quarta-feira, novembro 17, 2010

No governo Dilma, voto em Haddad para embaixador no Butão!

Adelson Elias Vasconcellos

O Ministro Haddad, Ministro da Inépcia, foi hoje ao Senado prestar contas das atrapalhadas de seu ministério na (des) organização, (falta de ) planejamento e execução das provas do ENEM.

Se seu discurso e argumentos se resumissem a um pedido público de desculpas aos alunos examinados pelos transtornos, e que se empenharia para que não houvesse ninguém prejudicado na história (ou lambança), nada mais precisaria acrescentar.

Mas, neste caso, Haddad não seria ministro de Lula. A cultura deste governo quando comete suas safadezas para cima da sociedade, ou de parte dela, é sempre alegar que não tiveram culpa de nada, e que a culpa, inevitavelmente, sempre foi da própria vítima. Esta praxe marca um dos mais incompetentes governos que o país já teve no campo dos serviços públicos, afora a corrupção, claro.

Começa por apontar o Vestibular, velho guerreiro que servia de habilitação ao ensino superior, como um bicho feroz, capaz de devorar as criancinhas inocentes e mal educadas deste país. Só que, até hoje, bem ou mal, jamais se soube que o vestibular tenha aprontado tanta lambança, confusão e desorganização num único momento. O MEC do Haddad se superou na ineficiência. Em apenas dois anos, em que quis meter os pés pelas mãos e mandar para o inferno o vestibular, conseguiu destruir um excelente teste de avaliação do ensino que era o antigo Provão, trouxe confusão para as universidades que já não sabem o que fazer. Na dúvida admitem dois exames: programam seus vestibulares normalmente, e o ENEM, que se der certo, terá prioridade.

Não sou contra o ENEM, já disse isto aqui, várias vezes. Contudo, sou visceralmente opositor a forma como o MEC o quer empurrar goela abaixo, aos trancos e barrancos, de afogadilho, país afora. Moral da história: o ENEM se transformou num imenso vestibular unificado para coisa nenhuma. Não serve como avaliação, porque se abandonou o velho modelo (que produzia resultados), e adotou-se um modelo novo confuso, sem eira nem beira. Se para habilitar o ingresso à universidade, melhor que se apague tudo o que se fez e se comece do zero. Prá começo de conversa: por que um único padrão para todo o país? Por que esta compulsão a se centralizar tudo no governo federal? Isto só chama confusão, bagunça e esta mixórdia que se vê atualmente.

Incrível é ver que as entidades representativas (?) dos estudantes, simplesmente, fazem cara de paisagem. Parece que a mesada que o papai Lula lhes fornece , tiradas das arcas da Viúva, tiveram o dom de silenciar os antigos “rebeldes”. Tá tudo satisfeito com o “cala boca” do papi Lula .

Interessante é que quando o Provão foi implementado no governo FHC, este imbecil que agora se elegeu senador pelo Rio de Janeiro, Lindenberg Farias, sabotou o quanto pode a realização dos exames, montando barricadas nas entradas das universidades, para impedir o acesso dos alunos. E agora, seu cretino, não vai abrir o bico para a confusão fruto da incúria e da incompetência do governo?

Não é a toa que, dentre alunos examinados de 56 países, o Brasil ficou quase com a lanterna na mão, em 52º lugar, o que bem demonstra a vergonhosa situação em que se encontra o ensino no país. E não há desculpa razoável: este governo é o irresponsável condutor dos últimos oito anos, tempo de sobra para ter colocado um pouco de qualidade. E o que fez? Desandou a maionese de vez. Andamos para trás. Vimos apenas discursos ao vento e pura mistificação, impregnada pela mais deslavada e escandalosa propaganda mentirosa de que se tem notícia, depois dos nazistas, especialistas no truque vigarista de engabelar as massas.

O ENEM, no fundo, é apenas a ponta final de um governo preocupado apenas em atuar em seu próprio benefício, isto é, na manutenção do poder. Olhem para TODOS os serviços públicos de responsabilidade federal e aponte-me um único que seja que tenha melhorado nestes últimos anos, sem falar nas dezenas de escândalos de corrupção que neles se assistiu.

E, em todos os programas sociais, o que não faltam são desvios de dinheiro público, sendo o último o seguro desemprego para os pescadores. Rombo de 500 milhões de reais, afora bolsa-família fantasmas espalhados por todo o país.

Em resumo, minha opinião sobre o ENEM é que, a boa ideia de se submeter avaliações sérias sobre a qualidade do ensino médio no país, para, a partir dos resultados, estabelecer políticas para correção de rumos, está definitivamente sepultada. O Senhor Haddad resolveu acabar com o vestibular e, como tinha um instrumento mais ou menos à mão, lançou o ENEM em substituição e, como é de costume deste governo modernoso, estatizou o vestibular. E o fez com tamanha incompetência que o ENEM NÃO SERVE AGORA NEM PARA UMA COISA NEM PARA OUTRA, ou seja, não serve mais como modelo de avaliação, tampouco de habilitação à universidade. O que ele impõem, ao menos tenta, é pautar que as escolas pratiquem um ensino ideológico. Para o inferno a linguagem do idioma e suas regrinhas, ou a matemática como ciência exata. O que vale é formarmos idiotas politicamente corretos. Não se trata apenas de um escárnio: é vigarice monumental. Se algum pai de aluno que tenha feito o tal ENEM tiver algum tempinho, pegue o exame que seu filho fez, leia atentamente as questões a que foi submetido seu filho e tire suas conclusões. Seu filho, meu amigo, está é sendo ceifado de inteligência racional, do tipo que distingue o ser humano moderno dos primatas.

Acreditem: com tais métodos, incompetência e ideologias, é mais fácil a qualidade regredir (se que é possível) do que avançar um mínimo que seja. Hoje, já temos 45% dos jovens fora do ensino médio. Agora, imaginem se estes curupiras conseguem enfiar nos currículos as 250 novas disciplinas em estudo no Congresso, uma mais imbecil do que a outra. Acredite, meu caro, esta gente que “pensa” alguma coisa de educação, deve ter tirado diploma em alguma faculdade formada para jumentos vestidos de gente.

E uma última observação: na fala do ministro no Senado, ele prometeu e defendeu a ideia de se fazer duas provas anuais do ENEM. Santo Deus: se não se consegue fazer uma ao menos, com certo grau de acerto e eficiência, imaginem agora duas provas! Tortura suprema para os pobres alunos.

O incrível é como o país adora gastar dinheiro inutilmente: para compor um marco regulatório para as comunicações no Brasil, que no fundo vem a ser o restabelecimento da censura – como todos sabemos -, o governo mandou Franklin Martins passear na Europa para “colher subsídios”. Mau exemplo. Contudo, para implantar o ENEM, por que não se pagou as despesas de uma viagem do senhor Haddad para os Estados Unidos, França e Inglaterra, onde sistemas semelhantes são realizados quase secularmente, e com excelentes resultados?

Espero que a dona Dilma tenha um pouco de respeito para com futuro do Brasil e mande o senhor Haddad cuidar de um canil, longe, muito longe de qualquer política pública voltada à educação de seres humanos. Ou as futuras gerações ainda aprenderão a andar sobre quatro patas, mas ecologicamente corretas: comendo capim sem agrotóxico e com zero de gordura!

E que se coloque como ministro da Educação alguém do ramo, algum gestor com competência e formação acadêmica sólida na área de educação, preferentemente que não tenha ligação política de nenhuma espécie com partidos políticos, com perfil técnico ao extremo, e que veja a educação com importância que ela tem para o desenvolvimento de toda uma nação. Que a considere como um valor da sociedade, e não apenas como um meio de se conseguir um emprego melhor com um salário além de dois mínimos. O apagão de mão de obra qualificada que o país vive presentemente, até em funções cuja exigência é nível médio, é bem um sintoma e um alerta: ou nos decidimos por avançar, ou ainda o país comprometerá seu futuro. Impossível esperar coisa melhor de um país em que 2/3 de sua população é analfabeta funcional.

Outra sugestão para o futuro do senhor Haddad, é aproveitar sua inépcia como embaixador no Butão!

Enem: Haddad-2009 não recomenda o Haddad-2010

Josias de Souza, Folha.com

Alan Marques/Folha

Chamado a se explicar sobre o novo desastre do Enem, o ministro Fernando Haddad esteve no Senado.

Tomado pelas palavras, o Haddad desta terça (16) lembrou muito um outro Haddad, do ano passado.

A exemplo do ministro de 2009, o Haddad de 2010 criticou o exame vestibular, monstro que assombra a rapaziada.

“Alguém precisa enfrentar esse bicho com a coragem devida”, disse.

Acha que o vestibular deve ser substituído pelo Enem. Um Enem que seria aplicado em mais de uma edição anual.

Em março do ano passado, Haddad acenara com a realização de dois exames. No mês seguinte, o MEC recuaria: só haveria uma prova. Duas, só em 2010.

Sobreveio o furto do teste na gráfica, o adiamento do exame e uma elevação da taxa de tensão a níveis de dar inveja ao mais temível vestibular.

A folhinha escorregou para 2010. Nem sinal das duas provas. De novo, o Enem foi aplicado em versão única. No lugar do furto, um exame apinhado de erros.

Sob holofotes, Haddad faz uma promessa nova: o prazo de validade das notas do Enem pode ser ampliado de um para dois anos.

Difícil não dar razão a Haddad: “Alguém precisa enfrentar esse bicho com a coragem devida”.

Haddad não parece ser esse “alguém”. Faltou-lhe coragem e competência. Bombado em 2009, repetiu de ano também em 2010.

Não se sabe se Dilma Rousseff terá a coragem de manter Haddad na Educação. Porém...

Porém, ainda a presidente decida premiar a incompetência, é possível que o MEC se anime a entregar, em 2011, o Enem em duas versões.

Não para diluir a TPV (Tensão Pré-Vestibular) que acomete a garotada, mas para diluir a incidência da TIG (Taxa de Incúria Governamental).

"O problema [dos erros no Enem] se resolve com mais de uma edição por ano. Teremos mais tranquilidade, mais parceiros", disse o Haddad-2010.

O ministro reafirmou que os alunos prejudicados pelos erros do exame deste ano farão novas provas. Quando? Não soube dizer.

Sobre os erros nos testes, Haddad disse que, nesta semana, o MEC instalará uma comissão de sindicância para apurar responsabilidades.

A demora na busca dos responsáveis contrasta com a pressa na eliminação das culpas.

De antemão, o ministro isenta de responsabilidades Inep (Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).

Nesse diapasão, a comissão do MEC acabará por concluir que ineptos são os alunos.

A grande herança de Fernando Haddad na educação é o “Sertanejo Universitário”

Reinaldo Azevedo

Falei abaixo da solidão da meninada que protesta contra o baguncismo do Enem. Há mais a dizer sobre o trabalho dos gigantes que comandam o Ministério da Educação.

A prova, que não foi criada no governo Lula!, foi pensada como um instrumento de avaliação do ensino médio, com o objetivo de orientar políticas públicas que o qualificassem. Isso, como se sabe, não aconteceu. Prova única, transformou-se no vestibular das faculdades federais e de outras que, eventualmente, venham a aderir ao exame. Na prática, o MEC só estatizou o vestibular. Mas com grandes perdas — já volto a esse particular.

Como instrumento de avaliação da qualidade do ensino, o Enem deveria se fazer seguir de políticas públicas de qualificação do ensino médio, o que, é evidente, não está acontecendo — até porque a interferência do governo federal na área é pequena. Mas isso não o impediria de atuar. Se fosse o caso, convocasse um fórum dos estados e iniciasse um processo de:

a) unificação efetiva dos currículos;
b) qualificação dos professores;
c) estabelecimento de metas objetivas de melhoria da escola pública. Não se teria resultado da noite para o dia. A continuidade de uma política sustentada nesse tripé surtiria efeitos no médio prazo.

Nada disso está em curso.

Fernando Haddad preferiu deixar a sua “grande marca” na Educação — além da criação do “Sertanejo Universitário”, que vem a ser “a estética do ProUni”, como bem define Dona Reinalda: o fim do vestibular. E como ele decidiu pôr um termo a esse atraso? Ora, criando um megavestibular de quase quatro milhões de estudantes, com uma única prova por ano. Mas o fez com um diferencial: se as federais conseguiam aplicar vestibulares com razoável eficiência, o Enem de Haddad é um primor de incompetência.

A única maneira razoável de esse tipo de exame representar a eliminação do vestibular no seu formato tradicional seria a realização de “Enems” cumulativos. Alunos do primeiro , do segundo e do terceiro anos fariam provas com currículos específicos de seus respectivos níveis. Somam-se os pontos ao fim de três anos (e três provas) e se chega ao resultado. O Enem tem de ser cumulativo. Não ignoro que seria preciso realizar três séries de provas por ano e que eles não conseguem fazer nem mesmo uma… O fato de que sejam incompetentes não quer dizer que inexista o certo.

A forma atual não consegue nem mascarar as ditas “injustiças” do antigo modelo — deixo claro que esse papo de “injustiça” em ensino superior é uma conversa asinina, mas vá lá… Tudo está como era dantes, com uma ligeira diferença: não creio que tenha existido vestibular de universidade federal tão ruim quanto tem sido o Enem. Não havia lido ainda as provas. Eu o fiz hoje — no caso, a azul. Por isso demorei um pouco para voltar aqui. É de assustar! As questões se dividem em blocos de nomes modernosos e pomposos:

1 - Ciências Humanas e Suas Tecnologias;
2 - Ciências da Natureza e Suas Tecnologias;
3 - Linguagem e Códigos e Suas Tecnologias;
4 - Matemática e Suas Tecnologias;
5 - Redação

Os itens 1 e 4, que somam 90 das 134 questões, são um primor de proselitismo e de obviedade estúpida, cobrando do aluno não mais do que a capacidade de interpretar textos de quatro ou cinco linhas, desde que ele seja “ideologicamente sadio”. Falarei a respeito da prova com mais cuidado em outro post. As “Ciências da Natureza e Suas Tecnologias” escaparam do furor “companheiro”. Já havia apontado esta tendência no Enem em anos anteriores. Agora, acabou o disfarce: mais da metade da prova — incluindo a redação — está mais para um teste ideológico do que para um teste de conhecimento. Vocês verão exemplos gritantes.

Assim, ao se converter em megavestibular — e com essas características —, pautando as escolas do país inteiro, que passam a se orientar por ele, o Enem contribui é para confundir as referências das poucas escolas que conseguiam ministrar um conteúdo organizado. Ninguém mais precisa ensinar gramática, literatura, geografia, história, essas bobagens. Basta que o professor dedique seu tempo à formação de idiotas politicamente corretos. Isso resolve mais da metade da prova. Não pensem que “Matemática e Suas Tecnologias” sejam o bom exemplo do Enem. Há questões constrangedoras, como verificar se o aluno sabe quanto é 9,8% de 250 mil…

A herança de Haddad na educação irá muito além do “Sertanejo Universitário”… Em livros escritos antes de ser ministro, esse valente demonstrava sincero interesse em destruir o capitalismo. Vai ver esteja tentando pôr suas ideias na prática.

Com narizes de palhaços, jovens criticam erros no Enem

O Globo

Estudantes protestam na Zona Sul do Rio -
Foto: / Pedro Kirilos - O Globo

A liminar que suspendia o Enem 2010 foi derrubada na última sexta-feira, mas a indignação de estudantes com os erros da prova continuou de pé.

Uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, reuniu ao menos 200 adolescentes. Na Zona Sul do Rio, cerca de 50 participaram de uma passeata de Ipanema ao Leblon.

Os jovens cariocas participaram do protesto, organizado pelo Movimento dos Vestibulandos Ativistas Sem Enem (Mova-se), do Colégio Notre Dame, de Ipanema, vestidos de preto e com narizes de palhaço. Eles gritaram palavras de ordem como "Que palhaçada é essa?" e "O Enem não tem jeito, merecemos respeito".

— Não defendemos a anulação do exame, mas queremos um Enem de qualidade e sem erros — afirmou Thais Guimarães, de 17 anos, uma dos organizadoras.

Com o rosto pintado, Bruna Martins, de 17 anos, se mostrou preocupada com a possível realização de um novo exame para aqueles que receberam a prova amarela:

— Acho injusto gastarem tanto dinheiro com um teste cheio de erros. Agora, alguns alunos farão uma prova diferente da dos outros. Nos dedicamos durante o ano inteiro e fomos tratados como palhaços, não como estudantes que serão o futuro do país.

Os adolescentes seguravam cartolinas com as frases "Por um Enem de qualidade" e "Estudante não é cobaia", entre outras.

Estudante do Santo Agostinho (tradicional colégio do Rio), Bruno Warth, de 16 anos, só fará vestibular no ano que vem, mas participou da manifestação. Nas costas, ele afixou um cartaz que dizia "Vendo gabarito Enem 2011 — Frete grátis".

— Fiz a prova só para testar, mas acho importante participar do protesto. Eu e uma amiga que estava no mesmo prédio, mas em outra sala, recebemos orientações opostas sobre como preencher o cartão de respostas. Em 2011, vou fazer o Enem para valer e, se tiver erro novamente, volto a protestar — afirmou.

Em São Paulo, os estudantes pediram melhorias no ensino público em um movimento iniciado no site de relacionamentos Orkut.

Uma das líderes do movimento, Larissa Valverde, disse que o fato de alguns estudantes estarem com o rosto pintado lembrava o movimento dos líderes estudantis que pediram o impeachment do então presidente Fernando Collor em 1992.

— Agora não queremos derrubar presidente, mas não queremos ser palhaços. Sabemos que, estudando em escola pública, já vai ser difícil chegar à universidade e queremos melhorias no sistema — disse Larissa em entrevista à Rádio CBN.

O progresso da decadência

Arnaldo Jabor - O Estado de São Paulo

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda a parte: "O País está perdido!" (...) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de "o progresso da decadência"."

Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria de Eça de Queirós, em 1871. Esta era a introdução de As Farpas que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século 19, que nos legou essa herança lamentável. Nada mais parecido conosco.

Esses textos de Eça, reunidos sob o título de Uma Campanha Alegre, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia - eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. E revendo sua vida na internet, lembrei que Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 - daqui a uma semana. Assim, resolvi escrever de novo sobre ele.

Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo, e muito sobre a nossa ridícula loucura ibérica. Depois, descobri um livro roído de traças na casa de meu avô: O Primo Basílio, que minha avó tentou proibir ("Isso não é para criança!..."). Li-o, claro, e minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, vultos, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O mundo ficou claro, através das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Rio. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o Conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da Relíquia e, claro, as coxas de Adélia, sem falar no supremo frisson do famoso "minette" do primo Basílio na "Bovary" Luiza (razão básica da proibição alarmada de minha avó). E não só o desfile dos medíocres, mas as fileiras dos heróis ecianos: Carlos da Maia, João da Ega, Jacintho de Tormes, Fradique Mendes - cultos, elegantes, ricos, irônicos e corrosivos. Eça me dava a alma viva do século 19, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os melancólicos de charutaria, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do Conde de Abranhos - que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados.

Eu o amava tanto que - acreditem - me postava na porta do colégio na hora da saída, para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça) que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?

Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: "Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queirós?" Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida ratonice.

Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz sempre preferi o português ao nosso grande mulato. "Ah... porque o Machado é bem mais sutil!..." - diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luiza do Primo Basílio (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da Eugenie Grandet). "Ahhh!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica, etc. e tal..." É verdade. Também acho. O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês; Eça é saído das costelas de Flaubert, Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital "falta de sutileza" que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais "nauseado". Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. É verdade que as personagens de Eça não são tão "livres" quanto em Machado. O "tipo" eciano não tem grande "complexidade"; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo "tipos". Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade "profunda", muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político. Ele nos exibe o ridículo das figuras que se consideram nossos "timoneiros" do alto de sua gravidade falsa, com seus interesses mesquinhos no bolso dos jaquetões.

Hino Nacional, para lembrar Drumond

Precisamos descobrir o Brasil!


Escondido atrás das florestas,

com a água dos rios no meio,

o Brasil está dormindo, coitado.

Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas

muito louras, de pele macia,

alemãs gordas, russas nostálgicas para

garçonnettes dos restaurantes noturnos.

E virão sírias fidelíssimas.

Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.

Compraremos professores e livros,

assimilaremos finas culturas,

abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa

com fogão e aquecedor elétricos, piscina,

salão para conferências científicas.

E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.

Não é só um país sem igual.

Nossas revoluções são bem maiores

do que quaisquer outras; nossos erros também.

E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…

os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.

Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão

no pobre coração já cheio de compromissos…

se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,

por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!

Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,

ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!

Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Carlos Drummond de Andrade

É NEM, fazer o quê?

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Pensem no absurdo que é proibir um Monteiro Lobato e não proibir o total descaso do governo com a educação.

Fazer nada. E nem me venha com churumelas. Para Lula está tudo bem. Tudo azul. Sol de norte a sul. Não somos fracos. Vamos superar mais essa crise. Crise? Que crise? Lula afirmou que o ENEM foi um sucesso. Ou seria um “xuxexo”? Assim como todo o seu governo. Assim como ele.



Na terra de Lula ou no mundo encantado em que ele vive nunca há nada de errado. Não existem marolas, marolinhas, mensalões, corrupção, favorecimentos, político corrupto. No mundo de Lula o que existe é a perseguição da imprensa, da oposição, são imagens que não dizem nada. Existe também uma perseguição contra a sua pessoa. Ele é a vítima de um sistema que não enxerga nele aquilo que outros enxergam. A visão míope impera contra ele. Culpa dos estrábicos. Lula além de ser “o cara” é agora “a vítima”.

E já que o assunto é ainda Lula, queria que alguém me explicasse o que Dilma, que ainda não foi empossada presidente, está fazendo na Coreia do Sul junto com Lula para a reunião do G-20, onde Lula vai querer dar uma de “super-homem” e acabar com a guerra cambial que dizem que Estados Unidos e China estão fazendo? Dilma foi como o quê? Ouvinte? Mala? Ela não é ainda oficialmente presidente, então… Mas como aqui no Brasil pode tudo, acho que isso pode, não é? Aqui pode presidente fazer campanha em pleno expediente de trabalho como se um presidente tivesse horário para ser presidente, então deve poder a futura presidente “trabalhar” como futura presidente. Será que ela depois vai entrar na justiça do trabalho pedindo salário retroativo?

E já que falamos em salário, Lula entra no ringue para que o salário de Dilma seja maior que o seu. Ele é tão bom para a Dilma. Queria ter um presidente assim. Ele não é fofo? Será que ele está querendo algum cargo no seu governo, quero dizer, no governo Dilma?

Dilma por sua vez diz que tentará impor um teto para gastos. Mas como ela vai fazer isso se o Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou paralisar 32 obras, sendo que 18 são do PAC? Tudo bem que ela é mãe do PAC, mas como ela pode falar em teto? Que fique sem teto. (Isso é um trocadilho.)

E já que estamos falando de gastos, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse que o governo é contra a concessão de novos aumentos para servidores, como os 56% para funcionários do judiciário. Bom esse cara. Gostei dele. Já não posso falar o mesmo do relator-geral do Orçamento, senador Gim Argello, que fez essa proposta. Será que ele bebeu no meio do expediente? (Isso também foi um trocadilho.) Ou é Gim só no nome?

Será que alguém mais bebeu? Quem explica essa pequena ajuda do Banco Central de R$ 2,5 bilhões ao banco do Silvio Santos? Essa história não está cheirando bem. Até porque a Caixa Econômica comprou 49% do banco e para essa operação ser concretizada é preciso a fiscalização do próprio Banco Central e da Caixa. E de lá ninguém viu nada? Foi o Lula quem fez essa análise?

Outra coisa delirante é saber que o ex-assessor na Casa Civil de José Dirceu, o pai do mensalão, Marcelo Sereno, está todo sereno já que vai gerenciar os royalties em Maricá. Coisa de R$ 20 milhões. Sereno candidato derrotado a deputado é então o novo secretário de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Petróleo de Maricá. Nem sigla tem para isso tudo que ele vai ser. Nem nisso quiseram economizar. E assim é a vida. Perde-se uma eleição para deputado e ganha-se uma secretaria. Também quero uma. Pode ser até aqui mais pertinho de casa.

Pois se for longe de casa, no caminho não poderei ler mais Monteiro Lobato, pois a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) resolveu manter o parecer que proíbe a distribuição do livro “Caçadas de Pedrinho” nas escolas publicas, e eu, como pessoa mais velha, tenho que dar o exemplo. E se uma criança me ver lendo isso? Já pensou?

Pois é, pensem sim no absurdo que é proibir um Monteiro Lobato e não proibir o total descaso do governo com a educação.

Salvem as baleias. Não jogue lixo no chão. Não fume em ambiente fechado.

Haddad vê falha no modelo do Enem e sugere que nota seja válida por 2 anos

Rafael Moraes Moura - O Estado de São Paulo

Educação. Em audiência a comissão do Senado, ministro da Educação reconhece que magnitude do exame o torna vulnerável a problemas e defende aplicação de outra prova no mesmo ano para dar nova chance de avaliação a alunos e reduzir possíveis falhas

Após duas edições marcadas por uma série de problemas - vazamento da prova, falhas na encadernação, cabeçalho trocado, batalhas jurídicas -, o ministro da Educação, Fernando Haddad, defendeu ontem que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) seja aplicado mais de uma vez por ano e admitiu ampliar a validade da prova para dois anos.
Celso Junior/AE
Sabatina.
O ministro Fernando Haddad no Senado:
'Nenhum sistema com a escala atual do Enem está imune a erros técnicos'

Os comentários foram feitos durante audiência da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, que convidou Haddad para dar explicações sobre os equívocos da última edição do Enem.

"A saída adequada e já planejada é que se realizem mais edições do Enem por ano. Isso vai mitigar, se não a totalidade, a quase totalidade dos problemas que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pela organização da prova) enfrenta com falhas às vezes humanas, às vezes ocorrências que não estão sob a sua responsabilidade", disse. "É possível e desejável que haja mais de uma edição por ano do Enem."

Na opinião do ministro, a aplicação de outra prova permitiria que o estudante se inscrevesse e fosse avaliado mais de uma vez - além disso, os exames poderiam ser diluídos em datas distantes entre si. "Se ele (estudante) participa de uma (prova) e não se dá bem, participa de outra. Em caso de abstenção, tem no seu horizonte uma nova oportunidade." Nos EUA, disse, aplica-se o SAT (equivalente ao Enem) sete vezes durante o ano.

Durante a audiência, o ministro também comentou a possibilidade de ampliar a validade do Enem. "A validade (hoje) é de um ano, mas isso também pode ser revisto. Nada impede que ao longo do processo nós atribuamos ao Enem a validade de dois anos, por exemplo. O aluno está desonerado de por dois anos refazer o exame, a não ser que queira."

Erros. Para Haddad, nenhum sistema com a escala atual do Enem está imune a erros técnicos - falhas humanas, "problemas da natureza" ou a combinação das duas coisas. Ele lembrou episódios em que uma árvore, derrubada por um raio, afetou a rede elétrica de um município mineiro, deixando alunos sem energia durante a prova; em outro caso, um caminhão tombou e caiu numa vala, dificultando o acesso aos malotes com os cadernos. Os dois imprevistos teriam sido contornados.

A própria edição 2009 do Enem foi aplicada três vezes, lembrou Haddad.

Além da prova original - remarcada após o episódio do vazamento, revelado pelo Estado -, o MEC reaplicou o exame para vítimas de enchente no Espírito Santo e presidiários. Nos três casos, a Teoria de Resposta ao Item (TRI) permitiu a realização de avaliações diferentes, mas com o mesmo grau de dificuldade, observou o ministro.

Durante a audiência com os senadores, o ministro da Educação admitiu que o Inep tem responsabilidade em parte dos erros verificados no Enem 2010, como a troca do cabeçalho no cartão resposta da prova de sábado. "Que houve erro, não tenho a menor dúvida, e o Inep vai apurar. Houve um erro interno no Inep, e o Inep está apurando", disse Haddad.

Ele, no entanto, isentou o instituto de responsabilidade no vazamento da prova, em 2009, e nas falhas de impressão deste ano - assumidas pela gráfica RR Donnelley. "Em relação a esses episódios não houve (erro do Inep), embora tenha caído sobre o Inep um desgaste que não devia ser dele."

Licitação. Sobre a dispensa de licitação na contratação do consórcio Cespe/Cesgranrio, Haddad disse que não conhece "nenhum órgão público federal que não se socorra do Cespe para fazer seus concursos, sempre com dispensa de licitação".

Uma das poucas vozes críticas a Haddad durante a audiência veio da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). "Por que o senhor demorou 48 horas para se pronunciar, minimizou o problema e não assumiu a responsabilidade nem se dirigiu aos estudantes de imediato, nem pediu desculpas?", questionou Marisa.

O ministro respondeu que em momento nenhum minimizou o direito de cada estudante inscrito. "Ao contrário, um único estudante (prejudicado) tem direito igual a todos os demais", enfatizou Haddad.

Em Educação, Brasil ocupa 93º lugar no ranking do IDH

Da Redação do Todos Pela Educação

Variáveis analisadas são média de anos de estudo e expectativa de vida escolar



O Brasil ocupa o 93º lugar no componente Educação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado nesta quinta-feira (4) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH é composto por informações sobre Educação, saúde e renda e classificou 169 países.

Quando consideradas as três áreas em conjunto, o Brasil está na 73ª posição. Nas primeiras posições estão Nova Zelândia, Noruega, Austrália, Irlanda e Estados Unidos, respectivamente. O componente Educação é formado pela média de anos de escolaridade da população adulta (25 anos ou mais) e pela “expectativa de vida escolar” – número de anos de estudo esperado por aluno, caso os padrões atuais sejam mantidos ao longo da vida escolar, calculado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

"O componente de Educação do IDH serve para medir a qualidade do sistema educacional. Mas ele não mede a qualidade do ensino", aponta Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos Pela Educação. "Mesmo assim, o índice mostra que o Brasil não está numa posição favorável comparado a outros países."

Ministério da Educação questiona dados
O Ministério da Educação (MEC) divulgou nota nesta quinta-feira questionando os indicadores educacionais que compõem o IDH. "O relatório não capta o esforço de políticas desenvolvidas nos últimos anos com repercussão significativa na melhoria dos indicadores sociais e educacionais", diz um trecho do documento. A pasta também pede mais clareza do Pnud sobre a divulgação dos componentes educacionais.

Alteração no cálculo
Os dois indicadores do IDH relacionados à Educação foram alterados no cálculo deste ano. Anteriormente eram utilizados a taxa bruta de matrícula e do índice de alfabetização.

De acordo com o Pnud, as alterações foram feitas porque alguns países haviam atingido níveis elevados de matrícula e alfabetização, e assim esses indicadores vinham perdendo a capacidade de diferenciar o desempenho educacional. Mesmo aperfeiçoado, o relatório destaca que os resultados não dão conta de medir a qualidade da Educação.

Como funciona o SAT, o 'Enem americano'?

Nathalia Goulart, Veja online

Exame que garante o ingresso nas universidades dos Estados Unidos pode trazer ensinamentos para a prova brasileira

(Thinkstock)


Na última segunda-feira, em meio a explicações sobre os problemas ocorridos durante a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) o ministro da Educação, Fernando Haddad, citou avaliações estrangeiras para justificar sua decisão de aplicar uma nova prova apenas para os estudantes prejudicados pelo erro de impressão nas folhas de perguntas e respostas do Enem. Uma delas é o Scholastic Assessment Test (SAT, Teste de Avaliação Escolar), cuja realização é obrigatória para o ingresso em universidades dos Estados Unidos. Em comum com o Enem, o exame utiliza a Teoria de Resposta ao Item (TRI), método que permite que provas diferentes, com o mesmo grau de dificuldade, sejam aplicadas em datas distintas, sem prejuízo ou benefício aos candidatos – daí a comparação de Haddad. As semelhanças, entretanto, param por aí.

Alguns fatores explicam o sucesso do SAT e podem servir de lição ao Brasil. O primeiro deles é o modelo descentralizado da prova americana, que só é possível graças à TRI. Ao todo, cerca de 2 milhões de americanos realizam o exame a cada ano, mas em sete datas distintas, distribuídas durante os doze meses. "As datas mais procuradas – maio, outubro e novembro – contam com cerca de 500.000 candidatos", diz Thomas Ewing, relações públicas do Educational Testing Service (ETS), associação sem fins lucrativos que elabora, aplica e corrige o SAT e também o exame de proficiência em língua inglesa Toefl. A realização do exame em várias datas traz uma grande vantagem para o aluno, que não depende de uma data exclusiva para fazer o exame: se não se sair bem em uma edição ou adoecer, pode optar por nova data, poucos meses depois.

Outro trunfo do SAT é a aplicação de provas distintas simultaneamente. Ou seja, nos dias de exame, não circula pelo território americano apenas uma série de questões, mas diversas. A consequência disso é que apenas grupos de poucos alunos respondem exatamente às mesmas questões. "Num dia típico de SAT, existem muitas provas distintas sendo aplicadas. Por questões de segurança, não podemos revelar quantas são", diz Ewing. Além de coibir a "cola", a estratégia tem por objetivo evitar outro mal - que atingiu o Enem no passado: o furto de provas. Uma vez que que não existe uma prova para todo o país, cai o interesse dos criminosos pela informação privilegiada - ou melhor, pelo roubo da prova.

No Enem, as cores das provas variam e, com elas, a ordem das questões. Mas as perguntas são iguais para todos. Para Ricardo Ferreira, especialista em concursos públicos, a estratégia usada pelo Inep, responsável pela avaliação, é eficaz, mas poderia ser aperfeiçoada. "Ela seria ainda mais segura se o aluno não soubesse exatamente qual modelo de prova tem nas mãos, para restringir ainda mais seu conhecimento do exame. Esse deveria ser um controle exclusivo do órgão corretor", afirma.

Segurança – Não é só a elaboração da prova que faz do SAT um exame exitoso. Outras etapas são rigorosamente acompanhadas para garantir o bom funcionamento da avaliação. Na gráfica, terceirizada, um profissional do ETS é o responsável pela certificação da qualidade das provas impressas - a organização do Enem também prevê essa providência, que, como visto, falhou neste ano. Uma vez prontas, as provas são numeradas, embaladas a vácuo e transportadas em caixas lacradas. “Levamos o exame muito a sério. Existe comprometimento por parte de todos os envolvidos”, diz Ewing.

Apesar de mais de mais de um século de experiência – o SAT é aplicado desde 1901 -, o exame não está livre de alguns tropeços. O mais recente aconteceu em 2005. A falha ocorreu na leitura dos cartões de respostas de mais de 4.400 candidatos, que obtiveram notas menores do que deveriam. O erro foi corrigido, e os alunos, indenizados. Além disso, eles tiveram a oportunidade de realizar outro exame.

Por que o Enem errou de novo?

Nathalia Goulart, Veja online

Para especialistas, exame sofreu grandes mudanças de forma acelerada, e seus responsáveis não se adequaram a seu gigantismo

Estudantes chegam a local de prova, em São José dos Campos,
no segundo dia de realização do Enem 2010
(Lucas Lacaz/Folhapress)

Em 2009, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi reformulado, e o que inicialmente era uma avaliação do que os estudantes aprendiam naquele período escolar se transformou em um atalho para as universidades federais. Neste ano, por exemplo, 59 dessas instituições de ensino superior vão considerar, em alguma medida, a nota obtida pelos estudantes no Enem em seus processos seletivos. A mudança, contudo, foi acelerada demais: na visão de especialistas ouvidos por VEJA, aí estão as sementes dos erros que se sucedem no exame. Em 2009, a prova foi cancelada às vésperas de sua aplicação após ser furtada da gráfica. Um ano depois, dados sigilosos de 12 milhões de inscritos vazaram na internet. Finalmente, no último fim de semana, erros de impressão prejudicaram o desempenho dos estudantes.

"A mudança de conceito do exame foi grande, e realizada em pouco tempo, sem o devido preparo das pessoas envolvidas”, diz Álvaro Chrispino, doutor em educação e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). "A estrutura do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela avaliação, não cresceu na mesma proporção da importância da prova." Para se ter ideia do que fala o professor: quando foi aplicado pela primeira vez, em 1998, o Enem contou com cerca de 157.000 inscrições. Doze anos depois, o número é quase trinta vezes maior: 4,6 milhões de candidatos.

Ernani Pimentel, presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos Públicos (Anpac), corrobora com a avaliação. "Instituições responsáveis pela elaboração e aplicação de qualquer concurso público devem ter experiência comprovada nessas tarefas: isso é fundamental para um concurso bem-sucedido", diz Pimentel. "Os problemas ocorridos no Enem são reflexo da falta de organização e experiência da autarquia responsável pelo exame, o Inep."

Para Maria Helena Guimarães, que presidiu o Inep durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o gigantismo do Enem propicia a ocorrência de erros, como a falha de impressão deste ano, e atos ilícitos, como o fruto do exame, no ano passado. Por isso, seria necessário multiplicar o zelo em todas as etapas da prova. “Ela se tornou algo muito valioso, objeto de desejo de muitos”, diz. A especialista prega uma reformulação em várias etapas. A começar pela impressão das provas. "O erro descoberto no sábado, mostrando incompatibilidade entre a numeração das questões dos cadernos de perguntas e de respostas, é de responsabilidade do Inep. É preciso mais rigor na confecção das provas", afirma.

Outro ponto a ser revisto, na visão de Maria Helena, é a estratégia de aplicação da prova, que atualmente é simultânea em todo o território nacional. “O sistema de correção do Enem, baseado na teoria de resposta ao item (TRI), permite que ele seja descentralizado: ou seja, provas diferentes, com o mesmo grau de dificuldade, podem ser aplicadas em datas distintas, sem prejuízo ou benefício aos candidatos.” O sistema é utilizado em avaliações nos Estados Unidos como o SAT, espécie de vestibular americano que ocorre sete vezes ao ano em cidades e datas distintas. “Hoje, só a China tem um vestibular unificado maior do que o Enem. Esse tipo de estratégia de aplicação única não é solução para o Brasil”, diz.

A descentralização na aplicação poderia fazer do Enem um exame mais seguro. Isso porque, devido a suas dimensões, é impossível aplicar a ele medidas de segurança válidas para outros vestibulares bem-sucedidos, como Fuvest e Unicamp (a cargo da Comvest) e variados concursos a cargo da Cesgranrio.

Em sentido inverso, as etapas de formulação funcionam melhor centralizados, defendem especialistas. É novamente o caso de Fuvest, Unicamp e Cesgranrio. Nessas fundações, todo o processo de elaboração, revisão, digitação, diagramação e impressão dos testes é realizado dentro da própria instituição. “Isso aumenta o comprometimento dos profissionais envolvidos com a integridade do exame", diz Renato Pedrosa, coordenador do processo de seleção da Unicamp. Ao que o especialista em concurso público Ricardo Ferreira acrescenta: "Quanto mais terceirização nessas fases, maiores as chances de erro ou fraude", diz. No caso do Enem, dá-se o seguinte: o Inep formula questões, uma gráfica escolhida por licitação faz a impressão e um terceiro aplica a prova.

A cada erro nos processos do Enem, faz-se ao menos uma vítima: a educação brasileira. "Os erros que temos visto dificultam a aceitação do valor que o Enem merece. A cada novo tropeço, a imagem da prova fica comprometida perante milhões de jovens que se preparam o ano todo para fazê-la", diz Chrispino, da FGV-RJ.

Rezando pra Xangô, o Enem de 2011 irá bem

Elio Gaspari, O Globo

Nosso Guia disse bem a respeito da catástrofe do Enem: "Se for necessário fazer uma prova, faremos. Se for necessário fazer duas, faremos. Se for necessário fazer três, faremos, mas o Enem continuará a ser fortalecido".

No seu sentido literal, Lula fez mais uma bravata. O Inep e seus educatecas não têm capacitação para organizar uma prova, muito menos três.

Para fortalecer o Enem, a doutora Dilma precisa aprender a lição: um MEC de burocratas-companheiros que mandam "A" fazer uma coisa, sabendo que disso resultará uma ordem para "B" e outra para "C", só produzirá novos desastres.

O MEC comprou a aposta do fracasso em abril do ano passado, um mês depois de lançar o Enem/Vestibular, quando anunciou que só realizaria uma prova. Prometera duas. Os educatecas sabiam que com isso mantinham os estudantes sob a velha tensão do vestibular. Se as provas fossem duas, a tensão seria diluída. Esqueceram-se de que concentravam a probabilidade do próprio fracasso.

À época, disseram que em 2010 as provas seriam duas. Recuaram e repetiram o erro.

Para apressar a prova de 2009, o Inep reduziu todos os prazos de elaboração e impressão das provas. Neste ano, apressaram o treinamento dos fiscais.

Em maio do ano passado, o MEC disse que a Polícia Federal cuidaria a segurança do exame. Isso foi feito à la educateca: O Inep mandou um ofício à PF, recebeu de volta outro, informando que ela não estava capacitada nem autorizada para a tarefa. Em vez de ligar o alarme, arquivaram o ofício da PF.

Nenhum dos dois exames naufragou por conta de orientações pedagógicas. Todas as ruínas decorreram de erros logísticos porque "A" (o MEC) deu uma ordem para "B" (o Inep) que contratou "C" (os consócios Connasel e Cespe/ Cesgranrio) e todos acharam que o assunto estava resolvido.

O erro básico de 2009 foi o abandono da segunda prova. Agora, juntaram outro, que continua encravado. A realização da prova em papel é arriscada, megalomaníaca e anacrônica.

Se o MEC e o Inep começarem a trabalhar amanhã, em 2011 poderão ser realizados no mínimo dois exames, on-line. Basta copiar o sistema do exame Toefl americano e expandir o banco de questões de 10 mil para, no mínimo, 100 mil.

Para isso, será necessário seguir a "oração pra Xangô" proposta por Carlos Lyra e Vinicius de Moraes: "Pra pôr pra trabalhar, gente que nunca trabalhou".

Referência salarial para Docentes remonta ao Império

Valor Econômico (SP)

Em 1827, Dom Pedro I estabeleceu ordenados para os professores

A primeira tentativa de criação de um piso salarial para professores no Brasil remonta aos tempos do Império. Em 1827, Dom Pedro I decretou: "Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos, os presidentes taxarão, em Conselho, os ordenados dos professores, regulando-os de 200$000 a 500$000 [réis] anuais".

A legislação imperial nunca foi cumprida até 1981, quando a Confederação de Professores do Brasil (CPB) - hoje Confederação Nacional dos Trabalhadores em educação (CNTE) -, apresentou ao Congresso Nacional a primeira proposta de piso nacional para o magistério público, no valor de três salários mínimos para uma carga horária semanal de 20 horas. As discussões não avançaram e permaneceram como reivindicação história do movimento sindical.

Quase 15 anos depois, a CNTE entrou em acordo com o Ministério da Educação (MEC) para a adoção de um piso de R$ 300 (20 horas semanais) a partir de 1995. A medida foi revogada pela área econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. Somente em julho de 2008, o Congresso aprovou a Lei 11.738, que estabelecia como piso nacional o salário de R$ 950 para professores da rede pública para uma 40 horas semanais. Dois terços do valor deveriam ser pagos a partir de 1º de janeiro de 2009, com integralização a partir do início deste ano.

De acordo com a legislação aprovada pelos parlamentares da Câmara e do Senado e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reajuste anual do piso deveria obedecer a variação custo-aluno do Fundo Nacional de Manutenção e Desenvolvimento da educação Básica e do Magistério (Fundeb), o que representaria aumento anual superior a 15%. Um mês depois, o MEC contestou esse reajuste e pediu para o Congresso corrigi-lo, trocando o indicador pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que ficou abaixo de 5% em 2009 e elevou o piso para R$ 1.024 para 2010.

Em outubro, três dias depois do segundo turno das eleições municipais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará protocolaram ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra a lei do piso no Supremo Tribunal Federal (STF), reclamando de interferência na autonomia financeira dos Estados. Os governadores queriam que o piso fosse composto pela soma do vencimento básico e das várias gratificações tradicionalmente recebidas pelo professor da rede pública em todo o país. Além disso, questionaram o período de atividade pedagógica que o docente deveria manter fora da sala de aula. No começo de dezembro de 2008, o STF concedeu liminar aos governadores sem julgar os méritos da ação.

Em janeiro de 2009, Estados e municípios começaram a pagar parcialmente o piso de R$ 950, valor que passou para R$ 1.024 a partir de janeiro de 2010. Estados e municípios lançaram mão de leis estaduais de planos de cargos e salários para o magistério público para atingir o valor legal. A CNTE e várias entidades educacionais não reconheceram o cumprimento da lei, da forma como ela foi aprovada em 2008, e pressionaram o STF para julgar o mérito da Adin dos cinco governadores que se posicionaram contra o piso salarial. O relatório do ministro Joaquim Barbosa está pronto desde setembro, mas o julgamento não tem data para ocorrer. (LM)

Alunos fora da campanha política

Gabriel Mario Rodrigues (*) - O Estado de São Paulo

Na última campanha presidencial, muitas promessas foram feitas em torno do tema educação. Como a demanda por escola fundamental já foi atendida, governo e oposição concentraram-se numa etapa do ensino médio, o técnico profissionalizante. Quanto ao ensino superior, o duelo eleitoral restringiu-se a discutir a quantidade de vagas abertas nas universidades públicas, alternando-se elogios ou críticas conforme o lado que dominasse o microfone.

Nesse caso, ambos concordavam nas promessas de abrir muitas vagas. Apenas um ponto não foi lembrado: vagas em universidades custam caro. Quem vai pagar a conta?

É verdade que nos debates da campanha presidencial, no assunto educação universitária, a realidade foi dispensada. O Brasil tem 5,2 milhões de alunos matriculados no ensino superior. Destes, apenas um em cada quatro está numa universidade pública. Ou seja, 4,1 milhões de alunos estão em instituições de ensino particulares (dados de 2009).

Somente o privilegiado aluno da universidade pública, porém, preocupou os dois candidatos finalistas à Presidência da República. Quanto ao ensino privado, responsável por 75,6% das matrículas, nem um pio.

Esse silêncio não se justifica. Afinal, foram 612 mil formados no setor privado da educação superior brasileira no ano passado, 76,3% do total de diplomados do País. A rede privada é o local de trabalho de 219 mil educadores, 65% dos professores universitários do País, dos quais 115 mil com títulos de mestrado e doutorado. Será que essa significativa parcela da sociedade do conhecimento nacional não merecia alguma atenção desses dois candidatos a presidente do Brasil?

Se ambos, tanto a eleita quanto o da oposição, preferiram não tratar dos aspectos educacionais, poderiam ao menos observar o porte do empreendimento da educação privada universitária.

Do total de 2.495 instituições de ensino superior no Brasil, 2.243 são privadas, respondem pela oferta de 18 mil cursos, 72% do total, gerando 400 mil empregos diretos. Faturaram, juntas, R$ 24 bilhões em 2009, movimentando uma massa salarial anual de R$ 13 bilhões.

Enquanto candidatos, Dilma Rousseff e José Serra reconheceram os limites da capacidade de investimento do Estado brasileiro. Caso as expectativas educacionais e de capacitação para o exercício profissional desses 4 milhões de estudantes não fossem atendidas pela rede de ensino particular, com que recursos o País enfrentaria a crescente necessidade de mão de obra qualificada para manter a economia competitiva?

Caso a iniciativa privada cessasse seus investimentos na prestação de serviços educacionais universitários, de onde o Estado retiraria recursos para tamanha oferta de vagas? Sem a rede particular não seria absurdo dizer que a ascensão social via educação superior para 4 milhões de pessoas voltaria a ficar fechada.

A educação de menos de 1 milhão de jovens brasileiros nas universidades federais tem um custo alto. Em 2010, essa rede de 57 universidades contou com recursos da ordem de R$ 19,7 bilhões, descontados o pagamento de aposentadorias e pensões. Na execução orçamentária do ano passado, que atingiu R$ 22,1 bilhões, incluindo inativos, apenas 6,5% foram destinados à rubrica capital (R$ 1,4 bilhão), o que significa ampliar infraestrutura e adquirir equipamentos. Mais de 80% desses recursos foram destinados à folha de pagamento. Atenção: esses gastos foram feitos para educar menos de 1 milhão. Quanto o Estado gastaria para educar os outros 4 milhões?

O Brasil acumula uma enorme dívida educacional. Não devemos esquecer que apenas 13,7% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior. É muito pouco em qualquer comparação. Um PIB de economia industrializada bem parecido com o nosso, o da Coreia do Sul, põe na universidade 65% dos seus jovens na mesma faixa etária. O Chile, mais de 30%.

É sempre possível lembrar a velha desculpa de que são realidades diferentes, mas nos EUA, com seu ensino superior de custo muito elevado, 62% dos jovens nessa idade estão nesse grau de escolaridade. Motivo: mais de 50% das matrículas norte-americanas em ensino superior só foram possíveis porque esses alunos receberam algum tipo de financiamento estudantil.

No Brasil, apenas 6,2% dos estudantes matriculados no grau universitário contam com algum tipo de financiamento estudantil. Esse tema, aliás, nem sequer foi objeto de atenção dos candidatos. Falou-se em ProUni como ataque de campanha, e não como debate sereno em busca de soluções. Em nenhum momento o programa foi lembrado como contribuição efetiva da rede instalada do setor privado para educar 700 mil jovens.

Na campanha, governo e oposição repetiram que querem desenvolver o interior do País, sem dizer como. Perderam boa oportunidade de discutir a realidade de que 84% das instituições privadas, com até 2 mil alunos, têm sede em mais de 650 municípios de pequeno e de médio portes, assegurando a interiorização do ensino superior.

É verdade que debates fora de foco estão na moda. Bastaria reler América, de Monteiro Lobato, editado pela primeira vez em 1932, para perceber que não discutir o essencial é problema antigo no Brasil. No capítulo sobre Princeton, o então adido cultural nos EUA discute "como se forma a riqueza" e o papel do ensino superior oferecido, de fato, a todas as camadas sociais nesse processo. É um bom começo de discussão, tomado pelo lado certo, a ser feita a partir de boas observações que estão esquecidas há muito tempo.

Isso, claro, se América não seguir o mesmo destino de outra obra de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, uma leitura agora vetada nas escolas nacionais pelo órgão máximo de normatização e conselho da educação brasileira.

(*) Reitor da Universidade Anhembi Morumbi, é Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior

Provas amarelas do Enem podem não ser as únicas reaplicadas

Brasília - As provas amarelas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicadas no sábado, 6 de novembro, podem não ser as únicas a serem reaplicadas aos estudantes que se sentiram prejudicados por falhas. Questionado se apenas as provas de sábado seriam reaplicadas, o ministro da Educação, Fernando Haddad, respondeu nesta terça-feira (16) que, "possivelmente, sim", mas não descartou a repetição de outros testes, caso necessário.

"Possivelmente, sim, mas não necessariamente. Vamos verificar se houve algum prejuízo por alguma outra ocorrência de alguém que, no domingo, tenha tido alguma dificuldade", disse Haddad, após participar de audiência na Comissão de Educação do Senado para explicar as falhas na prova.

Algumas provas amarelas aplicadas no sábado apresentaram erros como a repetição ou ausência de questões. Algumas folhas de resposta também estavam com o cabeçalho das provas trocado. "A orientação é que todas as ocorrências passarão por um pente fino", ressaltou o ministro.

Segundo Haddad, apenas após a análise das mais de 113 mil atas dos locais de prova será possível oficializar a data para realização de uma nova prova para os estudantes que tenham sido prejudicados. O ministro afirmou que será possível anunciar a data até o final desta semana ou no início da próxima e garantiu que os estudantes prejudicados serão informados por celular ou e-mail sobre a nova data.

A divulgação dos resultados seguirá o previamente previsto, ocorrendo na 1ª quinzena de janeiro de 2011, prometeu o ministro.

Vítimas de erros do Enem, estudantes vivem dias de revolta e tensão

Clarissa Thomé , Evandro Fadel, Liège Albuquerque e Carmem Pompeu - O Estado de SãoPaulo

Revolta, decepção, tensão e insegurança são alguns dos sentimentos vividos nos últimos dias por boa parte dos 3,3 milhões de estudantes que participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no final de semana passado. Em sua maioria adolescentes, eles se tornaram as maiores vítimas do imbróglio judicial em que a edição 2010 do Enem se transformou, por causa dos problemas nas provas de sábado.

A possibilidade de a disputa se arrastar na Justiça fez crescer a desilusão com o Enem - visto por muitos como a melhor chance de obter uma vaga numa universidade federal - e, ao mesmo tempo, deixou-os ainda mais inseguros por causa da pressão do calendário de vestibulares que tem início a partir deste final de semana.

O que está em jogo não é pouco. Das 84 universidades e instituições federais que usam a nota do Enem, 36 dependem exclusivamente do exame para selecionar seus alunos para 2011. Juntas, respondem por 48.458 cadeiras - ou 53% de todas as vagas oferecidas pela prova do Ministério da Educação (MEC).

A maioria dos candidatos a essas vagas mal teve tempo de refletir sobre a situação. No Rio de Janeiro, mais de 90 mil alunos fazem provas no feriado prolongado para as universidades federais mais procuradas do Estado - a Fluminense (UFF) e a do Rio de Janeiro (UFRJ). Para driblar a tensão provocada pelas falhas no exame e a incerteza se as instituições manteriam os planos de aproveitar as notas do Enem, escolas do Rio fizeram sessões de relaxamento, aulões de hidroginástica e até ioga.

"Os alunos já estavam preparados para as provas do ponto de vista do conteúdo; faltava o lado emocional. Essa indefinição fez o estresse dos estudantes aumentar", afirmou Mely Fonseca, diretora pedagógica do Colégio Santa Mônica, na Taquara, zona oeste. "Eu foquei toda a minha preparação no modelo de prova da UFRJ, que é inteiramente discursiva, porque já esperava essa bagunça", desabafa Brunna Rebelo, de 17 anos, que presta vestibular para Publicidade.

Centenas de estudantes extravasaram sua ira contra o MEC participando de ruidosos protestos nas ruas da capital fluminense durante a semana. O mesmo ocorreu em Minas Gerais, no Ceará e no Rio Grande do Sul.

Desconfiança. No Paraná, os estudantes iniciam hoje o vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o mais concorrido do Estado, para o qual o Enem terá peso de 10%. Um deles é Matias Augusto Ramos Lima, que tenta Medicina e foi vítima dos problemas com o caderno amarelo do Enem. "Fui muito prejudicado e confesso que não estou seguro para fazer o vestibular", afirma.

A estudante Nina Thais Silva Monteiro, que tenta vaga em Engenharia Química, diz que não se sente prejudicada. "Mas estou frustrada; o que espero é que se defina logo essa situação."

Marjorie Podlecki, que disputa uma vaga em Psicologia, relata ter presenciado irregularidades na prova do dia 6 que refletem a perda de credibilidade do Enem. Ela própria confessa ter usado relógio na prova.

Sua amiga Mychelle Jung diz ter ouvido celulares tocando, além de muita conversa entre os fiscais. "O Enem teve um ano para se preparar e aconteceu o que aconteceu", ponderou ela, que pretende cursar Enfermagem e também recebeu o caderno amarelo com problemas.

Já Nina diz ter ido ao banheiro e encontrado duas estudantes conversando, sem a presença de fiscais. "Elas pararam quando cheguei, mas, quando viram que não era um fiscal, continuaram conversando", disse.

O estudante Paulo Bernardo Lindoso Lima disse ter ficado desmotivado com o exame por conta dos problemas nas provas em Manaus. No ano passado, ele publicou artigo num jornal local, assustado com a fragilidade da segurança do exame. Neste ano, nova decepção. "A facilidade para quem queria colar era absurda. Eu levei meu lanche num saco e poderia ter colocado ali uma calculadora e ninguém nem deu bola quando eu abri o pacote para comer."

Educação mal educada

Raphael Curvo (*), Prosa & Política

As confusões do ENEM é bem o estilo de governo do Lulla. É uma marca indelével. É notória, desde o início de governo em 2003, a incapacidade gerencial dos ministros, raras exceções. Esta é a razão de nada ser concluído e o PAC estar empacado sem chances de deslanchar. O momento da economia mundial tem salvado o Brasil de dias terríveis e muitos teimam e não ver isso. Os dólares que abundam em nosso solo, apesar de em grande parte especulativos, sustentam a nossa economia e a nossa reserva monetária, constituída pela obrigação de compra do Banco Central para segurar a valorização do real. Os altos tributos, inclusos os juros desses dólares, pagos pelos brasileiros estão sendo aplicados na gastança do governo e nas benesses do presidente a vários países na sua ilação de ser chefe do mundo.

Enquanto isso, a nossa educação fica contida nas obras físicas e financeiras que possam trazer resultados imediatos na mídia, por conseqüência, nos resultados das pesquisas de avaliação de governo. Foram oito anos de mandato que em nada acrescentou, de forma eficaz, à educação no Brasil. Quem é mais “tiririca” nisso, o deputado eleito ou o presidente? Gerações estão sendo jogadas ao lixo e a recuperação desses jovens é algo que não passa pela cabeça do governo. Nada ou quase nada de efetivo está sendo executado para, ao menos, qualificá-los. São projetos e planos que não conseguem transpor as portas dos gabinetes. É uma gigantesca massa jovem que está meio sem rumo, sem objetivos. Isto a leva para a tentação da vida fácil e a droga é um dos caminhos.

O “vestibular” ENEM é uma das maiores idéias já pensadas e postas em prática no sistema educacional brasileiro. É um processo que vem sendo gerado desde os anos noventa do século passado quando da criação do sistema de avaliação. Transformá-lo em sistema de ingresso nas universidades federais é o inicio de um caminho que dará impulso a educação no Brasil. O problema é que os agentes gestores, como disse Alexandre Garcia, são resultados do nosso ensino nos últimos anos. Daí a lambança que estão sendo vitima os milhares de alunos nos exames do ENEM. O grave de tudo é que não sabem o que fazer e fica visível a falta de uma assessoria qualificada e conhecedora dos enunciados da Lei e dos princípios jurídicos que norteiam a sociedade brasileira. O ministro fala alhos e o presidente bugalhos, não se encontram.

O exame tem que ser anulado se quiser ser justo. Novas provas para alguns, é favorecer a uns poucos e prejudicar a milhares que passam a concorrer em condições desiguais. O ridículo chega ao extremo quando vem de publico o Ministro da Educação do Brasil mostrar cartinha da ONU que julga correta a aplicação de novas provas aos prejudicados nos “erros” dele, ministro. Quem é a UNU para meter o bedelho nos princípios normativos de nossa Nação? Uma simples avaliação já deixa clara a quebra do princípio da isonomia quando muitos terão o privilégio de mais tempo de estudo e preparo para as novas provas, fora a possibilidade ganha para conseguir mais pontos que na prova anterior. O mesmo pensar vale para os que serão prejudicados ante os riscos de não conseguirem acertos.

A desculpa de que serão necessários 60 dias para a realização de nova prova é hilária, contraditória e demonstra a falta com a verdade do Ministro. O ENEM tem cerca de cinco matrizes de provas que podem muito bem serem utilizadas em novas provas. São essas matrizes que o ministro vai se utilizar para a realização das novas provas ao pequeno grupo de privilegiados. Perderam o rumo e o prumo e estão desmoralizando a educação brasileira que já sofre pela inconseqüência dos governantes que sempre a relegou a um terceiro plano em suas administrações. Para a educação só se fala em construções físicas, o capital humano fica de lado. Enquanto a China envia 700 mil para pós graduação no exterior, o Brasil tem cerca de 14 mil. Somente 3,8% da população brasileira têm curso superior completo. Com a maquiagem do governo que incluiu os tecnólogos como formação universitária, chegamos a pouco mais de 8%. É ou não é uma educação mal educada?

(*) Jornalista, advogado e comunicador

Professor, um autor do amanhã, ganha 1.024 reais

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Uma excelente reportagem assinada por Luciano Máximo, Valor de 12 de novembro, revela algo espantoso: há resistências em uma série de estados brasileiros para que seja cumprido o piso nacional que, por lei, deve ser aplicado aos professores. Incrível. O piso, incluindo adicionais por tempo de serviço, é este que se encontra no título da matéria.

Os professores, autores do amanhã, que têm a responsabilidade, através do tempo, de arquitetar e construir o futuro, têm remuneração que não chega a dois salários mínimos mensais. Ele, o piso, foi fixado pela lei 11.738 de 2008, portanto no governo Lula. Antes desse diploma qual era o piso? Ou o teto? São tão baixos os valores que base e teto se aproximam demais. Confundem-se.

Mais impressionante ainda, pela crueldade da atitude, alguns governadores, como os do Ceará, Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, chegaram ao ponto de recorrer ao Supremo sustentando a inconstitucionalidade da lei. O STF, claro, a manteve. Não queriam pagar gratificações que elevam o piso ao teto de zinco da remuneração. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, teve de agir. Outra ação na Corte Suprema.

O contraste mais revoltante é que o poder público não contesta nunca reajustes das obras contratadas com as grandes e médias empreiteiras. Mas se tratando de valores aplicados ao trabalho humano a coisa é outra. Restrição em cima de restrição. Por falar em restrição no sistema de ensino, primoroso o artigo de Elio Gáspari em O Globo de 10 de novembro, que começou a propósito das provas do ENEM e acabou como forte peça de crítica do sistema educacional do país como um todo. Ranger de dentes para com os alunos em vez de uma atitude acolhedora, disse ele.

Correta a análise de Gáspari. Inclusive tem que se levar em conta que a educação não se esgota no campo do ensino em sala de aula. Não. É muito mais amplo, trata-se de um processo social em que é formado o arcabouço da informação, da comunicação, da recepção, da compreensão.Como definiu o intelectual Edgar Faure, ministro da Educação de De Gaulle na França, este é o conceito. Nele Faure se baseou para colocar sua tese de que as escolas não devem ter paredes. Suas paredes começam e acabam nas fronteiras impostas à sociedade. No Brasil, por exemplo, onde 54% das 57 milhões de residências, não possuem nem rede tratada de esgotos, nem fossas sépticas, com os dejetos transitando em céu aberto, como pode haver informação captada, percepção, compreensão? Impossível. Os ensinamentos e os exemplos da vida batem na estrutura opaca que envolve a rede salarial.

O salário de 1.024 reais por mês aos professores constitui uma ignomínia. Uma injustiça, um absurdo, uma desumanidade. Uma das razões determinantes da queda dos padrões educacionais, de modo geral, e do ensino, em particular. Antigamente, lembro bem, minha família era de professores, fui criado entre eles, um professor recebia vencimentos dignos. Podia, através dos anos, adquirir uma casa própria. Pertencia à classe média superior. Hoje, passou a ser uma pessoa pobre, de poucos recursos, enfrentando dificuldades financeiras, como se vê por aí.

A situação é resultado do fato de, a partir do movimento militar de 64, os salários não terem acompanhado as taxas de inflação assinaladas pelo IBGE. Foram assim, na realidade, sendo reduzidos gradativa e seguidamente. De descida em descida, os professores foram parar no fundo da escala social. As pessoas com melhores aptidões, em vez de procurar o magistério, foram se deslocando para outros setores.

O que os governos fizeram para melhorar o ensino e a educação? Nada. O tempo passou na janela e eles não viram.

Progresso mal-educado

Ivan Marsiglia, O Estado de São Paulo

Desenvolvimentistas achavam que a educação no Brasil melhoraria junto com a economia. Não foi assim

O MEC ainda não passou na prova do Enem. Desde que o Ministério da Educação apresentou sua proposta de reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio, uma sucessão de erros, tentativas de fraude e problemas de organização tirou a paz dos estudantes e abalou o nome do ministro Fernando Haddad nas bolsas de apostas para permanência no cargo na futura gestão Dilma Rousseff.

Fabio Motta/AE
Um grupo de 300 alunos fez manifestação no Centro de Niterói contra o Enem

Em outubro de 2009, o principal instrumento de avaliação dos conhecimentos do ensino médio do governo federal foi cancelado após uma reportagem do Estado revelar que a prova tinha vazado. Em dezembro do mesmo ano, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pelas provas, divulgou o gabarito errado e seu presidente pediu demissão. Em janeiro de 2010, o sistema online do MEC para candidatura a vagas nas universidades federais usando o Enem travou e estudantes levaram até 14 horas para fazer a inscrição. Em fevereiro, um equívoco na digitalização das redações levou à divulgação errada das notas de 915 estudantes. Em agosto, vazaram dados pessoais de inscritos nos anos de 2007, 2008 e 2009. E, nessa semana, erros no cartão de resposta fizeram a Justiça do Ceará suspender o exame liminarmente - decisão derrubada apenas na sexta-feira pelo Tribunal Regional da 5ª Região. Desempenho nota zero.

Para o sociólogo mineiro Simon Schwartzman, os problemas operacionais e logísticos do Enem escondem a questão que realmente importa. "É a própria ideia do Enem, desse tamanho e com essa escala, que precisa ser discutida", diz o pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), que foi presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 1994 e 1998 e diretor para o Brasil do American Institutes for Research de 1999 a 2002. "O correto seria voltar à ideia inicial do exame, menor e focado na avaliação de competências, não de conhecimentos", defende o especialista.

Na entrevista a seguir, Schwartzman afirma que os ideólogos do desenvolvimentismo no Brasil sempre minimizaram a importância da educação, considerando-a mero corolário do crescimento econômico. E que a superação do gigantesco atraso educacional do País passa não pelo "grande projeto", que nunca vem, mas por investimentos específicos e esforços simultâneos em diversas frentes.

Como entender a sucessão de problemas na principal prova de avaliação do MEC?

É a própria ideia do Enem que precisa ser discutida. Os problemas operacionais e logísticos que ocorreram são acidentes de percurso, embora não aleatórios - pois quando se tenta fazer algo desse tamanho, com tal escala, está sujeito ao que ocorreu. Falta estrutura ao Inep, que tem demasiadas funções, não possui um quadro de pessoal forte e se meteu a fazer um projeto muito grande, ambicioso demais.

O que deve ser discutido no Enem?

A questão é: precisamos de um Enem desse tipo? Na experiência de outros países, existe algo semelhante? A resposta é não. Em sua origem, nos anos 90, o Enem era uma maneira de obter um padrão de referência para o ensino médio. Um teste de competência, não de conhecimento - em que se analisa nos alunos a capacidade de raciocínio, o uso da língua, a capacidade de expressão e a de resolver questões. Mas se transformou em uma prova de conteúdo, longa, exaustiva, um vestibular nacional.

Com esse mesmo argumento, de que o sentido original da prova se descaracterizou, a antropóloga Eunice Durham defendeu o fim do Enem. O sr. concorda?

O correto seria voltar à ideia inicial, focar o exame em competências, e não em conhecimentos. Imagino que esse tamanho de prova, feita em dois dias, tenha sido uma exigência das universidades. O governo deve ter feito um movimento para convencê-las a considerar a prova em seu processo de seleção e elas responderam: "Então coloquem no Enem tudo o que a gente gostaria de avaliar". Está errado.

Não é assim em outros países?

Europeus e americanos têm sistemas antigos e bem estabelecidos de avaliação do ensino médio. Na França há o baccalauréat (que existe desde 1808, dura cerca de uma semana e inclui provas orais), os ingleses têm o que chamam de A-Level (Advanced Level General Certificate of Education, aplicado desde 1951) e nos EUA existe o SAT (Scholastic Assessment Test, que começou em 1901). Em geral, esse tipo de prova exige que o estudante apresente certo nível de conhecimento da língua e de matemática, para então oferecer diversas opções: geografia, artes, ciências, etc. Depois, as universidades usam os resultados em função dos interesses de cada departamento. O ponto fundamental é que não se manda todo o mundo estudar tudo. Esse é um problema da educação média brasileira: os vestibulares das universidades mais competitivas criaram uma tal pressão em cima do ensino médio que resulta nesse currículo maluco que temos,com 14 matérias. Outra diferença é de logística: na Inglaterra são cinco as instituições encarregadas de preparar as provas, os examination boards. E, nos EUA, o SAT é aplicado por computador, várias vezes por ano. O estudante se inscreve, marca uma hora, vai lá e responde questões em progressão de dificuldade. Por que não adotar uma tecnologia dessas no Brasil? É maluquice juntar 3,5 milhões de pessoas em salas de aula no mesmo dia para responder às provas com caneta.

Por que, após oito anos de governo FHC e oito de Lula, o Brasil ainda não encontrou um rumo claro para a educação?

Faltou prioridade. Durante muito tempo, boa parte da esquerda brasileira cultivou a ideia de que a educação se resolve sozinha quando a economia estiver bem. Se você pegar a obra de Celso Furtado, o grande teórico do desenvolvimento no Brasil, vai ver que ele não escreveu uma linha sobre educação na vida. O contrário do que diziam os pioneiros do tema nos anos 30: se você resolver a educação, o resto vem. A verdade é que a educação exige um investimento específico, próprio, ainda que sem relação clara com o mercado de trabalho. O exemplo sempre citado é o da Coreia do Sul, que nos anos 60 tinha um nível educacional parecido com o brasileiro e, com investimento pesado em educação básica, média e superior, atingiu um alto patamar de qualidade para toda a população.

Consta que na Coreia do Sul o enfoque foi na qualidade e não na infraestrutura: as escolas muitas vezes eram grandes galpões onde os estudantes aprendiam em período integral com professores de alto nível e bem pagos. O que se pode tirar da experiência coreana?

Acho que dá para tirar algumas lições. No Brasil, o governo federal sempre colocou mais dinheiro na educação superior. Até hoje é assim. Como a classe média alta a queria para os seus filhos, o pensamento foi: "Vamos dar universidade gratuita para esse pessoal que pressiona muito; o povão que não pressiona, deixa para lá." E nunca houve uma política nacional para a educação básica e média. Até porque ninguém sabia muito bem o que fazer. Não houve um esforço intelectual de se pensar quais seriam os conteúdos, como se monta o sistema, como se equacionam os problemas.

O ministro Paulo Renato universalizou o ensino básico. Fernando Haddad retomou investimentos em escolas técnicas, nas universidades federais e fez o Prouni. Como o sr. avalia essas duas gestões?

A coisa mais importante da gestão Paulo Renato foi a criação do Fundef, que depois virou Fundeb - e equacionou o financiamento da educação fundamental. Foi essa norma que estipulou a distribuição de recursos conforme o número de alunos. No ensino superior, não acho que ele tenha conseguido muita coisa: o ensino privado cresceu sozinho, pois o sistema público continuou fechado e elitista, tal como foi pensado na reforma de 1968, ainda no período militar. Embora tenha criado o Provão e estimulado uma gestão mais responsável dos recursos pelas próprias universidades, Paulo Renato enfrentou greves e grande resistência política. No caso do governo Lula, houve a criação de algumas universidades, mas em boa parte apenas no papel: instituições que já existiam e apenas mudaram de nome. A política do atual governo tem sido a de dar tudo o que as universidades públicas querem, sem pedir nada em troca. Houve um esforço no Reuni, quando se estimulou que elas a aumentassem o número de vagas, criando cursos noturnos. Mas sem clareza sobre em que áreas, de que maneira, para que tipo de público. E teve o Prouni, uma política que faz sentido, de se usar as vagas do setor privado para responder um pouco à demanda. Curiosamente, antes de Lula, essa ideia de subvencionar o estudo no setor privado era um tabu, não se podia fazer no Brasil.

Por que o sr. diz que, sem parcerias privadas, a universidade pública ‘se acomoda’?

Nós temos no Brasil uma situação em que as universidades são repartições públicas. É o caso da USP. Elas recebem uma porcentagem fixa dos impostos do Estado e não se preocupam em ir além. Não contam com um sistema de incentivos ou busca de resultados - nem acadêmicos, nem de eficiência no uso dos recursos. Em outros países, as universidades públicas são obrigadas a mostrar o que estão fazendo, justificar o que gastam e, em contrapartida, têm flexibilidade para pagar mais ou menos ao professor de acordo com o seu desempenho. Um modelo de gestão muito mais ágil.

O foco do Brasil hoje deveria ser a educação básica ou a pesquisa de ponta?

Esse é um falso dilema. Uma não pode ser sacrificada pela outra. A educação é uma fronteira ampla de trabalho. Não se pode esperar que um ministro, uma única cabeça, saiba o que fazer. Precisamos de gente competente trabalhando em diversos níveis, em todo o País. Nossa educação básica continua com um desempenho péssimo internacional, em qualquer comparação que se faça. Na pesquisa de ponta, o que temos no Brasil é uma política de valorização da pesquisa acadêmica, que teve um papel importante, formou gente, desenvolveu a pós-graduação - mas relegou a segundo plano a pesquisa aplicada, ligada às política empresarial e pública. É um sistema muito voltado para dentro dele mesmo.

O sr. diz que a educação nunca esteve na órbita do desenvolvimentismo brasileiro. Tanto a presidente eleita, Dilma Rousseff, quanto seu adversário no segundo turno, José Serra, são considerados desenvolvimentistas. Se é assim, quando haverá o grande projeto que diminua o gap histórico do País na educação?

Não existe "grande projeto". É preciso trabalhar muito e em várias frentes. O Brasil tem boas experiências, que podem ser aprofundadas. Na educação básica, Minas Gerais aplica uma política de contratos de gestão nas escolas, em que se definem metas e se avaliam resultados. Vários estados do País já adotam o período de seis horas nas escolas - que é o tempo necessário às crianças. Precisamos falar de programas e métodos de ensino. É intolerável que um menino de 8 anos em uma escola não saiba ler e escrever, quando há metodologia estabelecida para isso. As faculdades de pedagogia não ensinam como se ensina: ficam discutindo teorias sociológicas ou sei lá o quê. Há que se aumentar o salário dos professores e criar sistemas que associem desempenho a remuneração. A hora é esta.