sexta-feira, junho 29, 2012

Só dinheiro não vai resolver o problema do PIB


Patrick Cruz 
Exame

O governo federal quer investir mais para tentar dar um empurrão no PIB. Projetos ruins, gestão ineficiente, burocracia e falta de diálogo entre os órgãos públicos atrapalham esse plano

Paulo Jares
Região carente de Belém: 
a cidade tem o pior saneamento do país, 
mas as obras não saem por falta de competência

São Paulo - Estão em Belém os dois únicos projetos de sa¬nea¬mento básico da Região Norte do país incluídos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Eles foram assinados em 2008, mas até hoje não saíram do papel. Dinheiro para a obra nunca chegou a ser problema.

O que faltou foi um entendimento entre os próprios beneficiados pelo projeto. A liberação dos 55 milhões de reais previstos para as obras dependia de um acerto da prefeitura de Belém com a Companhia de Saneamento do Pará na renovação do contrato de concessão do abastecimento de água da cidade.

O acordo demorou mais de um ano e, quando saiu, em março, a licitação para as obras precisou ser cancelada porque o projeto estava defasado e incompleto. Belém tem o pior saneamento básico entre as cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes.

Segundo o IBGE, pelo menos um terço da população não sabe o que é ter rede de esgoto em casa. Episódios como esse, infelizmente, não são raros na tragicomédia em que se transformaram os projetos de obras públicas no país.

Preocupado com a desaceleração da economia, o governo federal agora tem pressa em aumentar o dinheiro destinado a obras de infraestrutura. “Vamos acelerar os investimentos e não haverá contingenciamento das obras do PAC”, disse Arno Augustin, secretário do Tesouro Nacional, quando prestou contas, em 12 de junho, na Comissão de Orçamento do Congresso.

Entre a meta do governo e a realidade, porém, há milhares de exemplos como o de Belém. Entre 2001 e 2002, a média dos investimentos do governo correspondeu a 1% do PIB brasileiro (o número exclui os aportes das estatais). Entre 2010 e 2011, a média foi de apenas 1,2%. Nesse mesmo período, o valor à disposição do governo para investimentos saiu de 1,7% para 2,5% do PIB.

A lista de desacertos na gestão de obras públicas está recheada de exemplos pitorescos e desconcertantes, muitos deles produzidos pelas próprias empresas. Um relatório ambiental considerado incompleto pelo Ibama, feito pelo consórcio formado por Votorantim, Alcoa e DHE Energia, emperra há cinco anos a construção da hidrelétrica Pai Querê no rio Pelotas, entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Entre os pontos levados em consideração para o pedido de revisão estava a ausência de animais que vivem na área da obra. O consórcio admitiu os problemas e fez as retificações — até o sapo-de-chifre foi descoberto nas novas pesquisas. O novo documento já está com o Ibama, mas, até que o órgão dê sinal verde, o investimento de quase 1 bilhão de reais continua represado.

Curiosamente, na primeira versão do relatório, o consórcio incluiu um animal, o morcego-orelhudo, que, segundo o pesquisador Marcelo Mazzoli, da Universidade do Planalto Catarinense, não existe na área.

O acúmulo de projetos retidos explica o aumento exponencial dos chamados “restos a pagar”, recursos já disponíveis para investimento, mas que acabam não chegando aonde deveriam. O governo começou 2012 com mais de 51 bilhões de reais em sobras dos anos anteriores.

Com essa bolada, seria possível fazer todas as obras de estádios, mobilidade urbana, aeroportos e telecomunicações previstas para a Copa de 2014 e ainda restariam 24 bilhões de reais. “Está muito claro: não falta recurso”, diz Mansueto Almeida, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Falta é saber gastar.”

O governo informa que seus investimentos cresceram em 2012 — um alento nesse cenário no qual a urgência de investimentos convive com a sobra de dinheiro. Entre janeiro e maio, foram investidos 26,3 bilhões de reais, segundo o Sistema de Administração Financeira. O montante é 29% maior que o do mesmo período de 2011.

Ocorre que esse aumento está ligado a um malabarismo contábil. Até 2011, o subsídio ao financiamento dos imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida não era registrado como investimento. Em 2012, a regra mudou — e, como num passe de mágica, a queda nos investimentos foi convertida em alta. Se a regra de 2011 tivesse sido mantida, os investimentos teriam recuado 4%.

A lista de problemas que emperram os investimentos no país reúne velhos conhecidos. A demora na liberação das licenças de órgãos ambientais é um deles. “O prazo para as licenças são longos e emperra um projeto por meses”, diz Pablo Sorj, sócio da área de infraestrutura do escritório de advocacia Mattos Filho.

A corrupção drena outro tanto da força econômica do país¬ — foram 40 bilhões de reais surrupiados nos últimos dez anos, segundo estimativas do economista Marcos Fernandes da Silva, da Fundação Getulio Vargas. Uma fraude cancelou a obra da linha do veículo leve sobre trilhos (VLT), que ligaria o aeroporto de Brasília aos hotéis próximos do estádio que receberá os jogos da Copa.

O VLT era uma das seis obras de um projeto do governo de Brasília que incluía a duplicação de uma rodovia. Como todos estavam no mesmo pacote, a suspensão paralisou os seis projetos.

Mas fica claro que há um mal adicional: a falta crônica de gestão. Em 2009, o questionário de avaliação do plano plurianual do governo federal, enviado aos gestores de obras públicas, incluiu a pergunta: “Por que você não investiu todo o recurso disponível?”

Entre todas as respostas, uma das mais honestas foi a dos responsáveis pela transposição do rio São Francisco, uma das obras mais caras em andamento, no valor de 8,2 bilhões de reais. Os gestores disseram que problemas de comunicação com o próprio governo e as recorrentes trocas na equipe de gerentes tinham sido as causas dos atrasos.

Nenhuma menção foi feita à falta de dinheiro. Não era o caso — mesmo que o orçamento para a transposição fosse zero neste ano, a obra poderia usar 1,6 bilhão de reais de sobras dos anos anteriores.
“Por muito tempo, investia-se pouco porque o governo não tinha dinheiro. Agora há recursos, mas falta competência”, diz Geovani Fagunde, sócio da consultoria PricewaterhouseCoopers em Brasília. Com a palavra, os gestores públicos.

Brasil e Argentina fazem acordo para destravar comércio bilateral


Janaína Figueiredo
O Globo

Dois países teriam fechado acordo verbal para flexibilizar a aplicação de barreiras não tarifárias

MENDOZA — Os governos do Brasil e da Argentina aproveitaram a cúpula de presidentes do Mercosul na província argentina de Mendoza para tentar destravar o comércio bilateral e aliviar as intensas críticas de empresários de ambos os países. Nas últimas terça e quarta-feira, a Secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, reuniu-se com sua colega argentina, a Secretária de Comércio Exterior, Beatriz Paglieri, para discutir a situação de setores sensíveis para os dois principais sócios do bloco, entre eles, os produtores de carne suína brasileiros, que há meses vem sofrendo dificuldades para entrar no mercado argentino.

— Chegamos a um acordo verbal para flexibilizar a aplicação de barreiras não tarifárias entre os dois países — comentou uma fonte que está participando das negociações.

Segundo ela, “o Brasil tentará não prejudicar as importações de automóveis e produtos regionais argentinos e, em contrapartida, o governo Kirchner evitaria barrar autopeças e carne suína provenientes do Brasil”. O entendimento incluiria outros produtos, que ainda estão sendo discutidos.

— Estamos conversando, mas há muito tempo não se negociava desta maneira entre Brasil e Argentina — afirmou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Os dois governos estariam analisando a possibilidade de realizar reuniões mensais – como acontecia em outras épocas - para evitar novas crises bilaterais. A ideia surgiu num primeiro encontro entre o Secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira, e o polêmico Secretário de Comércio Interior argentino, Guillermo Moreno (considerado o cérebro da política comercial protecionista da Casa Rosada), na primeira semana de junho, em Buenos Aires.

O governo Dilma Rousseff está mostrando todo o seu interesse em melhorar a relação comercial com a Argentina. Ontem, Tatiana conversou com governadores de províncias argentinas como Mendoza e San Juan e, também, participou de um encontro com empresários argentinos na Bolsa de Comércio de Mendoza.

— Vemos disposição do Brasil para escutar nossas queixas — comentou um empresário argentino.

O interesse do Brasil é grande: no ano passado, a Argentina recebeu US$ 7 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, dos quais cerca de 40% foram capitais brasileiros. Também em 2011, o Brasil registrou superávit comercial de quase US$ 6 bilhões com a Argentina.

— Os problemas existem, são reais, mas estamos trabalhando porque nossa parceria é estratégica — assegurou uma fonte brasileira.

Nos últimos meses, vários setores empresariais brasileiros foram prejudicados pela implementação das chamadas Licenças Não Automáticas (LNA) por parte da Argentina. De acordo com as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC), os governos podem demorar até 60 dias em autorizar a entrada de importações com LNA. No entanto, em muitos casos, os produtos brasileiros demoram muito mais tempo em obter sinal verde para ingressar no mercado argentino. Um dos casos mais críticos é o dos calçados. De acordo com a Associação Brasileira de Calçados, cerca de 1,4 milhão de pares estão parados na fronteira com a Argentina à espera de autorização das autoridades locais. Deste total, 200 mil completaram, este mês, um ano de espera.

O caso dos suínos também é complicado. Em março passado, o ministro da Agricultura, Jorge Mendes Ribeiro, reuniu-se com seu colega de pasta argentino Norberto Yahuar na capital argentina e ambos chegaram a um acordo preliminar que prevê a implementação de cotas para os produtos brasileiros. Ficou estabelecido um limite de 3 mil toneladas mensais, mas este entendimento não tem sido cumprido pelos argentinos, segundo denunciaram empresários brasileiros recentemente.

Em maio passado, as vendas brasileiras para o mercado argentino recuaram 16%, frente ao mesmo período do ano passado. O motivo seria a desaceleração de ambas economias mas, também, a política protecionista adotada pela Casa Rosada e defendida publicamente pela própria presidente Cristina Kirchner.

América Latina não pode ser ingênua na relação com China, diz analista


Júlia Dias Carneiro (*)
BBC Brasil 

Para Cárdenas, há sinais de que China quer influir na política latino-americana


A América Latina não deve ser ingênua nas relações com a China e precisa ter cuidado para "não ir de uma potência para a outra", trocando a dependência dos Estados Unidos pela do gigante asiático, diz o colombiano Maurício Cárdenas, diretor do setor latino-americano do instituto de pesquisas Brookings Institution, em Washington.

Na avaliação de Cárdenas, a América Latina tem sido ingênua em relação à China. Não exigiu o suficiente que o país abrisse seu mercado nem colocou em dúvida a duração do crescimento chinês. 

"Fomos muito ingênuos em pensar que a China vai continuar crescendo na taxa de 10% ao ano e que a demanda por commodities vai continuar neste ritmo para sempre", afirmou Cárdenas à BBC Brasil no Fórum Econômico Mundial da América Latina, no Rio. 

De acordo com Cárdenas, há diversos sinais vindos da China de que a atual taxa de crescimento não se sustentará, pois haveria excesso de capacidade em setores da economia, vilas com muitos prédios e poucos habitantes, fábricas operando abaixo da capacidade. 

"Diversos exemplos indicam que há excesso de investimento na China. E sempre que vimos isso na história, houve um ajuste custoso depois, seja porque empréstimos não foram pagos, bancos enfrentam dificuldades ou ninguém quer investir mais no local."

Para Stephen Olson, diretor do instituto Asia Economic Strategy Institute, o Brasil também deve agir para que a China desvalorize sua moeda, pois, segundo ele, a atual cotação do yuan prejudica indústrias brasileiras.

Mas ele diz que pressionar o país pode ser contraproducente, porque os chineses poderão achar que adotar a medida simbolizará fraqueza e submissão a vontades externas. Em vez disso, sugere uma “diplomacia silenciosa” que faça a China entender que valorizar o yuan será vantajoso para o país.

Para Cárdenas, a América Latina precisa estar pronta para o momento em que o "motor do mundo desacelerar". Isso equivale a aumentar a poupança ("Não falamos mais em poupança na América Latina, falamos só em investimetno, empréstimo, expansão de crédito") e fortalecer os mercados internos para criar uma base forte para o crescimento econômico. 

"O problema é que expandimos o mercado interno, mas muito dessa demanda está sendo suprida por manufaturados chineses. Pense nos eletrodomésticos, nos automóveis. Isso é o caso menos do Brasil, mas é fato em países como Peru e Chile, onde a maioria desses produtos é importada da Ásia."

A expansão do mercado interno deveria permitir o aumento da produção doméstica de manufaturados e incentivar a exportação de produtos além das commodities, ressalta. 

Segundo o analista, em muitas maneiras a relação com a China se parece com uma relação "Norte-Sul". "Eles fazem os manufaturados, nós fazemos as commodities, nós aceitamos o capital", afirma o colombiano.

Olson, do Asia Economic Strategy Institute, diz que a China é muito direta em perseguir seus interesses estratégicos e comerciais.

“Governantes brasileiros devem discernir com cuidado quais os interesses estratégicos chineses numa questão particular, e então definir suas estratégias políticas de forma correspondente”, diz Olson à BBC Brasil.

China versus EUA 
A expansão da presença chinesa na América Latina, segundo Cárdenas, "é uma ameaça maior do que os Estados Unidos percebem e maior do que as autoridades chinesas admitem". 

"Dizem que não há interesse político na América Latina, que são só negócios. Mas já há sinais de que querem exercer uma influência política sobre a região. É uma tendência e temos que estar alertas. Acho que não queremos ir de uma potência para a outra." 

A China é vista como uma ameaça às fortes relações dos Estados Unidos com os países da América Latina. Para Cárdenas, porém, esse momento de transição deve ser usado de maneira "mais inteligente", de modo a elevar a importância global da região e reduzir as dependências. 

Ele considera o país asiático o principal risco global a ser levado em consideração hoje pela América Latina. O segundo são os próprios Estados Unidos, onde o aumento do deficit fiscal demandará ajustes que, a seu ver, terão efeitos negativos para os países da região. 

"Os Estados Unidos são hoje uma sociedade muito dividida, e na minha visão estão se tornando muito fechados. Eles percebem que sua posição no mundo está mudando, e a reação instintiva de muitas pessoas, e de muitos políticos, é construir barreiras. E barreiras nos Estados Unidos serão prejudiciais ao México, à América Central e a muitos países da região", diz.

*Colaborou Silvia Salek, da BBC Brasil em Londres

Do interesse da China


O Estado de S.Paulo

Era de todo justificado o ar radiante do primeiro-ministro da China, Wen Jia Bao, ao final da inédita teleconferência de que participou - ao lado da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e com intervenções em tempo real dos presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e do Uruguai, José Mujica - para anunciar a "aliança estratégia global" entre os quatro países e que poderá, segundo seu desejo, levar ao estabelecimento de uma zona de livre comércio entre seu país e o Mercosul. A China, que já ganha muito no comércio com o bloco do Cone Sul, mais terá a ganhar com as facilidades a serem proporcionadas pela maior abertura para a entrada de seus produtos na região.

Resta saber a que se deveram o olhar "extasiado" - como o descreveu o jornal argentino La Nación - com que a presidente Cristina Kirchner acompanhou o anúncio de Wen Jia Bao, feito em Buenos Aires, e o entusiasmo com que a presidente Dilma Rousseff se referiu à proposta, ao afirmar, que "é estratégico construir um relacionamento produtivo com a China". Resta saber qual o exato significado dessas palavras.

Não são visíveis as vantagens para o bloco sul-americano do eventual estabelecimento da zona de livre comércio com a China. Ao contrário, muito mais provável é que, caso isso ocorra, os produtos chineses ampliem muito mais rapidamente sua participação no mercado regional, sem a contrapartida da expansão das exportações do Mercosul para a China.

A ideia anunciada pelos quatro chefes de governo enfrenta, no nascedouro, um curioso problema político e institucional. Ela será discutida na reunião de cúpula do Mercosul marcada para quinta-feira (28/6) em Mendoza, na Argentina, e que não terá a representação de um dos quatro membros efetivos do bloco, o Paraguai. Os demais parceiros rejeitaram a participação do novo presidente paraguaio, Federico Franco, colocado no cargo depois de um processo de impeachment de seu antecessor, Fernando Lugo, considerado ilegítimo pelos governos do Brasil, Argentina e Uruguai.

Ainda que o Paraguai - que continua sendo membro efetivo do Mercosul - estivesse representado na reunião de cúpula, persistiria um problema diplomático para o início das negociações do acordo Mercosul-China. O Paraguai não reconhece o governo de Pequim como representante da China, "status" que atribui ao governo de Taiwan. Sem a concordância de um seus membros, o Mercosul não poderia negociar com a China.

Há, além disso, questões econômicas e comerciais concretas que tornam no mínimo duvidosos os ganhos do Mercosul com a abertura dos mercados que resultaria do estabelecimento da zona de livre comércio.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. No ano passado, as exportações brasileiras para a China somaram US$ 44,3 bilhões, enquanto as importações de produtos chineses pelo País alcançaram US$ 32,8 bilhões. Esses números apontam para um quadro ainda muito favorável ao Brasil, que obteve um superávit de US$ 9,5 bilhões.

Mas, apesar do saldo favorável ao Brasil, há um desequilíbrio nas trocas comerciais entre os dois países que, ao longo do tempo, levará à mudança dessa situação. O Brasil é um grande fornecedor de produtos básicos para a China e de lá importa cada vez mais produtos manufaturados.

É importante que o País preserve e amplie as fatias do mercado de produtos básicos que conquistou na China - o minério de ferro respondeu por praticamente 45% das exportações para a China em 2011; somadas as vendas de petróleo, soja, açúcar e pastas químicas de madeira, a participação vai a 86% do total. Mas o Brasil precisa ampliar as exportações de manufaturados, dos quais é grande importador da China. No ano passado, das importações brasileiras dos países asiáticos (especialmente da China e do Japão), 96% foram de produtos manufaturados.

O acordo com a China aumentaria esse desequilíbrio. Já o acordo do Mercosul com a União Europeia, cujas negociações se arrastam há dez anos, ampliaria o mercado para os manufaturados do Cone Sul. Desse acordo, porém, os governos da região pouco falam, talvez por razões "estratégicas" difíceis de explicar.

Proposta de livre comércio entre Mercosul e China opõe Brasil e Argentina


Ruth Costas
BBC Brasil 

As chances de que a proposta prospere são pequenas em função da oposição da indústria brasileira.


Em meio à crise paraguaia, o anúncio de que a China teria interesse em um acordo de livre comércio com o Mercosul causou surpresa e colocou em campos opostos diplomatas do Brasil e da Argentina, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

O governo de Pequim também ofereceu uma linha de crédito de US$ 10 bilhões para financiar projetos de infraestrutura na América Latina.

As propostas chinesas foram feitas na Argentina na sexta-feira passada pelo primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, durante uma vídeo conferência da qual também participaram a presidente brasileira, Dilma Rousseff, e o uruguaio José Mujica, além da presidente argentina, Cristina Kirchner. A única ausência foi a Paraguai, que vive um conturbado processo de sucessão presidencial.

Segundo os especialistas, as chances de que a proposta de livre comércio prospere são pequenas em função da oposição da indústria brasileira.

Miriam Gomes Saraiva, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, explica que a ideia de um tratado de livre comércio entre o Mercosul e a China é defendida claramente pela Argentina e vista por Brasília com preocupação por causa da ameaça que produtos chineses podem representar à indústria brasileira.

A opinião é a mesma de Kevin Gallagher, especialista em relações China-América Latina da Universidade de Boston e que está em Buenos Aires pesquisando o tema.

"Todos os países latino-americanos poderiam se beneficiar de um acesso privilegiado ao mercado chinês, que consome 72% da soja argentina e 50% do aço brasileiro, mas o potencial do impacto de um aumento das importações chinesas divide a região", explica.

Durante a teleconferência, o primeiro-ministro chinês ressaltou o "interesse comum e o grande potencial" do possível acordo.

Dilma, por sua vez, defendeu que o estreitamento dos laços com a China poderia ajudar a evitar um contágio da crise global nos países emergentes, mas para Gallagher a declaração foi política.

Presidente Dilma cumprimenta o primeiro-ministro chinês
Wen Jiabao após a conferência Rio +20

"A grande preocupação do Brasil hoje é como diversificar sua economia, reduzindo a dependência das exportações de commodities, cujo principal consumidor é a China, e aumentando a competitividade dos produtos de maior valor agregado, que muitas vezes competem com os chineses", afirma o analista.

Paraguai
Para Saraiva, não foi à toa que a ideia foi lançada em um momento em que o Paraguai está afastado do bloco. Segundo a professora, a diplomacia argentina aproveitou a suspensão do país do Mercosul para fazer pressão sobre o Brasil.

"O anúncio dessa proposta e as conversações relacionadas a ela foram possíveis agora por causa do afastamento do Paraguai (do Mercosul), já que o fato de esse país não manter relações diplomáticas (com a China) vem impedindo há muito tempo qualquer acordo", afirma Saraiva, especialista em diplomacia brasileira e cooperação sul-sul.

O Paraguai é um dos poucos países do mundo que não reconhece o governo de Pequim, mas sim o governo chinês de Taiwan. A ilha, no entanto, é considerada uma Província rebelde pelos chineses continentais.

Saraiva ressaltou que a chance de que um acordo comercial com a China avance são pequenas. Até porque costurar esse acordo exigiria tempo - e a princípio o afastamento do Paraguai, decidido após o impeachment-relâmpago do presidente Fernando Lugo, é apenas temporário.

Presença chinesa
A proposta da China de abrir uma linha de crédito de US$ 10 bilhões para financiar projetos de infraestrutura na região já é menos polêmica, embora para o Brasil também crie desafios, além de oportunidades.

Desde 2005, a China emprestou, principalmente por meio do Banco de Desenvolvimento Chinês, cerca de US$ 75 bilhões para países latino-americanos segundo um estudo coordenado por Gallagher e publicado pelo Inter-American Dialogue.

Só em 2010 os créditos chineses totalizaram US$ 37 bilhões, de acordo com o mesmo estudo - mais do que o total aplicado na região pelo Banco Mundial, o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento e o EximBank dos Estados Unidos juntos.

A maior parte desses recursos se destina a obras de infraestrutura e costuma ser condicionada à contratação de construtoras chinesas em um esquema semelhante ao implementado pelo BNDES.

A diferença é que, em troca dos empréstimos, os chineses podem exigir exportações de petróleo e outros recursos naturais - como no caso de algumas linhas de crédito para a Venezuela.

Entre as obras financiadas por capital chinês estão hidrelétricas no Equador e poços de exploração de petróleo em Cuba. O Brasil também recebe uma parte importante desses empréstimos, mas, segundo Gallagher, também há uma preocupação no país com a competição que as empresas chinesas representam na região para as brasileiras.

"Por isso o BNDES está se estruturando para apoiar mais a expansão internacional das companhias brasileiras", opina o analista.

Crise mundial contamina economia brasileira por 'diversos canais', diz BC


Maeli Prado
Folha online

Em seu relatório de inflação trimestral, publicado nesta quinta-feira (28), o Banco Central afirmou que o baixo crescimento da economia internacional deve durar "por um período de tempo prolongado".

"Desde o último relatório [de inflação, publicado em março deste ano], acumularam-se evidências apontando ritmo de crescimento modesto", afirma o documento divulgado hoje.

O BC reviu sua projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro de 3,5% para 2,5%.
A turbulência externa, diz a autoridade monetária, com destaque para a crise na União Europeia, se transmite à economia brasileira por diversos canais.

"Acumulam-se evidências que apoiam a visão de que os desenvolvimentos são de grande complexidade e se transmitem para a economia brasileira por diversos canais, entre outros, moderação da corrente de comércio, moderação do fluxo de investimentos e condições de crédito mais restritivas. Também constitui canal de transmissão de grande importância a repercussão sobre a confiança de empresários, com impactos desfavoráveis sobre decisões de investimento", afirma o BC.

No caso da inflação --a projeção oficial do BC foi elevada de 4,4% para 4,7% no final deste ano e reduzida de 5,2% para 5% no final de 2013--, a autoridade monetária lembra que a crise internacional faz com que os preços das commodities se retraiam, o que é favorável do ponto de vista da inflação.

Pondera, por outro lado, que um risco importante para a variação de preços vem do mercado de trabalho. "De um lado [o mercado de trabalho] mostra sinais de moderação; de outro, margem estreita de ociosidade. Um aspecto crucial nessas circunstâncias é a possibilidade de o aquecimento no mercado de trabalho [...] levar à concessão de aumentos reais de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade, com repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação", afirma o texto do BC.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Então, alguém do Banco Central precisa bater um papinho com a presidente Dilma e informar-lhe o que está se passando. Se a turma do BC vê uma crise que a presidente só encontra no noticiário, é sinal que esta gente anda se comunicando muito pouco. 

Cai investimento das empresas do Brasil no exterior


Valor Econômico

As empresas brasileiras reduziram muito seu ímpeto de investir em aquisições e participações no exterior. Entre janeiro e maio deste ano, a saída líquida de recursos foi de US$ 2 bilhões, uma redução de 85% em relação aos US$ 13,8 bilhões do mesmo período de 2011. Nos dois anos anteriores, despejaram US$ 45 bilhões em seu processo de internacionalização, de acordo com dados do Banco Central.

A crise financeira turvou o horizonte de planejamento das empresas, diminuindo o fôlego para aquisições internacionais e investimentos no mercado doméstico, dizem especialistas. A desvalorização do real frente ao dólar também encareceu as compras. "Temporariamente, as empresas podem postergar investimentos, mas a decisão de investir é de longo prazo", diz Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco.

O movimento na direção contrária - repatriação de recursos decorrente da venda de participações em empresas - deu um salto e chegou a US$ 3,8 bilhões, com alta de 342% em relação aos US$ 840 milhões do mesmo período de 2011.

As perspectivas de uma crise prolongada nos países desenvolvidos tendem a levar as empresas brasileiras a dar prioridade aos investimentos domésticos, já que o crescimento do mercado local, ainda que moderado, será bem maior que nos países da Europa, por exemplo. A Petrobras projeta obter US$ 14,8 bilhões neste ano com uma reestruturação de ativos que implica, também, a venda de participações no exterior. Franqueador das marcas Spoleto, Domino's Pizza e Koni Store, o grupo Trigo adiou seu projeto para a Costa Rica e desistiu da ideia de abrir mais lojas na Argentina e na Austrália, por enquanto, para dar prioridade a seus negócios no Brasil.

Empresas bastante internacionalizadas, como a Gerdau, que atua em 13 países, não alteraram seus programas de investimentos de longo prazo no exterior. Ela pretende aplicar lá fora 30% dos R$ 10,3 bilhões de seu programa para o período 2012/16. Nos três primeiros meses do ano, eles somaram R$ 207,3 milhões, 130% a mais que no mesmo período de 2011.

Os empréstimos entre filiais de empresas brasileiras e suas matrizes contam a mesma história. De janeiro a maio, as subsidiárias no exterior enviaram para suas sedes no Brasil US$ 8,1 bilhões a mais do que receberam.

Para o governo, crise "está no noticiário". Então por que o pacote, presidente?


Ana Clara Costa
Veja online 

Em anúncio de medidas de estímulo, Planalto celebra aumento do crédito e cristaliza a política do consumo como motor do crescimento

(Antonio Cruz/ABr) 
Dilma Rousseff durante cerimônia de Anúncio 
do PAC Equipamentos, em Brasília 

Governo não sabe mais o que fazer para que o Brasil honre seu título de mercado emergente pujante

Os principais nomes da República se reuniram no Palácio do Planalto nesta quarta-feira para anunciar mais um plano de estímulo à economia com a intenção de livrar o Brasil do fardo de ser o membro dos Brics que menos cresce atualmente. Durante o evento, a presidente Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega aproveitaram para tecer algumas previsões sobre o futuro da economia brasileira. Há três pontos que a dupla celebrou com mais eloquência. A desvalorização do real, a queda dos juros e o aumento do crédito em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB).

Desde agosto do ano passado, quando o Plano Brasil Maior foi anunciado, essa tem sido a rotina das equipes interministeriais: formular planos de ação para combater o grande inimigo que é a crise na Europa. Como ainda não há perspectivas de que ela acabe, planos de estímulos mensais, bimestrais ou trimestrais deixaram de ser surpresa no Brasil. E sua eficácia continua sendo uma incógnita: além do baixo crescimento de 2,7% do PIB em 2011, há a alta desconcertante de 0,2% no primeiro trimestre deste ano. O governo não sabe mais o que fazer para que o Brasil honre seu título de mercado emergente pujante e invejado pelos desenvolvidos em apuros.

Apesar de tudo, o otimismo impera em Brasília. Mantega e Dilma fizeram questão de enaltecer o último dado sobre desemprego divulgado pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra o índice mais baixo da série histórica (5,8%), mas se esqueceram de mencionar que a geração de emprego teve queda de 51,6% em maio, na comparação anual.

O ministro festejou o aumento do crédito contabilizado pelo Banco Central em maio: um recorde de 50,1% do PIB, ou 2,14 trilhões de reais, mas também não comentou o recorde de inadimplência disponibilizado nesta mesma pesquisa, que mostra que nunca os brasileiros deixaram de pagar tantas contas como agora.

Mantega também comemorou a redução dos índices inflacionários e a mínima recorde dos juros cobrados de pessoas físicas, esquecendo-se de comentar a desaceleração do consumo. Ele tampouco lembrou-se de relacionar a queda do consumo ao endividamento das famílias, que também cresce de maneira acelerada. "Tudo isso significa que a crise internacional é conhecida pela população apenas por meio dos jornais e do noticiário. Na prática, a população não está se defrontando com ela", concluiu o ministro da Fazenda.

A cereja do bolo foi a presidente Dilma resgatar nas entrelinhas de seu discurso uma cena clássica do ex-presidente norte-americano, George W. Bush. Dilma relembrou que os líderes dos países desenvolvidos - sem dizer de qual nação se tratava - têm o hábito de pedir que a população compre em épocas de crise - e essa é a ideia que baseou toda a política de compras nacionais que acaba de ser divulgada. Em 2001, logo após os atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos, uma das primeiras frases do presidente Bush para evitar que o terror derrubasse a economia do país foi um apelo ao consumo: "Comprem", afirmou ele, em entrevista a uma rede de televisão - criando uma situação de revolta na população que ainda estava em choque devido aos ataques.

Câmbio - 
Alinhados, Dilma e Mantega finalizaram seus dizeres celebrando a desvalorização do real e afirmando que, com a moeda americana cotada acima de dois reais, o produto brasileiro voltaria a ser competitivo. Como se o único problema que atravancasse a competitividade do país fosse a moeda sobrevalorizada. Uma amostra disso é que, durante o mês de maio, quando a moeda americana ultrapassou 2 reais, os gastos dos brasileiros no exterior bateram recorde para o período - superando até mesmo a época em que o dólar era cotado a 1,60 real. Dilma e Mantega ainda fizeram previsões para o câmbio, afirmando que o real iria se desvalorizar ainda mais ao longo do ano. O ministro também arriscou dizer que os juros continuarão caindo. Resta saber se essa é uma informação adiantada do que esperar para a Selic no próximo semestre. 

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Será que a soberana outro meio de  meio de informação que a gente desconhece,  para tomar conhecimento do que se passa ao redor? Santo Deus, a esta altura dizer uma barbaridade dessas, de que a crise só existe no noticiário!

Ministro Mantega, mantenha a presidente minimamente informada! Exiba-lhe os números da economia, demonstre-lhe o que está acontecendo no cenário econômico mundial, visivelmente em processo de retração!

Não é a toa que o desta semana já são 8 pacotinhos, na base de mais do mesmo, só para combater a crise que está apenas no noticiário. Fico cá imaginando com os meus botões qual será a reação da soberana quando ela chegar admitir que a crise existe!

É justamente por declarações e atitudes como esta que é preocupante para o país o atual momento. Claro que o baixo crescimento atual, por exemplo, traz consigo razões de natureza externa para as quais o Brasil precisa precaver-se. Mas tem muito de políticas internas, ou a falta delas. Se o diagnóstico que o governo Dilma traça  para o atual quadro da economia mundial é não ver nada, fica difícil nutrir alguma esperança. Aliás, melhor seria dizer que é pre4ocupante e até assustador. Não é ignorando ou dando as costas para a crise, que se evitará que nos atinja. Pelo contrário.

Greve no Itamaraty continua e já atinge 125 postos no exterior


247 com agências

A principal reivindicação dos oficiais e assistentes de chancelaria é ganhar o equivalente ao que ganham funcionários de carreiras correlatas na Agência Brasileira De Inteligência, a ABIN

Foto: Divulgação 

A paralisação dos servidores do Itamaraty, que começou no dia 14 de junho, já atinge 125 postos brasileiros no exterior, entre embaixadas, consulados e representações.

Nesta sexta-feira, depois da primeira reunião com o Ministério do Planejamento, os servidores farão uma assembleia para decidir se mantêm ou não a greve por tempo indeterminado.

Funcionários do consulado em Londres disseram à BBC Brasil que na primeira semana de greve foram atendidos somente os casos emergenciais.

A principal reivindicação dos oficiais e assistentes de Chancelaria, que são responsáveis por tarefas administrativas, políticas públicas e atendimento a cidadãos brasileiros nos postos, é ganhar o equivalente ao que ganham funcionários de carreiras correlatas na Agência Brasileira de Inteligência, a Abin.

Os oficiais de Chancelaria querem passar a ganhar cerca de R$ 12 mil reais e os assistentes, cerca de R$ 5 mil. Atualmente, ambas as categorias recebem, no total, pouco mais da metade desses valores.

Estímulo do governo dificilmente produzirá efeitos significativos


Luiz Carlos Delorme Prado (*)
Especial para a Folha

O Brasil não é uma ilha, e a crise econômica mundial chegou ao país.

A desaceleração da economia brasileira tem duas causas: as ondas de choque da crise econômica internacional e a combinação dos efeitos domésticos da menor expansão do consumo das famílias e da queda dos investimentos públicos e privados.

A crise mundial começou com o crash do mercado imobiliário norte-americano (a crise do "subprime", hipotecas de alto risco) e alcançou a Europa. Afetou, inicialmente, o mercado financeiro e depois as contas públicas dos países mais vulneráveis.

Numa segunda fase, a crise vem ameaçando a existência do euro, mas também levou à desaceleração do crescimento dos Brics, embora de forma diferenciada.

O Brasil respondeu com sucesso à crise nos EUA depois do crash de 2008, com o aumento do consumo doméstico. O aumento da classe média, em decorrência do crescimento econômico e das políticas sociais do governo, favoreceu essa resposta.

Após as famílias terem respondido aos estímulos do governo com grande expansão do consumo -em parte, desperdiçado com uma taxa de câmbio sobrevalorizada-, o endividamento das famílias ficou elevado para as condições brasileiras.

Segundo dados do Banco Central, o estoque de crédito atual é de R$ 2,136 trilhões (maio de 2012), tendo alcançado 50,1% do PIB. Portanto, não há muita margem de crescimento por esse lado.

No momento, não é possível recuperar o crescimento econômico, a curto prazo, por meio de aumento do consumo privado. Resta o aumento do investimento.

O governo tenta aumentar o investimento privado por meio da redução da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), reduzindo o custo dos empréstimos do BNDES.

A resposta a esse estímulo, porém, dificilmente será suficiente para produzir efeitos significativos na economia.

O governo não tem, portanto, outra alternativa a não ser aumentar o gasto público.

As cidades brasileiras precisam de investimento em transporte de massa, há carência de investimento em saneamento, necessidade de reformar e ampliar as estradas e os portos no Brasil. Por diversas razões, no entanto, o governo não tem conseguido aumentar o investimento de sua responsabilidade.

Como última saída, decidiu-se realizar gastos de curto prazo na aquisição de bens e serviços. Segundo a Folha, o governo aumentará as compras em R$ 8,4 bilhões este ano - comprará tratores, ambulância, trens, ônibus etc.

A medida é bem-vinda e necessária. Mas muito pouco e muito tarde.

(*) LUIZ CARLOS DELORME PRADO, professor do Inst. de Economia da UFRJ, é Ph.D em economia pela Universidade de Londres.

Pacote do governo incentiva alta de preço e acomodação


Míriam Leitão 
O Globo

Vou tentar entender as razões do governo, que lançou um pacote de compras públicas, e explicar as consequëncias ruins da decisão de dar preferência a fornecedores brasileiros, mesmo que o preço nacional seja 25% mais caro.

Como o mundo inteiro não está crescendo, sobra produção e todo mundo quer saber onde entregá-la, principalmente a China. E o governo brasileiro decidiu ir às compras. Imagine um chefe de familia que decide comprar antes tudo o que consumiria nos próximos seis meses; o governo antecipou as compras. 

O país interessado em vender coloca, então, seu produto com dumping (com preço artificialmente mais barato) nesse outro que quer comprar. Essa é uma estratégia usada pela China. O importante é que ela venda.

O governo brasileiro está querendo dizer que vai proteger as empresas que pagam impostos e geram empregos no Brasil. Os países, geralmente, usam compras governamentais para induzir o crescimento. As regras internacionais limitam, mas todo país faz isso de certa forma.

Quando estabelece que o preço nacional pode ser até 25% mais caro, quer evitar esse efeito do dumping. Mas o recado que ele dá à empresa que atua aqui é que ela pode ser ineficiente, não precisa buscar produtividade, porque comprará dela mesmo que for mais caro. É um incentivo ao aumento de preço e à acomodação.

O governo tem de estar atento para o efeito colateral da medida feita para evitar um problema, mas que pode criar outro.

Os oito pacotes apresentados pelo governo até agora tëm um problema: não preveem contrapartida, ninguém é obrigado a ser mais eficiente, investir em inovação, ser ambientalmente correto. Ele dá benefícios, mas não exige nada em troca.

Para ABIMAQ, medidas anunciadas pelo governo não são suficientes


Folha online

A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) classificou as medidas do governo como insuficientes para reverter o processo de "desindustrialização silenciosa" que afeta a indústria de transformação no Brasil.

"Aplaudimos as medidas e as consideramos necessárias, mas não são suficientes para garantir o estímulo à cadeia da indústria de transformação", disse Carlos Pastoriza, diretor da Abimaq.

Nesta quarta-feira, a associação divulgou novos dados. O consumo aparente atingiu R$ 10,9 bilhões para o mês de maio, crescimento de 24,4% sobre o mês de abril e de 16,1% sobre o mesmo mês do ano passado.

A recuperação, no entanto, tem ajudado as importações e não a produção local. As importações cresceram 26,8% de abril para maio, enquanto as exportações subiram só 4%. A ociosidade subiu para 25%. O setor já cortou 5.400 empregos desde outubro.

Mais um refresco


Celso Ming
O Estado de S.Paulo

O novo pacote anunciado ontem pelo governo, denominado PAC Equipamentos, pretende reativar o sistema produtivo com despesas de governo. É mais uma tentativa de estimular o crescimento do PIB, cada vez mais decepcionante, com uma política anticíclica, ou seja, na contramão da atual paradeira. Infelizmente, é uma dessas iniciativas das quais não se pode esperar grande resultado.

O governo Dilma passou meses e meses avisando que, apesar de gravíssima, a crise global não teria grande impacto sobre a economia brasileira, dada a solidez dos seus fundamentos. No entanto, de algumas semanas para cá, a mesma crise internacional, especialmente a encalacrada do euro, passou a ser usada para justificar a incapacidade do governo Dilma de entregar o avanço do PIB, de pelo menos 4,5%, prometido ainda em 2011 e nos primeiros meses deste ano. Essa busca agora insistente de um culpado externo para o atual pibinho nacional é um fator negativo porque tende a minar a credibilidade do governo na condução da política econômica.

A crise mundial está sim atrapalhando o desempenho da economia brasileira, porém não dá para exagerar esse efeito. Não há, por exemplo, forte queda das exportações brasileiras. Apesar da desaceleração, as encomendas externas estão 1,3% mais baixas nestes seis primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano anterior. É inegável que o ambiente de incertezas produziu redução dos investimentos por parte do setor privado. Mas esse ambiente de insegurança não se deve apenas à crise externa; deve-se, também, ao intervencionismo excessivo e errático do governo. Quando nada, o empresário mantém engavetados seus projetos de expansão aparentemente também porque fica à espera de mais benefícios fiscais e creditícios que a todo momento o governo parece disposto a dar.

Nas encomendas governamentais ontem anunciadas figuram caminhões, tratores, retroescavadeiras, ambulâncias, motocicletas para a polícia rodoviária, ônibus escolares e carteiras escolares. Compras ajudam, sim, a estimular certos segmentos do setor produtivo, desde que haja aumento significativo do dispêndio público. No entanto, este pacote não passa de uma "antecipação de compras", correspondente a R$ 8,4 bilhões, com baixo volume de verbas adicionais, quase uma insignificância quando o objetivo é garantir o crescimento do PIB de pelo menos 2,5% neste ano. E uma antecipação de compras significa, também, que não haverá as mesmas compras no agendamento anteriormente previsto. Este é mais um sinal de que o governo Dilma não dispõe de muita munição para promover a desejada arrancada. Se houvesse uma disparada do dispêndio público, teríamos outro problema grave, o da redução do superávit primário, a parcela da arrecadação destinada ao pagamento da dívida, prevista para ser de 3,1% do PIB (cerca de R$ 130 bilhões).

Ontem, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, reconheceu que o PAC Equipamentos terá um impacto no crescimento da indústria não superior a 0,12%. Levando-se em conta que a indústria não crescerá muito mais do que 2,0% neste ano, fica aí mais bem quantificado seu baixo potencial de retorno. Não passa de refresco. Nessas condições, iniciativas desse tipo cumprem mais a função de mostrar que o governo está fazendo alguma coisa do que de garantir eficácia para sua política.

E ele insiste: Mantega fala que PIB cresce "mais que 2,5% este ano"


Renata Veríssimo e Célia Froufe e Eduardo Rodrigues
Agência Estado

Ministro da Fazenda afirmou que os juros no país estão caindo com aumento da oferta de crédito, o que gera estímulo ao Produto Interno Bruto

Ueslei Marcelino/Reuters
Guido Mantega fala de investimento no
 lançamento do PAC Equipamento

Brasília - A economia irá crescer mais que 2,5% este ano, afirmou o ministro da Fazenda,Guido Mantega, destacando que os juros no país estão caindo com aumento da oferta de crédito, o que gera estímulo ao Produto Interno Bruto (PIB). O nível mais baixo de desemprego também estimula as atividades. "Estamos criando mais empregos do que a População Economicamente Ativa. É uma situação excepcional", afirmou, após solenidade nesta terça-feira no Palácio do Planalto para apresentação de medidas para impulsionar a economia.

O ministro lembrou do aumento da massa salarial que, segundo ele, está em torno de 5% e incentiva a demanda, além de preservar o mercado doméstico. Mantega disse que "o PIB já está crescendo e crescerá mais no segundo semestre do que no primeiro".

Para Mantega, é um equívoco achar que a economia brasileira está em patamar baixo. "Não é possível que a economia estivesse paralisada tendo um emprego tão elevado como temos." O setor de serviços está indo muito bem, continuou o ministro, frisando que o país tem uma demanda por emprego menor do que a oferta.

"Então, com o mercado em expansão, os juros em queda, com o câmbio favorável e as medidas de estímulo que o governo está tomando e vai continuar tomando, nós podemos garantir que o PIB já está crescendo."

Sobre o programa de compras governamentais de equipamentos, anunciado mais cedo, Mantega afirmou que os R$ 8,4 bilhões previstos estimularão os investimentos em toda a economia. Ele comentou que a ação atende à necessidade do governo e ao mesmo tempo equipa escolas, hospitais e o setor de defesa. "Assim, mata dois coelhos com uma cajadada só", declarou, acrescentando que a lei eleitoral será respeitada na liberação de recursos nos contratos assinados com os municípios.

Linha branca
Mantega informou que "hoje" não tem novidades sobre a prorrogação da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a linha branca. Ele informou que haverá uma reunião com o setor na sexta-feira. O benefício está previsto para terminar no sábado.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Como vimos no post, a perspectiva de crescimento para o BC é de 2,5%. Como Mantega há pouco mais de um mês ainda insistia em crescimento emtorno de 4,0%, agora mudou o discurso para “mais de 2,5%”,  que ele  seria interessante se reunissem mais vezes para afinarem o discurso, pelo menos no que tange ao crescimento do PIB.

Mas há ainda outra batatada do ministro. É quando ele afirma que é um equívoco achar que a economia brasileira está em patamar baixo. Não sei que estatísticas o ministro anda lendo, mas seria bom ele se atualizar. O Brasil, hoje, crfesce menos que os demais latino americanos, menos que todos os BRICS e, menos ainda, que a Alemanha, por exemplo, que se encontra envolvida pelo turbilhão da crise que abala a Comunidade Europeia. Se a coisa é como a presidente Dilma afirma, de que a crise está apenas no noticiário (arre!!!!), não haveria nenhuma razão, portanto, para o crescimento pífio de 2011, tampouco para o incipiente crescimento deste primeiro semestre de 2012, e, segundo analistas que apostam num crescimento para o este ano menor do que o de 2011.

Não sei porque mas, quando Mantega resolve fazer estes ensaios de adivinhação, eu sempre faço a leitura ao contrário... Razões não faltam para desacreditar.

BC reduz projeção do PIB para 2,5% e eleva da inflação para 4,7% neste ano


Maeli Prado
Folha de São Paulo

O Banco Central reduziu nesta quinta-feira (28) sua projeção para o PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas no país) de 3,5% para 2,5%. As informações foram divulgadas no Relatório de Inflação da autoridade monetária.

Na última segunda-feira, o mercado reduziu pela sétima semana a estimativa para o PIB, de acordo com divulgação do Banco Central do boletim Focus. Na ocasião, a previsão do mercado para o PIB de 2012 foi reduzida de 2,30%, na semana anterior, para 2,18% hoje. Para 2013, a estimativa também foi alterada, passando de 4,25%, na semana anterior, para 4,20% hoje.

O diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, diz ver taxas de crescimento crescentes ao longo dos próximos trimestres. "Nossa projeção [de crescimento de 2,5% do PIB] considera essencialmente dois pontos. Primeiro, o resultado do primeiro trimestre, que veio fraco. A agricultura, por exemplo, caiu 8,5%. Em segundo lugar, como já destacamos em outros documentos, a recuperação da economia tem se dado de forma bastante gradual."

O ritmo baixo da atividade vem preocupando fortemente o governo desde o início deste ano. Para combater a desaceleração da economia, o governo vem adotando sistematicamente medidas para incentivar a produção e consumo, como o pacote de compras governamentais de R$ 6,6 bilhões anunciado ontem.

INFLAÇÃO
A previsão do BC para a inflação oficial no final deste ano também foi alterada, de 4,4% para 4,7%, acima da meta de 4,5%. No final de 2013, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) estará em 5%, afirma o BC (a projeção anterior era de 5,2%).

"A inflação ainda está alta em parte porque, apesar de a atividade econômica no Brasil ter sido bem moderada no passado recente, estamos longe [em termos de crescimento] de outras economias onde a taxa de inflação está muito mais baixa", disse Araújo. "Outro ponto é que temos uma fragilidade econômica assimétrica, que atinge apenas alguns setores da economia. Alguns preços em serviços, que é um mercado que está muito aquecido, por exemplo, fazem com que a inflação se torne bastante resistente."

O relatório destaca que as projeções de inflação e de crescimento do PIB divulgadas não são pontuais. "Elas explicitam intervalos de probabilidade que ressaltam o grau de incerteza presente."

Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o PIB crescerá pelo menos 2,5% em 2012.

Mantega, que no final do mês passado falou em um crescimento de 4% da economia neste ano, deu a declaração depois do anúncio de um pacote de compras governamentais para estímulo da economia de R$ 6,6 bilhões além do previsto no Orçamento --no total, serão R$ 8,4 bilhões.

‘Não haverá nenhum impacto este ano’, diz economista sobre novas medidas do governo


Paulo Justus
O Globo

Sérgio Vale, da MB Associados, deve revisar de novo para baixo sua projeção para expansão do PIB em 2012, atualmente de 2%

SÃO PAULO — As medidas de estímulo à economia anunciadas na quarta-feira pelo governo se resumem a políticas de curto prazo, incapazes de produzir impacto na economia este ano. A avaliação é de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que deve revisar de novo para baixo a sua projeção para expansão do PIB em 2012, atualmente de 2%.

O GLOBO: Como o senhor avalia o pacote de compras governamentais anunciado ontem?
SÉRGIO VALE: Ajuda o setor automobilístico, como tem ocorrido na maior parte das vezes. O governo deve acreditar que este setor tem impacto gigantesco na economia brasileira. Mas não é verdade. Como consequência, não deve trazer praticamente nenhum impacto no crescimento deste ano.

Isso muda as projeções de crescimento para 2012?
VALE: Nossa projeção, na MB, é de 2%, mas devemos revisar para baixo.

Em que medida os R$ 8,5 bilhões de gastos em setores específicos vão ter impacto na economia?
VALE: Esse valor é de 0,2% do PIB. Se fosse integralmente gasto e tivesse um efeito multiplicador de 2, poderíamos ter um impacto de 0,4% no crescimento. Mas, como estamos falando de um PIB entre 1% e 1,5%, continua sendo verdade que o PIB vai crescer abaixo de 2%. Mais ainda, compras feitas neste ano não se repetem em 2013, então vamos ver números baixos nesses setores ano que vem. Ou seja, política de curto prazo não funciona.

Que medidas poderiam pôr o país de novo na trajetória de crescimento?
VALE: Tudo o que não está sendo feito hoje e que Colômbia, Chile e Peru estão fazendo. Enquanto seguirmos a linha keynesiana fajuta de Argentina, Venezuela, Equador e Bolívia vamos ter crescimento medíocre como esses países.

Com a economia patinando, o Brasil do pleno emprego corre perigo?


Marco Prates 
Exame.com

Mesmo com economia desaquecida, o Brasil mantém o desemprego em baixa. Mas para que as vagas de trabalho não sejam atingidas, o país precisará voltar a crescer

Daniela de Lamare
Desemprego a 5,8% em maio é o mais baixo para o mês.
 Analistas acreditam que fraco desempenho da economia
 deve ser revertido antes de refletir na criação de empregos

São Paulo - Para ficar em um bordão famoso, pode-se dizer que nunca houve tanto emprego na história deste país. Ou pelo menos o desemprego nunca esteve tão em baixa. O índice medido pelo IBGE atingiu em maio 5,8%, a menor média histórica para o mês desde que o número começou a ser medido, há 10 anos.

O Brasil vive o que alguns analistas chamam de “pleno emprego”, embora a questão não seja consensual. “A crise internacional é conhecida pela população só pelo noticiário e pelos jornais”, comemorou ontem o ministro da Fazenda Guido Mantega. Em suma, os brasileiros vão muito bem, obrigado.

O problema é que as notícias sobre o desempenho fraco da economia brasileira e a dificuldade de vários setores pululam nos jornais. O PIB cresceu – ou quase parou – 0,2% no primeiro trimestre deste ano, depois de um desempenho já considerado ruim em 2011. O que só leva a pergunta: teria o Brasil descoberto a fórmula mágica para criar vagas mesmo enquanto a economia anda de lado?

Na visão do professor da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite, não. “O que acontece é que demora para empresários contratarem depois que a economia cresce e para demitir depois que economia desaquece”, afirma o professor. “Se a situação atual permanecer, vai afetar o emprego”, acredita Leite.

Já há sinais de as coisas não vão tão bem. De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (Caged), vagas continuam sendo criadas, mas em ritmo menor que no ano passado. Até maio, em 2011, haviam sido criados quase 1 milhão e 50 mil de postos de trabalho. Este ano, foram 737 mil até o mês passado, uma queda de 30%.

 Felizmente, a previsão de analistas é que as coisas melhorem antes de atingir os empregos. As projeções para o segundo semestre deste ano e para 2013 são mais otimistas, caso o cenário externo, notadamente a crise europeia, não degringole completamente.

Para a LCA Consultoria, o PIB vai voltar a crescer entre 3,5 e 4,5% em 2013, garantindo a estabilidade na relação entre o número de pessoas ingressando no mercado de trabalho e a criação de novas vagas. “Mesmo em um cenário adverso, a taxa de desemprego oscilaria entre 6 e 6,5% até o final da década”, afirma o economista da LCA, Fábio Romão.

A professora de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Celina Ramalho, concorda que a taxa de desemprego será mantida em patamares baixos. “Estão sendo feitos investimentos em formação bruta de capital fixo - ou seja, em bens de capital e máquinas - e este investimento em algum momento vai ter retorno no PIB e no desemprego”, acredita a economista.

Ainda que o Brasil escape de enfrentar o desemprego em um futuro próximo, é preciso lembrar que o principal desafio para o país nos próximos anos está na qualidade dessas ocupações, em grande parte informalizadas: cerca de 11 das 23 milhões de pessoas trabalhando hoje não têm carteira assinada. “Você pode ter condições satisfatórias para arrumar emprego, mas a qualidade desse emprego e a renda ainda são bastante discutíveis”, opina Fábio Romão, da LCA.

O governo vai às compras


O Estado de S.Paulo

O governo decidiu, afinal, dar um passo além das medidas de estímulo ao consumo para desemperrar a economia, mas as novas ações são de alcance muito limitado, como as anteriores. Com dotação prevista de R$ 8,4 bilhões, o PAC Equipamentos - Programa de Compras Governamentais deve beneficiar diretamente indústrias de máquinas agrícolas, veículos, equipamentos médicos, roupas, calçados e material para escolas. Os fabricantes brasileiros terão margem de preferência de até 25% nas concorrências promovidas pela União. O objetivo mais importante continua sendo a aceleração imediata do crescimento. A ação do governo é uma resposta aos sinais de estagnação, evidenciados nos pobres resultados da indústria, no indicador de atividade produzido pelo Banco Central (BC), e também às previsões cada vez mais pessimistas do mercado financeiro. Na pesquisa Focus do dia 15, a mediana das projeções, em queda durante sete semanas consecutivas, ficou em 2,3%. Esse levantamento é conduzido semanalmente pelo BC com cerca de 100 instituições financeiras e escritórios de consultoria. Embora o foco, desta vez, seja o investimento público, o alvo do governo continua sendo o resultado de curto prazo, como se os problemas da indústria fossem essencialmente conjunturais.

Os problemas, no entanto, são bem mais graves e será preciso criar muito mais que estímulos de ocasião para fortalecer o setor manufatureiro.

Para a indústria, a política de compras governamentais poderá, na melhor hipótese, produzir resultados temporários, sem contribuir, no entanto, para eliminar as desvantagens comparativas da produção nacional. Mas até para propiciar esses ganhos limitados o governo precisará atender a algumas condições práticas. Será necessário, por exemplo, elaborar projetos de investimento. É bem conhecida a incompetência da administração federal nessa área - um detalhe acentuado no último relatório do Tribunal de Contas da União sobre as contas do governo.

Se o governo conseguir atuar com eficiência maior que a costumeira, poderá produzir alguns benefícios duradouros em termos de infraestrutura - por exemplo, na construção de estradas, no reforço e na modernização do equipamento de hospitais e na melhora das condições de funcionamento de escolas. Todos esses resultados são bem mais importantes, a médio e a longo prazos, que os efeitos obtidos, até agora, com o estímulo ao consumo e com medidas de curto alcance para alguns setores.

Mas é preciso lembrar, mais uma vez, a ineficiência na execução de projetos da maior parte dos Ministérios. No ano passado, como foi acentuado no relatório do TCU, só houve execução satisfatória de 54% das ações classificadas como prioritárias no Orçamento-Geral da União. Para melhorar seu desempenho na realização de investimentos o governo tem defendido a adoção de um regime especial de licitações para as obras do PAC, o mesmo adotado para os projetos da Copa do Mundo. Mas essa é uma solução ilusória. Não contorna a Lei das Licitações, porque os maiores problemas são políticos e gerenciais.

Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a maior parte das ações deve ser realizada no segundo semestre deste ano. A pretensão é garantir um crescimento médio superior ao do ano passado - 2,7% - e criar impulso para um avanço bem maior em 2013. Representantes da indústria disseram ter condições de atender à demanda do PAC Equipamentos. Mas os maiores problemas estão do lado do governo.

Além dos limites impostos pela baixa capacidade gerencial do setor público, as autoridades terão de levar em conta - e contornar, se isso for possível - as restrições eleitorais. Suas iniciativas poderão ser contestadas, se forem vistas como interferências nas disputas municipais.

O ministro anunciou também a redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), usada nos financiamentos do BNDES, de 6% para 5,5%. Resta conferir se isso bastará para incentivar os investimentos privados. Também esse estímulo poderá ter efeito limitado, se as demais desvantagens comparativas, como os impostos e vários outros custos, forem mantidas.

Pacote de R$ 8,4 bi é o 8º do Planalto desde o início da crise


Geralda Doca, Cristiane Bonfanti, Junia Gama e Paulo Justus
O Globo

Analistas consideraram medidas insuficientes e sem impacto na economia este ano. Governo também reduziu a TJLP de 6% para 5,5% ao ano

BRASÍLIA e SÃO PAULO — Preocupado com o desempenho pífio da economia, o governo anunciou na quarta-feira, em solenidade no Palácio do Planalto com empresários e prefeitos, o oitavo pacote desde a crise de 2009. Este prevê R$ 8,43 bilhões em compras governamentais nas áreas de saúde, educação, defesa e agricultura. O governo também reduziu a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), de 6% para 5,5% ao ano. Economistas, porém, consideraram o pacote insuficiente e centrado em setores específicos.

O pacote foi batizado de PAC Equipamentos, e os gastos serão contabilizados como do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja previsão de recursos para este ano passou de R$ 42,6 bilhões para R$ 51 bilhões. Do montante de R$ 8,4 bilhões, R$ 1,8 bilhão já estava previsto no Orçamento, e R$ 6,6 bilhões são recursos novos, que serão incluídos por meio de medida provisória.

Os ministérios vão antecipar compras de equipamentos como ambulâncias, ônibus, mobiliário escolar e retroescavadeiras, a serem distribuídos aos municípios em forma de doações, segundo critérios que ainda não estão claros.

Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o novo pacote não compromete o cumprimento da meta cheia de superávit primário (sem abater os gastos com o PAC). A equipe econômica calcula um impacto das medidas no Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 0,2%. Mantega ainda revisou para baixo sua estimativa para o crescimento deste ano, de 2,7% para 2,5%.

Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, os benefícios serão restritos aos setores contemplados no pacote. Ele estima que, no caso da indústria, o impacto das medidas no PIB será de apenas 0,12%.

— O ideal seria que o governo adotasse essas medidas anticíclicas todos os dias, para setores diferentes — disse.

Uma fonte do Palácio admitiu que o pacote não deverá ter impacto sobre a indústria. A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) classificou as medidas de tímidas e considerou mais importante a redução de 0,5 ponto percentual na TJLP.

— O pacote contempla compras governamentais que terão ainda de passar por processo de licitação, e, portanto, não serão suficientemente rápidas para aplacar os efeitos do baixo crescimento — disse o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Para especialistas, a melhor forma de incentivar a economia seria fazer reformas estruturais que garantam o crescimento a longo prazo. Felipe Salto, economista da consultoria Tendências, diz ainda que os pacotes têm ficado mais no discurso que na prática:

— Dos R$ 80 bilhões aprovados no Orçamento para investimento este ano, o governo gastou, até 23 de junho, R$ 16,7 bilhões, a maioria em restos a pagar dos anos anteriores. E deste total, apenas R$ 13 bilhões foram efetivamente pagos.

A maior fatia do pacote, ou R$ 2,280 bilhões, será destinada à aquisição de oito mil caminhões para equipar as Forças Armadas e municípios prejudicados pela seca. A área de educação terá R$ 1,71 bilhão para ônibus e móveis escolares, e o Ministério da Saúde, R$ 480,5 milhões para ambulâncias e furgões odontológicos. Há ainda uma lista de mais de 80 itens de saúde nacionais (como tomógrafos e aparelhos de hemodiálise) que terão preferência nas compras do governo.

A oposição recebeu com ceticismo o anúncio e apontou um suposto caráter eleitoreiro:

— O uso eleitoral é um fato, mas o problema maior é que esses investimentos nem serão realizados — disse o líder do PSDB na Câmara, Bruno Araújo (PE).

O pacote recebeu elogios da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel).

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Assim como em tantas outras vezes em que se montou um grandioso espetáculo circense para lançamento de programas "espetaculosos", será que desta vez sairemos da carta de intenções para a prática? O programa que se lança agora é prá valer, isto será realizado de fato, ou é apenas para "fazer notícia"?

Convenhamos que este governo, assim como já acontecera com o governo Lula, não tem lá muito crédito quanto a executar o que promete. Em todo o caso, vamos aguardar prá ver!


Medidas do plano anticrise devem ter efeito limitado e tardio


Folha de São Paulo

O fraco crescimento da economia levou a presidente Dilma Rousseff a anunciar nesta quarta-feira (27) mais um pacote de medidas de estímulo à economia.

Desde o fim do ano passado, o governo fez um total de sete grandes anúncios para tentar reverter a desaceleração da atividade doméstica em meio ao agravamento da crise externa.

Depois da desoneração da folha da pagamento para 15 setores, da redução de IPI de automóveis e linha branca, de linhas de créditos para investimentos e de R$ 20 bilhões para os Estados, Dilma decidiu apelar para o "poder de compra" da União na busca de incentivos à indústria.

O impacto da medida sobre a economia é limitado e deve ser sentido apenas a partir do final deste ano.

Batizado de PAC dos Equipamentos, o novo programa prevê destinar R$ 6,6 bilhões para novas compras --não previstas no Orçamento-- de máquinas e equipamentos e outros bens produzidos no Brasil. No total, as compras governamentais no segundo semestre de 2012 devem somar R$ 8,4 bilhões.

A equipe econômica assegurou que os novos gastos anunciados ontem não vão reduzir a meta de superavit primário, de 3,1% do PIB --a economia do governo para pagar juros da dívida pública--, considerada essencial para o BC seguir cortando as taxas de juros.

Editoria de Arte/Folhapress

Ou seja, ou a receita da União, em queda nos últimos meses, irá melhorar no final do ano para permitir as novas compras ou haverá remanejamento de verbas de outras áreas, o que significará que não haverá injeção de dinheiro novo na economia.

Além das compras governamentais, Dilma Rousseff determinou que sua equipe reduzisse a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), de 6% para 5,5% ao ano, o que reduz o custo financeiro das empresas --a taxa reajusta a maior parte dos empréstimos do BNDES.

A Folha apurou que a Fazenda e o Banco Central eram contra o corte, por preocupações com o impacto fiscal, mas Dilma preferiu estimular investimentos.

PALÁCIO ENFEITADO
As novas medidas foram anunciadas no Palácio do Planalto, enfeitado dentro e fora com ônibus e carteiras escolares que farão parte do programa, com a presença de empresários e prefeitos.

A presidente foi aplaudida quando disse que não irá cair em "aventuras fiscais", mas vai tomar as "medidas necessárias para proteger" a produção e o emprego.

Antes dela, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que, com a decisão, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) aumentará seus recursos de R$ 42,6 bilhões para R$ 51 bilhões.

"A crise europeia continua piorando e está deprimindo a economia mundial", disse o ministro. "O governo está tomando medidas para podermos ter investimentos e aumentar a confiança."

Os benefícios envolvem os ministérios da Defesa, da Saúde, da Educação, das Cidades e do Desenvolvimento Agrário (veja arte).

O SUS poderá comprar 126 remédios e equipamentos produzidos no Brasil mesmo que sejam mais caros que similares estrangeiros. O governo estima o impacto dessa preferência em R$ 2 bilhões.

Governo prorrogará IPI menor de linha branca e móveis, dizem fontes


Veja online 
Com informações Reuters

Palácio do Planalto não deverá, contudo, estender o benefício a outros setores

(Jonathan Campos)
IPI menor da linha branca expiraria no final deste mês 

O governo anunciará até o fim desta semana a extensão do prazo de validade da redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os setores de linha branca, móveis, entre outros, informou uma fonte próxima da equipe econômica. Por outro lado, a facilidade, que termina em 30 de junho, não será estendida a outros setores.

Um empresário ligado a um dos segmentos beneficiados também afirmou que já recebeu o sinal do governo de que a medida será prorrogada. 

Em 26 de março, o governo já havia estendido a redução do IPI para produtos de linha branca, adotada em dezembro de 2011, e reduziu pela primeira vez o IPI de móveis, papel de parede e luminárias.

Na linha branca, a alíquota para fogões continuará zero; em 5% para refrigeradores e congeladores; em 10% para lavadoras; zero para tanquinhos; zero para móveis; zero para laminador; e em 10% para papel de parede.

A decisão de prorrogar a redução do IPI faz parte do arsenal do governo para tentar estimular a economia brasileira, que ainda patina por conta da crise internacional.

Nesta quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou mais um pacote, sustentado pelo aumento das compras governamentais e pela redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), de 6% para 5,5% ao ano. 

Mantega indicou ainda que os estímulos não terminaram. "O governo vai continuar tomando medidas. Essa não é a única medida a ser tomada... Podemos garantir que o PIB (Produto Interno Bruto) está crescendo e vai crescer mais no segundo semestre que no primeiro", afirmou.