terça-feira, setembro 30, 2008

Na atual crise ninguém está blindado, nem o Brasil

Adelson Elias Vasconcellos

Bem, vocês já leram sobre o “terromoto” que se abateu no mercado financeiro mundial, especialmente após o anúncio de que o Congresso americano hvia recusado o pacote de Bush de ajuda aos bancos americanos.

Nada mais natural que a “ciranda” financeira entre em colapso, porque se antes o mundo inteiro andava apavorado, agora, a sensação é de se viver um verdadeiro caos.

É claro que se encontrará uma saída, o mundo inteiro viverá muitas turbulências, muita gente vai quebrar, mas isto não será o suficiente para o final dos tempos. Todos sobreviverão e, passado o vendaval, o mundo, talvez com mais juízo, controle e cuidados, voltará aos seus tempos normais.

Crises servem justamente para por juízo em muita gente que se acostuma com o lucro rápido e fácil. Por isso mesmo, sempre nos momentos seguintes, temos um mundinho um pouco melhor do que antes. E, assim, a humanidade vai escrevendo sua história. Não entender isto, ou querer projetar que tudo virá abaixo, além de revelar ignorância, denota uma fraqueza moral doentia.

Mas é preciso ver, por outro lado, que o mundo de hoje não admite mais que fatos como os atuais, não atinjam a todos os países. De uma maneira ou de outra, em maior ou menor escala, as consequências acabam abalando a todos.

Sendo assim, chega a ser leviana as declarações do senhor Lula e seu escudeiro-mor, Guido Mantega, de que a atual crise diz respeito apenas aos Estados Unidos e é da conta de Bush, tão somente. Do mesmo modo, aponta o dedo em riste para o “circo financeiro”, chegando a afirmar que ele existiu por obra e graça apenas de uma única nação. Será que ele não se dá conta do quanto de benifícios que o Brasil também recebeu? Ou ele acha que, não houvesse o circo, o país poderia ter capitalizado parte de suas atuais reservas cambiais? Ou, ainda, de onde Lula acha que sairam os mais de 650 bilhões de dólares que foi o montante de aumento de nossa dívida interna, pela venda de títulos públicos desde 2003, e que serviram para praticamente zerar a dívida externa, como, ainda, permitiram a grande valorização do real que, de resto, ajudam, e muito, no controle da inflação aqui dentro ?

Claro que Lula admitir, publicamente, tudo o que vai acima, talvez deslustrasse um pouco sua aura de “estadista”. Mas, pelo menos, seria mais sincero, ou, como queiram, menos canalha.

A leitura que faço de alguns analistas me põem medo. A pergunta que lanço é: em quantos milhões ou bilhões de dólares, as empresas brasileiras já perderam em suas ações pela depreciação das bolsas ? E, logo em seguida, já surgem um turbilhão de outras tantas questões não menos importantes: o que isto pode representar além de crédito mais curto e, em consequência, mais caro? Quantos projetos deverão ser adiados para tempos melhores que não se sabe quando retornarão? E o nível de emprego se manterá, internamente, nos atuais níveis, ou haverá retração? E a renda continuará subindo, sem que ainda tenha atingido os patamares de 1996/97? E o governo continuará gastando irresponsavelmente?

É lógico que a crise, especialmente em relação ao Brasil, demandará um certo tempo para podermos perceber seus danos, qualquer bom analista sabe disto. Contudo, nossas autoridades econômicas, comandadas por Lula, à exceção, talvez, do presidente do BC, Henrique Meirelles, precisam mudar seu discursso ufanista e preparar a população para viver momentos de turbulências e dificuldades. É uma leviandade achar que estamos imunes à crise, até porque, convenhamos, o país se beneficiou muito do circo financeiro, com muita gente comprando papéis do Tesouro para fechar nossas contas e o próprio Brasil acumular "reservas cambiais".

Assim, o problema não é apenas do "Bush" como Lula acusa irresponsavelmente. O mundo inteiro sofrerá com a crise, Brasil inclusive. E, por favor, não venham querer apontar o Brasil como "uma ilha de tranquilidade", porque, e há muito tempo digo isto, rigorosamente, todos os emergentes se encontram na mesma situação. Dada a ação deflagrada pelos FED e o BCs do Japão e da Comunidade Européia, a crise não foi "exportada" nos mesmo níveis para os emergentes. Ela virá pela obrigatória retração da economia mundial.

É preciso reparar no seguinte: em quantos pontos percentuais os juros bancários já subiram pela maior retração de crédito no mercado mundial? Leiam, por exemplo, o post logo abaixo, da Agência Estado, sobre as perdas em papéis de empresas brasileiras e as prováveis e imediatas consequências em relação a projetos e empregos.

A esta altura já era para o governo ter elencadas uma série de medidas restritivas capazes de sutentar o país ao longo da turbulência de mercados, e para que não soframos tanto. O dever do governante, em momentos complicados como os que vivemos, é de defender o país e não os votos nas próximas eleições. Mas são em momentos de dificuldades que se pode distinguir governantes medíocres de verdadeiros estadistas.

Portanto, é vital para o país que seus governantes parem com esta mistificação do discurso cretino, transferindo responsabilidades que também são suas, e assumam seu verdadeiro papel partindo para a ação. E o tempo é agora.

ENQUANTO ISSO...

Amazônia: desmatamento cresce 134%

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou hoje (29) um relatório que mostra que a Amazônia Legal sofreu em agosto um desmatamento de 756 Km²; o que representa uma alta de 134% em relação ao registrado em julho que foi de 323 Km². A Amazônia Legal inclui os estados do Acre, Amapá, Pará, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão. No acumulado deste ano, a Amazônia Legal sofreu desmatamento de 5.681 km2, praticamente quatro vezes a área da cidade de São Paulo. O campeão em degradação até agora é o Estado de Mato Grosso, com 3.030 km2, seguido pelo Pará (1.552 km2). De acordo com o Inpe, devido à existência de nuvens, nem todas as áreas desmatadas foram identificadas.

Enquanto isso...

Minc culpa eleições municipais por aumento de desmatamento na Amazônia
Renata Giraldi, da Folha Online

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) responsabilizou nesta segunda-feira as eleições municipais pelo aumento de áreas desmatadas na região da chamada Amazônia Legal. "Nos meses que tem eleição se desmata mais", disse. "A gente tem de tomar medidas para que isso não ocorra."

Para o ministro, uma das soluções para conter o avanços dos governos municipais é buscar a parceria desses políticos em programas anti-desmatamento.

De acordo com Minc, a elevação das atividades agropecuárias e a pressão fundiária e da grilagem de terras também contribuíram para aumentar os números referentes às regiões desmatadas.

O ministro afirmou ainda que o aumento de desmatamento "nunca é levado" por um fator apenas, mas pelo conjunto de aspectos.

Nesta segunda-feira o sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontou em agosto 756 km2 de área de desmatamento na Amazônia Legal.

De acordo com os dados, houve um aumento de 134% de desmatamento na região em comparação a julho. Do total registrado de desmatamento, 435 km2 estão no Pará e 229 km2 no Mato Grosso.

COMENTANDO A NOTÍCIA:

Santo Deus, em que mundo este cara pensa que vive? Ou será que, a exemplo de tantos outros políticos deste Brasil, ele também nos toma por perfeitos idiotas?

Se é para dizer sandices, senhor Minc, fique de boca fechada, certo ?

Mas,meus amigos, o melhor da história nesta questão do desmatamento, nem foi tanto a asneira dita por Carlos Minc, o que, aliás, já se tornou lugar comum. O bom é a informação passada pelo INPE.

Claro, Minc querendo demonizar alguém que não fosse ligado ao governo Lula, pelo desmatamento desenfreado, encontrou nos pecuaristas, sojicultores e no governador Blairo Maggi, os demônios perfeitos para culpar e eximir o governo federal de qualquer ação irresponsável. Andou até apreendendo gado alheio que até agora não conseguiu vender. Só com o aluguel de pasto já consumiu mais do que realmente vale o gado apreendido. Coisas do Brasil de Lula...

Retornando ao ponto. Minc, num rasgo de inteligência, resolveu criar um cadastro de desmatadores, estes “irresponsáveis” que só pensam em produzir alimentos para o Zé povão... Pois bem, hoje o INPE divulgou a lista dos “bandidos do meio-ambiente”.

Dentre os 100 maiores, eis o ranking dos grandes vilões pelo desmatamento amazônico:

1º colocado – INCRA
2º colocado – INCRA
3º colocado – INCRA
4º colocado – INCRA
5º colocado – INCRA
6º colocado – INCRA
40º colocado – INCRA
44º colocado – INCRA

Mas isso não diz tudo. Na lista divulgada, a área total desmatada é de 520.666,985 hectares. E quanto desse total cabe ao Incra? Nada menos de 229.208,649 hectares. Vale dizer: oito “projetos” do Incra desmataram o correspondente a 44% do total. Sozinho, fez quase o mesmo do que fizeram os outros 92... (clique aqui para a listagem completa)

E o INCRA pertence a quem e é comandado por quem? Pois é, MINC tentando surpreender o mundo, acabou surpreendido por ele...

Representa dizer, senhores, que o governo Lula é responsável direto por mais de 40% do desmatamento. E o MINC ainda quer culpar as eleições municipais? Vá se danar e trate de tomar vergonha, seu moço !!! Claro que o INCRA acusa o IBAMA, que também acusa a FUNAI, que acusa o INCRA. Haja confusão !!! E o desmatamento firme e forte.

Como sempre digo: continuo sem ter razões para deixar de ser minoria em relação a aprovação do governo atual. Eis aí mais uma das tantas mentiras que têm sido contadas e espalhadas desde 2003, desmascaradas por números incontestáveis...

Não tenho razões para deixar de ser minoria

Adelson Elias Vasconcellos

Saiu hoje um novo índice de aprovação de Lula, desta vez pela pesquisa CNI/IBOPE e que, rigorosamente, confirma a da CNT/Sensus, divulgada na semana passada. A aprovação do presidente chega à marca de 80%. Ou seja, minha "minoria" está ficando cada vez menor, hein? Já dá para dizer que somos, os vinte por cento que desaprovam Lula, a "frente de resistência" do lulo-petismo. Espero que um dia possamos ser agraciados, também, com gordas indenizações, a exemplo do que ocorre com os "perseguidos da ditadura militar"...

Mas vamos lá. Tem que me pergunte por que sou contra e se não seria mais fácil"aderir" à corrente.

Pois é, a questão é que existem 4 razões sólidas para eu permanecer nadando contra a corrente do "a favor". São quatro elos de uma corrente chamada "qualidade de uma administração pública" e para as quais poucos se importam, mas que fazem muita diferença.

A primeira, é a institucional. Pergunto: avançamos ou regredimos neste quesito ? Claro que aqui sempre é bom observar de que lado se está: se for petista empedernido, logicamente que a resposta se inclinará para o progresso, porém, se for do tipo democrata sem concessões, então fica fácil concluir que regredimos e muito. E temo que até 2010, ainda recuaremos muito mais ainda. Basta ver no que foi transformado o Congresso Nacional, as constantes tentativas de cerceamento da liberdade de expressão, a bagunça em que se acha metida a ABIN e parte da Polícia Federal. Dentre tantas outras porcarias. Não, não há no plano institucional, seja em garantias individuais ou no aperfeiçoamento de nossa democracia com o respeito ao total estado de direito, , uma única e miserável ação deste governo. Muito pelo contrário. O autoritarismo acha-se presente cada vez mais com maior intensidade, sendo a maior de todas a de se pretender governar sem oposição (?) ...

O segundo aspecto é o que diz respeito à segurança pública. Mesmo com quatro ou cinco pacotaços, em cinco anos, os indicadores não mentem: pioramos. O terceiro é o que diz respeito à educação, e aí, meu amigo, não há mágica capaz de alterar os números. Nossos alunos do ensino básico, em 1996, pasmem, tiveram melhores avaliações do que os alunos de 2008...

Por fim, a saúde. Que tal compararmos a saúde pública de agora com a de 1998, por exemplo? Aqui não houve queda: simplesmente despencamos.

Se uma administração é julgada por seu resultados, não há como negar que nestes quatro aspectos estamos regredindo estupidamente.

Portanto, se tão alta aprovação é calcada sobre indicadores econômicos e sociais, então fica ainda mais evidentemente que temos 80% da população que deixaram de estudar história, porque, rigorosamente, seja na economia ou no "social", o que se tem aí é o que se tinha antes de Lula. Nada mais, nada menos.

Avaliações somente devem ser admitidas as que são feitas a partir de resultados concretos frutos de ações próprias do administrador. Não podemos nos deixar seduzir pela propaganda oficial cujo caráter tem,, por habita, distorcer fatos e manipular estatísticas.

Nossa estabilidade econômica tão decantada, está estruturada a partir de ações e medidas implementadas no governo anterior à Lula, ações e medidas estas que, na oposição, Lula foi contrário e se indispôs. No plano social, do mesmo modo, encontrou cinco programas bem montados com um cadastro de famílias pleno de dados e informações que lhe permitiu expandir, cuidando para que a expansão lhe lograsse um imenso curral eleitoral.

Assim, e enquanto naqueles quatro campos acima não houver progressos efetivos e medidos, permanecerei na minoria de 20%. Até porque, ser minoria não significa ter perdido a razão. Até pelo contrário... Nem sempre o bom senso pertence às grandes massas. Muitas vezes, a maioria fica sedada pelo popularesco, pelo discurso, pela propaganda mistificadora. Exemplos históricos? É só ver como o nazismo se fez na Alemanha... Ou o apoio popular que a Revolução Russa recebeu do povo russo em seus primeiros anos. Portanto, ser maioria não representa estar ou não com a razão. No caso presente, o baixo nível educacional e de informação do povo brasileiro explicam perfeitamente bem grande parte deste índice, ou o seu todo.

CSN pode perder US$ 600 mi com câmbio, diz JPMorgan

Silvia Araujo e Natalia Gómez, da Agência Estado

Perdas seriam geradas por queda de 45% nas cotações dos papéis da empresa negociados nos EUA

SÃO PAULO - Assim como a Sadia, a Companhia Siderúrgica Nacional também deve registrar perdas com operações de derivativos. Segundo relatório do banco JPMorgan, a siderúrgica pode ter perdido US$ 600 milhões com contratos de derivativos relacionados com os preços das suas American Depositary Receipt (ADRs), papéis negociados nos Estados Unidos. Por serem atrelados ao dólar, estes papéis variam em função do câmbio.

No primeiro semestre de 2008, este tipo de operação rendeu à empresa ganhos de US$ 300 milhões. No entanto, a queda de cerca de 45% nas cotações das ADRs no terceiro trimestre deste ano poderão gerar as perdas de US$ 600 milhões, segundo o relatório. As ações da companhia operavam em queda de 17,05% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), antes de os negócios serem suspensos na Bolsa. Procurada pela reportagem, a CSN não se pronunciou sobre o assunto.

O problema com a Sadia e a Aracruz divulgad na semana passada pode ser o primeiro sinal de que a crise norte-americana chegou ao Brasil. Isso porque estas perdas são decorrentes da alta do dólar, motivada pela aversão ao risco que tomou conta dos mercados. Regra geral, em momentos de crise, os investidores buscam segurança em títulos da dívida norte-americana, o que provoca a valorização do dólar.

Tanto a Sadia quanto a Aracruz realizaram operações no mercado de derivativos de câmbio - a empresa se posicionava buscando ter lucro com a eventual manutenção da tendência de valorização do real ante o dólar, o que acabou não acontecendo devido ao agravamento da crise. A alta do dólar, que chegou a beirar os 18% em setembro, fez com estas operações resultassem em prejuízo.

Resposta
Em resposta ao relatório, a CSN afirmou, em fato relevante, que não possui operações alavancadas com derivativos de câmbio ou taxa de juros, e que "eventuais operações com derivativos de câmbio destinam-se somente a hedge da exposição cambial da companhia."

A siderúrgica explica que fez uma operação de equity swap que, em cinco anos, gerou um resultado financeiro em torno de US$ 845 milhões. O período da operação é de 2 de abril de 2003 a 26 de setembro de 2008.

"Nos termos da operação celebrada, a companhia é devedora à contraparte do swap pelo valor correspondente a uma taxa de juros baseada na taxa LIBOR aplicada sobre um valor de referência (nacional) correspondente ao preço médio de 'American Depositary Receipts' (ADRs) da companhia, enquanto contraparte deverá à companhia o valor correspondente à valorização dos respectivos ADRs e aos dividendos a eles atribuídos", explicou a empresa.

Ainda de acordo com a empresa, a exposição cambial da companhia ao longo do ano "manteve-se imaterial" no contexto das suas operações. No dia 26 de setembro, a disponibilidade de caixa livre da CSN era de cerca de US$ 1,7 bilhão.

O documento confirma, ainda que a CSN prossegue com as negociações para eventual alienação de participação societária e investimento na Nacional Minérios S.A. (Namisa), sua subsidiária.

Corrupção no Brasil: Não adianta espernear

Lucia Hippolito

Dados recentes da Transparência Internacional, a mais respeitada instituição no gênero em atuação no mundo inteiro, revelam que piorou a situação do Brasil no quesito “combate à corrupção”.

Evidentemente, a primeira reação das autoridades brasileiras foi espernear e tentar desqualificar a pesquisa e a própria Transparência Internacional.

É o tal negócio. Quando o rei recebia uma notícia ruim, a primeira providência era mandar matar o mensageiro.

Não adianta. Seria mais proveitoso se tentássemos entender por que o Brasil continua a freqüentar a lista dos países mais corruptos.

Nos últimos anos, progredimos enormemente na investigação da corrupção. Mesmo com um excesso ou outro, uma “maleta bisbilhoteira” ou outra, a Polícia Federal vem se qualificando, realizando investigações cada vez mais profundas e eficientes.

O Ministério Público, por sua vez, está cada vez mais atento e atuante. Um dos resultados visíveis é, por exemplo, o fato de o STF ter aceitado integralmente a denúncia do procurador-geral, e os 40 mensaleiros são réus no maior escândalo de corrupção já identificado no Brasil.

Na área financeira, CVM, Receita Federal e Coaf também vêm atuando no sentido de identificar ilícitos, caixa 2, recursos não contabilizados. Não pegaram os bois do dr. Renan Calheiros. Mas ninguém é perfeito.

O fato é que os instrumentos de investigação se sofisticaram muito no Brasil nos últimos anos.

Onde o país continua devendo, e devendo pesadamente, é nas pontas, isto é, na prevenção e na punição.

No capítulo prevenção, continuamos a gerar ocasiões para fazer os ladrões.

A forma de ocupação da máquina pública, os métodos para a constituição de maiorias governamentais, as licitações de cartas marcadas, os funcionários aliciados por empresários mal-intencionados, tudo isto mantém aberta a porta para a corrupção.

O escândalo do mensalão aconteceu, e não se adotou uma única medida para que novos mensalões não venham a surgir.

No capítulo punição, então, a coisa é muito pior. Uma justiça lenta, uma justiça que não pune, uma legislação arcaica, que permite uma sucessão infinita de recursos, até que o crime prescreva.

A presunção da inocência, um dos pilares do estado de direito, é hoje arma poderosa a favor de bandidos de toda sorte. Ajudada por esta “maravilha” brasileira que é o foro privilegiado.

O foro privilegiado, criado para proteger parlamentares de acusações de crimes de opinião, hoje é guarda-chuva para bandido. É desculpa para abrigar criminosos comuns, acusados dos crimes mais cabeludos.

Por isso mesmo, não adianta as autoridades brasileiras espernearem e falarem mal da Transparência Internacional. Melhor fariam se trabalhassem mais para que, nas próximas pesquisas, o Brasil apareça bem na foto, não no ranking dos países mais corruptos, mas na lista dos países menos corruptos.

Sindicatos ricos e fracos

Suely Caldas, Estadão

A recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apresenta um dado aparentemente contraditório: enquanto o trabalho com carteira assinada e a renda salarial crescem, cai o número de trabalhadores sindicalizados. Veja, leitor, o que aconteceu entre 2006 e 2007: 1) O emprego com carteira assinada cresceu 6,1% e o rendimento salarial, 3,2%; e 2) os sindicatos perderam 555 mil trabalhadores filiados, o que fez a taxa de sindicalização cair de 18,6% para 17,7% da população ocupada. A lógica seria a filiação sindical acompanhar a expansão do emprego formal. Mas os trabalhadores não seguem a lógica. Por que será?

O especialista em economia do trabalho José Márcio Camargo atribui isso a um certo desencanto dos trabalhadores com seus sindicatos, descrédito na forma de representá-los e enfrentar novos desafios da modernização dos meios de trabalho. A luta sindical moderna exige preparo das lideranças para diversificar o foco, ir além do tradicional aumento salarial. Mas a prática continua presa ao modelo das décadas de 70/80, quando o sindicalismo desafiou a ditadura militar e viveu seu auge nas famosas greves do ABC paulista lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva.

"Hoje, só 10% dos trabalhadores estão sob a proteção dos sindicatos; os 90% restantes são lei de mercado. Desviar a luta sindical para outras reivindicações dá trabalho e os sindicatos não estão dispostos ou não sabem fazê-lo", analisa Camargo.Outro dado da Pnad confirma o que diz o especialista. O recente crescimento do emprego tem amortecido as tensões e propiciado entendimento na relação capital x trabalho. Tanto que 80% das categorias profissionais fecharam acordos com ganhos salariais acima da inflação. São os 90% mencionados por Camargo com reajustes de salários regidos pelo mercado, em que empregados e empregadores se acertam sem interferência dos sindicatos, que só comparecem depois, para formalizar legalmente o acordo.

Há quem considere essa situação transitória, fruto de uma conjuntura de crescimento do emprego e ganhos salariais, que leva os trabalhadores a dispensarem os sindicatos em defesa de seus interesses. Tão logo mude a realidade e aumentos salariais só sejam conquistados com enfrentamento político, eles voltariam a se filiar.

Essa avaliação pode até ser válida para as grandes indústrias, mas desconsidera mudanças estruturais ocorridas no mercado de trabalho: na década de 90 a introdução da automação enfraqueceu o emprego nas grandes indústrias e o fortaleceu no setor de serviços (informática, bancos, telecomunicações, etc.). E é nesse setor, sem tradição de luta e com desempenho sindical extremamente tímido e por vezes ausente, que acontece um fenômeno que precisa ser mais bem pesquisado: o desinteresse dos jovens que ingressam no mercado de trabalho pelos sindicatos e a descrença de que suas lideranças saberão mapear e conduzir seus problemas e carências. É o que Camargo chama de novo desafio para as lideranças sindicais de ampliarem seu foco de atuação além da reivindicação salarial.

Há ainda outras razões que explicam o enfraquecimento dos sindicatos captado pela Pnad. Arrefeceu o estilo aguerrido do ABC paulista, que contaminou o movimento sindical nos anos 70/80. Foi substituído por lideranças acomodadas, que se fecham nas suas sedes, discutindo como obter verbas do Ministério do Trabalho e do imposto sindical, e que descuidam da relação direta com seus representados. Esse fenômeno piorou nos últimos anos em razão da liderança política do presidente Lula, que deixou dirigentes sindicais confusos, tontos, preocupados em ocupar cargos no governo e agir com moderação para não atrapalhar o amigo presidente.

As reformas sindical e trabalhista, defendidas com tanto fervor nos tempos do Lula metalúrgico, foram enterradas; o governo delas desistiu. A sindical andou só um pouquinho, mas em marcha à ré, contra o que o ABC paulista pregava em 70/80. E, pior, com aprovação entusiasmada do ex-líder, hoje presidente. Trata-se do rateio do dinheiro do imposto sindical entre seis centrais sindicais. Aliás, eram três e multiplicaram-se depois que o presidente amigo acenou com a idéia de receberem dinheiro público. Agora querem criar a "contribuição negocial", que o trabalhador vai pagar sem ser consultado.

Muito diferente dos tempos em que Lula gritava em assembléias em São Bernardo que o imposto sindical só produzia sindicalistas pelegos.

O vício do crédito fácil está por trás das crises

Paulo Guedes, Revista Época

Se uma família se endivida excessivamente para comprar uma casa e depois não consegue pagar as prestações, pode ter cometido um erro – e corre o risco de perder seu lar. É uma tragédia familiar. Mas como explicar que milhões de famílias americanas tenham resolvido se endividar excessivamente ao mesmo tempo, disputando casas a preços crescentes, provocando um boom no setor de construção residencial e cometendo o mesmo erro de cálculo quando enfrentam, hoje, dificuldades no pagamento das prestações?

Elas decidem então vender os imóveis, novamente todos ao mesmo tempo, e quebram pelo desabamento de preços, pois o valor das casas fica abaixo das dívidas assumidas. É mais do que uma coleção de tragédias familiares – é uma crise sistêmica.

Se um banco ou uma agência de crédito imobiliário concede financiamento a uma daquelas famílias, que não estava preparada para arcar com as despesas financeiras da compra do imóvel, pode ter adquirido uma hipoteca de alto risco. Pode ter cometido um erro e ser atingido pela inadimplência do tomador do empréstimo, perdendo o principal, além de não receber os juros contratados. É um erro de avaliação do banco. Mas como explicar que centenas de bancos e companhias de financiamento imobiliário tenham resolvido, ao mesmo tempo, emprestar excessivamente aos milhões de tomadores de alto risco, todos com lastro em ativos imobiliários? É mais do que uma coleção de erros de avaliação – é uma crise sistêmica.

A originação das hipotecas, a revenda desses empréstimos (ou “securitização”) e sua distribuição por meio de veículos de investimento especialmente desenhados para essa finalidade seriam, em condições normais, um sinal de que as inovações financeiras contribuem para a melhoria da qualidade de vida das famílias. Mas como explicar que o veículo para a concretização do sonho da casa própria tenha se tornado não apenas o maior pesadelo dessas famílias, mas também uma crise sistêmica, um buraco negro que já engoliu gigantes financeiros – como Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, Merrill Lynch, Lehman Brothers e AIG – e ameaça tragar o restante da economia americana?

Pois bem, o Federal Reserve de Alan Greenspan, mantendo os juros muito baixos por muito tempo, foi a alavanca que moveu toda essa engrenagem. Milhões de famílias saltaram da bolha das Bolsas para a bolha dos imóveis. Centenas de instituições financeiras distribuíram aqueles ativos financeiros de baixa qualidade em todo o mundo. O mesmo Federal Reserve, com a ajuda do Tesouro e de seu plano de salvamento de US$ 1 trilhão, tenta agora interromper a liquidação desordenada desses ativos financeiros, cujos preços foram inflados pelas bolhas.

Por trás de todas as crises financeiras sistêmicas sempre esteve um fenômeno tão inebriante quanto letal: a expansão excessiva do crédito, que, quando interrompida, converte-se em colapso do crédito (credit crunch). É como um vício, dificílimo de interromper: as famílias desejam as casas, a indústria da construção quer construí-las, os bancos e financiadores pretendem financiá-las, as agências de rating almejam suas comissões – e as “drogas” são fornecidas pelo banco central, sob a forma de juro baixo e liquidez excessiva.

As maiores catástrofes financeiras da História moderna experimentaram o fenômeno da expansão excessiva do crédito: o crash de 1929 e a Grande Depressão dos anos 30, nos Estados Unidos, o crash de 1989 e a estagnação que completa duas décadas no Japão e o atual credit crunch de novo nos EUA. Nos três casos, foi patente o desleixo das autoridades monetárias em esvaziar as bolhas especulativas em formação.

Os bancos centrais sempre estiveram atentos à trajetória da inflação, inimigo público facilmente identificável pelo efeito corrosivo da alta de preços de bens e serviços sobre o salário. Mais difícil é detectar nos próprios bancos centrais o inimigo invisível responsável pela “exuberância irracional” dos mercados. E, mais ainda, interromper a farra do crédito, antes que ela produza a catástrofe histórica.