quarta-feira, abril 29, 2020

O que a pandemia do coronavírus nos forçou a aprender?

Sofia Esteves, presidente do conselho do grupo Cia. de Talentos
Exame,com

Em sua coluna, Sofia Esteves, presidente do conselho da Cia de Talentos, destaca grandes tendências e mudanças provocadas pelo vírus

(Rike_/Getty Images)
Máscara feita em casa: o que estamos aprendendo na quarentena?

Passamos por diferentes fases ao longo da vida e, muitas vezes, quando insistimos em um caminho que não serve mais à nossa evolução, somos surpreendidos por algum fato que nos diz basta e então, somos obrigados a mudar de direção.

A questão é: quanto tempo perdemos negando as mudanças de comportamento que já estavam sendo anunciadas há tempos?

O Coronavírus chegou arrebatando todas as nossas certezas de estabilidade, colocou à prova o discurso tecnológico, ágil e humanizado de muitas empresas e nos relembrou que só é possível vencer um desafio quando ele é encarado de frente.

Sendo assim, não adianta ficarmos ansiosos pela retomada do mercado se antes não fizermos uma reflexão profunda sobre o que essa situação veio nos ensinar e as transformações que, mesmo após o final da crise, irão permanecer.


O que estamos aprendendo com o Coronavírus?

O isolamento social trouxe incômodos e o medo da contaminação gerou preocupação, mas foi o impacto econômico que a quarentena apresentou que mais assustou a população.

Em menos de dois meses 600 mil pequenas e microempresas fecharam suas portas ao redor do Brasil, gerando 9 milhões de desempregados, de acordo com pesquisas do SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às micro e pequenas empresas.

Em contrapartida, mais de 3 mil empresas aderiram ao movimento ‘Não Demita’, um manifesto que convida empresários a repensarem suas estratégias de sobrevivência à crise, evitando demissões e aplicando a responsabilidade social.

Reinvenção do capitalismo
O capitalismo que fomenta o lucro centralizado e o consumo excessivo revelou-se frágil e não passou no stress test. Como a edição passada da Revista Exame se dedicou a explicar, o nosso modelo econômico já vinha sendo questionado e agora, mais do que nunca, está sendo desafiado a se reinventar – o que impacta diretamente em como vamos criar, sustentar e distribuir renda em nossos negócios daqui a diante.

Responsabilidade social
Cada passo que os líderes das nações do mundo deram diante ao COVID-19 foram noticiados e marcados na história como inspiradores, ou como exemplos de péssima gestão.

Com as empresas não está sendo diferente. Frente ao medo de perderem seus empregos, profissionais do mundo todo olharam para seus gestores em busca de respostas e de esperança. A forma como os líderes estão respondendo a essa necessidade é que vai separar os líderes do futuro dos que, ainda, não entenderam que uma empresa de sucesso só é sustentável se as pessoas que a mantém ativa estiverem felizes e confiantes. Sendo assim, o cenário pós-pandemia traz às lideranças novas responsabilidades.

As empresas vão exigir gestores que além de serem altamente adaptáveis, também saibam gerir projetos e recursos em diferentes cenários, inclusive físicos. A gestão remota se tornou uma habilidade essencial para muitos setores e a busca por líderes humanizados deixou de ser um diferencial para se tornar requisito básico quando o assunto é gestão de pessoas.

Os colaboradores também foram convidados a serem mais ativos, fortalecendo a união e a colaboração na busca por soluções efetivas, ao invés de só esperarem respostas milagrosas de seus gestores.

Também presenciamos a sociedade cobrando cuidado das empresas e seus líderes, não só com seus colaboradores, mas igualmente com seus stakeholders e o público em vulnerabilidade social. Ou seja, a gestão terá que romper as barreiras das paredes do escritório e olhar para todo o seu entorno se integrando a um só ecossistema.

Saúde física e mental como prioridade
A retomada da economia será gradual, fazendo com que as pessoas se mantenham alertas sobre o medo de serem contaminadas e de passarem novamente por crises financeiras, o que agrava os casos de doenças que afetam a saúde mental dos profissionais.

Já é comprovado que a ansiedade e o estresse afetam o sistema imunológico e a tendência é que a sociedade passe a ter o autocuidado como prioridade. Dessa forma, rotinas de trabalho estressantes e lideranças tóxicas serão ainda mais questionadas.

As empresas terão que se adaptar a essa mudança de comportamento, redesenhando seus espaços físicos, benefícios aos colaboradores e modelos de gestão.

Home Office
A tendência é que o trabalho presencial se torne opcional ou necessário apenas em momentos pontuais. Porém, o desafio atual é encontrar meios de manter as equipes em conexão pessoal uns com os outros, o que fortalece os times e a geração de novos insights. Outro desafio importante é como a tecnologia pode criar ambientes de trabalho remoto que protejam os dados sigilosos das organizações.

Compartilhamento de Saberes
Contrariando a lógica do capitalismo tradicional, milhares de empresas compartilharam seus conhecimentos de forma gratuita através de lives e cursos ao longo da pandemia. O movimento acordou o prazer de aprender em milhões de profissionais e traz novos olhares para o valor da educação e a importância do modelo EAD de ensino.

Precisamos olhar para o digital
Ficou clara a importância das empresas reverem seus modelos de negócio, incluindo o digital como principal fonte de investimento.

Cautela no consumo
A recessão econômica já está mudando a forma como consumimos e a tendência é que a aquisição de produtos e serviços não essenciais sejam revistos. Logo, as empresas terão que reinventar seus produtos e modelos de negócio para sobreviverem a esse novo comportamento.

Menos concorrência, mais colaboração
Seguindo a tendência da reinvenção do capitalismo, muitas empresas concorrentes se uniram em prol de movimentos sociais como no caso do Santander, Itaú e o Bradesco. Os três maiores bancos privados do Brasil investiram juntos em uma ação de doação de 50 milhões de reais para a compra de equipamentos de saúde no combate ao Covid-19.

Esse movimento nos inspira a refletir como podemos nos unir mais às empresas que passamos tanto tempo investindo energia para superar. Será que se nos unirmos não vamos conseguir ir mais longe e mais rápido?

Comunicação e ciência
O Brasil vem sendo bombardeado por fakes news nos últimos anos e não foi diferente no caso da pandemia e percebemos o valor que tem uma comunicação clara e honesta. Junto a isso, a ciência relembrou ao mundo a sua importância para a nossa evolução e as pesquisas tendem a ser cada vez mais requisitadas na hora de investir em novos negócios e projetos.

Essas são algumas das transformações que o COVID-19 nos trouxe. De fato, esse momento marcou nossa geração e irá redesenhar a forma como vamos viver daqui a diante.

Te desejo uma boa reflexão e clareza para se manter aberto às mudanças necessárias para que o bem-estar coletivo e a economia possam ser restabelecidos o quanto antes. Boa jornada!




Coronavírus: quanto tempo uma pessoa leva para se recuperar da covid-19

James Gallagher
Da BBC News


 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
Profissionais de saúde turcos que contraíram a covid-19 e se recuperaram; 
quanto mais invasivo for o tratamento, mais longa é a recuperação

Com base nas poucas informações disponíveis até agora sobre o novo coronavírus, há sinais de que, para as pessoas infectadas que apresentam sintomas mais graves, o processo de recuperação da covid-19 parece ser longo.

E, quanto mais invasivo (e duradouro) for o tratamento recebido, mais tempo isso costuma levar.

A seguir, a BBC tira dúvidas, de acordo com os dados científicos disponíveis até agora.


E se eu tiver apenas sintomas leves?

A maioria das pessoas que desenvolvem a covid-19 têm apenas sintomas leves de tosse ou febre. Mas também podem sentir dor no corpo, fadiga, dor de garganta e dor de cabeça.

A tosse é inicialmente seca, mas algumas pessoas acabam tossindo também muco, contendo células pulmonares mortas pelo vírus.

Esses sintomas são tratados com descanso, muita ingestão de líquidos e analgésicos como paracetamol.

Para estas pessoas, o tempo de recuperação parece ser rápido: a febre costuma baixar em menos de uma semana, embora a tosse perdure por mais tempo.

Uma análise da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre dados de pacientes chineses aponta que, nesses casos, a recuperação ocorre, em média, em duas semanas.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
As pessoas se recuperam, em média, em cerca de duas semanas


E se eu tiver sintomas mais sérios?

Para alguns, a doença pode ficar muito mais séria. Isso tende a acontecer entre sete a dez dias depois da infecção.

A transformação pode ser repentina. A respiração fica mais difícil, e os pulmões ficam inflamados. Isso acontece porque, embora o sistema imune do corpo esteja lutando contra a infecção, ele exagera em sua reação, fazendo com que o corpo inteiro sofra efeitos colaterais.

Isso significa que alguns pacientes precisam ser hospitalizados para receber oxigênio.

"A falta de ar pode levar um tempo considerável para melhorar", disse à BBC a médica britânica Sarah Jarvis. "O corpo vai tentar se recuperar do excesso de danos e da inflamação."

Segundo Jarvis, nesses casos, o tempo de recuperação costuma variar entre duas e oito semanas, e a sensação de cansaço perdura.

E se eu precisar ser internado em uma UTI?

O estudo da OMS estima que uma a cada 20 pessoas vai precisar de cuidados intensivos, que podem incluir sedação e uso de respiradores mecânicos.

Qualquer internação em UTI, independentemente da doença, exige tempo para o paciente se recuperar. Eles são levados então para a ala de internação regular do hospital antes de voltarem para casa.

A médica Alison Pittard, reitora da Faculdade de Medicina de Cuidados Intensivos do Reino Unido, diz que a volta à vida normal pode levar de 12 a 18 meses, depois de qualquer período passado em uma UTI.

Para quem passa muito tempo em uma cama hospitalar, ocorre a perda de massa muscular. Pacientes sentirão fraqueza, e os músculos precisarão de tempo para se fortalecer novamente. Para alguns, será necessário fazer fisioterapia para voltar a andar.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Reabilitação de paciente de covid-19 na França; 
em alguns casos, os efeitos são de longo prazo


Por causa do estresse sofrido pelo corpo em uma UTI, há também a possibilidade de o paciente sofrer delírios ou problemas psicológicos.

"Parece haver um elemento adicional com esta doença: a fadiga viral é definitivamente um fator enorme" no estresse sobre o corpo, diz Paul Twose, fisiterapeuta de UTI no País de Gales.

Há relatos de pacientes em países como China e na Itália queixando-se de fraqueza no corpo inteiro, falta de ar depois de atividades simples, tosse persistente e respiração irregular. E que precisam de muitas horas de sono para se sentir bem.

"Sabemos de pacientes que têm precisado de um longo período, potencialmente meses, para se recuperarem."

Mas é difícil generalizar. Algumas pessoas passam períodos relativamente curtos sob cuidados críticos, enquanto outros precisam passar semanas internados usando respiradores mecânicos.


O coronavírus pode afetar minha saúde de longo prazo?

Não sabemos ao certo, já que não temos dados históricos amplos, mas podemos tirar lições de outras doenças semelhantes.

A síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) se desenvolve em pacientes cujos sistemas imunológicos entram em sobrecarga, causando danos aos pulmões.

"Há dados indicando que, mesmo cinco anos depois, algumas pessoas podem continuar tendo dificuldades físicas e psicológicas", afirma Twose.

O médico James Gill, clínico geral e palestrante na Escola Médica de Warwick, no Reino Unido, diz que, em alguns casos, é necessário apoio para restaurar a saúde mental do paciente.

"Quando você tem dificuldades respiratórias, o médico diz: 'Precisamos te colocar em um respirador. Você vai precisar dormir. Quer se despedir da sua família?'. Não é surpreendente que isso cause estresse pós-traumático nos pacientes mais graves. Para muitos, ficam cicatrizes psicológicas significativas."

É bom ressaltar que até em casos mais leves de covid-19 pacientes podem ficar com problemas de longo prazo, como fadiga.

Quantas pessoas já se recuperaram?

Por enquanto, é difícil obter cifras exatas. Até 26 de abril, a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que compila dados sobre a pandemia, estimava que 860 mil pessoas já estavam recuperadas, de 2,9 milhões de pessoas identificadas com a doença.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Paciente recuperado da covid-19 beija o chão de hospital no Marrocos; 
ainda não existe certeza a respeito da imunidade contra o vírus

Mas esses números têm discrepâncias, porque os governos usam diferentes métodos para fazer seus registros médicos. Alguns sequer publicam dados de pessoas recuperadas, e existe muita subnotificação: muitas pessoas com sintomas leves sequer serão testadas e contabilizadas por seus governos.

Modelos matemáticos estimam que de 99% a 99,5% dos pacientes se recuperam.

No Brasil, dados compilados pelo Ministério da Saúde até 25 de abril estimava em 50% os pacientes recuperados (os que tiveram alta hospitalar ou os que foram testados, mas superaram os sintomas sem precisar de internação) entre os 58,5 mil casos, segundo os dados oficiais, que também contêm subnotificações.

Eu posso adoecer da codiv-19 mais de uma vez?

Isso ainda é motivo de muita especulação, mas ainda há poucas evidências concretas sobre a duração da imunidade à covid-19. Acredita-se que pacientes que tenham conseguido vencer o vírus provavelmente criaram imunidade a ele, embora não haja dados suficientes a respeito.

Há relatos de pacientes sendo infectados mais de uma vez, mas acredita-se que isso se deva a testagens incorretas.

A questão da imunidade é uma das mais importantes no momento, para se entender quando medidas de isolamento social podem ser relaxadas e o quão eficientes serão as futuras vacinas contra o novo coronavírus.




O que já se sabe sobre o plano de Teich para afrouxar o isolamento social

Leonardo Desideri
Gazeta do Povo (Paraná)


| Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil 
Ministro da Saúde, Nelson Teich, promete anunciar plano
com diretrizes para afrouxar isolamento nos próximos dias

O ministro da Saúde, Nelson Teich, planeja anunciar uma diretriz para ajudar estados e municípios a planejarem suas políticas de isolamento social e, eventualmente, retomarem as atividades. O plano deve ficar pronto nesta semana e levar em conta três aspectos principais: a evolução da Covid-19, a estrutura do sistema de saúde e os recursos humanos disponíveis. “A gente já tem uma matriz pronta. Daqui a uma semana a gente entrega a diretriz completa, depois dos ajustes”, disse o ministro, na quarta-feira passada (23).

Segundo Teich, a suspensão de atividades proposta pelo ex-ministro, Luiz Henrique Mandetta, foi uma “medida absolutamente natural e lógica” para o início da expansão do coronavírus, mas o isolamento social “não pode não estar acompanhado de um programa de saída”. “Isso é o que a gente vai desenhar. Isso é o que a gente vai dar suporte para estados e municípios”, disse Teich.

A flexibilização do isolamento foi o principal motivo da contenda entre o presidente Jair Bolsonaro e Mandetta, que acabou na demissão do ex-ministro. Apesar disso, a especulada ruptura do novo ministro com as medidas de isolamento social da gestão passada ainda é tímida. Nas primeiras coletivas, Teich tem apenas sinalizado a intenção de criar um plano gradual de flexibilização do isolamento.

Na coletiva de quinta-feira (23), o ministro da Saúde disse que a formulação da diretriz “não quer dizer que a gente vai sair amanhã” e sugeriu mais uma vez que não é totalmente contrário ao distanciamento social. “Não existe uma escolha de isolamento ou não. É o isolamento na hora certa e a liberação na hora certa. A gente tem que definir isso no dia a dia. Essa capacidade de julgar e tomar a decisão é o que vai fazer com que a gente consiga ajudar a sociedade”, disse Teich.

Diferenças regionais terão grande importância

Uma tônica do discurso de Teich sobre o isolamento social tem sido a ideia das diferenças regionais. As propostas presentes no documento com as diretrizes para afrouxar ou intensificar o isolamento, segundo o novo ministro, deverão contemplar essas diferenças.

“O Brasil é absolutamente gigante e heterogêneo. Não tem como uma diretriz dessa não ser customizada para as diferentes partes do país, para os diferentes estados e provavelmente para as diferentes regiões”, afirmou o ministro na coletiva da quarta.

O ministro da Casa Civil, Braga Netto, reiterou o posicionamento de Teich na mesma coletiva. “Não tem como fazer um pacote para o país inteiro”, disse.

Segundo o ministro da Saúde, o documento que será apresentado pelo governo na semana que vem é um modelo “para ser usado nos estados, nas diferentes regiões”.


Critérios para afrouxar o isolamento

O documento com as diretrizes vai levar em conta três aspectos principais: as projeções sobre a evolução da Covid-19, a estrutura do sistema de saúde e os recursos humanos disponíveis.

Projeções matemáticas de curto prazo sobre o número de casos novos serão um critério importante, segundo Teich. O ministro relativiza, por outro lado, a confiabilidade de projeções a longo prazo.

“O que a gente tem percebido é que os modelos que projetam a longo prazo erram demais. O que a gente tem que fazer hoje é projetar a curto prazo e ser rápido o bastante, competente o bastante, para fazer o ajuste necessário. Mas não dá para querer adivinhar muito lá na frente, isso é impossível”, disse.

Teich criticou a repercussão de uma pesquisa com projeção a longo prazo do Imperial College, de Londres, em que se dizia que o Brasil poderia ter mais de 1 milhão de mortes caso abandonasse as medidas de isolamento social.

“Quando você vê esses números que são colocados aí, todos eles, quase sempre, são modelos matemáticos que tentam prever coisas que vão acontecer. Se você pegar, por exemplo, um número que veio, que foi o que mais assustou, que é o do Imperial College, eles falavam que 1.150.000 pessoas morreriam no Brasil, mas, com algum tipo de cuidado, cairia para 44 mil. Isso é impossível. Não tem medida que faz cair de 1.150.000 para 44 mil”, comentou o ministro.

Teich disse que outro critério relevante será a estrutura de leitos existentes no sistema de saúde de cada região e a sua porcentagem de ocupação. O ministro criticou a repercussão na imprensa sobre as taxas de ocupação de certos hospitais, afirmando que a capacidade de todo o sistema de cada município ou estado deve ser levada em conta, e não apenas a de hospitais específicos.

Por fim, o ministro mencionou como um critério das novas diretrizes os recursos humanos na área de saúde. A pandemia tem afetado intensamente os profissionais que trabalham na linha de frente do seu combate, o que também preocupa o Ministério em relação à capacidade de atendimento dos pacientes da Covid-19.

Como alguns estados já estão afrouxando o isolamento

Algumas Secretarias de Saúde de estados e municípios já começaram a afrouxar as medidas de isolamento social, e suas diretrizes podem servir de modelo para o documento do governo federal.

Uma das medidas mais comuns dos locais que têm adotado o afrouxamento é a exigência do uso de máscaras em lugares públicos. Em Belo Horizonte, por exemplo, uma das condições para o uso de transporte público é estar com máscara. Em Goiás, um dos estados que promoveu maior liberação das atividades comerciais, a exigência das máscaras vale para todas as pessoas que saírem de casa.

Outro elemento presente em diversos planos estaduais é a adoção de critérios distintos segundo as regiões do estado. O território do Rio Grande do Sul, por exemplo, poderá ser dividido em até 21 regiões, segundo o governador Eduardo Leite (PSDB). Minas Gerais será dividido em 14 regiões de saúde.

Dois estados, Santa Catarina e Goiás, já publicaram decretos relacionados a templos religiosos. A ocupação máxima desses locais, em ambos os estados, poderá ser de 30%. O mesmo limite foi imposto por decreto em Cuiabá (MT).
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País tem taxa de testagem de 29 a 13 vezes menor do que Alemanha, Itália, EUA e Coreia do Sul

Fabiana Cambricoli, 
O Estado de S.Paulo

Estes países que vêm investindo na ampliação dos exames para monitoramento ou controle da pandemia

  Foto: Omer Messinger/EFE
Alemanha tem taxa de testagem de 2.497 por 100 mil habitantes 

O número de testes de coronavírus contabilizados pelo Ministério da Saúde era de 151.463 até o dia 23 de abril. Já o volume de exames informado pelos Estados para o mesmo período era de 178.345, segundo levantamento do Estado. Independentemente da fonte considerada, o Brasil tem uma taxa de testagem hoje de 29 a 13 vezes menor do que a da Alemanha, Itália, Estados Unidos e Coreia do Sul, países que vêm investindo na ampliação dos exames para monitoramento ou controle da pandemia de covid-19.

Os dados federais e estaduais indicam que o Brasil fez até agora entre 72 e 85 testes por 100 mil habitantes. Na Alemanha, essa taxa é de 2.497; na Itália, ela chega a 1.966; nos EUA, o índice é de 1.580; e na Coreia, de 1.141, segundo dados governamentais e do site Worldometers. 

A escassez de testes e a falta de controle do governo brasileiro sobre o número de testados seguem sendo um problema mesmo após diversas declarações do novo ministro da Saúde, Nelson Teich, indicando que daria prioridade ao tema. Logo em seu primeiro discurso, ele ressaltou a importância da ampliação dos exames. “Para conhecer a doença, a gente vai ter de fazer um programa de testes. Esse programa vai ter que envolver o SUS, a saúde suplementar, a iniciativa do empresariado”, disse no dia 16.

Três dias após a posse de Teich, o ministério anunciou que ampliará para 46 milhões o número de kits de diagnóstico comprados, dos quais apenas 3,1 milhões estão previstos para serem entregues até quarta. Têm sido pouco discutidas, porém, as soluções para a dificuldade dos laboratórios públicos em processar rapidamente as amostras e a falta de um sistema inteligente de controle do número de testados no País.

Segundo especialistas, fica difícil entender o alcance real da epidemia sem essas informações. “A testagem é a principal ferramenta para confirmação dos dados e para qualquer decisão de organização da assistência e planejamento das próximas ações de controle. Está havendo um esforço das gestões estaduais e do ministério, mas precisamos de mais”, afirma Nereu Henrique Mansano, assessor técnico do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e responsável pela área de epidemiologia do órgão.

O cenário fez com que o ministro tivesse uma fala contestada nesta semana. Mesmo sem testes suficientes e alta subnotificação, Teich disse que “o Brasil é um dos países que melhor performa (sic) em relação à covid”, comparando o índice de mortes com o de países europeus. Como mostrou o Estado, a fala desagradou gestores da saúde e técnicos do ministério. Eles disseram que a comparação é incorreta, pois a falta de testes não permite afirmar quantos casos e mortes o País tem de fato.

Isolamento cai em 22 dos 27 estados antes de relaxamento da quarentena

Exame.com
Com informações  Agência O Globo

Em estados como Minas e Goiás, pressões políticas e empresariais sobre área da saúde acontecem em paralelo ao aumento da circulação de pessoas nas ruas

(Germano Lüders/EXAME)
São Paulo: adesão ao isolamento social pela população tem
 reduzido, o que pode aumentar a disseminação do coronavírus

Antes mesmo de governos estaduais afrouxarem medidas de isolamento social, 22 das 27 unidades da federação já vinham apresentando menor adesão da população à quarentena em comparação ao fim de março, segundo levantamento do GLOBO com base no “Relatório de Mobilidade Comunitária” disponibilizado pela empresa Google.

Apenas quatro estados da região Norte – Acre, Roraima, Amapá e Amazonas, cujo sistema de saúde da capital Manaus entrou em colapso – e o Piauí apresentaram, em abril, quedas de circulação de pessoas maiores ou iguais em relação às registradas no último mês.

Por outro lado, em meio a pressões de setores políticos e empresariais, ao menos sete governadores flexibilizaram, na última semana, medidas que restringiam a abertura de algumas atividades comerciais.

O levantamento do GLOBO considerou a média dos últimos sete dias úteis de março, excluindo feriados nacionais e fins de semana, e comparou-os com os dados de intervalo de tempo similar em abril, até o último dia 17, data mais recente no relatório de mobilidade.

A ferramenta da Google, baseada em dados de localização de usuários do aplicativo Google Maps em áreas como centros comerciais, restaurantes, estações de trem e pontos de ônibus, compara a movimentação diária de pessoas em relação ao período entre janeiro e fevereiro deste ano, antes do início medidas de isolamento social.

Na categoria que engloba a movimentação em pontos de acesso ao transporte público, alvos de menores restrições de governos estaduais e municipais, a queda de circulação de pessoas em âmbito nacional foi de apenas 53% em abril, contra 60% no fim de março.

Estados como Minas Gerais, com 43%, e Goiás, com apenas 41% de queda de circulação, figuram entre os que menos tiveram sucesso em reduzir a movimentação no transporte público em abril, segundo indica o relatório da Google.

Em relação a áreas comerciais não essenciais – isto é, excluindo mercados e farmácias – e atividades de lazer, todos os estados apresentaram maior circulação de pessoas em abril do que no fim de março. Alguns, no entanto, ainda apresentam reduções de movimentação acima de 60%, como Piauí, Ceará e Paraíba. Os dados são anteriores à última semana, quando governadores de estados como Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul anunciaram planos de flexibilização da quarentena.


Zema: alinhamento a Bolsonaro

Em Minas, o governador Romeu Zema (Novo) anunciou na última quinta-feira, ao lado de seu secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, um plano de retomada gradual do comércio, que deverá ser implementado pelas prefeituras. Zema vinha sugerindo a reabertura desde o último dia 9, após se reunir com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, mas enfrentou a resistência de seu secretário de Saúde, que chegou a afirmar que não havia previsão de flexibilizar a quarentena no curto prazo. O protocolo detalhado deve ser disponibilizado pelo governo de Minas nesta segunda-feira.

Opositores e até aliados apontam a ligação do governador com o setor empresarial – Zema era administrador de um grupo comercial antes de se lançar na política – como um dos fatores que explicam a insistência na reabertura. Zema vem adotando posição oposta à de seu desafeto político, o prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD), que tem defendido o endurecimento das restrições de circulação.

– A posição de Zema é vacilante desde o início da pandemia, mas ele em momento algum fez uma plena defesa do isolamento social. Ele tenta manter também um alinhamento com o governo federal, tanto é que foi um dos dois governadores que não assinaram a carta cobrando mais firmeza da União na garantia do isolamento – afirmou o deputado estadual André Quintão (PT-MG), líder da oposição a Zema na assembleia de Minas.


Titular da Saúde balança em Goiás

Embora tenha ameaçado até um rompimento com o presidente Jair Bolsonaro por defender a necessidade do isolamento social, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), assinou na última segunda-feira decreto que ampliou o funcionamento do comércio e permitiu aos municípios decidirem sobre regras de flexibilização. Diante de aglomerações no transporte público e no comércio de rua em Goiânia e outras cidades, Caiado ameaçou na última sexta “fechar tudo de novo”.

Em meio à fritura do então ministro da SaúdeLuiz Henrique Mandetta por Bolsonaro, Caiado gerou mal-estar ao declarar que acolheria Mandetta, seu amigo pessoal, na secretaria de Saúde de Goiás. A permanência do atual secretário, Ismael Alexandrino, foi defendida pelo presidente da Assembleia Legislativa de Goiás e por outros parlamentares, inclusive da base de Caiado.

Procurado, o governo de Goiás respondeu, através de nota, que o protocolo de reabertura foi baseado “nas recomendações do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública sobre o coronavírus”, e que não permite o funcionamento de escolas, igrejas ou academias. Através da assessoria de imprensa, Caiado afirmou ainda que se sente grato “pelo reconhecimento do trabalho feito por toda a equipe da Secretaria de Saúde de Goiás”.

Coronavírus: Falhas e divergências em sistemas impedem Brasil de saber número real de testes

Fabiana Cambricoli, 
O Estado de S.Paulo

Cruzamento de dados das secretarias estaduais da Saúde e do ministério revela duplicidade de registros, números não informados por incompatibilidade de programas e até casos em que exames para outros vírus respiratórios são contabilizados como covid-19

  Foto: Hélia Scheppa/SEI
Falhas e divergências em sistemas impedem Brasil de saber número real de testes 

Uma série de falhas e divergências entre os sistemas de registro de testes do Ministério da Saúde e dos Estados impede que o País saiba o número real de exames de coronavírus que foram realizados desde o início da pandemia. Levantamento feito pelo Estado com as 27 secretarias estaduais da Saúde do País e com o Ministério da Saúde descobriu problemas como duplicidade de registros, números não informados por incompatibilidade de sistemas e até casos em que exames para outros vírus respiratórios, como o da gripe, estão sendo contabilizados como testes do novo coronavírus.

O sistema oficial utilizado pelo governo federal para receber informações sobre os testes chama-se GAL, sigla para Gerenciador de Ambiente Laboratorial. É nele que os profissionais de saúde registram uma amostra quando atendem um paciente com suspeita de doença respiratória. Nessa fase, o exame é colhido e entra no sistema com o status de triagem. É responsabilidade do laboratório que recebe a amostra informar por meio do GAL que o material coletado passou para a fase de análise e, posteriormente, teve o resultado liberado.

O problema começa no fato de que nem todas as unidades de saúde e Estados são obrigados a utilizar o GAL. Com isso, nas estatísticas oficiais do Ministério da Saúde sobre o número de testados não entram exames feitos por laboratórios privados nem por Estados que, por livre escolha ou falta de opção, não utilizam o sistema.

É o caso do Distrito Federal e do Acre. No balanço federal enviado ao Estado na última quinta-feira, o DF aparecia com apenas 104 exames realizados. No levantamento do próprio Distrito Federal, porém, já tinham sido registrados naquela data mais de 15 mil – 5.100 do tipo RT-PCR (biologia molecular) e 10.508 testes rápidos.

A defasagem se dá por problemas de comunicação entre os sistemas utilizados pelo ministério e pela unidade da federação. “Com relação ao GAL, a não utilização dele é por conta de uma incompatibilidade com os sistemas já utilizados pela secretaria de Saúde. No entanto, a área técnica está trabalhando para realizar a migração o mais rápido possível”, informou a Secretaria da Saúde do DF.

No Acre, o GAL não está sendo usado porque o Laboratório Central do Estado (Lacen) está com equipamentos quebrados e não tem condições de processar as amostras dos casos suspeitos de covid-19. 

Diante do problema, o governo estadual fez uma parceria emergencial com o laboratório Charles Mérieux para análise dos testes, mas, como a instituição não utiliza o sistema GAL, os exames realizados não estão entrando no balanço oficial do ministério. Enquanto a pasta federal afirmou que apenas 260 exames foram feitos no Acre, o Estado já diz ter realizado 1.443.

Outra razão para a divergência nos números de alguns Estados brasileiros é a falta de contabilização dos dados da rede privada. A diferença fica clara com a análise das estatísticas do Ceará. Enquanto o Ministério da Saúde registrava 9.733 exames feitos no Estado até o dia 23 de abril, a Secretaria da Saúde cearense já computava 13.381 diagnósticos, uma vez que seu balanço inclui os exames dos laboratórios particulares. 

INVERSO

Se há Estados que registram mais exames do que o balanço federal, há unidades da federação na situação inversa. O Paraná, por exemplo, havia feito até o dia 23 cerca de 10,9 mil testes, mas o balanço federal mostrava 16,6 mil. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, o número informado pelo governo federal está errado porque inclui também exames para outras doenças respiratórias.

A duplicidade de registros é outro problema citado pelos Estados e distorce principalmente os números de amostras na fase de análise. No caso de São Paulo, por exemplo, o ministério registrava 15 mil testes esperando análise no dia 20 de abril, quando a fila estava em torno de 5 mil exames, segundo Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã e responsável pela rede de laboratórios de testagem paulista.

“O GAL não pode ser considerado um sistema de gerenciamento de análises clínicas, ele tem muitos problemas. Há várias inconsistências nos registros, há casos de duplicidade e até triplicidade, com o mesmo paciente sendo registrado três vezes porque teve três amostras colhidas – uma de cada narina e outra da orofaringe. Não há registro do CPF do paciente”, disse o diretor do Butantã.

No Rio Grande do Norte, problema similar foi relatado à reportagem: enquanto o ministério contabilizava no dia 20 de abril 2.823 amostras ainda em análise, o Estado afirmou que tinha na fila somente 117.  “É uma quantidade discrepante e irreal a informada pelo ministério. Praticamente não temos fila no Estado porque estamos conseguindo liberar os resultados em dois dias, em média. Acredito que o problema não seja o sistema em si, mas quem opera. Há uma rotatividade muito alta de profissionais nas unidades municipais. Sem padronização é muito difícil gerar uma informação de qualidade”, afirma Derley Galvão de Oliveira, diretor administrativo do Laboratório Central do Rio Grande do Norte.

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
Nelson Teich, ministro da Saúde 


LACUNAS

O próprio ministério admitiu ao Estado que o sistema utilizado tem lacunas, mas alegou que, embora não seja utilizado por todos os Estados, o GAL tem alta adesão. “O sistema GAL não é de notificação compulsória. Embora seja um sistema por adesão, possui uma base de dados robusta, contando com mais de 30 mil usuários, utilizado por mais de 1.200 laboratórios, 4.664 municípios e 8.211 Unidade Básicas de Saúde (UBS). Mostra um retrato do gerenciamento de informações laboratoriais no Brasil. Assim, é esperada divergência entre os dados do sistema e aqueles próprios administrados pelos demais gestores”, informou a pasta, que disse que a atualização do sistema ocorre de forma dinâmica, a todo instante. 

A pasta reconheceu que precisa melhorar o sistema de controle laboratorial e que atua para que o GAL traga, além de registros de laboratórios centrais dos Estados, os dados também das instituições privadas e de laboratórios de instituições de ensino. O ministério afirmou ainda que “trabalha para melhorar os seus sistemas de informação, incluindo a criação de um novo sistema de gerenciamento laboratorial, e em painéis de avaliação e monitoramento, inclusive com a parceria da equipe de tecnologia de informação da Petrobrás”.

Em início preocupante, Teich atrasa a entrega de equipamentos anunciados

Mariana Zylberkan 
Veja online

Kits de UTIs e respiradores ainda não chegaram às localidades que registram aumentos do número de casos de coronavírus

  Andressa Anholete/Getty Images
O novo ministro da Saúde, Nelson Teich 

Empossado há cerca de uma semana, o ministro da Saúde, Nelson Teich, está sendo criticado por secretários estaduais de Saúde pela demora na entrega de equipamentos essenciais ao atendimento de pacientes graves de coronavírus, que acusam o ministério de “paralisia gerencial”. “A sensação é de abandono. Há um abismo entre o que é anunciado e o que de fato chega aos estados”, diz o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame.

Um dos atrasos mais preocupantes é o da entrega dos 2.000 kits de UTIs, anunciados pelo ministério há cerca de um mês no início da pandemia no país, ainda sob a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Até agora, segundo dados do próprio ministério, só foram distribuídos 17% dos equipamentos prometidos.

A pasta também ainda não fez chegar nos estados os 14.100 respiradores que custaram 658,5 milhões de reais aos sofres do ministério. Até o momento, 230 equipamentos foram distribuídos, menos de 2% do divulgado por Teich. Há previsão de que cerca de 1.000 respiradores comecem a ser entregues a partir do próximo mês.

Em relação aos 3 milhões de testes rápidos a serem aplicados de forma geral – e não apenas aos agentes de saúde e de segurança -, um dos primeiros anúncios de Teich logo após ter sido nomeado ministro, nenhum foi enviado a estados e municípios. O ministério anunciou que as entregas serão feitas a partir da próxima semana.

Os kits de UTI são essenciais para aumentar a capacidade de atendimento nos estados que não dispõem de leitos de emergência, como na Região Norte do país, onde está o segundo município com maior número de mortes pelo Covid-19. Manaus (AM) registrou até esta segunda-feira, 27, 100,9 óbitos por 1 milhão de habitantes. Em primeiro lugar está Fortaleza (CE), com 102,1 mortes na mesma proporção. Segundo dados do ministério, Ceará e Amazonas ainda não receberam nenhum kit. Os estados contemplados com o maior número de equipamentos até o momento foram São Paulo (80), Rio de Janeiro (40) e Minas Gerais (50).

De acordo com Beltrame, os estados têm conseguido aumentar a capacidade de atendimento graças a doações de empresas privadas. “Não há mais  nenhum diálogo com o ministério”, diz.

Teich tem sido criticado pela falta de sensibilidade em relação à urgência de saúde pública imposta pela pandemia. Ele tem se dedicado, segundo interlocutores, a criar planilhas de custos e estabelecer critérios para entender onde estão os focos de infecção no país. O Ministério da Saúde, sob a sua gestão, passou a divulgar a proporção de casos confirmados de coronavírus por municípios de acordo com o índice populacional. Foi anunciado, por exemplo, que a maior parte das cidades pequenas com até 49 mil habitantes não tem registros da doença.

 Teich foi nomeado para comandar o Ministério da Saúde após uma série de desentendimentos entre Jair Bolsonaro e o ex-ministro Mandetta. O presidente é contrário à política de isolamento social imposta pelos estados na tentativa de frear a curva de infectados e, assim, evitar o colapso na saúde pública. Nesta segunda-feira, Teich voltou a afirmar que não irá fazer mudanças bruscas para determinar o fim da quarentena nas localidades onde há maior número de casos.

Até esta segunda-feira, foram registrados 66.501 casos confirmados de coronavírus no país e 4.543 mortes.

Em 24 horas, Brasil tem 449 mortes e recorde de 6.276 novos casos

Da redação
Exame.com

Os casos confirmados do novo coronavírus já encostam nos 80 mil, com 78.162 pacientes que contraíram a doença, e as mortes 5.466

ATUALIZADO ÀS 17:00 HORAS

 (Bruno Kelly/Reuters) 
 Brasil está entre os países com o maior número de mortes pela doença


Um dia após superar as mortes da China, o Brasil chegou a 5.466 mortes pelo novo coronavírus, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados nesta quarta-feira, 29. Em 24 horas, foram mais 449 vítimas da covid-19, uma alta de 9% em comparação com os resultados de ontem.

Já os casos confirmados da doença chegaram a 78.162. Em apenas um dia, foram 6.276 novos pacientes comprovadamente infectados pela doença. De acordo com os dados, há, ainda 38.564 pessoas em acompanhamento, 34.132 recuperados e 1.452 óbitos em investigação.

Ontem, pela primeira vez, o ministro da Saúde, Nelson Teich, assumiu que a alta exponencial dos últimos dias não tem mais relação com maior testagem ou com exames represados: “Agora, a gente tem que abordar isso como um problema. A curva que vem crescendo mostra o agravamento da situação”.

Com os dados dessa semana, o Brasil entrou para a lista dos dez países que mais registram vítimas da doença, segundo levantamento do site Worldometers.

Mas dados analisados pela EXAME mostram que, com os mais de 2,5 mil casos potencialmente não notificados, o Brasil pode ser o sexto país com mais mortos — atrás apenas de Estados Unidos, Itália, Espanha, França e Reino Unido.


E daí? e conta das mortes

Logo após as mortes no Brasil superarem as na China, país onde a doença se originou, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que lamenta, mas não tem o que fazer: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse Bolsonaro.

Hoje, em novo pronunciamento, o presidente disse que não se responsabiliza pelas mortes causadas pela covid-19. Segundo ele, “a conta” deve ser direcionada para os governadores e prefeitos que adotaram medidas de restrição.

Ele citou em especial João Doria (PSDB), governador de São Paulo, estado mais afetado pela doença.

“Não adianta a imprensa querer colocar na minha conta essas questões que não cabem a mim”, destacou. “O Supremo (Tribunal Federal) decidiu que quem decide essas questões (sobre restrição) são governadores e prefeitos”, disse.

No início da tarde, Doria rebateu as declarações do presidente e cobrou respeito pelas vítimas da pandemia. “Saia dessa sua redoma de Brasília e venha visitar comigo o Hospital das Clínicas, o Hospital do M’Boi Mirim aqui na capital de São Paulo e os hospitais de campanha. Venha ver a ver a gripezinha e o resfriadozinho, as pessoas agonizando nos leitos“, disse.

Top 6? Brasil pode ter 2,5 mil mortos não notificados por coronavírus

Clara Cerioni
Exame.com

Explosão de mortes por doenças respiratórias e de óbitos registrados em cartórios indicam forte subnotificação, um problema também visto em outros países

(REUTERS/Bruno Kelly/Reuters)
Mortes por covid-19: estados lutam contra o tempo 
para abrir valas comuns e garantir enterro das vítimas 

O Brasil atingiu nesta terça-feira, 28, a marca de 5.017 óbitos pelo novo coronavírus e, com esse resultado, entrou para a lista dos dez países que mais registram vítimas da doença, segundo levantamento do site Worldometers. Mas os dados mostram que, com os mais de 2,5 mil casos potencialmente não notificados, o Brasil pode ser o sexto país com mais mortos — atrás apenas de Estados Unidos, Itália, Espanha, França e Reino Unido.

Assim como faltam testes para pacientes com sintomas, também há em todo o país uma subnotificação daqueles que morrem, mas não têm um diagnóstico positivo ou negativo para a covid-19.

Sem diagnóstico específico, os óbitos são registrados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma classificação que engloba uma série de doenças respiratórias, como influenza A e B e, agora, a SARS-Cov-2, nome científico do novo coronavírus.

Segundo o InfoGripe, plataforma do Ministério da Saúde em parceira com a Fiocruz que reúne dados de doenças respiratórias no país, na primeira semana de março as mortes classificadas como SRAG começaram a crescer exponencialmente em comparação com os cinco anos anteriores.

“Para entrar na classificação de SRAG, o paciente precisa apresentar um conjunto de sintomas bem definido: febre, tosse ou dor de garganta e dificuldade respiratória. A identificação de qual é o vírus respiratório que a levou a óbito é uma segunda etapa”, explica Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe.

Os números revelam que, em seis semanas, de 1º de março a 18 de abril (último dado disponível), o Brasil registrou 5.239 óbitos classificados como SRAG. Nos últimos cinco anos, a média para o mesmo período foi de 770 mortes por doenças respiratórias. Nem mesmo o ano de 2016, quando houve o segundo maior surto de H1N1, chega próximo aos dados deste ano.


De acordo com Gomes, há um conjunto de fatores que reforçam a hipótese de que esses 700 óbitos de diferença entre os registros de covid-19 e SRAG podem ser, em grande parte, o novo coronavírus.

“Temos um desafio de capacidade laboratorial para processar os exames, mas as informações são ricas: neste ano, a faixa etária acima dos 60 anos predomina as mortes, enquanto outros vírus costumam atingir mais as crianças. O volume de óbitos também é completamente atípico”, diz.

Segundo o Ministério da Saúde, atualmente, além das mortes já confirmadas, há ainda 1.136 óbitos em investigação. Em entrevista técnica nesta segunda-feira, 27, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, explicou que diariamente há um acréscimo nos dados de óbitos que ocorreram em momentos distintos, mas só agora estão sendo encerrados.


 (Boletim Epidemiológico/Ministério da Saúde/Reprodução)

Outra fonte de dados que reforça a hipótese de subnotificação das vítimas do novo coronavírus é o Registro Civil dos cartórios de atestados de óbitos. De 1º de março a 28 de abril, o número de mortes com suspeita ou confirmação da covid-19 é de 5.049, uma diferença de 500 óbitos dos dados oficiais da pasta da Saúde.

Além disso, entre 26 de fevereiro, data em que o primeiro caso de infecção por coronavírus foi registrado no Brasil, até 17 de abril, os cartórios brasileiros registraram alta de 43% no número de mortes por causa indeterminada notificada.

Segundo dados do do Portal da Transparência do Registro Civil, em 2020, o país teve 1.329 mortes por causa indeterminada no período mencionado. Em 2019, 925 óbitos do tipo foram registrados pelos cartórios no mesmo intervalo. 

“O grande problema de o país não ter o real número de pessoas que morreram pelo novo coronavírus é que não saberemos quando atingimos o pico da pandemia, nem mesmo quantos doentes ainda mais teremos. Estamos fazendo um voo cego em meio a uma tempestade”, afirma Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa e professor da faculdade de Saúde Pública da USP.


Tendência internacional

O desafio de identificar corretamente o maior número possível das vítimas da covid-19, contudo, não é exclusivo do Brasil. De acordo com um levantamento da revista britânica Financial Times, as mortes pela doença podem ser 60% maiores do que os 200 mil reportados atualmente.

Em uma análise de 14 países, a publicação identificou 122 mil óbitos acima dos níveis normais nas localidades, em comparação com dados dos últimos cinco anos. A estimativa representa um aumento de 50% na mortalidade geral em relação à média histórica dos locais estudados.

“Não há dúvidas de que a covid-19 está causando gravidade em todo o mundo. O vírus da influenza já tem um padrão esperado, não é possível crescer vinte vezes ou mais de um ano para outro”, diz Antônio Carlos Bandeira, coordenador da área de infectologia do Hospital Aeroporto, em Salvador, capital da Bahia.

O infectologista reconhece que é desafiador afirmar que há mais mortes da covid-19 do que os números mostram. “Mas então eu pergunto: me prove que não é o novo coronavírus. Ninguém vai conseguir”, afirma.




Cemitérios da zona norte do Rio constroem milhares de novas gavetas

Caio Sartori e Wilton Júnior, 
O Estado de S.Paulo

Além das mortes confirmadas por covid-19, Estado vê crescimento radical no número de óbitos por 'causas indeterminadas'

  Foto: Wilton Junior/Estadão
Centenas de urnas estão sendo construídas no cemitério de Inhaúma 

RIO - Com a pandemia do novo coronavírus, os cemitérios de Irajá e Inhaúma, na zona norte do Rio, estão construindo milhares de novas gavetas para abrigar corpos. O Estado sobrevoou de drone a região de Inhaúma na tarde desta terça-feira e constatou que pelo menos 30 blocos, de tamanhos variados, estão sendo erguidos. Cada um tem capacidade para pelo menos centenas de mortos. 

Em Irajá, o helicóptero da TV Globo também flagrou construções. São 24 blocos já erguidos e, assim como no caso do outro bairro, cada um pode abrigar centenas de corpos.

  Foto: Wilton Júnior/Estadão
Centenas de urnas estão sendo construídas no cemitério de Inhaúma 

O Rio registrou, até a tarde desta segunda-feira, 677 mortes pela covid-19. Além delas, contudo, também há um aumento radical no número de óbitos por “causas indeterminadas” nos cartórios fluminenses. Foram 310 entre o final de fevereiro, quando o País teve o primeiro infectado pelo coronavírus, e o último dia 18. O aumento é de 52 vezes em comparação com o mesmo período do ano passado, quando apenas cinco foram registradas.

Além das causas indeterminadas, as mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) também dispararam no Rio, segundo os registros cartoriais. Foram 130, contra seis no mesmo período do ano anterior. Ou seja, aumentou em 21 vezes. 

Em meio a esse cenário, a Prefeitura da capital fluminense publicou nesta terça-feira, 28, uma medida que autoriza empresas funerárias a fazerem, elas próprias, os registros de óbitos, para evitar uma sobrecarga nos cartórios. 

Procurada para dar um número exato de novas gavetas, a concessionária Rio Pax, que administra os cemitérios de Irajá e de Inhaúma, não respondeu aos pedidos de informação do Estado.


Sem transparência sobre fila de UTIs, Justiça opera para garantir atendimento a pacientes de covid-19

Beatriz Jucá
El Pais

País desconhece estrutura total disponível em hospitais públicos e privados, fundamental para planejar atendimentos e preservar mais vidas. Famílias de pacientes entram com ações judiciais para obter leitos


 Paciente em um hospital de campanha da Espanha.

Dois meses depois de confirmar o primeiro caso de coronavírus e após superar a marca de 4.500 mortes, o Brasil ainda não sabe qual é a sua capacidade total de leitos de terapia intensiva disponíveis para tratar os pacientes mais graves com a covid-19. Essa estrutura ―que inclui equipe médica especializada e aparelhos como respiradores e ventiladores mecânicos― garante a ajuda necessária para que pacientes consigam respirar durante a fase mais aguda da infecção que acomete os pulmões enquanto ainda não há medicamentos com comprovação científica capazes de curá-los. Embora alguns hospitais públicos de referência em diferentes Estados (como por exemplo São Paulo e Rio de Janeiro) anunciem ter chegado ao limite de suas capacidades, nem o Governo Federal nem os Estados iniciaram ainda uma gestão unificada dos leitos de UTI ― da rede pública, da rede privada e do terceiro braço complementar que vem sendo estruturado para tratar exclusivamente casos suspeitos da covid-19 nos hospitais de campanha. Segundo especialistas em saúde, a medida é decisiva para estabelecer regras e garantir que pacientes graves não fiquem sem esses leitos em meio à crise sanitária num país cujo sistema de saúde é historicamente desigual. Sem isso, afirmam, é difícil até encaminhar pacientes para unidades de saúde que ainda tenham leitos de terapia intensiva disponíveis.

O problema é grave e já chegou à Justiça. Em diferentes locais do Brasil, familiares de pacientes com suspeita da covid-19 à espera por um leito de UTI da rede pública têm entrado com ações judiciais. A legislação federal e mesmo os planos de contingência formulados pelos Estados para enfrentar a pandemia preveem a possibilidade de o Governo assumir a gestão também dos leitos de hospitais privados em casos emergenciais como é a crise do coronavírus, desde que paguem por eles. Países como Espanha e Irlanda o fizeram, com o objetivo de garantir um acesso à saúde mais democratizado para toda a população.

Se o debate sobre uma fila única entre as UTIs públicas e privadas é mais complexo, decisões judiciais recentes no Brasil dão conta de que essa unificação na gestão dos leitos ainda não funciona sequer dentro do próprio SUS, que inclui equipamentos gerenciados por municípios, Estados e pelo Governo Federal. Na última semana, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que hospitais federais passassem a “realizar efetiva cessão de seus leitos livres para a regulação unificada", que deve ficar a cargo do Estado. Somente um dos hospitais referência para a covid-19 no Rio de Janeiro ainda tem vagas de UTI disponíveis.

Por enquanto, a decisão da justiça fluminense inclui apenas as estruturas hospitalares do SUS. Deixa de fora, por exemplo, os leitos de hospitais privados. No início do mês, diversas entidades de saúde chegaram a publicar um manifesto em defesa de uma fila única de todos os leitos de terapia intensiva. Elas defendem que é urgente essa centralização pelo Governo Federal, que poderá planejar transferências de pacientes para regiões mais desafogadas e estabelecer critérios de gravidade e uma ordem de chegada para que a população não fique sem acesso a uma estrutura fundamental para sua sobrevivência caso seja acometida gravemente pela covid-19. No Brasil, os leitos de UTI estão divididos meio a meio entre hospitais públicos e privados, mas estes últimos atendem a apenas um quarto de toda a população.

“Tendo um estoque único, do SUS, do não SUS (setor privado) e da rede extraordinária (criada para a pandemia), você orienta a ocupação deles por critérios de gravidade, de chegada do paciente. Se você não regula isso urgentemente, vai ser regulado aos pedaços pela Justiça. E aí vamos ter um sistema mais desorganizado e com maior desigualdade”, afirma o professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Mário Scheffer. Ele pondera que, para estabelecer a fila única, há que se considerar o direito dos usuários dos planos de saúde e também um pagamento justo dessas estruturas ao setor privado, mas defende a medida durante a emergência sanitária como forma de amenizar as desigualdades e evitar que pessoas morram na fila de espera.

O problema é que, neste momento, não há sequer informações centralizadas em nível nacional sobre qual a estrutura total de terapia intensiva disponível atualmente para receber pacientes com a covid-19. No painel que criou após recomendação do Ministério Público, o Ministério da Saúde informa que o país tem 30.941 leitos de UTI, mas não há informações sobre as taxas de ocupação deles. Ou seja, o Governo expõe o número total dessas estruturas no SUS e na rede privada, mas não diz qual a margem ainda está disponível para receber pacientes enquanto o país já chega a 61.888 infectados. O Ministério da Saúde até chegou a publicar uma portaria no dia 9 de abril para que hospitais públicos e privados que prestam serviço ao SUS informem diariamente a taxa de ocupação de seus leitos ―inclusive prevendo multas de 75.000 a 1,5 milhão de reais em caso de descumprimento― e anunciou que esse painel seria divulgado, mas cerca de duas semanas depois a sociedade continua no escuro qual é a estrutura que está de fato disponível hoje no país.

Se o Governo Federal não apresenta esse monitoramento atualmente, as secretarias estaduais da Saúde também não têm esses dados unificados. O EL PAÍS entrou em contato por e-mail com os 26 Estados e o Distrito Federal para saber a taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva tanto na rede pública quanto na rede privada em meio à crise do coronavírus. As respostas das 12 secretarias (RJ, DF, RS, PR, CE, RR, MT, TO, PE, RN, AC e AL) apresentaram algum dado, e ainda assim a maioria difuso. Nenhuma delas informou a taxa de ocupação de leitos de UTI privados, ainda que alguns Estados (como o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro) informem o número total dessas estruturas nos hospitais particulares. O monitoramento é importante inclusive pelo fato de que, caso o sistema privado colapse, caberá ao SUS (um sistema para todos) receber a demanda.

Em geral, as secretarias anunciam seus planos de abrir mais leitos e, quando muito, dão a taxa de ocupação de leitos de UTI do SUS ― dados gerais ou dos que estão reservados para a covid-19. Vários Estados admitem a possibilidade, por exemplo, de requisitar leitos privados em caso de necessidade, mas não informam sequer se conhecem qual é a disponibilidade desse setor, que também tem recebido pacientes com a doença. Poucos dias após ter assumido o Ministério da Saúde, Nelson Teich chegou a citar uma ociosidade em alguns hospitais particulares que, segundo ele, chega a 40%. O ministro não detalhou se esses leitos eram de UTI, quais hospitais eram esses e nem se poderiam receber pacientes com a covid-19 do SUS, apenas animou que doentes crônicos voltassem a frequentar as unidades particulares.

Enquanto o coronavírus avança em ritmo diferente nos vários Estados brasileiros, a oferta de leitos também é assimétrica. Por enquanto, as taxas de ocupação dos leitos do SUS disponíveis para pacientes com suspeita da covid-19 em Alagoas, Acre, Tocantins, Mato Grosso, Roraima, Rio Grande do Norte e Paraná é menor que 30%. Apesar de taxas baixas, esses Estados ainda não estão classificados como em emergência pela incidência do coronavírus e dispõem de redes de saúde pequenas. Já Pernambuco, Pará, Ceará e Amazonas enfrentam um estágio mais duro da pressão de seus sistemas de saúde e afirmaram que mais de 90% dos leitos públicos de terapia intensiva para coronavírus estão ocupados.

“O que nós temos hoje é um apagão de informações que dificulta (o gerenciamento)", diz Mário Scheffer, se referindo também à falta de informações unificadas sobre o terceiro braço criado no sistema de saúde em função da pandemia: a estrutura extraordinária de novos hospitais de campanha e novos leitos de UTI anunciados. “Essa expansão está em curso, mas não está clara. Sabemos que essa oferta acrescida prometida está com grande atraso. Alguns hospitais de campanha, por exemplo, enfrentam problemas com equipamento e equipe para funcionarem”, afirma.

O Rio de Janeiro é um exemplo disso. O Estado inaugurou seu primeiro hospital de campanha ―de um total de dez previstos― neste sábado (25), quando apenas um dos sete hospitais estaduais de referência para a covid-19 ainda tinha leitos de UTI disponíveis. O hospital de campanha do Leblon abriu as portas com 10 leitos de UTI e 20 de enfermaria, quando a previsão é de chegar a 100 leitos de cada tipo. Outros hospitais de campanha no Estado estavam previstos para serem inaugurados em abril, mas o novo prazo é que passem a operar apenas ao longo do mês de maio.

Muitos Estados têm convertido estádios de futebol em hospitais de campanha e anunciado ―muitas vezes com o apoio do Governo Federal― a abertura de milhares de leitos de UTI exclusivos para a covid-19. Mas, enquanto a epidemia avança, há gargalos nas informações sobre o que do que foi anunciado de fato já está operando e também quanto dessas estruturas estão em uso no momento. Com tantas lacunas de informações em nível nacional, Scheffer diz que não é possível saber se os recursos acrescidos serão suficientes ou mesmo até que ponto os leitos de UTI privados poderiam socorrer o SUS, em caso de necessidade. “Não temos dimensão total da velocidade do contágio e da repercussão no sistema de saúde”, afirma.


Maranhão chega a 90% de ocupação das UTIs com 112 mortes por covid-19

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

A situação é dramática para aqueles que precisam encontrar vagas em hospitais públicos para pacientes com covid-19

(Silvio AVILA/AFP)
Coronavírus: em São Luís, 161 das 267 enfermarias estão lotadas 

São Luís já está com 90% dos leitos das Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da rede pública ocupados, segundo o governo do Maranhão. O Estado já registrou 112 mortes e quase 3 mil casos de covid-19. A situação no interior também é crítica. Calcula-se que há apenas 81 leitos disponíveis nos demais municípios do Estado.

A situação é dramática para aqueles que tentam encontrar uma vaga em hospitais públicos para os familiares infectados. Foi este o caso de José Ribamar Rodrigues, de 78 anos, que deu entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), teve confirmado o diagnóstico de covid-19 e faleceu após três dias de espera por um leito.

O filho de José lembra com revolta a busca por uma vaga para internar o pai. “Meu pai chegou bem no hospital, foi uma luta de três dias para conseguir um leito com UTI, mas, infelizmente, ele veio a óbito. Estou indignado com o governo, na propaganda diz que tem leitos suficientes e que estão ampliando a demanda para atender a todos, mas a realidade é outra”, afirmou Mário Henrique Rodrigues, de 46 anos.

Já Ronaldo Passos dos Santos, que estava em busca de atendimento desde o dia 8 de abril, morreu no dia 23, antes de receber a notícia de que seria transferido para uma UTI.

A filha de Ronaldo, Raquel Batista de Sousa, atestou que o pai veio a óbito por falta de atendimento. “Meu pai faleceu por falta de atendimento correto. Várias vezes foi na UPA com sintomas graves, mas recebeu ordens de retornar para casa. Quando estava muito ruim, ele voltou pra unidade de pronto atendimento, ficando apenas na ala de observação do hospital. Lutamos pra transferir ele para a UTI, mas, infelizmente, não conseguimos e ele veio a óbito”, disse.

Faltam leitos

Na capital maranhense, dos 112 leitos de UTI disponíveis para tratamento de doentes por covid-19, 101 já estão ocupados, o que corresponde a uma taxa de ocupação de 90,17%. Já as enfermarias são 267 na capital, sendo que 161 estão lotadas com pacientes.

O colapso da saúde pública no Estado ficou evidente na manhã deste domingo, 26. Na porta do Fórum Sarney Costa, cerca de 30 pessoas esperavam o atendimento para tirar um atestado de óbito. Os registros são decorrentes da covid-19, porém, o que chama a atenção é o volume de famílias que precisam utilizar o serviço.

A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Saúde (SES) e de Comunicação e Articulação Política (SECAP) para saber quais são os planos do governo para reverter a situação da saturação do sistema no enfrentamento do novo coronavírus, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Novos túmulos no Brasil retratam o impacto da pandemia de coronavírus

Naiara Galarraga Gortázar
El Pais

Prefeito de SP anuncia 13.000 valas extras nos cemitérios, enquanto especialistas advertem que número real é bem superior aos 4.205 mortos oficiais. Assim se adapta o maior cemitério da América Latina

  TONI PIRES / EL PAÍS 
Funeral na última quinta-feira nos novos túmulos abertos para atender vítimas 
da pandemia no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, o maior da América Latina.

Antes mesmo do coronavírus, era difícil conseguir um emprego com bom salário no Brasil. Por isso Rodrigo, de 35 anos, pode se considerar um homem de sorte. Ele é um dos 220 coveiros recém-contratados pelo maior cemitério da América Latina, o de Vila Formosa, em São Paulo. A crise da Covid-19 obrigou o estabelecimento a buscar mais funcionários para a função, já que a maioria dos seus coveiros estava no grupo de risco por causa da idade e foi enviada para casa. Seu contrato é de seis meses, e dos mais cobiçados, com contribuição previdenciária. O número de enterros aumentou 20% com a pandemia, diz um empregado com anos de ofício. Ele pede anonimato porque não tem autorização para falar com a imprensa. “Antes havia cerca de 40 enterros por dia, agora chegam a 52”, afirma.

Todos os países têm problemas de subnotificação de casos, mas existe o temor de que a questão no Brasil seja muito mais grave. O problema da saturação nos hospitais e necrotérios, as 13.000 valas adicionais anunciadas por Bruno Covas, prefeito de São Paulo, e os poucos testes realizados indicam que o impacto da epidemia é muito maior que o retratado pelas cifras oficiais. As autoridades confirmaram 4.205 mortes (40% delas na última semana) e mais de 61.000 contágios. Os casos de milhares de hospitalizados com síndrome respiratória aguda nas últimas semanas ainda precisam ser investigados.

Domingos Alves, professor de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, explica que, além das cifras do Ministério da Saúde, ele analisa registros de cartórios relativos a pessoas falecidas com insuficiência respiratória e pneumonia através do portal de transparência. “As discrepâncias podem chegar a ser o dobro ou o triplo em alguns municípios”, adverte. Os casos reais podem ser 12 vezes mais que os contabilizados, segundo estimativas de um recente relatório de um consórcio de universidades e institutos de pesquisa.

O professor Alves salienta que o Brasil é tão enorme e tão desigual que inclui dinâmicas diferentes, porque nem sequer a qualidade do SUS (Sistema Único de Saúde), que atende os 210 milhões de habitantes, é homogênea. Os especialistas como ele estão surpresos com os altos índices de casos e mortes em cidades como Fortaleza, Manaus e Macapá, a milhares de quilômetros das maiores urbes, mas cujo sistema de saúde é mais frágil. Alves aponta um segundo fenômeno preocupante. Os contágios se distribuem de maneira mais igualitária que as mortes. Em São Paulo e no Rio, as mais afetadas e onde a doença chegou pelas classes altas, “estamos vendo que esta epidemia tem uma taxa de letalidade maior para as classes com mais problemas sociais e em faixas etárias mais jovens”, observa Alves.

Com 407 novas mortes, a quinta-feira passada foi o dia mais letal desde o primeiro contágio, há oito semanas. Silvana Alves Bezerra, de 56 anos, espera com outros parentes, na entrada do cemitério, a chegada do caixão lacrado com seu irmão, que morreu na véspera, após 14 dias internado. Sabem que contraiu a covid-19. “O resultado só saiu ontem (na quarta-feira). Mas, quando chegou, ele já tinha nos deixado. Essas análises são muito lentas”, lamenta.

Conhecer seu diagnóstico ajudará os epidemiologistas a calibrarem a epidemia, mas para a família significa um velório expresso. Pouco mais. Os próximos de Alves Bezerra acabam de ser informados que só poderão velá-lo por 10 minutos. Será enterrado pelos coveiros de macacão branco que atendem os casos confirmados e suspeitos.

O cemitério da Vila Formosa foi dos primeiros em ampliarem sua capacidade por causa da pandemia. Os coveiros abriram na última semana 600 novas sepulturas nesta terra avermelhada que é o descanso final de 1,5 milhão de falecidos. Logo se somarão 13.000 sepulturas a mais nos cemitérios municipais, conforme anunciou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, porque “o pior está por vir”. Não quer que se repitam as cenas do Equador ou Nova York.

Manaus, a maior cidade da Amazônia, onde as UTIs já estão saturadas, começou a fazer sepulturas coletivas. E comandantes militares estão perguntando oficialmente sobre a capacidade de enfrentar enterros maciços. “Se o Exército pergunta isso é porque está fazendo uma análise estatística quanto à possibilidade de que haja um caos na saúde pública”, advertiu o prefeito aos seus cidadãos, revelando o pedido em um vídeo a seus moradores para insistir na importância do confinamento.

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, diz desconhecer se o incremento dos últimos dias significa que os contágios aceleraram ou se é resultado de casos antigos que estavam na fila para serem testados. As autoridade sanitárias tardaram em conseguir comprar os testes, mas agora a capacidade de processá-los é insuficiente e a logística para recoletar e analisar amostras é complexa. Alves considera “temerário” que alguns Estados e municípios estejam relaxando as medidas de contenção “sem ter uma gestão adequada dos dados”. Ainda que todas as escolas continuem fechadas, algumas cidades, como Florianópolis, abriram até shopping centers.