terça-feira, julho 02, 2013

O governo continua surdo

Adelson Elias Vasconcellos

Não sou marqueteiro, nem cientista político. As opiniões que expresso partem, primeiro, da própria experiência de vida. Segundo, da lógica da informação, o conjunto de fatos a revelar um cenário. Sendo assim, não tenho aqui a pretensão de apontar caminhos que, a meu ver, a presidente Dilma deveria adotar neste momento de crise.

Após três semanas de protestos, protestos a revelarem uma completa insatisfação da população para com o governo, ou melhor, com os governos em todas as suas esferas e a total rejeição aos políticos e respectivos partidos, era evidente que a queda da popularidade presidencial se revelaria da forma como o Datafolha demonstrou. Considerado apenas 2013, Dilma perdeu metade de seu capital político. 

Mas a queda em grau em tão forte  não se explica apenas pelos protestos. Os protestos é que demonstram que a tal popularidade não era tanto quanto se imaginava. Isto  se conclui facilmente. Havia, como ainda há, um descontentamento com o resultado de um governo ruim. Voltem um pouco no tempo. Apesar das pesquisas concluírem pela aprovação majoritária do governo Dilma, quando se descia para o chão dos serviços a cargo de seu governo, a avaliação se situava em nível  regular. Nada além disso.

Se formos reunir os clamores mais incisivos que vem das ruas, em nenhum quadro encontraremos reforma política como cobrança. Assim, a resposta que o governo tenta dar à crise está, a meu ver, fora de foco. Trata-se muito mais de um diversionismo, de um “vamos mudar de assunto”, do que propriamente transmitir à população  que, de fato, o governo ouviu os seus protestos e cuidará de atender ao que se pede.  
   
É claro que o sistema de representação política precisa ser mudado, não apenas para dar maior transparência à ação dos políticos brasileiros, como também para que a formatação do congresso, das assembleias legislativas e câmaras de vereadores representem a realidade das urnas, coisa que hoje está muito longe de acontecer. No campo da reforma política, a agenda de mudanças é muito extensa.

Mas pergunta-se: é disso que o povo protesta nas ruas? Creio que não. O povo cobra por educação de qualidade. O governo responde destinando mais verbas para a área. Mas destinar mais verbas para uma área cujo sistema não sofrerá mudanças estruturais, resolverá o problema da má qualidade? É óbvio que não. A mudança não deve acenar com mais verbas num sistema deficiente. É preciso redesenhar o sistema em vigor.    E mesmo que melhorem todos os aspectos relacionados à educação, como curriculum, carga horária, qualificação dos professores, salários mais justos, estrutura física e de meios das escolas, valorização e priorização do mérito, os resultados demandarão certo tempo para acontecer. Qualquer pressa tende a piorar o que já é ruim.

No campo da saúde a situação não é menos diferente. Jogar milhares de médicos importados resolverá o  problema da falta de estrutura crônica por que passam os hospitais públicos? Modificará a situação desumana de pacientes jogados em macas imundas nos corredores das unidades? Abastecerá de forma  mínima as enfermarias com medicamentos essenciais?  Corrigirá o problema crônico de equipamentos indispensáveis parados durante meses por falta de manutenção?

E quanto à segurança, que resposta o governo Dilma tem para reduzir drasticamente a vergonhosa estatística de mais de 50 mil homicídios ano?  E a situação precária do sistema prisional?

No campo da impunidade e corrupção, qual o projeto para reduzir drasticamente o tempo de julgamento e cumprimento efetivo da pena pelos condenados? Natam Donadom teve aberto um processo contra si em 1995. Somente cerca de 18 anos depois é que o parlamentar foi para à prisão.  E ainda assim permenece deputado. Dá para aceitar? Por quanto mais, por exemplo, assistiremos mensaleiros condenados à prisão, aboletados placidamente nas cadeiras do Congresso Nacional? Por quanto tempo mais vamos insistir em não reduzir a maioridade penal?

Vejam: em apenas três áreas de responsabilidade do governo federal, educação, saúde e segurança pública, o que não faltam são questões a exigir ação imediata. Mesmo que os resultados demorem a aparecer, se as mudanças projetarem sensível melhorias nestas áreas, se o objetivo for reduzir os problemas atuais a um mínimo razoável, colocar isto tudo de lado, para se envolver numa questão complexa, e da qual grande parte da população se acha distante, creio ser um escolha equivocada.

Outro campo que está a exigir mudanças urgentes é o da economia. Porém, considerando a mentalidade  atrasada do responsável pela área, somente a mudança de nomes poderá colaborar para que estas mudanças aconteçam. Estará Dilma disposta alterar seu ministério para trazer gente que irá se chocar frontalmente com o que ela própria pensa sobre economia?  É bom não esquecer que ela sempre rejeitou, até mesmo na campanha eleitoral, qualquer ideia ou apelo por austeridade fiscal. E, no entanto, dada as condições atuais, ela própria acenou com um pacto pela austeridade fiscal. Porém, até aqui, não suspendeu a política de expansão de gastos. Quando lhe informaram que uma das sugestões seria a redução do número de ministérios, subiu nas tamancas.

Portanto, sem que o governo provoque profundas mudanças na condução de suas políticas e programas, não será com reforma política que Dilma conseguirá desfazer o mal estar e insatisfação contra o seu governo. E, em consequência, não conseguirá recuperar seu capital político. Mesmo que, cenário exageradamente otimista, alcance a prioridade número de sua gestão que é reeleger-se em 2014, dado todos os indicadores de seu governo, a crise tende a aumentar.

Por outro lado,  querer impor uma agenda de mudança no sistema político-eleitoral para vigorar já a partir das eleições de 2014, considerando todas as questões que precisam ser equacionados tanto no campo político, quanto no logístico,  corre-se o risco de enfiar o país num buraco, onde se torrará milhões de reais numa aventura que não nos assegure transformações importantes e positivas para a representatividade política. 

Lula, que se encontra na África, referindo-se às manifestações, afirmou que “...isso é resultado do que foi feito nestes 10 anos...” . Então, se “isto” é derivado da insatisfação popular, depreende-se que os 10 anos de PT no poder é a maior responsável por estas insatisfações, correto?

Conclui-se, deste modo, ter chegado a hora de mudar: mudar o comando do país que provocou todo este tumulto, e que, dada  às respostas oferecidas no cardápio governamental, não se direcionam a minimizá-las já que não se está atacando as graves questões que levaram o povo às ruas.   

O fato, meus amigos, é que o governo Dilma continua surdo. E assim é porque as políticas que estão aí, e que provocaram toda as insatisfações que estamos assistindo, foram escolhas de governo, e tais escolhas foram construídas sobre aquilo que Dilma acredita ser o certo. Está visto que erraram tanto no diagnóstico quanto na prescrição do tratamento. E, ao escolher a reforma política como prioridade neste momento, ele como que está a nos dizer que não tem respostas para as questões que nos desagradam.  Agora cabe aos eleitores também se tornarem surdos aos apelos que Dilma e petistas nos darão durante a campanha em 2014. Nada mais justo para aqueles que nos ignoraram até aqui, e que continuam  apostando que não passamos de massa de manobra, fácil de enganar, fácil de convencer.

Nesta edição, transcrevemos matéria do Valor online contando aquilo que muitos fizeram questão de esconder sobre as pesquisas:  maior perda de popularidade de Dilma ocorreu entre os mais pobres. Eis aí um resultado bem interessante: até agora é um espanto o que há de gente tentando emplacar a insatisfação popular restrita apenas à classe média. E há aqueles que ainda dizem que estes “insatisfeitos” formam o contingente oriundo da nova classe média, aquela invenção grotesca do Marcelo Neri que, de presente, ganhou um ministério.  

Eis aí: nem com os tantos bilhões das bolsas que os governos petistas  jogam no colo é capaz de aplacar a indignação proveniente dos maus serviços públicos que são oferecidos à população, e cuja precariedade acaba afetando bem mais à classe mais pobre da população.  E os governos petistas ainda insistem em criticar à imprensa? Nunca na história ela foi tão chapa branca e torceu tanto a favor das esquerdas como agora.  

Consulta inútil


Contrariamente ao que propalam os porta-vozes da presidente, nunca houve consenso em torno do plebiscito. Eduardo Cunha, líder do PMDB repassa aquilo que o bom senso indica: se é para fazer plebiscito, que se faça junto com as eleições de 2014, SEM CUSTOS.

Claro que, por detrás desta afirmação aparentemente sensata, Cunha teme, como todos os demais políticos petistas, que a mudança de regras fragilize o PMDB. Imaginam que  mudando a forma de representação política saída das urnas, fica a perigo sua própria sobrevivência política.. Do voto proporcional, aquele em que o mais votado carrega nas costas alguns com menos votos, poderíamos partir para o voto distrital puro, este sim representativo autêntico da vontade popular, e que mudar o cenário político do país por completo. 

Quando se trata de defender a própria vida política, a voz das ruas, muitas vezes, não encontra quem a acolhe. 

Mas, independente  destas coisinhas miúdas, a grande pergunta que se faz é: em que o plebiscito garante MUDANÇAS?  Resposta curta e grossa: EM NADA.  De contrapeso,  ainda se pode dizer que seu resultado não garante nem a data em que as mudanças começaria a valer. 

Ora, se o plebiscito não garante que aquilo que os eleitores aprovarem será, de fato, acatado, não garante que nas mudanças se colocará antídotos para manter tudo como está e sequer assegura que as mudanças o início do prazo de validade, para quê plebiscito agora, feito no atropelo, a um custo descomunal, e sem a mínima de ser acolhido?

Trata-se, senhores, de truque velho. Em pelos três ocasiões de grave perturbação política ao longo de seus dois mandatos, Lula sacou da algibeira a proposta de reforma política. Passado o vendaval, recolheu as armas e esqueceu o assunto. 

Dilma tenta copiar o mesmo modelo de ação, mesmo vivendo situação completamente diferente das do antecessor. Mas o objetivo é um só: está convidando tantos os atores da vida política quanto a plateia a mudarem de assunto. 

Interessante notar que, do Oiapoque ao Chuí, em todas manifestações, pacíficas ou violentas, não se com seguiu ler nenhum cartaz, dentre os milhares exibidos nos grandes desfiles, que pedisse uma reforma política. O clamor que mais se aproximou de uma agenda política foi COMBATE  À CORRUPÇÃO e, neste caso, a estrela da companhia era um abaixo à PEC 37.

De todos os quanto pude ouvir sobre ló tal plebiscito, a que me pareceu mais bem encaixada foi a da ministra do STJ,  Eliana Calmon, que afirmou: “Plebiscito para quê, nas ruas o povo já disse o que quer”. Na veia!

Quando Dilma apareceu com esta proposta, confesso, fiquei espantado. De onde a presidente teria tirado que, patrocinar uma reforma política, aqui e agora,  seria atender ao clamor popular?  O povo não está interessado nesta questão. Interessa-lhe, isto sim, aquilo que lhe diz respeito no seu dia a dia, e neste aspecto, ele pede mais educação, saúde, segurança e menos corrupção, que por onde escoa o dinheiro que falta nos campos dos serviços públicos.

Porém, combater a inflação e o baixo crescimento, já se viu, Dilma não encontrou as respostas. O cardápio que tem oferecido tem tido o dom de apenas agravar problemas antigos e desarrumar  as contas públicas. Melhorar a qualidade seja da educação e da saúde, ou mesmo até da segurança pública, requer planos e projetos que até aqui Dilma não conseguiu sequer arquitetar, quanto mais obter resultados. E mesmo que tivesse em mão um bom projeto nas duas áreas, os resultados positivos demandam certo tempo para acontecerem. E Dilma tem pressa, precisa recuperar o tempo e o terreno perdidos, porque mira sua reeleição e, metade de seu mandato já se escoou sem produzir resultados e, para seu azar, ainda se combina com a queda nas pesquisas. 

Assim, o tal plebiscito é muito mais uma estratégia para espantar os fantasmas da insatisfação que entraram em seu gabinete sem bater à porta. É o modo de dizer à moçada “estou trabalhando e ouvindo vocês”. Porém, fica claro, se este não era um tema recorrente das manifestações, logo a turba vai se dar conta que o país segue tão desgovernado quanto antes, sem projetos, sem direção, sem definições e sem agenda.

Dilma tenta enganar a plateia com uma atuação, para dizer o mínimo, patética. Colhe agora, como colherá mais adiante, os frutos de inércia, de sua soberba, de sua teimosia, de sua arrogância. Quando a vemos cercada pelo capataz Aloísio Mercadante, atuando como porta-voz da soberana, pendurado em suas saias em qualquer viagem dentro ou fora do país, não estranha em nada esta atuação fora do prumo. Mercadante fosse o gênio que Dilma imagina ser, e Lula não o teria ignorado solenemente em oito anos de governo. Até porque, sendo ele o Ministro da Educação, acredito que deveria ater-se mais às tarefas de sua pasta que, vamos reconhecer, vai de mal a pior. Aliás, educação não é exatamente um dos clamores das ruas? 

É lamentável que Dilma apesar de ouvir a voz das ruas, ainda não tenha conseguido traduzir o seu significado e a mensagem que ela está passando aos governantes.  Não adianta querer se tornar a protagonista das mudanças, quando mantém ao seu redor os mesmos incompetentes que tornaram seu governo esta geleia geral. Até porque eles apenas cumpriram as tarefas delegadas pela própria Dilma. E, como todos sabem, a presidente tem um grave defeito: a de achar que sabe mais do que todos que a faz não ouvir ninguém. 

Portanto, esta agitação toda em torno de uma ideia inútil não passa de puro discurso em que a mensagem é clara: “Vamos mudar de assunto”. E tem a imensa de probabilidade de tornar nosso sistema político em um bicho de sete cabeças, dez braços e onze membros.  O sistema é ruim, de fato, mas é o que temos. E, mesmo que venhamos a aperfeiçoá-lo, tornando a representação político fruto real da vontade popular expressa nas urnas, daí porque o voto distrital puro é o que mais se aproxima desta vontade, não será garanti de educação de qualidade, saúde melhor, segurança segura. Porque, senhores, a fonte, de onde este clamor por mudanças deve jorrar são as urnas. Se o eleitor não fizer sua parte,  mantiver na vida pública os mesmos atores de agora, precisaremos de muitas outras manifestações para expressar descontentamento. Isto vale para os parlamentares, estaduais, federais ou vereadores, como também para os governantes em todas as esferas.    O petismo vai completar em 2014, 12 anos de governo federal, tempo mais do suficiente para ter melhorado ao menos serviços essenciais. O que vimos, é justo o contrário. 

Neste caso, fica claro que a bola está com os eleitores. Em 2014 serão eles quem darão o tom das mudanças, sabendo escolher bons representantes, mas, principalmente,  não devolvendo o mandato para aqueles que não souberam corresponder à confiança.  

A iniciativa da consulta popular via plebiscito ou referendo, diz a Constituição, é prerrogativa de exclusividade do Congresso Nacional. Dilma não apenas quer enfiar sua proposta goela abaixo do Congresso, criando-lhe uma agenda autoritária, como ainda entende que pode consultar o TSE sobre as possibilidades da realização do pleito, como se o TSE fosse um departamento vinculado à uma secretaria qualquer vinculado à presidência. 

Por um lado e por outro, Dilma atropela as atribuições dos demais poderes, tentando parecer competente, tentando mostrar serviço à plateia que reclama, repito, não por reformas institucionais, por maior capacidade de gestão nos serviços públicos a cargo estes sim da senhora presidente. Mas como a soberana nada tem a mostrar de positivo nas áreas que lhe estão a cargo, intromete-se onde não deve para ver se cola, de forma casuística, um projeto de reforma política cujo único propósito, e isto vai se ver em seguida, é dar ao seu partido uma hegemonia política renegada em qualquer regime democrático.  

IPEA confirma nossa teoria sobre as manifestações

Adelson Elias Vasconcellos

O texto é de Clarice Spitz  para o jornal O Globo, em que traz a declaração a do presidente do IPEA, Marcelo Neri, o cara que inventou a classe média dos R$ 300,00 sobre as manifestações que correm pelo país. Neri, depois de sua “estupenda invenção” foi devidamente agraciado por Dilma com a boquinha rica do IPEA.           
  
Mas ao menos ele acerta no ponto em que afirma que as manifestações de rua no Brasil tem sido conduzidas por gente da classe média. E justifica:  (...)” enquanto uma família chefiada por analfabeto teve um ganho de 88,6% na renda per capita nos últimos 10 anos (2001 a 2011), em uma família cujo chefe era uma pessoa com 12 anos ou mais de estudo, o rendimento caiu 11,1%.”

Ou seja, a grande distribuição de renda no Brasil se deu pela fórmula invertida. Ganharam os pobres o dinheiro que foi retirado da classe média real. E ganharam também os ricos, também via empobrecimento da classe média real. 

Assim, o PT inventou a fórmula em que si tira de quem tem um pouco para dar a quem não tem nada. Mas também se tira de quem tem um pouco, para se dar para quem tem muito. Lembro que Lula se gaba até hoje de que os banqueiros ganharam muito dinheiro durante seus dois mandatos. 

Eis aí parte do descontentamento desta classe média nas ruas, conforme dissemos aqui.  A outra parte da insatisfação, e ao contrário do que afirma Mantega, está na inflação em alta, que acaba por penalizar também a classe média, principalmente no campo dos serviços privados aos quais esta categoria precisa recorrer para fugir da precariedade dos serviços públicos, como educação e saúde. É só conferir as estatísticas que indicam o avanço das mensalidades escolares e dos planos de saúde privados. E, ainda para mostrar o quão distante da realidade está o garboso ministro da Fazenda do governo Dilma, é sobre que recai o peso maior da tributação na fonte sobre seus ganhos. 

Diante disto, é forçoso reconhecer que a insatisfação tem muitas causas, e todas derivadas de um método de governo, inaugurado  com Lula em 2003, em que se empobrece a classe média, para forçar uma classificação de classes que se ajuste ao discurso patológico desta turma. E, em contrapartida, para ficar de bem com que lhe financia a estupidez, se transferem grande parte desta renda de classe média para banqueiros e empresários amigos do reino. Infelizmente, poucos na imprensa brasileira são capazes de se aperceber da mistificação, e acabam dando eco à vigarice petista.

Várias vezes desmontamos esta farsa, seja da tal “nova classe média” que não passa de uma vergonhosa manipulação estatística, seja para denunciar o confisco dos salários dos trabalhadores via imposto de renda na fonte, seja, ainda, para desmascarar a farsa dos tais ganhos reais do salário mínimo. Aquilo que o governo promove em ganhos reais, ele mesmo confisca na forma de imposto de renda na fonte, além dos impostos e taxas diversas que aplicou nos serviços públicos. Exemplo deste achaque é o volume de tributos incidentes sobre as tarifas de energia elétrica, que nos governos petistas mais do que dobraram, tornando estas tarifas uma das mais caras do mundo.   E, do lado do imposto de renda fonte sobre o trabalho assalariado, a isenção que, em 2002 ia até 5 salários mínimos, hoje não ultrapassa a 2,5 salários. 

É claro que o blabláblá explicativo de Marcelo Neri que se segue no texto, não passa de gabolice e vigarice.  Tenta criar uma falsa teoria sobre as razões da insatisfação para justificar sua vigarice sobre a tal “nova classe média”.  Quanto à sua afirmação estúpida de que a possibilidade de haver nas manifestações pessoas da sua invenção, isto é, a tal “nova classe média”, não resiste a dez segundos de reflexão com a realidade.  
É claro que qualquer indivíduo com um pingo de juízo, seja de que classe de renda for, não pode estar satisfeito com a péssima qualidade dos serviços oferecidos pelo governo petista. Eles não são apenas precários, são indignos. 

Contudo, esta categoria de renda que Neri comemora, tanto quanto os dependentes e beneficiários do Bolsa Família não deixaram sua condição social anterior, continuam sendo pobres.   Esta “promoção” só existe para embalar o discurso canalha do governo petista.  São pessoas que se utilizam maciçamente dos serviços públicos, dado que sua condição de renda não lhes permite custear os de natureza privada. Tal condição desmonta ainda mais a farsa inventada por Neri.

Porém, a baixa renda é e continuará sendo dependente dos programas dito sociais. E o medo de perderem estes benefícios, com alguns sendo beneficiários há mais de 10 anos (!!!!), o que comprova a falta de portas de saída e a situação de perenização da pobreza que os programas produzem, faz com que elas não saiam às ruas para protestarem, muito embora ninguém lhes esconde o seu descontentamento com saúde, educação. Porém, sobre estas pessoas de baixa renda, é preciso reconhecer incide a maior agressão social e institucional porque, além  de educação e e saúde precárias, elas são atormentadas pela insegurança pública e a falta de saneamento básico, além da indignidade do transporte público que chegou a tamanha indigência,  por culpa exclusiva de nossos governantes, dada a escandalosa omissão no seu dever de fiscalizar.  

Assim, e as imagens da cobertura das televisões não conseguem esconder, há muitas pessoas nos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste que se juntam às manifestações pelas mesmas razões que faz a classe média sair às ruas. 

 Tivesse o senhor Marcelo Neri um  pingo de vergonha na cara, e um mínimo compromisso com a verdade não teria afirmado de forma tão vigarista que “...O Brasil fez demais e não de menos. Talvez a desigualdade tenha caído numa velocidade maior que a gente seja politicamente... uma zona de conforto, do ponto de vista político.”

 Ocorre, e as estatísticas não desmentem, que a desigualdade no Brasil iniciou sua trajetória de queda a partir de 1995, com o Plano Real, os programas sociais de FHC que colaboram para a queda da desnutrição e mortalidade infantil, além da universalização das matrículas no ensino básico, e com a política de aumentos reais do salário mínimo também iniciado com FHC.  

E se houvesse “Brasil demais”, senhor Neri, simplesmente não haveria insatisfação. O que justamente move estes milhões nas ruas é a falta de “mais Brasil” em suas vidas, justamente em razão dos governos petistas fazerem muito menos do que deveria e poderiam, além do fato de que, e isto provado, os programas ditos sociais não passam de assistencialismo barato porque não oferecem as pontes de emancipação como indivíduo aos seus milhões de beneficiários e eterno-dependentes.

 Segue o texto do Globo.

***

RIO - O ministro-chefe interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, disse que a origem da onda de protestos que varre o país pode estar no ritmo diferenciado de avanços sociais ocorridos na última década, com a renda no topo da população subindo com muito menos força do que na base. Para ele, os protestos nas ruas não são feitos “pelos mais pobres”.

Neri citou o fato de que enquanto uma família chefiada por analfabeto teve um ganho de 88,6% na renda per capita nos últimos 10 anos (2001 a 2011), em uma família cujo chefe era uma pessoa com 12 anos ou mais de estudo, o rendimento caiu 11,1%. Lembrou ainda que a renda per capita nas principais capitais do país tem alta de 3,1% em termos reais, entre junho de 2012 e maio de 2013. Na periferia, sobe 5,4%. Nas famílias com mais de seis pessoas no domicílio, avança 5% e tem alta de 6,3% para trabalhadores com menos de um ano de estudo.

— Tenho uma suspeita de que não é a mulher negra da periferia (que está nas manifestações) — afirmou. — Pessoas que estão na parte superior da distribuição, no lado belga da ‘Belíndia' , talvez tenham razões para não estarem tão satisfeitas — disse, ao citar o termo cunhado pelo economista Edmar Bacha, em 1974, para marcar os contrastes do Brasil próspero - representado pela Bélgica - e da miséria da Índia.

Para Neri, o descontentamento popular, a despeito das melhoras nos indicadores sociais, pode ser explicado porque as desigualdades caíram com uma intensidade que superou a “zona de conforto” política.

— O Brasil fez demais e não de menos. Talvez a desigualdade tenha caído numa velocidade maior que a gente seja politicamente... uma zona de conforto, do ponto de vista político. Talvez a gente tenha feito demais, eu particularmente tenho muito orgulho do que se fez no Brasil em termos de redução de desigualdade, mas a desigualdade era alta, o brasileiro aceitava, nossas instituições, nossos comportamentos nos levavam a ter uma desigualdade alta — afirmou.

Ele não descarta, porém, que entre os manifestantes possam estar também pessoas da “nova classe média”, aquelas que ascenderam à nova classe C há cerca de 10 anos, e que hoje pedem avanços também na educação e na saúde. Segundo ele, as aspirações de consumo são potencializadas pela internet.

— Talvez elas queiram outras coisas, para além do ganho de renda, (além) do ganho trabalhista, seja ganhos de saúde, de educação. As pessoas se acostumam às suas conquistas e querem mais. Por outro lado, quando você olha para o lado vê que os pobres estão ganhando mais, isso talvez possa explicar um certo inconformismo — disse.

Ele reconhece que o país vive um momento de incertezas com as manifestações e vê uma tendência de estabilidade para a trajetória de queda na desigualdade.

— O mercado de trabalho está dando sinal de desaquecimento, o que me preocupa é que todo aumento de renda decorre do salário — afirmou.

Qual bolhas de sabão

Percival Puggina
Zero Hora

Volta e meia, anos a fio, eu criticava, aqui, a péssima gestão federal dos negócios públicos. O governo ia mal nas coisas importantes. E o que ia bem lhe caía no colo de presente. Presente chinês. O gigante oriental acordara e arrancava o Brasil de seu berço esplêndido. Quanto ao resto - Segurança, Responsabilidade Fiscal, Probidade, Educação, Saúde, Infraestrutura, Tecnologia, Relações Exteriores, as coisas iam mal. Muito cacarejo publicitário e pouco ovo. 

Nós, os poucos que expúnhamos com objetividade a situação nacional, exercíamos tarefa resignadamente inglória. O marketing do governo trovejava informações que nos contradiziam. Afrontávamos a opinião majoritária. Sabíamos que distribuir dinheiro não resolve os problemas nacionais porque o Brasil não é um programa de auditório! Mas o Planalto festejava ao menos um plano mirabolante e bilionário por semana. Até a mídia mundial comprava por bom o discurso oficial! As oposições, ora, as oposições! Primeiro, Lula lhes bateu a carteira ao fazer seu o programa de governo do FHC. Depois, quando Lula passou a sacrificar a austeridade fiscal em favor das reeleições petistas, instalou-se a chamada Brasilha da Fantasia, ou a Fachada de Prosperidade (nas palavras do Financial Times). Mas a oposição política formal, já então, arquejava seu desânimo em meia dúzia de vozes, se tanto, no Congresso Nacional. Enfim, nossa trincheira era tão despovoada que se um gritasse o outro não ouviria. E o petismo ainda nos chamava de golpistas. 

Pois eis que o povo sai às ruas. Os satisfeitos do Bolsa Família e do Bolsa Louis Vuitton ficam em casa. Entende-se. Entende-se, também, os motivos pelos quais os grupos radicais que acionaram a alavanca de partida foram para a marginalidade quando o povo, com suas camisas brancas, tomou conta do pedaço. Assistimos uma surpreendente apropriação pela cidadania de algo que iniciou em mãos erradas. Com raras exceções, a multidão nas ruas repete o que vínhamos dizendo. Claro, há os paus mandados que se infiltram e tentam desviar o foco para cima dos governos não petistas; há os que conscientemente usam a violência para fins políticos e há os que se aproveitam das vidraças quebradas para sua atividade criminosa. A multidão nas ruas embasbacou dois grupos: os detentores de poder e os comentaristas, ingênuos ou militantes da causa, que há anos recebiam os resultados das pesquisas de satisfação como prova suficiente de que tudo ia bem. Pesquisas de satisfação, senhores, tem a ver com mercado. A realidade nacional precisa ser aferida em outras fontes, e tem a ver com o futuro do país em horizontes de curto, médio e longo prazo. 

Rudyard Kipling perguntou certa vez num poema - "O que podem conhecer sobre a Inglaterra os que só conhecem a Inglaterra?". Pois o brasileiro médio sempre se pareceu um pouco com esses ingleses de Kipling. Nos últimos anos, porém, com o dólar barato, milhões de brasileiros saíram a conhecer o mundo. E conheceram melhor o Brasil... Essa massa, da qual Lula se considera santo benfeitor, pôde fazer comparações e concluir que, aqui, exceto os luxuosos palácios do poder, tudo que é público está em frangalhos. Que aqui, impostos coletados em percentuais de Primeiro Mundo se desperdiçam no supérfluo. E que o restante se entrega ao Submundo, sob zelo da mais irretratável impunidade. Ilusões publicitárias são como bolhas de sabão. 

Lições de autoajuda para políticos em apuros

Dorrit Harazim
O Globo

Nestes tempos de barata-voa para tantos líderes mundo afora, desorientados com a agitação e ruído que lhes chegam das ruas, não custa desengavetar alguns ensinamentos contendo a essência do saber político do maior e único estadista de grande porte ainda vivo - Nelson Mandela.

São ensinamentos práticos, ancorados diretamente na experiência pessoal de seu formulador e foram sintetizados pelo americano Richard Stengel, que passou dois anos ao lado do líder do movimento antiapartheid para ajudá-lo na feitura de seu livro de memórias, “Longa Caminhada Até a Liberdade”.

Trata-se de uma receita em oito tópicos. À primeira vista, ela soa como uma lição de autoajuda, fácil de ser seguida, embora os líderes atarantados de hoje não pareçam equipados para absorver seus fundamentos.

Mandela, na verdade, nunca se sentiu confortável em arrostar conceitos abstratos. Preferia repetir para Stengel que “problemas não são uma questão de princípio e sim de tática”.

A seguir, o roteiro da tática de liderança de Mandela, que conseguiu derrocar o sistema do apartheid e instalar uma democracia não racial no país por saber, como ninguém mais, quando vestir qual dos seus múltiplos papéis – o de combatente, mártir, negociador ou estadista:

1) Saber que coragem nada tem a ver com ausência de medo. Coragem é levar o povo a se mover para além do medo;

2) Assuma a liderança, mas não se afaste de sua base. Seja leal a quem o colocou no poder. Ao se confrontar com uma decisão difícil de ser tomada, ou se ver numa situação espinhosa, certifique-se de que seus aliados compreendem seus atos e motivações. Uma comunicação franca com as bases aumenta o tamanho do apoio que receberá, mesmo que você não obtenha concordância plena;

3) Saiba liderar da retaguarda, permitindo a outros convencer-se de que estão na linha de frente das decisões. Ouça os seus comandados e não interfira nos debates cedo demais. Ao final da rodada, compartilhe suas ideias e conduza a decisão na direção desejada sem soar impositivo;

4) Saiba tudo sobre seu adversário;

5) Mantenha próximos seus amigos ; mantenha seus rivais mais perto ainda. Adversários se tornam menos perigosos quando mantidos sob seu radar;

6) Lembre-se de sorrir . Aparências contam. Primeiras impressões são as que duram;

7) Nada é preto ou branco. Adote o poder do “e”, no lugar do e “isso/ ou”- até porque a vida não é assim. Visto que decisões e situações já são complicadas por si, convém aprender a navegar através de contradições;

8) Desistir também faz parte do saber liderar. Acolha a realidade e saiba quando aceitar uma derrota com elegância. Saber quando abandonar uma ideia falida é uma das decisões mais difíceis para um líder, sobretudo quando ele é o autor da ideia.

Fossem essas meras formulações sem substância ou resultado comprovado, Nelson Mandela não teria um país inteiro (mais meio mundo) em estado de vigília solidária diante da infecção pulmonar que teima em impedi-lo de completar 95 anos, no próximo dia 18 de julho.

Na tarde de sexta-feira passada, a poucos quarteirões do Hospital do Coração de Pretória onde se concentra a vigília nacional africana, centenas de sindicalistas e estudantes sul-africanos trocaram orações por palavras de ordem e foram protestar contra a visita oficial ao país do presidente americano, Barack Obama.

“Esperávamos mais do primeiro chefe de Estado negro dos Estados Unidos”, explicou um manifestante que reclamava da política externa “arrogante”, “egoísta” e “opressiva” do atual ocupante da Casa Branca. “Ele nos decepcionou. Acho que também Mandela se sentiria decepcionado se estivesse acompanhando.”

Obama só encontrara Mandela uma vez, em Washington, oito anos atrás, quando ainda era um quase desconhecido senador júnior pelo estado de Illinois. Em suas próprias palavras, sentira-se um calouro diante do homem que admira desde jovem.

Desta vez, em terra africana, teria gostado de poder se reapresentar ao ícone africano como presidente dos Estados Unidos que conseguiu se eleger duas vezes. Eleito duas vezes. Teria sido um encontro rico em simbolismo de dois homens negros que fizeram História rompendo barreiras raciais em seus países.

Ambos são detentores do Prêmio Nobel da Paz, mas qualquer analogia para aí.

A arrebatadora bandeira do “Yes, We Can”, que impulsionou Obama para a vitória e embalou sua imagem como líder de uma nova América, hoje soa quase constrangedora, por esvaziada.

Já Mandela pode repetir à exaustão, e sem cansar ninguém, sua variante histórica do que é possível alcançar. “Nós conseguimos o impossível”, diz ele. “O Partido Nacional [responsável por meio século de dominação branca na África do Sul] prometeu jamais negociar conosco por sermos uma organização terrorista. Mas engoliram suas palavras e orgulho. Sentaram e negociaram conosco.”

Parte dessa exitosa receita se encontra no aprofundamento dos oito tópicos citados acima. Rascunhados enquanto Mandela ainda cumpria seus 27 anos de prisão, eles continuam a ser atuais.

Tanto quanto a admiração mundial para com um estadista que já está fora do poder há 14 anos, retirou-se da vida pública há 10 e soube, como poucos, calibrar o peso de sua influência na aposentadoria. Para todos os Obamas, Dilmas, Erdogans ou Morsis em apuros recentes com as ruas, um craque para ser admirado.

Plebiscito ou reunião de condomínio

Fernando Gabeira

A proposta do governo de realizar um plebiscito para a reforma política é uma tentativa de dar ao movimento das ruas um final empolgante como uma reunião de condomínio. É o sonho dos burocratas do PT. Mas será difícil colocá-lo em funcionamento.

No princípio, a palavra plebiscito seduz, como quase todas as medidas anunciadas, a maioria uma cortina de fumaça.

A ideia do plebiscito foi lançada para se tornar uma bomba de gás entediante que vai aos poucos dissipando todo mundo.

Lembro-me que participei de inúmeras discussões sobre reforma política e, no final, até nós estávamos um pouco casados do tema.

O ideal é apresentar os principais temas da reforma, votá-los sob vigilância da eleitores e submetê-lo a um referendo com uma simples pergunta.

O líder desse processo é Aloisio Mercadante que disse o seguinte: faremos apenas perguntas concretas.

Isso me abalou. Afinal é o Ministro da Educação e considera uma pergunta concreta ter o voto distrital puro ou voto distrital misto.

É um tipo de proposta feita para enganar os que a avaliam apressadamente.

O plebiscito pode parecer mais democrático mas não é essa a intenção. Continuamos com um problema: como os deputados vão votar o que a maioria da população espera?

A resposta para isso foi dada durante a semana. A pressão popular sobre pontos específicos faz o Congresso ceder.

É preciso ter muita clareza sobre quais os pontos que realmente respondem à crise desencadeada pela revolta popular e aqueles que são jogados na mesa para entorpecer o debate.

Qual reforma política partindo do PT vai ter dois pontos fundamentais: mais dinheiro para o PT e maior controle do processo político.

Não sou pessimista. A oposição se desgastou menos que o governo. Ela tem condições de criticar esse pacto nacional enganador e o truque do plebiscito.

Em primeiro lugar, precisa fortalecer sua agenda para um pacto: redução de ministérios, auditoria dos gastos na Copa e propostas menos bombásticas para educação e saúde.

Em segundo lugar, precisa fortalecer a alternativa do referendum, no qual a população aceita ou não a reforma aprovada no Parlamento.

Ficaremos com o poder de revogar o revogável, Mercadante, sem precisar revogar o irrevogável como você costuma fazer.

Precisamos de um itinerário para sair da crise imediata e levar o país até 2014, para que aí surjam também propostas mais consistentes de mudança.

O PT continuará tentando tirar vantagem da situação. Mas não há magia que ressuscite a imagem do país satisfeito com a economia e tolerante com a corrupção.

Havia uma pedra no meio do caminho.

Apropriação indébita

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Quando o presidente do Senado - alvo de processo no Supremo Tribunal Federal por peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos - posa como um dos principais condutores do processo de ouvidoria das ruas que reclamam, entre outras coisas, por uma trava da corrupção, há uma patente dissonância entre as mensagens e a confiabilidade dos candidatos a mensageiros.

O senador Renan Calheiros, suas suspeitas circunstâncias e a insensibilidade do Senado ao reconduzi-lo à presidência são componentes da bomba que explodiu em forma de exaustão. As excelências seguem tentando ignorar essa evidência; por cinismo ou impossibilidade de questionar institucionalmente um papel cuja legitimidade a Casa conferiu a ele, não importa.

Fato é que Calheiros no papel de arauto das ruas é o retrato resumido e invertido de todos os que agora reagem como se não tivessem nada a ver com a mensagem, tentando fazer bonito sem reconhecer tudo o que fizeram de feio nem se dispor a garantir que daqui para frente tudo vai ser diferente.

O senador é apenas parte do cenário de desfaçatez e apropriação indevida dos reclamos. Nele atua um elenco enorme no Legislativo com seus atos secretos e convivência cordial com processados, investigados e condenados; no Executivo, com catequese ufanista e exuberante ineficiência emoldurada por 39 ministérios.

Esses atores contaram com a passividade da sociedade, que realmente parecia eterna, incurável e contagiosa. Quando a massa resolveu mudar o tom da conversa de maneira contagiante, transformaram-se todos subitamente em porta-bandeiras dos avanços como se não fossem eles mesmos os mestres-salas do atraso.

O Judiciário, a despeito de suas deformações sobre as quais dão notícia privilégios corporativos e maus serviços prestados no dia a dia, merece ressalva na figura do Supremo Tribunal Federal.

Foi o primeiro a perceber que era preciso abrir os ouvidos às demandas da sociedade e por isso foi acusado, pelos mesmos engenheiros de obra feita de agora, de praticar ativismo indevido e usurpar poderes dos Poderes inativos. Demorou, é verdade, mas deu uma resposta efetiva ao não permitir mais protelações na execução da pena do deputado Natan Donadon.

As demais providências - pactos, cancelamentos de reajustes, anúncios de investimentos, endurecimento de leis e um plebiscito sem fio terra - por ora são terrenos vendidos em paraíso imaginário. Produtos de uma hiperatividade de ocasião.

E até que se corrijam falhas, se reconheçam erros cometidos e se firme um compromisso em torno de procedimentos totalmente diferentes, não merecem credibilidade. Tanto soam oportunistas esses valentes soldados de causas até então solenemente ignoradas, que não há disposição de trégua à vista.

O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, fez esse alerta. Não atraiu muita atenção e ficou perdido em meio a declarações e reações desencontradas de autoridades que, conforme apontou, ainda atuam no modo analógico enquanto a sociedade já opera "no sistema digital".

É um aviso importante para todas as forças políticas, de governo e de oposição: pegar carona nos movimentos não será suficiente para que nenhuma delas consiga capitalizar eleitoralmente o descontentamento.

Casa de Irene. 
A presidente Dilma Rousseff recebe amanhã a oposição para discutir o momento. Como gesto, vale o simbolismo. Do ponto de vista objetivo, efeito nenhum, pois o problema do governo não está do lado de fora, mas dentro da própria casa de onde partem as críticas mais ácidas, vicejam aflições represadas e diluem-se os receios de contestação na proporção direta da perda do capital político, hoje dependente do imponderável.

E o real foi para as ruas…

Gustavo Franco
O Estado de S. Paulo

Surpreendente mesmo não é o protesto e seus temas, mas o timing e a faísca que o determinou

O real se tornou a moeda nacional há 19 anos, quando a inflação beirava 50% mensais, mas não havia ninguém nas ruas. Durante os 15 anos anteriores, quando a inflação acumulou 20.759.903.275.651% (vinte trilhões e troco), o brasileiro produziu grandes manifestações em raras ocasiões: para pedir eleições diretas, e depois para derrubar o primeiro presidente que elegeu nesse formato. A hiperinflação, a maior desgraça econômica que o país já viveu (exceto pela escravidão), não chegou a produzir mais que episódios isolados, seu efeito mais marcante e paradoxal foi o torpor.

Como foi possível que uma monstruosidade econômica desta grandeza não pusesse o país submerso em protestos e passeatas?

Talvez nunca seja possível responder com precisão. A hiperinflação foi um fenômeno gigantesco e incompreensível, inclusive por que faltava clareza quanto ao autor. Não havia uma causa, pois se dizia que a inflação de hoje era a de ontem, portanto, de “natureza inercial”, e não tínhamos responsável. Contra quem protestar?

Na verdade, a própria inflação era o protesto, pois a experiência de quem viveu aqueles dias sombrios era sempre a do repasse, ou de “correr atrás” para recuperar poder de compra que se derretia. O custo de vida se elevava 1% ou 2% ao dia, era preciso passar adiante os aumentos, pois era um Tsunami, uma reação em cadeia, um conflito distributivo que nos impunha um comportamento nefasto, pois buscava-se “correr à frente” do processo, e assim nos tornávamos cúmplices do vício, ainda que em legítima defesa.

Conforme observou Elias Canetti, numa passagem famosa do livro “Massa e Poder”, a hiperinflação pode ser tomada como “um sabá de desvalorização no qual homens e unidade monetária confundem-se da maneira mais estranha. Um representa o outro; o homem sente-se tão mal quanto o dinheiro, que segue cada vez pior; juntos, todos se encontram à mercê desse dinheiro ruim e, juntos, sentem-se igualmente desprovidos de valor”.

A hiperinflação era, portanto, um fenômeno depressivo, um exercício cotidiano de queimar a própria bandeira, uma destruição de valores de forma ampla, o suicídio de um símbolo nacional, uma ferida ética. O sentimento de culpa talvez explique, em parte ao menos, o desinteresse na busca de responsáveis. A vilania jamais era associada aos líderes políticos que ordenaram a gastança, as pirâmides e estádios, as transposições, as emendas orçamentárias e a generosidade nos bancos oficiais. Nenhum desses farsantes jamais defendeu a inflação diretamente: apenas atacavam quem queria combater a inflação a sério, os miseráveis neoliberais ortodoxos a serviço do FMI e da globalização.

A imprensa jamais conseguiu produzir um rosto, um vilão, quando muito um ministro que naufragou com um plano de estabilização, e o Ministério Público nunca conseguiu processar ninguém por produzir inflação. Nenhuma CPI funcionou com esses termos de referência. Foi o crime perfeito.

Pois agora, passados 19 anos, ao invés de festejar a monotonia da estabilidade, a ocasião serve para o registro que muitos desses personagens estão de volta. Parece novamente recomposta a mesma coalizão inflacionária da “Nova República”, movida pelo “tudo pelo social”, ou pela promessa de inclusão social, ou de conquistas, a qualquer custo, e também por projetos megalomaníacos e pela descrença em limites fiscais, tudo isso resultando em um “hiperinflacionamento de desejos” no orçamento ou nos bancos oficiais, bem além das possibilidades dadas pela disposição da sociedade em pagar impostos.

Esta é a matriz da hiperinflação, cujo desenrolar invariavelmente compreende a descoberta da capacidade de administrar “politicamente” a realização de desejos incorporando seletivamente grupos beneficiados na coalizão governista numa espécie de clientelismo de massa. Em seguida, para que o processo ganhe escala, é preciso capturar o Banco Central, a fim de adquirir o controle sobre o crédito e sobre a fabricação de papel pintado, mágica que pode ser compartilhada com os Estados, cada qual com o seu banco emissor e sem limites quanto à capacidade de se endividar.

Agora, todavia, esses canais monetários e creditícios estão bloqueados, embora com alguns vazamentos. A inconsistência entre o inflacionismo da política fiscal e as barreiras institucionais à inflação, notadamente na forma das metas de inflação e dos impedimentos ao endividamento dos Estados (Lei de Responsabilidade Fiscal e outros acordos de reestruturação de dívidas), nunca foi tão aguda, parecendo configurar um quadro de inflação reprimida. O sistema político se vê pressionado a fazer escolhas, as tensões vão se multiplicando, e também o intervencionismo, pois o Estado tenciona ser maior que a Sociedade.

Diante dessas limitações, o governo precisa racionar a realização dos desejos que inflou, e para tanto parece ter criado uma espécie de feira de favorecimentos e seletividades, fiscais e regulatórias, guiadas por idiossincrasias, amizades, preferências e por clientelismo. A Casa prevalece sobre a Rua, como diria Roberto da Matta, não há impessoalidade nos atos da administração, tudo tem o seu destinatário, aos amigos tudo, aos outros a horizontalidade do mercado e a hostilidade dos reguladores. Instala-se o primado da malandragem, o investimento em lobby toma o lugar daqueles que se destinam à produção e à competitividade, o país do futebol se torna propriedade dos cartolas e a Rua se levanta.

Soa familiar? Não é parecido com as reclamações que se ouve nas ruas?

É surpreendente e alvissareiro que a sociedade exiba uma capacidade antes inexistente de perceber a vilania dos velhos mecanismos de socialização dos custos de estádios de futebol ou do apoio aos “campeões nacionais”. A imprensa não tem dificuldade em identificar os enredos e beneficiários, bem como as fórmulas de ocultação e os truques contábeis e manipulações. A irritação se torna cotidiana e crescente. Ninguém quer pagar as contas que não lhe pertencem, as escolhas do governo são equivocadas e provocam indignação: se há dinheiro para o Itaquerão e para o trem-bala, como as escolas, hospitais e ônibus podem ser tão ruins?

O “sistema político” tem muitos defeitos, mas o problema aqui tem muito mais que ver com a liderança e há uma eleição logo à frente. No mundo plano da globalização e das redes sociais, seria normal que a aversão a esse pseudo-capitalismo de quadrilhas trouxesse para o centro da política o desejo de horizontalidade, transparência, responsabilidade fiscal, probidade, meritocracia e impessoalidade nas regras do jogo econômico. Era disso que se tratava o Plano Real, sobretudo no seu capítulo sobre reformas. Mas o que estamos vendo nos últimos anos é muito diferente. É compreensível a irritação dessa maioria silenciosa com a epidemia de “seletividade”, privilégio e compadrio, que se sabe serem o berço da corrupção. Surpreendente mesmo não é o protesto e seus temas, mas o timing e a faísca que o determinou.


Pobre Dilma!

Ricardo Noiblat

Receita simples de um experiente observador da política brasileira para que o governo de Dilma se recupere já e vença as eleições do próximo ano:

- É preciso mudar e muito a relação política com a sociedade, o Congresso, os partidos, os governadores e prefeitos, as entidades empresariais, sindicais e populares. Além de mudar sua comunicação e a gestão e execução dos principais programas do governo.

E por fim:

- É preciso reavaliar prioridades e manter o rumo da política econômica para crescer sem inflação e distribuindo renda. É preciso também ouvir as críticas, demandas e reivindicações da cidadania. Além de ouvir as ruas e ir para as ruas defender e debater com o povo o plebiscito e a reforma política. No mais, é preciso mobilizar a base social e política do governo para defendê-lo e defender a obra do PT. 


Que tal? Moleza?

Apresento-lhes o autor da receita para salvar o governo que mais perdeu pontos de uma única vez desde que pesquisas começaram a ser aplicadas no país: José Dirceu de Oliveira, ex-coordenador da campanha vitoriosa de Lula em 2002 para presidente da República, ex-ministro-chefe da Casa Civil, deputado federal cassado por seus pares, e finalmente condenado pela Justiça como chefe da quadrilha do mensalão.

Em resumo, ele recomenda uma mudança radical de comportamento do governo faltando 15 meses para a eleição que poderá estender o mandato de Dilma por mais quatro anos – ou não.

A mudança não é radical porque seus ingredientes sejam. É radical porque implica em virar o governo pelo avesso, a presidente pelo avesso.

Mudar a relação com a sociedade... Com os políticos, os líderes sindicais, o povo...

Perguntem a Dilma se ela enxerga problemas na sua relação com a sociedade, os políticos seus parceiros, os líderes sindicais, e o povo que até recentemente a sustentava no mais alto pedestal jamais alcançado por um presidente.

Talvez admita que enfrente alguns problemas com os políticos, sim, mas por culpa deles. Os políticos querem empregos e dinheiro sem limite. E chantageiam o presidente.

Pobre Dilma!

Os sindicalistas se parecem com os políticos. E se ela ceder aos seus apelos será o fim. De resto, não disfarçam seu despreparo. E falam muitas bobagens.

Mais de uma vez – pobre Dilma! – ela foi obrigada a mandar alguns deles calarem a boca. Ou a interromper a reunião com eles porque tinha mais o que fazer. Admira a paciência de Lula, mas a dela é menor. Fazer o quê?

José Dirceu propõe a mudança da gestão e da execução dos principais programas do governo. O que quer dizer com isso? Que os programas, verdadeiras joias da coroa do governo, estão sendo mal conduzidos?
Até aqui só quem dizia uma coisa dessas era a oposição.

Os principais programas do governo são mal geridos e mal executados...

Quero só ver Dilma concordar. Caso concorde assinaria o atestado de óbito de sua administração.

Agora é fácil falar em ouvir as críticas e demandas das ruas porque elas começaram a gritar. Mas quem foi capaz de prever que todo esse desmantelo ocorreria? Quem foi?

Não é justo cobrar das pessoas o que elas não estão preparadas para dar.

Jamais passou pela cabeça de Dilma aspirar à presidência.

Ela não pediu para suceder Lula. Acreditou que poderia dar conta do recado se contasse com os conselhos inteligentes dele.

Enganou-se.

Lula não esconde dos mais íntimos que também se enganou ao indicar como candidata a mulher que dizia ser melhor gestora do que ele.

Dilma está ameaçada de passar à História como a presidente que marcou o fim da Era do PT no poder.

Pobre Dilma!

Maior perda de popularidade de Dilma ocorre entre mais pobres

Sérgio Tauhata 
Valor

SÃO PAULO  -  A maior perda de popularidade da presidente Dilma Rousseff ocorreu dentro da camada mais pobre da população, indica levantamento do Datafolha publicado neste sábado pelo jornal Folha de S. Paulo. Entre aqueles que ganham até cinco salários mínimos, a aprovação despencou 30 pontos em relação à pesquisa anterior feita pelo instituto na primeira semana de junho.

No início do mês, a gestão Dilma contava com 58% de respostas positivas nessa faixa de renda. Na nova pesquisa, só 28% dos brasileiros que ganham de 2 a 5 salários mínimos consideraram bom ou ótimo o governo.

Entre os mais pobres, o índice de ruim e péssimo saltou de 8% para 25%. Já aqueles que consideraram o governo regular subiu de 33% para 44%.

A camada mais abastada da população, com renda superior a 10 salários mínimos, e que em pesquisas anteriores se mostrou mais crítica em relação a presidente, apresentou a reação mais moderada, com menor queda de popularidade, de 22 pontos percentuais.

A parcela de ruim e péssimo entre os mais ricos, no entanto, mostrou subida forte, de 13% no início do mês para os atuais 33%. A avaliação regular ficou quase estável no intervalo superior de renda, com leve subida de 44% para 46%.

Na faixa de renda intermediária, daqueles que ganham de 5 a 10 mínimos, a aprovação do governo caiu 25 pontos, para 25%.

Esse intervalo, que concentra  grande parte da nova classe média brasileira, apresentou um dos maiores saltos de respostas ruim ou péssimo, de 14% para 44%, ou seja, 30 pontos percentuais. Já a parcela dos que consideraram regular o governo subiu de 35% para 45% dos entrevistados.

Faixa etária e escolaridade
A perda de popularidade do governo Dilma após a onda de protestos que se espalhou pelo país nas últimas semanas aconteceu de maneira generalizada e uniforme em todos os recortes de faixa etária e escolaridade, revela a pesquisa do Datafolha publicada neste sábado.

Entre os jovens, que foram maioria nos protestos realizados até agora, a queda de aprovação se manteve em linha com a dos mais velhos. Na faixa de 16 a 29 anos, a parcela de bom e ótimo caiu 29 pontos percentuais, de 53% para 24% em três semanas. E a parcela dos que consideraram o governo ruim ou péssimo superou a primeira, após subir de 9% para 28%. Quase a metade dos entrevistados mais jovens avaliou como regular a gestão: 47%, ante 36% no início do mês.

Na faixa seguinte, dos brasileiros entre 25 e 34 anos, a popularidade do governo caiu de 53% para 29%, ou seja, 24 pontos. A parcela de ruim ou péssimo alcançou 28% e a de regular subiu para 43% nesse extrato.
Dos entrevistados de 35 a 44 anos, 32% consideraram ótimo ou bom o governo, contra 61% no início de junho. E 23% consideraram a gestão Dilma ruim ou péssima, uma alta de 14 pontos. A percepção de regular, por sua vez, alcançou 44%.

No intervalo de idade de 45 a 59 anos, a popularidade de Dilma caiu de 60% para 33%, enquanto a de ruim ou péssimo subiu de 8% para 26%. As respostas com nota regular somaram 40% dos entrevistados nessa faixa etária.

Entre os mais velhos, aqueles acima de 59 anos, a gestão Dilma obteve aprovação de 35% dos entrevistados, ante 58% há três semanas. A parcela de ruim ou péssimo subiu de 10% para 21% e a de regular, de 30% para 41%.

A escolaridade também não pesou no aumento da percepção negativa sobre o governo. Daqueles que cursaram até o ensino fundamental, 38% consideraram a gestão Dilma ótima ou boa, ante 61% na pesquisa anterior. 

No grupo dos entrevistados com menor escolaridade, a fatia de ruim ou péssimo saltou de 7% para 22% em três semanas. E a de regular subiu oito pontos, para 38%, e igualou aqueles que aprovam a gestão Dilma.

Na faixa do ensino médio, as respostas bom ou ótimo alcançaram 27% dos entrevistados, enquanto a percepção ruim ou péssimo pulou de 9% para 26%. Dos entrevistados desse grupo, 46% classificaram como regular o governo.

Dos brasileiros com nível superior, apenas 21% consideraram o governo Dilma bom ou ótimo. Os mais estudados também foram mais críticos com o governo: 31% classificaram como ruim ou péssima a gestão atual. E quase a metade, 47%, deu nota regular para a presidente.

A usurpação do novo

Denis Lerrer Rosenfield 
O Globo

O processo político escaparia de qualquer marco legal, fazendo o país entrar em uma era de incerteza e insegurança

As ruas brasileiras apresentam uma novidade que contrasta com toda a anomia anterior, onde prevalecia o divórcio entre o Estado e a sociedade, os representantes e os representados. Pior do que a anomia, contudo, era o ambiente de desregramento moral, crise de valores, onde os signos mais visíveis eram a corrupção e o desvio de recursos públicos, alinhados com a baixa qualidade dos serviços públicos.

As vozes da rua, de maneira difusa, deram vazão a uma inconformidade latente, fazendo valer outro discurso, totalmente distinto do oficial, ufanista e demagógico. “Nunca antes nesse país”, “saúde de qualidade” já realizada, entre outros slogans davam a impressão de que o povo estava anestesiado, desconhecia a realidade, e estava pronto para referendar mais uma vez o governo petista.

A sociedade civil acordou. Ao espreguiçar-se saindo logo correndo, derrubando o que encontrava pelo caminho, sabendo perfeitamente o que não mais queria, não conseguindo, contudo, articular ainda uma pauta propriamente positiva. O relevante, de qualquer forma, é o seu “não”: não à corrupção, não a políticos que só vislumbram seus interesses particulares, não às altas tarifas de transporte público, não a serviços públicos de baixa qualidade, não aos gastos da Copa das Confederações e do Mundial.

O movimento social assim florescente caracterizou-se pela autonomia, pelo apartidarismo, pelo não aparelhamento por partidos e por “movimentos sociais” como a CUT, o MST, a UNE e outros. Bandeiras dessas entidades foram rasgadas e seus militantes apupados. O PT, em particular, ficou atônito, pois jamais imaginou uma rua que não controlasse. O presidente do partido chegou a convocar a militância em uma manobra desastrada, mostrando o pouco preparo partidário para um contexto tão radicalmente novo.

Convém aqui fazer uma distinção da maior importância para que possamos entender o que está ocorrendo. O PT sempre entendeu os movimentos sociais enquanto “organizados”: movimentos por ele mesmo controlados. É o caso de seu braço sindical, a CUT, do seu braço social-revolucionário, MST, com suas entidades afilhadas, como a Via Campesina, o Movimento dos Atingidos pelas Barragens, o Movimento dos Pequenos Agricultores, o Movimento dos Sem Teto (esse último aparecendo nos últimos dias como protagonista). A UNE, embora controlada pelo PCdoB, apresenta a mesma forma de organização.

Ora, todos esses movimentos não foram efetivamente protagonistas das manifestações. Essas, por sua vez, se caracterizaram por serem “não organizadas” no sentido petista do termo, compostas por pessoas das mais distintas ideias e concepções, onde, mesmo, as qualificações de direita e de esquerda tornam-se difíceis de serem aplicadas. Seu instrumento de convocação foram as redes sociais. A primeira acepção pode ser dita heterônoma, pois aparelhada, a segunda autônoma, pois independente.

A ambiguidade do uso do termo “movimento social” está dando lugar agora à usurpação. Os movimentos sociais heterônomos estão procurando se colocar como os verdadeiros representantes das manifestações. Não deixa de ser risível militantes desse tipo dizerem que foram eles que estiveram presentes desde o início, tendo sido deles a iniciativas do “novo”. Eles são o “anacrônico”, que não ousa dizer o seu nome.

O governo está adotando a linha petista em sua tentativa de responder a uma crise que nem vislumbrou. O PT está tentando retomar o controle da situação. A presidente da República chamou, então, os “movimentos sociais” para conversar. Como assim? Chamou os usurpadores para uma conversa, deixando a sociedade autônoma ao léu?

A mixórdia foi total. As centrais sindicais foram chamadas para conversar, quando nada tiveram a dizer de manifestações das quais não foram protagonistas. O Movimento dos Sem Teto, outro ausente, aparece como interlocutor, forma de trazer o MST para junto do governo. A única exceção reside no Movimento do Passe Livre, que teve representatividade, embora a sua pauta seja dúbia. A pública é a de um movimento voltado para a redução da tarifa dos transportes públicos e, inclusive, pelo passe livre. A ideológica, segundo o seu próprio manifesto, é de natureza anticapitalista, contra a economia de mercado e a livre iniciativa. Do ponto de vista de suas concepções comunga com a ideologia do PT, considerando-a em situação de divórcio com o governo petista.

O governo foi além, fazendo valer outra forma de usurpação. Propôs, inicialmente, uma “Constituinte exclusiva” para a reforma política enquanto resposta, quando essa nem apareceu como agenda dos manifestantes. E o fez sob a forma de um “truque”, ou seja, a convocação de uma “Constituinte exclusiva” sob o modo de um “plebiscito”. Este conferiria uma aparência democrática à iniciativa, outorgando a uma “Constituinte” poderes ilimitados para questões políticas e, mesmo, para além delas, como a dita “democratização dos meios de comunicação”, sob o prisma “político” reformista evidentemente. Estaríamos, diante, de uma subversão da democracia por meios democráticos.

Quem controlaria uma “Constituinte” desse tipo? A resposta é óbvia: o governo, por deter o Poder, o PT, por ser o partido mais enraizado nacionalmente, e os movimentos sociais “organizados”. O processo político escaparia de qualquer marco legal, fazendo o país entrar em uma era de incerteza e insegurança. Sensatamente, o governo recuou de tal proposta, distanciando-se, novamente, das alas mais radicais de seu partido e dos movimentos sociais heterônomos.

Contudo, seria ingênuo considerar que o processo esteja terminando, nem que as formas de fazer política sejam somente essas. Os ditos “vândalos” correspondem, por sua vez, a movimentos políticos organizados, “sociais” ou não, ou de extrema esquerda, que estão apostando em uma crise institucional. Não se trata do crime organizado que se aproveita dessa situação, mas de uma forma de organização política que usa da violência para a consecução de seus próprios objetivos.

A miséria do nacional-estatismo

Sergio Fausto  
O Estado de S.Paulo

É preciso aprender com a História, inclusive a recente. Duas das experiências internacionais enaltecidas pelo nacional-estatismo brasileiro ao longo da última década enveredam por caminhos cada vez mais sombrios. Falo da Rússia e da Argentina.

O elogio partia de uma premissa verdadeira - sim, os governos de Boris Yeltsin e Carlos Menem terminaram em desastre, num misto de "fundamentalismo de mercado" com "capitalismo de compadrio" - para chegar à conclusão falsa de que nos governos de Vladimir Putin e do casal Kirchner, respectivamente, se estavam erguendo boas alternativas ao capitalismo liberal.

Os descaminhos a que esses países estão sendo conduzidos eram relativamente previsíveis. Não, porém, para aqueles que encontram refúgio na idealização do nacionalismo e do "Estado forte". Na sua versão mais autoritária, o nacional-estatismo produz uma dupla distorção. A nação, no lugar de ser entendida como expressão plural e soberana de seus cidadãos, é reduzida à vontade do Estado, instrumentalizada por grupos que controlam o governo. Assim, o nacionalismo converte-se em ideologia para excluir os opositores como antipatriotas, ao passo que o Estado deixa de zelar pela esfera pública para se transformar em ferramenta de poder dos ocupantes circunstanciais do governo.

Em seu afã de crítica ao capitalismo liberal, o "desenvolvimentismo" brasileiro não raro se deixa cegar pela fascinação nacional-estatista. Dessa maneira, confunde-se a justa crítica ao "fundamentalismo de mercado" com o rechaço em bloco ao liberalismo político e econômico clássico, base necessária, embora não suficiente, do pensamento e da experiência democrática contemporânea.

Na Rússia, onde Putin se elegeu pela segunda vez para a Presidência, depois de um intervalo de quatro anos como primeiro-ministro, o nacionalismo laico juntou-se ao tradicionalismo religioso para sufocar os espaços de autonomia e contestação da sociedade civil russa. A santa aliança entre o Kremlin e a Igreja Ortodoxa promove ataque sistemático às liberdades civis no país. O mais recente é o projeto de lei - indisfarçavelmente homofóbico - que define como crime a promoção de "relações amorosas não tradicionais" entre crianças e jovens. Sua aprovação é tida como líquida e certa, pois o Partido Rússia Unida, de Putin, conta com maioria parlamentar, resultante de eleições consideradas fraudulentas. A iniciativa surge na sequência do processo que levou à prisão as integrantes da banda Pussy Riot, acusadas de desrespeito a símbolos patrióticos e eclesiais.

A liberdade de imprensa é outra das maiores vítimas. As seis principais cadeias de televisão estão em mãos do governo ou de seus prepostos. Avolumam-se os processos contra jornalistas e veículos da mídia independente, que não encontram num Poder Judiciário garroteado proteção contra as arbitrariedades oficiais. Para a criminalização recorrente de indivíduos e organizações da sociedade civil o governo acusa-os de "agentes de potências externas e interesses estrangeiros".

O núcleo de poder no governo de Putin é formado pelo serviço de inteligência e por uma nova geração de oligarcas que substitui a que emergiu com as privatizações "selvagens" de Boris Yeltsin. Putin livrou-se daquela oligarquia encarcerando ou forçando ao exílio os seus membros mais recalcitrantes. Não o fez para sanear o país, mas para se apropriar de suas empresas e abrir espaço para uma nova burguesia, desta vez umbilicalmente ligada ao Estado e ao seu poder pessoal.

A recuperação da economia, favorecida pelos preços altos do petróleo e do gás natural nos mercados internacionais, e a retomada do orgulho nacional ferido pelo colapso da União Soviética e pelos anos caóticos de Boris Yeltsin asseguraram a Putin, até recentemente, elevada popularidade. O quadro, porém, está mudando. Com a desaceleração do crescimento, a explosão das desigualdades sociais, a inconformidade social cada vez maior com os privilégios e a corrupção que campeiam na nova burguesia estatal, a conservação do status quo passa a depender de doses crescentes de repressão política e fraude eleitoral, preço que Putin parece disposto a pagar para se manter no poder.

Mutatis mutandis, também na Argentina a manipulação do nacionalismo vem sendo utilizada intensamente pelos governos Kirchner para permitir que um grupo político se apodere do Estado e para justificar um ataque sistemático e deliberado não apenas às oposições, mas a quaisquer instituições que ousem pôr freio nos desígnios e propósitos oficiais. Claro, na Argentina a manipulação nacionalista tem marcas diferentes das características que assume na Rússia. Na primeira, apela à raiz popular do peronismo. Na segunda, à nostalgia de um passado imperial e ao sentimento presente de uma potência militar acossada. Mas há um traço comum: tanto lá como cá, a ideologia nacional-estatista é empregada para justificar a apropriação do Estado por grupos políticos determinados, o manejo discricionário das políticas e das instituições públicas e a asfixia da sociedade civil e das oposições.

A não compreensão das afinidades eletivas entre dirigismo estatal, manipulação nacionalista e autoritarismo - comprovadas pela frequência histórica com que esses três fenômenos surgem associados, reforçando-se mutuamente - explica por que certa corrente crítica ao capitalismo liberal namora o pensamento antidemocrático, quando não se acasala integralmente com ele. Num nível mais concreto, ajuda a entender também por que expoentes do "desenvolvimentismo" brasileiro - como Luiz Carlos Bresser-Pereira, a quem sobram credenciais democráticas - se tenham deixado seduzir pelos governos de Vladimir Putin e Cristina Kirchner, ensaiando só agora crítica tardia e insuficiente.

Financiamento público de campanha política não é solução

O Globo


O tema e outros referentes à muito falada e nunca executada reforma política ganham realce agora que o PT e a presidente Dilma decidiram aproveitar o espaço político aberto pelas históricas manifestações iniciadas há semanas para, sob a justificativa de interpretar a voz da rua, para colocá-la na agenda do país.

Ao largo da discussão sobre a equivocada, por inconstitucional, proposta de uma “Constituinte exclusiva” para executar as mudanças na legislação político-eleitoral supostamente pedidas pelo povo, é certo que, sob inspiração petista, o governo incluirá, com ou sem plebiscito, o chamado financiamento público de campanha na lista de alterações.

É bandeira antiga do partido no poder e aliados, erguida com mais vigor depois do escândalo do mensalão, como se a estatização total das finanças político-eleitorais pudesse funcionar como antídoto infalível contra desvios de dinheiro público para o caixa dois da política. Não passa de ilusão.

A autópsia feita nos dois mensalões — o tucano, do então governador mineiro Eduardo Azeredo, e o petista, sob o comando de José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoíno — desvendou o uso de sofisticada engenharia de lavagem de dinheiro. Como provaram as investigações que fundamentaram as acusações encaminhadas pelo Ministério Público Federal ao Supremo, há tecnologia disponível no submundo financeiro da política capaz de driblar os débeis sistemas de controle da Justiça Eleitoral.

Indo ao ponto: aprovado o financiamento total das campanhas, o contribuinte, além de gastar mais com políticos e partidos, pagará duas vezes — via os impostos escorchantes que já recolhe ao Tesouro e, de maneira indireta, no superfaturamento no fornecimento de bens e serviços a governos por financiadores de caixas dois eleitorais. Como sabido, os provedores finais de todos os gastos são, de maneira dissimulada ou não, o contribuinte, ou seja, a população inteira.

Há, inclusive, uma visão distorcida implícita na proposta do “financiamento público”. Na verdade, público ele já é, e em uma parcela que não é pequena. O Fundo Partidário, a que todos os partidos têm direito, movimentou, ano passado, mais de R$ 300 milhões — dinheiro do contribuinte. Há, ainda, uma despesa não desprezível correspondente à isenção tributária concedida a emissoras de rádio e TV em troca do “horário gratuito” eleitoral. Ele é “gratuito”, esclareça-se, para candidatos e partidos. Não para o pagador de impostos. Vende-se a ilusão de que a corrupção será banida se os bilionários gastos de campanha forem bancados por um cheque único do Tesouro Nacional. Mais gastos em troca de nada.

Em vez da fórmula ilusória, que haja mais transparência compulsória nas cifras da política e que a legislação eleitoral seja reforçada para punir os desvios. Por exemplo, para retirar da vida pública o “conta-suja”, o fraudador da prestação de contas depois de cada eleição.

A vez do povo desorganizado

Ferreira Gullar
Folha de SPaulo

Os políticos se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício

As manifestações de protesto ocorridas nas últimas semanas em numerosas cidades brasileiras são, sem sombra de dúvida, um fenômeno novo na vida política do país, nos últimos 20 anos.

Causou surpresa a muita gente --inclusive a mim-- que o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte urbano tenha provocado tamanha revolta e mobilizado tanta gente.

É que essas manifestações traziam consigo outras motivações que não se revelaram no primeiro momento. Logo pôde-se ver que o aumento das tarifas foi apenas o detonador de um descontentamento maior que põe em questão o próprio sistema político que nos governa.

Ouvi e li opiniões segundo as quais trata-se de um fenômeno internacional, uma vez que, em vários países, protestos populares têm se repetido com frequência. Trata-se, creio eu, de uma opinião equivocada, já que as razões desses protestos são diferentes de país para país. O que há de comum neles é a influência das redes sociais, que possibilitam mobilizações em tal escala.

No caso do Brasil, por exemplo, está evidente que a revolta é contra os políticos em geral, sejam de que partidos forem, pertençam ao governo ou à oposição. Isso se tornou evidente em diversos momentos quando militantes deste ou daquele partido tentaram se manifestar: foram vaiados e até espancados. Foi o caso do PT que, oportunista como sempre, tentou tirar vantagem da situação e se deu mal.

Mas de onde vem esse horror aos políticos? A resposta é óbvia: eles se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício.

Essa máquina, que é mantida com o dinheiro de impostos escorchantes, eles usam para empregar seus parentes e companheiros de partido, para enriquecer a si e a seus familiares, manipulando licitações e contratos de obras públicas --e usam isso, sobretudo, para se manter no poder.

Essa situação tornou-se particularmente insuportável depois que Lula assumiu o governo e pôs em prática uma política populista que veio agravar ainda mais aqueles fatores negativos da vida política brasileira. Quem nele acreditava viu, decepcionado, que ele ignorou os compromissos éticos assumidos e aliou-se a figuras como Maluf e o bispo Macedo --sem falar na compra, com dinheiro público, de partidos corruptos.

Essa aliança, com o submundo político, de um líder que surgiu como uma esperança de renovação, só poderia conduzir as pessoas em geral --e particularmente os que confiaram nele-- à desesperança total quanto ao futuro da nação.

O mais grave é que, somando-se isso à política assistencialista que adotou, tornou-se eleitoralmente imbatível. Assim, sem outra saída, os inconformados foram para as ruas. Nessa rejeição ao poder constituído e aos políticos em geral, o povo descontente pode não saber ainda por onde vai, mas sabe por onde não vai.

Não por acaso, a maioria desses manifestantes é de classe média. Não foram os pobres dos subúrbios que vieram para as ruas protestar, pois recebem Bolsa Família e melhoraram de vida. Quem está insatisfeita e revoltada é a parte da sociedade que só perdeu com o populismo lulista, uma vez que o dinheiro público, em lugar de ser investido em hospitais, escolas e serviços públicos, foi e é usado em programas assistencialistas e demagógicos.

Por outro lado, o lulismo cooptou as entidades representativas dos trabalhadores e dos estudantes (a CUT e a UNE), que, contrariamente a suas origens e à sua história, agora impedem manifestações contrárias ao governo. Desse modo, tanto os trabalhadores quanto os estudantes não têm quem os represente na luta por suas reivindicações.

Por isso, meses atrás, afirmei nesta coluna que a única solução possível seria o povo desorganizado ir para as ruas, já que não conta com as organizações que deveriam representá-lo. É o que acontece agora: o povo desorganizado está nas ruas. Desmascarada, a CUT tentou juntar-se aos manifestantes, mas foi repelida por eles.

Sem alternativa, a presidente Dilma promoveu uma reunião com governadores e prefeitos para aparecer como porta-voz dos inconformados, e propôs medidas que não se sabe quando nem se serão mesmo postas em prática.

A falsa solução do plebiscito

Editorial
O Globo

A ideia da reforma política via consulta popular encobre reclamações objetivas contra gastos públicos mal feitos, desperdícios, descaso com Saúde e Educação

Resultado de um lance de oportunismo de alas do PT embevecidas pela “democracia direta” chavista, a Constituinte exclusiva, ideia afastada por flagrante ilegalidade — não pode haver constituinte para rever apenas partes da Carta — foi convertida em plebiscito. Ao vislumbrar uma brecha na crise das manifestações de rua para contrabandear este antigo sonho do partido — oficialmente, desde 2007, segundo documentos internos do PT —, a legenda desembocou numa consulta que o governo Dilma precisa viabilizar junto ao Congresso.

A tarefa é impossível de ser cumprida, se a ideia for realizar uma consulta séria à população. Como o tema do plebiscito, a reforma política, não pode ser traduzido em perguntas simples e objetivas, exigência de qualquer sondagem popular, a presidente Dilma tem mais um problema sério sobre a mesa para resolver.

E tudo isso para pretensamente atender a uma das reivindicações das ruas, afirmam o governo e o partido. Ora, num sentido bastante amplo, pode-se entender que as críticas aos políticos e governos em geral, feitas nas manifestações, podem ser atendidas por uma reforma política. É duvidoso, porém. Mais ainda quando se sabe que, entre as mudanças arquitetadas por petistas, está o voto em lista fechada, em que os candidatos são escolhidos pelos caciques partidários, em barganhas nada transparentes, distantes do povo em nome do qual se pretende fazer as mudanças. Ironia pura. E enquanto o plebiscito vai tomando conta da agenda política, o governo finge não entender críticas reais feitas nas ruas: prioridades erradas nos gastos públicos, desperdícios, mais recursos para Educação e Saúde, por exemplo. É a tradução dos ataques aos estádios para a Copa e à baixa qualidade do sistema de transporte público urbano.

Em vez de uma incerta e etérea reforma política, o Planalto deveria responder às manifestações com ações objetivas e certeiras. Como a suspensão do mirabolante e bilionário projeto do trem-bala entre Rio e São Paulo, com o último orçamento em mais de R$ 30 bilhões — cifras sempre revistas para cima —, e a transferência do que houver de dinheiro público envolvido na empreitada para viabilizar projetos de trens suburbanos e metrôs nas duas regiões metropolitanas.

Os tais “pactos” com os quais Dilma se compromete — a reforma política é um deles — correspondem a despesas de R$ 50 bilhões. Em entrevista ao GLOBO, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, promete cortes em gastos de custeio e/ou aumento de impostos a fim de compensar estas despesas. Chega a ser um acinte admitir aumentar a já elevada carga tributária, quando o governo gasta R$ 611 bilhões por ano — ou quase US$ 300 bilhões — para manter uma enorme máquina burocrática, com 39 ministérios, quase 1 milhão de funcionários e 22 mil servidores apaniguados, donos de cargos ditos de confiança, para os quais são nomeados por afinidades pessoais e ideológicas. Explica-se o mau humor demonstrado nas manifestações. Vandalismo à parte.