sábado, outubro 16, 2021

Com inflação em 10%, custo anual da dívida pública já aumentou em R$ 280 bi

 Cássia Almeida, Eliane Oliveira, Fernanda Trisotto e Gabriel Shinohara

O Globo

Preços mais altos afetam decisões de investimento das empresas, freando queda do desemprego, e reduzem renda do trabalhador

  Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Inflação atingiu os itens mais essenciais como os alimentos que subiram mais 

de 14% nos últimos 12 meses, mas tem efeitos também em emprego e outras áreas 

RIO E BRASÍLIA - Das contas públicas ao investimento, do crescimento às aplicações, a inflação que ultrapassou 10% ao ano, algo que não se via desde 2016, vai minando a confiança, encolhendo os desejos de consumo e afetando as decisões das empresas. Desestrutura a economia, com efeitos que vão muito além do bolso, a começar pelas finanças públicas.

Num primeiro momento, a alta da inflação ajuda o governo a controlar o déficit público. Como produtos e serviços ficam mais caros, o imposto embutido no preço aumenta, elevando a arrecadação. Mas o Brasil gasta mais do que arrecada, e a dívida cresce junto com a inflação.

Nos cálculos do economista Fabio Klein, da Tendências Consultoria, o custo anual do serviço da dívida pública — o que se paga de juros para administrar a dívida — aumentou cerca de R$ 280 bilhões neste ano, com o avanço da inflação e a alta de juros.

O índice estava em 4% no início de 2021 e chegou a 10,25% nos 12 meses encerrados em setembro. No mesmo período, a taxa básica de juros, a Selic, saiu de 2% ao ano para 6,25%, exatamente para conter a inflação

— Diferentemente do passado, nas décadas de 1980 e 1990, quando a grande maioria dos títulos da dívida era indexada a juros pré-fixados (sempre inferiores à inflação), 30% dos títulos hoje são indexados à própria inflação — explica Klein, especialista em contas públicas.

Ele complementa:

—  Inflação fora de controle, fora da meta, é sinal de um corpo febril, que está acima do seu ponto de equilíbrio e que precisa de remédios amargos

  Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 

Caminhão de pelanca. Cerca de 19,1 milhões de pessoas vivem quadro de insegurança alimentar grave. Aumento no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos é de 54% se comparado a 2018 


  Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 

Vanessa Avelino, 48 anos, também mora nas ruas do Rio e caminha até o ponto de distribuição, onde separa pelanca por pelanca, osso por osso em busca de algo melhor para pôr na sacola 

Mais custo para investir

Remédio amargo são os juros mais altos para diminuir o ímpeto de consumo, que já está contido com uma inflação de bens essenciais, difíceis de cortar no orçamento, como energia elétrica, gás de cozinha e alimentos.

— O Banco Central está vindo muito devagar (na elevação dos juros). É como frear o carro numa descida: se você pisa no breque logo, ele para, mas se vai devagarinho, ele continua pegando velocidade, que é o que está acontecendo — afirma Roberto Troster, da Troster & Associados.

Essa combinação de juros e inflação inibe um movimento de retomada do investimento. Quem pensa em construir uma fábrica, trocar o maquinário para ficar mais produtivo, investir em novos produtos e criar emprego olha os preços e os juros e pensa duas vezes. Somente no primeiro trimestre, o custo para investir no Brasil aumentou 15,8%.

— Quanto mais alta a taxa de juros, menor o crescimento. Com juro alto, o dinheiro fica caro e não dá para investir. As famílias não vão comprar seus bens duráveis, comprar um carro ou máquina de lavar, não vão viajar. A indústria não vai pegar dinheiro caro para investir num cenário de grande incerteza ainda — explica o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV.

 Foto: Pixabay 

A substituição de lâmpadas incandescentes pelas de LED pode gerar uma redução de 75% a 85% no consumo de energia. Além disso, essas lâmpadas duram mais. Em relação às lâmpadas fluorescentes, a economia é de cerca de 40% 


  Foto: Pixabay 

O uso do ventilador de teto durante 8 horas por dia gera um gasto de apenas R$ 18 por mês. Mesmo assim, é importante evitar deixar o aparelho ligado quando não houver ninguém no cômodo. Na hora de comprar, lembre-se que quanto maior o diâmetro das hélices, maior o consumo de energia. 

 

Massa salarial menor

A alta de juros é um dos principais motivos para as consultorias e bancos começarem a estimar o crescimento da economia em 2022 em menos de 1%. “Revisamos nossa projeção de crescimento do PIB de 1,5% para 0,5% em 2022 (em função da taxa de juros mais alta)”, escreveu Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, ao rever suas projeções em meados do mês passado.

Na média, o mercado reduziu as previsões do desempenho do PIB de 2,5% para 1,56% de janeiro para cá. Por causa disso, a taxa de desemprego, que chegaria a 12% nas previsões do banco, subiu para 12,3%.

— É o pior momento para a volta da inflação. Já estamos com desemprego alto. Ele poderia cair mais rapidamente se a taxa de juros estivesse menor —lamenta a economista Maria Andréia Parente, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Lucas Assis, também da Tendências, calculou o tamanho da perda do poder de consumo do trabalhador. A inflação comeu cerca de R$ 11,1 bilhões da massa salarial somente pelo avanço dos preços de janeiro a julho deste ano:

— E vamos para o terceiro ano seguido sem aumento real do salário mínimo. Com inflação e desemprego altos, parcela relevante dos trabalhadores não está conseguindo reajuste dos salários (que reponha a inflação). Cenário perfeito para reduzir o poder de barganha.

Para o trabalhador por conta própria, o impacto vem de todos os lados. A alta de 39,60% da gasolina nos últimos 12 meses reduziu os ganhos e o movimento do motorista de aplicativo Manoel Scooby. 

Rodando por Brasília desde 2016, ele nunca viu a gasolina tão alta: o preço médio do combustível bateu R$ 6,40 na última pesquisa da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Esse custo já fez com que muitos dos seus colegas desistissem de dirigir:

— Antes a gente trabalhava dez horas por dia. Hoje, para fazer o mesmo, é 12 horas. Mas metade fica para a gasolina.

Serviços já mais caros

Se antes a inflação estava muito concentrada no preço dos combustíveis, energia e produtos atrelados ao dólar, agora, com a reabertura dos serviços, a alta de preços chega a outros segmentos, pois está sendo possível algum repasse desses custos para o consumidor.

Nunca houve na História recente brasileira tantos choques de impacto inflacionário. No exterior, há quebra das cadeias de produção globais, inflação nos Estados Unidos e zona do euro, crise energética na China e no resto do mundo.

Aqui, crise hídrica, eventos climáticos afetando preço dos alimentos — que já estavam subindo com a demanda maior da China — e alta nos preços das passagens de ônibus. O plano de saúde, que ficou mais barato neste ano, subirá de novo em 2022. E a conta da turbulência política vai direto para a cotação do dólar:

— Como reconheceu o próprio ministro Paulo Guedes, se não fossem os ruídos políticos, o dólar estaria custando menos de R$ 5 — lembra o professor da PUC, o economista Luiz Roberto Cunha.

E mesmo a melhora da pandemia, com o avanço da vacinação, tende a ter um viés inflacionário, já que vai permitir a volta mais intensa dos serviços. A retomada da circulação permite que custos represados sejam passados aos preços.

Keli Mayer é dona de dois restaurantes em Brasília e tem sentido o impacto da inflação diretamente. Ela diz que água, luz, gasolina, embalagens, insumos e materiais de limpeza subiram nos últimos meses.

— Tive que diminuir muito o lucro que já era pequeno e não repassei quase nada para os clientes, pois está muito difícil a recuperação ainda — explica a chef.

Efeitos espalhados

Rolar a dívida pública fica mais caro:

Cálculos indicam que a alta da inflação e dos juros aumentaram em R$ 280 bilhões o custo do serviço da dívida pública. A inflação ajuda as contas públicas, mas só a curto prazo

Crescimento abaixo  de 1% em 2022:

A alta de juros de 2% para 6,25% ao ano jogou para baixo as previsões de crescimento para 2022. Elas começaram este ano em 2,5% e já há projeções de avanço do PIB de 0,5% e 0,4%

Aplicações financeiras perdem da inflação:

Em setembro, nenhuma  aplicação financeira conseguiu repor as perdas causadas pela inflação. O rendimento foi inferior à alta de preços até mesmo em relação ao dólar

Desemprego cai mais devagar:

A falta de dinamismo no próximo ano vai fazer a taxa de desemprego cair mais devagar, principalmente por causa dos juros. A geração de vagas não tem sido suficiente para os 14 milhões de desempregados

Menos renda e mais desigualdade:

O salário de admissão em  vagas formais tem caído. A massa salarial de janeiro a julho poderia ser R$ 11 bilhões maior não fosse a inflação, que é mais alta para os pobres, concentrando renda.