sábado, maio 10, 2008

Um governo muito distante da democracia

Adelson Elias Vasconcellos

Um dos maiores postulados dos países definitivamente democráticos é o respeito às leis e, dentre elas, a que define total liberdade de expressão e pensamento, quiçá seja uma das mais consagradas.

Os piores regimes ditatoriais que o mundo conheceu foram seguramente os regimes que se abraçaram ao comunismo. Nunca faltou no discursos de seus defensores, palavras de ordem tais como direitos, liberdades, democracia. Um exemplo marcante foi a Alemanha Oriental, que, antes da queda do Muro de Berlim, foi sufocada pelo regime da antiga URSS e, descaradamente, se chamava de República Democrática da Alemanha.

Os piores regimes repressores que a esquerda representou em toda a história humana, URSS e a China de Mao Tse-tung, foram os mais cruéis e sanguinários. Um matou 30 milhões, o outro mais de 70 milhões. Bastava não concordar com o regime para ser condenado. Os fatos estão registrados e comprovados, não adianta os esquerdopatas brasileiros espernearem contra a verdade histórica.

Por aqui, o governo do Luiz Inácio pode não matar os que dele discordam, mas sabem como punir. Ou como premiar os aliados que conservam suas bocas fechadas, no silêncio cúmplice dos criminosos.

Caso bem flagrante das duas correntes podemos notar com o Mensalão. Quem se calou, não apenas ainda não foi punido ou alcançado pela Lei, como também foi agraciado com posições de certo relevo pessoal.

Do lado punitivo, podemos observar dois fatos bem marcantes que bem demonstram que este governo, apesar do discurso dissimulado, fingido, hipócrita, não perdoa os que dele discordam e pune severamente aas vozes discordantes. No episódio ainda em ebulição da demarcação da reserva indígena Raposa do Sol, no Estado de Roraima, a voz sensata e coerente do General Heleno ecoou por todo o país, indo ao ponto de taxar a política indigenista do atual governo como “caótica”. Sabe-se que o general perderá seu posto na Amazônia e ficará restrito a uma função meramente burocrática. No silêncio, Lula não perdoa os que dele discordam, mesmo que estejam forrados de razão.

Fruto do mesmo episódio, o líder dos arrozeiros, que, com justa razão protesta contra a demarcação ter sido feita da forma como decidiu o governo Lula, o fazendeiro Paulo César Quartiero começou a sentir em si mesmo o peso de sua rebeldia. Não bastasse desalojá-lo de forma autoritária e infame de sua propriedade, não lhe reconheceu sequer o direito de defender-se do ataque à sua propriedade feito por um bando de índios que simplesmente acharam de se rebelar a um mandado judicial e invadiram e depredaram sua propriedade. Apesar da presença de tremenda aparato policial que lá estava para evitar conflito, não houve uma mínima ação da Polícia Federal para impedir a invasão da propriedade. Porém, bastou ao fazendeiro defendê-la e, pronto, acabou preso. Preso e transferido para Brasília, para ficar longe da região. E mais: hoje, na maior punição já imposta a um proprietário rural na história do país, o IBAMA lhe impôs a multa de impressionantes R$ 30,6 milhões. O órgão também determinou a suspensão das atividades econômicas da fazenda e a apreensão das máquinas de produção utilizadas pelo empresário na rizicultura (plantação de arroz) --medidas que serão executadas pela Polícia Federal na segunda-feira. Ou seja, enquanto vagabundos fazem e desfazem em imensas áreas da floresta, praticando o mais deslavado contrabando de madeira, provocando um desmatamento tão ilegal quanto irresponsável, seja pelo tamanha das áreas que desmatem e queimam, e o que é pior, em áreas de propriedade da União, o governo faz vistas grossas e cruzam os braços.

Este deveria ser o legítimo caso de ilegítimo abuso de autoridade. Tal situação mais me convence de que “outras razões” e “outros interesses” se escondem por detrás desta ação por um lado covarde, e por outra, totalmente contrária ao interesse público. É impossível compreender que este governo esteja defendendo o interesse do país, deixando o Estado Roraima com menos de 10% de sua área destinada ao seu povo não índio. E isto aqui já comprovamos, e não tem como o governo negar. Vale mais o grito de 20 mil índios que já ocupam 40% do Estado, do que o de 500 mil querendo apenas viver e trabalhar honestamente.

Nesta semana, em mais dos inúmeros programas já lançados de salvação da Região Amazônica, o senhor Lula saiu em defesa dos índios. Lula precisa reciclar suas fontes históricas. Se no passado distante, os índios defenderam fronteiras, isto presentemente está longe de acontecer, principalmente, a partir do momento em que o próprio Lula firmou um Acordo na ONU sobre a Autodeterminação dos Povos Indígenas, que é o interesse que move toda esta ação infame em curso no seu governo. De nada vale vir um genérico feito o ministro Jobim declarar, estupidamente que terra indígena é terra da União. Primeiro, que se está tornando “terra da União”, áreas privadas e economicamente ativas para serem entregues a quem delas nunca fez uso algum. Segundo, porque bastará o tal protocolo entrar em vigor, e qualquer nação indígena poderá se declarar independente do Brasil, sem precisar pedir autorização a quem quer que seja. O que impressiona é a cegueira do governo em não se dar conta da péssima decisão que tomou.

Por outro lado, não pode o senhor Lula vir com um discurso infame de que “a "obrigação" do governo federal é "manter a paz e a harmonia" na reserva indígena Raposa/Serra do Sol (RR)”, quando a própria demarcação está sob judice no STF, e o próprio governo toma partido de um dos lados. Primeiro, é preciso aguardar a decisão da Justiça uma vez que milhares de pessoas, inúmeras cidades, vilas e distritos serão afetados pela demarcação absurda feita pelo governo, e há direitos adquiridos pelos que lá nasceram e vivem há décadas. Tais direitos não podem simplesmente serem massacrados por uma política imbecil de um governo de energúmenos. E, segundo, manter “paz e harmonia” significa impedir que um dos lados descumpra, impunemente, determinações judiciais como fizeram os índios ao invadir uma propriedade alheia, tomando a si o cargo de juízes, sob o beneplácito do governo criminoso.

Portanto, não respeitar as opiniões discordantes e ainda por cima puni-las da forma como procede o governo em relação ao general Heleno e ao fazendeiro que luta por seus direitos que estão sendo ignorados, demonstra bem o espírito que o governo Lula cultua e que se encontra muito distante da verdadeira defesa do pleno estado de direito, exibindo, assim, seu total desprezo à liberdade de livre manifestação, quando esta manifestação contraria os interesses pouco honestos que os agentes do Planalto adoram alimentar.

Para este ranço autoritário, povo é considerado apenas aquela parcela da população que lhe cumpre o papel o papel de claque, que diz “amém” para qualquer porcaria emanada de suas decisões tortas e até ilegais. Para esta gente, justiça é apenas aquela que atende seus caprichos e sua ideologia de atraso e imoral. Para eles, “mocinhos” são apenas considerados aqueles que não protestam e não contrariam o Poder Público.

O termo “democracia” é apenas para ser usado em discurso palanqueiro, mentiroso e canalha. Porque na hora de agirem e decidirem, o que conta é a deprimente fantasia cafajeste das esquerdas caóticas e ultrapassadas, que, aliás, o mundo desenvolvido e civilizado já enterrou, mas que aqui ainda encontra eco na surdez e desinformação de um povo esquecido e sufocado.

Ibama multa arrozeiro preso pela PF e interdita fazenda localizada em reserva indígena

Gabriela Guerreiro, da Folha Online

O Ibama multou nesta sexta-feira em R$ 30,6 milhões o prefeito de Pacaraima (RR), Paulo César Quartiero, por crimes ambientais cometidos dentro da fazenda Depósito, na reserva indígena Raposa Serra do Sol. O órgão também determinou a suspensão das atividades econômicas da fazenda e a apreensão das máquinas de produção utilizadas pelo empresário na rizicultura (plantação de arroz) --medidas que serão executadas pela Polícia Federal na segunda-feira.

Quartiero recebeu a multa na carceragem da Polícia Federal, em Brasília, onde está preso pela suspeita de tentativa de homicídio, formação de quadrilha e posse de artefatos explosivos na reserva --depois do recente conflito entre arrozeiros e indígenas na região. O arrozeiro terá 20 dias para recorrer da multa, mas só vai ter o direito de retomar a produção agrícola no local se reparar os danos ambientais causados em sua propriedade.

A Polícia Federal já cercou a fazenda de Quartiero para evitar que o fazendeiro retire equipamentos que serão apreendidos na semana que vem --uma vez que ele foi notificado da apreensão logo após receber a multa. A PF vai integrar a equipe do Ibama responsável pela ação na fazenda do prefeito de Pacaraima, que tem o prazo de 20 dias para recorrer à Justiça contra a multa.

O Ibama decidiu multar e suspender as atividades econômicas na fazenda Depósito depois de identificar crimes como desmatamento ilegal de terras, bombeamento de água do rio Sururu (RR) sem autorização ambiental e degradação de área de preservação permanente, entre outros.

Além da fazenda Depósito, o Ibama realiza uma espécie de "perícia ambiental" em outras 12 propriedades de plantação de arroz localizadas na reserva. Somente a fazenda de Quartiero, no entanto, recebeu sanções até agora porque as demais perícias não foram concluídas pelo Ibama --uma vez que o prefeito vinha sendo acompanhado pelo Ibama desde o ano de 2004 quando fez desvio de águas do rio sem autorização ambiental.

O diretor de proteção ambiental do Ibama, Flavio Montiel da Rocha, negou que as sanções aplicadas ao prefeito de Pacaraima tenham sido aceleradas em conseqüência da sua prisão. "Essa autuação é estritamente técnica, fruto de um trabalho de três meses do Ibama. Por coincidência, o proprietário foi preso por outras razões. O laudo ambiental não sai do dia para a noite, está dissociado da sua prisão", afirmou.

Desmatamento
Segundo Montiel, o Ibama autorizou Quartiero a desapropriar 850 hectares de terras na fazenda Depósito para o cultivo de arroz, mas atualmente a área desmatada chega a 2.500 hectares. O diretor disse que não houve resistência de trabalhadores da fazenda à ação da PF no local. "Fizemos o embargo e não houve resistência. A multa foi aplicada em função do impacto ambiental da área. Também foi analisada a capacidade de pagamento do infrator. Só um trator de colheita custa cerca de R$ 1 milhão, e ele tem pelo menos oito", disse.

O diretor do Ibama estima que 30% da terra da reserva indígena Raposa/Serra do Sol esteja desmatada em conseqüência da rizicultura. A expectativa do Ibama é que os laudos ambientais nas outras 12 fazendas da reserva também apontem diversos crimes ao meio ambiente que poderão resultar em sanções aos seus proprietários. O Ibama prometeu divulgar até o final de maio os laudos de outras três fazendas da reserva.

Montiel disse que as terras em posse dos índios também estão sob a mira do Ibama, embora somente as fazendas de arroz estejam sendo periciadas pelo órgão. "O índio está sujeito à legislação ambiental. A equipe está concentrada no trabalho das fazendas, mas não exclui terras indígenas", afirmou.

Produção em série de índios e mártires

Adriana Vandoni (*), Prosa & Política

A ONG CIMI - Conselho Indigenista Missionário, vinculada à CNBB, adquiriu o monopólio dos índios do Brasil. Só ela tem direito a representar os interesses dos índios e interferir na formulação de políticas públicas, com endosso da Funai. Como o negócio deu certo, ela abriu franquias, uma delas é o CIR – Conselho Indígena de Roraima, para as questões da reserva Raposa do Sol. Segundo denúncias, nas quais acredito, são os missionários do CIR que insuflam os conflitos entre índios e brancos na região.

No dia 5 último, um grupo de cerca de 100 índios invadiu uma fazenda e estava construindo quatro malocas quando foi retirado da área à bala. A fazenda pertence a um dos rizicultores mais resistentes à forma de demarcação da reserva. Isto quer dizer que um confronto era esperado. Vou além, e digo que o confronto foi programado. Júlio Macuxi, coordenador do CIR, disse que a “ocupação” foi devido a "necessidade de ampliar a comunidade Renascer, que fica próxima da cerca da propriedade".

Vale ressaltar que os rizicultores ocupam 2% do total de 1,7 milhão de ha da Raposa do Sol, mas o coordenador do CIR, afirma que os índios estão “sufocados” nos 98% restantes.

É assim que agem essas ONG’s, fabricando índios e conflitos. Para ilustrar vou contar um caso ocorrido em MT. Na divisa do estado com a Bolívia, a Funai e o CIMI giraram transformar em índios um povo descendente de bolivianos, mas como estes não queriam, os ‘missionários’, inconformados, tentavam convencer a população. Veja agora o relato de uma conversa que me foi contado entre um ‘missionário’ e um morador que não queria ser índio:

- Seu Fulano, mas aquela casa da fazenda é bonita, né?
- Ô, muito bonita.
- O senhor queria uma casa daquela?
- Se não?!? Claro que queria.
- Então, seu Fulano, se o senhor assinar o documento dizendo que é índio, aquela casa vai ser sua.

No caso de Roraima, a coisa só está no começo. O coordenador do CIR foi bem claro: “[o confronto] só fortalece os indígenas da Raposa Serra do Sol e de todas as comunidades de Roraima". Ou seja, teremos pela frente mais enfrentamentos com o risco de mortes para a produção de mártires. Seguindo a estratégia do MST, o valor midiático da morte é diferenciado. Um índio vale X, uma índia XX. Agora se a índia for mãe seu valor dobra. Uma criança, que costumam colocar à frente quando há confronto, tem valor imensurável.Esses fatos revelam que a questão não é apenas de definição de direitos, caso que caberia a Justiça e ponto final. Por trás dos conflitos existem interesses distintos à posse da terra ou ao bem estar deste ou daquele lado. Enquanto seres semi-santificados influenciarem em questões de Estado, nossa Justiça seguirá a reboque dos acontecimentos.

Se profetas e messias levassem o mundo a ser melhor, a palestina, terra dos profetas e dos messias, não seria o que é hoje.

(*) Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. Professora universitária e articulista do Jornal Circuito Mato Grosso. Site:www.adrianavandoni.com.br

Apareceu o Aparecido

Arnaldo Jabor, Jornal da Globo

Diante de uma oposição moribunda, a ministra Dilma nos deu um momento de grande verdade, graças ao gol contra que o senador Agripino marcou, dizendo que ela mentira sob tortura.

Diante de uma oposição moribunda, a ministra Dilma nos deu um momento de grande verdade, graças ao gol contra que o senador Agripino marcou, dizendo que ela mentira sob tortura.

A ministra cresceu, enterrou a CPI, nocauteou a oposição, sua emoção nos fez esquecer as duvidas sobre o PAC que, dos 17 bilhões reservados, só empenhou até hoje 1,7 bilhão, nos fez esquecer que os gastos do governo aumentam, que só temos 1% do Produto Interno Bruto para investimentos, nos fez esquecer que o presidente ignora a lei eleitoral fazendo comícios e lançando obras que não começaram. Mas, no dia seguinte, apareceu o Aparecido, secretário de Dilma, suposto divulgador do dossiê, e estraga tudo.

Santo Deus, quem causou esta derrota depois de uma tão bela vitória? Um espectro ronda o planalto, é o fantasma de Zé Dirceu que indicou o aparecido. Zé Dirceu só fez assombrar o Lula, do mensalão até agora: golpes secretos, viradas de mesa, jogadas ocultas, tudo da velha cartilha comunista.

Dois perigos rondam este governo: o sindicalismo pelego e corrupto e conspirações secretas contra a democracia. Dirceu caiu, por obra do caça fantasmas Jefferson, mas seu espírito insepulto ainda vaga pelo PT e pelo executivo em noites de lua cheia.....ahhhhhh...

A "ameaça" furada do Aparecido

O secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires, apontado como o responsável pelo vazamento do dossiê com gastos secretos do governo Fernando Henrique, mandou avisar nesta sexta-feira a assessores do Palácio do Planalto e dirigentes petistas que está disposto a prestar depoimento na CPI do Cartão Corporativo. Antes de viajar para Goiânia para tentar esfriar a cabeça, ele fez um desabafo em tom de ameaça de que não será o bode expiatório do escândalo. Acrescentou que está disposto a revelar que a ordem de comando para elaboração do dossiê com objetivo político partiu da secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, principal auxiliar da ministra Dilma Rousseff. É o que mostra reportagem de Gerson Camarotti na edição deste sábado em 'O Globo'.

- Tudo o que eu quero é ir para a CPI - disse Aparecido a amigos.

A ministra Dilma Rousseff prestou depoimento no Senado, esta semana, com a informação confirmada de que Aparecido tinha sido o autor do vazamento.

Para integrantes da cúpula do PT, Aparecido negou com veemência que tenha sido o autor do vazamento das informações sigilosas. Mas voltou a relatar que forneceu dois funcionários da Secretaria de Controle Interno para elaborar o que Dilma chama de banco de dados.

Segundo ele, os funcionários de sua secretaria estranharam o comportamento dos demais servidores da Casa Civil que faziam o mesmo trabalho. Por esse relato, esses servidores reagiam com gargalhadas e comemoração diante de cada nova descoberta sobre gastos curiosos ou exóticos do ex-presidente Fernando Henrique e de sua mulher, dona Ruth Cardoso.

Já naquela ocasião, Aparecido chegou a alertar caciques petistas sobre o que classificou de comportamento "amador" dos funcionários da Casa Civil. Esses relatos circularam pelo Palácio do Planalto, ainda em fevereiro, o que causou grande desconforto no comando da Casa Civil. Desde então, ele alega que passou a sofrer forte perseguição política de Erenice Guerra.

Nesta sexta, a própria Dilma falou por telefone com petistas e assessores do Planalto que têm contato com Aparecido. Nessas conversas, a ministra tentou passar segurança e afirmou que o secretário de Controle Interno não teria munição contra ela. Mesmo assim, Dilma foi alertada de que Aparecido está disposto a chegar muito perto dela, ao atacar diretamente Erenice. Por isso, cresce no Planalto o sentimento de que a secretária-executiva deveria ser sacrificada, apesar da resistência da própria Dilma.

Em tempo: o José Aparecido não vai para CPI coisa nenhuma, e se for, não dirá absolutamente nada. Sua “ameaça” é muito mais no sentido de ser preservado e receber, por seu silêncio, uma boquinha rica nos milhares de cargos à disposição. Ele sabe que deverá sair da Casa Civil,e para tanto, já prepara seu futuro imediato.

E a prova de que está em curso mais uma pantomima federal podemos ler a seguir:

Decretado o segredo de justiça

Eis aí o quanto este governo preza a verdade que o Luiz Inácio diz contar até para o diabo. Por envolver informações sigilosas, juiz federal decide dar tratamento reservado à investigação. Um dia depois de o Palácio do Planalto divulgar o resultado da sindicância interna da Casa Civil e apontar o secretário de Controle Interno, José Aparecido Nunes Pires, como responsável pelo vazamento dos gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com cartões corporativos, o juiz da 12ª Vara Federal de Brasília, José Airton de Aguiar, decretou segredo de justiça no inquérito do caso.

A decisão impede que a Polícia Federal divulgue informações sobre os passos da investigação que, segundo autorização da própria justiça, deverá ser concluída nos próximos 60 dias. O delegado federal Sérgio Menezes vai pedir à Casa Civil cópia da sindicância que concluiu ser Pires quem vazou as planilhas de gastos do governo FH.

Auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), levado para o governo pelo ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, Pires já era apontado pelo delegado Menezes como um dos suspeitos pelo vazamento. Ele será intimado a prestar depoimento nos próximos dias e poderá ser indiciado. Os dados obtidos pelo Instituto da Tecnologia da Informação (ITI), órgão ligado ao Gabinete de Segurança Institucional do Palácio do Planalto, poderão ser anexados ao inquérito. Para a Polícia Federal o que terá valor jurídico, no entanto, serão os laudos que estão sendo preparados pelos peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) do próprio órgão. Especialistas em informática, eles estão analisando os 13 computadores apreendidos nas salas da Casa Civil, onde foi feito o levantamento sobre os gastos com cartões corporativos, e devem chegar a conclusões mais amplas sobre o vazamento.

Assim, e menos de 24 horas após o depoimento da ministra Dilma ser inapelavelmente desmascarado, agora o governo tentar conter a sangria, e vai sentar em cima dos fatos que a investigação possa apurar e os quais, por sua natureza, comprovem, uma vez mais, que os trapaceiros do Poder Público não passam de um bando de mentirosos empedernidos, escória hipócrita que não admite que sejam divulgados seus atos criminosos.

Não fica nisto nenhuma surpresa. Desde a divulgação do mensalão, o governo Lula age no sentido sempre inverso em qualquer investigação que ameace mostrar-lhe sua verdadeira face.

Educação e capitalismo: aliados ou inimigos?

Gustavo Ioschpe, Revista VEJA

"Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança"

Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".

Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.

Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.

Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.

Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.

E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.

A dose mínima de simplicidade

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Na repolhuda equipe que ocupa os espaços nobres do governo do presidente Lula falta o amigo de confiança, com a autoridade da longa convivência além da ousadia para avançar o sinal e falar com a rude franqueza no momento certo, no contraponto do chorrilho de elogios merecidos pelo muito que está dando certo.

Lula é um temperamento que pega no tranco e dispara ao primeiro sinal de que o caminho está livre. A sua biografia acompanha a trajetória que começa no sertão de Garanhuns, na tórrida zona da seca, e muda o rumo com a coragem de dona Lindu ao levar a filharada no pau-de-arara para Paulo. Aqui Lula é alfabetizado no troca-troca de três escolas públicas, tira o seu certificado profissional no Senai, trabalha em várias empresas e alça vôo na fulminante ascensão como líder sindical que funda o PT, coleciona três derrotas como candidato a presidente da República e se elege na quarta tentativa, para o bis da reeleição.

A tisana do êxito excita o exibicionismo do inquieto e impaciente, que abomina as tediosas conversas políticas e as intragáveis reuniões administrativas para tratar assunto em geral já decidido mas que empacam na engrenagem burocrática. Solta-se à vontade, nas viagens a pretexto de lançar projeto de obras, acompanhar o seu andamento ou a suprema ventura da inauguração. Sempre com o palanque armado, assistência a favor garantida e o microfone a postos para o improviso da sua facúndia de excepcional comunicador popular, capaz de dois, três e mais discursos no giro de um dia.

Com tais incentivos, cutucado pela aprovação da sociedade, Lula passou da medida. E, agora, como que perdeu as estribeiras e a noção da conveniência. Emenda, uma atrás da outra, as caneladas nos desafetos e os elogios mais descabidos e absolutamente incompreensíveis a antigos inimigos. E baixou o nível na linguagem chula que chega a pornografia. Dá para entender, apesar do erro tático, a sua implicância com o antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois da transição civilizada, com salamaleques e promessas de amizade eterna. Como o "aqui você deixa um amigo", à porta do Palácio Alvorada, depois do longo jantar íntimo dos casais presidenciais.

Liberto das cautelas, livre como o pássaro que escapa da gaiola, o presidente dirigiu a sua maratona de reconciliação com os desafetos do passado recente com o ímpeto de derrubar todas as cercas de arame farpado. Numa das sessões de descarrego, elogiou em dose dupla os ex-generais-presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel, numa penitência de comover o mais empedernido coração. Do ex-presidente Geisel se salva a intervenção no DOI -Codi de São Paulo, depois de duas mortes sob tortura do jornalista Wladimir Herzog e do operário Fiel Filho.

Do mandato do presidente Médici não há notícia de um gesto, de uma palavra de apoio ao retorno da normalidade democrática. Só agora, andando de costas, o presidente Lula reeditou o brado retumbante do "ninguém segura este país", lema enigmático da ditadura militar que não esclarece quem pretendia segurar o Brasil.

Se em boca fechada não entra mosca, da goela escancarada podem escapar involuntárias tolices. Das quais, deve-se presumir o arrependimento do deslumbrado presidente no topo da popularidade e com o reconhecimento internacional, carimbado pela Standard & Poor´s, do grau de investimento, que acena com um período de prosperidade com a atração de capitais estrangeiros.

Se o estoque de sentenças está desfalcado pelo excesso de uso, cutucando os escassos neurônios, sempre se encontra o cascalho amontoado no canto. Lembro a curta máxima do saudoso Paulo Francis: Quem não lê, não pensa. Ou, lá fundo, no buraco da memória, o provérbio de áspera advertência: Elogio em boca própria é vitupério. Vitupério é um substantivo feio, que soa como xingamento. E é quase: insulto, injúria, ato vergonhoso, infame ou criminoso.

Convenhamos que não é caso para tanto. E que se resolve com juízo, modéstia e bom senso.

Quem leva na cabeça é o Brasil

Por J.R. Guzzo, Revista EXAME

Em vez de atacar as multinacionais, o imperialismo ou os Estados Unidos, os governantes de esquerda da América Latina escolhem Lula e os brasileiros como seu primeiro alvo

É uma situação que, de tanto se repetir, parece estar se transformando num hábito. Toda vez que lideranças de esquerda, ou tidas como tal, assumem o governo em algum país da América do Sul, o primeiro a levar na cabeça é o Brasil. Não deveria ser o contrário? Deveria. Afinal das contas, o Brasil é o primeiro país do continente a ter um operário na Presidência da República; seu partido tem um programa socialista, ou garante que tem; seu governo defende todos os movimentos sociais, apóia as causas populares e prega a favor dos pobres. Seria de esperar, então, que contasse com a admiração e a solidariedade dos companheiros latino-americanos. Mas não é o que acontece. Os companheiros passam o tempo todo falando contra o imperialismo, as multinacionais e os Estados Unidos, mas, assim que ganham a eleição presidencial em seus países, deixam isso tudo de lado e vêm brigar direto com o Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, imagina-se, deve andar cansado dessa história. Por que com a gente, outra vez? Por que com a gente, sempre?

Seria perfeitamente compreensível se o presidente fizesse essas perguntas a cada vitória da esquerda continental. Desde que entrou no Palácio do Planalto vem tendo de agüentar o coronel Hugo Chávez e seu socialismo bolivariano, na Venezuela. É uma conta que inclui, entre diversos outros itens, insultos ao Congresso Nacional, a criação constante de casos com a Petrobras, ataques públicos ao programa brasileiro de biocombustíveis e propostas como um prodigioso gasoduto para levar gás da Venezuela até o Uruguai, passando pelo Brasil -- o "Transpinel", como dizem os engenheiros da própria Petrobras, que Chávez escalou como sócia dessa idéia. Depois veio o presidente Evo Morales, da Bolívia, que expropriou ativos da Petrobras -- sempre ela --, aumentou os preços do gás vendido ao Brasil e vem, a cada conversa, com novos problemas e novas exigências. À Venezuela e à Bolívia soma-se a Argentina do casal Kirchner, que não está satisfeita com nada, nunca, em suas questões com o Brasil. Agora chegou a vez do Paraguai. Mal tinham saído os resultados da eleição presidencial, o candidato vencedor, Fernando Lugo, já foi dizendo que quer aumentar o preço da eletricidade fornecida ao Brasil pelas turbinas da Itaipu Binacional, empresa da qual o Paraguai tem 50% das ações. Lugo, naturalmente, é um homem de esquerda, como Chávez, Morales, os Kirchner e Rafael Correa, presidente do Equador -- país que, para sorte de Lula, não tem fronteira com o Brasil.

Os governos de esquerda da América do Sul pressionam porque sabem, por experiência, que o governo do Brasil costuma piscar primeiro. Até agora tem dado certo para eles; não há motivos, portanto, para mudarem de conduta. No caso da reivindicação apresentada por Fernando Lugo, o retrospecto está com cara de se confirmar. É verdade que o presidente Lula garantiu que o tratado existente entre o Brasil e o Paraguai a respeito da hidrelétrica de Itaipu não será revisto, o que dá a impressão de uma firmeza ausente nas disputas anteriores. Mas o novo presidente do Paraguai não está interessado em mudar tratados -- o que ele quer é mudar os preços da energia vendida ao Brasil, e isso pode ser feito sem alterações no acordo entre os dois países. Já parece contar, para tanto, com a compreensão e o apoio do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores. Lugo ainda nem é presidente -- só vai tomar posse em 15 de agosto --, mas desde já recebeu do Itamaraty garantias de que o Brasil vai pagar "uma remuneração adequada" pela energia de Itaipu. "Isso é justo", disse Amorim. Estaria o Brasil, então, pagando hoje um preço injusto? Nesse caso, levando-se em conta a ansiedade do governo brasileiro em comportar-se com justiça, não fica claro por que as tarifas praticadas atualmente ainda não tinham sido aumentadas. O chanceler não ofereceu mais informações a respeito. Não foi mais esclarecedor, também, quando disse que é um "absurdo" que a energia elétrica distribuída em Assunção seja ruim, quando o Paraguai é sócio da "maior hidrelétrica do mundo". E o que o Brasil tem a ver com isso? Desde que Itaipu gerou seu primeiro quilowatt, o Brasil jamais deixou de pagar um único centavo pela energia que compra do sócio; se até hoje o Paraguai não usou esse dinheiro para melhorar sua rede de transmissão, é porque não quis, e não porque os preços são injustos.

Fernando Lugo tem o direito, claro, de buscar tarifas melhores para seu país; é certo, também, que até agora tem feito isso de maneira mais séria e razoável do que Hugo e Evo. A questão, porém, não está na personalidade de cada vizinho, e sim nos fundamentos que o Brasil tem para defender seus interesses. Dentro do próprio governo, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tomalsquim, acha que tais fundamentos são muitos e são claros. "Para a construção de Itaipu, o Paraguai só entrou com a metade que lhe cabe da água do rio Paraná", diz Tomalsquim. A usina custou 12 bilhões de dólares, dos quais o Paraguai só colocou 50 milhões de dólares; quem se endividou para construir Itaipu foi o Brasil; quem pagou essa dívida foram os brasileiros. "O Paraguai ganhou um empreendimento que hoje vale 60 bilhões de dólares", lembra o presidente da EPE. "E foi o consumidor brasileiro quem viabilizou a construção da usina, com o pagamento, nestes anos todos, de uma cota obrigatória de consumo. Não é justo, agora, que ele faça um sacrifício a mais."

Se a questão é de justiça, portanto, o ponto de vista do Itamaraty não é o único. Na divergência, o melhor que o presidente Lula tem a fazer é pensar em quem, de fato, ele representa. Há poucas dúvidas quanto a isso. Lula não foi eleito para cuidar dos interesses de paraguaios ou bolivianos, mas sim dos 190 milhões de brasileiros.

O engodo do PAC e da ministra

Editorial Estadão

Quem, como nós, teve oportunidade de acompanhar, pela televisão, do primeiro ao último minuto, o depoimento de 9 horas da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Comissão de Infra-Estrutura do Senado, na terça-feira, tem razões de sobra para discordar da interpretação predominante na imprensa de que o seu desempenho foi um sucesso - a menos que isso signifique, no caso, capacidade de enganar e sair incólume. Na realidade, ao tratar do tema que ocupou 90% do tempo da sessão, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do qual, segundo o presidente Lula, a ministra é ''mãe'', ela deixou claro que o filho é um dos mais robustos engodos que um governo já tentou impingir aos brasileiros. Por sinal, a quase total omissão, nos jornais de ontem, das embromações da ministra sobre a marcha triunfal do programa revela a que níveis alarmantes chegou o definhamento do senso crítico neste país hipnotizado pelos recordes de popularidade do titular da República.
É o que lhe permite, fechando o círculo vicioso, alardear como proeza em pedra e cal a contrafação do PAC. E é o que permite à sua ministra, como fez no Senado, exibir fantasiosos mapas de um Brasil em obras - o advento de um salto quântico em matéria de energia, transporte e comunicações. Mas ela não teria estado tão à vontade para confundir se não compartilhasse com o chefe de uma parcela, ao menos, da proverbial sorte que o protege. A sorte da ministra, anteontem, sentou-se ao seu lado antes mesmo do início de sua exposição preliminar. Foi quando o senador José Agripino Maia, do DEM do Rio Grande do Norte, produziu, quem sabe, a mais desastrada intervenção de sua carreira - o equivalente a entregar à ministra um revólver apontado contra si próprio. O senador insinuou que ela talvez viesse a mentir no depoimento, da mesma forma que mentira quando esteve presa no regime militar, como lembrara numa entrevista.
A enormidade deu azo a que Dilma falasse dos padecimentos que sofreu durante três anos de cativeiro, o que pôs abaixo seja lá o que a oposição imaginava usar contra ela a propósito do dossiê dos gastos palacianos no primeiro governo Fernando Henrique, confeccionado na Casa Civil. Como se sabe, esse, e não o estado de coisas do PAC, foi o motivo principal da convocação conseguida pelos oposicionistas, na terceira tentativa, graças a um cochilo da base do governo naquela comissão temática. Senhora da situação - com adversários assim, para que aliados? - a ministra disse o que bem entendeu sobre a origem e a finalidade do ''banco de dados'' - e passou o resto do tempo, mais de 90% das 9 horas que durou o depoimento, mentindo despreocupadamente sobre as obras do PAC, que senadores oposicionistas como Heráclito Fortes, do Piauí, Tasso Jereissati, do Ceará, e principalmente Kátia Abreu, de Goiás, demonstraram irrefutavelmente que nunca saíram do papel.
A senadora Kátia Abreu não foi contestada pela mãe da criança quando mostrou que esta permanece na incubadora: com ou sem PAC, os investimentos públicos permanecem estagnados há mais de uma década em 0,9% do PIB. Ninguém cobrou da ministra, com a severidade necessária, que dos R$ 17,2 bilhões destinados ao PAC este ano, só R$ 1,9 bilhão foi empenhado - e só ínfimos R$ 13,7 milhões foram efetivamente gastos no primeiro quadrimestre. Enquanto isso, fazendo troça da legislação eleitoral, Lula passeia pelo País lançando pedras fundamentais - ou seja, inaugurando intenções -, na companhia da ''mãe do PAC'', que certa vez chamou um desses factóides de ''comício'', num memorável ato falho. A oposição também poderia ter inquirido a ministra sobre a confissão de fracasso embutida numa sua declaração, dias atrás, em Santa Catarina. ''O que trava o PAC é a qualidade dos projetos que nós herdamos'', queixou-se. ''Nós não herdamos nem na área de energia, nem de logística, isso vale para rodovia, ferrovia, aeroportos.
''A culpa, portanto, é do governo anterior. Mas um detalhe parece ter escapado à reclamante: o governo anterior era já o do presidente Lula, no seu primeiro mandato. (O PAC foi lançado em janeiro de 2007.) E no primeiro mandato, a ministra de Minas e Energia, setor do qual a gestora do PAC afirma em alto e bom som nada ter herdado, era a mesmíssima Dilma Rousseff a quem Lula atribui ''uma capacidade de gerenciamento impecável''.
Nunca antes na história deste país se viu engodo dessas proporções.