domingo, janeiro 12, 2014

Demais da conta

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Espere que alguém no governo Dilma ainda diga que, para os padrões brasileiros, a inflação de 5,91% em 2013 não foi desastrosa e reafirme que desastroso é o pessimismo insuflado pelos analistas econômicos.

Mas, desta vez, o governo não tem nem mesmo a desculpa de que essa inflação aí é consequência da crise global, porque nos principais países em 2013 não passou de alguma coisa entre zero e 3%. Tanto o avanço nanico do PIB como essa inflação alta demais (de 0,92% em dezembro) devem-se mais a problemas nossos do que às mazelas do mundo.

O Banco Central também chegou a apontar o dedo para causas externas de inflação, mas, nos últimos documentos, tanto nos Relatórios de Inflação como nas Atas do Copom prefere dizer que a inflação está sendo causada por um ritmo forte da demanda, pela expansão dos custos da mão de obra muito acima da produtividade e pelos mecanismos automáticos de reajuste de preços (indexação).

Tanto quanto o crescimento econômico insatisfatório, essa inflação aí, renitente e excessivamente espalhada (alto índice de difusão, de 69,3%), é o resultado dos desequilíbrios provocados pela atual política econômica. E só não foi mais alta porque o governo está represando artificialmente os preços administrados, aqueles que dependem de vontade política para serem reajustados, como as tarifas de energia elétrica, de combustíveis e de transportes urbanos. Ao longo de todo o ano de 2013, os preços livres avançaram 7,27%, enquanto os preços administrados, que pesam 25% na cesta de consumo, avançaram apenas 1,5% (veja gráfico no Confira).

Não está claro até que ponto o governo pretende recompor os reajustes desse segmento de preços. De todo modo, começam o ano como foco adicional de pressão. Todos lutam por aumento de postos de trabalho, mas não dá para ignorar que a persistência de uma situação de pleno-emprego com baixa produtividade do trabalho continuará a puxar os preços para cima.

O Banco Central já deu inúmeras indicações de que está incomodado com o repasse da alta do dólar (desvalorização do real) para os preços internos. É outro foco.

Os protestos de junho chamaram à atenção do governo Dilma a respeito do estrago causado por uma inflação alta demais sobre o poder aquisitivo e sobre a disposição do eleitor de votar nos candidatos oficiais. Se as previsões da maioria dos analistas se confirmarem, 2014 terá uma inflação mais alta do que 2013. A última pesquisa Focus do Banco Central, por exemplo, aponta para 5,97%.

Se optasse por uma condução mais austera das contas públicas, o governo Dilma teria mais condições de derrubar a inflação, porque níveis mais baixos de despesa pública também contêm o consumo. Mas até agora não há indicação disso, especialmente num ano eleitoral.

Isso significa que sobra na vanguarda na luta contra a alta de preços a política do Banco Central que, no entanto, tem apenas uma arma à sua disposição: a alta dos juros básicos (Selic). Mas até onde precisam ir os juros para segurar a inflação em níveis civilizados?