Adelson Elias Vasconcellos
Olhando-se para os números revelados pelo IBGE sobre o desemprego, muita gente e, principalmente, o próprio governo da senhora Rousseff, encontrará motivos para comemorar e largar rojões. Claro, um índice de 4,6% no desemprego, aparentemente, tem tudo para ser comemorado. Contudo, e creio que poucos se deram a este trabalho, indo-se para dentro da notícia, vamos notar que há muito mais motivos para nos preocupar do que comemorar.
E, nos valendo dos próprios dados do IBGE sobre a população brasileira e o contingente dos que se encontra em idade economicamente ativa, o que era para ser um índice “ótimo”, muda de direção. Portanto, não querendo parecer estraga-prazer do oficialismo federal, é preciso olhar com reservas para o índice de 4,6% para entender porque ele é tão baixo.
Primeiro, e antes de tudo, é preciso destacar que “...A taxa baixa, no entanto, não foi alcançada graças à geração de vagas no mercado de trabalho, mas à redução do montante de desocupados e aumento dos inativos, ou seja, de pessoas que não procuram emprego...”. E puxando a cordinha por esta ponta, a de pessoas que simplesmente estão inativas e também desistiram de procurar emprego, começamos a ver onde o país deve, de fato, preocupar-se.
Claro que presidente Dilma e seus ministros irão usar estes 4,6% como forte argumento (talvez o único) para justificarem o mau desempenho da economia. Contudo, como o que é bom a gente mostra, o que não for, a gente trata de esconder, eles não darão destaque algum ao aumento de desocupados que desistiram de procurar trabalho. E deveriam, porque a quantidade é impressionantemente alta para ser deixada de lado.
E este contingente de pessoas que não trabalham e também não mais procuram emprego, explica e está na base do baixo índice de desemprego. Portanto, leitor amigo, sempre procure ir mais fundo diante de manchetes festivas, principalmente aquelas que teimam em querer desmentir a realidade. Nem sempre uma embalagem bela e bonita é reveladora da boa ou da má qualidade do produto que contém, não é mesmo?
O blog já fez este cálculo antes , mas vale a pena reprisar algumas conclusões importantes sobre o mercado de trabalho no Brasil.
O IBGE divulgou hoje que a taxa de desemprego no país caiu para 4,6%%, o que seria recorde histórico. Contudo, quando se vai olhar a fundo a informação completa, vamos verificar que a população economicamente ativa também recuou. No ano, este recuo ultrapassou a casa de 10%. Assim, a população considerada “economicamente ativa” é ligeiramente superior a 23 milhões de pessoas.
Ora, não precisamos ir muito longe para saber que este índice de 4,6% encerra apenas meia verdade. Considerando a população brasileira, com idade economicamente ativa, ou seja, que poderiam estar no mercado de trabalho, seja empregada ou desempregada, chegamos a um total em torno de 90 milhões. Portanto, se considerássemos este total e não aquele em que se baseia o cálculo do IBGE, o índice de desemprego seria muitíssimo maior.
Sabemos que na estatística oficial deixaram de constar enorme contingente de pessoas jovens que nem estudam, tampouco trabalham, a chamada geração nem-nem. São cerca de 10 milhões. Há também outro enorme contingente de pessoas que desistiram de procurar trabalho, e que por conta disso, ficaram de fora da estatística de desemprego. Neste caso, há uma fileira imensa de razões que levaram milhões de pessoas a não procurar trabalho. A maior parte são mulheres que, em razão de gravidez, ou falta de melhor qualificação, estão fora da estatística.
Diante destes fatos, o índice de 4,6% acaba sendo falso para aqueles que concluem estar o Brasil vivendo uma fase de pleno emprego. São praticamente 70 milhões de brasileiros que, mesmo estando em idade economicamente ativa, simplesmente não trabalham ou pararam de procurar emprego.
Conclusão: nossa força de trabalho, pouco mais de 23 milhões, não pode, de maneira alguma representar, uma situação de pleno emprego. Trata-se de um contingente mínimo em atividade produtiva, representando aí uma grave crise de ocupação. Motivos? São vários, podendo incluir naqueles 70 milhões, outro contingente significativo de pessoas trabalhando na informalidade. Se, de um lado, o governo atual se sente feliz para comemorar, por outro, olhando a questão do mercado de trabalho em toda a sua extensão, há razões de sobra para nos preocuparmos. Porque, dentro de uma população de 200 milhões, sua força de trabalho representar apenas pouco mais de 10%, significa dizer que todo o resto é sustentado por este contingente menor.
Assim, os tais 16,8 milhões de brasileiros que não trabalham nem procuram emprego, entendo eu, seja um número ainda falacioso. Senão vejamos. Vamos arredondar para facilitar a conta. Digamos que sejam 24,0 milhões os que trabalham. Mais 17,0 os que não trabalham nem querem emprego. Isto totaliza 41,0 milhões, ok? Ora, se temos 90 milhões em idade ativa para o trabalho, em que categoria se encaixam os outros 49,0 milhões? Está dito acima: não trabalham, não procuram emprego, ou estão na informalidade.
Creio que o IBGE deveria aprofundar o estudo sobre o mercado de trabalho brasileiro e a ocupação exercida pelas pessoas que estão fora dele.
Para encerrar: mesmo que ainda se guarde dúvidas sobre os números divulgados pelo IBGE, chama a atenção outro fato curioso, mas não menos preocupante: vejam a semelhança entre a quantidade dos que trabalham e os que sequer querem emprego, segundo informa o IBGE. A troco do quê tal fenômeno acontece? A continuar nesta balada, chegaremos ao ponto de ter mais gente sem trabalhar do que pegando no batente. E vão ser sustentados como e por quem? Eis aí um mistério que precisa ser esclarecido. Aliás, considerada a população em idade economicamente ativa, o fenômeno já existe. E mais curioso, ainda, é que, apesar da renda média ser relativamente baixa, ela precisa ser fracionada para o sustento dos que estão fora do mercado de trabalho. Neste caso, de nada resolve aumentar a oferta de crédito para alavancar o consumo e, ainda corre-se o risco do alto endividamento das famílias.
Solução é uma só: o PIB brasileiro precisa engordar muito mais único caminho para elevação de renda, maior oferta de postos de trabalho, maior capacidade do poder público para investir em educação e infraestrutura. A formula até pode parecer simples, mas tai uma coisa que este governo parece não ter descoberto. Insistir em torrar dinheiro inutilmente.
Não querendo insistir na mesma tecla, é preciso que o país encontre logo portas de saída para os programas sociais de distribuição de renda e outros benefícios. Comentando sobre isso, certa vez, lançamos a seguinte pergunta: Trabalhar para quê? Ora, são os benefícios e as facilidades distribuídas para os beneficiários de programas sociais, sem que se exija destes compensações e contrapartidas, que é fácil a existência de beneficiários inscritos nos programas há cinco, seis e até dez anos. Se alguém acha que pode forçar a barra e apelidar estes programas como sociais. Fique à vontade. Porém, e a verdade é uma só, só será social e como tal completar seu círculo virtuoso, aqueles programas com forte tendência de redução de beneficiários. Temos hoje cerca de 25% da população inscritas nestes programas e se fala em aumentar tal quantidade. Neste caso, não há motivos para comemorar, já que tais programas conduzem a grande maioria para a acomodação. E é precisamente isto que se verifica. Portanto, boa parte do aumento do número de pessoas que deixaram de trabalhar e desistiram de procurar emprego, encontra aí a explicação. Portanto, pode-se afirmar que esta acomodação conduz, inevitavelmente, à perenização da pobreza.
É preciso que nossos governantes parem com ao cinismo e a hipocrisia diante de qualquer crítica que se faça aos programas sociais. Eles são importantes para a redução da miséria e pobreza extremas? Sem dúvida, os números atestam isto. Porém, eles devem ser encarados como emergenciais, jamais como permanentes como tem sido tratados pelos governos petistas. E esta visão torpe e torta só se justifica quando encarada com a realidade: o imenso capital eleitoral que produzem em favor do governismo. Assim, para ser social cabe lembrar que tais programas precisam ter começo, meio e fim. Infelizmente, este não é o caso.