segunda-feira, setembro 20, 2010

Mostrando as unhas (ou as patas)

O senador Álvaro Dias aventou a hipótese de convocar Dilma Roussef a comparecer ao Senado para prestar esclarecimetos sobre os casos de corrupção que atingiram a Casa Civil. Afinal, nas datas em que os episódios se deram, a ministra era a Dilma, e não Erenice Guerra. Claro que tinha cheiro de jogada política. Mas, tirando a campanha eleitoral, ele, na qualidade de um senador da República tem todo o direito a proceder desta forma. No Brasil ainda que tal cultura seja pouco difundida, em países de 1º Mundo, é um dever de qualquer autoridade pública comparacer perante os representantes do povo e dar ou prestar esclarecimentos. Como disse, tirando-se a campanha, o senador estava no seu direito.

Alvaro Dias pode até ter sido um pouco ingênuo em não imaginar que Dilma Rousseff se esquivaria do "convite". Ora, neste caso, ela poderia até ter formalizado como "convite inoportuno", "problemas de agenda", ou qualquer desculpa mais educada e mais civilizada. E o respondeu Dilma. Isto: "Do senador Álvaro Dias não aceitaria nem um convite para um cafezinho".

Ou seja, a madame nem eleita está, e já se comporta como se fosse dona do país a tal ponto de se negar em comparecer ao Senado para prestar esclarecimentos! É UM DEVER a que está sujeito qualquer servidor público, pago com o dinheiro da sociedade, dar contas de sua atuação. Dilma  não é diferente. Como afirmei em artigo sobre o assunto, Dilma DEVE satisfações ao país, já que os escândalos ocorreram sob sua responsabilidade. Ninguém a acusa de nada, mas ela deve esclarecer como tais coisas ocorreram sem seu conhecimento, a poucos passos de sala.

Mas sua resposta corresponde a uma agressão verbal além de uma prepotência injustificável. Dilma precisa considerar um aspecto importante: ela não foi eleita. Pesquisa não é urna, assim, ninguém HOJE está derrotado, como NINGUÉM ainda está vitorioso. A agressão é injustificável, até porque, mesmo SE já estivesse eleita, ainda assim, como servidodra pública deve responder por atos presentes e passados. 

Em que mundo esta senhora pensa que está?! Mas, sabem o que isto significa? Como Lula age exatamente desta forma, ela acha que pode usar o mesmo figurino. Não pode. Não deve. Senador de oposição, quer Dilma goste ou goste, é um legítimo representante de parte do povo que ela pretende governar a partir de 2011. Ou será que irá separar quem não votou nela, e para estes fazer um governo diferente?

Fico imaginando se, antes de ser VOTADA e, depois de apurados os votos, ser sagrada vencedora, ela age desta forma estúpida, imagino depois, já na cadeira presidencial ...

Podem esperar: dado o gênio da "ma dama" o que não vai faltar no Planalto é patada.

A perigosa omissão do Ministério Público e do TSE

Adelson Elias Vasconcellos

Bem, sempre se disse que a tal “empresa” de comunicação não serviria para outra coisa senão para aquilo que estamos vendo no post abaixo. Não se trata de uma empresa de estado, e,sim, a serviço de um partido político, bancado pela sociedade.

Quem sintoniza o tal canal, não suporta nele permanecer além do que 10 a 15 segundos. Ali, podem conferir, se trata de um verdadeiro circo dos horrores, onde o que menos importa é a audiência, o entrenenimento. A ideologia de esquerda é a tônica, e os programas porcuram seguir nesta toada. Não é a toa que sua audiência é zero. Acredito que nem o próprio Lula consegue sintonizar o “seu” canal.

Mas não é só isso: a afronta à legislação eleitoral, a exemplo do que ocorre em toda a máquina pública, já deveria ter sido alvo de uma ação mais drástica de parte do Ministério Público e do Tribunal Superior Eleitoral. Para quem chegou ao poder carregando a bandeira da ética e da moralidade, convenhamos, é um giro de 180º.

Hoje, vejo muitos veículos de comunicação mas, principalmente, alguns jornalistas assustados e temerosos da real ameaça que paira sobre a liberdade de imprensa. Os discursos de José Dirceu na Bahia sobre “o excesso de informar e o excesso de liberdade”, conjugados em perfeita sintonia com as últimas afirmações raivosas de Lula contra a imprensa, parecem haver despertado em muitos um alerta e de que, todos os avisos anteriores sobre a existência desta ameaça, era real. Muitos trataram o assunto com total desdém, achando que se praticava uma espécie de terrorismo e até de preconceito para com o presidente. Nada mais enganoso. Jamais os petistas abandonaram de vez seu ódio feroz contra a democracia, como jamais deixaram de lado seu ambicioso projeto de restringir a uma imprensa chapa-branca a tal liberdade de expressão. Como jamais Lula escondeu o seu desejo de varrer do país a existência da oposição, para alimentar sua ambição de reinar com poder absoluto. Engana-se quem pensar que, com Dilma, Lula se restringirá à tarefa de ser um simples ex-presidente. Vai atuar ainda com mais empenho para vingar a ambição de obter a simbiose perfeita entre estado, governo e partido político, juntos numa só entidade.

O país, durante anos, assistiu com total indiferença as advertências inúmeras feitas pelo professor Olavo de Carvalho quanto a existência do Foro de São Paulo. Jamais idealizavam uma possibilidade de retrocesso institucional a partir da chegada do PT ao poder. Hoje, não apenas as advertências de Olavo de Carvalho acabaram se confirmando como, a cada dia mais, fica visível o que realmente o PT deseja para o país no plano institucional.

E, se o Ministério Público e TSE continuarem inertes, totalmente desligados das ações ilegais que assaltaram o país nestas eleições, com intenso, abusivo e ilegal uso da máquina pública em favor do partido no poder, não poderá, amanhã, se dizerem surpreendidos pelo que de pior vier acontecer. Neste mesmo sentido, tampouco os jornalistas, a exemplo do que já aconteceu com a CNBB. A lembrar, quando ainda estava na oposição, o PT aliou-se a CNBB como forma de penetração no seio da sociedade para impor seu discurso. Chegado ao poder, Lula simplesmente chutou o traseiro da CNBB e aliou-se à turma do auto-intitulado bispo Edir Macedo.

O PT quando faz alianças é sempre com o propósito específico de atingir um determinado público específico com sua ideologia. Depois, não mais precisando do aliado, o dispensa, sem cerimônias. Sempre se comportou como a mais infiel de todas as noivas.

No caso da imprensa, grande parte sempre cumpriu a agenda petista, quando sequer lhe deveria conceder os espaços e a condescendência. Por quê? Porque o PT a vê como inimiga aos seus propósitos. É o famoso caso do ovo da serpente.

Com relação à inércia do Ministério Público e TSE é bom lembrar de que ainda temos leis para serem defendidas: poderá a omissão conduzir o país perigosamente para um governo em que a lei não importará mais, bem como seus agentes se tornarão irrelevantes, sendo promovidos a agentes de polícia do partido.

Quanto ao Poder Judiciário, especificamente o Tribunal Eleitoral, dizer o quê: quando o guardião das leis se omite de cumprir o seu papel, o que se espera que aconteça ao país? É bom ficarem atentos: o governo do PT pode fazer com eles o mesmo que Chavez fez na Venezuela. Tornou o Judiciário uma peça decorativa. Aqui, talvez nem precise fazer força. O TSE, cada dia mais, se afasta de sua responsabilidade. Como se percebe pelo comportamento principalmente de Lula, que abandonou o governo, ou melhor, trouxe seu governo para cima do palanque, o TSE está se tornando apenas um carimbador maluco: chancela o vale-tudo eleitoral. Só não vale ofender a mãe...

TV estatal a serviço de Dilma

Simone Iglesias, Folha De S. Paulo

Cartaz na sede da NBR orientava equipes a tirarem símbolos com marca da emissora nos eventos de campanha

Mesmos funcionários que viajam para cobrir atos oficiais de Lula têm de registrar campanha e gravar em DVD à parte

A Presidência da República usa funcionários públicos e equipamentos de TV oficial do governo federal para filmar comícios da candidata Dilma Rousseff (PT) que tenham a participação de Luiz Inácio Lula da Silva.

A ordem é para que cinegrafistas e auxiliares da NBR gravem todos os discursos do presidente nos eventos da campanha eleitoral.

A direção da TV estatal determinou que esses servidores, antes de iniciarem as filmagens, tenham o cuidado de retirar os sinais de identificação da emissora estatal - a camiseta ou colete, a canopla (peça que tem a logomarca) do microfone e o adesivo colado na câmera.

A TV NBR é o canal da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) que noticia atos e políticas do governo.

Na sede da emissora, em Brasília, havia na semana passada cartazes com a ordem para tirar a identificação dos equipamentos. O texto é assinado por Lidia Neves, chefe de reportagem.

"Cinegrafistas e auxiliares: além da agenda oficial, que é parte da nossa cobertura, o presidente Lula tem viajado também para participar de comícios e eventos de campanha", orienta o cartaz.

"Para o que não é agenda oficial, estamos mandando um cinegrafista sempre junto para acompanhar. O objetivo é somente ter um registro, gravando ações do presidente e os discursos", diz o texto.

Em seguida, vem a orientação: "Este material está sendo gravado sem a canopla da TV NBR, porque não é para a NBR. Este conteúdo não é para ser usado na nossa cobertura, nem mesmo para ser gerado para as emissoras. É apenas para registro. Em caso de dúvidas, por favor procurem a mim ou um dos coordenadores. Lidia".

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A ordem de usar estrutura do governo para filmar os comícios de Dilma Rousseff e os discursos de Lula em todos os eventos de campanha gerou problemas entre a chefia e funcionários da emissora oficial NBR.

Alguns cinegrafistas não concordaram com a determinação e se negaram a filmar os atos de campanha -tanto a presidencial quanto as estaduais com a presença do presidente.

A Folha conversou com um desses servidores. Ele mostrou a advertência que recebeu. Pediu para não ter o nome publicado, com receio de sofrer outra retaliação.

Ele contou que estava acompanhando um comício de Lula e Dilma no Nordeste com a câmera desligada. Segundo ele, um assessor de imprensa da Presidência perguntou se estava gravando.

Quando ele respondeu que não, o assessor teria determinado que gravasse tudo.

O cinegrafista alega que se recusou a filmar e foi ameaçado de demissão.

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Empresa pública afirma que imagens podem ser cedidas a partidos, mas Presidência diz que são para seu uso exclusivo

A direção da NBR e a Secretaria de Comunicação da Presidência dizem que as imagens produzidas pelos cinegrafistas durante comícios de Dilma Rousseff são para registro histórico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas se contradisseram quanto ao uso das imagens.

A estatal confirmou que o material está sendo gravado pelos funcionários para "documentação da Presidência da República e também para serem requisitadas por partidos ou candidatos ao acervo da empresa".

Já a Presidência diz que o material não pode ser cedido.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA: Vejam no post seguinte os comentários sobre a notícia acima. É representa bem não apenas um método, mas um tempo.

A Dilma pouco conhecida

O Estado de S.Paulo

Uma faceta da verdadeira Dilma Rousseff, que sua propaganda eleitoral tem escondido dos eleitores, se revelou numa entrevista dada em Porto Alegre há alguns dias, que, em artigo publicado sexta-feira no Estado, o economista Rogério Werneck considerou um desabafo "desoladoramente esclarecedor", mas cuja repercussão não correspondeu à sua importância.

A candidata governista à Presidência tem uma visão sobre a gestão do dinheiro público que deveria preocupar os eleitores-contribuintes. "O papo de ajuste fiscal é a coisa mais atrasada que tem. Não se faz ajuste fiscal porque se acha bonito. Faz porque precisa. E eu quero saber: com a inflação sob controle, com a dívida pública caindo e com a economia crescendo, vou fazer ajuste para contentar a quem? Quem ganha com isso? O povo não ganha", afirmou Dilma, de acordo com reportagem do jornal O Globo.

Na visão da candidata petista, ações de ajuste fiscal sempre vieram acompanhadas "dos maiores aumentos tributários" e de medidas de gestão de caixa, como cortes lineares de gastos e atraso na devolução de créditos tributários, que provocaram a redução dos investimentos em infraestrutura, saneamento, habitação, etc.

Não é de hoje que Dilma Rousseff se irrita quando ouve falar em necessidade de ajuste de longo prazo da estrutura de despesas do governo, para evitar o crescimento do déficit público, sem que, para isso, seja necessário aumentar a carga tributária, como ela tem aumentado ao longo da gestão do PT.

Há cinco anos, quando os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo (que continua no cargo), apresentaram um plano de longo prazo que garantiria a redução progressiva do déficit nominal, até sua eliminação, e da dívida pública, por meio do controle mais rigoroso das despesas - pois isso era necessário para assegurar a credibilidade da política fiscal do governo Lula -, Dilma, então ocupando a chefia da Casa Civil, tratou de desmontar com truculência a iniciativa de seus companheiros de governo. Em entrevista ao Estado, considerou o plano "rudimentar" e disse que "o debate é absolutamente desqualificado".

Depois disso, mudou o vocabulário - ajuste fiscal virou "coisa atrasada" -, mas não sua visão. Pior para o contribuinte.

Como mostrou Rogério Werneck no artigo citado, Dilma não consegue entender que, no atual regime fiscal, os gastos crescem mais do que o PIB. As contas públicas só fecham graças ao aumento contínuo da carga tributária. Se esse regime não mudar, por meio de um ajuste fiscal profundo que tanto desagrada à candidata petista, os contribuintes estarão condenados a pagar cada vez mais impostos - até um momento em que esse método se tornará insuportável - ou a dívida pública crescerá de tal modo que trará de volta todos os problemas que o País enfrentou até a primeira metade da década passada.

Dilma tem apontado para a queda constante da dívida pública em relação ao PIB como prova da eficácia do atual regime fiscal. Mas, além de omitir o contínuo aumento da carga tributária que sustenta esse regime, ignora também o fato de que, por meio de artimanhas contábeis, o governo desviou para o BNDES dinheiro proveniente da emissão de dívida do Tesouro sem que esse dinheiro fosse contabilizado na dívida líquida da União.

O aumento contínuo dos gastos públicos, sobretudo com o custeio da máquina, alimenta a demanda e impõe uma sobrecarga extra à política monetária na contenção das pressões inflacionárias, ou seja, exige juros mais altos. Se reduzisse os gastos, o governo abriria espaço para um alívio na política monetária.

Por fim, a manutenção do crescimento acelerado da economia exige o aumento da poupança interna, e as contas nacionais revelam que quem mais pode aumentar a poupança é o governo. Ou seja, se gastar menos com custeio, o governo pode aumentar sua margem para investir, pois ajuste fiscal, ao contrário do que supõe a candidata do PT, não significa corte de investimentos.

Em resumo, como observou Werneck, em matéria de ajuste fiscal, de Dilma pode-se dizer o que se disse dos Bourbons: nada aprendeu e nada esqueceu.

Partido oculto

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

Consta que o PT e o Planalto ficaram desolados com a divulgação da palestra feita para uma plateia de petroleiros pelo ex-presidente do partido, deputado cassado, réu processado por corrupção e autoproclamado "camarada de armas" de Dilma Rousseff, José Dirceu.

O secretário de Comunicação do PT, André Vargas, chegou a discorrer muito claramente sobre o espírito da coisa.

"O aconselhável é que todos nós, eu, qualquer dirigente do PT, o José Dirceu, falemos pouco, falemos menos ou não falemos de jeito nenhum. Se queremos ajudar a campanha, todos nós temos de falar o menos possível", disse Vargas.

Uma campanha presidencial em que quanto menos falarem os que estão envolvidos nela, melhor? O natural seria exatamente o oposto. Durante a campanha mesmo é que se deve falar muito, os concorrentes precisam ser expostos, responder a tudo e a todos, fazer frente a cobranças de toda ordem, ter passado, presente e futuro muito bem esquadrinhados.

A lei enunciada pelo secretário de Comunicação prega a ocultação. Em outras palavras, a manutenção do eleitor na ignorância a respeito das coisas como elas realmente são.

Por essa norma não se pode repetir em público o que em particular dizem os petistas por todo lado, graduados ou soldados rasos.

Justificam o engajamento na campanha de uma candidata imposta e antipatizada justamente em nome do "projeto" a que se referiu Dirceu naquela fala menos discutida do que merecia, por causa da queda da ministra da Casa Civil.

O projeto está detalhado em documento aprovado pelo partido em fevereiro último e causador de constrangimento quando apresentado à Justiça Eleitoral como sendo o programa de governo de Dilma. A campanha reapresentou uma versão "light" provisória, prometendo uma definitiva nunca apresentada.

O assunto morreu na imprensa e, depois, não valia a pena abrir uma guerra entre partidos aliados por causa do programa de governo nem seria produtivo dar destaque ao PMDB em demasia.

Essas coisas devem ser escondidas, assim como deve ser ocultada a proximidade de José Dirceu, bem como a candidata é mantida atrás do biombo de Lula a fim de que a massa do eleitorado não tenha contato mais espontâneo e amiúde com ela.

Por quê? Porque Dilma não segura a onda, Dirceu é malquisto pelo público, o PMDB é mal falado e o PT divide a "base" - dentro e fora do Congresso.

José Dirceu disse duas verdades: que o PT considera o governo Dilma sua grande chance de exercer de fato o poder e que considera excessiva a liberdade da imprensa.

Mas se esqueceu de que antes da eleição a palavra de ordem é bico calado.

Cenografia
Foram 70 dias entre o prazo regulamentar e as duas notificações da Comissão de Ética Pública para que Erenice Guerra apresentasse informações sobre o patrimônio e a família. Ela ficou 170 no cargo.

Portanto, havia 100 dias que a ministra estava em situação irregular sem que ocorresse aos conselheiros dirigir-lhe a censura feita depois da saída. O silêncio teria sido menos desmoralizante.

A então ministra não atendeu aos pedidos porque ninguém no governo dá bola para a referida comissão nem para a ética pública.

Certidão

"Onde está a prova de que eu esteja envolvida?", pergunta a candidata do PT, a propósito da rede de tráfico de influência, extorsão, empreguismo e nepotismo que envolvia sua sucessora na Casa Civil.

A prova é o aval que Dilma deu à nomeação de Erenice.

Dissociar uma da outra seria como considerar que o presidente Lula não tenha responsabilidade alguma sobre o que faça e diga ou venha a fazer e dizer Dilma Rousseff.

Em português.
Pode ser mais sonoro, mas é errado dizer "doa a quem doer". As coisas doem "em" alguém e não "a" alguém.

Quanto mais Estado, mais corrupção

Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo

Pode procurar em qualquer lugar do Brasil de hoje, em qualquer setor da economia, e você vai encontrar empresários, executivos e administradores empenhados em alcançar ganhos de produtividade. É a resposta correta ao ambiente de estabilidade macroeconômica. Se o planejamento não será destruído pela inflação, se os lucros não serão devorados por uma moeda sem valor, então vale a pena - na verdade se torna obrigatório - buscar eficiência dentro do próprio negócio. Agora, imaginem a sensação dessa gente de bem, do lado moderno do País, ao verificar que uma boa conexão em Brasília vale mais do que a criatividade e o esforço físico das pessoas envolvidas nas empresas.

O "capitalismo de compadres" tem esse efeito destruidor sobre o espírito empreendedor, sem o qual nenhum país vai para a frente.

De que adianta ter uma boa ideia e preparar um bom projeto se, para levá-lo adiante, precisa-se de uma decisão ou de um favor de alguém do governo? A conexão para viabilizar o projeto acaba se tornando mais importante do que o próprio projeto.

Vamos logo fazer as ressalvas de praxe: é claro que o mercado não funciona sem o Estado, as leis, os controles e as garantias institucionais; é claro que é indispensável a atuação dos governos em educação, saúde, segurança, transporte; é claro que é razoável a presença do Estado estimulando, de algum modo, setores novos da economia ou setores mais complicados.

Mas é claro também que o Estado no Brasil vai muito além desses pontos. Isso se manifesta em vários níveis. Os dois primeiros separam a atuação do Estado como regulador e fiscalizador da ação direta na economia. No primeiro nível estão, por exemplo, as agências reguladoras. No segundo estão as estatais, os bancos e as empresas públicas, além do próprio governo quando atua como construtor de estradas, portos, hidrelétricas, etc.

Certamente, em todos esses níveis de intervenção estatal pode haver eficiência e espírito público. Imaginem, por exemplo - para ir ao limite -, que os diretores das agências e das estatais fossem contratados no mercado por competentes e reconhecidas consultorias privadas de gestão de recursos humanos.

Absurdo? De jeito nenhum. Isso é até bastante comum pelo mundo afora. O atual presidente do banco central de Israel, Stanley Fischer, um economista americano, foi contratado assim, numa espécie de concorrência global. Aliás, basta abrir as páginas de classificados da revista The Economist: toda semana aparecem editais oferecendo vagas de diretores e presidentes de companhias públicas em diversos países, sem restrição de nacionalidade para os candidatos.

O Brasil, e especialmente no governo Lula, está no lado exatamente oposto. As nomeações são politizadas, cargos repartidos na base de apoio. Isso escancara as portas do "compadrio" e da pura e simples corrupção.

Reparem, um diretor de estatal ou de agência, contratado pela competência, terá compromissos com os resultados fixados por ocasião da admissão. Por exemplo: a diretoria dos Correios terá como objetivo dobrar o faturamento em tantos anos e reduzir o prazo de entrega da correspondência em tantas horas. Cumpriu, recebe o prêmio; não cumpriu, está fora.

Um diretor nomeado pelo partido tem compromisso com o partido e com os companheiros em geral. Note-se que o presidente Lula consagrou como correta a tese de que é preciso colocar os companheiros e aliados, por critérios políticos, nos postos de governo, nas agências reguladoras e nas companhias públicas.

O compromisso com o partido ou com o presidente pode ser cumprido de maneira legal, mas mesmo assim causando danos. O governo pode impor programas e obras, sem roubalheira, mas que só se justificam política e eleitoralmente. Por exemplo, a Petrobrás, tempos atrás, apresentou ao presidente Lula um plano de investimentos mais modesto. O presidente mandou ampliar para os gigantescos programas atuais. É grande o risco de a empresa estar se metendo em projetos caros demais, de baixa rentabilidade.

Lula também está forçando os bancos públicos a aumentarem seus empréstimos, desde para grandes empresas escolhidas pelo governo até para famílias comprarem a casa própria. Os empréstimos podem ser ruins e o dinheiro pode não voltar.

Por que dizemos "pode"? Porque isso só se saberá mais à frente. Mas o precedente é este: estatais e bancos (incluindo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal) quebraram exatamente com esse tipo de política econômica. Já vimos esse filme. E notem. Os dirigentes, nomeados politicamente, nem pensam em contestar as ordens vindas do governo.

Neste caso, temos erros de política. Mas esse sistema inevitavelmente acrescenta a corrupção. Para dizer francamente, quanto mais Estado na economia, mais corrupção. Exemplo? Os países socialistas, de economia inteiramente estatal, bateram todos os recordes de corrupção e ineficiência.

O governo FHC havia saneado estatais e bancos e introduzido regras técnicas e de mercado para seu funcionamento. O governo Lula repolitizou tudo. Com as consequências que já vemos por aí. Se conseguiram estragar os Correios - com ineficiência e corrupção -, por que não conseguiriam estragar a Petrobrás ou a Caixa Econômica Federal?

É isso aí: nessas atividades econômicas, quanto menos Estado, melhor. Deixem nas mãos dos empreendedores privados. São mais eficientes do que os amigos do rei. E não roubam.

Bolsa-empresário

João Luiz Mauad

Jamais pensei assistir a tamanho descalabro. Doze associações empresariais publicaram recentemente, nos principais jornais do país, um manifesto de apoio à política de financiamentos subsidiados adotada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. De quebra, o presidente da FIESP, em entrevista ao Jornal “Valor”, disse que o Brasil precisaria não de um, mas de três BNDES, além de fechar as fronteiras às importações “por um tempo”.

A mamata defendida pelo baronato tupiniquim, e apelidada pelos experts de “política industrial”, há muito deveria estar excluída da agenda política, afinal distribuir benesses a certos setores da economia costuma frear a competitividade, alimentar incompetência e corrupção, além de distorcer os preços relativos, com efeitos nefastos sobre toda a cadeia produtiva e, conseqüentemente, sobre a eficiência mesma dos mercados.

É inconcebível que, com tantos problemas de infra-estrutura a solucionar, com tantas reformas necessárias a implementar, as quais poderiam desonerar o sistema como um todo, além de reduzir a burocracia asfixiante que tortura as empresas, o governo, apoiado justamente por grandes empresários, opte pela implementação de uma política industrial retrógrada, capenga e altamente discricionária, cujo resultado mais visível é a transformação do famigerado BNDES num enorme balcão de negócios.

Já no início do século passado, Henry Hazlit dizia que “enquanto certos interesses econômicos são os mesmos para todos os grupos, cada grupo, separadamente, concentra determinados interesses que são antagônicos aos interesses de todos os demais. Assim, enquanto certas políticas públicas serão, a longo prazo, benéficas para todos, outras irão beneficiar alguns setores apenas, em detrimento de todos os outros”. Este é, sem qualquer dúvida, o caso da “política industrial” atualmente operada pelo governo.

Qualquer empresa que não esteja em condições de enfrentar a concorrência (interna ou externa) sem a ajuda do governo é uma empresa doente, que precisa reciclar-se, aperfeiçoar-se, tornar-se eficiente, ou sair fora do mercado. A ajuda governamental a produtores ineficientes, seja através de subsídios, renúncia fiscal ou medidas protecionistas, só contribui para obstruir o processo de “destruição criadora” do capitalismo e dificultar a vida dos concorrentes eficientes. Além disso, estimula o investimento de tempo e dinheiro na espúria atividade de “rent-seeking”, cujo objeto não é outro senão a pilhagem dos dinheiros públicos.

Não há uma tradução exata, em português, para a expressão inglesa “rent-seeking”. No entanto, ela pode ser entendida como a ação articulada e onerosa de indivíduos, empresas, organizações e grupos de interesse na busca de vantagens, privilégios e ganhos especiais, sempre através do uso do poder discricionário da autoridade governamental. Tal atividade é tanto mais eficaz quanto for a capacidade dos governos de interferir arbitrariamente nos mercados, escolhendo vencedores e perdedores.

O fato de que os bons empreendimentos floresçam sob o capitalismo não significa que todos os empresários sejam necessariamente capitalistas. Talvez a alguns surpreenda saber que uma boa parte deles detesta a competição e, por extensão, o livre mercado, razão pela qual nos acostumamos a vê-los rotineiramente ao redor dos políticos e dos burocratas, para que estes os protejam da sua própria ineficiência. Esse empresariado sabe que é precisamente o governo o único que pode evitar a livre concorrência, atuando discricionariamente para favorecer alguns em detrimento de muitos, seja sob a égide da proteção ao produto nacional, da preservação dos empregos ou de evitar uma eventual “crise sistêmica”.

Como bem frisou Jonah Goldberg, no excelente “Fascismo de esquerda”, muitos esquerdistas estão corretos quando lamentam a cumplicidade entre governos e grandes corporações, cujo interesse recíproco é concentrar cada vez mais o mercado nas mãos de monopólios e oligopólios. O que eles não compreendem é que tal sistema convém justamente aos governos intervencionistas da nova esquerda, dita democrática. Uma esquerda que não pretende expropriar os empreendimentos privados, mas, ao contrário, usá-los para implementar sua agenda política, exatamente como testemunhamos hoje no Brasil. Para esses governos, é desejável que as corporações sejam tão grandes quanto possível, afinal o que é mais fácil, atrelar cinco mil gatos a uma carroça ou um imenso par de bois?

A candidatura Dilma e a política externa

Celso Lafer – O Estado de São Paulo

"Nunca, jamais, na História deste país" - para evocar o bordão preferido do presidente Lula - um chefe de Estado se dedicou a mobilizar tantos recursos para favorecer a sua candidata numa eleição presidencial. Na campanha, o tema recorrente do presidente tem sido a importância da continuidade do que entende ser a inédita qualidade do seu governo. Essa continuidade a candidata Dilma Rousseff, por ele ungida como um seu Outro Eu, teria o dom de levar adiante, até mesmo em matéria de política externa. Assim, no debate democrático sobre as opções que o País tem pela frente, cabe uma discussão sobre a qualidade da diplomacia lulista.

A política externa é uma política pública, como o são a da saúde e a da educação. Como política pública, a política externa tem como objeto traduzir necessidades internas em possibilidades externas. Por essa razão, na sua formulação e execução, precisa lidar com dois grandes desafios: o de definir adequadamente necessidades internas e o de avaliar, com discernimento, as possibilidades externas. A análise da política externa do governo do PT passa, assim, por um exame de como foram tratados esses dois desafios.

O Brasil não enfrenta problemas de segurança de envergadura, como países do Oriente Médio ou da Ásia, que estão mais próximos dos riscos da situação-limite paz/guerra. Por isso, pode considerar o desafio do desenvolvimento nacional, na sua abrangente sustentabilidade - econômica, social, política, ambiental, de inovação e conhecimento -, como sua grande necessidade interna. Cabe lidar bem com esse desafio, que significa ampliar o poder de controle da sociedade brasileira sobre o seu próprio destino, numa era de globalização, na qual o mundo se internaliza na vida dos países, inclusive no capítulo dos riscos (por exemplo, tráfico de drogas, crises econômicas, mudanças climáticas).

Para discernir o que o mundo pode contribuir para o desenvolvimento do País é preciso bem entender o cenário internacional e a sua complexa agenda. Esta contempla os temas da guerra, da violência, da segurança coletiva, da economia, do comércio, das finanças, do meio ambiente, dos direitos humanos e da democracia, das forças centrífugas das identidades e dos particularismos. Do bom entendimento da "máquina do mundo" provém a boa avaliação das possibilidades externas da ação diplomática de um país, na especificidade de suas circunstâncias. Nessa avaliação é preciso evitar dois riscos opostos: o da inércia omissiva do subestimar-se e o da inconsequência do superestimar-se. Isso exige levar em conta que são tarefas da política externa identificar interesses comuns e compartilháveis, lidar com as desigualdades do poder e ter condições de mediar a diversidade cultural e o conflito de valores.

A minha crítica à diplomacia lulista é dupla. Entendo que, com consequências negativas para o País, não definiu apropriadamente as necessidades internas e não avaliou corretamente as possibilidades externas.

Quanto ao primeiro item, aponto que a política externa do governo do PT se voltou para a busca do prestígio, com foco no prestígio do presidente. Uma diplomacia de prestígio e de gestos é menos atenta à falta de resultados. Não atende ao princípio constitucional da impessoalidade da administração pública, pois converte a política externa numa política de governo voltada para, partidarizando, capitalizar no Brasil e no mundo os personalíssimos méritos do presidente. Desconsidera, igualmente, o princípio constitucional da eficiência da administração pública, pois a indiscriminada abertura de novas embaixadas e de consulados-gerais, assim como a exagerada ampliação das vagas de ingresso na carreira, obedece ao afã da acumulação do prestígio, e não a critérios de necessidade objetiva.

Quanto ao segundo item, registro que toda política pública requer uma clara definição de prioridades - governar é escolher, como dizia Mendès-France.

Pressupõe uma gestão de riscos inerente ao campo específico de sua atuação. A diplomacia de prestígio e o voluntarismo da política externa lulista não fizeram nem uma coisa nem outra, em função de uma dupla falta da medida na avaliação das possibilidades externas do País. Na busca do inefável prestígio, ora superestima, ora subestima o que o País pode fazer. São exemplos da inconsequência do superestimar-se a ação brasileira no caso do Irã e no de Honduras e os reiterados insucessos das candidaturas a posições internacionais. São exemplos do subestimar-se omissivo, que também se traduz em não escolher os campos de atuação em que o nosso país pode encontrar melhores oportunidades para se afirmar no plano internacional, a resistência a desempenhar um papel mais relevante na área ambiental (na qual o Brasil é uma grande potência), a insensível negligência em matéria de direitos humanos, o descuido na negociação de acordos comerciais regionais, a complacência política no trato dos desvios de rota do Mercosul como processo de integração.

A diplomacia lulista, em razão dos equívocos acima apontados, vem descapitalizando de maneira crescente o soft power da credibilidade internacional do Brasil, comprometendo, desse modo, o próprio prestígio do País. Esta situação vem sendo agravada pelo empenho do presidente em construir amigas parcerias com regimes permeados pela iniquidade do arbítrio (por exemplo, o Irã de Ahmadinejad). A continuidade desta diplomacia é indesejável. Não contribuirá para a sustentabilidade da ação externa brasileira num cenário que se avizinha como mais complexo, seja no contexto das tensões da nossa vizinhança, seja no campo multilateral, seja no jogo das grandes potências, no qual despontam as novas parcerias da China e da Índia com os EUA.

(*) Professor Titular Da Faculdade De Direito Da Usp, Membro Da Academia Brasileira De Ciências E Da Academia Brasileira De Letras

Em 8 anos de Lula, denúncias levaram à demissão de 9 ministros

Robson Bonin Do G1

Primeiro caso foi o de Benedita da Silva, em janeiro de 2004.

Casa Civil teve dois atingidos por denúncias: José Dirceu e Erenice Guerra.

Com a demissão da ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, na última quinta-feira (16), devido a denúncias de suposto tráfico de influência no Planalto, são nove os ministros que deixaram a Esplanada dos Ministérios em razão de denúncias nos quase oito anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Relembre quais foram:

Benedita da Silva

Ministra da Secretaria de Assistência e Promoção Social, Benedita da Silva foi atingida por denúncias de mau uso de dinheiro público logo no primeiro ano de governo petista, ao pagar com recursos da União a hospedagem em um hotel de luxo na Argentina. À época, Benedita justificou a despesa afirmando que teria viajado ao país vizinho para participar de um café da manhã com evangélicos e resolvera esticar a agenda em um encontro oficial. Pressionada pelos fatos publicados pela imprensa, devolveu o dinheiro gasto na viagem e acabou demitida em 21 de janeiro de 2004.

Benedita sempre negou irregularidades. Na época, a ex-ministra alegou que os gastos realizados na Argentina foram realizados durante reuniões de trabalho.

Romero Jucá

Terceiro a pedir demissão na Esplanada, o hoje líder do governo no Senado, senador Roméro Jucá (PMDB-RR), era ministro da Previdência quando acabou envolvido em supostas irregularidades na aplicação de recursos emprestados pelo Banco da Amazônia. Como garantia para um empréstimo obtido junto ao banco, uma empresa de Jucá teria apresentado papéis que indicariam propriedade de fazendas fantasmas. Diante da repercussão do caso, Jucá acabou deixando a pasta em 21 de julho de 2005, apenas 122 dias após tomar posse, em 22 de março do mesmo ano.

O senador negou ter intermediado negociações. Na época em que as denúncias surgiram, seu advogado disse que as acusações tinham cunho eleitoral. Também disse que, ao contrário de ser beneficiário, Jucá foi avalista do empréstimo, colocando bens em garantia para o banco.

José Dirceu

Primeiro integrante do governo Lula a ocupar a Casa Civil, José Dirceu emergiu das eleições de 2002 como o braço direito do presidente Lula e um dos responsáveis pelos 53 milhões de votos obtidos pelo petista no segundo turno das eleições contra o hoje candidato José Serra (PSDB). Ele se demitiu em 16 de junho de 2005, no auge do escândalo do mensalão, pressionado por declarações do delator do esquema, o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), de que a sua permanência na Casa Civil poderia respingar no presidente Lula. O mensalão foi o escândalo da suposta compra de apoio de parlamentares no Congresso, que atingiu diretamente Dirceu, o principal responsável pelas alianças do governo petista com os partidos.

Sempre negou envolvimento com as denúncias. Deixou o cargo e voltou à Câmara dizendo que lá poderia esclarecer os fatos, mas acabou tendo o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por oito anos. Segundo o ex-ministro, todas as denúncias foram infundadas.

Antonio Palocci

Homem forte no primeiro governo do presidente Lula, o hoje deputado federal Antônio Palocci (PT-SP) permaneceu no comando do Ministério da Fazenda até 27 de março de 2006, quando pediu demissão diante das denúncias publicadas pela imprensa sobre sua suposta participação na quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa na Caixa Econômica Federal. “Nildo”, como é conhecido o caseiro, afirmou ter visto Palocci em festas em uma mansão no Lago Sul de Brasília. Palocci respondeu a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e teve o processo arquivado no ano passado. O caseiro ganhou na Justiça uma indenização de R$ 500 mil da Caixa em razão da violação de sigilo – a instituição anunciou que irá recorrer.

Disse que ocorreu ‘movimento sistemático para lançar dúvidas e suspeitas’ sobre ele e garantiu que não teve participação no caso. Neste ano, o STF rejeitou denúncia contra ele.

Luiz Gushiken

Supostas interferências em fundos de pensão e suspeitas de envolvimento no escândalo do mensalão apuradas pela CPI dos Correios também fizeram Luiz Gushiken, então ministro da Secretaria de Comunicação do governo, a deixar o cargo no dia 13 de novembro de 2006. Gushiken já havia sido removido do comando da pasta e atuava no Núcleo de Assuntos Estratégicos do governo. Ele entregou sua carta de exoneração depois de ter sido alvo de investigação no Tribunal de Contas da União (TCU).

O ex-ministro afirmou que se afastou da pasta para evitar prejuízos ao governo, mas negou envolvimento em irregularidades.

Silas Rondeau

Em 2007, escândalos de corrupção chegaram até o Ministério de Minas e Energia, atingindo o então ministro Silas Rondeau. Apontado pela Polícia Federal como suspeito de ter recebido R$ 100 mil da Construtora Gautama, acusada de fraudes e desvios em obras públicas, Rondeau entregou o cargo no dia 22 de maio de 2007.

Rondeau sempre negou ter recebido propina. ‘Reafirmo minha completa e absoluta inocência’, escreveu em sua carta de demissão.

Walfrido Mares Guia

Seis meses depois da saída de Rondeau, em 22 de novembro de 2007, o ministro de Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia -- que também já havia ocupado a pasta do Turismo --, entregou ao presidente Lula sua carta de demissão, acossado por denúncias de envolvimento no escândalo do suposto mensalão mineiro. O esquema, segundo o procurador-geral da República à época, Antonio Fernando de Souza, foi o embrião do mensalão de 2005 no governo federal.

Afirmou que se afastou para evitar prejuízos ao governo, mas negou envolvimento em irregularidades. Ele classificou as acusações imputadas pelo então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, de injustas e improcedentes e que isso ficaria provado no curso do processo.

Matilde Ribeiro

Até a queda de Erenice do cargo nesta quinta, a então ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, permanecia como a última a ter deixado o governo em decorrência de denúncias. Ministra de Lula desde março de 2003, Matilde não resistiu à divulgação dos seus gastos com o cartão corporativo do governo, motivando até a abertura de uma CPI mista no Congresso. Em 2007, Matilde gastou mais de R$ 171 mil com o seu cartão, dos quais R$ 120 mil só com aluguéis de veículos. A justificativa da ministra é que teve de viajar mais para intensificar relações com novos governos. Ela deixou o cargo no dia 1 de fevereiro de 2008.

Disse que foi induzida ao erro ao usar cartão corporativo. Afirmou que foi orientada a usar o cartão para despesas com hospedagem, alimentação e locação de veículos.

O “factóide” da Dilma derruba mais um

Diretor dos Correios é quarto a cair por denúncias de favorecimento envolvendo Casa Civil

Martha Beck, Geralda Doca, Roberto Maltchik e Jailton de Carvalho

BRASÍLIA - O escândalo político envolvendo uma rede de corrupção operada na Casa Civil e nos Correios derrubou um quarto integrante do governo. Depois da ex-ministra Erenice Guerra e de dois assessores palacianos, cai o diretor de Operações dos Correios , coronel Eduardo Artur Rodrigues. Sua carta de demissão será entregue nesta segunda-feira às 10h ao presidente da estatal, David José de Matos. Novamente, a queda é resultado da mistura de negócios pessoais e empresariais com a função pública.

Rodrigues é suspeito de defender interesses da empresa de transporte de cargas Master Top Airlines (MTA) junto ao governo. Segundo reportagem publicada no jornal "O Estado de S.Paulo", o diretor - nomeado pela ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra em agosto deste ano - faria parte de um grupo que tem empresas de fachada no Uruguai, nos Estados Unidos e no Brasil, e atua para transformar a MTA numa empresa pública de carga aérea que o governo pretenderia criar após as eleições.

Rodrigues ficou desgastado devido à ligação com a MTA, pois era sócio da Martel, empresa de consultoria aeronáutica que acertou a documentação que permitiu a criação da MTA. Ele diz que se desligou quando foi para os Correios e que não vai à sede da companhia desde dezembro:

- Estou saindo porque minha família está exposta e não aguento mais. Estou há 46 dias levando porrada.

Procurados, os sócios da MTA não foram encontrados.

Um país de escravos

João Luiz Mauad, Diário do comércio

Todos os países desenvolvidos, que têm sistema de bem-estar social, têm carga tributária bem mais elevada, em cerca de 50% do PIB. Do outro lado, há países mais pobres na América Latina, no Caribe e na África, cuja carga tributária é bem baixa, inferior a 15%. Resultado: eles não têm recursos para adotar políticas sociais e o Estado é praticamente inexistente. O Brasil está numa posição intermediária: em 2009, a carga tributária foi de 34%. A arrecadação nesse patamar é decisiva para que o Estado possa atuar para reduzir as desigualdades sociais, fazer os investimentos necessários em Educação, Saúde, Segurança e atacar as deficiências de infraestrutura.”

Quem disse o que vai acima foi o presidente Lula, respondendo a um leitor de sua coluna semanal, publicada em mais de uma centena de jornais país afora. Alguma razão lhe assiste, pois sem recursos a existência do Estado seria inviável. Fora os anarquistas, ninguém discute a necessidade dos impostos. A questão importante é outra: a relação ótima entre custos e benefícios dos tributos.

Qualquer tributo é, por definição, um ônus forçado aos cidadãos. Não se trata de uma escolha voluntária, mas de uma imposição (daí o nome: imposto). Embora os impostos sejam uma agressão à liberdade e à propriedade, nós os aceitamos por conta da necessidade de financiamento da força estatal, necessária para que tenhamos assegurada nossa segurança individual e coletiva, além dos serviços de infraestrutura que, por dificuldade de individualização e cobrança, não seriam interessantes à iniciativa privada (como urbanização, arruamento e iluminação pública, por exemplo).

Portanto, embora cobrados de forma coercitiva, os tributos pressupõem uma justa contraprestação do Estado em serviços. É aqui, neste ponto, ao comparar o caso brasileiro com o de países desenvolvidos, que o presidente perde completamente a razão. Senão, vejamos:

Qualquer pessoa bem informada sabe que a carga tributária no País anda pela casa dos 35% do PIB (equivalente à da Inglaterra). Esse número é uma medida real do quanto o Leão arranca dos pobres coitados que ainda insistem em produzir riquezas, de maneira formal e civilizada, no Brasil. Mas há também um outro dado que ainda muito poucos conhecem: trata-se do índice que mede a carga tributária potencial ou, em outras palavras, o limite da voracidade fiscal, o tamanho da mordida do Leão se não houvesse no Brasil sonegação, inadimplência ou informalidade.

De acordo com um estudo de 2006, do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, se todos pagassem corretamente os seus tributos estaríamos transferindo à Fazenda Pública nada menos que 59,38% do PIB. É isso mesmo, leitor, você não leu errado. O apetite do fisco chega a incríveis 60% do PIB.

Pode parecer um cálculo exagerado, mas a realidade não para de corroborar com a conclusão do IBPT, já que a arrecadação vem crescendo bem acima do PIB de forma recorrente, ano após ano, mesmo naqueles em que não houve criação de novos tributos, aumento de alíquotas ou base de cálculo dos existentes.

Como se isso não bastasse, além dos impostos, taxas, contribuições e encargos que o governo nos toma, sem dó nem piedade, precisamos pagar ainda pela nossa saúde, pela educação dos filhos, muitas vezes por segurança particular e por mais uma série de outros serviços que deveriam estar a cargo dos governos. Não é difícil concluir que o Estado brasileiro gasta mal.

Segundo dados da revista Veja, a cada ano aproximadamente 92% dos gastos do governo federal – excluindo-se pagamento de dívidas e transferências – são engolidos pelas engrenagens do Estado. De cada cem reais, 25 são destinados ao pagamento de pessoal e outros 67 ao custeio da máquina – despesas que vão do cafezinho servido nas repartições públicas à gasolina que move os veículos de autoridades.

Para investimentos em infraestrutura, segurança, defesa, saúde etc., sobram somente 8%. Resumindo: as atividades-meio consomem muito mais recursos que as atividades- fim. Qualquer empresa, com tal perfil orçamentário, já teria falido há muito tempo.

Mas não pense o leitor que o descalabro acaba aí. Um trabalho de 2008, do mesmo IBPT, mostra que, nos primeiros 20 anos após a promulgação da Constituição de 1988, foram emitidas no País nada menos do que 3.7 milhões normas reguladoras da vida dos cidadãos brasileiros, o que equivale ao absurdo de 766 atos editados por dia útil. Desse total, nada menos que 240.210 foram atos impositivos ou regulamentações de natureza tributária, que equivalem a duas normas por hora.

Nesse emaranhado de leis, decretos, instruções normativas e outros babados, é praticamente impossível a qualquer um conhecer, com um mínimo de segurança, as regras vigentes. Para sobreviver nessa selva, empresas dependem da assessoria contábil, jurídica e fiscal de inúmeros especialistas, caso queiram manter-se relativamente atualizados em relação às suas obrigações perante a Administração.

De acordo com a FIESP, as empresas gastam algo em torno de 1,5% do PIB, por ano, só para manter pessoal, sistemas e equipamentos necessários para satisfazer as normas impostas pela burocracia tributária. Como não existe almoço grátis, o Brasil tem um dos maiores custos de transação do mundo, com reflexos terríveis nos níveis de competitividade.

Além disso, como direitos e deveres não são nítidos, os pagadores de impostos tornam-se reféns de agentes públicos mal intencionados, que não raro se valem da altíssima complexidade legal em proveito próprio. “As leis abundam em Estados corruptos”, já dizia Tácito.

Diante de tamanho descalabro, a pergunta óbvia é: que futuro afinal se descortina para uma nação de escravos, subjugada por um Estado obeso e perdulário, que lhe cobra com imensa voracidade mais de 50% de toda riqueza produzida e, de volta, só lhe dá migalhas? Dá para comparar a nossa situação com a dos países desenvolvidos, como pretende o presidente Lula?

Máquina de preservativos

Carlos Alberto di Franco (*) - O Estado de S.Paulo

A grande incidência de adolescentes contaminados pelo vírus HIV motivou o Ministério da Saúde a partir para a distribuição de preservativos diretamente nas escolas. Para facilitar o acesso estão sendo testadas máquinas que põem o produto à disposição automaticamente. Municípios dos Estados da Paraíba e de Santa Catarina foram escolhidos para testar e aprimorar o equipamento. O objetivo estratégico é ambicioso: instalar as máquinas em todo o sistema público de ensino. Destinatários: jovens entre 13 e 19 anos. Surpreende a precocidade do público-alvo inicial.

Máquina do bem ou do mal? O debate está aberto. Com razão. O avanço da aids, não obstante as campanhas milionárias em favor da camisinha, indica que algo não está funcionando. Esse aumento, sem dúvida preocupante, pode levar, mais uma vez, aos diagnósticos superficiais e, por isso, míopes: focar a questão apenas nas campanhas em favor do chamado "sexo seguro". A camisinha será a panaceia para conter a epidemia. Continuaremos padecendo da síndrome do avestruz. Bateremos nos efeitos, mas fugiremos das verdadeiras causas: a hipersexualização da sociedade.

Na verdade, caro leitor, as campanhas do governo não têm dado resposta adequada ao verdadeiro problema: a influência do gigantesco negócio do sexo, que, impunemente, acaba determinando comportamentos e atitudes. A culpa não é só do mundo do entretenimento. É de todos nós - governantes, jornalistas, formadores de opinião e pais de família -, que, num exercício de anticidadania, aceitamos que o País seja definido mundo afora como o paraíso do sexo fácil, barato, descartável. O governo, assustado com o aumento da gravidez precoce e com o crescente descaso dos usuários do preservativo, investe agora na máquina de camisinha. Não vai resolver. Afinal, milhões de reais já foram gastos num inglório combate aos efeitos. E o resultado está gritando na força dos fatos e dos números: a aids continua sendo um problema de saúde pública.

Impõe-se buscar soluções inovadoras e eficazes. Sempre intuí a necessidade de um aprofundamento sério no tema da formação da sexualidade. Em meu esforço de apuração, topei com uma experiência surpreendente: o programa denominado Protege tu Corazón. A história começa em 1993, na Colômbia. Tal como a grande maioria dos pais, Juan Francisco e Maria Luisa Velez começaram a se preocupar com a educação sexual que seria implantada nas escolas de seus filhos. A orientação proposta contrariava tudo o que haviam imaginado transmitir a seus filhos a respeito do amor, da sexualidade, da família e da vida. Confundia-se sexualidade com sexo, amor com sexo e alicerçava-se seu conteúdo exclusivamente no que denominavam "sexo seguro". O que queriam dizer com sexo seguro? Algo parecido com o que acontece por aqui. Fomenta-se, por um lado, a cultura da hipersexualização e da promiscuidade. Tenta-se, por outro, preservar os adolescentes de uma gravidez indesejada e da transmissão de DSTs com o uso dos preservativos. Ninguém, no entanto, se preocupa com as dramáticas consequências físicas, emocionais e afetivas provocadas pelo oba-oba sexual.

Esse casal não se limitou a lamentar, mas, com apoio de especialistas e, sobretudo, de outros pais de família, elaborou um Programa de Educação da Sexualidade para ser aplicado nas escolas. O programa espalhou-se por 18 países na América Latina, do Norte, Europa e nas Filipinas. Tem um slogan simples e direto: "Caráter forte, sexualidade inteligente." Ou seja, entende que, em primeiro lugar, a sexualidade é um componente fundamental da personalidade, um modo de ser, de se manifestar, de se comunicar com outros, de se expressar e de viver o amor humano.

A proposta do programa é ajudar os adolescentes a fortalecer o seu caráter, de tal forma que a inteligência e a vontade adquiram prioridade sobre os sentimentos. Os adolescentes são normalmente impulsivos, inseguros, não se conhecem bem, e são essas carências que os fazem tomar decisões equivocadas e correr riscos desnecessários, sobretudo ao iniciarem um relacionamento sexual muito precoce. O programa Protege tu Corazón já está no Brasil (www.protegetucorazon.com.br) e desenvolve um projeto piloto no Colégio Ranieri, em São Paulo.

A metodologia é interativa, moderna, com material audiovisual, dramatizações, discussões em grupo, exercícios escritos, etc. Com essa metodologia se pretende que o adolescente seja levado a refletir sobre suas escolhas, sobre seus sonhos. Apresenta uma característica importante, que é fomentar o diálogo entre pais e filhos e, acima de tudo, o programa tem uma norma: "Propor, e não impor." Faz pensar e aposta na liberdade.

Os adolescentes, frequentemente bombardeados pela banalização do sexo, surpreendem-se ao perceber uma outra forma, positiva e responsável, de entender a sexualidade. Mas os principais protagonistas dessa mudança são os próprios pais. O programa na escola é uma ajuda poderosa para os pais, mas não pretende nem substituí-los nem subestimá-los. Ele os apoia e oferece ferramentas concretas para facilitar a comunicação entre pais e filhos. É uma parceria interessante e os resultados me impressionaram.

A iniciação sexual precoce, o abuso sexual e a prostituição infantil são, de fato, o resultado da cultura da promiscuidade que está aí. Ainda pouco se fala do Brasil no exterior. E quando se fala, infelizmente, o noticiário se reduz às ações do crime organizado, aos escândalos envolvendo políticos e governantes, às queimadas na Amazônia e à miséria da nossa periferia. Limitam nossa cultura e nossa arte ao rebolado. É uma pena. O Brasil é, sem dúvida, muito mais que o país do gingado e do carnaval.

(*) Doutor em Comunicação, é  Professor de Ética e Diretor do Master em Jornalismo

O país dos favores

Roberto Romano, O Estado de S. Paulo

“Tudo foi feito por amizade, favores” Ana Maria Caroto Cano, justificando a quebrailegal de sigilo alheio

A frase acima, de funcionária da Receita Federal, sintetiza a cultura política do Brasil. Nascemos para o mundo sob o regime absolutista, no qual as funções de Estado foram monopolizadas pelo rei. Ele as cedia em troca de dinheiro, mas as exigia de volta a qualquer instante. Permanecer num cargo público significava favor real. O soberano concentrava alguns monopólios do poder: o controle da força física na guerra e na polícia. Além disso, só o Estado editava leis para o reino e se reservava a arrecadação dos impostos. Mas para garantir fidelidade o soberano comprava o apoio da nobreza, força dominante no sistema feudal, e da hierarquia religiosa. Privilégios, isenções e prebendas conseguiam a obediência, em consonância com o monopólio do poder. Nobres, padres, burgueses, somados às camadas populares, todos e tudo tinham seu preço. O nome da cooptação era “favor”.

Os monopólios reais concentravam as políticas e as finanças públicas na Europa, inclusive em Portugal. O mesmo ocorria nos elos entre a colônia portuguesa e a corte. Os impostos seguiam para o rei, que os distribuía de acordo com a sua política. Nos países absolutistas, as cidades dificilmente auferiam retorno dos impostos. Trazer-lhes algo do butim financeiro era prerrogativa de pessoas ou grupos influentes, os quais deviam favores entre si e ao monarca.

Outra marca do absolutismo reacionário é o nome de “pai” atribuído ao chefe de Estado. O atual presidente dá a si mesmo esse título e outorga à sua possível sucessora a maternidade política sobre o povo. Assim, ele retoma Tiago I, o teórico Robert Filmer (no livro Patriarca, ou sobre o Poder Natural do Reis) e todos os conservadores idolatrados pela TFP. Sem falar nos ditadores como Vargas e os Peróns.

Dados a enorme extensão territorial do Brasil e os parâmetros absolutistas, as nossas políticas públicas – e a maioria dos impostos – foram açambarcadas pelos dirigentes, em Lisboa e depois na corte nacional. Impostos não retornavam (nem retornam) aos municípios. Maria Sylvia Carvalho Franco expõe a lógica do nosso Estado a partir daí. Com a penúria de recursos, municípios apelaram para técnicas de administração alheias aos limites entre o público e o privado. Vereadores emprestavam de seu bolso às cidades para efetivarem obras. Urbes sem cemitério, escolas, estradas, hospitais foram “beneficiadas” pelos empréstimos. Breve, diz a autora, veio a contrapartida: se quando o município precisa eu faço o favor de emprestar, quando eu preciso o município deve comparecer. Maria Sylvia Carvalho Franco relata casos como o do tesoureiro que jogava com a arrecadação no fim do mês. No outro, ele devolvia as somas. Processado, estranhou muito porque, na sua mente, o errado não seria pegar emprestado, mas não pagar (Homens Livres na Ordem Escravocrata).

Criou-se o solo político onde quem exerce o cargo público imagina a si mesmo, no mínimo, locatário e, não raro, proprietário da função. Tal crença vai dos altos postos executivos e legislativos (passando pelo Judiciário) aos baixos. Dali ruma para os eleitores. Estes últimos esperam do deputado, senador, governador, presidente e quejandos que eles prestem “favores” liberando obras para as cidades. E os primeiros, fiéis adeptos do tesoureiro citado, julgam legítimo apropriar-se de parte significativa dos recursos em troca dos “benefícios” que trazem para as bases. E nem mencionemos a fieira de bondades praticadas nos cargos públicos, desde indicações para empregos até isenção de impostos para quem investiu na campanha eleitoral.

Aquela funcionária da Receita age segundo a ética que deu nascimento ao Estado brasileiro. Ela julga, como parte de seus pares em todos os Poderes, que o cargo lhe pertence, bem como as informações que nele circulam. E imagina prestar favores aos amigos. Mas, como nos tempos do rei, nenhum favor é gratuito, tendo sua contrapartida em novos préstimos ou pecúnia. A confusão entre público e privado seria atenuada se ausente dos setores mais elevados do poder federal, estadual, municipal. Mas ocorre o contrário: os de baixo escalão imitam os que estão situados no topo. Todos os presidentes, governadores, senadores e deputados federais usam impostos para convencer os votantes sobre o “favor” devido à sua benevolente vontade. Nada estranho, pois, que o sr. Luiz Inácio da Silva mova o recurso em prol de si mesmo, de seu partido, de sua candidata.

Notícia deste jornal (13 de setembro) relata que em Santa Catarina, “referindo-se aos rivais na corrida presidencial, Lula voltou a afirmar que jamais na história o Estado recebeu tantos recursos quanto em seu governo. Enumerou R$ 1,2 bilhão em ajuda aos atingidos pelas enchentes de 2008, os R$ 129 milhões para obras de reconstrução das rodovias atingidas e os R$ 348 milhões destinados para a reconstrução do Porto de Itajaí, além de recursos repassados para a construção de quase 4 mil moradias no programa Minha Casa, Minha Vida. “Eu desafio qualquer um a provar se na história de algum governo passado já repassou tantos recursos para Santa Catarina como nós fizemos. O dinheiro veio. Se ele não foi aplicado da forma como deveria, é outra história.”" E também citou: “No meu governo São Paulo recebeu mais dinheiro do que na época que era governado por Mário Covas e tinha o FHC como presidente.”

O dinheiro não é do presidente, mas dos contribuintes, que aderem a todos os partidos, ideologias ou crenças religiosas. O sigilo não pertence à Receita, mas aos que pagam impostos. O resto é absolutismo anacrônico, mesmo quando aplaudido por nobres e pobres, numa República apodrecida pelo favor.

Falta cadeia no Brasil

Fernando Canzian, Folha de São Paulo

O Brasil só não vai mais para frente por um único motivo: não há medo de cadeia nesse país.

Quando políticos e agregados roubam e miseráveis votam, é a corrupção e o bolso que mandam.

O que os documentos publicados pela Folha que derrubaram a ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil) revelam é que havia um esquema no coração do governo para achacar empresários querendo obter recursos públicos.

O contrato em questão, negociado entre Israel Guerra e o empresário Rubnei Quícoli, da EDRB, poderia chegar a R$ 9 bilhões.

Jamais chegaria a isso, é certo.

O valor corresponde a um quinto do projeto do trem-bala SP-Rio. Só a propina (segundo o contrato) para o filho da ex-ministra (5%) seria de R$ 450 milhões. É dez vezes a megassena acumulada. É surreal, antes mesmo de ser irreal.

O que impressiona é a desfaçatez, o fato de ainda haver negociatas dessa natureza no Brasil.

A "turma do lobby" do filho de Erenice trabalhava junta na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) no mesmo período em que o país viveu um caos aéreo. Depois, montou o esquema que agora vem à tona.

Alguém vai ser preso?

No governo Lula, agências reguladoras como a Anac foram desmontadas, virando um antro de indicações políticas.

Não é preciso ter imaginação para se pensar no que ocorre longe da Casa Civil, no balcão de negócios em que devem estar se tornando essas agências.

Elas regulam e fiscalizam a nata do setor de infraestrutura no Brasil: energia, transporte, telecomunicações e saneamento, entre outras.

É aí que estará o dinheiro grosso, público e privado, para o Brasil crescer nos próximos anos.

Pior do que a candidata Dilma dizer que não sabia de nada é o presidente Lula atacar o que resta de fiscalização neste pais: a imprensa.

E, diga-se, os jornalistas livres.

Lula, do alto de sua popularidade: "Nós não vamos derrotar só nossos adversários tucanos. Vamos derrotar jornais e revistas que se comportam como partidos políticos e não têm coragem de dizer que têm partidos políticos, que têm candidatos".

Sr. presidente, em quem já votei: apesar de todas as grandes e reconhecidas conquistas sociais e na economia, o sr. se tornou um anão.

Já vai tarde.

Países promovem ''guerra de moedas''

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Governos desvalorizam câmbio para proteger indústria e garantir exportação

Intervenção. Japão anunciou medidas para manipular o iene e tentar garantir uma retomada das exportações; medida provocou alta na Bolsa

Dois anos após a quebra do banco Lehman Brothers, economistas, a ONU e até governos dizem que o mundo dá sinais de ir na mesma direção da "guerra das moedas" iniciada em 1931, após a quebra da Bolsa de Nova York. Naquele ano, o banco central inglês desvalorizou a libra esterlina em 24%, medida seguida por vários países. Os Estados Unidos acabariam tomando o mesmo caminho em 1933.

Ao desvalorizar suas moedas - ou pelo menos impedir sua valorização -, governos tentam proteger suas indústrias nacionais e garantir renda com as exportações. Na prática, exportam suas crises a seus vizinhos.

Um relatório da ONU constatou, porém, que o mais preocupante é que não existe nenhuma lei ou mecanismo nos organismos internacionais que impeçam países de usar a moeda para uma "desvalorização competitiva". Para tornar a situação mais complexa, países que raramente intervêm no cambio e defendem a flutuação de moedas mudaram radicalmente a postura.

O primeiro país industrializado foi a Suíça. Em 2009, US$ 37 bilhões das reservas do país foram gastos para segurar a valorização da moeda. Em 2010, já foram mais US$ 14 bilhões.

Nesta semana, o Japão anunciou medidas para manipular o iene e tentar garantir a retomada das exportações. A moeda havia atingido a maior alta em relação ao dólar em 15 anos. O primeiro-ministro Naoto Kan defendeu a medida, dizendo que o iene havia chegado a níveis "que não poderiam mais ser permitidos".

Na Europa e EUA, a medida foi recebida com surpresa e preocupação. Para Jean-Claude Juncker, presidente da zona do euro, "ações unilaterais não são a maneira apropriada de lidar com desequilíbrios globais". Já o presidente do Comitê de Finanças do Congresso americano, Sander Levin, classificou de "preocupante" a ação do Japão, porque enfraquece o poder dos EUA de convencer a China a não mais manipular sua moeda.

Yuan. Na prática, as medidas na Suíça e Japão impedem que a China seja acusada de ser a única a manipular sua moeda. O Congresso americano calcula que o yuan esteja 40% abaixo do nível considerado mais realista. Várias queixas foram iniciadas na Organização Mundial do Comercio (OMC) pelos americanos contra a China, para pressionar Pequim a rever sua moeda.

Na Alemanha, o euro desvalorizado também favoreceu as exportações da maior economia da Europa. Nos primeiros seis meses de 2010, as exportações alemãs aumentaram 17%, enquanto o mercado doméstico se mantém estagnado. Na prática, portanto, o país exportou sua crise. Para o Brasil, a alta nas vendas foi de 61,4%. Para a China, 55%.

Mas o uso das moedas para acertar as contas nacionais também passou a ser usado por países em desenvolvimento. No Brasil, o Banco Central se mobiliza para defender o real valorizado. No início do ano, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desvalorizou o bolívar em até 50% para aumentar renda de exportações de petróleo e contrabalançar a inflação de 25%. Na Colômbia, o novo governo de Juan Manuel Santos também embarcou em um esforço para impedir a valorização da moeda. O país já gastou US$ 20 milhões por dia de suas reservas entre março e junho para evitar a valorização do peso colombiano, que já chegou a 13% em 2010.

Em agosto, Viena também atuou para desvalorizar sua moeda em 2,1% para conter um déficit que já chega a US$ 7,2 bilhões no ano, o dobro de 2009. Na África do Sul, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicou que o rand estaria 15% acima de um nível considerado adequado para as exportações e recomendava o governo a atuar para desvalorizar a moeda.

A Rússia já promoveu sua principal desvalorização entre 2008 e 2009, vendendo 25% de reservas e ouro. Mas nem assim conseguiu conter a queda nas exportações. Ucrânia, Casaquistão, Bielo-Rússia e Letônia vivem um dilema entre desvalorizar a moeda para exportar mais para a Rússia ou mantê-la forte para poder pagar os juros das dívidas externas. A Bielo-Rússia já optou pela desvalorização da moeda em 20%. Na Ucrânia, a queda foi de 40%.

Caso Erenice - Os bons negócios de seu marido

Roberto Maltchik, Martha Beck, O Globo

Órgão federal perdoou dívidas da Matra Mineração, outra empresa ligada a Campos

A Matra Mineração conquistou duas vitórias no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão sob influência de Erenice Guerra, depois que o marido da ex-ministra, José Roberto Camargo Campos, entrou na sociedade da pequena empresa com sede em Brasília e que atua no interior de Goiás.

Além do perdão de 14 multas, nove delas apenas 43 dias depois de sua ida para a Matra, a empresa conseguiu, 60 dias depois, autorização para explorar calcário em Goiás.

Além das multas perdoadas, a Matra, cujo capital social é de apenas R$ 30 mil, acumula dívidas que somam R$ 129,4 mil, parceladas em 60 vezes.

De acordo com o DNPM, as multas estão sendo pagas em dia.

Campos chegou à Matra em 22 de abril de 2008, associando-se ao gerente de Desenvolvimento Energético da Eletronorte, Ercio Muniz Lima, antigo amigo de Erenice, funcionária de carreira da estatal.

O marido de Erenice também trabalhou na estatal.

Em 5 de junho, 43 dias depois, o DNPM arquivou nove autos de infração emitidos contra a empresa em dezembro de 2004.

Já no dia 20 de junho, o DNPM outorgou alvará de pesquisa para que a Matra explorasse minério no interior de Goiás.

À época, Erenice ocupava a secretaria executiva da Casa Civil, subordinada à então ministra Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência.

Antes de chegar à Casa Civil, ela era consultora jurídica do Ministério de Minas e Energia, onde acumulou, desde 2003, assento no Conselho Administrativo da Eletronorte.

Um mês após a chegada de Erenice ao Conselho da Eletronorte, José Roberto passou a prestar serviços à estatal, num contrato de R$ 120 mil em 2003 e 2004.

Em 2006, a Matra já tinha tido outras cinco multas arquivadas pelo DNPM. As autuações foram aplicadas por falta de pagamento da Taxa Anual por Hectare (TAH). Para todos os arquivamentos, o DNPM argumenta que houve discrepância entre os valores cobrados e aqueles que constam dos autos de infração.

Além da mineradora e da prestação de serviços na Eletronorte, a participação de José Roberto Campos na Unicel, operadora de telefonia celular no interior de SP, também aproxima os negócios dele com a função pública de Erenice. A empresa, da qual ele é diretor, recebeu atestado de capacidade técnica da Presidência da República.

De acordo com o jornal "Folha de S.Paulo", foi a primeira e única vez em que a Diretoria de Telecomunicações da Presidência avalizou um serviço experimental, o que causou surpresa entre empresas do setor, já que não é praxe órgãos públicos atestarem capacidade baseada apenas em testes. Na época, Erenice era secretária-executiva de Dilma na Casa Civil.

Na época em que recebeu o atestado, a Unicel brigava na Anatel por uma licença para implantar o serviço de telecomunicações via rádio que atenderia às Forças Armadas, à Presidência e à Polícia Federal.

Em 2004, a Unicel teria participado de um chamamento público na Anatel para cadastrar interessados em explorar a faixa de frequência não usada pelas operadoras de celular.

No ano seguinte, o coronel da reserva Elifas Gurgel, nomeado presidente da Anatel, autorizou a empresa a explorar comercialmente a frequência, com dispensa de licitação pública, o que foi contestado pela área técnica do órgão.

A Unicel recorreu à Justiça e, no ano passado, o TCU confirmou que a licitação era dispensável, mas determinou que a Anatel convocasse outras empresas interessadas no negócio.

Após deixar a Anatel, Elifas Gurgel tornou-se consultor da Unicel. O advogado da empresa, Gabriel Lainder, foi nomeado em janeiro passado como assessor da Casa Civil, para trabalhar com Erenice.

ANJ e OAB condenam ataque de Lula à imprensa

Martha Beck, O Globo

Entidades consideram ‘lamentável’ presidente manifestar desconhecimento sobre papel das mídias em democracias

A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) reagiram ontem aos ataques feitos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à imprensa durante comício em São Paulo no fim de semana.

Ao discursar num comício ao lado da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, em Campinas, Lula disse no sábado que a população não precisa mais de formadores de opinião e acrescentou: "Nós somos a opinião pública."

As entidades classificaram a atitude de Lula como "lamentável" e defenderam a liberdade de imprensa.

Durante o comício, o presidente afirmou que a vitória de Dilma nas urnas vai representar a derrota não apenas de adversários políticos, "mas de alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político".

Em nota, a ANJ afirmou que é "lamentável e preocupante" que o presidente manifeste desconhecimento em relação ao papel da imprensa em sociedades democráticas: "O papel da imprensa, convém recordar, é o de levar à sociedade toda informação, opinião e crítica que contribua para as opções informadas dos cidadãos, mesmo aquelas que desagradem aos governantes. Convém lembrar também que ele (Lula) jamais criticou o trabalho jornalístico quando as informações tinham implicações negativas para seus opositores."

Segundo a ANJ, Lula parece ter esquecido suas próprias palavras, pronunciadas no Planalto, em 3 de maio de 2006, ao assinar a declaração de Chapultepec (compromisso hemisférico com a liberdade de expressão), quando afirmou: "... devo à liberdade de imprensa do meu país o fato de termos conseguido, em 20 anos, chegar à Presidência. Perdi três eleições. Eu duvido que tenha um empresário de imprensa que, em algum momento, tenha me visto fazer uma reclamação ou culpando alguém porque eu perdi as eleições."

O deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) afirmou que as declarações foram feitas num "mau momento".

— Lula brilha quando trata de assuntos de interesse do povo, mas deve melhorar sua biografia recuperando um passado em defesa da democracia e da liberdade de imprensa — disse Miro, responsável pelo fim da Lei de Imprensa.

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, criticou Lula:

— É lamentável que o líder maior da nação tenha esse tipo de postura em relação à imprensa. Triste é o país que não tem liberdade de imprensa, que não pode expressar suas opiniões.

De acordo com ele, só o cenário eleitoral pode explicar as declarações de Lula:

— A imprensa deve ser livre para fazer seu papel de denunciar. Ninguém gosta de receber críticas, mas deve saber ouvi-las e compreender que erros existem e devem ser corrigidos. Acima da Constituição, só Deus.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Esta é que a questão, que parece que muitos não entenderam ainda: para Lula, ele é Deus!!! Por mais arrogante que seja, é assim que ele pensa.

Dilma favoreceu firma e aparelhou secretaria, diz TCE

Silvio Navarro, Folha De S. Paulo

Parecer apontou que fundação comandada por Dilma beneficiou instituto que depois prestaria serviços ao PT

Tribunal aplicou multas contra a atual candidata à Presidência, que mais tarde foram convertidas em meras advertências

Auditorias feitas na gestão de Dilma Rousseff (PT) na Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul e na Federação de Economia e Estatística, entre 1991 e 2002, apontam favorecimento a uma empresa gaúcha que hoje recebe R$ 5 milhões da Presidência e mostram aparelhamento da máquina.

Os documentos foram desarquivados no Tribunal de Contas gaúcho a pedido da Folha. Hoje candidata à Presidência, Dilma foi secretária dos governos Alceu Collares (PDT), em sua fase "brizolista" no PDT, e Olívio Dutra (PT), quando se filiou ao PT, pré-ministério de Lula.

Em 1992, os auditores constataram que a fundação presidida por Dilma favoreceu a Meta Instituto de Pesquisas, segundo eles criada seis meses antes para vencer um contrato de R$ 1,8 milhão (valor corrigido).

A empresa gaúcha foi a única a participar da concorrência devido à complexidade e falta de publicidade do edital.

Segundo a auditoria, a negociação entre a empresa e o órgão do governo foi sigilosa e nem sequer constou em ata os termos negociados: "Conclui-se que as irregularidades cometidas no decorrer do procedimento licitatório vieram a favorecer a empresa Meta", diz o parecer.

Após ganhar outros negócios no governo gaúcho, a Meta prestou serviços ao PT, à Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido, e obteve contratos mais vultuosos na esfera federal - via Ministério do Desenvolvimento Social e Ministério da Justiça.

Em 2008, a Meta conseguiu seu melhor contrato: foi vencedora de uma concorrência de R$ 5 milhões da Secretaria de Comunicação da Presidência para fazer pesquisa sobre a aprovação e o alcance de programas sociais do governo, hoje bandeiras da campanha de Dilma: PAC, Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.

O aitalolula

Gilberto Diemenstein, Folha de São Paulo

A imprensa é uma das razões para Lula ter virado presidente. O PT apresentou-se como um agrupamento ético (e o país acreditou), a partir de inúmeras denúncias e por muitos anos de desvios de recurso no Brasil --até então estávamos, jornalistas, cumprindo a nossa função de fiscalizar. Agora, a imprensa, na visão de Lula, é quase um partido a serviço da desestabilização da candidatura.

Já disse aqui e repito que Lula fez um bom governo por ter colaborado (e muito) para reduzir a miséria e ter estimulado um ambiente de prosperidade econômica. Poderia ter feito mais para estimular a economia, promovendo reformas. Mas a verdade é que vivemos um momento a ser comemorado --tudo isso num ambiente democrático.

Quem valoriza, de fato, a democracia está preocupado com os sinais de Lula --o ataque à imprensa é apenas um deles Acrescentem-se aí os ataques ao Judiciário, quase beirando o deboche. Ou a frase pedindo o extermínio de um partido de oposição. Democracia, como seo sabe, é, antes de mais nada, a garantia do direito das minorias.

Ao se despedir do governo, Lula parece estar seguindo um projeto de aiatolá. Fora do governo, mas mandado como se fosse governo. Esse projeto de 'aiotolula' dificilmente vai acabar bem, por pressupor que a sociedade estará controlada. E, aí, evidentemente, a imprensa é incômodo.