sábado, outubro 16, 2021

O desprezo pelos mais pobres no Governo Bolsonaro. São apenas mortos-vivos

 Juan Arias

El Pais

O ministro da Economia, Paulo Guedes, cuja fortuna que esconde em paraísos fiscais foi descoberta, dança em uníssono com o presidente no desprezo pelos pobres.

 CARLA CARNIEL (REUTERS)

Jair Bolsonaro durante missa pelo dia de 

Nossa Senhora Aparecida, celebrado em 12 de outubro.

Nunca os mais pobres do Brasil foram a prioridade de nenhum Governo. São considerados apenas um estorvo. Servem somente em época de eleição, em especial para o voto. Poucas vezes, porém, os pobres foram tão desprezados como hoje, sob este Governo golpista. São uma espécie de mortos-vivos que só atrapalham.

E se esses pobres são mulheres, a dose de desprezo do presidente misógino é dupla: dias atrás, agrediu e ofendeu uma mulher anônima que tentou contestá-lo: “Tenho certeza que você nem sabe quanto é 7 vezes 8″, respondeu mal-humorado, para humilhá-la.

Para as mulheres que ainda menstruam e não têm condições financeiras de comprar absorventes, como jovens estudantes, presas pobres ou moradoras de rua, cerca de 4 milhões, a quem o Estado oferecia gratuitamente esses produtos de higiene pessoal, havia amaro legal. E Bolsonaro vetou essa lei. E, diante das críticas, reagiu com raiva, avisando que nesse caso descontará a despesa dos gastos com educação.

Se a inflação está nas nuvens e corrói a economia dos pobres, não há problema. Se não podem comprar carne, essa que o Brasil exporta para meio mundo, que peguem os ossos que os mercados jogam no lixo. Se o arroz aumenta, que comam só a casca, que é mais barata, ou feijão quebrado, que antes nem se vendia.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, cuja fortuna que esconde em paraísos fiscais foi descoberta, dança em uníssono com o presidente no desprezo pelos pobres. Ele sugeriu, por exemplo, que aqueles que podem comer todos os dias deem os restos de seus pratos aos pobres em vez de jogá-los no lixo. E ironiza as empregadas domésticas que também querer viajar para Miami.

O fato de os mais pobres terem sido os que mais morreram na pandemia pouco importa, pois eles são um peso-morto. Só são úteis na hora de vender o voto por alguns quilos de comida.

E se diante do flagelo da inflação o preço da gasolina disparou, que os pobres se desloquem a pé ou de bicicleta. Se o preço do gás de cozinha dobrar de preço, que cozinhem com lenha como antigamente. E se o preço da energia aumentar, o que esses pobres fazem? O ministro da Economia deu a eles uma receita: que tomem banho com água fria. Ou que desliguem a televisão. Teria também a vantagem de que não se informariam sobre a corrupção dos políticos, aqueles que, como o ministro, escondem seu dinheiro para não pagar impostos.

Mas para que nos preocuparmos tanto com as penúrias desses pobres se eles são resistentes ao desalento? Os pobres, dizem os muito ricos, são sofridos e sabem esperar e esquecer. E ainda mais se forem negros, triste herança da escravidão. Bolsonaro chegou a dizer que pesam arrobas e que não servem nem para procriar.

E, no entanto, sem esses milhões de pobres os mais ricos não poderiam viver felizes. São os novos escravos da civilização moderna e tecnológica. São o alívio de quem tem tudo de sobra.

Em todos os governos do mundo, os pobres ou migrantes, os novos proletários, sempre recebem apenas os restos da opulência. Hoje, no Brasil, o abandono dos mais pobres é mais sangrento do que nunca. Fazia muito tempo desde o fim da ditadura que não havia tantos milhões não só de pobres, mas de famintos.

Quando se pensa às vezes que a democracia é coisa de ricos, é preciso lembrá-los de que a pobreza e a miséria crescem em proporção direta com os governos autoritários e ditatoriais. Não existe política de justiça social nas ditaduras. Durante a ditadura franquista na Espanha, que durou 40 anos, a fome voltou e os ricos ficaram ainda mais ricos. Pensem, aqui mais perto, por exemplo, na Venezuela ou em Cuba.

Talvez o mais positivo no Brasil no momento, segundo as pesquisas, seja que 70% da população prefira a democracia às ditaduras. Isso quer dizer que mesmo os menos cultos compreenderam que a opressão e a falta de liberdade estão em proporção direta com o agravamento da pobreza e que, no final, os afeta mais do que a ninguém.

Tudo isso até que essa massa de mortos-vivos que são ignorados como se não existissem, descubra que existem, que são importantes, que também eles têm dignidade, que são mais do que objetos e que passem a conta aos satisfeitos e donos do poder e da riqueza, um território para o qual eles ainda não têm passaporte.

600 mil mortes: nada será como antes

 Constança Tatsch

O Globo

Brasil chega à trágica marca em meio a uma pandemia que enfim desacelera

  Foto: Editoria de Arte O Globo

Brasil saltou de 500 mil para 600 mil mortes por Covid-19 em cerca de três meses. 

SÃO PAULO — O Brasil chegou nesta sexta-feira à marca de 600 mil vidas perdidas para a Covid-19, pouco mais de três meses e meio após atingir meio milhão de mortos. O intervalo maior entre as tristes efemérides indica que o pior momento ficou para trás.  

Ainda são registrados, diariamente, 500 óbitos pela doença. Mortes que jamais serão esquecidas. Na manhã desta sexta, uma das mais bonitas manifestações ocorreu no Rio. Um ato da ONG Rio de Paz na Praia de Copacabana lembrou os 600 mil óbitos pela Covid-19 no Brasil. A organização não governamental estendeu em um varal na areia, em frente ao Copacabana Palace, com 600 lenços brancos. No entanto, há uma queda sucessiva no número de casos e mortes, além de estagnação na taxa de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS) em patamares baixos na maioria dos estados brasileiros, como indica boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz divulgado nesta quinta. 

 Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

Quatro faixas também estão distribuídas pela instalação 


  Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo 

Alto risco. Bandeira de alerta de segurança para mergulho no mar é visto 

entre lenços brancos e a bandeira nacional em ato da ONG Rio de Paz 

O geneticista Salmo Raskin, diretor do Laboratório Genetika, de Curitiba, avalia que a situação no Brasil está melhor.   

— Vejo o início do fim da pandemia. Ainda estamos no túnel, mas já enxergamos uma luz no fim e dá para fazer uma estimativa sobre quanto tempo estamos dessa luz. Não deve acontecer de novo o que aconteceu em abril e março passados. Mesmo que surja uma nova variante, a situação agora é diferente, temos as vacinas e elas estão avançando, melhorando — afirma.

Um dos grandes motivos para o enfraquecimento da pandemia foi a vacinação, que engrenou no país. A forte aceitação da vacina fez avançar a imunização total para quase 45% dos brasileiros, o que reflete também na redução drástica nos números hospitalização – ao menos sete estados estão com queda de 70% ou mais nas internações.  

Mais protegidos, os brasileiros estão claramente otimistas em relação aos próximos tempos de pandemia. 

Adriana Mafra Torelli, de 50 anos, teve perdas muito importantes ano passado – o sogro, aos 83 anos, e o marido, aos 53. Imunizada, ela diz que agora se permitiu flexibilizar o isolamento, para além de sua atividade profissional. No começo do mês, saiu pela primeira vez para conversar com uma amiga e tomar um drinque. Os próximos planos contemplam participar de um cruzeiro em que há atividades musicais em alto mar. 

—  Apesar de quebrada, tenho dois filhos para cuidar, sei que tenho uma vida inteira pela frente. Brinco que vou viver até os 105 anos e, como tenho 50, comecei tudo de novo agora, estou engatinhando e agora com mais segurança — afirma 

Segundo a Fiocruz, desde julho, o Índice de Permanência Domiciliar se encontra próximo de zero, o que significa que já não há mais diferença na intensidade de circulação de pessoas nas ruas em comparação ao que era observado antes da pandemia.  

— Mas é importante ter toda calma nessa hora. Agora que as coisas estão indo bem, não precisa ter tanta pressa. O importante é manter essa direção. Ainda temos que completar algumas lições de casa, como cobertura vacinal completa e cuidados para evitar a infecção, diz Raskin. 

Entre os cuidados, está o afrouxamento no uso de máscara, que deve ser gradual. O que deve ocorrer, é que ela seja dispensada em ambientes abertos, como praias ou parques, mas mantida no transporte público e outros ambientes fechados, como supermercados. Depois, ela passará a ser um acessório que cada pessoa poderá adotar em situações em que se sintam mais vulneráveis. Tudo isso, no entanto, só em 2022. Por enquanto as máscaras são fundamentais para controlar a transmissão do vírus, que segue elevada. 

Controle 

Pesquisadores de todo o mundo tentam estabelecer quais critérios científicos serão usados para declarar que a pandemia passou a ser uma epidemia. A professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel, que tem pós-doutorado em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins, diz que um dos valores considerados seria um caso da doença para cada 100 mil habitantes, com entre 600 e 900 mortes por ano, como ocorre com a influenza. Valores dos quais ainda estamos muito distantes.  

—Quando tivermos mais de 80% da população vacinada acredito que vamos ver um impacto importante — afirma a epidemiologista.  

Segundo Maciel, há muitas variáveis a serem consideradas, inclusive algumas que ultrapassam nossas fronteiras. Com uma parte do mundo ainda não imunizada, o risco de novas variantes é uma realidade. Na África, por exemplo, a cada 100 pessoas apenas sete estão vacinadas. Por isso as vacinas são fundamentais.

— Quando se pensa em pandemia é preciso ter em mente que não basta olhar para o nosso quintal. Todos os quintais têm que estar sendo cuidados — diz. No entanto, mesmo que surja uma cepa que escape às vacinas, hoje temos mais margem para uma ação rápida.  Muito em breve deverá ser parecido com o que fazemos para gripe. Remodelar a vacina de acordo com as variantes que estão circulando no momento. 

Há poucos meses a preocupação maior dos especialistas era com a variante Delta, que teve impacto profundo no Reino Unido, EUA e Israel. Presente no Brasil de forma mais generalizada desde agosto, a cepa, no entanto, não provocou algo semelhante aqui.  

—Fui acompanhando nos EUA o medo da chegada da Delta e a onda de novos casos e mortes. Aqui no Brasil simplesmente não aconteceu esse impacto e o tempo já passou. Não estamos livres, mas não aconteceu. Não acho que foi pela vacinação, porque na época não tínhamos grande cobertura de esquema vacinal completo e a Delta não respeita uma dose só. Acho que foi pela Gama. Aconteceu um fenômeno biológico que a meu ver tem tudo a ver com a Gama, que não perdeu a briga para a Delta, enquanto a Alfa perdeu — explica Salmo Raskin. 

Outro aspecto que pode ter sido relevante, além da vacinação, segundo o geneticista, é temporal: a chegada da temida variante ocorreu poucos meses após o pico da pandemia no Brasil, de forma que mais gente estava com a imunidade alta após ter sido infectado naquele momento.  

Nos EUA, a Delta ainda é explosiva principalmente em razão de grandes bolsões de pessoas não vacinadas. Embora a vacinação tenha aumentado muito no país no primeiro semestre, ela avança de forma impressionantemente lenta nos últimos meses (veja gráfico). Raskin, que morou alguns anos no estado americano do Tennessee, não se surpreende:   

— Entra uma questão comportamental. O Brasil tem tradição de vacinas, todos estamos acostumados. Os EUA têm o triplo de vacina que precisam e você pode ir na farmácia da esquina se vacinar. Mas lá a campanha antivax é antiga, muito anterior a esse momento. É uma vergonha histórica para o país. Estão em torno da posição 40 no ranking de vacinação e cada vez mais países passam. Mostra a fragilidade do sistema de saúde americano e comportamental. 


Três demônios no meio do caminho

 Bolívar Lamounier,

O Estado de S.Paulo

O Brasil atual não está meramente estagnado, está retrocedendo, rumo a uma crise séria. 

Todos temos o direito de especular sobre o futuro; e podemos fazê-lo como os adivinhos da antiguidade romana, que examinavam as entranhas de certas aves, ou como os economistas de hoje em dia, que recorrem a projeções estatísticas dificilmente compreensíveis por mortais comuns.

Nos dias que correm, dezenas de estudiosos nos têm alertado para a gravidade e a ubiquidade das ameaças que pairam sobre o convívio social, a democracia e a própria humanidade. Alguns discorrem sobre tragédias de alcance mundial, como as epidemiológicas e as climáticas, outros sobre reles práticas criminosas, como o hackerismo – que de uma hora para outra podem paralisar engrenagens essenciais da atividade econômica. Mas não percamos tempo tentando prever o final dos tempos, como fez Auguste Comte, imaginando um mundo inteiramente regido pela ciência, ou como Karl Marx, que julgou haver antevisto o fim das desigualdades sociais. Atenhamo-nos ao Brasil e a um horizonte temporal de duas décadas – um pouco mais ou um pouco menos.

Estabelecida a regra de jogo, peço vênia para expor minha avaliação. O Brasil atual não está meramente estagnado, está retrocedendo, resvalando para uma crise séria, antevéspera de um possível abismo. O que temos à nossa frente não é apenas uma pedra no meio do caminho, como escreveu o poeta Drummond. São ao menos três pedras, grandes e aterradoras. Três demônios. Ei-los: 1) a estúpida polarização política que se configurou a partir da eleição presidencial de 2018; 2) a corrupção sistêmica, que os sapientes constituintes de 1988 tornaram quase impossível de ser combatida; e 3) a lerdeza de nossas elites no tocante ao imperativo de efetivar reformas que todos sabemos serem essenciais para o desenvolvimento econômico e social.

A polarização e suas consequências são o óbvio ululante. No pleito presidencial de 2018, o antipetismo atingiu uma altura estratosférica, condensando a repulsa de milhões de cidadãos à corrupção sistêmica, cujas dimensões ficaram escancaradas nas inquirições sobre a Petrobrás. Tal repulsa, como a Física ensina, haveria de produzir um movimento de sentido contrário, no caso aquele que catapultou à mesma altitude um capitão excluído das Forças Armadas por indisciplina e notabilizado durante 29 anos por sua irrelevância como deputado federal. Só os muito obtusos não percebem que a reedição desse enredo em 2022 poderá perpetuar ainda por muitos anos a situação catastrófica em que nos encontramos.

Claro, há dois fatores novos a considerar. De um lado, a inflação e a sucessão de descalabros do atual governo no combate à pandemia sugerem que Jair Bolsonaro dificilmente terá gás para a disputa de 2022. Do outro, há uma penca de hipóteses (o PMDB lançando o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco; o governador João Doria tentando ressuscitar o PSDB; uma “terceira via”; etc.) que me abstenho de comentar porque, até o momento, não sei se vamos ouvir aprazíveis harmonias ou a insuportável cacofonia que nos atormenta ano após ano.

De concreto, o que há é mais uma tentativa de pintar Lula como o xodó dos empresários, quem sabe até como um estadista-pacificador: um Juscelino Kubitschek. O problema é que essa fantasia nem de longe corresponde ao que a situação brasileira está a exigir: um presidenciável cujo perfil público seja em si mesmo uma indicação de que estaremos retornando à normalidade. O Lula-estadista já começou mal, convocando a “militância” para rediscutir a questão do “controle democrático da mídia”, vale dizer, da censura. Resumindo: num cenário ideal, em vez da polarização Lula x Bolsonaro, veríamos os dois gozando de suas merecidas aposentadorias numa ilhota qualquer do Pacífico Sul.

O segundo demônio, igualmente visível, é o fato de que nossas instituições políticas hoje parecem mortos-vivos, assassinadas pela corrupção, esta, sim, “imorrível”, eis que realimentada continuamente pelo desatino de uma “cláusula pétrea” conhecida como “trânsito em julgado” (Constituição federal de 1988, inciso LVII). Mercê deste inciso, como ninguém ignora, divide a justiça brasileira em duas partes, a dos ricos e a dos pobres, e, de quebra, solapa a credibilidade das instituições e de toda a classe política, cujos integrantes podem facilmente contratar advogados que os livrem da condenação em quarta instância. E, assim, a justiça dos ricos permanecerá lépida e fagueira, salvo na remota hipótese de um triunfal reaparecimento do chamado “poder constituinte originário”.

Sem presidenciáveis, instituições, partidos e parlamentares à altura da encomenda, é lógico que tão cedo não veremos as reformas de que o País necessita. Este singelo bico de pena basta para delinear o terceiro demônio pétreo. Mesmo nas trevas brasilienses, qualquer alma penada entende que o gigantismo e a voracidade tributária de sucessivos governos nada mais são que o fruto teratológico de décadas e décadas de patrimonialismo e corporativismo. Fadado ad aeternum a enxugar gelo, nosso Estado é a mais ridícula versão de Sísifo que jamais se concebeu.

*

Cientista Político, é Membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências 


A dilacerante dor dos brasileiros

  Míriam Leitão

O Globo

  Foto: Hermes de Paula / Agencia O globo

 Rio de Janeiro (RJ) 08/10/2021 - ONG Rio de Paz estende lenços brancos, 

em Copacabana. Ato em memória dos quase 600 mil mortos pela Covid no Brasil. | 

Nem nos mais pessimistas cenários esse número apareceu. Nem nos piores pesadelos o país imaginou que poderia perder 600 mil vidas na pandemia. Se tentássemos escrever uma distopia, algum enredo de horror político, o presidente seria assim como o que governa o Brasil. Não visitaria hospitais, não consolaria as vítimas, proibiria as medidas de precaução, induziria o uso de um remédio ineficaz e impediria que seus ministros e assessores socorressem a população. E mentiria todos os dias. O que nós vivemos não estava escrito, previsto ou calculado. As marcas ficarão. Como disso o cantor e compositor Criolo, “a pandemia nunca vai acabar para quem perdeu um ente querido.” Ele perdeu a irmã.

Há quem diga que a CPI não dará em nada, que se perdeu, que poderia ter pensado em outra estratégia. Falta nessa análise tanto a visão global quanto a dos detalhes. A CPI foi o desabafo do país, de todos os que discordam dos rumos aviltantes do governo. Nos detalhes, a Comissão revelou um mundo de informação que apenas intuíamos e que agora estão expostas, irrefutáveis. Se isso vai se transformar em alguma punição contra os culpados não depende da Comissão Parlamentar. Se autoridades policiais, políticas e dos órgãos de controle fingirem não ver, serão cúmplices. Se o procurador-geral da República, Augusto Aras, continuar inerte e sinuoso, será cúmplice. Diante de todos os que falham neste momento dilacerante do Brasil estará uma lápide com 600 mil nomes.

Há inúmeros fatos que o país não sabia e que ficou sabendo durante as sessões dos últimos seis meses da Comissão Parlamentar. Havia suspeita, mas agora há certeza de que o governo colocou em prática a tese criminosa da imunidade de rebanho. O presidente sempre insistiu em provocar aglomerações, desacreditar as medidas de proteção e sabotar as vacinas. Antes, tudo podia ser entendido como erros de avaliação e de gestão. Soube-se na CPI que era mais que isso, aquele comportamento delinquente era um projeto. Bolsonaro queria que o número máximo de brasileiros fosse contaminado porque testava em nós a teoria perversa de que se mais gente adoecesse mais rapidamente o país estaria imunizado. Bolsonaro conspirou contra a saúde dos brasileiros em gabinete paralelo, com o apoio de empresários negacionistas, ministros sabujos e invertebrados.

A CPI iluminou o que se passava dentro do Ministério da Saúde. Não era apenas um caso de incompetência. Era roubo. Havia rivalidades entre grupos no comando do Ministério, mas todos tinham o mesmo propósito: obter vantagens financeiras na negociação da vacina. Por isso fechavam as portas à Pfizer, sabotaram a Coronavac e eram atenciosos com os atravessadores e suas propostas mirabolantes. O presidente foi informado das tramoias, admitiu que suspeitava do seu líder na Câmara, mas nada fez e nem tirou o líder. Institutos bolsonaristas, como o Força Brasil, financiado pelo empresário Otávio Fakhoury, difundiam fake news contra vacina enquanto tentavam vender imunizantes para o Ministério da Saúde. Luciano Hang mostrou ser ainda mais abjeto do que se pensava.

O presidente teve o conluio de pelo menos dois planos de saúde, alguns médicos, alguns empresários, do Conselho Federal de Medicina, de generais submissos, dos políticos da base, para mentir e levar brasileiros à morte. Milhares de mortes teriam sido evitadas se o governo fosse outro. A Prevent Senior se transformou em campo de experimentação e extermínio, e a Agência Nacional de Saúde Suplementar, que tem o dever de fiscalizar os planos, soube disso apenas pela CPI. Bolsonaro e seus cúmplices tentaram mudar a bula da cloroquina e foram impedidos pela Anvisa. A vacinação ocorreu no país pela pressão da imprensa, pela luta do pessoal da Saúde, pelo esforço de governos estaduais, principalmente o de São Paulo, e ganhou velocidade por causa da CPI.

A lista das revelações da Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada no Senado é enorme. O país parou para ver o trabalho dos senadores e das senadoras. Atrás de cada pergunta havia estudo, apuração e a dedicação dos assessores. Os méritos da CPI superam em muito os erros cometidos durante as investigações. A CPI nos deu clareza num tempo de brumas, nos entregou verdades na era das mentiras oficiais. Os resultados são matéria-prima para o próprio Congresso, o Ministério Público e a Justiça. Principalmente a CPI honrou os nossos 600 mil mortos.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


O desastre da economia abala todos os segmentos do eleitorado de 2022, do miserável ao rico

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Nem o Plano Real resistiu a Jair Bolsonaro. A inflação bate na vida de todo mundo. 

  Foto: JOÉDSON ALVES/EFE - 07/10/2021

O presidente da República, Jair Bolsonaro.  

Nem o Plano Real resistiu a Jair Bolsonaro. Após 28 anos do sucesso da maior obra de engenharia econômica do Brasil, a inflação volta ao cotidiano de pobres e ricos, assalariados e empresários e, principalmente, dos miseráveis que já não tinham o que comer e dar de comer aos filhos. Mais do que índices abstratos, o aumento da inflação, de 1,16% em setembro, 6,90% no ano e 10,25% em doze meses, bate na vida de todo mundo, ou seja, de todo eleitor.

A economia, a queda de emprego e renda, a disparada de preços e seus efeitos no dia a dia abalam todas as faixas do eleitorado. O salário continua o mesmo, caiu ou pode ter evaporado. Alguém teve aumento de 20%, 30%, 40% ou 50% nos últimos doze meses? Mas conta de luz, ovos, café, carne, frango e açúcar subiram de 20% a 47%. Pessoas disputando ossos, pelancas e restos de comida são de deixar o País, e cada um de nós, sem dormir.

A cesta básica encosta ou passa de 60% do salário mínimo, quando 70% da população acima de 16 anos vive em residências com renda de até três mínimos (50%, com renda de até dois). Esse universo estupendo de eleitores é o que mais diretamente sofre com o aumento do preço da comida, do botijão de gás e da conta de luz. E as famílias voltam a cozinhar em latões de lenha e a comer no escuro – quando há o que comer.

Isso atinge, por exemplo, os evangélicos, que se concentram fortemente na baixa renda e na baixa escolaridade. Mas nem é preciso decantar esse eleitorado por sexo, cor, escolaridade e religião para saber que ninguém, ninguém mesmo, pode estar feliz, satisfeito e querendo que as coisas fiquem como estão. Isso vale para centros urbanos e rurais, pequenas e grandes cidades.

Ampliando um pouco o leque para os que têm renda familiar acima de 10 salários mínimos, e mais capacidade de influenciar votos, aumentam os motivos de desencanto, para uns, ou de acirramento da rejeição, para outros. Além da conta de luz e dos preços nos supermercados, onde qualquer comprinha passa dos R$100,00, há o preço da gasolina, das passagens aéreas e até do dólar.

Como prefere o ministro Paulo Guedes, da Economia, já não dá para a empregada doméstica ir a Disney, o filho do porteiro estudar na universidade e, de quebra, para o papai e a mamãe sustentarem o seu carrinho. E eles nem têm muito para onde ir. Shopping? Restaurante? Tudo pela hora da morte.

A economia voltou com força para o centro das conversas até mesmo dos ricos, que reclamam da inflação (a deles, dos empregados e dos pobres em geral), dos quase R$ 7 da gasolina comum, da volta dos juros altos e... da rentabilidade dos seus investimentos, que perdem para a inflação e sacodem com bolsas e dólar.

Segundo Mauro Paulino, do Datafolha, a popularidade de Bolsonaro caiu e a rejeição subiu em todos os segmentos na última pesquisa, de 14 e 15 de setembro, com exceção de um: o de maior renda, incluindo empresários. Em menos de um mês, porém, a situação deteriorou, com aumento de gás, luz, gasolina, juros e dólar (que só convém aos exportadores). E se os mais ricos passarem a olhar para Paulo Guedes sem enxergar luz no fim do túnel?

O candidato Bolsonaro tem caneta BIC, avião presidencial, escalões precursores, comitivas, gabinetes paralelos e tratoraços para fazer campanha, mas já convive com 59% dos pesquisados dizendo que, nele, não votam de jeito nenhum. Até mais: votam em qualquer um que não seja ele, como agora se ouve com certa frequência.

O problema de Bolsonaro nem é mais, ou só, os 600 mil mortos de covid, o cheiro de queimado da Amazônia e os sucessivos vexames do Brasil no mundo. O maior de todos é outro: a economia, com inflação e deterioração das condições de vida.

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Após este governo desastroso, quem governar enfrentará dilema do gasto da reconstrução

 Míriam Leitão

O Globo

 Vacinação no Rio | Roberto Moreyra

O país terá que ser reconstruído ao fim do governo Bolsonaro e da pandemia. Muitas áreas precisarão de mais dinheiro: saúde, educação, ciência, meio ambiente, proteção de indígenas, transferência de renda. A responsabilidade fiscal terá que ser vista por outra ótica. Não creio que o país tenha que ficar prisioneiro do dilema entre cortes inaceitáveis ou descontrole fiscal. Quem governar o Brasil após essa administração desastrosa precisará de mais capacidade de pensar fora das fórmulas fiscais nas quais a polarização política muitas vezes nos colocou.

Aumentou a ligação do país com o SUS. As pessoas viram, na hora da vacinação, o rosto do sistema único de saúde. Não é mais uma abstração dos formuladores de políticas públicas. Cada pessoa que se vacinou e registrou nas suas redes o lema “viva o SUS” se sente integrante da resistência do sistema público. E isso inclui gente de todas as idades, idosos, jovens e adolescentes. Mesmo antes da pandemia, especialistas como André Medici, diziam que era preciso gastar mais com o SUS, além de gastar melhor. Depois da pandemia, as necessidades serão maiores.

Será necessário investir mais em educação porque as desigualdades aumentaram na pandemia. O investimento no sistema público de ensino para trazer adolescentes que perderam o vínculo com as escolas, para reverter o processo de perda de aprendizado nos anos iniciais, terá que ser maior e mais eficiente. É preciso novos investimentos em conectividade de professores e de estudantes para não repetir o risco de aumentar o fosso aberto entre os alunos das escolas públicas e os dos colégios particulares.

Será necessário recuperar e ampliar os investimentos em ciência, porque foi através dela que o mundo saiu da situação em que estava. A máquina pública dedicada à proteção ambiental está sucateada. Além disso, tanto no Ibama, no ICMbio, quanto na Funai, foram nomeados gestores hostis às missões dos órgãos. Trocar a orientação da máquina pública será um grande passo, mas ninguém executará bem o trabalho de recuperação desses órgãos se eles continuarem sem recursos.

O país empobreceu nos últimos anos. A recessão já era visível em 2014 e ficou forte em 2015 e 2016. Depois virou estagnação em 2017, 2018 e 2019. Houve a queda do PIB de 2020, provocada pela pandemia. Este ano, o crescimento vai apenas neutralizar a perda de produto do ano passado, mas em 2022 a economia estará de novo estagnada. Isso aumentou o número de pobres. A inflação alta está agravando a perda de renda. O desemprego persistente piorou o drama social brasileiro. É preciso mais recursos para as políticas de transferência de renda.

Em resumo, será preciso aumentar as despesas em diversas áreas, mas, ao mesmo tempo, o expansionismo fiscal sem limites é o caminho mais curto para revogar todos os avanços sociais, através do aumento da inflação e da continuidade da estagnação. Esse é o grande dilema. Como ampliar esses gastos sem elevar a carga tributária, ou aumentar o endividamento público? O país está com déficit primário, desde 2014, e hoje parte das despesas têm sido cobertas por recursos extraordinários, que não se submetem ao limite do teto de gastos ou das metas fiscais. 

O teto de gastos foi criado com a proposta de obrigar o gestor público a escolher que despesas seriam prioritárias. O administrador escolheu muitas vezes os gastos errados. O governo Bolsonaro aprovou despesas com militares, enquanto cortava em outros orçamentos, aceitou salários acima do teto do funcionalismo, para assim beneficiar alguns integrantes da cúpula do governo, capitalizou estatais militares e, mesmo quando fez a reforma da Previdência, manteve intactos privilégios como a paridade e a integralidade para o setor de segurança.

O dilema dos gastos não é aquele expresso de maneira grosseira pela ministra Damares Alves, “ou vacina ou absorvente higiênico” para meninas e mulheres pobres. Mas, quem for governar no pós-Bolsonaro, não poderá cometer nem o erro da austeridade fundamentalista, nem o expansionismo fiscal sem controle. O país precisará reforçar as bases da sua estabilidade econômica e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos na proteção social e na reconstrução do que está sendo demolido no atual governo.


Às favas os escrúpulos

 Felipe Salto, 

O Estado de S.Paulo

Responsabilidade fiscal: defendida no caso dos absorventes, desprezada no caso dos precatórios.

O relatório sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.º 23, de autoria do deputado Hugo Motta, constitucionaliza o calote. Essa versão piorada da proposta original do governo fixa um limite anual para os precatórios e sentenças judiciais. O restante entrará na lógica do “devo, não nego; pago quando puder”. Na mesma semana, o presidente vetou a distribuição de absorventes em razão da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Mandaram às favas os escrúpulos de consciência que restassem.

A proposta, coassinada pela deputada Tabata Amaral, não cria despesas obrigatórias de caráter continuado e, portanto, não requer medida compensatória. O argumento na hora do veto estava errado. O próprio artigo 6.º do texto aprovado submete a despesa com a compra de absorventes aos chamados contingenciamentos. O dinheiro viria do orçamento do SUS, mas poderia ser congelado, se necessário. O artigo 17 da LRF trata de despesas obrigatórias permanentes. Leonardo Ribeiro, especialista em contas públicas do Senado, logo percebeu a confusão e desmontou essa base do veto.

Vale dizer, o custo da medida é estimado em R$ 119,1 milhões. Já a manobra constitucional dos precatórios abrirá folga de R$ 48,6 bilhões no teto de gastos em 2022. Um ataque à Constituição e ao teto, com direito a calote em despesa obrigatória. E a lei? Ora, deixem-nas para os inimigos...

Para ter claro, essa folga será igual a 405 vezes o custo da distribuição de absorventes para meninas e mulheres pobres. Fere de morte o teto de gastos, como mostrei na coluna de 28 de setembro (O fim do teto de gastos). A distribuição de absorventes, por sua vez, estava rigorosamente dentro do figurino da responsabilidade fiscal.

Sabe-se que a isonomia não é o forte de quem toma decisões sob a lógica do populismo, da desfaçatez, da ignorância, do despreparo e do desconhecimento das leis. Mas o mais grave é a sensibilidade social passar longe dessa velhacaria. Água e óleo. Vale tudo – inclusive ignorar a lei – para espezinhar uma opositora do governo em franca ascensão. Aliás, Tabata Amaral, sua combatividade me representa.

Como em muitas outras ocasiões, o presidente não demonstra empatia pelos que sofrem. O “e daí?” é o mantra macabro a orientá-lo. No domingo, nova dose de irresponsabilidade. Apareceu sem máscara, em Santos, para forçar a entrada na Vila Belmiro, mesmo não vacinado. Faz de propósito. Quer animar os desvairados que ainda ocupam as arquibancadas de seu governo nefasto.

Mas não se enganem. Sobra esperteza tanto quanto falta compaixão. Ninguém chega ao posto máximo da Nação sem sagacidade. Pode, sim, chegar sem alma e sem espírito público, uma vez vendidos ao diabo, mas não sem esperteza. Seu faro indica como garantir certos apoios nas eleições de 2022, mesmo após o fracasso destes três anos: dinheiro para o Centrão. No fim do dia, é preciso pulverizar recursos sobre as bases dos amigos. O que está em jogo é isso. Não é o reajuste do Bolsa Família – a melhor desculpa que se poderia ter, diga-se.

A nova proposta para os precatórios é mais sofisticada, na forma, mas continua a calotear despesas obrigatórias. A engenhosidade está em limitar, em primeiro lugar, a expedição dos precatórios. O limite estará baseado no valor pago de 2016 (R$ 30,7 bilhões) corrigido pela regra do teto (inflação). Assim, o pagamento de 2022 será de R$ 40,5 bilhões, restando R$ 48,6 bilhões para saldar no futuro. Permite-se, ainda, o chamado encontro de contas para anular parte do crescimento exponencial derivado, matematicamente, dessa estratégia.

A ideia é de que as dívidas dos precatoristas com a União possam ser anuladas. A medida evitaria o pagamento em dinheiro pela União e esses acordos estariam fora do limite máximo estipulado. Por exemplo, se uma empresa tem dívida tributária de R$ 10 milhões com o governo e o mesmo valor a receber em precatórios, poder-se-ia anular a dívida pelo crédito em precatórios. O fato é que, mesmo no caso dos governos estaduais – em que o mecanismo proposto dá poder de barganha elevado à União –, sempre haverá o risco de questionamento no Supremo Tribunal Federal.

Essa lambança fiscal representará o fim do teto de gastos, turbinará os juros (ainda mais), elevará a dívida pública e reduzirá as chances de crescimento econômico. A sanha por abrir espaços orçamentários em ano eleitoral já está sendo penalizada, naturalmente, pelas forças de mercado.

É o vale-tudo para amealhar os apoios necessários e viabilizar despesas novas. Enquanto isso, nega-se a dignidade às meninas e às mulheres pobres, sob alegação de risco à responsabilidade fiscal. Sim, a mesma atirada pela janela nesta lambança histórica com os precatórios. Hipócritas.

A esperteza, quando é muita, engole o dono. O governo seguirá na base de dois pesos e duas medidas até outubro do ano que vem. Deve pensar: às favas os escrúpulos de consciência, a ética, a lei e todo o resto. A eles, pouco importa que a mula manque. Como na marchinha de Haroldo Lobo, querem mesmo é rosetar.

*

É DIRETOR EXECUTIVO E RESPONSÁVEL PELA IMPLANTAÇÃO DA INSTITUIÇÃO FISCAL INDEPENDENTE (IFI). AS OPINIÕES NÃO VINCULAM A INSTITUIÇÃO


Fora da realidade

  Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Que o presidente Bolsonaro não tem a menor noção dos principais assuntos nacionais, já se sabia. Mas a ignorância revelada no comentário sobre as bandeiras tarifárias na conta de luz é avassaladora. Deveria ter causado uma confusão enorme nos meios econômicos e políticos, mas está passando batido. O pessoal sabe que é ignorância, apenas uma bobagem.

Foi o seguinte: o presidente se queixou das agruras de governar — como se ele pegasse no batente — e comentou que havia sido muito duro colocar a conta de luz na bandeira vermelha, que aumenta o custo.

Errado. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) está aplicando uma espécie de bandeira extraordinária, de “escassez hídrica”, desde 1º de setembro, com vigência até 30 de abril de 2022. Aumenta R$ 14,20 por 100 kWh, sendo a mais alta.

O objetivo: financiar a energia mais cara fornecida pelas usinas termelétricas, hoje utilizadas intensamente devido à falta de água nos reservatórios das hidrelétricas.

Reparem que a vigência foi estendida até abril do ano que vem, justamente porque é preciso esperar todo o próximo período de chuva para verificar se o nível dos reservatórios se normaliza.

Mas o presidente Bolsonaro entendeu, mal, que as recentes chuvas, esparsas, bastavam. Assim, ele disse que determinaria ao ministro da Energia, Bento Albuquerque, que voltasse à “bandeira normal”.

Primeiro, não existe bandeira normal. Existem as verde, amarela, vermelha patamar 1 e vermelha patamar 2. Só a primeira, verde, não inclui acréscimos na conta do consumidor e é aplicada quando as condições hídricas são totalmente favoráveis. As demais somam valores crescentes à conta.

Segundo, não é o ministro quem determina isso, mas a Aneel, uma agência reguladora que deveria ser independente. Mas, com o governo aparelhado, digamos que a palavra do presidente pesa mais.

O que faria a agência? Desceria da bandeira “escassez hídrica” para a verde, que parece o mais próximo do normal?

Isso seria desmentir tudo o que os órgãos técnicos do setor, governamentais e privados, têm dito: que a falta de água é severa e duradoura. E que, por isso, a conta de luz tem de ser mais cara para financiar as térmicas.

Voltar para a verde faria com que geradoras e distribuidoras vendessem energia abaixo do custo, sofrendo enorme prejuízo — exatamente como aconteceu com a tal Nova Matriz Energética de Dilma Rousseff.

O que acontecerá? Provavelmente o que já aconteceu outras vezes: esquecerão o que o presidente falou.

Assim como não se levou a sério a declaração de Bolsonaro de que estava “com vontade” de privatizar a Petrobras. Não por razões de política econômica liberal, mas para se livrar da “culpa” pelos aumentos seguidos dos combustíveis.

Outra bobagem. Mesmo que o setor fosse totalmente privado, as pessoas cobrariam do governo o controle de preços dos combustíveis.

Além disso, privatizar não é assim por vontade. Trata-se de um longo e complexo processo jurídico e econômico, que leva mais de ano, e isso se houver vontade política.

Mas faz bem a vontade do presidente: livrar-se de todas as estatais e outros órgãos para não ter a chateação de governar.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, acha que está governando — e bem. Disse ontem mesmo que a recuperação brasileira está em V — subida forte depois da queda causada pela pandemia.

No mesmo dia, o Banco Central informou que o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) caiu 0,15% em agosto. Na comparação anual, há uma recuperação, já que a base de comparação é a paradeira de 2020. Mas, olhando os gráficos, claramente não é um V, e sim o símbolo da raiz quadrada — um achado do economista André Perfeito. Indica uma volta depois da queda, mas em seguida “andando de lado” — e desacelerando conforme dados recentes.

O que está subindo mesmo como um foguete é a inflação de 12 meses medida pelo IPCA. Foi de 1,90% em maio de 2020 para os atuais 10,25%. Em consequência, a taxa de juros sobe na mesma direção.

Os fatos são desagradáveis, não é mesmo?


Desigualdade cresce mais no Brasil do que no restante do mundo na pandemia

 Renée Pereira e Giordanna Neves, especial para o Estadão, 

O Estado de S.Paulo

Pesquisa analisou 40 países e mostra retrocessos na saúde, educação e no meio ambiente no País; enquanto satisfação da população de baixa renda brasileira caiu muito além da média global, a percepção das pessoas de renda mais alta avançou

  Foto: ARQUIVO PESSOAL

Sem acesso à tecnologia e alimentação escassa, família de

 Adriana Menezes sofre com fechamento da escola 

A pandemia ampliou a desigualdade mais no Brasil do que nos demais países do mundo. Esse é o resultado de uma pesquisa feita pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), com dados internacionais do Gallup World Poll, que mostra a percepção da população em relação às políticas públicas de saúde, educação e meio ambiente. O desempenho brasileiro nas três esferas foi pior do que o de outros 40 países.

Os dados, colhidos antes e depois da pandemia, destacam ainda que a deterioração social brasileira foi mais forte entre a população de renda mais baixa. “A pandemia é um choque global que afeta o dia a dia do mundo inteiro. Mas, no Brasil, a administração e o gerenciamento das áreas de saúde, educação e meio ambiente foram piores. Por isso, tivemos um resultado abaixo da média”, diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Na educação, a satisfação dos 40% mais pobres caiu 22% no Brasil e 2,38% no mundo. Neri explica que esse porcentual reflete a piora de dados educacionais na prática. O tempo médio de estudo diário na população de 6 a 15 anos caiu para 2 horas e 18 minutos, enquanto o mínimo legal é de 4 horas.

Entre os mais pobres, esse tempo ficou abaixo de 2 horas, e nas classes A e B ficou acima de 3 horas, o que aumenta o abismo social. A família de Adriana Telles de Menezes, de Juiz de Fora (MG), viveu esse drama (mais informações abaixo).

Neri ressalta ainda que as escolas ficaram fechadas mais no Brasil do que no restante do mundo. Isso sem contar que muitas crianças deixaram de estudar porque não tinham celular ou computador disponível e porque as apostilas não chegavam até elas.

Na saúde, houve queda de 10,5% entre os brasileiros mais pobres e alta de 2,28% na média dos demais países. A situação se inverte entre os 40% mais ricos. No Brasil, a satisfação dessa faixa da população subiu 0,5%, e nos demais países caiu 0,08%. Em relação às políticas ambientais, houve piora em todas as faixas de renda, enquanto a percepção melhorou no restante do mundo.

“A pandemia deixou marcas sociais e econômicas muito fortes. Houve uma inversão de tendências. A desigualdade vinha diminuindo, e a educação, apesar de ruim, também melhorava. Agora tudo mudou”, afirma Neri.

Arte Folha de São Paulo

Segundo ele, as matrículas escolares recuaram ao menor patamar desde 2007, e isso terá consequências no futuro, no aprendizado e na produtividade do trabalhador, que já estava estagnada há algum tempo.

Na prática, esses fatores têm um peso muito forte na competitividade do Brasil, sobretudo a questão da educação. O presidente da Trevisan Escola de Negócios, VanDick Silveira, destaca que o resultado de hoje terá efeito daqui a 20 anos na força de trabalho. A educação, diz ele, é muito ruim e deve piorar.

“O PIB per capita é o mesmo de dez anos atrás. Em dólar, caiu 45% em 20 anos. A população ficou mais pobre em termos globais”, afirma Silveira

Na avaliação de José Pastore, professor da Universidade de São Paulo, 500 dias sem aula deixam uma “cicatriz” nas crianças. “Não se trata de dar mais aulas, mas de ter uma estratégia de recuperação, o que não existe por enquanto”, diz. Segundo ele, sem essa política, o País corre o risco de perder toda uma geração.

“É como diz Paul Krugman (Nobel de Economia), ‘para o desenvolvimento econômico, a produtividade não é tudo, mas quase tudo’. Na competitividade, educação não é tudo, mas quase tudo”, afirma.

Sobre a questão ambiental, o efeito é mais direto na exportação. Sem políticas rígidas, diz Marcelo Neri, pode haver perda de negócios. A pandemia aumentou a consciência de consumidores que passaram a pressionar as empresas por práticas mais sustentáveis, como um “trailer” de novos desafios do País.

  Foto: REUTERS 

Marcelo Neri, diretor do FGV Social 

'Meu filho fala que esqueceu as letras e perdeu o interesse'

Adriana Telles de Menezes, de 37 anos, mora com o marido, os sete filhos – com idades entre 10 e 20 anos – e uma neta de 3 anos no bairro Linhares, na zona leste do município de Juiz de Fora (MG).

Quando as escolas foram fechadas, em março de 2020, ela teve de lidar com os desafios de um ensino remoto sem internet e sem o suporte de aparelhos eletrônicos. As apostilas impressas, distribuídas pela escola estadual, substituíram as aulas virtuais.

Gabriel, filho mais novo de Adriana, estava aprendendo a ler e a escrever. Sem contato direto com os professores e com os colegas, o processo ficou comprometido. “Ele perdeu o interesse pelo estudo. Fala que não sabe fazer mais, que esqueceu as letras. Começa a ficar nervoso e a chorar falando que não consegue. O professor fala para a gente não forçar”, relata a mãe.

Além da ausência de recursos tecnológicos, a alimentação é mais um aspecto que evidencia as dificuldades enfrentadas pela família. “Na escola eles costumavam ter refeições diferentes. Em casa a gente não consegue dar a mesma qualidade. E ficando o dia todo em casa, eles querem comer toda hora.”

Essa preocupação com o desenvolvimento dos filhos torna-se ainda maior pelo fato de ela própria enfrentar, diariamente, as consequências de não ter concluído os estudos. Adriana trabalha como auxiliar geral em um supermercado da cidade e, sem o ensino médio completo, conta que conseguir uma promoção de cargo é ainda mais difícil.

“Vejo o quanto seria importante ter estudado mais. Eu não tive apoio e nem material para estudar. Não quero que eles percam tantas oportunidades. Hoje tento fazer diferente com eles para que consigam um futuro diferente do meu”, desabafa.


Milhões de crianças passaram fome no Brasil neste 12 de outubro. E isto é muito triste!

 Paula Adamo Idoeta

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Criança busca tomates comestíveis no lixo no Rio de Janeiro em agosto de 2021;

 pandemia piorou problema da fome em famílias brasileiras

As doações de alimentos estão rareando em Caranguejo Tabaiares, comunidade de 5 mil habitantes na periferia de Recife (PE). E, quando chegam, acabam muito antes suprir toda a demanda, que está cada vez maior, de pessoas sem comida o suficiente em casa.

Ali, algumas mães já vinham se queixando de colocar os filhos para dormir com fome meses atrás, sem saber se teriam com o que alimentá-los no dia seguinte. Desde então, dizem líderes comunitárias, a situação se agravou.

"A fome já era uma constante na nossa periferia. Só piorou com essa pandemia", conta à BBC News Brasil Daniele Lins da Paixão, que integra a organização comunitária Caranguejo Tabaiares Resiste. "Daí as crianças pedem um biscoito e a mãe não consegue dar. E se sente culpada, incapaz. É um sofrimento muito grande."

A combinação de desemprego alto, crise econômica, assistência social insuficiente e aumento nos preços dos alimentos, em plena pandemia, tem se refletido em um aumento na pobreza e na fome, que afeta ao menos 19 milhões de brasileiros. E é nas famílias com crianças que os efeitos são mais agudos.

 CRÉDITO,DIOGO MOREIRA/A2IMG - GOVERNO DE SP

Estima-se que mais de 9 milhões de crianças vivam em extrema pobreza no país, 

portanto com provável dificuldade de se alimentar bem; dado, de 2019, deve ter piorado na pandemia

E uma vez que as crianças estão em uma fase crucial de seu desenvolvimento, é nelas que a fome pode deixar mais impactos de longo prazo. Às vezes, para a vida toda.

Há ao menos 9,1 milhões de crianças de 0 a 14 anos em situação domiciliar de extrema pobreza (vivendo com renda per capita mensal de no máximo R$ 275), calcula a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança.

Na prática, isso provavelmente significa que elas estão em situação de insegurança alimentar, porque a família não terá dinheiro o suficiente para garantir todas as refeições.

"É uma situação em que às vezes a família consegue fazer o almoço, mas não o jantar. E não sabe o que vai acontecer naquele mesmo dia", explica Cíntia da Cunha Otoni, líder da área de saúde da Fundação Abrinq. "Já existia uma situação grande de insegurança alimentar, mas se agravou muito na pandemia devido à queda na renda familiar."

 CRÉDITO,JEFFERSON PEIXOTO/SECOM-PMS

Cálculos apontam que custo de alimentos básicos para um adulto

 já corrói 55% do salário mínimo; acima, distribuição de cestas básicas no Rio

O cálculo da Abrinq foi feito com base em dados de 2019 do IBGE (da pesquisa Pnad Contínua) e leva em conta inclusive o dinheiro recebido por essas famílias via programas governamentais, como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada.

Como a pobreza aumentou desde então, esse número de crianças na pobreza extrema e com fome muito provavelmente cresceu neste ano — sobretudo porque o custo dos alimentos tem um peso muito grande no orçamento das famílias mais pobres. Hoje, na média, uma família que ganha um salário mínimo já gasta 55% dessa renda comprando os alimentos básicos suficientes para apenas uma pessoa adulta, aponta o Dieese.

Outros dados reforçam essa percepção.

Enquanto 56% da população adulta brasileira viu sua renda cair desde o início da pandemia, essa porcentagem sobe para 64% no subgrupo de adultos que moram com crianças e adolescentes, segundo pesquisa do Unicef (braço da ONU para a infância) realizada em maio de 2021.

"Embora a gente saiba que as crianças não foram mais afetadas pelo vírus (da covid-19) em si, elas são as mais afetadas pelos impactos secundários que toda essa situação trouxe e pela interrupção de serviços", disse a representante do Unicef no Brasil, Florence Bauer, durante simpósio realizado no dia 6 de outubro pelo Núcleo da Ciência Pela Infância (NCPI).

Comendo menos e comendo pior

Bauer destacou, também, como piorou a qualidade da comida ingerida: 29% das famílias brasileiras estão comendo mais alimentos industrializados, 22% estão consumindo mais bebidas açucaradas, e 18% estão ingerindo mais fast food, segundo a pesquisa do Unicef.

Esses alimentos são mais baratos e fartamente disponíveis. Mas costumam ser péssimos para a saúde, por não serem nutritivos e conterem excesso de sódio, açúcares e gordura.

Ou seja, além de eles não proverem as crianças com os nutrientes presentes nos alimentos in natura, eles favorecem a obesidade, diabetes e outros problemas de saúde de longo prazo.

Nas casas em situação de insegurança alimentar (ou seja, com alimentos em quantidade insuficiente), o consumo de comida saudável caiu 85% na pandemia, aponta uma pesquisa do grupo Food For Justice lançada em abril.

 

Piora nos indicadores sociais faz acentuar a desigualdade e 

coloca em risco avanços conquistados nas últimas décadas

A carne vermelha, cujo preço subiu mais de 30% em 12 meses, segundo o IBGE, é uma das principais fontes de ferro, um nutriente particularmente importante para as crianças — e a deficiência de ferro (ou anemia) pode causar atrasos no desenvolvimento e deixá-las mais expostas a infecções.

A queda no consumo de carne, por sinal, desperta preocupação por potencialmente agravar uma estatística já considerada "trágica": a de que uma em cada três crianças brasileiras sofre de anemia.

"Não ter uma alimentação adequada nessa fase do desenvolvimento (na infância) pode deixar impactos na saúde para o resto da vida, pelo risco de desenvolverem problemas mais para frente (na vida adulta)", agregou Bauer.

Ela lembrou, também, que quase a metade das crianças da rede pública de ensino ficaram sem acesso à merenda escolar durante os meses de escolas fechadas. "E sabemos que, para muitas delas, essa era a principal refeição do dia."

A situação nutricional das crianças brasileiras já era preocupante. Uma ampla pesquisa nacional, feita entre 2019 e 2020 com 13 mil famílias com crianças de até cinco anos, apontou que quase a metade delas vivia em algum grau de insegurança alimentar.

Isso corresponde a 6 milhões de famílias em todo o Brasil, com maior incidência nas regiões Norte e Nordeste, segundo os cálculos do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), coordenado por Gilberto Kac, professor titular do Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

"Como a coleta de dados foi realizada antes da pandemia de covid-19, avaliamos que a prevalência de insegurança alimentar pode ser ainda mais elevada", afirmou Kac, em comunicado.

Desigualdade aumentando nas próximas gerações

O risco é que o aumento da pobreza, junto às interrupções em serviços básicos de saúde e educação durante a pandemia, coloque em risco avanços conquistados a duras penas na redução das desigualdades brasileiras, diz à BBC News Brasil o economista Naercio Menezes Filho, pesquisador do Centro de Gestão e Políticas Públicas (CGPP) do Insper.

 CRÉDITO,SERGIO AMARAL-MDS

Menos famílias pobres têm conseguido manter a alimentação in natura 

representada na foto: estão comendo menos e comendo pior

Nesse sentido, vale lembrar que a piora em todos os indicadores sociais apontados nesta reportagem incidiu mais fortemente em crianças negras, pardas e indígenas, e também mais nas regiões Norte e Nordeste, que já vinham de uma situação mais vulnerável.

"A gente sabe que a pobreza tem impactos fortíssimos no desenvolvimento infantil e no futuro dessas crianças. Todos esses impactos (sentidos) hoje elas vão carregar ao longo da vida se nada for feito para atenuá-los. É uma geração inteira que pode ser afetada", apontou Menezes, também durante o simpósio do NCPI.

"Crianças que têm seu desenvolvimento dificultado vão ter problemas de permanecer na escola no ensino médio, de entrar no ensino superior, de encontrar um emprego legal com carteira assinada, de empreender, e vão ter problemas ao longo do seu ciclo de vida."

O economista lembrou que, embora todos os grupos sociais tenham registrado perda de emprego durante a pandemia, a maior parte das demissões ocorreu entre as pessoas menos escolarizadas.

E, mesmo agora no início da retomada econômica, esse é o grupo que também está tendo mais dificuldade em voltar ao mercado de trabalho.

Isso reflete na capacidade desses pais de proverem o básico para seus filhos — e também de acreditarem que seus filhos terão condição de sair da pobreza.

Dados de uma pesquisa global da Gallup consolidados pela FGV Social apontam que, entre os 40% mais pobres do Brasil, 11% deixaram de acreditar que as crianças teriam a oportunidade de aprender e crescer na pandemia, índice quase dez vezes maior do que a média internacional nessa faixa de renda. Essa perda de esperança tem um impacto importante, explica à BBC News Brasil o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

 CRÉDITO,BRUNO CECIM/AG PARÁ

Regiões Norte e Nordeste estão entre as mais afetadas pela piora

 nos indicadores sociais; acima, distribuição de cestas básicas no Pará

"Esses dados são subjetivos, mas refletem esse problema de transmissão da desigualdade entre gerações. Ferir essa percepção de que, mesmo quando se é pobre, se pode subir na vida tem o efeito de frustrar a ascensão social", explica. "Apesar de os indicadores infantis e de educação do Brasil serem (historicamente) muito ruins, eles vinham melhorando nos últimos 30 anos. Agora, o vento que soprava a favor está soprando contra."

As saídas

Mudar esse cenário depende de um esforço articulado, sugere Naercio Menezes: desde um empenho muito grande em recuperar a aprendizagem perdida pelas crianças mais vulneráveis durante os meses de escolas fechadas até um reforço nos programas de saúde familiar, que identifiquem lacunas deixadas pela pandemia.

Mas um passo crucial e urgente, opina o economista, é corrigir lacunas no Bolsa Família, programa que o governo de Jair Bolsonaro pretende reformular sob o nome de Auxílio Brasil.

"O Bolsa Família já tinha (antes da pandemia) uma fila muito grande, de forma que 35% das famílias pobres com crianças tinham direito a recebê-lo, mas não o recebiam. São problemas graves de pobreza que estão se acentuando", argumentou perante o NCPI.

"Por isso eu ressalto a importância de termos políticas públicas, agora que a vacinação está atingindo grande parte da população. Para o ano que vem, a gente precisa reconstruir toda essa rede de proteção social dos últimos 30 anos para não termos esse risco de aumento da desigualdade no futuro. Nosso objetivo é gerar uma sociedade com mais igualdade de oportunidades, em que as chances de realizar seus sonhos na vida não dependam única e exclusivamente se você nasceu numa família mais pobre ou mais rica."


Brasil não quer fuzil, quer arroz, feijão, absorvente, vacina, ciência e... justiça

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Não se ouve uma única palavra para famílias esmolando ossos para a 'sopa' das crianças; o presidente Bolsonaro dá de ombros: 'Nada está tão ruim que não possa piorar'

  Foto: Joédson Alves/AFP - 7/10/2021

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia em Brasília. 

A boa notícia é que o porcentual de brasileiros vacinados com as duas doses aproxima-se de 50% e a pandemia está arrefecendo. A má notícia é que o Brasil atingiu 600 mil mortos, com média móvel ainda em torno de 450 a cada 24 horas (queda de dois Boeings por dia) e sequelas incômodas, zunindo nos nossos corações e mentes, em busca de respostas e responsabilização.

O pior, aparentemente, passou, mas centenas de famílias ainda perdem seus entes queridos todos os dias, há dúvidas quanto ao futuro e um rastro de dor: pelos mortos, os efeitos em muitos sobreviventes e a sensação desesperadora de que não precisava ter sido assim. Com o aperto no coração de quem chora a morte dos seus: e se?

E se o presidente da República fosse razoável, sensato, responsável, reverente à ciência? Se tivesse mantido médicos com autonomia e caráter no Ministério da Saúde? Se, em vez de dar ouvidos a filhos, terraplanistas e gabinetes paralelos, se guiasse pela OMS e as agências de saúde do mundo civilizado?

E se o presidente não fosse negacionista, desumano, indiferente à dor e ao pânico dos cidadãos? Se, em vez de comemorar os primeiros dez mil mortos num jet ski e dizer que “não é coveiro”, cumprisse seu dever e fosse solidário com a Nação? E se não desprezasse a vacina da Pfizer, não atacasse a Coronavac, não fizesse propaganda contra as máscaras e a favor da cloroquina?

Tantos “e se?” não deixam margem para dúvidas e complacência no relatório final da CPI da Covid, a ser apresentado no dia 19. A tropa bolsonarista vai atacar o relator Renan Calheiros, mas, sem entrar no mérito, todo o País e as famílias e amores dos mortos estarão atentos ao que realmente interessa: sua excelência, os fatos.

Os fatos são acachapantes, com início, meio e fim – um fim cruel. Começam com o negacionismo e o “gripezinha” do líder máximo da Nação, ganham corpo com a estratégia definida no gabinete paralelo do Planalto, blindam-se com aliados no Conselho Federal de Medicina e na ANS, a agência reguladora dos planos de saúde, e são massificados pelos robôs e fake news da internet.

Foi assim a construção do caos, num contexto de desconstrução da imagem do Brasil, da economia, da Amazônia, da cultura, da educação, do humanismo, da generosidade, dos esforços pela igualdade. Não se ouve uma única palavra para famílias esmolando ossos para a “sopa” das crianças. O presidente dá de ombros: “Nada está tão ruim que não possa piorar”.

Ele propõe que todos tenham fuzis e chamou de “idiotas” quem prefere feijão. A ministra Damares Alves vai na mesma linha: “Tem de definir a prioridade, vacina ou absorvente, tirar o arroz da cesta básica para por absorvente?” O presidente e a ministra – vejam bem, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – acham um absurdo o povo querer arroz, feijão, vacina e absorvente. As prioridades são fuzis, tratoraço e cloroquina.

Como um manda e todos obedecem, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, vai na contramão da Fiocruz e se diz “absolutamente contra” a obrigatoriedade de máscaras e o “passaporte de vacinação”. E que tal o corte de 92% na Ciência? E o secretário da Cultura, Mário Frias, posando com fuzis? Com a economia nos trinques, essas coisas poderiam passar por bizarrices, não com falta de emprego, queda de renda e a maior inflação para setembro desde 1994.

Quanto mais a pandemia recua e a inflação avança, mais as conversas migram da covid para arroz, feijão, carne, luz, gás, gasolina... Mas uma coisa não anula a outra, elas se somam. Até a eleição, a tropa bolsonarista da internet e das fake news conseguirá culpar o Supremo pela pandemia e os governadores e prefeitos pela economia? Tudo é possível, mas está se tornando improvável.

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


PIB brasileiro não pode mais contar com a 'bonança externa'

 Affonso Celso Pastore*, 

O Estado de S.Paulo

Deste ponto em diante não poderemos mais contar com a contribuição da China; cabe ao governo e ao Congresso a responsabilidade na aprovação das reformas que estimulem o nosso crescimento

  Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters - 15/9/2021

Prédios residenciais em construção na cidade de Luoyang: 

a Evergrande tem cerca de 800 projetos inacabados em toda a China. 

Intercalado por duas recessões – na transição de FHC para Lula e na crise internacional de 2008/09 –, o crescimento econômico brasileiro entre 2002 e 2011 beneficiou-se de uma “bonança externa”. Fomos favorecidos pela elevação dos preços das commodities, decorrente de taxas de crescimento de dois dígitos da China, e pelo contínuo enfraquecimento do dólar. Apesar dos ganhos persistentes de relações de troca, a aceleração do crescimento brasileiro logo conduziu ao aumento de importações e a déficits nas contas correntes. Contudo, a mesma expansão de liquidez que levou ao enfraquecimento do dólar estimulou ingressos de capitais grandes o suficiente para financiar os déficits e aumentar as reservas. 

Algo semelhante, porém em proporção muito menor, ocorreu na reação mundial à pandemia. A rápida recuperação da China levou a novo aumento de preços de commodities, elevando as exportações brasileiras e contribuindo para nossa recuperação. Contudo, nosso elevado risco fiscal impediu que, a exemplo do ocorrido com a grande maioria dos demais países, o real se valorizasse em resposta ao enfraquecimento do dólar. Seu nível persistentemente depreciado e volátil, somado ao forte estímulo monetário proporcionado pelo Banco Central, provocou o aumento da inflação, obrigando a adoção de uma política monetária “suficientemente restritiva”. A consequência será uma taxa de crescimento medíocre em 2022. 

Infelizmente, deste ponto em diante não poderemos mais contar com a contribuição da China. Em abril de 2020, Rogoff e Yang (Peak China Housing, NBER) revelaram que a participação da construção civil e dos serviços a ela relacionados, na China, atinge 29% do PIB. A oferta de habitações cresceu tanto, que já elevou a disponibilidade de imóveis, medida em metros quadrados por habitante, acima dos níveis existentes em países bem mais ricos, como a Alemanha e a França. Ao super investir no setor imobiliário, a China acelerou o crescimento do PIB, mas desperdiçou recursos, e estima-se que hoje haja edifícios vazios capazes de acomodar 30 milhões de famílias. 

O acúmulo de dívidas pelas empresas de construção as expôs ao mesmo risco que culminou na quebra da Evergrande. Como a China possui US$ 3 trilhões de reservas, e o governo tem enorme capacidade de usar recursos fiscais para cobrir os prejuízos, é pouco provável que ocorra uma reedição do “caso Lehman”. Porém, dada a importância do setor na economia, é inevitável a redução do crescimento chinês. 

Essa não é a única preocupação. Durante o período de Mao Zedong, o objetivo do governo era a “transformação socialista e a industrialização”, com a eliminação da propriedade privada em áreas urbanas e nas áreas agrícolas mais ricas, promovendo a “cooperação e a propriedade pública”. Era um regime político e economicamente fechado. 

Sob a presidência de Hu Jintao, a China se transformou em um exemplo do que Branko Milancovic definiu como capitalismo político. Ao contrário do capitalismo liberal meritocrático, o Estado assume um papel de destaque na produção, mas permite que os empreendedores enriqueçam à custa dos trabalhadores e dos agricultores. Grupos empresariais como Alibaba e Jack Ma ajudaram a acelerar o crescimento do país, mas a contrapartida de seu sucesso econômico foi o aumento do poder político, desafiando o do Partido Comunista da China. 

Uma reação foi iniciada sob o comando de Xi Jinping. Cresceu a preocupação com as contradições do sistema, que se resumem nas tensões entre o aumento da riqueza – e do consequente poder político – dos grandes grupos e os baixos benefícios auferidos pelos mais pobres. Por isso, na reorganização do modelo chinês o objetivo é obter a “prosperidade comum a todos”, com o governo intervindo na educação e limitando o poder econômico das grandes empresas, e preocupando-se com o consumo. 

Diante dessa transformação estrutural do modelo, é difícil avaliar qual poderá ser o crescimento chinês. Antes da pandemia, o PIB vinha crescendo em torno de 5% a 5,5%. Porém, diante da enorme tarefa de reestruturação política e econômica recém-iniciada, números em torno de 4% ao ano têm sido frequentes nas avaliações. 

Sem contar com a contribuição de “bonanças externas”, o crescimento do PIB brasileiro depende de nosso governo e de nosso Congresso. É a eles que cabe a responsabilidade na aprovação das reformas que estimulem o nosso crescimento. 

* EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. 


A faminta

 Pedro Fernando Nery, 

O Estado de S.Paulo

No trilionário orçamento dos governos há espaço, embora falte disposição, para combater a fome

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

'No  trilionário orçamento dos governos há espaço para combater a fome'  

Não conheço Rosângela Sibele. Escolhi sua história para este Dia das Crianças. Li sobre ela nos jornais: suco Tang, miojos e uma garrafinha de Coca-Cola. Mãe de cinco, sendo duas crianças pequenas, ela disse que estava com fome ao ser presa pelo furto. Consegui imaginar mais sobre o seu drama nas anódinas planilhas do Portal da Transparência. 

É que com as informações burocráticas do site é possível conjecturar sobre a sua desgraça, comum a tantos brasileiros neste 2021. Rosângela Sibele nunca foi beneficiária do Bolsa Família. Recebeu o auxílio emergencial em 2020.

Neste ano, parece ter sido cortada fora. Como o ministro Paulo Guedes argumentou no início do ano, o auxílio emergencial até voltaria em 2021, após ser suspenso durante a segunda onda, mas seria focalizado.

Índole indiscutivelmente voltada à delinquência. Apesar do pleito da Defensoria, Rosângela Sibele teve a soltura negada pela primeira e pela segunda instância.

Os desembargadores consideraram que seu comportamento perdeu a característica de bagatela e o princípio da insignificância não pode ser acolhido. Rosângela Sibele já havia furtado alimentos e produtos higiênicos duas vezes, antes da pandemia.

Por que uma mãe que furta alimentos nunca esteve no nosso principal programa social? Por que foi preciso uma pandemia e um benefício generoso como o auxílio emergencial de 2020 para receber apoio? Por que no pior momento da crise ele foi cortado? Sua história, assim de longe, parece contar o fracasso de nossa política social que perpassa vários governos. 

Pode ser que você ache que benefícios como o Bolsa Família deveriam ser focalizados ou pode ser que ache que deveriam ser expandidos: em qualquer versão uma mãe em insegurança alimentar deveria fazer parte. Não é nem como se ela morasse em um rincão, porque vivia na maior cidade do País.

Doravante, vamos chamá-la de Faminta. Para aproveitar a ironia da história. É que o relator da prisão se chama Farto. Foi o Dr. Farto que escreveu que, por conta dos furtos anteriores, a Faminta tem índole indiscutivelmente voltada à delinquência. Como se a pandemia, o desemprego, a inflação – e a desproteção estatal – não existissem. 

Os demais desembargadores acompanharam Farto, e Faminta continuou na cadeia. Dou um suco Tang para o leitor que descobrir se Farto estava entre os desembargadores do TJ que recebiam auxílio-moradia, equivalente a umas 200 vezes o valor do furto de Faminta.

Licitamente, claro, assim é como é considerado lícito para o Estado “focalizar” e não pagar o Bolsa ou o auxílio a quem tem direito. Ou como é lícito o dinheiro de ministro de Estado morar em paraíso fiscal.

Faminta, a sem o auxílio emergencial ou auxílio-moradia, mora na rua. De fato, ao que parece não tem a guarda das crianças, que já estariam com a avó. Talvez seja um alívio para o leitor que se pergunta, como eu, se neste Dia das Crianças os filhos percebem que a mãe está na cadeia.

Ou para o católico que se pergunta se, neste Dia de Nossa Senhora Aparecida, a mãe já se acostumou com a distância dos filhos. Também é lembrete de que transferências de renda, embora importantes, não conseguem mudar muitas coisas – a própria crise habitacional, por exemplo. 

No final do ano passado, meu editor me pediu um texto para um especial do jornal, que sairia no inicinho de janeiro com perspectivas para o novo ano. Havia otimismo com a recuperação econômica e a vacinação.

Mandei o texto: 2021 vai ser pior. Não sabia, claro, da diabólica variante de Manaus, mas me preocupava com o fim do auxílio emergencial. Já a indiferença, a perda de coesão social, não davam pra ver de longe.

O sofrimento enorme de muitas famílias no País é evitável e no trilionário orçamento dos governos há espaço, embora falte disposição, para combater a fome. Naturalizaremos mães famintas na cadeia como naturalizamos com desfaçatez as vantagens dos ricos com o “não é ilegal”? 

Na recessão da Dilma, Rosângela Sibele tinha furtado desodorantes. Deveria ter aberto uma offshore. 

DOUTOR EM ECONOMIA 


Para os doidos, fracasso é sucesso

 Elio Gaspari

O Globo

Morrem 600 mil pessoas numa epidemia que o monarca republicano chamou de “gripezinha“, e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ainda não se deu conta de que cloroquina é um medicamento ineficaz para a Covid

Na sexta-feira completam-se 140 anos do dia em que Machado de Assis começou a publicar a história do médico Simão Bacamarte, “O alienista”. Ele era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua”. Essa obra-prima está na rede. Lendo-a, recua-se no tempo e descobre-se que o doutor Bacamarte tinha suas razões. Bem que D. Pedro II avisaria, oito anos depois, na noite em que o embarcaram para o desterro: “Os senhores são uns doidos”.

Morrem 600 mil pessoas numa epidemia que o monarca republicano chamou de “gripezinha“, e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ainda não se deu conta de que cloroquina é um medicamento ineficaz para a Covid. Em dois anos, dois ministros da Saúde foram embora porque não queriam receitar a poção. Já o ministro da Tecnologia, um astronauta e coronel da reserva, garantiu, em abril de 2020, que pesquisadores do governo haviam descoberto um remédio contra o vírus. Não disse o nome, mas garantiu que ele estaria disponível em poucas semanas.

Os doidos estavam chegando, mas não se pode dizer que avançavam apenas sobre a saúde pública. Na semana passada, a Petrobras leiloou 92 blocos oceânicos e 87 encalharam por falta de interessados. Ninguém quis se meter com a exploração em áreas de proteção ambiental próximas à ilha de Fernando de Noronha e ao Atol das Rocas. O diretor da Agência Nacional de Petróleo veio à vitrine e anunciou: “O leilão foi um sucesso”. (No dia 1º de novembro começa em Glasgow, na Escócia, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas.)

Machado de Assis conhecia os doidos de seu tempo. Nos Estados Unidos um grande empresário subornava servidores para sustentar que a condução da eletricidade por fios incendiaria cidades inteiras. No Brasil, os três homens mais ricos da terra, com três mil escravos, tinham um patrimônio equivalente a 10% do valor de todo o capital investido em ações e empresas. No Senado, um magano dizia que a escravidão era uma prova de caridade cristã, pois os senhores prestavam um grande serviço aos escravos.

Machado criou seu Simão Bacamarte, D. Pedro foi-se embora reclamando dos doidos. Ambos sabiam que, de tempos em tempos, os malucos dão as cartas.

A BBC via a ditadura pelo andar de baixo

Começa a chegar às livrarias a partir desta semana “Nossa correspondente informa — Notícias da ditadura brasileira na BBC de Londres: 1973-1985”, da jornalista Jan Rocha. É uma coleção de centenas de textos curtos que a repórter mandou para a emissora inglesa. O primeiro trata do lançamento da anticandidatura de Ulysses Guimarães à presidência da República. Era uma anticandidatura porque não tinha chance de vitória. A eleição seria indireta, e o presidente seria o general Ernesto Geisel. Um dos últimos textos, de 1985, conta o enterro de Tancredo Neves, eleito indiretamente numa ditadura que agonizava.

Em geral, os correspondentes estrangeiros olham muito para o andar de cima. Jan Rocha olhava quase sempre para o andar de baixo. Índios, fome, meio ambiente e, sobretudo, a repressão política. Tratava de assuntos que a censura proibia e da própria censura. Enquanto o “milagre brasileiro” encantava muita gente, a correspondente da BBC ouvia as queixas da Igreja Católica que, liderada pelo cardeal Arns, de São Paulo, opunha-se aos governos.

Os textos de Jan Rocha atravessam as dificuldades da política de abertura do governo Geisel. Em 1974, ela contou as prisões de professores paulistas, entre os quais esteve o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, chamado para um interrogatório. Anos depois, escreveu sobre a primeira greve de um movimento sindical supostamente domesticado. Lá estava a figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1985, Rocha registrou a saída de João Batista Figueiredo, o último general do ciclo.

Ele deixou o Palácio do Planalto por uma porta lateral.

É boa leitura para quem quer saber da época e volume valioso para pesquisadores que queiram ver além da névoa da censura.

Tunga de livreiros voltou ao ar

Renasceu das cinzas uma ideia que pareceu enterrada durante o governo Temer. É o tabelamento dos livros à francesa. Se vingar, nenhuma livraria, física ou eletrônica, poderá dar descontos superiores a 10% do preço de capa durante o primeiro ano de circulação de um livro. Lei parecida existe na França há 40 anos.

Quando essa girafa surgiu, Jeff Bezos era um garoto a caminho da universidade de Princeton. De lá para cá, do nada, ele criou a Amazon e se tornou um dos homens mais ricos do mundo. Começou vendendo livros a US 9,99 (hoje custam cerca de US$ 15). Seu negócio é dar desconto, em tudo. Não há no mundo quem tenha reclamado por ter comprado uma coisa barata na Amazon ou em qualquer outro lugar. Desde que surgiu o Estado, apareceram tabelamentos para impedir que se cobre a mais. Nesse caso, querem tabelar para impedir que se cobre a menos.

O mercado editorial brasileiro melhorou durante a pandemia. Quando ele esteve no apogeu, algumas editoras brasileiras imprimiam seu livro na China, onde a mão de obra era barata. Desde então, grandes redes de livrarias quebraram porque se meteram numa ciranda de vendas consignadas. Problema de quem micou, dando-lhes crédito.

O projeto da tunga no preço do livro dorme no Senado. O tabelamento de um produto para impedir que os consumidores paguem menos é a joia que falta ao mandarinato liberal de Paulo Guedes.

Recordar é viver

Hostilidade da infantaria petista não começou com a vaia a Ciro Gomes na Avenida Paulista.

Em 1984, o PT queria iniciar sozinho sua campanha pelas eleições diretas, mas o comício que organizou ficou fraco. Pouco depois, o governador paulista Franco Montoro começou a montar o comício na Praça da Sé.

Todo mundo sabia que seria um sucesso, mas, para não ser vaiado pela infantaria petista, Montoro chegou ao palanque com Lula. Quem costurou a cena foi o advogado Márcio Thomaz Bastos.

Classificado

O feirão de imóveis da Viúva no Rio incluiu a casa que pertenceu ao general Osório, o grande comandante da cavalaria durante a Guerra do Paraguai. É uma construção térrea, com 13 janelões e bonitos azulejos. Fica na Rua Riachuelo, perto da Lapa, e é um bonito exemplar da arquitetura da época em que ela se chamava Matacavalos.

Quem comprar o casarão ficará com um pedaço da história do Brasil no seu patrimônio.

Tem gato na tuba

A ruína da marca da Prevent Senior provocou um estranho movimento no mercado de operadoras de planos de saúde.

Começou uma satanização das empresas verticalizadas, que operam com plantéis médicos, hospitais e laboratórios próprios, controlam seus custos e cobram menos.

Tem gato nessa tuba, pois as malfeitorias cometidas pelo Executivo, pelas agências reguladoras e pelas operadoras verticalizadas ou não, foram coisa de malfeitores, nada a ver com os seus modelos