sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Falta alguém governar o Brasil

Adelson Elias Vasconcellos

Vimos aqui que o governo federal conta com cerca de 22 mil cargos de confiança, grande parte admitidos  sem nenhum concurso público. Pois bem: será que entre tanto milhares de nomeados e apadrinhados, não havia ou não há alguém que leia jornais, revistas, passeia pela internet em busca de informação qualificada? 

O programa anunciado pelo governo Dilma, ver post anterior, já parte de premissas erradas e, o que é pior, se desvia, no conjunto de medidas, do fundamental. Ou seja, é um plano que será anunciado com as solenidades de praxe, cheio de convivas num festim bem regado a custa do erário, subirão aos palanques eleitorais, desfilarão pelos programas partidários na tevê e no rádio, alguns “jornalistas” e “analistas” - é o mensalão da comunicação oficial -, bem remunerados com verbas públicas, decantarão suas maravilhas, tudo para nos fazer crer que “agora, vai”. Vai nada. 

Em agosto de 2011, também sob promessas gloriosas, o governo Dilma lançou um programa apelidado de “Brasil Maior” que, meses depois, chegou-se a trista conclusão de sua inutilidade. E por quê? Por carregar em seu bojo avaliações incompletas, com diagnósticos imprecisos e fora da realidade, e apresentar, como solução, medidas sem resultado prático, que se desviaram do principal para aventurar-se apenas na perfumaria.

Como o secretário Alessandro Teixeira projeta o lançamento para daqui “alguns meses”,  é de se esperar que, até lá, o governo consiga, de fato, lançar algo de útil e que venha impulsionar a indústria nacional com vistas a recuperar o espaço e mercado perdidos lá fora (e aqui dentro também).

Dentre as três linhas de ação anunciadas, a primeira é ótima. De fato, e conforme vimos aqui, simplificar e desburocratizar seria excelente. Não há nenhuma razão, por exemplo, minimamente coerente, inteligente e honesta que justifique que, no Brasil, o empresário demande 119 dias em uma penosa via crucis para conseguir o registro total para abertura de uma empresa, sabendo-se que na China este prazo desaba para 38 dias, na Rússia são 30 e, na Índia,  são 29 dias apenas. E olhe que estou comparando apenas com os nossos parceiros do BRICs. Mas poderia ainda acrescentar os Estados Unidos, com apenas 6 dias de espera, ou a Alemanha, com 15 dias.   


Também seria ótimo que, dos 12 carimbos exigidos para se liberar uma licença de exportação, se requeresse apenas um, ou nenhum, já que vivemos em plena era digital. Infelizmente, a boa notícia é apenas esta: simplificar, muito embora onde isto vai ocorrer não se tenha antecipado nada ainda. 


A partir daí, entretanto, a coisa se enrosca. Melhorar no financiamento às exportações e fortalecer e ampliar a estratégia de acesso a novos mercados, com promoção comercial, não vai acrescentar coisa alguma. O governo federal parece não ter percebido que o nó que rouba competitividade das indústrias não está em se liberar mais linhas de financiamento, muito embora ajude um pouco, porque, senhores, o gargalo é estrutural.  Está no custo Brasil, elevando o preço final de qualquer produto acima dos praticados pelo mercado.  Não se fala, por exemplo, em redução de carga tributária, e não apenas a carga incidente sobre o produto fabricado e sua comercialização posterior.  Por exemplo, o governo tenciona ou tem projeto que reduza drasticamente o peso dos impostos incidentes sobre a tarifa de energia elétrica que cobra das indústrias? Novamente aqui, comparada a tarifa cobrada no Brasil com que dos países do BRICs, a brasileira chega a ser superior em mais de 50%, como é em relação a da China. Lembrando sempre que a matriz brasileira de geração e produção é 70%  originada na hidroeletricidade, a mais barata dentre todas as fontes.  E, mesmo assim, até antes mesmo dos impostos, a tarifa nacional consegue o prodígio de ser mais cara. Vimos aqui, também, que o combustível, gasolina e diesel, são os mais caros do mundo. Como produzir barato para poder competir diante destes custos extorsivos, e todos regulados pelo próprio governo? 

Poderíamos acrescentar aqui a questão dos portos. No Brasil, não se trabalha com portos 24 horas, o que é um absurdo para quem quer competir.  Já a partir da metade das tardes de sexta-feira, prolongando-se por todo o final de semana, você não consegue embarcar nem desembaraçar um grão de arroz em nossos terminais. Não há expediente para os "responsáveis". Querem mais? Eis um exemplo de que é impossível competir lá fora com um custo Brasil nas nuvens. 

Um contêiner dentro de um navio percorre 17 mil quilômetros da China até o Brasil — e o transporte custa em média 1.200 dólares, dependendo de negociação entre o exportador e os armadores.

(Foto: Divulgação Log-In)
Navio cargueiro porta-contêineres próximo ao porto de Santos: 
um contêiner custa 1.200 dólares para vir desde a China, a 17 mil km 

Um contêiner dentro de um caminhão percorre 77 quilômetros do porto de Santos (SP) até São Paulo — e o transporte custa, em média, 1.200 dólares.

(Foto: Divulgação Tecmem)
Caminhão com contêiner: 
do porto de Santos a São Paulo, 77 km e os mesmos 1.200 dólares
 que custaram trazer o volume da China 

Precisa dizer mais alguma coisa sobre o chamado “custo Brasil”?

Poucos brasileiros conhecem as agruras  que passam os produtores rurais do Centro-Oeste , para conseguir escoar sua produção até o porto de Santos, ou de Paranaguá. É um calvário sem fim de estradas enlameadas e esburacadas, sem sinalização, sem proteção, sem fiscalização, que tornam os fretes um verdadeiro assalto, quando não se tem que sofrer, ainda, com a falta de armazenamento.

É um erro estúpido atribuir a redução no volume de manufaturados à crise internacional como fez o secretário Alessandro Teixeira. Não se ouve dos nossos parceiros de BRICs, Índia e China, principalmente a mesma desculpa esdrúxula! 

O que retira o manufaturado brasileiro dos mercados internacionais é o seu alto custo interno de produção que deriva, por sua vez, do elevado custo Brasil a partir de burocracia, carga tributária, infraestrutura deficiente e a mais cara do mundo, falta de financiamento de LONGO PRAZO,  juros internos na estratosfera – praticamos o mais altos do planeta - insegurança jurídica.  Poderia até acrescentar o câmbio, porém este é um mal do qual padecem todos menos a China, que não pratica câmbio flutuante.  Ora, em que, dentro do anunciado, o novo plano facilitará as exportações de manufaturados? Retire-se a desburocratização, e o resto é um enorme deserto. Assim, enquanto não se praticar uma política industrial que priorize a redução drástica do custo Brasil, pacotes serão lançados a esmo com resultado algum. Trata-se de uma questão estrutural que depende, fundamental e diretamente, da ação do Poder Público. 

Por mais investimentos que o empresário aplique em inovação, modernização de suas linhas e produtos, por mais que o governo insista na ladainha da “promoção comercial”, lá fora, além da qualidade se exige preço menor ou atrativo. Ninguém comprará produtos fabricados aqui apenas por serem brasileiros. Sem qualidade e sem preço competitivo, nada feito.

Portanto, não é facilitando a ponta final do caminho que o governo praticará uma política revitalizante para o comércio externo de produtos brasileiros manufaturados. É na longa cadeia de produção que os nossos problemas se localizam. E, como vimos, nela os gargalos e nós derivam de medidas que o governo se nega em enxergar e adotar.  O governo federal precisa convencer-se, de uma vez por toda, que o problema da perda da capacidade de competir pelas indústrias brasileiras deriva da sua visão tosca quanto ao seu verdadeiro papel. Basta que pesquise para concluir que esta perda está interferindo inclusive dentro do próprio país. Não estamos conseguindo sequer fazer frente aos importados.

E, dentro da linha de infraestrutura, para a qual o secretário Teixeira não disse nada, quanto custou em atrasos e prejuízos para o país, a teimosia burra e ignorante do governo Lula em privatizar os aeroportos? Já nem vou me deter em analisar o modelo adotado, cobro apenas pelo prejuízo provocado pelo atraso. 

Já disse aqui e vou reafirmar: enquanto o governo priorizar suas ações apenas no consumo, ignorando por completo a produção, a indústria brasileira vai continuar definhando. Vamos continuar exportando indústrias e empregos para países que se comportam com maior eficiência e dão melhor atenção à produção local, concedendo-lhe o tratamento que merece e precisa.  E o que é pior: cada dia mais os brasileiros estamos comprando lá fora o que aqui dentro produzimos, porém a um preço proibitivo, preço este derivado da incompetência do Estado em priorizar o mercado interno também na produção, e não só no consumo.   Passa da hora do governo federal governar, prioritariamente, o próprio Brasil, e deixar de ser um entrave ao nosso desenvolvimento. 

E olhe que sequer disse uma palavra sobre a passividade dos governos petistas em relação aos entraves e barreiras criados pela Argentina contra produtos brasileiros. Nesse caso, olhem lá na fala do secretário Alesandro Teixeira: nem ele.

Assim, não é a crise internacional que afeta a exportação de manufaturados brasileiros. A crise não está lá fora, está aqui dentro mesmo, alojada na incompetência dos governos petistas em desenvolverem  e implementarem  uma política industrial com cara de Brasil.

Governo estimulará exportação no setor de manufaturados

Leiam este texto da Agência Brasil. Comento no post seguinte.

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O governo federal vai lançar nos próximos meses um conjunto de medidas para facilitar as exportações de produtos manufaturados, de acordo com o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Alessandro Teixeira.

"O governo está fazendo um esforço e nós devemos estar anunciando, nos próximos meses, medidas para fortalecer e expandir as exportações de manufaturados. O Brasil sofre mais na área de manufaturados porque, com a crise internacional, as pessoas não param de comprar alimentos. Elas precisam de produtos semimanufaturados para industrializar. É normal que esses produtos não sejam tão afetados quanto os manufaturados."

Segundo Teixeira, as medidas que serão implementadas fazem parte do Plano Brasil Maior, lançado em agosto do ano passado. E, apesar de não ter antecipado os detalhes da ação, ele revelou as áreas beneficiadas. "Estamos trabalhando em três linhas: simplificação e desburocratização, melhora no financiamento às exportações e fortalecimento e ampliação da estratégia de acesso a novos mercados, com promoção comercial. Essas três áreas são as quais vamos nos concentrar para aumentar as exportações de manufaturados."

O secretário executivo do MDIC esteve presente nos dias de desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio no camarote da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). O local funciona como ponto de encontro informal entre exportadores brasileiros e empresários estrangeiros, que são convidados para assistir à festa e aproveitam para iniciar ali mesmo contatos de negócios.

Para Teixeira, as perspectivas do resultado da balança comercial brasileira para este ano são positivas, embora dificilmente se consiga o mesmo resultado de 2011. Ele acredita que, em fevereiro e em março, deverá haver superávit comercial. No mês que vem, lembrou o secretário, o governo divulgará a meta de exportações para 2012.

"O primeiro trimestre é complicado (janeiro foi deficitário nas quatro semanas), por causa da crise da Europa muito forte e os Estados Unidos retomando algumas crises institucionais no Oriente Médio. Mas o Brasil vai ter superávit este ano e teremos crescimento das exportações, não tão forte quanto 2011, que foi um ano recorde, em que tivemos um saldo de US$ 30 bilhões e chegamos a US$ 257 bilhões em exportações", disse.

Teixeira disse que a pauta brasileira de exportações em 2012 ainda será marcada pelos setores de alimentos e minério de ferro. Mas destacou também os setores automotivo, motores, metal-mecânica, ônibus e aviões como promissores.

Em relação ao mercado de carnes, Teixeira disse que já houve conversas aprofundadas com representantes russos e também chineses para que os produtos brasileiros entrem com mais facilidade nesses mercados. Com a China, o entrave é basicamente técnico, pois depende de vistoria chinesa em um número maior de abatedouros brasileiros. No caso da Rússia, além de exigências técnicas, há pressões protecionistas de países europeus produtores de carne, que sofrem com a crise europeia e precisam vender para o mercado russo.

"Nossa balança vai continuar tendo um peso importante das commodities e dos semimanufaturados. Isso é uma característica brasileira. Hoje, nós somos um dos principais produtores de minério de ferro e de produtos agrícolas e vamos continuar sendo."

A “lei dos gagos”

Comentando a Notícia

Sem dúvida que o Brasil é um país sui generis em ternos de bom senso. Aqui, conforme veremos a seguir, no excelente texto do Ricardo Galuppo para o Brasil Econômico, vamos ver mais uma coletânea de maus exemplos sobre iniciativas dos nossos legisladores, imbuídos da eterna mania de se empurrar para a sociedade obrigações que deveriam e são para o Estado cumprir. Justifica-se a extorsão dos impostos como necessários para atender os serviços básicos que o Estado deveria prestar à sociedade, contudo, na hora de cumprir com seu dever, é regra geral que a obrigação seja transferida de mãos. 

Muito embora o texto tenha lá certa pitada de humor, dados os exemplos que o Ricardo relaciona, deveria ser motivo, antes de  mais nada, para uma profunda reflexão sobre o quanto o Estado brasileiro é irresponsável em relação à sociedade que o sustenta. E servir, ato contínuo, para uma imediata mudança de postura, isto é, para que sejamos menos passivos e dolentes em relação à desídia que tão bem, e historicamente, tem caracterizado os homens públicos brasileiros.

Segue o texto para diversão e reflexão. 

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O Brasil sempre produziu leis que, aqui entre nós, já nascem com lugar garantido no Febeapá (o Festival de Besteiras que Assola o País, criado nos anos 1960 pelo inesquecível Sérgio Porto).

Uma delas, nem tão nova assim, está em vigor no Mato Grosso do Sul desde 2009.

De acordo com reportagem publicada ontem pelo site do jornal “O Estado de S. Paulo”, cidadãos portadores de “distúrbios na fluência e temporização da fala” – ou seja, os gagos – têm direito a pagar apenas metade da conta.

Sob uma presumível nobreza de propósitos, existe uma lógica de imbecilidade retumbante: tais cidadãos, por suposto, gastam ao telefone o dobro do tempo necessário. Portanto, nada mais justo que paguem metade da fatura.

O autor dessa preciosidade certamente se esqueceu de propor descontos de 75% para ligações de um gago para outro – ou de excluir os pacotes de dados do benefício.

Até onde se sabe, distúrbios na fluência e temporização da fala não tornam mais pesados os textos e fotos transmitidos por SMS e MMS.

Além disso, a lei diz respeito apenas aos telefones celulares – não se estendendo à telefonia convencional. Ou seja: no Mato Grosso do Sul, atestado de gagueira só vale para conversas que viajam pelo éter; mas não para os diálogos travados via cabo.

À primeira vista, leis como essa nada produzem além de risadas. Vistas no detalhe, elas têm consequências econômicas nada engraçadas. Só servem para reforçar a mania do legislador brasileiro de transferir para a sociedade o ônus de suas iniciativas populistas.

Os exemplos estão por todo lado. A Infraero, tempos atrás, transferiu para as companhias de aviação a obrigação legal de fiscalizar os documentos dos passageiros que embarcam nos voos comerciais dentro do Brasil.

Em qualquer lugar do mundo, a fiscalização de quem embarca nos aviões está a cargo da autoridade policial.
No Brasil, a tarefa é das empresas – o que contribuiu para piorar ainda mais um serviço que, mesmo antes disso, já não era lá essas coisas.

A Prefeitura de São Paulo, após acidentes ocorridos no final dos anos 1990, obrigou que ao lado de cada porta de elevador do município fosse afixada uma das frases mais risíveis já escritas em português.

Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.” Tempos atrás, uma dessas leis sem sentido obrigava que todos os automóveis do Brasil circulassem equipados com kits de primeiros socorros.

Todos os motoristas correram para se equipar com o estojinho com gaze, esparadrapo e mertiolate, mas o dispositivo foi revogado: uma dinheirama gasta inutilmente, que jamais foi ressarcida.

Nada existe de inocente em leis como essas. Empurrar para o cidadão aquilo que é obrigação do Estado é quase uma mania nacional – e o reflexo disso são os gastos exorbitantes com planos de saúde, com educação privada e com segurança particular, para ficar apenas com os exemplos mais gritantes.

Num país com impostos tão altos e escandalosos como o Brasil, o Estado deveria ser proibido de criar qualquer lei que implicasse mais despesas para as empresas e as pessoas.

A farra da máquina pública

Adelson Elias Vasconcellos

Ao longo do ano que passou, muitos se preocuparam, em demasia, com a dança das cadeiras no ministério da Presidente Dilma, muito embora tantas quedas de ministros envolvidos em corrupção, não deixam de ser um recorde negativo. Entre 1978 e 1994, foram 114 trocas de ministros em diferentes governos. Entre 1995 a 2011, tivemos apenas 73 trocas. O ministério mais atingido pelo entra-e-sai no primeiro período de tempo foi, sem dúvida, o da Fazenda,  com 15 trocas. Nem é preciso acrescentar que foi, justamente, neste período, que a economia brasileira se manteve praticamente estagnada, provocando a imensa dívida social por nós conhecida. Contudo, a partir do Plano Real, a Fazenda foi a que menos trocas sofreu. Durante os oitos anos de FHC, o ministro foi o mesmo, Pedro Malan.  Enquanto no governo petista, primeiro  tivemos Antonio  Palocci, substituído ainda no governo Lula por Guido Mantega, que ainda se mantém no governo Dilma. E, assim mesmo, Palocci só caiu por conta da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

O que, de fato, deveria nos preocupar muito mais é a farra da máquina pública, cujo tema tem sido recorrente neste blog desde que o criamos. É aí que reside, por exemplo, um dos grandes vilões que impedem o governo federal aumentar o volume de investimentos  públicos na proporção das necessidades do país. 

Para que se tenha uma ideia precisa do significado e tamanho do problema, em 2011, conforme reportagem, aqui publicada, do site Contas Abertas, apesar do crescimento em 10% da arrecadação federal, o investimento público foi o único item que sofreu redução na escala de despesas da União.

A escalada começa pelo aumento vertiginoso do número de ministérios. Acrescentando-se as Secretarias Especiais da Presidência da República e com status de ministério, temos hoje 39 estruturas ministeriais, muitas delas sem peso ou utilidade prática, verdadeiro sumidouro de dinheiro público,  muito embora algumas contem com ridículas dotações orçamentárias que mal suprem seus gastos correntes. Imaginem então investirem em alguma coisa útil para o país.  Nos Estados Unidos, por exemplo, com extensão territorial e população bem maiores que as nossas, são apenas 22 ministérios.

Tamanha estrutura, além de ser contraproducente à eficiência do próprio Estado, acarreta em desperdícios de recursos e pessoal. Podemos traduzir isto quando olhamos para o número de cargos de confiança, território livre para o apadrinhamento político. Enquanto no Brasil eles já somam impressionantes 22.00 cargos, com média salarial em R$ 13.200,00, nos Estados Unidos mal chegam a 3.500 cargos, enquanto no Reino Unido não passam de 70 cargos.

O drama fica pior quando se sabe que destes 22 mil, cerca de 17% foram contratados sem concurso público, e que o Estado, nos últimos dez anos, justamente o período em que o PT está no Poder, esta admissão sem concurso algum cresceu impressionantes 48%!

Mas tem mais: se olharmos  o perfil deste exagero de cargos, vamos verificar que a sua quase totalidade é composta de cargos de natureza burocrática, muitas vezes simbólica, sem a menor utilidade prática à melhor e maior eficiência do Estado e qualificação dos serviços a que este mesmo Estado está obrigado a prestar. Em contrapartida, percebe-se, facilmente, a carência de servidores em áreas básicas como saúde, educação e segurança, onde à regra geral desta carência se somam remunerações humilhantes.  

Em 2012, prevê-se uma arrecadação em impostos levemente superior a R$ 1,0 trilhão. Pois bem, só em despesas com pessoal – salários e previdência – o governo irá consumir 1/5 deste total, ou seja, cerca de R$ 212 bilhões. Não é preciso ser especialista em economia para entender as razões para o baixíssimo e incipiente volume que sobra para investimentos públicos em infraestrutura e serviços, quando àquele montante somamos o volume que será necessário para cobrir o serviço da dívida pública, cerca de R$ 350 bilhões. Apenas nestes dois quesitos serão comprometidos cerca de 50% da arrecadação total de impostos. 

Não é a toa que o Executivo vem adiando o quanto pode uma refortma tributária que ponha fim à selva burocrática que os contribuintes precisam enfrentar e atravessar, conjugada ao peso extorsivo de impostos e  contribuições que a sociedade precisa suportar. Há poucos dias, publicamos aqui um artigo provando que, a natureza tributária vigente no Brasil, vai na contramão de tudo o que há de mais racional, quando o discurso apela a uma prioridade social que, na prática, não se realiza. 

Ora, com a máquina pública estruturada desta maneira, fica quase impossível para qualquer governante impor-lhe o grau de eficiência necessária para atender, convenientemente, as necessidades urgentes que a sociedade tanto reclama.

E reparem: sequer entrei no detalhe negativo que o volume crescente de pessoal em postos desnecessários, acarreta no campo da corrupção. Como sequer mencionei a estupidez existente na Câmara e no Senado, quando o assunto é pessoal. Assim, não se entende a pressão que se exerce sobre o Legislativo Federal para que aumente o número de vereadores. Municípios que sequer contam com um mísero posto de saúde para atender a sua população, falar-se em aumento do número de vereadores chega a ser um despropósito. É pura sacanagem, gente!

Não custaria nada que o Brasil desse uma olhadela para as causas que levaram a Grécia, por exemplo, a quase falência econômica. Inchaços da máquina pública desproporcionais, desfrutando de regalias e salários desproporcionais, a farta distribuição de benefícios sociais sem a menor relação com a geração de riquezas do país, a falta de reformas indispensáveis a modernização do próprio Estado no sentido de se manter rígida disciplina fiscal, são passos que, num primeiro momento, se pode considerar irrelevantes mas que, no cômputo final, vai se descobrir serem os grandes vilões para a asfixia econômica.

Desde 2006 estamos batendo na mesma tecla: o momento que vive o Brasil, nunca foi tão farto em oportunidades para se conquistar autossustentabilidade ao crescimento e desenvolvimento. Nunca um governo contou com tamanho capital político, propício para aprofundar as reformas indispensáveis a esta conquista. Provavelmente, não se terá tão cedo tamanha fartura e facilidades. Sabe-se, claramente, que a perda de competitividade que a indústria nacional vem sofrendo nesta década, é de natureza estrutural, e que a sua solução depende exclusivamente da ação do Poder Público. É deprimente assitir, desde 2003, quando Lula assumiu, o precioso tempo que estamos desperdiçando e deixando de realizar aquilo que precisamos para colocar o país dentre as economias mais desenvolvidas do mundo. Não basta apenas o tamanho do PIB, este é apenas um dos numerosos passos que precisamos perseguir. Dilma, já entrando em seu segundo ano no poder, não conseguiu sair das promessas do palanque e, tristemente, não tomou uma miserável iniciativa quanto às reformas estruturais. Permanecemos estacionados no mesmo lugar em que nos encontrávamos em 2002. Reparem o parto doloroso que foi a privatização de apenas três aeroportos que, como se sabe, são insuficientes para atender apenas a demanda interna. 

A atual geração que comanda e governa o país precisa entender seu real papel: o país que eles governam precisa ser melhorado, e muito, porque serão nossos filhos e netos que o herdarão. E eles não nos perdoarão pela omissão.

A Europa precisa acordar de seu sonho.

Adelson Elias Vasconcellos.

É o discurso mais surrado do momento diante da crise que abala grande parte do continente europeu, atribuir-se aos grandes bancos e a sua insaciável fome por lucros,  as causas que estão provocando a quebradeira da Grécia e, por tabela, de Espanha, Itália e Portugal, estes principalmente. 

Mas há um detalhe que muito pouco se lê, se ouve e se comenta: banco nenhum obrigou aqueles países todos a se endividarem muito além dos limites do suportável por suas esconomias, tomando empréstimos em cima de empréstimos.  Se as economias não cresceram na mesma velocidade, era mais do que certo que chegaria o dia em que a riqueza produzida por eles se tornaria insuficiente para bancar o pagamento dos empréstimos todos. E é precisamente isto que está acontecendo. 

Mas por que estes aventureiros se entregaram de maneira tão irresponsável a tomarem empréstimos muito além de seus próprios limites? Se a gente for olhar com cuidado vai encontrar algumas coisas completamente fora do lugar. De um lado, em todos eles, houve uma disseminação de benefícios sociais, que foram cobertos até aqui justamente pelos empréstimos. Ou seja, os países não tinham produção de riquezas suficiente para bancarem a distribuição dos benefícios concedidos. E, além disto, o crescimento econômico sempre foi muito aquém do volume em que estes benefícios foram sendo distribuídos, tornando insurpotável seu peso. Não é por outra razão que, para reequilibrarem econômica e financeiramente, precisarão retroceder nestes benefícios, reduzindo-os quase a zero, já que sua manutenção atualmente é insustentável. Seja pela capacidade esgotada de continuarem se endividando, seja pela inescapável recessão que terão de enfrentar nos próximos anos.

O caso da Grécia é bem sintomático nesta perda de percepção da realidade do próprio país. Essencialmente, a economia grega vive do turismo. Ou seja, goste-se ou não, a economia é frágil em vários aspectos e altamente dependente de capitais externos. 

É fácil, como é comum vermos e assistirmos, críticas duras a insensibilidade dos banqueiros, como tem sido fácil para alguns apressados atirarem pedras na primeira ministra alemã, Angela Merkel, pelo jogo duro que tem feito nas negociações, principalmente, com a Grécia. Ocorre, senhores, que o compromisso maior de Angela Merkel é para com o povo alemão, sendo assim, como poderia ela pedir que seu povo continue trabalhando dez horas a mais por semana do que o gregos, para sustentar benefícios que nem seu próprio povo consegue usufruir? Ora, a Alemanha é o que é não por graça e obra dos gregos, e sim pelo muito de trabalho, seriedade e responsabilidade dos alemães para com a sua economia. Deveria a primeira ministra, por conta  da irresponsabilidade dos outros, submeter seu povo a sacrifícios imerecidos, sacrifícios, aliás, que nem os verdadeiros culpados da bancarrota grega se dispõem em suportar? De maneira alguma. Tentar ajudar no que é possível para salvar a Grécia da falência, uma vez que as consequências prejudicariam a própria Alemanha, é uma coisa, mas seu povo não admitiria, no que estão certos, bancar esta ajuda com sacrifícios que venham reduzir a qualidade de vida conquistada duramente pelo trabalho do povo alemão. 

Assim, apesar de olharmos com tristeza os sacrifícios e padecimentos a que gregos, espanhóis, italianos e protugueses estão sendo submetidos, é forçoso reconhecer, entretanto, que estas aflições todas são fruto de sucessivos governos irresponsáveis que, em nome de projetos políticos danosos para o país, acabaram  comprometendo o bem estar de seus povos, justamente por distribuir benefícios sociais muito além da capacidade destes países em sustentá-los. E é bom não esquecer que, nenhum dos países citados, tem sido governado por ditaduras. Todos são democracias plenas nas quais os governantes, irresponsáveis  ou não, foram eleitos livremente.

O Brasil, enquanto não assumiu de vez a consciência que competia a nós brasileiros, tomar o nosso destino em nossas próprias mãos, fazendo a dura lição de casa, e acabar com o péssimo hábito de esperar que os outros fizessem por nós o que ssomente a nós competia fazer, não saiu do atoleiro, ficando sempre pelo meio do caminho.

O Plano Real e todas as reformas decorrentes, muitas impopulares ao extremo, mas imprescindíveis para garantir condições de se conquistar a estabilidade econômica, e todas amplamente combatidas e até sabotadas pelo PT e os partidos a ele, historicamente, alinhados, teve o dom de modernizar o país, tirando-o da idade medieval, assegurando para todos, ricos e pobres e a estes principalmente, as bonanças de uma estabilidade duradoura.

A crise financeira de 2007, que atingiu principalmente os Estados Unidos, só não produziu estragos maiores por aqui devido em grande parte  a coragem do governo FHC ao implementar o PROER, através do qual foi possível sanear profundamente nossos sistema bancário, além de implementar mecanismos de regulação e fiscalização que nos permitiram passar ao largo da crise.

Claro que os petistas não apenas tentam, hoje, contar a história da nossa estabilidade de maneira enviezada, torta, mentirosa. Colocam-se, ainda, e de forma cretina, como os verdadeiros pais desta estabilidade. Menos mal que os arquivos da verdadeira história recente brasileira estão aí para desmenti-los e desmacará-los.

Portanto, tanto quanto o Brasil já fez, Grécia, Portugal, Itália e Espanha, mas não somente eles, precisarão revisar suas políticas internas, tendo coragem para realizarem as reformas necessárias para adequar, de forma consistente e racional, suas políticas sociais à capacidade de cada um em sustentá-las dentro dos limites das riquezas de que são capazes de produzir. O remédio vai ser amargo, com efeitos colaterais bem dolorosos, e um tratamento de choque bastante prolongado. Nós brasileiros conhecemos bem o diagnóstico e mais ainda o que é preciso para debelar e curar-se definitivamente a doença. Foram décadas de sofrimento e humilhação, de muita miséria e pobreza. Mas conseguimos superar. Assim, o quanto antes gregos, italianos, espanhóis e portugueses se derem conta de que não há plano “B” neste momento, mais rapidamente encontrarão a cura. 

E não adianta transferirem suas próprias culpas para banqueiros, capitalismo selvagem, para o mercado, ou culparem os imigrantes, e por aí vai. Todos são culpados por desfrutarem de benefícios sem condições econômicas para mantê-los. Viveram anos a fio do artificialismo do capital alheio, alheios à sua própria capacidade de produzir riquezas, dando as costas para a sua realidade. Pois bem, chegou a hora de acordarem da fantasia. O sonho acabou.