sábado, abril 18, 2020

Como será o amanhã do Brasil?

Comentando a  Notícia

Durante todo o tempo em que esteve à frente do Ministério da Saúde, o ex-ministro Mandetta advertiu o país que se deveria manter rigoroso isolamento social para evitar a propagação mais rápida da pandemia, uma vez que, como ele próprio afirmou em seu discurso de despedida para sua equipe, o sistema de saúde brasileiro ainda não estava preparado para enfrentar e suportar um colapso no momento de pico da doença. (Aliás não só o Brasil, mas no mundo todo, nenhum país estava preparado, nem os mais ricos).

E, como visto nesta semana. Amazonas, Ceará e São Paulo já enfrentam esta situação de stress, e o Rio de Janeiro já se aproximando do colapso. 

Mas o por quê de uma situação de aparente controle que se mantinha até cerca de duas semanas atrás, rapidamente se deteriorou para uma aceleração  de novos casos e o aumento no número de mortos?

Coincidência ou não, foi a partir de quinze ou vinte dias para cá, que o país assistiu o comportamento irresponsável de seu presidente, com passeios e provocando aglomerações, afirmações esdrúxulas divorciadas da realidade tais como “trata-se de uma gripezinha”, ou “parece que o vírus está indo embora” mais recentemente.  Também faz parte deste pacote macabro a briga e a queda de braço do presidente com governadores e prefeitos que, em boa hora, todos eles, aplicaram medidas restritivas de circulação de pessoas. Este comportamento estúpido provocou um relaxamento do isolamento que vem ocorrendo justamente nestas duas últimas semanas, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Não era preciso ser adivinho tampouco infectologista para saber qual a consequência. E a consequência é o crescimento fora da curva de então, acelerando o número de infectados e de mortos.
Bolsonaro tanto fez que conseguiu seu intento: demitiu o ministro Mandetta de quem discordava quanto ao isolamento e contra quem moveu uma campanha vexatória de desmoralização com suas irresponsabilidades e, em seu lugar colocou o oncologista Nelson Teich. 

O que devemos esperar daqui prá frente? Bom, a briga com governadores e prefeitos vai continuar, uma vez que sua maioria já se manifestou em manter as medidas restritivas de circulação de pessoas, apesar de Bolsonaro ter tido acachapante derrota no STF: 9x0 pela autoridade de governadores e prefeitos em decretar a continuidade do isolamento.  Mas Bolsonaro não entregará os pontos assim tão fácil.  Tanto é assim, que em seu primeiro discurso como ministro da Saúde, Teich afirmou estar totalmente alinhado à Bolsonaro e que atuará para o país voltar rapidamente à normalidade. Esta velocidade, meu caro, nem você nem Bolsonaro terão o poder de determinar. Quem manda no pedaço é o vírus.

Isto significa dizer o seguinte: mesmo que Teich, em seus primeiros movimentos à frente do Ministério, procurando inteirar-se da situação, não procurando dar declarações mais profundas sobre o tema “coronavírus”, não tomando nenhuma medida mais ousada, tentando ganhar espaço e tempo para, em seguida, seguir a cartilha do “infectologista” Jair Bolsonaro, que se considera mais médico do que qualquer formado pelas melhores universidades do mundo. Na verdade sabemos bem que o presidente sobre o tema não passa de um tremendo ignorante. 

Mesmo que Bolsonaro não ganhe pontos com a queda de braço com governadores e prefeitos, sua atuação fará com que aumente ainda mais o relaxamento da população quanto ao isolamento. Em suma: estamos trilhando o mesmo caminho da desgraça que se verificou na Itália, Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. Todos viram a pandemia alastrar-se, matar e colapsar seus sistemas de saúde. E todas, sem exceção, tiveram que rever suas políticas de combate à pandemia, declarando o isolamento social rígido.  E quanto aos países que se precaveram com inteligência e disciplina, seguindo a risca as orientações da Organização da Saúde, como Áustria, Portugal, Grécia, Polônia, Dinamarca. Finlândia, mesmo que com absoluta cautela, vão pouco a pouco retomando à normalidade.  

Relaxar o isolamento no Brasil, como é a pretensão primeira de Bolsonaro, é permitir a instalação total da desgraça. Os países europeus não padecem da pobreza, das favelas, com a má distribuição de profissionais de saúde país afora, com uma rede pública hospitalar precária, insuficiente  e com carências significativas, da falta de saneamento básico como temos por aqui. Nas periferias das capitais, o coronavírus encontra as condições ideias para sua ampla propagação e, diante de um sistema de saúde ainda não aparelhado suficientemente para enfrentamento e defesa da população, as perspectivas que se tem diante da hipóteses de se afrouxar as medidas restritivas é pavoroso. 

Assim, o que nos resta é rezar para que a nova equipe que será formada pelo novo ministro na pasta da Saúde, não cometa o desatino de seguir e obedecer a cartilha do doutor genocida, sentado na cadeira presidencial. Siga a ciência, siga as orientação da OMS, siga o exemplo que se tem dos vários países que estão vencendo a pandemia.  O Brasil tem recursos suficientes para amparar sua população minimamente por mais tempo do que pretende o goveno federal.  O que trava  tudo é a disposição do ministro Guedes e do Bolsonaro de manter os postulados da economia como se não vivêssemos uma crise grave no plano da saúde pública. E o fazem com olhos postos nas urnas de 2022. Ambos sabem que, se a pandemia se prolongar para além de três meses, espichando-se a desgraça até o final do ano, por exemplo, o Brasil precisará de uns dois ou três anos para recuperar-se do tombo. Com isto, as perspectivas de reeleição vão prô brejo. 

Mas afinal, o que é mais importante para o Brasil, manter a economia aquecida ou salvar vidas? Esta discussão é inútil, senhores, porque para haver economia, pequena ou grande, é preciso haver vida. Sem isto o que se tem é um nada. Hoje, o presidente ainda se saiu com esta pérola;” Começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro. Se agravar, vem para o meu colo”. Alguém, por favor e com urgência, esfregue na cara do presidente as estatísticas das últimas semanas, onde se lê claramente que, primeiro, a urgência já está aí e, segundo, que boa parte dos hospitais já esgotaram sua capacidade de acolhimento. Até quando este imbecil vai brigar com a realidade colocando nas covas mais e mais brasileiros mortos?  O direito à vida o fundamento número de qualquer cidadão, e o doutor genocida não tem o direito de brincar com a vida de milhões de pessoas só para satisfazer sua ambição e seu ego psicótico.

Portanto, se você souber rezar, eis o momento precioso para começar, com ardor, a desfilar suas preces. Se não souber, este é o melhor momento para aprender e entrar na corrente. E, façam um favor, a si mesmos: FIQUEM EM CASA!


Morrer sozinho é desumano

Astrid Prange (rw)
Deutsche Welle     

A proibição de visitar hospitais e asilos desafia os limites do sofrimento humano. Morrer sozinho é contra a dignidade humana. Não pode haver proibição de visitas no leito de morte, opina Astrid Prange.
    


Quem vai segurar a mão na hora da despedida derradeira? Quem dará o último beijo? Quem vai pronunciar as últimas palavras de conforto? Quem irá cerrar as pálpebras? Em tempos de pandemia de coronavírus ficou difícil responder essas perguntas. Muitas pessoas no leito da morte estão isoladas. Sem família e sem amigos, sem carinho e sem ternura. Elas deixam a vida sem poderem se despedir.

A morte solitária é uma das consequências da proibição de visitas a hospitais e lares de idosos imposta na maioria dos países afetados pela pandemia. É difícil imaginar algo mais desumano. Priva os pacientes, especialmente aqueles à beira da morte, de seus últimos instantes de alegria, de seus últimos desejos, de seus últimos anseios.

Ver a filha ou o filho por uma última vez? Abraçar o neto? Segurar a mão do parceiro e sentir o carinho em seu olhar? Saber que seu melhor amigo mais uma vez está do seu lado? Não foi para isso que muitos pacientes suportaram toda a dor e terapias?

A proibição de contato é uma tortura também para os familiares. Eles não puderam estar presentes quando o ente querido tanto precisava deles. Não puderam demonstrar seus sentimentos e afeto, agradecer por uma vida em conjunto nem dar ou receber conforto. Essa sensação dolorosa certamente acompanhará muitos pelo resto de suas vidas.

Por mais importante e correta que seja do ponto de vista epidemiológico, a proibição de visitas é um sinal de desumanidade em meio à crise do coronavírus, que, aliás, não pode ser combatida sem amor e solidariedade.

É claro que é correto e importante que tudo seja feito para proteger os doentes nos hospitais ou para proteger os idosos nos asilos do risco de uma contaminação.

No entanto, o isolamento dos idosos e outros doentes deve valer só até o leito de morte. É uma questão de encontrar um meio termo entre duas questões legítimas: proteger de uma infecção pelo coronavírus e evitar a morte em isolamento social.

Na Alemanha, muitos lares de idosos e hospitais tentam reagir, abrindo exceções e permitindo que as pessoas à beira da morte se despeçam dos familiares. No entanto, a implementação ainda é um problema em muitos lugares, e pacientes de covid-19 gravemente doentes em geral já nem podem mais receber visitas.

Mesmo que o vírus seja difícil de controlar, uma despedida digna também deveria ser possível em tempos de coronavírus. Talvez sejam possíveis testes rápidos para os visitantes? Talvez haja mais roupas e máscaras protetoras à disposição, também para os familiares que querem se despedir de seus entes queridos?

Eu me inclino perante todos os médicos, enfermeiros, religiosos e agentes funerários, e, acima de tudo, perante todas as famílias afetadas, que a cada dia tentam demonstrar humanidade no meio da crise do coronavírus e, por isso, suportam uma carga inimaginável.

Eles percorrem a Via Dolorosa que todos os cristãos evitarão nesta Páscoa por temerem uma contaminação. Eles mostram que a humanidade às vezes está acima das proibições. E que a vida pode celebrar a ressurreição.

Só o vírus ganha

Editorial
O Estado de S.Paulo

Mesmo que revele uma competência ímpar, Nelson Teich precisará de um tempo que não existe. A troca de ministro é imprudência que só se explica pelos interesses eleitorais de Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro decidiu trocar seu ministro da Saúde em plena pandemia de covid-19. Trata-se de uma decisão exclusivamente política, já que o atual titular do Ministério, Luiz Henrique Mandetta, vinha fazendo um trabalho tecnicamente bastante razoável, em especial quando consideradas as duríssimas circunstâncias – que, não bastasse a ferocidade do coronavírus em si, incluem sabotagem explícita do próprio Bolsonaro e dos filhos do presidente.

O substituto de Mandetta, o oncologista Nelson Teich, terá o imenso desafio de montar uma nova equipe e se inteirar de toda a estrutura montada para enfrentar a pandemia justamente no momento em que esta começa a atingir o pico no País. Mesmo que revele competência ímpar, o novo ministro precisará de tempo – e tempo é um luxo que as autoridades sanitárias na linha de frente desta crise não têm.

Portanto, a troca de ministros é uma evidente imprudência de Bolsonaro, que só se explica por seus interesses eleitorais. O fato de que Luiz Henrique Mandetta desfruta de popularidade muito superior à do presidente explica, em grande medida, o nervosismo de Bolsonaro com seu agora ex-ministro. O presidente se sentiu desautorizado por Mandetta quando este resolveu ignorá-lo e, baseado na ciência, sustentou o discurso segundo o qual a única forma de conter a pandemia é manter a população em isolamento social.

Como se sabe, Bolsonaro é fervoroso defensor do fim do isolamento e da “volta à normalidade”, mesmo que isso cause mais mortes – mas isso, para o presidente, “é da vida”. Seu comportamento é tão irresponsável que mereceu lugar de destaque na imprensa internacional.

O Washington Post, por exemplo, considerou Bolsonaro “de longe o caso mais grave de improbidade” entre os líderes mundiais ao lidar com a crise. O Financial Times, por sua vez, colocou Bolsonaro no que chamou de “Aliança do Avestruz”, grupo dos únicos quatro chefes de governo no mundo que minimizam ou negam a ameaça da covid-19 – já chamada de “gripezinha” pelo presidente brasileiro. E a revista The Economist chegou a dizer que Bolsonaro foi tão longe que em seu próprio governo é tratado “como aquele parente problemático que dá sinais de demência”.

Obcecado em mostrar sua autoridade – “eu sou o presidente”, costuma repetir, como se isso fosse necessário –, Bolsonaro provavelmente espera que o novo titular do Ministério da Saúde não o contrarie e, sobretudo, não o ofusque. Não será surpresa se, sob nova direção, o Ministério passar a chancelar os palpites de Bolsonaro – que, além de um inviável “isolamento vertical”, incluem a receita de um remédio cuja eficácia não está comprovada, ao contrário de seus efeitos colaterais, já suficientemente documentados. Também não será surpresa se, no embalo desse discurso, mais e mais cidadãos se sentirem estimulados a abandonar a quarentena, como, aliás, já está acontecendo, o que tende a acelerar o colapso do sistema hospitalar.

O presidente quer também um ministro da Saúde que esteja a seu lado na briga contra os governadores, a quem atribui a responsabilidade pela crise econômica que está erodindo sua popularidade e ameaça sua reeleição. O ex-ministro Mandetta, ao contrário, sempre deixou claro seu pleno alinhamento com as duras medidas adotadas pelos governadores, pois não é possível falar em retomada da atividade econômica com um vírus letal à solta por aí.

Diante disso, espera-se que os governadores e prefeitos fiquem firmes na manutenção do isolamento social. Numa vitória do bom senso, o Supremo Tribunal Federal decidiu na quarta-feira passada que Estados e municípios têm autonomia para estabelecer o grau do isolamento necessário para conter o avanço da pandemia, contrariando o presidente Bolsonaro, que julga ter o poder de deliberar a esse respeito.

Todas essas garantias institucionais, no entanto, não serão suficientes para impedir que um Ministério da Saúde subserviente ao obscurantismo bolsonarista cause ainda mais confusão – com a qual somente o vírus ganha. Como disse o ex-ministro Mandetta à Veja, “o vírus não negocia com ninguém, não negociou com o Trump, não vai negociar com nenhum governo”. Só nos resta esperar que o novo ministro cultive as virtudes da paciência, da prudência e do bom senso.

Só os mais pobres é que pagam

Comentando a Notícia

No Congresso tramita um projeto, já aprovado na Câmara,  que prevê o desvio de mais de 80 bilhões para socorrer estados e municípios, sob a justificativa de se compensar a perda de arrecadação que estes entes sofrerão pela paralisação da economia.  Mas peraí: o dinheiro sairá dos cofres da União, que também terá perdas imensas pela redução de receitas e, como se vê e se sabe, ela não receberá nenhum centavo a título de compensação. Além do mais, a mesma União já destinou muitos bilhões de reais para programas emergenciais  - pessoas físicas e jurídicas - que saíram e sairão dos mesmos cofres. 

Neste mesmo projeto – conhecido como “bomba fiscal” com justos motivos – a única compensação que estados e municípios serão obrigados a fornecer é o congelamento de salários dos servidores. E só. Redução de despesas em áreas não ligadas à saúde ou compensações sociais, nem pensar. Ali não se encontram redução de salários de prefeitos, vereadores, deputados  e secretários, mais assessores, desligamento de servidores não concursados ocupando apenas vagas políticas -  normalmente sem finalidade alguma -, redução do número de secretarias, dentre outras cositas. Nos casos em que houver, programas de privatização de estatais ou mero fechamento das inúteis e que se prestam apenas para cabides de emprego. E o que dizer dos tais fundos partidário e eleitoral, que consumirão em torno de R$ 3,0 bilhões? Que tal redução  dos salários de todos os servidores de todos os poderes, incluindo presidente, ministros, juízes e magistrados, deputados federais e senadores e, claro, toda a mordomia luxuosa com que alimentam? Há um projeto neste sentido que, parece, sequer será apreciado.

Ou seja, na iniciativa privada, além do desemprego e da redução de salários ou suspensão dos contratos, é que vai pesar todo o custo econômico e social, sabendo-se que, na comparação com os salários dos servidores, a iniciativa privada perde de 10 a zero. Lembrando sempre que servidores gozam da maldita estabilidade, e isto em qualquer crise. 

Como se vê são os trabalhadores da iniciativa privada que terão de arcar com o prejuízo e a conta, enquanto a elite estatal continuará desfrutando de suas benesses, privilégios morais e  imorais, demonstrando, deste modo, zero comprometimento para com a sociedade que a sustenta. 

Não é a toa que o Brasil é um país atrasado, miserável em boa parte de sua população que, além disto, mal sabe desenhar o próprio nome enquanto 50% dela vive e convive com esgoto a céu aberto,  em barracos por falta de um programa habitacional  decente, muitas vezes sem acesso a água potável – lavar as mãos, na epidemia,  só quanto chove.  Isolamento social para esta parcela da sociedade chega a ser desumano. Como isolar as pessoas que habitam uma peça de 2 metros x 2 metros onde se apertam 8, 9, 10 pessoas, todas respirando o mesmo ar infectado? E por que estas população está condenada à miséria e pobreza imensa? Porque boa parte da riqueza que é produzida no país é, solenemente desviada para sustentar a luxúria deste bando de cretinos.

O site do jornal O Globo desta terça feira, 14, traz um alerta assustador: “especialistas” – sempre eles – fazem um prognóstico de que o país já conta mais de 300 mil infectados. (para ser exato, os tais “especialistas” estimam 313.288 a quantidade de infectados – quanta precisão, meu Deus!!!)  Justificativa? As tais subnotificações, isto é, exames e testes já realizados sem um resultado conclusivo. Mas como se chegou a número apavorante?  Eis uma pergunta em busca de uma resposta sensata, dado que, segundo o Ministério da Saúde apenas aproximadamente 30 mil, e apenas 30 mil são os testes ainda sem resultado.  A outra “razão” é o fato do país realizar poucos testes quando comparado com outros países. E neste ponto específico, o céu é o limite para a chutometria funcionar a valer!

 Os “especialistas” podem até estarem corretos em seus cálculos, mas chegou-se a eles sem nenhuma base científica que os comprove. 

É preciso que o país não se perca no pânico (infelizmente já instalado) tomando o caminho da irracionalidade. Enquanto um Ministro da Saúde aponta, com serenidade e equilíbrio, sustentado por evidências médicas e científicas,  caminhos e cuidados, temos um presidente que além do pouco caso para com a pandemia e s males que ela está provocando, sai por aí desafiando o indispensável cuidado que deveria ter e manter, para que, ao menos, servisse de exemplo para a população. Não só isso: teve a cara de pau de afirmar numa reunião com religiosos, enquanto os números de infectados iam aumentando exponencialmente e os mortos se avolumando nos necrotérios, que a pandemia já estava passando, quando sequer o país o país atingiu o pico da pandemia. Irresponsabilidade absoluta! Molecagem ao extremo.

De outro lado, demorou uma eternidade para produzir e proclamar programas sociais para atenuassem as consequências da crise instalada. E é o mesmo presidente que admite que seus rebentos, dia sim dia também, continuem fazendo intrigas, esparramando mentiras e calúnias contra aqueles que não se submetem a chibata do paizão e que usam os neurônios para pensar com sensatez e equilíbrio. É o mesmo presidente que admite demitir o Ministro da Saúde, sua competência e sua equipe não menos capaz, mas deixa no ministério um incompetente, grosseiro e incapaz ministro da Educação que, em um ano, não moveu um dedo em favor da melhoria do ensino público.

Como se vê, tudo acaba convergindo para que os mais pobres sejam os mais prejudicados e tenham que, em futuro próximo, arcar com o peso da conta que, inevitavelmente, o país terá de pagar por abrir e esgaçar os cofres para compensar as consequências ruins provocadas pela pandemia. A tal elite estatal, podre e boa parte vagabunda e corrupta, continuará desfrutando das delícias do reino, sob o peso insuportável da miséria da população. E um governo que permite que vingue sobre seu povo todo este peso, não apenas não está à altura de sua missão, mas não merece nem a confiança tampouco a continuidade de seu mandato.  

E outra coisa não se fala mais além da solidariedade. Num tempo em que o sacrifício é obrigação de todos, termos um governante delirante e incapacitado de liderar seu povo durante a crise, é triste constatar que foi preciso uma pandemia para que descobríssemos quem são os verdadeiros produtores da miséria e tremenda desigualdade social que assola o Brasil: basta olhar quem senta nos tronos dos 3 Poderes. Nem num momento como este esta cambada é capaz de mover um dedo em favor do Brasil. . E, como esta camarilha inútil e dispendiosa vai desviando nossas riquezas apenas para seu exclusivo e luxuriante  usufruto, o resultado é que el será a única responsável, como foi até hoje, para o aumento da pobreza e alargamento da miséria da população.

Talvez um dia, quem sabe, apareça um vírus que ataque apenas essa “classe” de pessoas e dê a elas a lição que se negam em aprender, dividindo com os pobres as riquezas que o Brasil produz tão fartamente. 

A irresponsabilidade fiscal dos estados tem tudo para continuar

Editorial
Gazeta do Povo

.| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Plano de socorro a estados endividados virou entrega pura
 e simples de dinheiro para repor perdas de arrecadação

Mais uma oportunidade para incentivar estados e municípios a realizar um ajuste fiscal, ainda que no futuro, foi desperdiçada pela Câmara dos Deputados ao aprovar, na terça-feira, dia 13, um plano de socorro construído sob os escombros do excelente Plano Mansueto. O projeto original era um mecanismo bastante interessante, que dava a governadores e prefeitos a escolha entre várias ações de ajuste fiscal que, se realizadas, permitiriam uma renegociação de dívidas com a União; o seu substituto (que ainda precisa passar pelo Senado e pela sanção presidencial) é, basicamente, a entrega pura e simples de dinheiro da União para estados e municípios quase sem contrapartida alguma – as únicas exigências feitas ali não passam de obviedades que, se omitidas, apenas acrescentariam ao absurdo que os deputados fizeram com o texto original do governo.

Poderia ter sido pior? Sem dúvida alguma. O primeiro substitutivo do deputado Pedro Paulo merecia todos os apelidos negativos que lhe foram dados, especialmente o de “bomba fiscal”. Ele abriria a porta para que os entes subnacionais se endividassem ainda mais, com garantia da União – e fatalmente o Tesouro Nacional seria chamado a pagar a conta, dada a situação atual de insolvência de vários estados brasileiros, que mais cedo ou mais tarde seriam incapazes de honrar os compromissos que assumiriam daqui em diante. Tudo isso sem que nada fosse pedido de governadores e prefeitos em termos de ajuste fiscal, adoção de teto de gastos, controle das despesas com o funcionalismo ou privatizações – nem agora, nem no futuro.

Fica mantida a sina dos problemas estruturais que afligem estados e municípios e os levam ao caos financeiro

Mas isso não significa que o texto aprovado na Câmara seja bom – ele é apenas melhor que o substituto anterior, mas ainda distante do aceitável. Na segunda-feira, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), apesar de seus ataques ao ministro Paulo Guedes, admitiu que “a ideia inicial [apoiada por Maia, diga-se de passagem] teve problemas” e que o relator deixaria de fora dois itens importantes: a possibilidade de estados e municípios se endividarem ainda mais com garantias da União; e a suspensão do pagamento das dívidas de estados e Distrito Federal com a União. Permaneceram a suspensão do pagamento de empréstimos feitos com bancos públicos e a recomposição da perda de arrecadação de estados e municípios.

Pela regra aprovada, de maio a outubro deste ano, o governo federal vai repor mensalmente a diferença do ICMS (estadual) e ISS (municipal) caso a arrecadação nos estados, Distrito Federal e municípios seja menor que a verificada entre abril e setembro de 2019 – e ela inevitavelmente será menor, já que foram os próprios estados e municípios que decidiram por variados graus de interrupção da atividade econômica para conter a expansão da Covid-19. Interrupção, aliás, que tem tudo para ganhar sobrevida; afinal, se os estados e municípios terão garantidos pelo menos os mesmos valores de ICMS e ISS arrecadados em 2019, que estímulo terão para planejar a reabertura gradual e cuidadosa dos negócios?

Em troca dessas dezenas de bilhões de reais, governadores e prefeitos só terão de cumprir duas exigências: aplicar esse dinheiro em ações de prevenção e combate à pandemia (e já existem dúvidas pertinentes sobre a capacidade de se fiscalizar esse uso), e se abster de oferecer benefícios e isenções fiscais que afetem a arrecadação do ICMS e do ISS, com exceção de benefícios diretamente ligados à Covid-19 e do adiamento de pagamento de impostos por parte de micro e pequenas empresas. Era o mínimo a se pedir em troca dessa compensação, mas muito pouco quando se sabe da situação fiscal de vários estados e municípios, resultado de décadas de negligência que também é motivada pela convicção de que o Tesouro Nacional abrirá o cofre em algum momento para afogar a irresponsabilidade em dinheiro novo, por vontade própria ou por decisão do Poder Legislativo, como se está fazendo agora.

Como já afirmamos, o Plano Mansueto poderia não ser a resposta ideal neste exato momento, em que se justifica um gasto público maior – inclusive com repasses aos entes subnacionais que gerenciam boa parte do sistema público de saúde – para conseguir conter a pandemia e mitigar o desastre causado pela paralisação da economia. Mas ele era o que de melhor foi pensado até hoje como meio de levar os estados e municípios a ter boas práticas de responsabilidade fiscal. Poderia ser deixado de lado e retomado em um momento mais propício. Em vez disso, acabou desfigurado em nome da “prerrogativa da União de imprimir moeda”, invocada por vários secretários estaduais da Fazenda. Mantém-se, assim, a sina dos problemas estruturais que afligem estados e municípios, bem como o “risco moral” que leva governadores e prefeitos a adiar indefinidamente seus necessários ajustes fiscais.

Socorro, o piloto pirou

Nelson Mota
O Globo

O cara não é normal, tem corpo fechado, desafia o vírus

O rei Jorge III (1738-1820) foi um dos monarcas mais queridos da Inglaterra, fez muitas conquistas, embora tivesse perdido a sua maior colônia na América, os Estados Unidos, mas teve um problema na velhice: enlouqueceu.

Maluco beleza, saía pelos corredores do Castelo de Windsor enrolado em lençóis, uma vez falou 58 horas sem parar, num passeio pelo campo saiu cantando completamente nu, dizia coisas desconexas. Embora na época os médicos pouco soubessem sobre doenças mentais, era claro que o rei estava incapacitado para governar, e seu filho foi nomeado regente. Como no filme “A loucura do rei”.

Se já é difícil dizer que o rei está nu, muito mais é convencê-lo de que está louco. Como o presidente Delfim Moreira (1918-1919).

Como convencer um insano de que ele está doente? E se for o rei da Inglaterra?

E se for o presidente do Brasil?

Com todo o respeito e compaixão pela dor e o sofrimento dos doentes mentais, cada dia mais Bolsonaro diz e faz coisas que não podem ser só burrice, ignorância, maldade, narcisismo ou paranoia. Qualquer profissional de doenças mentais vê traços preocupantes no seu comportamento. Afinal, o cara não é normal, tem corpo fechado, desafia o vírus, o Congresso e o Supremo, se acha um mito invencível.

Demência não é vergonha, não é castigo divino nem culpa do doente. Mas se, para obter uma carteira de caminhoneiro o cara tem que fazer exames de sanidade mental, se grandes empresas o exigem antes de contratar, por que não o presidente da República ? 

Quem poderia obrigar o presidente a um exame de sanidade mental por uma junta médica, o Congresso? Os generais? Várias ações já correm na Justiça. O que diz a Constituição?

Na gíria das favelas, os malucos são chamados de “22”, artigo do antigo Código Penal sobre insanidade mental, como “Paulinho 22”, “Telma 22” e, por que não, “Jair 22”? O bom da insanidade é que ela apaga tudo de ruim que foi feito, até crimes, porque o cara é inimputável. É melhor que impeachment.

Só não podem nomear Carluxo como regente.

Coronavírus pode levar meio bilhão de pessoas para a pobreza, diz estudo

Exame.com
Com informações  Agência O Globo

Segundo Oxfam, até 8% da população mundial está ameaçada se países em desenvolvimento não receberem ajuda externa por causa da covid-19

(Kieran Stone/Getty Images)
Pobreza: comunidades enfrentam o coronavírus 
com casas lotadas e sem saneamento básico 

Mais de meio bilhão de pessoas podem ser levadas à pobreza com a pandemia de coronavírus, alertou relatório da Oxfam nesta quinta-feira, caso não sejam tomadas providências urgentes para socorrer países em desenvolvimento.

Segundo o estudo, entre 6% e 8% da população global, cerca de 500 milhões de pessoas, poderá entrar na pobreza à medida que os governos fecham suas economias para impedir a disseminação do vírus.

“Isso pode representar o retrocesso de uma década na luta contra a pobreza. Em algumas regiões, como a África subsaariana, norte da África e Oriente Médio, essa luta pode retroceder em até 30 anos. Mais da metade da população global pode estar na pobreza depois da pandemia”, diz o texto.

E isso sem falar na desigualdades sociais. Segundo a Oxfam, só um em cada cinco desempregados tem acesso a benefícios como seguro-desemprego.

“Dois bilhões de pessoas trabalham no setor informal pelo mundo, 90% nos países pobres e apenas 18% nos países ricos”, aponta o relatório, que lembra que o Brasil tem cerca de 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada e cerca de 12 milhões de desempregados. “Estima-se que a crise econômica provocada pelo coronavírus adicione, ao menos, mais 2 milhões de pessoas entre os desempregados” no país.

De acordo com a entidade, o auxílio emergencial de R$ 600 aprovado pelo governo é uma primeira ação para minimizar esse impacto, mas está longe de ser suficiente.

“Será preciso ampliar o número de pessoas atendidas, garantir agilidade nos pagamentos, estender o período de concessão da renda e fazer o movimento para avançar em uma Renda Básica Cidadão, agenda pendente no Brasil há décadas”, afirma.

Além dos US$ 2,5 trilhões que a ONU considera necessários para apoiar os países em desenvolvimento, será preciso um adicional de US$ 500 bilhões em ajuda externa. Isso inclui US$ 160 bilhões para financiar os sistemas públicos de saúde dos países pobres e US$ 2 bilhões para o fundo humanitário da ONU, diz a Oxfam.

Ignorância atrevida

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Presidente emperra as políticas nacionais de combate ao coronavírus

A crise, qualquer crise, pode ser favorável aos governantes de plantão. E um problema para as oposições. Neste momento, mundo afora, todo dia a gente vê as autoridades na televisão anunciando medidas, recomendando comportamentos, pedindo apoio para o sacrifício necessário. Já as lideranças de oposição quase desaparecem da mídia. Ficam até constrangidas: criticar neste momento?

Mas dada essa regra geral — o governante sai em vantagem no momento crítico —, surgem as diferenças. Alguns crescem, como o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte. Ele chegou ao posto em junho de 2018, numa daquelas situações típicas da política italiana: um arranjo provisório diante de um impasse entre partidos.

Nunca tinha sido político, estava como que tomando conta do posto.

Cresceu na crise do coronavírus. Os governantes regionais do norte da Itália fracassaram, mas Conte foi o primeiro na Europa a decretar o confinamento, assumindo os riscos com um discurso firme. Tornou-se uma liderança europeia, ao propor medidas de combate às crises sanitária e econômica.

E nem precisamos ir longe. O médico Luiz Henrique Mandetta é ortopedista, não infectologista ou epidemiologista. Não passava de um político regional. Hoje, tem mais de 75% de aprovação popular e talvez até mais nos meios políticos.

Agiu como manda o manual: assumiu a liderança e os riscos, soube encontrar especialistas aos quais deu autonomia e nos quais confiou.

Fernando Henrique Cardoso, num livro sobre sua carreira, chamou-se “presidente acidental”. O Ministério da Fazenda caiu nas suas mãos como um limão azedo e dali ele tirou a limonada do Plano Real, sem ter qualquer especialidade em economia. 

Conte e Mandetta também são líderes acidentais.

Bolsonaro também é um presidente acidental, mas pelo lado negativo. De anos de baixo clero, de repente tornou-se a alternativa aos desastres do PT. Era completamente despreparado para o cargo, mas outros líderes também chegaram assim aos seus postos.

Nesses casos, a diferença entre o êxito e o fracasso está no tamanho da ignorância. Alguns guardam um pouquinho de sabedoria, o suficiente para saber que não entendem nada daquilo e que é melhor chamar gente que entende. Bolsonaro fez isso na Economia, quando outorgou poderes ao ministro Paulo Guedes.

Mas tirante isso — e talvez o ministro Moro— Bolsonaro carrega aquilo que nossas avós chamavam de “ignorância atrevida”. Ele acha que entende de radares nas estradas, pontos na carteira de motorista, cloroquina, índios, nióbio, coronavírus, como domar o Congresso e os políticos. Para ele e seu pessoal mais próximo, aquecimento global, pandemia, direitos humanos, atendimento aos pobres, a Rede Globo e a mídia em geral, óleo nas praias — tudo é uma conspiração de esquerdistas, com a China comunista sempre por trás, às vezes a pobre Venezuela ou “os estrangeiros”.

Parece tosco — e é tosco. Nessa circunstância, não se podia esperar mesmo que ele entendesse o tamanho da crise de saúde. Por sorte, surgiram lideranças localizadas, como Mandetta, e nos estados, como muitos governadores e prefeitos. Mas com o presidente atrapalhando, isso emperra as políticas nacionais de combate aos efeitos do coronavírus e de preparação para a saída da crise. 

Muitos governantes se atrasaram no reconhecimento da crise, mas conseguiram dar a volta. Menos quatro: os ditadores da Bielorússia, do Turcomenistão — aquele que manda tomar vodca contra o vírus — da Nicarágua e Bolsonaro, o único eleito em um pleito democrático mas que ele acha que foi fraudado. Sim, ele também acha que entende de sistema de urnas eletrônicas. (Aliás, ele prometeu provas de que foi roubado no primeiro turno e até agora nada. Assim como não mostra seus exames de coronavírus).

Não tem como dar certo. A crise vai deixar mais mortos do que se fosse administrada de modo mais competente. A recuperação econômica e social será mais tardia e mais lenta. Dependemos da capacidade de lideranças localizadas, parlamentares, governadores, prefeitos, e da gente mesmo, sociedade e mídia séria e independente.

A conta da pandemia já está chegando

Editorial
Gazeta do Povo (Paraná)

Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná
Lojas fechadas em Curitiba

Dados e projeções para a atividade econômica em março mostram que a paralisação da atividade econômica, consequência da estratégia de isolamento social para evitar uma explosão nos casos de Covid-19, já cobra seu preço. A perda estimada no faturamento do comércio desde o início do surto foi de R$ 53,3 bilhões, ou 46,1%, em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) – só as vendas de Páscoa devem ter redução de 31,6% neste ano. Em relação a fevereiro, março teve queda de 16,2%, a maior da série histórica medida pela Serasa Experian.

Mesmo em setores como os de supermercados e combustíveis também houve redução, ainda que menor – 2,4% e 5,5%, respectivamente, o que se explica pelo fato de se tratar de itens imprescindíveis à sobrevivência. O maior estrago está nas vendas daqueles produtos e serviços cuja aquisição pode ser deixada para depois, como vestuário ou móveis. Um caso emblemático é o da indústria automobilística: a produção de veículos em março foi a menor para o mês em 16 anos, de acordo com a Anfavea, a associação das montadoras, e a venda de carros novos foi a menor desde 2006, segundo a Fenabrave.

Ter um plano com critérios definidos para a retomada das atividades é demonstração de que não precisa haver dicotomia entre preservação da saúde e a atenção à economia

Em regiões mais pobres das grandes cidades, a necessidade de lutar pela sobrevivência está levando a população a ignorar as recomendações de isolamento. O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, praticamente retornou à situação pré-pandemia três semanas após os decretos de fechamento de estabelecimentos, segundo o site G1, ao mesmo tempo em que a cidade registra as primeiras mortes na Rocinha, em Vigário Geral e em Manguinhos – um dos grandes temores de epidemiologistas era justamente o que poderia ocorrer quando o coronavírus chegasse às favelas, áreas mais densamente povoadas, sem saneamento básico e nas quais é muito mais difícil isolar os grupos de risco do restante da população.

Enquanto isso, a rede de proteção desenhada até agora pelo governo federal começa a ser colocada em funcionamento – por exemplo, com o pagamento dos R$ 600 mensais a uma série de categorias, como a dos autônomos –, embora com algumas limitações por fatores alheios à vontade do Poder Executivo. Os acordos individuais para redução de salário e jornada, desenhados pelo governo na MP 936 para evitar demissões, foram derrubados liminarmente pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF, que exige a anuência dos sindicatos; o plenário só avaliará a questão no dia 16 – uma demora inexplicável dada a urgência do tema e a possibilidade de ainda mais demissões. Enquanto isso, os bancos continuam relutando diante de pedidos de empréstimo, aumentando juros e encurtando prazos, “empoçando” (nas palavras do ministro Paulo Guedes) os bilhões de reais adicionais colocados no mercado por decisão do Banco Central.

Mas, como já afirmamos em várias ocasiões, as medidas emergenciais, ainda que acertadas, são paliativos. Só a retomada da atividade econômica poderá frear o impacto econômico da pandemia, mas este é um processo que exige cuidado absoluto. Ninguém deseja que a rotina volte ao normal apenas para acelerar a curva de contaminação, o que forçaria o retorno das medidas restritivas, talvez em caráter ainda mais drástico, aprofundando a recessão que já é inevitável. Mas autônomos, assalariados e empresários não podem continuar permanentemente no escuro em relação às perspectivas de retorno.

Assim, diante da pergunta “quando?”, a melhor resposta talvez não seja uma data específica, mas uma série de critérios que precisam ser definidos em conjunto entre os vários ministérios, sob a coordenação do presidente Jair Bolsonaro, e expostos à população. O Brasil vem correndo para ampliar sua capacidade de leitos de UTI e equipamentos hospitalares, adquirir testes, experimentar possíveis tratamentos. Esses indicadores poderiam embasar uma decisão sobre a intensidade do isolamento? Mike Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS), por exemplo, afirma que é possível flexibilizar as restrições se houver meios de testar grande parte da população para isolar os infectados. No Brasil, o Ministério da Saúde propôs um retorno gradual nos municípios e estados em que 50% do sistema de saúde esteja vago após a Páscoa, e onde o índice de contaminação estiver abaixo da metade da média nacional. Há outros critérios que também poderiam ser usados, como a estabilização ou redução do número de novos casos, com o desejado “achatamento da curva” para se ter certeza de que a rede hospitalar dará conta do surto. Tudo, evidentemente, com atenção especial a pontos críticos, como as cidades e estados com mais casos e mortes, ou onde o sistema de saúde esteja saturado – caso do Amazonas, onde 95% dos leitos de UTI estão ocupados e o hospital referência para tratamento do coronavírus já entrou em colapso.

Ter um plano com critérios definidos e informar a população, com toda a transparência, sobre os indicadores que permitirão a retomada das atividades é demonstração de que não precisa haver nenhuma dicotomia entre preservação da saúde e a atenção à economia. A falta de perspectivas e de respostas servirá apenas como incentivo para que o isolamento acabe rompido espontaneamente pela população, com consequências sanitárias imprevisíveis neste momento.

Triste Brasil

Elio Gaspari
O Globo

É como se o país tivesse virado um grande pernil e cada um vai lá para tirar sua fatia

Atribui-se ao professor San Tiago Dantas uma observação mortífera: “A Índia tem uma grande elite e um povo de merda, o Brasil tem um grande povo e uma elite de merda”. Com certeza, San Tiago disse que “vem se processando há séculos no Brasil um trabalho social de contínua desorientação das ‘elites’, que as vai afastando do exame cultural e político dos valores nacionais.” No discurso de posse que não viveu para ler, Tancredo Neves disse a mesma coisa: “Temos construído esta Nação com êxitos e dificuldades, mas não há dúvida, para quem saiba examinar a História com isenção, de que o nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites.”

Nunca a elite nacional ofereceu um triste episódio como o que os Três Poderes da República e boa parte do andar de cima vêm oferecendo diante da epidemia. (Ressalvada a doação de R$ 1 bilhão pelo Itaú Unibanco, a maior da história nacional.)

O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão. O século 20 teve 36 anos de ditaduras. Em 1978 o supermercado Carrefour foi expulso da Associação de Supermercados do Rio porque aceitava cartões de crédito. A ponte aérea Rio-São Paulo levou anos para dar aos seus passageiros acesso a programas de milhagem que existiam há mais de uma década. Os fazendeiros que insistiram em comprar escravos empobreceram. O supermercado que liderou a expulsão do Carrefour sumiu, e o oligopólio das aéreas foi à garra.

Sendo velho, o atraso poderia ter aprendido. Já morreram mais de mil pessoas e o oportunismo epidêmico do andar de cima agravou-se. O presidente da República diz que a Covid é uma gripezinha, afrontando a Ciência e a opinião pública. O ministro da Saúde é hostilizado pela charanga do Planalto porque defende o isolamento. Os inimigos de Bolsonaro passaram a ser seu ministro e os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro. Já à Covid, que está matando gente, ele deu compreensão. Do outro lado do balcão, a Câmara aprovou um pacote de ajuda aos estados que é visto como uma bomba fiscal, e o ministro da Economia avisa que o Executivo deverá vetá-lo. Empresários beneficiados pelos programas federais provisórios defendem sua transformação em mimos permanentes. Fazem tudo isso sabendo que depois da epidemia virá a recessão. 

É como se o Brasil tivesse virado um grande pernil e cada um vai lá para tirar sua fatia. Admita-se que todos têm razão, inclusive Bolsonaro com sua gripezinha. Se cada um continuar gritando, quem ganha é a Covid. Os barões da medicina privada querem falar de tudo, menos do colapso de hospitais do SUS (que está carregando o piano). Falta que essas duas turmas conversem, partindo de uma premissa: “Eu não quero te quebrar, mas você não pode querer me matar”.

Todos os lados acham que têm razão, mas não conseguem conversar. À primeira vista pode-se achar que isso se deve à polarização bolsonariana. É pouco. Em 1830 o deputado Antônio Ferreira França apresentou um projeto de abolição gradual da escravidão. Ela acabaria em 1851. Acabou em 1888 porque havia gente interessada nisso.

Há hospitais públicos recusando-se a admitir pacientes. Por quê? Porque chegam mortos.


Adeus à normalidade

Fernando Gabeira, 
O Estado de S.Paulo

Seria o vírus o novo agente transformador? Os grandes lances do futuro são imprevisíveis

Os filósofos sempre interpretaram o mundo. Agora que ele está revirado e quase todos recolhidos na quarentena, a tendência é uma grande produção de cenários sobre o mundo de amanhã, o pós-coronavírus.

Alguns queimaram a largada considerando a pandemia um exagero da imprensa, uma fantasia tirânica. Temiam, à esquerda, uma sucessão de ditaduras e, no outro polo, temiam o desgaste de seus populistas no poder.

Uma ditadura oportunista acabou se instalando apenas na Hungria. Noutros países segue o debate democrático sobre controle da pandemia, liberdades individuais e privacidade.

Em muitos casos, a sensação que tenho é de que as previsões nada mais são do que nossas expectativas projetadas no futuro. Talvez essa sensação pessoal venha das inúmeras vezes na história em que li a frase: o capitalismo está em crise terminal e no seu lugar virá um regime social mais fraterno e humano. Como disse o intelectual sul-coreano Byung Chul Han, o vírus não é revolucionário. As mudanças certamente vão depender das pessoas.

De fato, as esperanças de transformação se apoiavam na classe operária, houve quem as deslocasse para o lúmpen proletariado. O vírus seria o novo agente transformador?

De fato, a crise em que o capitalismo se move no momento é a mais grave de sua história, muito mais ampla e profunda que a de 1929. No entanto, alguns de seus movimentos clássicos se repetem: transformar-se e aprofundar-se com a crise.

A passagem para a economia virtual foi precipitada. As grandes empresas telefônicas, provedoras de internet, estão em alta. A Amazon contratou centenas de novos empregados. O comércio eletrônico ampliou-se, possivelmente liquidando milhares de lojas físicas que já estavam em decadência. Os patrões descobriram o home office e suas vantagens econômicas, pois sem grande perda de produtividade economizam na montagem de pesadas estruturas. É preciso ver humildemente o que vai sair daí, reconhecer também que não prevíamos a extensão da catástrofe.

O papel do Estado se acentua com a clara necessidade de sistemas de saúde universais e frentes de trabalho estimuladas pelos recursos públicos. Mas daí a afirmar que todo o processo de liberalização da economia foi um erro, é difícil. Como enfrentaríamos a pandemia sem o nível de comunicações que existe hoje, sem os milhões de smartphones espalhados pelo País? As velhas telefônicas estatais entrariam em colapso.

Da mesma forma existe uma onda real de solidariedade que nos enche de orgulho. Mas o discurso de que as pessoas serão transformadas e ficarão mais humanas e fraternais por causa do vírus lembra um pouco aquela figura do “novo homem” das utopias passadas.

O homem tal como descreveu Shakespeare e sempre existiu, com sua coragem, suas fraquezas e misérias, continua de pé. Como explicar, ao lado de tantas bondades, que exista gente roubando testes de coronavírus, insultando profissionais de saúde porque entram com suas roupas de trabalho no transporte público? E a quantidade de aplicativos falsos para lesar os que necessitam da ajuda de R$ 600 do governo?

Tudo isso não é para negar as transformações que virão. Apenas para abordá-las de forma mais modesta, como já faziam alguns intelectuais com a realidade imediatamente anterior ao vírus.

Edgard Morin, que já esteve no Basil nos anos 60, fazendo conferências, é um caso de evolução com humildade diante da complexa realidade. Na Inglaterra, Ziauddin Sardar desenvolve os estudos de pós-normalidade, uma época em que, segundo ele, muito pouca coisa faz sentido, pois as velhas ortodoxias morreram e as novas ainda não nasceram. Se os tempos anteriores ao vírus nos pareciam normais e já eram, para muitos teóricos, pós-normais, o que diríamos agora, depois da passagem do corona?

Verdade que alguns políticos previram. Barack Obama fez um discurso sobre o perigo de uma gripe do tipo espanhola de 1918 e disse que era preciso montar uma estrutura global para fazer frente a ela. Mas disse isso num país onde a ciência, o saber acadêmico, a própria imprensa já entravam em declínio sob o impacto do populismo de direita.

Os laços horizontais de solidariedade diante de políticos que se apagam na crise, o intercâmbio planetário de cientistas em busca de saídas para a crise, a entrega cotidiana dos profissionais de saúde, tudo isso é legado benéfico para os tempos que virão. Mas o gatilho de novas crises não será completamente desarmado.

Antes da chegada do vírus já vivíamos uma sucessão de eventos extremos potencializados pelo aquecimento global, negado enfaticamente pelos mesmos que negam hoje a dimensão da tragédia. Antes de entrarmos neste século perigoso, em que um vírus pode ser um acidente de laboratório, pouco adiantava lembrar que estacionamos no século 19 com nosso déficit em saneamento básico. Quem sabe agora, com dinheiro público e força de trabalho, não damos pelo menos esse modesto passo?

Os grandes lances do futuro são imprevisíveis. Mas não há desculpa para protelar os passos óbvios do presente. Em nome não somente das pessoas, mas do próprio sistema de saúde, que hoje tanto agradecemos.

O Brasil dividido entre o partido antivírus e o pró-vírus

J.R. Guzzo
Gazeta do Povo (Paraná)



A epidemia oferecida ao mundo pelo coronavírus da China conseguiu produzir, no Brasil, um fenômeno talvez sem precedentes: pela primeira vez na história uma substância química passou a servir como linha de divisão entre a direita e a esquerda. É essa hidroxicloroquina, um clássico trava-língua do qual ninguém jamais tinha ouvido falar até hoje fora da comunidade envolvida com o universo da química, mas sobre a qual todo mundo passou a ter, subitamente, opiniões apaixonadas – do presidente da República ao porteiro do seu prédio. A discussão é se essa droga, disponível através da indústria farmacêutica, serve ou não para curar a Covid-19.

Química é química, e política é política, mas no Brasil irracional em que estamos vivendo, as coisas não são assim. Se você é de direita, e a favor do presidente Jair Bolsonaro, você acha que a hidroxicloroquina é um santo remédio para curar a Covid-19. Se você é de esquerda, e contra o governo, acha que é um veneno – ou, no mínimo, uma substância suspeita, de efeitos desconhecidos e que não pode, de jeito nenhum, ser receitada para ninguém.

Bolsonaro deveria dizer, em público, que é a favor daquilo que é contra

Naturalmente, como de costume, quanto menos o sujeito sabe sobre química, farmácia e medicina, mais certeza ele tem de que está com a razão. Não ajuda em nada, para se melhorar os níveis clareza do bate-boca, o fato de que os próprios médicos e pesquisadores estão amargamente divididos sobre os efeitos do medicamento.

Não é uma questão difícil de entender quando se leva em conta que, desde a chegada da epidemia, o Brasil se dividiu entre o partido antivírus e o partido pró-vírus. O primeiro quer que a Covid-19 seja eliminado o mais cedo possível, que o confinamento seja encerrado e que o país volte a funcionar rapidamente. O segundo quer que a epidemia apresente estatísticas cada vez piores, que a quarentena seja reforçada e que o país demore o máximo possível para voltar ao normal.

O Brasil antivírus, é claro, é o do governo – quanto mais cedo a praga acabar, melhor para ele. O Brasil pró-vírus é o da oposição. Quanto mais o país demorar para recuperar a normalidade, tanto pior para o governo e o seu futuro político.

O resto dessa história toda é bem conhecido. A hidroxicloroquina está disponível e sendo aplicada, é claro, nos hospitais dos ricos e dos planos médicos “top de linha”; é tomada, também, pelos médicos que pegaram o vírus e podem controlar o seu próprio tratamento.

O raciocínio que está valendo, aí, é o seguinte: os conhecimentos já obtidos sobre a droga ainda não são completos, mas já são suficientes para aplicá-la, sem riscos, num vasto número de pacientes No SUS, e para o povão, o raciocínio é esse mesmo, só que ao contrário: os conhecimentos sobre a substância ainda não são completos e, portanto, ela não deve ser aplicada.

O jornalismo investigativo deu a si próprio a missão de investigar, em todos os seus detalhes, as possíveis contraindicações da hidroxicloroquina e, sobretudo, em demonstrar que não há certeza científica sobre os seus benefícios. As “instituições”, como um todo, também se colocam contra – salvo quando seus próprios membros passam a precisar de tratamento. A oposição age da mesma forma.

É muito fácil, obviamente, exigir consenso absoluto sobre a eficácia, o alcance e a conveniência da aplicação da substância quando você próprio não precisa esperar, para tomá-la, pelos próximos vinte ou trinta anos – tempo que a ciência médica, em geral, demanda para ter certeza suficiente sobre medicamentos e terapias. O duro, justamente, é a espera. Mas isso é coisa para pobre – e os pobres, como sempre, que se explodam.

The Economist: Jair Bolsonaro se isola, no sentido errado

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Imprudência do presidente brasileiro diante da covid-19 voltará para assombrá-lo

  Foto: Gabriela Biló/ Estadão
O presidente Jair Bolsonaro 

Um a um, os negacionistas fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública que a covid-19 representa. Dois são de destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. O terceiro é Daniel Ortega, ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande - ainda que combalida - democracia. O esforço de Jair Bolsonaro para minar as iniciativas de seu próprio governo no combate ao vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

Desde que o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez no Brasil, no final de fevereiro, Bolsonaro, um ex-capitão do exército que tem adoração pelos governantes militares, fez pouco caso da doença. Menosprezando seus efeitos como “só uma gripezinha”, ele disse que era preciso "enfrentar o vírus como homem, pô, não como moleque”. E acrescentou, num tom bastante consolador: “todos nós vamos morrer um dia”. Nos quinze meses desde sua chegada à presidência, os brasileiros se acostumaram às suas bravatas de machão e à sua ignorância em questões que vão desde a preservação da floresta amazônica até educação e policiamento. Mas, desta vez, o dano é imediato e óbvio: Bolsonaro juntou a retórica truculenta à sabotagem ativa da saúde pública.

Ele diz acreditar no “isolamento vertical”, na quarentena apenas para os brasileiros com mais de 60 anos, com o objetivo de limitar os danos à economia. Existem dois problemas nesse raciocínio. Os jovens também morrem de covid-19 (10% das vítimas no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição de uma quarentena desse tipo seria impossível.

Os governadores dos estados mais importantes do Brasil tomaram a frente e impuseram isolamento social utilizando seus próprios poderes. Bolsonaro encorajou os brasileiros a ignorá-los. Homem que teme traições e sente uma perpétua necessidade de provocar, ele recebeu com abraços e selfies seguidores que faziam uma manifestação contra o Congresso, em 15 de março. O presidente também lançou uma campanha incentivando as empresas a reabrirem as portas e pediu “jejum e manifestações” nas igrejas em 5 de abril. Ele cogitou decretar, ilegalmente, o fim do isolamento. E, por duas vezes, chegou perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, um médico conservador que se opôs publicamente ao clamor do presidente para afrouxar as restrições. Ao que parece, Bolsonaro está com ciúmes da ascensão de um ministro que, segundo ele, “não tem humildade”.

Mesmo para seus próprios padrões, a recusa de Bolsonaro em cumprir seu dever primordial de proteger vidas foi longe demais. Grande parte do governo o trata como um tio inconveniente que apresenta sinais de insanidade. Os principais ministros, entre eles o grupo de generais que faz parte do gabinete, bem como os presidentes das duas casas do Congresso, deram apoio ostensivo a Mandetta, que também tem a população ao seu lado. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha apontou que 76% dos brasileiros aprovam a maneira como o Ministério da Saúde vem combatendo o vírus. Em comparação, 33% aprovam o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

Os clamores pela renúncia de Bolsonaro aumentaram. E não apenas na esquerda, mas também entre alguns de seus antigos aliados, como Janaina Paschoal, deputada estadual por São Paulo que Bolsonaro chegou a considerar para vice na chapa presidencial. Ela disse que o presidente era culpado de “um crime contra a saúde pública” e acrescentou: “não temos tempo para o impeachment”.

Não há dúvida de que as condutas do presidente justifiquem constitucionalmente um impeachment, destino que caiu sobre dois de seus antecessores, Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016. Mas, por enquanto, Bolsonaro mantém apoio público suficiente para sobreviver. Se, à época, as pesquisas apontaram que a maioria era a favor da deposição de Dilma (por violar a lei de responsabilidade fiscal para ganhar a reeleição), 59% dos brasileiros disseram ao Datafolha que não querem que Bolsonaro renuncie. O índice de aprovação de Dilma girava em torno de 10%; Bolsonaro mantém o apoio de um terço dos eleitores. Poucos em Brasília acreditam que o país queira ou possa arcar com a turbulência de um impeachment enquanto se vê tomado pela covid-19.

Bolsonaro é sustentado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos (entre eles, três de seus filhos), pela fé de muitos evangélicos e pela falta de informações sobre a covid-19 entre os brasileiros. Os dois últimos fatores podem mudar à medida que o vírus começar a ceifar vidas nos próximos meses. Em 8 de abril, o Brasil contava 14.049 casos confirmados e 688 mortos. E pode ser que o presidente não consiga se isolar da culpa pelo impacto econômico. Por sua imprudência com a vida dos brasileiros, Bolsonaro fez com que sua própria queda entrasse na agenda política. É bem provável que ela permaneça ali mesmo depois do fim da epidemia. / 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Caminho do Brasil até fim da quarentena promete ser árduo

Larissa Linder
Deutsche Welle 

Pesquisadores brasileiros consideram impossível estimar quando o pior terá passado no país, mas adiantam que saída do coronavírus exigirá superação do pico de infectados e testes de imunidade abrangentes.
    

Controle de saúde em São Paulo

Foram necessários 76 dias de isolamento e semanas sem novos casos de infectados pelo Sars-Cov-2 para que as autoridades chinesas tomassem a decisão de encerrar a quarentena na cidade de Wuhan, epicentro da pandemia de covid-19. Na quarta-feira (08/04), os 11 milhões de moradores voltaram a sair de suas casas dentro de uma normalidade maior, com a certeza de que o pior já passou – o que está longe de significar que não haverá novas ondas da doença.

A DW Brasil conversou com pesquisadores para entender quando, afinal, o pior terá passado também para os brasileiros. Há ao menos duas certezas: é cedo demais para aliviar qualquer restrição no país, e não é possível responder com segurança quando e como se sairá da quarentena. Em princípio será necessário boa parte da população já estar imunizada, e ter sido superado o pico da curva de infectados.

Encontrar respostas torna-se complexo porque, além de se tratar de um inimigo desconhecido e todo estudo neste momento vir com uma lista de ressalvas, há no Brasil um problema adicional: faltam dados fidedignos, apontam os pesquisadores.

Sem testes em massa e com outros tantos represados em laboratórios, não é possível saber ao certo como a curva de infectados evolui e como a doença avança em diferentes regiões. Assim, fica difícil fazer previsões. Por enquanto, só se sabe que o país se encontra na subida da montanha de novos infectados. Quando chegar ao cume, é impossível prever, dizem os pesquisadores, que olham com muita desconfiança qualquer estimativa do tipo.

"O problema de sair da quarentena é o seguinte: você só vai poder sair com certeza, quando todas as pessoas ou 80% da população estiver imunizada", diz Fernando Reinach, biólogo, professor aposentado da Faculdade de Bioquímica da Universidade de São Paulo e colunista de O Estado de S. Paulo.

Ele aponta duas possibilidades: imunização: pela vacina – que está longe de chegar – ou pela doença . "Acho que a primeira chefe de Estado que falou isso claramente foi a [chanceler federal alemã] Angela Merkel, que disse que achava que 70% dos alemães teriam que pegar o vírus. Como todas as pandemias, só acaba quando o vírus não tem mais quem infectar."

Ele explica que só se verificam os resultados de uma eventual liberação depois de 15 a 30 dias: "Vamos supor que libere hoje [da quarentena], as pessoas começam a se contaminar e a doença começa a se espalhar, 15 dias depois começam a aparecer casos no hospital, 20 dias depois começam a morrer de novo. E aí decidem fechar de novo, e são mais 20 dias para ver o resultado do fechamento."

O pneumologista Carlos Alberto Barros Franco, membro da Academia Nacional de Medicina, lembra que a ideia do isolamento não é evitar que se pegue o coronavírus, mas que não se tenha um grande contingente da população contaminado ao mesmo tempo, sobrecarregando o sistema de saúde.

"A questão não é se vou pegar, é quando. Eu quero pegar quando houver leitos disponíveis, quando puder receber tratamento adequado, porque se não, vai-se morrer não pelo vírus, mas por não conseguir atendimento." Ele, que atende pacientes de covid-19 num hospital particular do Rio de Janeiro, conta que toda a ala separada para o coronavírus já está lotada.

O tal pico da curva

Fala-se muito sobre a superação do pico da curva de infecções como uma linha limítrofe de quando se poderia começar a pensar em relaxar as restrições. Por exemplo: hoje o Brasil está na subida dessa curva, com o número de casos aumentando a cada dia, e teria ultrapassado o pico quando esse número passasse a cair. Contudo, ninguém é capaz de dizer em que momento dessa queda seria seguro suspender a quarentena.

"Até agora, o único país que realmente subiu e desceu a curva foi a China", onde o alívio da quarentena só chegou depois de duas ou três semanas sem registro de novos casos e com cerca de 70% da população imune, explica Reinach.

Para Domingos Alves, professor e pesquisador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que trabalha com projeções no grupo de pesquisadores Covid-19, o primeiro passo para se pensar em sair da quarentena é dispor de dados confiáveis, o que não ocorre hoje no Brasil.

"A gente vê muito isso de que as medidas de contenção já surtem efeitos. Eu desafio esses pesquisadores a mostrarem a metodologia deles e mostrar que o intervalo de tempo que estão tomando não excede a faixa de erro do modelo deles. Vemos, por exemplo, em alguns gráficos, que a tendência de subida diminui, depois explode em seguida – até porque tem exame represado."

Segundo Alves, o que precisa ser observado é a tendência da curva, e no momento se está no começo da subida. Ele também alerta que é preciso levar em conta a heterogeneidade do país e dos estados. Por isso não faria sentido liberar um estado inteiro da quarentena ao mesmo tempo: seria preciso estudar características como estruturas etárias e acesso a água.

Passaporte de imunidade

Considerados pelos profissionais e pesquisadores ouvidos pela DW Brasil um elemento importante no planejamento da saída da quarentena, os testes de imunidade começarão a ser feitos no Brasil em poucos dias. Eles diferem dos de infecção: enquanto estes detectam a presença do vírus, o imunológico serve para detectar a presença e a quantidade de anticorpos, e determinar quem está imune – embora não seja possível afirmar que quem já contraiu o Sars-cov-2 esteja 100% livre de uma nova contaminação.

Brasileiros de diferentes regiões farão exames, como parte de um esforço para começar a testar a população, liderado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ao menos 12 milhões de reais do Ministério da Saúde, que também pagará pelos testes.

"A ideia é fazer 100 mil testes, distribuídos em três rodadas, de forma que se possa comparar a evolução da epidemia ao longo do tempo", explica um dos coordenadores do projeto, o epidemiologista Aluísio Barros. Como numa pesquisa eleitoral, ao todo serão testados por amostragem habitantes de 133 municípios escolhidos por serem sedes de sub-regiões estaduais.

A testagem imediata de imunidade não é uma unanimidade. Para Alves, diante da falta do gargalo de exames que se tem para determinar os infectados, o Ministério da Saúde deveria estar direcionando os recursos nesse sentido. Já Reinach defende que a saída da quarentena precisa ser planejada desde já.

"O que acho importante deixar claro é que o número de testes que vai ser usado para esta pesquisa é relativamente pequeno, comparado com o total de testes que o ministério comprou, e a importância de conhecer a proporção dos já infectados é enorme, para se poder manejar bem as ações de saúde", justifica o pesquisador da UFPel.

Outros países têm ido nesse sentido. A Alemanha tenta avançar com um projeto de pesquisa sobre um tipo de passaporte da imunidade, permitindo ex-pacientes de covid-19 voltarem à vida normal após serem testados. Pesquisadores do Centro Helmholtz para a Investigação de Doenças Infecciosas planejam testar a imunidade de 100 mil cidadãos. Segundo a revista Der Spiegel, se aprovado, o projeto começará a ser implementado no final de abril.

Em quarentena desde 9 de março, a Itália também estuda algo parecido. Ainda em abril, a região do Vêneto,  no norte, deve começar a coletar 100 mil amostras de sangue de toda a região: primeiro de milhares de profissionais de saúde e depois de funcionários públicos, para estudar em laboratórios os anticorpos de quem tem o vírus e de quem se recuperou dele, conforme informações do The New York Times.

No caso do Brasil, Barros diz não saber o que será feito com os dados de imunidade colhidos, e se haverá uma espécie de passaporte de imunidade. Questionado a respeito da medida e sobre seu planejamento para saída da quarentena, o Ministério da Saúde não se manifestara até a publicação desta matéria.

Mas nem todos estão seguros a respeito do passaporte: segundo a pesquisadora da Yale School of Medicine, ouvida pelo jornal português Público, portadores de anticorpos "podem potencialmente transmitir o vírus". Por isso seria prematuro pensar que estão protegidos e não podem transmitir a doença. O diretor do Instituto Pasteur, Stewart Cole, defende que "é preciso mais tempo" para saber quais anticorpos se ligam ao coronavírus e protegem contra a covid-19.

Itália e China: duas abordagens para saída da quarentena

Mesmo tendo decretado o fim do período de isolamento na maior parte do país, o governo chinês mantém controle estrito sobre os cidadãos, e a liberação é gradativa. A brasileira Luana Borges, professora de inglês na província de Xian, conta que a população segue usando máscara facial e sendo submetida a constantes medições de temperatura, além de ser controlada por meio de um código QR (Quick Response code) de saúde municipal.

Em diversas cidades, há um QR para cada habitante, informando sua condição de saúde com base tanto em declarações próprias quanto em dados de que o governo dispõe. Assim, os cidadãos recebem códigos marcados em verde, amarelo ou vermelho,.

Somente os residentes com código verde podem circular livremente pela cidade. Os portadores de códigos amarelos e vermelhos devem manter a quarentena e se registrar diariamente numa plataforma de internet para prestar informações, até obterem o código verde.

Longe de impor um controle governamental como o da China, a Itália, país europeu mais afetado pela pandemia, ainda estuda como sair da quarentena. Além de gradativa, a liberação não deverá ser nacional, e o caminho pela frente pode ser maior do que o esperado. Nesta quinta-feira, o número de mortes registradas voltou a crescer: 610 contra 542 na véspera; e os novos casos também aumentaram, de 3.836 para 4.204. A contagem diária foi a mais alta desde 5 de abril, segundo a agência de notícias Reuters.




O problema não está em Mandetta

Carlos José Marques
Revista ISTOÉ


(Crédito: Pedro Ladeira)

É preciso descobrir urgentemente uma vacina contra os desvarios bolsonaristas. A ameaça dessa praga ao País é latente e tem o poder de agravar ainda mais a hecatombe sanitária e econômica produzida pela pandemia da Covid-19. O Brasil se encontra à mercê de decisões imprudentes. É capaz de perder dias de ação no combate ao vírus para se dedicar a questiúnculas políticas e de natureza narcísica de um mandatário que se apequena e que gera conflitos para impor autoridade. Não são apenas falas e declarações ao léu de um homem inseguro e meio abobado, mas atitudes efetivas que desarrumam a gestão de um País tão complexo e necessitado.

Jair Messias Bolsonaro dá todos os sinais de ser um presidente assolado por inúmeras patologias psíquicas, dentre as quais a da perseguição sistemática e a da inveja sem medida. Com essa última voltou a mostrar de maneira eloquente que não suporta, nem aceita, o protagonismo técnico exibido por alguns de seus melhores ministros. No passado recente, se insurgiu contra o titular da pasta da Justiça, Sergio Moro — pela natural popularidade e respeito que ele desperta no público —, e, dias atrás, até mesmo o “Posto Ipiranga” czar da economia, Paulo Guedes, sentiu o peso dos muchochos do chefe, indo se exilar em casa no bairro carioca do Leblon.

Agora foi a vez de Luiz Henrique Mandetta, que dirige a Saúde, ser alvo desses arroubos. Ele tem atuado com tamanha desenvoltura técnica e seriedade nas deliberações que passou a aparecer nas pesquisas de opinião com o dobro de aprovação popular reservada ao próprio Bolsonaro. Foi o que bastou. Ao notar a projeção do subordinado, Messias resolveu colocar a sua cabeça a prêmio. Até porque, como especialista da saúde, e baseado na experiência mundial, Mandetta vinha orientando, responsavelmente, o isolamento, como medida para evitar o colapso do sistema — em clara oposição ao que prega o “mito”. Bolsonaro tem horror a ser contrariado, mesmo quando as evidências e a ciência se impõem aos seus “achismos”. Numa reação desesperada de fazer valer a vontade, o mandatário começou por lançar recados enviesados ao ministro. Em meio a um grupelho de fanáticos que habitualmente fazem campana em frente ao Palácio, Bolsonaro disse, arrotando arrogância, que iria usar a caneta contra “aqueles que viraram estrelas”.

A situação, inédita e equivocada de um comandante que teme a boa atuação da própria equipe, não passou em branco. O intento, na verdade, virou tiro pela culatra e enfraqueceu, ainda mais, a posição do titular do Planalto. No perímetro de seu gabinete, assessores mais próximos não conseguiam acreditar na conduta recalcada do chefe. Às pressas e sob a alegação de que iria deliberar a respeito de medidas estratégicas, o capitão reformado chamou para uma conversa a portas fechadas o Estado-Maior do Palácio. Os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, que formam o triunvirato de ministros militares do núcleo duro do poder, além do deputado Osmar Terra, levado a tiralocolo para intenções insuspeitas do capitão, reuniram-se no início da tarde da segunda-feira e ouviram dele a palavra de ordem: Bolsonaro queria a demissão imediata de Mandetta.

Não tinha nenhum outro assunto em pauta. Só esse, que acabou por se estender ao longo do dia. Braga Netto e Ramos trataram de argumentar sobre o risco da medida extrema. Falaram da instabilidade que a decisão despropositada acarretaria. Buscaram, em vão, dissuadir o presidente, esse resoluto e cego de inveja. Não encontrando aval dos militares de confiança, Bolsonaro marcou uma reunião extraordinária com todos os ministros (dessa vez até Mandetta), além do presidente do Banco Central e do BNDES, ao final da própria segunda-feira.

Entre um encontro e outro, fez chegar a público por intermédio dos interlocutores que o destino do auxiliar estava selado. “Bombeiros” entraram em campo nas vozes de forças constitucionais. Um verdadeiro cordão de isolamento pareceu se formar em torno do nome de Mandetta. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ligou pessoalmente para o general Ramos e informou que o Congresso era contra a demissão. O Supremo Tribunal Federal, por intermédio de seu presidente, Dias Toffoli, também fez chegar ao Planalto que a Corte não via com bons olhos esse afastamento. Servidores públicos do Ministério, numa atitude inédita, desceram do prédio e foram para a rua em sinal de protesto ao afastamento, apoiando Mandetta.

E na reunião das cinco horas inúmeros ministros se manifestaram contra a decisão. Bolsonaro estava acuado. Percebeu que já não mandava como queria. A tutela providencial, na ação de parlamentares, ministros, governadores e técnicos da área, estava em franco vigor. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sacramentou a mensagem apontando que os poderes não iriam tolerar decisões fora do âmbito da ciência nesse momento grave. “Estamos todos seguindo o ministro Mandetta”, disse em endosso a mobilização. Bolsonaro estava isolado, mais fragilizado do que nunca em menos de dois anos de mandato. Teve de capitular e recuou após uma confusão desnecessária, enquanto o titular da saúde saía da fatídica conferência de cúpula para comunicar o seu “fico” ao povo.

Segue onde está, ninguém sabe até quando. Mas o episódio deixa lições e mensagens importantes. A primeira delas: o problema não está, nunca esteve, no condutor da pasta da Saúde. Emana diuturnamente da cabeça de um presidente fora de si, perdido em atitudes inexplicáveis e declarações sem fundamentação científica, que tenta menosprezar o impacto brutal do que ele chama de uma “gripezinha”. Perdeu há algum tempo a noção de realidade e as condições mínimas para governar.

Bolsonaro “está arrastando o Brasil para uma calamidade”, aponta diário britânico The Guardian

Tribuna da Internet
Fernando Borges, Correio Braziliense


Ações de Bolsonaro são infantis, surreais e irresponsáveis


O diário britânico The Guardian voltou a criticar o posicionamento de Jair Bolsonaro em meio à pandemia do novo coronavírus, afirmando que o presidente “está arrastando o Brasil para uma calamidade”.

“Bolsonaro é um dos quatro líderes mundiais que ainda subestima a ameaça do coronavírus à saúde pública, ao lado dos presidentes autoritários da Nicarágua, Bielorrússia e Turquemenistão”, disse o trecho do texto publicado neste domingo.

QUEBRA DE PROTOCOLOS – 

O periódico citou a fala do presidente brasileiro (“Ninguém impedirá meu direito de ir e vir”) e lembrou que Bolsonaro descumpriu as recomendações de distanciamento de seu próprio Ministério da Saúde durante um ‘passeio’ na última sexta-feira em Brasília.

Na ocasião, o chefe do executivo foi filmado limpando o nariz com parte do braço e a mão antes de apertar a mão de uma senhora idosa. “Especialistas em saúde pública e doenças infecciosas acreditam que esse comportamento está corroendo as únicas medidas existentes entre o Brasil – que sofreu mais de 1.000 mortes por Covid-19 – e uma calamidade na saúde”, diz o jornal, que traz depoimento de vários especialistas e médicos.


“INFANTIL” – 

Um deles, que pediu para não ser identificado, chamou as ações de Bolsonaro de “infantil” e “surreal”. “As pessoas vão ficar doentes [no Brasil] e, se ficarem doentes ao mesmo tempo, nos encontraremos na mesma situação que a Itália e Wuhan”.

Ricardo Sobhie Diaz, especialista em doenças infecciosas da Universidade Federal de São Paulo, disse ao “The Guardian” que “também há consenso de que, ao afastar o distanciamento, Bolsonaro está prejudicando sua implementação. “Tudo o que ele diz e faz tem um impacto intenso … Muitas pessoas dizem: ‘O presidente tem 65 anos e ele não tem medo – então por que deveríamos ter?'”, afirmou.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGDeixando as ideologias políticas e o fanatismo fora do debate, a publicação do diário britânico ratifica o que esta Tribuna tem dito, a exemplo de vários especialistas. Enquanto o Ministério da Saúde se empenha ao máximo para mostrar que, por enquanto, a melhor saída é o isolamento social para conter o avanço da pandemia, o mandatário eleito diariamente tenta de forma insana mostrar o contrário. Sai sem cautela, abraça, se limpa e aperta a mão da população, discursa e toca de forma insistente na mesma tecla, que a gripezinha molhará alguns e que é isso aí, “talquei?”. Ele não está falando de uma troca de camisas ou de um prato de comida mais requintado que pode ser servido a um e não ao outro. Está falando, e brincando, com milhares de vidas que resume em números. Tudo que o diz ou não tem base comprovada ou argumento que sustente, guiado pelo achismo produzido pelas vozes que ecoam dentro da sua cabeça. Ratifico, deve ser um dos únicos governantes que faz piada e ri em plena pandemia. Inventa notícias e incita a população a acreditar em suas falácias. A cloroquina ainda não tem eficácia comprovada, a curva ainda está subindo (e não caindo conforme ele pensa), e voltar ao trabalho sem garantia alguma é rubricar atestados de óbitos. Isso para resumir alguns dos seus devaneios. (Marcelo Copelli)