domingo, dezembro 22, 2013

O mercado de trabalho e os números preocupantes do IBGE

Adelson Elias Vasconcellos
Olhando-se para os números revelados pelo IBGE sobre o desemprego, muita gente e, principalmente, o próprio governo da senhora Rousseff, encontrará motivos para comemorar e largar rojões. Claro, um índice de 4,6% no desemprego, aparentemente, tem tudo para ser comemorado. Contudo,  e creio que poucos se deram a este trabalho, indo-se para dentro da notícia, vamos notar que há muito mais motivos para nos preocupar do que comemorar. 

E, nos valendo dos próprios dados do IBGE sobre a população brasileira e o contingente dos que se encontra em idade economicamente ativa, o que era para ser um índice “ótimo”, muda de direção. Portanto, não querendo parecer estraga-prazer do oficialismo federal, é preciso olhar com reservas para o índice de 4,6% para entender porque ele é tão baixo.

Primeiro, e antes de tudo, é preciso destacar que “...A taxa baixa, no entanto, não foi alcançada graças à geração de vagas no mercado de trabalho, mas à redução do montante de desocupados e aumento dos inativos, ou seja, de pessoas que não procuram emprego...”. E puxando a cordinha por esta ponta, a de pessoas que simplesmente estão inativas e também desistiram de procurar emprego, começamos a ver onde o país deve, de fato, preocupar-se. 

Claro que presidente Dilma e seus ministros irão usar estes 4,6% como forte argumento (talvez o único) para justificarem o mau desempenho da economia. Contudo, como o que é bom a gente mostra, o que não for, a gente trata de esconder, eles não darão destaque algum ao aumento de desocupados que desistiram de procurar trabalho. E deveriam, porque a quantidade é impressionantemente alta para ser deixada de lado. 

E este contingente de pessoas que não trabalham e também não mais procuram emprego, explica e está na base do baixo índice de desemprego. Portanto, leitor amigo, sempre procure ir mais fundo diante de manchetes festivas, principalmente aquelas que teimam em querer desmentir a realidade. Nem sempre uma embalagem bela e bonita é reveladora da boa ou da má qualidade do produto que contém, não é mesmo?

O blog já fez este cálculo antes , mas vale a pena  reprisar algumas conclusões importantes sobre o mercado de trabalho no Brasil.

O IBGE divulgou hoje que a taxa de desemprego no país caiu para 4,6%%, o que seria recorde histórico. Contudo, quando se vai olhar a fundo a informação completa, vamos verificar que a população economicamente ativa também recuou. No ano, este recuo ultrapassou a casa de 10%.  Assim, a população considerada “economicamente ativa” é ligeiramente superior a 23 milhões de pessoas. 

Ora, não precisamos ir muito longe para saber que este índice de 4,6% encerra apenas meia verdade. Considerando a população brasileira, com idade economicamente ativa, ou seja, que poderiam estar no mercado de trabalho, seja empregada ou desempregada, chegamos a um total em torno de 90 milhões. Portanto,  se considerássemos este total e não aquele em que se baseia o cálculo do IBGE, o índice de desemprego seria muitíssimo maior. 

Sabemos que na estatística oficial deixaram de constar enorme contingente de pessoas jovens que nem estudam, tampouco trabalham, a chamada geração nem-nem. São cerca de 10  milhões. Há também outro enorme contingente de pessoas que desistiram de procurar trabalho, e que por conta disso, ficaram de fora da estatística de desemprego. Neste caso, há uma fileira imensa de razões que levaram milhões de pessoas a não procurar trabalho. A maior parte são mulheres que, em razão de gravidez, ou falta de melhor qualificação, estão fora da estatística. 

Diante destes fatos, o índice de 4,6% acaba sendo falso para aqueles que concluem estar o Brasil vivendo uma fase de pleno emprego.  São praticamente 70 milhões de brasileiros que, mesmo estando em idade economicamente ativa, simplesmente não trabalham ou pararam de procurar emprego. 

Conclusão: nossa força de trabalho, pouco mais de 23 milhões, não pode, de maneira alguma representar, uma situação de pleno emprego.   Trata-se de um contingente mínimo em atividade produtiva, representando aí uma grave crise de ocupação. Motivos? São vários, podendo incluir naqueles 70 milhões,  outro contingente significativo de pessoas trabalhando na informalidade. Se, de um lado, o governo atual se sente feliz para comemorar, por outro, olhando a questão do mercado de trabalho em toda a sua extensão, há razões de sobra para nos preocuparmos. Porque, dentro de uma população de 200 milhões,  sua força de trabalho representar apenas pouco mais de 10%, significa dizer que todo o resto é sustentado por este contingente menor.  

Assim, os tais 16,8 milhões de brasileiros que não trabalham nem procuram emprego, entendo eu, seja um número ainda falacioso. Senão vejamos. Vamos arredondar para facilitar  a conta. Digamos que sejam 24,0 milhões os que trabalham. Mais 17,0 os que não trabalham nem querem emprego. Isto totaliza 41,0 milhões, ok? Ora, se temos 90 milhões em idade ativa para o trabalho, em que categoria se encaixam os outros 49,0 milhões? Está dito acima: não trabalham, não procuram emprego, ou estão na informalidade.

Creio que o IBGE deveria aprofundar o estudo sobre o mercado de trabalho brasileiro e a ocupação exercida pelas pessoas que estão fora dele.  

Para encerrar: mesmo que ainda se guarde dúvidas sobre os números divulgados pelo IBGE, chama a atenção outro fato curioso,  mas não menos preocupante: vejam a semelhança entre a quantidade dos que trabalham e os que sequer querem emprego, segundo informa o IBGE.  A troco do quê tal fenômeno acontece? A continuar nesta balada, chegaremos ao ponto de ter mais gente sem trabalhar do que pegando no batente.  E vão ser sustentados  como e por quem? Eis aí um mistério que precisa ser esclarecido. Aliás, considerada a população em idade economicamente ativa, o fenômeno já existe. E mais curioso, ainda, é que, apesar da renda média ser relativamente baixa, ela precisa ser fracionada para o sustento dos que estão fora do mercado de trabalho. Neste caso, de nada resolve aumentar a oferta de crédito para alavancar o consumo e, ainda corre-se o risco do alto endividamento das famílias. 

Solução é uma só: o PIB brasileiro precisa engordar muito mais único caminho para elevação de renda, maior oferta de postos de trabalho, maior capacidade do poder público para investir em educação e infraestrutura. A formula até pode parecer simples, mas tai uma coisa que este governo parece não ter descoberto.  Insistir em torrar dinheiro inutilmente. 

Não querendo insistir na mesma tecla, é preciso que o país encontre logo portas de saída para os programas sociais de distribuição de renda e outros benefícios. Comentando sobre isso, certa vez, lançamos a seguinte pergunta: Trabalhar para quê? Ora, são os benefícios e as facilidades distribuídas para os beneficiários de programas sociais, sem que se exija destes compensações e contrapartidas, que é fácil a existência de beneficiários inscritos nos programas há cinco, seis e até dez anos. Se alguém acha que pode forçar a barra e apelidar estes programas como sociais. Fique à vontade. Porém, e a verdade é uma só, só será social e como tal completar seu círculo virtuoso, aqueles programas com forte tendência de redução de beneficiários.   Temos hoje cerca de 25% da população inscritas nestes programas e se fala em aumentar tal quantidade. Neste caso, não há motivos para comemorar, já que tais programas conduzem a grande maioria para a acomodação. E é precisamente isto que se verifica. Portanto, boa parte do aumento do número de pessoas que deixaram de trabalhar e desistiram de procurar emprego, encontra aí a explicação. Portanto, pode-se afirmar que esta  acomodação conduz, inevitavelmente, à perenização da pobreza. 

É preciso que nossos governantes parem com ao cinismo e a hipocrisia diante de qualquer crítica que se faça aos programas sociais. Eles são importantes para a redução da miséria e pobreza extremas? Sem dúvida, os números atestam isto. Porém,  eles devem ser encarados como emergenciais, jamais como permanentes como  tem sido tratados pelos governos petistas. E esta visão torpe e torta só se justifica quando encarada com a realidade: o imenso capital eleitoral que produzem em favor do governismo.  Assim, para ser social cabe lembrar que tais programas precisam ter começo, meio e fim. Infelizmente, este não é o caso.  

Qual o efeito do Bolsa Família no desemprego?

Rodrigo Constantino
Veja online

A taxa de desemprego caiu de 5,2% em outubro para 4,6% em novembro nas seis regiões metropolitanas que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) avalia em seu relatório de Emprego e Salário. Esta é a menor taxa para os meses de novembro e se equipara à vista em dezembro do ano passado, também 4,6%, o menor nível de desemprego desde o início da série histórica da pesquisa, em março de 2002. Em novembro do ano passado, a taxa de desocupação estava em 4,9%.


Fonte: G1 

Ao mesmo tempo, a geração do “nem-nem” aumenta sem parar. São aqueles que nem estudam, nem procuram emprego. A taxa de desemprego medida pelo IBGE depende da quantidade de gente procurando emprego. Se a pessoa está sem trabalho, mas não se coça para encontrar um, então ela simplesmente não faz parte do rol de desempregados, segundo o IBGE.

Além da quantidade crescente de pessoas que simplesmente não procuram emprego, temos um gasto com seguro-desemprego que também aumenta a cada ano. A conta não fecha! Uma taxa de desemprego em patamar mínimo histórico, com cada vez mais gente sem procurar emprego, e cada vez mais gasto com seguro-desemprego?

Por essas e outras que a estatística já foi chamada de “a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa”. Como dizia Roberto Campos, ela é como o biquíni: mostra bastante coisa, mas esconde o essencial. O que está por trás deste aparente paradoxo?

Arrisco uma tese: Bolsa Família. Não digo que explique a coisa toda. Mas algum efeito razoável deve ter. E faltam estudos sobre o assunto. Quantas pessoas deixam de procurar emprego oficial porque recebem as esmolas estatais? Quantos podem se manter na geração “nem-nem” porque o governo banca sua sobrevivência?

Não temos as respostas. Deveríamos ter, ao menos, estimativas. Para avaliar o programa como um todo, seria importante ter estas informações. O que sabemos, por ora, é que soa estranho falar em mínima taxa de desemprego ao mesmo tempo em que temos cada vez mais gente sem buscar emprego e mais gastos com seguro-desemprego. Coisas do nosso Brasil.

Saldo líquido de empregos foi o pior em 10 anos

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

De janeiro a novembro foram criados 1,547 milhão de empregos formais, o pior desde o mesmo período de 2003

(Reinaldo Canato)
Somente em novembro foram abertas 47.486 vagas formais de trabalho 

O saldo líquido de criação de empregos formais de janeiro a novembro de 2013 foi o pior dos últimos dez anos. No acumulado do ano, o saldo foi de 1.546.999 empregos - 14,5% menor que o de 2012 -, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta sexta-feira. O resultado só foi melhor que o verificado entre janeiro e novembro de 2003, quando foram criados 1.116.817 empregos.

No mesmo período do ano passado, o saldo havia sido de 1.771.576. No ano anterior, foram 2.320.753. O recorde para janeiro a novembro aconteceu em 2010, quando o resultado foi de 2.918.549.

Somente em novembro foram abertas 47.486 vagas formais de trabalho, segundo o Caged, abaixo da expectativa de analistas que apostavam em 54 mil vagas. Em outubro, haviam sido criados 94.893 postos com carteira assinada.

Vale lembrar que em novembro o Brasil registrou a menor taxa de desemprego do ano, de 4,6%, a mesma de dezembro do ano passado. Com baixos níveis de desocupados, há certa tendência de desaceleração na criação de vagas.

Ao comentar o indicador, o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, antecipou que a quantidade de demissões em dezembro no país deve ser inferior ao registrado no mesmo mês de 2012. Em dezembro do ano passado, o saldo líquido de geração de empregos formais do Caged ficou negativo em 503.081, com ajuste sazonal. "Dezembro deve ser negativo, sempre é, mas esperamos que não tanto quanto no ano passado", afirmou, sem dar detalhes sobre os números do último mês do ano.

Para Dias, o resultado do Caged nos últimos meses têm sido melhor que os verificados em igual período de 2012 e a expectativa de investimento também é melhor para 2014. Segundo ele, a expectativa do governo é que o saldo líquido de geração de empregos formais em 2014 seja superior ao de 2013. De janeiro a novembro deste ano, foram gerados 1.546.999 empregos, número que deve cair por causa das demissões que ocorrem em dezembro. "Nossa expectativa é gerar mais empregos em 2014. Seguramente", afirmou. Dias, no entanto, evitou dar alguma previsão para o saldo do Caged de 2013 e 2014.

Cresce para 16,8 milhões número de brasileiros que não trabalha nem quer emprego

Daniela Amorim
Agência Estado

Segundo o IBGE, aumento da inatividade explica queda da taxa de desemprego para mínima histórica

RIO - A redução na taxa de desemprego na passagem de outubro para novembro foi causada pela migração de indivíduos para a inatividade e não pela geração de postos de trabalho, apontou a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa de desemprego em novembro atingiu a mínima histórica e ficou em 4,6%.

"O que a gente vê aqui é a redução da desocupação em função do aumento da inatividade. Então não houve aumento do número de postos de trabalho. O que houve foi aumento das pessoas que passaram para a inatividade", ressaltou Cimar Azeredo, gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

O aumento expressivo na inatividade registrado em novembro é explicado pelo crescimento da faixa da população que não trabalha nem quer ter um emprego, segundo o IBGE. O fenômeno já tinha sido observado no mês anterior.

Na pesquisa, o número de pessoas que não trabalham nem queriam trabalhar passou de 16,725 milhões em outubro para 16,851 milhões em novembro. Em novembro de 2012, esse contingente de pessoas totalizava 15,880 milhões.

Entre as possíveis explicações para o aumento do desinteresse pela busca de emprego estão ajustes já feitos para trabalhos temporários a partir de dezembro, ou o aumento do rendimento, que proporciona a jovens, mulheres e idosos não precisarem mais trabalhar para complementar a renda familiar.

"Há migração no contingente de desocupados para a inatividade. O motivo dessa migração a gente só vai ter quando tivermos os dados de dezembro", insistiu Cimar Azeredo, gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

O número de pessoas consideradas em desalento - aquelas que desistiram de procurar emprego porque acham que não vão conseguir - dobrou na passagem de outubro para novembro. No entanto, o número ainda é bastante reduzido: em outubro, havia 3 mil pessoas em situação de desalento, enquanto em novembro esse número passou para 6 mil pessoas. "Esse número é tão pequeno, não é significativo", ressaltou Azeredo.

Em novembro de 2012, os desalentados somavam 10 mil indivíduos. "O número de desalentados é volátil demais, num mês dá 6 mil, no outro pode passar para 12 mil", alertou o pesquisador.

Taxa de desemprego recua para o menor patamar histórico, de 4,6%, em novembro, aponta IBGE

Lucianne Carneiro  
O Globo

Em outubro, indicador havia alcançado menor patamar do ano, ficando em 5,2%


RIO - A taxa de desemprego ficou em 4,6% em novembro, o que significa uma queda de 0,6 ponto percentual frente aos 5,2% em outubro, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE. Com isso, voltou ao menor patamar da série histórica (iniciada em março de 2002), de 4,6%, registrado em dezembro de 2012. Em novembro de 2012, a taxa tinha sido de 4,9%. A taxa baixa, no entanto, não foi alcançada graças à geração de vagas no mercado de trabalho, mas à redução do montante de desocupados e aumento dos inativos, ou seja, de pessoas que não procuram emprego.

- A taxa não mostra que o mercado de trabalho reduziu a desocupação por geração de postos de trabalho, mas por aumento de inatividade, ou seja, de pessoas que estão fora da força de trabalho - afirma o gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo.

A população desocupada caiu 10,9% em novembro, frente a outubro, para 1,131 milhão de pessoas. Isso significa que 139 mil pessoas deixaram de procurar emprego, das quais apenas 14 mil encontraram emprego, ou seja, entraram na população ocupada. O número de inativos era de 18,582 milhões de pessoas em novembro de 2013, ante 17,781 milhões um ano antes. Frente a outubro, houve aumento de 4,5% dos inativos. É o quarto aumento seguido na comparação com o mês anterior.

Segundo Cimar, entre as razões que podem ter contribuído para o aumento dos inativos pode ser o fato de já terem acertado um início de trabalho em dezembro, o aumento da renda na família, que diminui a necessidade de procurar trabalho, ou o desalento (pessoas que desistiram de buscar emprego porque não acreditam que vão conseguir) .

- Essa migração para a inatividade, no entanto, só vai ser melhor esclarecida na divulgação de dezembro – disse.

As taxas de desemprego de Rio, São Paulo e Porto Alegre também alcançaram o menor nível da série histórica e graças mesmo movimento de aumento do número de inativos. As taxas foram de 3,8%, 4,7% e 2,6%, respectivamente.

A boa notícia para o mercado de trabalho veio da renda: O rendimento médio real habitual subiu 2% frente a outubro e alcançou R$ 1.965,20. Frente a novembro de 2012, a alta da renda foi de 3%. O aumento da renda ocorreu nas seis regiões metropolitanas avaliadas na pesquisa, com exceção de Salvador, com queda de 2,6% no rendimento frente a outubro.

Número de trabalhadores com carteira cai
Por outro lado, o número de empregados com carteira de trabalho recuou 0,7% na passagem entre outubro e novembro, embora na comparação com novembro o indicador acumule alta de 3,1%.

- Não é exatamente um número ruim, mas o número de empregados com carteira vinha melhorando nos últimos meses. Se no mês que vem vier outro ponto negativo, vai ter clareza que se está desfazendo postos de trabalho registrados – apontou Cimar.

Já a indústria perdeu 145 mil postos de trabalho na comparação com novembro de 2012 e 92 mil vagas frente a outubro, na segunda queda seguida na comparação com o mês anterior. O gerente do IBGE alerta que esse é um dado preocupante, especialmente nesta época do ano. A renda da indústria, no entanto, continua em alta: de 5,7% na comparação com outubro e de 9,7% na comparação com novembro de 2012.
- O número de pessoas trabalhando na indústria cai, mas o rendimento aumenta. Isso pode sugerir que a redução dos trabalhadores se deu no chão de fábrica, em que as pessoas ganham menos – explicou Cimar.

No acumulado entre janeiro e novembro, a taxa média de desemprego em 2013 foi de 5,5%, enquanto no mesmo período de 2012 era de 5,6%. Como o resultado de dezembro é geralmente mais baixo – porque menos pessoas buscam trabalho na época das festas de fim de ano -, a tendência é que a taxa fechada de 2013 seja menor que a de 2012, que foi de 5,5%.

Os dados são da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), realizada nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.


Aviõezinhos de papel.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O Brasil acaba de comprar, por US$ 4,5 bilhões, o direito de participar do desenvolvimento do projeto de um avião supersônico. O Grippen NG, da Saab, é o sucessor do Grippen, um caça de sucesso (e tem sua origem remota no Viggen, avião de combate de ótima reputação, símbolo da boa engenharia sueca), mas ainda está no papel. Isso foi apontado como vantagem: ao participar do projeto, o Brasil leva de brinde ampla transferência de tecnologia, podendo criar uma base que lhe permitirá, no futuro, desenvolver aqui jatos de combate e ataque ao solo.

OK, não é bem assim; falta combinar com os americanos, que fornecem parte das peças e precisam autorizar a transferência desta tecnologia. Mas é um bom começo. Ou seria: afinal, quais as necessidades militares do Brasil? E da FAB?

As Forças Armadas estão mal de verbas, equipamentos e infraestrutura. Há falta de refeições para os recrutas e de munição para exercícios de tiro. Seria a compra de aviões o projeto prioritário? Imaginemos que seja. Mas é de caças supersônicos que o Brasil, que não tem pendências com os vizinhos há mais de um século, precisa? Vigiar as fronteiras, patrulhar o pré-sal, tudo isso não seria feito, e bem, por aviões não tripulados, os drones, que custam muito menos? Quantos drones de última geração poderiam ser comprados pelo preço dos Grippen?

É questão de conceito: as magníficas trincheiras francesas, de ótima tecnologia, não resistiram ao novo conceito da guerra blindada alemã. Os drones talvez sejam o futuro da aviação militar num país pacífico com muita coisa a defender.

Sem piloto
O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse que o Brasil comprará 300 drones neste ano. E o país se estrutura para produzir aviões não tripulados em grande escala. Em outubro, foi liberado pelo Governo o acordo entre Avibrás, Embraer Defesa e AEL Sistemas para construir o drone Falcão, projetado para uso das Forças Armadas. O drone será capaz de "apontar alvos, auxiliar na direção de tiro, avaliar danos" e fará "missões de reconhecimento, vigilância terrestre e marítima". Um avião desse tipo pode transportar foguetes e bombas, guiadas ou não.

Governo bom, barato e belo
A Assessoria de Imprensa do Governo paulista diz que a informação desta coluna (Dinheiro, pra que dinheiro) sobre verba publicitária está errada. "Ao contrário do que afirma o colunista, o gasto com publicidade do Governo de São Paulo vai diminuir em 2014. A dotação orçamentária atualizada de 2013 é de R$ 281 milhões, como pode ser comprovado por qualquer cidadão que buscar no Sistema de Informações Gerenciais de Execução Orçamentária, Sigeo, os valores consignados para o programa Comunicação Social. A proposta orçamentária enviada à Assembléia prevê, para o mesmo fim, R$ 188 milhões para o ano de 2014" (www.fazenda.sp.gov.br/SigeoLei131/Paginas/FlexConsDespesa.aspx)

Nosso líder é magnífico
A nota oficial segue dizendo que o Governo paulista segue a lei, o que não foi contestado em nenhum momento na informação: o que foi contestado é o gasto desnecessário de dinheiro público em propaganda, mesmo legalmente. Uma empresa de águas como a Sabesp, que não tem concorrentes, gasta contratando astros caros como Fernando e Sorocaba, ou como Edgar Picolli; o Metrô, que não tem concorrentes, gasta para dizer que São Paulo "é um Estado cada vez melhor". 

É por isso que o Brasil gasta mais que a Alemanha em propaganda oficial.

Incrivelmente bom
A propósito, a conta do Governo está errada. Como em 2014, por coincidência um ano eleitoral, não se pode gastar com publicidade no segundo semestre, o governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, tem de concentrar gastos no primeiro semestre. Em 2013, gastou R$ 16,1 milhões por mês com propaganda. No primeiro semestre do ano eleitoral, deve gastar por volta de R$ 31,5 milhões ao mês. A Assessoria de Imprensa diz que os gastos serão diluídos por oito meses, e ficarão em R$ 23,5 milhões mensais - bem mais que em ano não eleitoral.

Torrando o nosso
A propósito, a Agência Nacional de Cinema, Ancine, federal, escolheu a DM9DDB para cuidar de sua conta de publicidade de R$ 15 milhões por ano.

Alguém poderia contar a este colunista por que a Ancine precisa de propaganda?

Adeus, ano velho
A Assembléia do Rio aproveitou o clima de festas para tomar uma série de providências: dar auxílio-moradia de R$ 5 mil mensais para juízes e promotores, aumentar os vencimentos do governador e seus secretários, elevar o salário dos chefes de gabinete dos nobres parlamentares - de R$ 12 para R$ 16 mil mensais.

Agora, caro leitor, analisemos; o Governo paulista é PSDB, a Ancine, do Governo Federal, é PT, a Assembléia do Rio é PMDB. E o bolso é sempre o nosso.

Até janeiro!
Esta coluna é a última do ano. Permite aos leitores (e ao colunista) descansar um pouco desta vida de olhar o Brasil como ele é de verdade e ainda assim continuar gostando dele. A próxima coluna deve ser publicada na primeira quarta-feira de 2014, dia 8 de janeiro. 

Bom Natal, caro leitor, e Feliz Ano Novo. Até lá!

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Cenários sombrios, uma chance para a presidente

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Nem Papai Noel daria à presidente Dilma Rousseff uma oportunidade melhor depois de três anos de fracasso. Todas as projeções para 2014 apontam mais um ano ruim, com baixo crescimento econômico, inflação alta e grande buraco nas contas externas. Poderá haver algum avanço no investimento - se as concessões forem adiante e começar a execução dos projetos de infraestrutura. Com um pano de fundo tão feio, será fácil exibir e celebrar como vitória qualquer desempenho melhor que o de 2013. Projeções menos sombrias poderiam criar expectativas perigosamente otimistas e sujeitar a candidata à reeleição a cobranças constrangedoras. Os mais otimistas ainda poderão apostar num fator negligenciado nas projeções conhecidas até agora: a mudança ministerial no primeiro bimestre. Mas o otimismo, neste caso, conflita com o conhecimento. A experiência proíbe a esperança, quando se trata de imaginar um Ministério mais competente, depois dessa reforma, e mais orientado para acertar.

A economia brasileira crescerá 2,3% nos quatro trimestres até setembro de 2014, segundo a nova estimativa do Banco Central (BC). Será, portanto, uma repetição do cenário geral de 2013. O quadro apresentado no último informe da Confederação Nacional da Indústria (CNI) é muito parecido, mas um pouco menos luminoso: expansão de 2,4% neste ano e de 2,1% no próximo. As projeções de mercado coletadas pelo BC no dia 13 de dezembro pouco diferem das outras duas: expansão de 2,3% para o produto interno bruto (PIB) neste ano e de 2,01% em 2014 (esses números são medianas das estimativas).

A inflação deve continuar longe da meta, 4,5%, segundo as projeções publicadas até agora. A alta de preços deve ficar em 5,7% neste ano e alcançar 6% no próximo, de acordo com o documento da CNI. As estimativas do BC vão até 2015 e mostram números distantes da meta por mais dois anos. O cenário básico inclui números finais de 5,8% para 2013, 5,6% para 2014 e 5,4% para o ano seguinte. Juros básicos de 10%, recém fixados, câmbio de R$ 2,35 por dólar e contas públicas em condições mais ou menos estáveis foram tomados como base para os cálculos.

Todos esses dados justificam mais um ou dois aumentos da taxa Selic, incluídos na previsão do mercado financeiro para 2014 (já elevada de 10,25% para 10,5%). Pelas contas do mercado, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), deve ficar em 5,7% neste ano e bater em 5,95% no próximo. Segundo o governo, continuará, portanto, dentro da meta. Patacoada. A meta é 4,5%. O resto é margem para acomodar desvios. Mas desvios tão amplos são justificáveis somente em situações muito especiais. Nada tão especial ocorreu nos últimos três anos ou quatro anos, exceto na coleção de erros de política econômica. Isso inclui, entre outros itens, a redução dos juros no momento impróprio, o excesso de gastos federais e os estímulos mal planejados ao consumo.

Crescimento baseado no incentivo ao consumo é estratégia superada, segundo os analistas menos distraídos e um pouquinho mais atentos aos números de inflação, produção industrial e comércio exterior. É preciso investir muito mais para ampliar a capacidade de produção e o potencial de crescimento da economia. Essa necessidade é agora admitida até no governo, tanto por ministros quanto por uma presidente pouco propensos a reconhecer os desajustes econômicos (eles continuam, por exemplo, classificando como "dentro da meta" qualquer inflação até o limite de 6,5%).

O potencial de crescimento do Brasil caiu de 4,3% ao ano pouco antes da crise global para 2,7% no terceiro trimestre de 2013, segundo estimativa publicada no último informe conjuntural da CNI. Para crescer mais o País precisará de mais capital físico - máquinas, equipamentos e instalações - e de muito mais produtividade. Isso dependerá tanto do setor privado quanto do governo. No ano passado o investimento diminuiu 4%. Deve ter aumentado 7,1% neste ano e poderá crescer mais 5% no próximo, de acordo com o documento da CNI. Se essas estimativas estiverem corretas, o País ainda investirá em 2014 pouco menos de 20% do PIB, bem menos que vários de seus vizinhos. No Equador, por exemplo, essa relação é próxima de 27%.

Na estimativa do BC, o investimento em capital fixo deve ter crescido 6,8% neste ano e deve aumentar 3,7% nos quatro trimestres até o terceiro de 2014. O cenário desenhado pelo pessoal da CNI parece mais bonito, mas é menos atraente quando visto em detalhes. O principal fator positivo deverá ser o programa de concessões na infraestrutura, mas seu impacto imediato será limitado.

Neste ano, o investimento privado foi em boa parte puxado pelas compras de equipamentos de transporte. A lei exigiu motores a diesel com menor emissão de enxofre e, além disso, a boa safra de grãos e oleaginosas favoreceu o aumento das frotas de caminhões e de máquinas agrícolas. As compras de outros tipos de máquinas e equipamentos também cresceram, mas em menor proporção. Isso se reflete no baixo crescimento da indústria de transformação, estimado em 2,3% pela CNI. Reflete-se também no baixo poder de competição do setor industrial, em apuros tanto no exterior quanto no mercado interno. Nem o real desvalorizado compensou a baixa competitividade da maior parte dos produtores de manufaturados.

De janeiro até a segunda semana de dezembro as exportações totais, US$ 230,42 bilhões, foram 1,6% menores que as de um ano antes, pelas médias dos dias úteis. As importações, US$ 230,4 bilhões, foram 6,7% menores. Também isso mostra a fraqueza da economia brasileira e o tamanho do desafio posto diante do governo. Reconhecer o problema, admitir sua origem interna e tentar enfrentá-lo sem os truques baratos do protecionismo será um bom começo.

Surge um ingrediente da ‘tempestade perfeita’

Editorial
O Globo

O início da redução dos estímulos monetários nos EUA é um dos componentes do cenário que levaria a fortes pressões para uma desvalorização ainda maior do real

No mesmo dia, quarta-feira, em que o presidente do Banco Central americano (Fed), Ben Bernanke, anunciava em Washington que afinal o programa de afrouxamento monetário (Quantitative Easing) começaria a ser reduzido, no Brasil conheciam-se as mais recentes estatísticas sobre as contas externas do país, referentes ao período de janeiro a novembro. Há relação entre as duas coisas.

Em onze meses, o Brasil jamais teve um déficit tão grande: US$ 72,7 bilhões, cifra que representa o saldo resultante do confronto entre entradas e saídas de divisas no comércio de mercadorias e serviços. A nova projeção do BC para o ano é um déficit de US$ 79 bilhões. Tudo está, até agora, sob controle. O déficit chega a 3,57% do PIB, nível administrável, se for considerada a entrada de dólares por meio de investimentos diretos e aplicações financeiras. Mas, como se costuma dizer, a foto não é preocupante, porém o filme, em movimento, não aponta em boa direção. A tendência de degradação nas contas externas deve colocar em estado de alerta os responsáveis pela política econômica.

Neste quadro, coloca-se o início da redução do estímulo monetário americano: em vez de US$ 85 bilhões mensais, serão gastos US$ 75 bilhões na compra de títulos, para injetar liquidez na economia, enquanto os juros básicos são mantidos entre zero e 0,25%. O gradualismo deve presidir esta operação. Mas é inexorável o efeito colateral de valorização do dólar e, consequentemente, desvalorização de outras moedas. Quanto menos confiáveis os fundamentos de um país, maior será a fuga de divisas de volta a Wall Street, diante da perspectiva de elevação dos juros americanos. O Brasil se enquadra neste caso. A desvalorização do real, de cerca de 15% a 20%, ocorrida desde a primeira menção de Bernanke, em junho, de que chegaria o momento da redução do "afrouxamento monetário", parece ter sido a precificação antecipada deste movimento. Tanto que, agora, o câmbio não não oscilou muito.

Mas é só o início. Um real desvalorizado ajuda a reanimar as exportações de manufaturados, ao compensar parte das debilidades competitivas do país, mas aumenta a temperatura na fornalha já bastante aquecida da inflação. Começa a aparecer um dos componentes da "tempestade perfeita" de que teme o ex-ministro Delfim Netto. Se a nota de risco do país deixar de ser de "grau de investimento", como temem Delfim e analistas, surgirão mais pressões para desvalorizar o real. Pois, não bastasse a tendência de fuga de divisas de volta a Wall Street, a elevação da nota de risco brasileira terá o mesmo efeito. Não se deve esquecer que muitos fundos de investimentos globais só podem atuar em economias com "grau de investimento".

Brasília não deve se enganar com a ausência de grandes turbulências no momento. A possibilidade da "tempestade perfeita” existe, e por isso a questão da transparência e credibilidade das contas públicas, insiste-se, deve ser prioridade absoluta no Planalto.

Menos desemprego, menos emprego

José Paulo Kupfer
O Estado de SPaulo

Mais uma vez, a queda da taxa de desemprego se deu, em novembro, mais pela redução da população economicamente ativa (PEA) do que pelo aumento da população empregada – o conjunto da população ocupada, em um ano, na verdade, encolheu, ou seja, existe menos gente trabalhando. O fenômeno tem se repetido já há algum tempo e explica o aparente enigma de desemprego em queda com atividade econômica fraca.

A taxa de desemprego de 4,6%, registrada no mês passado, é a menor da atual série, iniciada em 2002, tendo já ocorrido em dezembro do ano passado. A taxa vem apontando para baixo desde junho. Em novembro, na composição da população ocupada, observou-se queda na indústria, construção civil e serviços domésticos.

Informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que é formado pela declaração obrigatória das empresas do fluxo de admissões e demissões, no mercado formal, já apontavam uma retomada das contratações, neste fim de ano. Caso se confirme a tendência do Caged, aumenta a probabilidade de a PEA apresentar movimento de alta em 2014 e isso pode puxar a taxa de desemprego para cima. A PEA é formada pela população ocupada e desocupada, em idade ativa, descontados os trabalhadores ditos desalentados – aqueles que, por algum razão, não estão procurando trabalho no mês da pesquisa.

O rendimento médio real, em novembro, continuou em alta, com crescimento de 3% sobre o mesmo mês do ano passado, superior à alta de 1,8% verificada em outubro. A massa real de salários, que mostra o total da remuneração recebida pelos trabalhadores cresceu 2,2% sobre novembro de 2012, mas o ritmo de expansão está diminuindo. O mesmo quadro vale para o emprego com carteira assinada, que ainda cresce, mas em ritmo mais lento.

São todas indicações de que o mercado de trabalho continua firme, embora mostre sinais de lento enfraquecimento. Ao mesmo tempo, as perspectivas de recuperação da PEA não devem ser tão acentuadas a ponto de provocar altas sensíveis na taxa de desemprego ao longo de 2014.

A vida sem mensalão

Percival Puggina

Mensalão, você sabe o que é. É aquele crime que levou José Genoíno a demitir-se da presidência nacional do PT em 9 de junho de 2005 e o mesmo crime pelo qual Tarso Genro, ao substituir Genoíno no posto, pediu a "refundação" do partido. É o mesmo crime que conduziu à exoneração de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil em 16 de junho de 2005. O mesmo crime pelo qual Lula pediu perdão ao país, em rede nacional, no dia 12 de agosto de 2005. O mesmo crime que, em setembro de 2005, constrangeu centenas de militantes e dirigentes petistas a deixar o partido, filiando-se ao PSOL. O mesmo crime que justificou a cassação do mandato de José Dirceu pela Câmara dos Deputados, em 1º de dezembro de 2005, numa votação secreta, com placar de 293 votos a favor e 192 contra. O mesmo crime que foi reconhecido como existente pelo atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em entrevista à revista Veja, na edição do dia 20 de fevereiro de 2008. O mesmo crime que deu causa à condenação de 25 réus por um plenário do STF onde oito dos onze magistrados foram indicados pelo PT. O Mensalão é o mesmo tipo de crime que os petistas, em uníssono, acusam ter ocorrido anteriormente em Minas Gerais, num governo tucano (o processo está no STF aguardando decisão sobre onde deve ser julgado). 

O Mensalão é, também, por fim, aquele crime que as mesmas legiões de petistas, em misto de exaltação cívica e amnésia seletiva, punhos erguidos ao vento, afirmam, agora, que simplesmente não existiu! Gerou uma hecatombe interna, mas não existiu. A gente compreende. É a causa. Ela sempre está em primeiro lugar. Ela ocupa o centro de um altar onde tudo se sacrifica - a verdade, a história, a lógica, o amor próprio. É o velho tema dos fins e dos meios, que todo mundo conhece. Uns cospem fora. Outros engolem sem nenhuma dificuldade. 

Durante muitos anos, a disciplina da base do governo vinha sendo mantida com a liberação de emendas parlamentares. Era um mecanismo que funcionava em três tempos: 1º) o congressista apresentava propostas pessoais ao Orçamento da União, dentro de um limite que neste ano ficou em R$ 15 milhões para cada um, destinando os recursos para demandas de suas bases eleitorais; 2º) o Congresso aprovava o Orçamento; 3º) as emendas só eram liberadas, gradualmente, ao longo do exercício, segundo o bom comportamento do seu autor nas votações de interesse do governo. Nesse caso, para que o Mensalão? Ora, o Mensalão foi um adicional, um "por fora", agregado a algumas bancadas, ou a parte delas, para - digamos assim - aumentar o entusiasmo da adesão dos deputados ao governo petista. Congressista feliz com o governo faz o governo feliz. 

Tivessem os líderes dos partidos beneficiados com os repasses do Mensalão revelado os nomes dos colegas recebedores, haveria, certamente, mais de uma centena de réus no processo. Os líderes, no entanto, suportaram sozinhos os ônus do criminoso papel desempenhado. Roberto Jefferson, líder do PTB, indagado sobre quem recebera os valores que lhe foram entregues, respondeu que isso ele não revelaria nem amarrado num toco levando chicotada. 

E agora? O Congresso Nacional aprovou, há poucos dias, um projeto que torna obrigatória a liberação das emendas apresentadas pelos congressistas, com a condição de que sejam destinadas à saúde pública. É um avanço. Acabou a chantagem do governo sobre os parlamentares através da liberação ou não dos recursos correspondentes às emendas que apresentam. E acabou também o Mensalão, porque dá cadeia. Como fica, então, a negociação do governo com sua base, na ausência de moeda de troca? Como assegurar-se a fidelidade de uma base habituada a negociar periodicamente seu apoio ao governo? 

A política nacional desceu a um nível baixíssimo. O presidencialismo multipartidário de cooptação impõe seus rasteiros estratagemas de governabilidade: apoio é coisa que se compra. De momento, o governo tem apenas cargos para oferecer. Isso não basta, os cargos já estão ocupados e não assegura maioria para todas as votações em que sua base deve permanecer unida. Que será que vem por aí? O sistema ficou manietado! 


Mandela e o mensalão

Guilherme Fiuza
O Globo

No embalo do espírito natalino, virou moda entre a elite culta defender José Genoino

A frase que resume os dez anos de reinado do oprimido no Brasil foi dita pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado no processo do mensalão: “Se o Mandela ficou 27 anos preso, eu suportarei também.”

Nelson Mandela tinha acabado de morrer, e já era contrabandeado pelo herói mensaleiro. Os oprimidos de gravata sugam o que podem, até a memória alheia. Não se pode esquecer que, em sua propaganda eleitoral, Dilma Rousseff confiscou a identidade de Norma Bengell, usando uma foto da atriz na passeata de 1968 em sua apresentação biográfica. No dia seguinte ao brado de João Paulo Cunha, Dilma estava no Congresso do PT que apoiou os mensaleiros condenados. A presidente repetiu, com a ajuda de Lula, o já famoso gesto do braço erguido com o punho cerrado — inaugurado por Dirceu e Genoíno na chegada à prisão. Não se sabe bem o que significa aquela mão fechada. Há quem diga que é um aviso de que não vão devolver o que roubaram.

Como pode a presidente da República participar de um comício em defesa de corruptos condenados e presos? Um comício onde um partido político censura a mais alta corte da Justiça, com pesados ataques ao seu presidente? Dilma pode. Assim como o mensaleiro João Paulo pode se comparar a Mandela e, em seguida, dizer “longe de mim me comparar a Mandela”. Pode também distribuir centenas de exemplares de uma revista inocentando a si mesmo, e se declarar ofendido quando a imprensa pergunta quem pagou aquilo. Num país saudável, João Paulo Cunha viraria piada e Dilma Rousseff teria de prestar esclarecimentos no Congresso Nacional sobre seu gesto favorável a criminosos. Mas no Brasil a moral virou geleia.

Tanto que, no embalo do espírito natalino, virou moda entre a elite culta defender José Genoíno. Vozes intelectualizadas se erguem para avisar que o ex-presidente do PT, condenado e preso, não ficou rico e vive até hoje modestamente. Os samaritanos não chegam a dizer que o mensalão não existiu, mas dizem que a biografia de Genoíno é ótima e ele é cardíaco. Bradam que é um absurdo estigmatizar como bandido um cara tão legal.

Não é preciso dizer mais nada para explicar o Brasil de hoje. Um indivíduo condenado como partícipe do maior assalto aos cofres públicos da história da República encontra, entre vozes supostamente respeitáveis, uma espécie de anistia informal. Estava no bando mensaleiro, mas leva uma vida franciscana. Se meteu nesse rolo, mas é gente boa. Note-se que essas pessoas de bem não chegam ao delírio petista de afirmar que qualquer um dos mensaleiros seja inocente. Apenas se mostram indignadas com o fato de um sujeito bacana como Genoíno (condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha) ser tratado como criminoso. Está inaugurada a figura do infrator bonzinho.

Possivelmente Genoíno não tramaria o valerioduto, exatamente por sua boa índole. Mas então deveria, em vez de assinar a papelada suja de Valério, ter se demitido imediatamente da presidência do PT. Não o fez porque já havia transformado a política em emprego, assim como o exército de companheiros medíocres que tomaram o Brasil de assalto como meio de vida. E não largarão o osso em 2014, justamente porque os brasileiros honestos são indulgentes com o infrator bonzinho.

No mesmo congresso partidário em que Dilma participou do desagravo aos mensaleiros, Lula deu mais uma aula de princípios. O oráculo afirmou que a imprensa (sempre ela) exagerou no caso do emprego de José Dirceu. Um sujeito condenado por desviar uma montanha de dinheiro público consegue, na prisão, salário de 20 mil reais como gerente de um hotel que tem um “laranja” entre seus donos. Mais impressionante: esse condenado que não disfarça suas ótimas relações com o submundo é apoiado em público pelo ex-presidente e sua preposta que governam o país. E o país, ato contínuo, avisa que vai reeleger o bando em primeiro turno.

Pensando bem, com um salvo-conduto desses, piratear Nelson Mandela e Norma Bengell está barato. Jesus Cristo não escapa.

Enquanto isso, na realidade tediosa dos que não têm os punhos cerrados em direção ao céu, o Brasil bate mais um recorde: maior rombo nas contas externas em mais de 50 anos. Uma bobagem, puro preconceito contra o governo popular: os investidores estão fugindo do Brasil só porque o governo petista mente sobre suas contas, tenta esconder a inflação comprimindo tarifas e comprometendo empresas como a Petrobras, diz coisas desencontradas sobre política monetária, abandona a infraestrutura e fatura com a selva tributária, fazendo o risco Brasil disparar. Tudo inveja da ascensão terceiro-mundista, diria o saudoso Hugo Chávez.

Agora há uma corrente do PT defendendo apoio formal aos métodos boçais dos black blocs. Medida desnecessária. Os métodos do partido destroem com muito mais eficácia.

Os anjos e o intérprete no funeral

Fernando Gabeira 
 O Estado de S.Paulo

O papa Francisco foi considerado a personalidade do ano pela revista Time. Mas quem fez uma aparição inesquecível foi o intérprete no funeral de Nelson Mandela. Seu nome é Thamsanga Dyantyi, tem 43 anos e os olhos bem abertos, quase assustados. Vestia um terno escuro e usava um enorme colar azul, sua credencial para traduzir os poderosos para os surdos do mundo.

Não sei se o intérprete parou de fazer sentido em certo momento ou se jamais se preocupou com isso. Seus gestos pareciam transmitir uma espécie de tudo bem, continuemos juntos. Alguém conseguiu traduzir isso de sua linguagem gestual. Mas também traduziu como socorro, cigarro, enfim, uma série de palavras que nada tinham que ver com o contexto.

Acusado de assassinato e estupro, Thamsanga impressionou o mundo porque se aproximou dos poderosos, furando todos os bloqueios de segurança que fazem e refazem constantemente. Ele não se considera perigoso. Com alguns rudimentos da linguagem gestual achou que poderia encarar a tarefa, que ninguém jamais se daria conta do seu improviso jazzístico, numa cerimônia em que muitos cantavam e alguns líderes mundiais viviam momentos de poses para o Facebook. Denunciado como impostor, Thamsanga declarou-se doente mental e disse que foi assaltado pelos anjos. Ele mesmo não tem a mínima ideia do que traduziu e ficou surpreso com o cerco da imprensa.

No meu trabalho cotidiano tenho encontrado muita gente que recebe entidades do além ou teve contato com seres do outro mundo. Mas em quase todos os casos seres e entidades enviam mensagens compreensíveis. Que tipo de falange atacou Thamsanga no momento em que falavam grandes líderes mundiais? O que queriam dizer com essa tradução? Tudo bem, continuemos juntos?

Se fossem anjos budistas trabalhariam com o koan, uma forma de ensinamento que desafia a compreensão racional, como, por exemplo, ouvir o barulho de palmas de uma só mão. Mas não era isso. Os anjos pareciam se rebelar contra a linguagem política nas cerimônias, melhor cantar e dançar do que ouvir o que os franceses chamam de langue de bois, palavras sem contato com a realidade.

O Brasil terá eleições no ano que vem. Imagino o que aconteceria se a mesma falange baixasse nos intérpretes dos programas eleitorais gratuitos. Nesse caso teríamos, sim, grandes espetáculos. É possível que radicalizem e saiam, literalmente, cobras e lagartos dos punhos das camisas, e nossas telas iriam reproduzir imagens de telas fantásticas da Antiguidade.

O mal do intérprete sul-africano é comum num cotidiano em que a tecnologia avança a passos que não podemos seguir. Muitos se perguntam se ainda estão dizendo coisa com coisa nessa corrida veloz atrás dos novos instrumentos, novas explicações dos cientistas e divulgadores que constituem a Terceira Cultura. Essa expressão foi criada por C. P. Snow, que via duas culturas nitidamente separadas, a científica e a, por assim dizer, literária e humanística. A Terceira Cultura seria uma tentativa de cientistas e divulgadores preencherem a distância entre as duas.

Nesse campo, estamos numa fase de convergência dos discursos, de reencontrar um terreno comum em que não sejamos intérpretes no funeral um para o outro. Mas na política brasileira a performance de um intérprete como Thamsanga não é mais necessária. As pessoas sabem que aquilo não faz sentido, é apenas um amontoado de frases vazias, sem contato com a realidade.

As manifestações de junho já vão longe. Mas em muitos programas partidários foram elogiadas, como se os partidos estivessem envolvidos nelas e não fossem um alvo de sua crítica. Não mudaram nada em suas estruturas, não se abriram para a sociedade. E agora virão dizendo como Thamsanga: socorro, precisamos continuar juntos.

Desmascarada a impostura de Thamsanga, valeu ao menos como uma lição para os poderosos do momento: não são apenas as versões que contam, existe ainda um sentido de realidade. O que se vê hoje no Brasil é uma falange de interpretes de funeral criando uma versão própria para fatos consolidados, como o julgamento do mensalão.

Os anjos que possuíram Thamsanga apenas desconstruíam o discurso. Os que voam no imenso céu da América do Sul oferecem versões articuladas, chegam na forma de pássaro para Nicolás Maduro, desenham o efígie de Hugo Chávez nas paredes de Caracas, transformam em guerreiros do povo brasileiro quem cometeu crimes contra a democracia.

Chega um momento em que todos descobrem as falhas do intérprete. O que podem dizer os anjos aos dirigentes do Rio num momento em que começam as chuvas de verão? Depois que possuíram Thamsanga, fiquei mais atento aos anjos. Passaram por aqui na tempestade. Frequentaram alguns sites que diziam: manifestantes protestam contra enchentes. Como se estivessem protestando contra um fato natural e seu alvo simbólico fosse São Pedro. Reapareceram no discurso político: as chuvas são um problema de décadas; nosso bloco está no poder há apenas pouco mais de uma década, logo, esperem mais algumas décadas para julgar nosso trabalho.

Tenho poucas esperanças no processo eleitoral. Thamsangas de todos os níveis vão ocupar as telas. Muita gente vai perceber que não fazem sentido e recusar o processo, por meio dos votos em branco e nulos. Isso não impede que haja vencedores e que continuem inspirados pelos anjos. Uma versão histórica transmitida pelos anjos que os possuíram. Los Angeles defensores dos pobres e dos oprimidos.

Como muitos ainda se impressionam com os gestos do intérprete, sua faixa azul e os olhos assustados, é possível que sua mensagem seja aceita pela maioria dos eleitores. É a mensagem de ano-novo de Thomsonga: socorro, precisamos continuar juntos. Para a qual também existe uma outra versão respeitável: precisamos continuar juntos, socorro!

O país das pernas mancas

Tribuna da Imprensa
Sylo Costa, O Tempo

O ministro Mantega diz que a falta de financiamento para consumo fez o Brasil andar com “pernas mancas”. Falou quem não devia, mas quem pode.

Todo mundo sabe que o Brasil está “coché” das pernas. Mas muita gente não sabe o que é “coché”, cujo significado – “aquele que manca ou que tem pernas escabufadas…” – aprendi, ainda menino, lá no Vale, nas Escolas Reunidas. Com o tempo, o idioma muda mesmo. Entregador de correspondência passou a ser mensageiro, ladrão do dinheiro público é mensaleiro e conversador fiado, como o ex-Luiz, permanece fuxiqueiro.

Eu disse que falou quem podia. Sim, mas falou bobagem, o que também não é novidade. O que existe em abundância, neste país, além de governo mentiroso, mas, mentiroso mesmo, é crédito para sustentar o comércio de bugigangas, inventamos até o tal de “consignado”, que pendurou muita gente que vive do serviço público. O Brasil, junto com a Petrobras, quebrou com essa gastança, o que era previsto, pois, motorista não pilota avião…

A vida está pela hora da morte, mas todo mundo tem cartão de crédito ou débito. É comprar qualquer coisa e pegar o cartão que a pergunta é automática: crédito ou débito? Quer que divida? Isso significa que estamos pagando a mais. Se tanto faz pagar à vista ou à prestação, é sinal de que os juros estão embutidos. E onde estão as autoridades monetárias? Estão por aí, falando tanta bobagem como os fanáticos da seita do ex-Luiz. Um banco mineiro de médio porte vendeu sua carteira de crédito consignado à Caixa por mais de R$ 1 bilhão… Depois criticam ou mangam de quem vende lotes na lua. Quem é o avalista? A própria administração pública, responsável pelo pagamento dos servidores. Já tem banco anunciando uma classe emergente na sociedade: os negativados… Depois de fazer uma carteira de negativados, vende para um banco do governo. E nesse meio do caminho alguma coisa sempre cai e fica esquecida, né?

CAMPOS DE FUTEBOL
Esclareço ao ministro Mantega que o dinheiro sumiu na construção de campos de futebol, centros administrativos, compra de automóveis em 90 meses, também causa do entupimento das ruas. Depois da Copa da Miséria do Mundo, o povo vai ter de comer pedaços de estádios suntuosos e, de sobremesa, pedaços de centros administrativos. Afinal, a prefeitura de BH não para de trabalhar para você. Em minha vida, juro por Deus, nunca vi tanta propaganda como estou vendo agora.

Para o próximo ano, a Presidência da República já orçou a pequena quantia de R$ 450 milhões para a publicidade do governo de dona Dilma. Programa de gente velha é, principalmente, ver novela, e não tem um intervalo sem propaganda da prefeitura de BH. Isso não é propaganda, é doutrina ou tática de guerrilha. Cadê o Ministério Público ou o Tribunal de Contas, pô? Estava disposto a votar em branco, já que estou desobrigado desse compromisso. Mas, porque quero participar, não votarei mais em branco… E quem quiser que entenda.

P.S.: Feliz Natal e boas festas.

Saúde, Dilma!

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

É disso que o país precisa – como revela a carta de um leitor médico que tem medo de represália

São nossos votos para 2014, presidente. A senhora venceu uma doença e uma eleição. Ao que tudo indica vencerá a próxima. A senhora precisa de saúde como mulher, mãe e avó. O Brasil precisa de Saúde, com maiúscula.

A coluna anterior “O corredor da morte nos hospitais” atingiu o nervo da revolta entre os leitores. Reproduzo abaixo parte da carta de um médico, que pede para não ser identificado, com medo de represálias:

Prezada Ruth. O que aconteceu com seu pai, infelizmente, é normal. Acontece com TODOS os planos de saúde em TODOS os hospitais do Brasil, quando se trata de atendimento de emergência. A autorização de procedimentos é sempre por telefone e, se você já tentou, sabe que isso significa horas de lenga-lenga e musiquinhas irritantes.

Até que se contate um médico auditor responsável, pelo menos uma hora já é perdida na espera. Por isso, os melhores atendimentos de emergência ainda estão nos hospitais públicos. Quando é preciso uma cirurgia de urgência, o cenário muda: vou dar o exemplo de um caso comum em nosso dia a dia.

O paciente chega politraumatizado – com uma fratura exposta de perna e um traumatismo craniano leve. A pancada na cabeça torna necessária a realização de exames, como uma tomografia, e a colocação do paciente em observação. A fratura exposta deve ser operada logo. Quanto mais tempo demora, maior o risco de o paciente contrair uma infecção que, se confirmada, será de difícil tratamento – ossos não respondem bem a infecções, o que obrigaria a cirurgias posteriores. Uma urgência, portanto.

Como o paciente está lúcido, ele diz à equipe que tem plano e quer operar em hospital particular. O chefe de equipe faz o contato e, em até duas horas, a transferência é autorizada. Falta a ambulância chegar, o que só costuma acontecer cerca de três horas depois.

É isso mesmo: em média, entre a chegada do paciente ao hospital público e a saída do paciente para o particular, o tempo de espera varia entre 5 e 8 horas. Diz-se que o período de ouro para essas cirurgias é de menos de 6 horas, para diminuir o risco de infecção. Normalmente, convencemos o paciente de que é melhor operar no hospital público e, depois, fazer o acompanhamento pós-operatório num hospital particular.

E é com isso que os planos de saúde contam. Que, com a demora, o SUS acabe arcando com as despesas maiores. Exames, medicamentos, material anestésico, material cirúrgico. E que, depois, não haja ressarcimento ao hospital por todos os serviços. Sem contar que um paciente que teria condições de arcar financeiramente por um serviço melhor acaba ocupando ou disputando espaço com pacientes menos favorecidos.

Talvez, no Hospital Lourenço Jorge, seu pai tivesse sido atendido mais rápido. Só teria de esperar pelos procedimentos numa maca muito menos confortável, em contato próximo com outros pacientes. Talvez visse alguns pacientes aguardando cirurgia espalhados nos corredores, por falta de vaga nas enfermarias. Quer dizer, talvez não. O Lourenço não tem neurocirurgião para ver a tomografia cerebral de seu pai. Sobraram só o Miguel Couto e o Souza Aguiar no Rio. Faltam neurocirurgiões que aceitem trabalhar por pouco.

Atualmente, meu salário pela prefeitura do Rio é de R$ 1.686. Passei num concurso entre os primeiros lugares para ter direito a esse salário. Somente aceitei por respeito à instituição onde fiz internato, residência e pós-graduação. Não aceitaria se não fosse por motivos idealistas. Sou obrigado a dar plantões com colegas que não fizeram concurso nenhum. Apenas conhecem as pessoas certas. E, por isso, recebem até R$ 7.500. Para realizar o mesmo serviço.

Também trabalho em hospitais particulares. E tento fazer o certo por lá também. Mas os mesmos planos de saúde que se negavam a pagar a tomografia de seu pai também se negam a pagar decentemente por nossos procedimentos. Recebo cerca de R$ 150 – para a equipe toda, cirurgião, auxiliar e instrumentadora – por uma fratura de calcâneo, cirurgia complexa, com alto risco de complicações. Para a placa e os parafusos utilizados para a fixação, que custam R$ 1.500, os planos pagam tranquilamente R$ 5.000.

Meus antigos professores me dizem que o foco precisa ser a saúde pública. No dia em que a saúde pública remunerar adequadamente a classe médica, os hospitais particulares e os planos de saúde serão obrigados a aumentar as remunerações se quiserem atendimento de qualidade.

Meus mestres são de um tempo em que um médico fazia carreira no mesmo hospital durante toda a vida. O que é cada vez menos possível, mesmo em hospitais particulares. O médico hoje tenta sobreviver até conseguir o suficiente para montar um consultório. Aí, é fugir tanto do serviço público quanto dos planos.  Ou largar a especialização, ir para o interior e entrar para o Mais Médicos.

Atendi índios na Amazônia e sou apaixonado pelo serviço público. Mas é cada vez mais difícil fazer carreira de Estado nos dias de hoje”.

Saúde, Dilma! 

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O Programa "Mais Médicos" remunera, inicialmente, R$ 10 mil p/mês. Conforme o relato acima, o profissional diz receber R$ 1.686,00/mês. Alguém explica a brutal diferença?

E, para encerrar: a troco do quê, a senhora Rousseff vetou a parte da MP aprovada pelo Congresso, do referido programa, que previa a carreira pública para médicos brasileiros?  Creio que se a carreira já tivesse sido instituída há mais tempo, e, obviamente, com salários decentes, maiores do que os escriturários que tem ingressado no serviço público, sequer precisaríamos importar médicos do exterior.  

O desafio que a espera está no 2º mandato

Marco Antonio Rocha
O Estado de S. Paulo

O que o país precisa agora é do aumento do emprego e da renda na área da produção, principalmente industrial, e dos serviços

As duas grandes tentações, quando se escreve um último artigo do ano sobre economia, são a do balanço e a da previsão.

Um balanço realmente útil não é, porém, o dos números e desempenhos, e, sim, o dos erros e acertos. Quanto à previsão, é geralmente tão inútil quanto equivocada, como as que têm vitimado nosso ministro Mantega quando cai na armadilha. Não vamos entrar nela. Nem na outra, a do balanço dos números ou dos acertos e erros.

Mas o que se pode dizer sobre a economia, nacional e mundial, quando se está na boca de um túnel pouco iluminado? Dá para enxergar alguma coisa nos primeiros metros, mas praticamente nada além da metade. E menos ainda como termina.

Um dos fatos relevantes que se veem com nitidez, mesmo sem vislumbrar seus desdobramentos, é a eleição presidencial na segunda metade do túnel de 2014. Isso no front interno. No front externo, o fato mais próximo – pode estar nos jornais de hoje – é o desmonte da lassidão monetária que o banco central americano implementa há algum tempo.

Essas duas coisas terão influência, de várias formas, em nossa economia ao longo do ano que entra.

E o que é que a economia brasileira precisa pedir ao Papai Noel neste Natal?

Uma boa aceleração do seu crescimento, impulsionado não mais pela euforia do consumo, e, sim, pela euforia dos investimentos. Sim, porque daqui por diante não se trata mais de aumentar empregos e renda mediante aumento das vendas do comércio. Isso já está se esgotando, se é que não se esgotou. O que o País precisa agora é do aumento do emprego e da renda na área da produção, principalmente industrial, e dos serviços. É isso que cria, de fato, o desenvolvimento sustentável, e não apenas uma sensação de bem-estar.

O governo Lula foi um período de bem-estar temporário. Favorecido pela economia internacional, pôde promover aumentos de salários, de empréstimos, de renda, etc., por meio de leis ou medidas administrativas simplesmente.

Outra coisa, bem mais difícil, é convencer os investidores, estrangeiros e nacionais, a investir pesadamente para promover a mesma coisa de forma mais permanente e estável: aumento do emprego, da folha de salários, da produção, da renda, dos recolhimentos para o INSS e o FGTS, para o Imposto de Renda, etc. Esse é o desafio ao longo do túnel do ano de 2014.

Nossa presidente Dilma entra em 2014 carregando um triênio de baixo crescimento da economia. Provavelmente, uma das médias mais baixas de um período de três anos. Por conseguinte, tem de tentar aumentar bastante o PIB em 2014 para melhorar a média do seu primeiro mandato. E não só para isso.

Como ela faz questão de ser reeleita, para reforçar o famoso projeto de poder do seu aguerrido partido, significa que terá de terminar bem melhor o primeiro mandato, em todos os aspectos, para poder entrar com o pé direito no segundo. Aí, sim, poderá reformar a casa da economia pelos alicerces, e não pelas lantejoulas e lustres de cristais. Lula criou uma classe média que pôde comprar geladeiras, máquinas de lavar, carros e até casas. Agora essa nova classe média está querendo mais e melhores empregos, mais e melhor ensino, mais segurança, melhor futuro para os filhos e para o país. Isso, só com empregos de melhor qualidade, mais estáveis e de mais futuro.

Aspirações que só serão atendidas com aumento substancial da Formação Bruta de Capital Fixo (perdão pelo economês) em indústrias, tecnologias, ensino. Ou seja, depende de um grau de confiança dos investidores que Dilma não conseguiu conquistar e até insistiu em perder.

Parece que se deu conta disso e tem feito algum esforço recente para mudar o estilo. Terá um ano para provar. Ou entrará perdedora num segundo mandato, mesmo que vitoriosa nas urnas de outubro.

O enigma das rendições no Araguaia

Elio Gaspari
O Globo

Está na rede um depoimento excepcional. É o áudio de 92 minutos da audiência do general Álvaro Pinheiro à Comissão Nacional da Verdade. No dia 12 de novembro, no Rio, ele respondeu às perguntas de dois assessores da CNV no salão nobre do Arquivo Nacional. Havia uma pequena plateia de militares que permaneceu em silêncio, e a sessão esteve livre das teatralidades comuns a esse tipo de evento.

O general Pinheiro fez sua carreira militar nas forças especiais do Exército. Ainda tenente, em 1972 foi ferido num combate no Araguaia. Retornou à área da guerrilha e esteve 247 dias na floresta. É dele a melhor analise militar da campanha, publicada em 1995.

Pinheiro é um crítico da Comissão da Verdade (“canalhice sem tamanho”, por olhar só para a ação do Estado). Usando palavras duras (aquilo não era guerrilha, mas “foco terrorista rural”), deu um depoimento didático, cordial mesmo, exprimindo a opinião de muitos militares que foram mandados para o Araguaia. Não deu nomes, datas ou eventos.

Aos 70 minutos e 10 segundos do depoimento, quando tratava da atuação das forças especiais, ele disse: “Às vezes o cara se rende, às vezes o camarada se entrega. (...) Às vezes o sujeito chegava na base, não quero mais, e tal. Houve casos assim.”

Quando um dos assessores perguntou-lhe por que não se conhecem casos de guerrilheiros que se renderam nessa fase, porque nela não houve sobreviventes, respondeu: “Não tenho a menor noção. Não tenho como lhe dizer a esse respeito.”

O general nega que tenha havido uma ordem para exterminar os guerrilheiros e argumenta que, se ela tivesse existido, teria sabido.

A relevância do depoimento de Pinheiro está em três de suas palavras: “Houve casos assim.” Até outubro de 1973, quando começou a última fase do combate, foram presos uns poucos guerrilheiros. Nenhum entregou-se numa base, nem diretamente à tropa militar. Pelos seus depoimentos, dois foram levados aos militares por moradores da região. Uma, sem dúvida, desejando-o. A partir de outubro a guerrilha foi combatida pelas forças especiais e, três meses depois, transformou-se numa debandada.

Numa guerrilha que começou com a fuga do chefe político (João Amazonas, em 1972) e terminou com a do chefe militar (Ângelo Arroyo, em 1974), haviam sobrado na floresta cerca de 35 jovens militantes do PCdoB. Desapareceram todos.

Até hoje os depoimentos de pessoas que viram guerrilheiros capturados a partir de outubro de 1973 vinham de moradores. Essa foi a primeira vez que um militar combatente falou em rendições, com guerrilheiros que iam à “base”, que podia ser um acampamento na floresta. Elas eram estimuladas por mensagens transmitidas por alto-falantes colocados em helicópteros e por panfletos que diziam: “Oferecemos a possibilidade de abandonar a aventura com vida, com tratamento digno e julgamento justo. Lembrem-se, o Brasil precisa de todos os seus filhos.”

• O depoimento do general está no seguinte endereço e merece ser ouvido inteiro: http://www.4shared.com/mp3/6uPTzn8y/Alvaro

A mágica nova e outra, velha
Está em curso uma mágica financeira por diversos estados. O governador quer se endividar, mas prefere não buscar créditos na União. Aparece um banqueiro e oferece-lhe um empréstimo em dólares, desde que o governo federal seja o avalista. Um telefonema para o Planalto, vem a garantia e o empréstimo sai, a juros que parecem camaradas.

Tudo bem, até o dia em que, por alguma razão, o câmbio vier a mudar de direção. Nessa hora o estado quebra e a Viúva federal terá que honrar a garantia, reabrindo-se assim a fábrica de esqueletos que assombrou o país antes que Fernando Henrique Cardoso consertasse suas contas.

Numa época em que o governo federal permite mágicas desse tipo bem que seu mágicos poderiam olhar para trás. Em 1973, ajeitou-se a taxa de inflação. Depois, criaram-se grande projetos que em algumas operações serviam para inflar as contas de investimentos estrangeiros com fornecimento de máquinas. O governo comprava o que não precisava, os bancos financiavam e as fornecedores faturavam. (As locomotivas elétricas compradas pelo governo de São Paulo viraram sucata.)

Em 1983, quando havia poucas mágicas disponíveis, Pindorama estava quebrada e a agência do Banco do Brasil em Nova York não tinha caixa para fechar suas contas ao fim do dia. Inicialmente, esse buraco era coberto por algum grande banco americano com depósitos feitos à ultima hora, sacados na manhã seguinte. Quando nem isso se conseguia, os feiticeiros faziam o seguinte:

Cobriam o buraco trazendo rapidinho ouro extraído da mina de Serra Pelada. Como a Casa da Moeda não tinha certificação internacional para cunhá-lo, acertou-se um esquema com o banco Morgan. Um funcionário, no Rio, presenciava a decolagem para Nova York do avião com os lingotes. Telefonava para a matriz, informava o valor transportado e ela depositava o equivalente na conta do Banco do Brasil. Depois, ia tratar da cunhagem.

Meses depois o Brasil quebrou de vez. Nessas operações, segundo o banqueiro que coordenava o socorro, o Morgan ganhou US$ 25 milhões para ver ouro voar.

Vai piorar
O Ministério Público que investiga a rede de propinas da Secretaria de Finanças de São Paulo já dispõe de elementos que indicam sua atividade bem longe no passado.

Outras narrativas informam que durante a prefeitura de Kassab era possível anular multas fazendo-se doações para cobrir dívidas de campanha.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e leu o cartapácio programático que o senador Aécio Neves divulgou na semana passada. Por cretino, é incapaz de achar uma ideia num texto. Por isso, concordou integralmente com tudo o que escreveram.

Depois, soube que há a possibilidade de o tucanato recorrer aos préstimos do marqueteiro Duda Mendonça. Ocorreu-lhe sugerir um nome para tesoureiro dessa campanha. Precisa de emprego, tem experiência. Chama-se Delúbio Soares e mora na Papuda.

Madame Natasha
Madame Natasha encantou-se quando soube que a doutora Dilma disse que na sua gestão da economia prefere “a linha Churchill: sangue, suor e lágrimas”.

Natasha lastima que a doutora tenha repetido um mau hábito ao citar frase de Sir Winston. Completa, ela é assim: “Não tenho nada a oferecer, senão sangue, suor, lágrimas e trabalho”.

As pessoas adoram esquecer da palavra “toil”, que em português claro significa “ralação”.

Alegria do ano
A doutora Dilma acha que em agosto passado recebeu um presente tardio do Natal de 2012 quando nomeou o embaixador Luiz Alberto Figueiredo para o Ministério das Relações Exteriores.

O buraco é mais embaixo

Fernão Lara Mesquita 
 O Estado de S.Paulo

Acompanho a comemoração na imprensa em torno da votação do Supremo Tribunal Federal (STF) que caminha na direção de "proibir" o financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas e me bate um desânimo ancestral.

Alguém acredita que de fato vai cessar a roubalheira na construção de estradas, de metrôs, de hidrelétricas; na saúde pública; na construção de escolas; na escolha dos livros didáticos comprados pelo governo; na merenda escolar; na compra de remédios e ambulâncias; na expedição de alvarás para construções privadas; na fiscalização de feiras, bares e restaurantes; do guarda que troca a multa por 50 paus - vá lá! escolha você mesmo! - se o Supremo Tribunal Federal proibir o financiamento de campanhas eleitorais com doações de empresas privadas?

Alguém acredita que o horário eleitoral gratuito se tornará menos mentiroso e nefasto se o direito que os políticos se outorgam de mentir pela gorja sem contraditório em rede nacional em horário nobre for financiado só com dinheiro público?

Alguém acredita que as próprias doações de campanha cessarão apenas porque os meritíssimos assim decidiram? Que foi por falta de alguém ter essa boa ideia que vimos sendo roubados há 513 anos?

E o PT, que levantou essa bandeira exatamente a partir do minuto em que chegou "lá" e nem um segundo antes, fê-lo para que o País deixe de "ser", ou para ficar sozinho distribuindo bolsas, isenções de impostos, quebrando a Petrobrás para encher o tanque da freguesia a preço eleitoralmente conveniente, destruindo a indústria nacional à custa de aumentos de salário sem aumentos de produtividade, sustentando o consumo contratando dívida e inflação futuras e o mais que a gente sabe, sozinho na raia?

Por que a imprensa se presta a dar ares de seriedade a tapeação tão evidente e antiga? Ela não consulta os seus próprios arquivos? Os livros de História, para se lembrar de há quanto tempo a gente que nos explora vive de remexer o acessório para manter como está o principal?

Não, o vício é nacional, não é só dos políticos. Mais do que isso, o vício é cultural. Irmana meia humanidade.

Regulamentar o irregulamentável. Encher bibliotecas inteiras de leis e leis sobre leis sem perder um minuto sequer com considerações práticas sobre a factibilidade de aplicá-las. Discutir infindavelmente sobre o nada com uma retórica grandiloquente. Fazer revoluções em palanques, em tribunas e em mesas de bar. Eis as marcas do DNA latino! Até as mensagens do Twitter já se propôs regulamentar nos espasmos legiferantes da presente temporada. O que virá depois? O Facebook e o resto da internet? E então a definição das conversas e sussurros regulares e irregulares nas praças públicas?

E que tal começar pelo final, como fizeram os países onde de fato existe democracia? Que tal declarar todo mundo - a começar pelo "rei" - igual a todo mundo perante "A Lei"? Ter um único foro de julgamento para todos? Uma única prisão para quem quer que queira pisar deliberadamente no tomate? Um ou no máximo dois recursos de julgamento?

A doença degenerativa do Brasil se chama impunidade. De modo que acabar com a impunidade faria mais pela cura da nossa chaga política e de todas as outras que ela abre e infecciona do que mais 50 decisões do STF sobre a periferia da regra eleitoral.

"Ah, mas se formos esperar o Congresso a reforma política não sai nunca!" Não sai mesmo. Mas a função do Judiciário não é tomar o lugar dos legisladores sob esse pretexto. A função do Judiciário é enquadrar os legisladores na lei que eles próprios escrevem. Na única lei que deveria viger no País, igual para todos. É fazer isso que o resto acontece sozinho!

E impunidade não é só a dos ladrões e dos outros criminosos que nos mantêm trancados e acuados porque com eles o Judiciário é tão mole quanto é largo o bolso de advogados e juízes com poderes para decidir a seu bel prazer quem vai e quem não vai para a jaula. Impunidade é também a do representante que trai o seu representado e vende o seu mandato para quem e quantas vezes quiser.

Para essa vertente da doença nacional existe o remédio do voto distrital com recall, que amarra cada político eleito a um grupo claramente identificado de eleitores e dá a esses eleitores o direito de cassar essa representação quando quiserem e pelo motivo que quiserem, como prescreve a Constituição, que diz que "todo poder emana do povo e em seu nome será exercido".

"O problema", eu não me canso de repetir com Theodore Roosevelt, "não é haver corrupção, condição inerente ao ser humano. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo".

O problema, vale dizer em termos mais focados no caso em discussão, não é a exposição dos agentes públicos ao poder econômico, o que é absolutamente inevitável; o problema é não poder punir quem é pego abusando dele. E ninguém sabe disso melhor que este STF, que tenta há oito anos enfiar e manter meia dúzia de salafrários na prisão, e não consegue.

Faria muito mais por nossa remissão esse Supremo Tribunal se tratasse de olhar para o próprio umbigo e acabar com os "embargos infringentes", a meia dúzia de "tribunais especiais" para "pessoas especiais" e os outros 20 mil recursos que mantém à disposição dos bandidos comuns com carteira recheada, que provam todos os dias a cada brasileirinho e a cada brasileirinha, desde que nascem, seja na Vieira Souto, seja no Morro do Alemão, que, sim, o crime compensa.

E vale repetir: as sociedades funcionam como cadeias de transmissão de forças nas quais o elemento mais próximo do povo, a fonte de onde emana a legitimidade dos demais poderes, é a imprensa. Enquanto ela seguir obrigando-se, por um suposto "imperativo ético" inventado em nossas escolas aparelhadas, a amplificar as iniciativas dos poderes constituídos emprestando-lhes ares de seriedade, eles seguirão tão confortavelmente refesteladas na mentira quanto estão hoje.

O Congresso conseguirá desmentir o Dr. Ulysses?

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Esta semana, houve a revoada de deputados e senadores, inclusive tucanos, para seus estados. Com as exceções de sempre, só em fevereiro o Congresso  voltará a reunir-se em Brasília. Isso na teoria, porque  2014 será um ano atípico. Suas excelências, desde já, talvez até bem antes, pensam e agem apenas em função da eleição.   Muito mais a deles, seja para retornar na próxima Legislatura, seja para disputar eventuais governos estaduais.

As regras serão as mesmas que vigoram há muito, ou seja, nem o financiamento publico das campanhas foi aprovado, nem se viu votada a proibição de doações por pessoas jurídicas. Ainda que o Supremo Tribunal Federal, também em fevereiro, venha a interromper a farra de o dinheiro das empresas irrigar a compra de votos, a decisão não valerá para o  próximo ano.

Indaga-se a respeito dos índices de renovação no Congresso. Há quem suponha mais de 50%, abrindo-se a mesma e velha questão:  os que chegarem  serão melhores do que os que saírem? Dizia com graça e amargura o dr. Ulysses que pior do que o atual, só o próximo.

SEM RENOVAÇÃO
Não há notícia de renovação nos partidos. Os principais lugares estão ocupados, a começar pelo PT. Recém-criados, o Solidariedade e o PROS só tem políticos  conhecidos desde muito. Vale o mesmo para as demais legendas.

Ao longo da História registraram-se diversos períodos em que o Legislativo ficou impedido de funcionar. A última delas logo depois da edição do AI-5, em dezembro de 1969.  O recesso forçado durou sete meses.  Mesmo  depois, durante os mandatos dos generais Garrastazu Médici e Ernesto Geisel,  a representação política valia tanto quanto um avião sem asas.

A pergunta que se faz, então, não é apenas sobre como transcorrerá o ano das eleições, com o Congresso funcionando a meia carga ou até não funcionando. A dúvida é saber  qual o lugar do Congresso na realidade nacional, quando inaugurada nova Legislatura?  A conclusão surge óbvia: ou os candidatos se esforçam para desmentir o vaticínio do dr. Ulysses, dispostos a mudar a imagem parlamentar e inaugurar outra fase a partir de 2015, ou logo sequer existirão leis para ser votadas. Judiciário e Executivo terão ocupado  seus espaços. As ruas,  como há muito, darão de ombros…

DÁ PARA VIVER?
No orçamento  para 2014 estabeleceu-se o novo salário mínimo para valer a partir de janeiro: 724 reais por mês.  Poderá  o trabalhador cumprir a Constituição, ou seja, dispor de condições para assegurar à sua família educação, saúde, transporte, habitação, vestuário, alimentação e até lazer?

A tentação é grande de indagar se algum deputado ou senador sobreviveria com tão ridícula quantia.