolução social.

Alguns historiadores mais vocacionados às análises econômicas vão comparar nossa história à de outros países da mesma época e ficarão surpresos com o que o Brasil perdeu por não usar seu potencial para construir uma sociedade eficiente e justa.

Talvez um deles consiga analisar o que se debateu no Brasil no ano de 2014 e conclua que foi um ano qualquer, parecido com os 350 anos durante os quais o Brasil atravessou a escravidão, sem optar por apagar os carimbos que marcavam a testa de cada criança, definindo se ela teria liberdade ou se seria escravizada quando crescesse. Três séculos e meio, sem que um futuro decente se iniciasse.

Fortes emoções

Sandro Vaia
Blog Noblat

Abaixa que aí vem lama.

Mal os reis magos terminaram a sua tarefa de entregar ouro, incenso e mirra ao menino recém-nascido, o que marca para o calendário gregoriano de nossas atribulações o início efetivo de um longo ano de trabalho, futebol e eleições, a pax natalina dá lugar às primeiras escaramuças de guerra.

Não vamos incomodar a nobre família Sarney, que conduz os destinos do Maranhão há quase 50 anos, lembrando coisas desagradáveis como a chacina dos presídios ou o ataque incendiário a um ônibus que matou uma menina de 6 anos.

O octogenário patriarca acha até louvável que a governadora - sua filhota - tenha conseguido circunscrever a violência às paredes internas dos presídios, enquanto ela se incomodou mais com a notícia do fato do que com o fato em si. São agruras, sim, mas nada que 80 quilos de lagosta ou 1.500 de camarão fresco não amenizem.

Mas não era a nobre família Sarney que queríamos incomodar. O período pós-reis magos serviu para registrar o clima em que a campanha eleitoral promete descambar, entre um gol de Neymar e outro, na épica busca por mais uma Copa -- que acontecerá com ou sem os pitos de Joseph Blatter. 


Os enternecedores olhos verdes do companheiro governador de Pernambuco, neto do lendário Miguel Arraes, subitamente se tornaram opacos, aquele seu sorriso franco ganhou um esgar de falsidade e aquele seu espírito de realizador, na verdade não passava do cínico oportunismo de um aproveitador mal agradecido, que ganhou todos os mimos do papai presidente e da mamãe presidenta, mas cuspiu no prato em que comeu.

Eduardo Campos cometeu o maior dos pecados que pode cometer um tutelado do poder: anunciou a sua intenção de tentar a sua carreira solo, de candidatar-se à presidência da República fora do regaço paterno, deu uma guinada à direita, transformou-se em instrumento da burguesia e não passarão nem 7 dias nem 7 noites para tornar-se, pasmem todos , num coxinha reaça, que é o maior e mais profundo dos insultos que o novo dicionário ideológico pós marxista foi capaz de produzir neste começo de século.

Um texto de autor anônimo - tão anônimo que nem o presidente do partido sabe quem é o autor - publicado no site do PT já ensinou ao dissidente atrevido com que tipo de gentileza é que se devem ser tratados os aliados quando se dão ao luxo de dissentir.

O texto chamou o governador de Pernambuco de “tolo”, de ingrato (adivinhem a quem ele deve tudo o que ele é?) e comemora o fato de seu histórico avô não estar vivo para presenciar tanta torpeza e traição, como essa de querer seguir seu próprio caminho.

Além da danação do fogo eterno a que condena o desertor, o texto, que Campos chamou de “ataque covarde”, antecipa as fortes emoções que o alto nível e a delicadeza do debate programático sobre os problemas brasileiros nos proporcionará na campanha eleitoral de 2014.

Demais da conta

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Espere que alguém no governo Dilma ainda diga que, para os padrões brasileiros, a inflação de 5,91% em 2013 não foi desastrosa e reafirme que desastroso é o pessimismo insuflado pelos analistas econômicos.

Mas, desta vez, o governo não tem nem mesmo a desculpa de que essa inflação aí é consequência da crise global, porque nos principais países em 2013 não passou de alguma coisa entre zero e 3%. Tanto o avanço nanico do PIB como essa inflação alta demais (de 0,92% em dezembro) devem-se mais a problemas nossos do que às mazelas do mundo.

O Banco Central também chegou a apontar o dedo para causas externas de inflação, mas, nos últimos documentos, tanto nos Relatórios de Inflação como nas Atas do Copom prefere dizer que a inflação está sendo causada por um ritmo forte da demanda, pela expansão dos custos da mão de obra muito acima da produtividade e pelos mecanismos automáticos de reajuste de preços (indexação).

Tanto quanto o crescimento econômico insatisfatório, essa inflação aí, renitente e excessivamente espalhada (alto índice de difusão, de 69,3%), é o resultado dos desequilíbrios provocados pela atual política econômica. E só não foi mais alta porque o governo está represando artificialmente os preços administrados, aqueles que dependem de vontade política para serem reajustados, como as tarifas de energia elétrica, de combustíveis e de transportes urbanos. Ao longo de todo o ano de 2013, os preços livres avançaram 7,27%, enquanto os preços administrados, que pesam 25% na cesta de consumo, avançaram apenas 1,5% (veja gráfico no Confira).

Não está claro até que ponto o governo pretende recompor os reajustes desse segmento de preços. De todo modo, começam o ano como foco adicional de pressão. Todos lutam por aumento de postos de trabalho, mas não dá para ignorar que a persistência de uma situação de pleno-emprego com baixa produtividade do trabalho continuará a puxar os preços para cima.

O Banco Central já deu inúmeras indicações de que está incomodado com o repasse da alta do dólar (desvalorização do real) para os preços internos. É outro foco.

Os protestos de junho chamaram à atenção do governo Dilma a respeito do estrago causado por uma inflação alta demais sobre o poder aquisitivo e sobre a disposição do eleitor de votar nos candidatos oficiais. Se as previsões da maioria dos analistas se confirmarem, 2014 terá uma inflação mais alta do que 2013. A última pesquisa Focus do Banco Central, por exemplo, aponta para 5,97%.

Se optasse por uma condução mais austera das contas públicas, o governo Dilma teria mais condições de derrubar a inflação, porque níveis mais baixos de despesa pública também contêm o consumo. Mas até agora não há indicação disso, especialmente num ano eleitoral.

Isso significa que sobra na vanguarda na luta contra a alta de preços a política do Banco Central que, no entanto, tem apenas uma arma à sua disposição: a alta dos juros básicos (Selic). Mas até onde precisam ir os juros para segurar a inflação em níveis civilizados?