domingo, maio 18, 2008

“De quem é a Amazônia, afinal?”', diz 'New York Times'

Por BBC Brasil

Amazônia é destaque por sua biodiversidade e desmatamento

Uma reportagem publicada neste domingo no jornal americano The New York Times afirma que a sugestão feita por líderes globais de que a Amazônia não é patrimônio exclusivo de nenhum país está causando preocupação no Brasil.

No texto intitulado "De quem é esta floresta amazônica, afinal?", assinado pelo correspondente do jornal no Rio de Janeiro Alexei Barrionuevo, o jornal diz que "um coro de líderes internacionais está declarando mais abertamente a Amazônia como parte de um patrimônio muito maior do que apenas das nações que dividem o seu território".

O jornal cita o ex-vice-presidente americano Al Gore, que em 1989 disse que "ao contrário do que os brasileiros acreditam, a Amazônia não é propriedade deles, ela pertence a todos nós".

"Esses comentários não são bem-aceitos aqui (no Brasil)", diz o jornal. "Aliás, eles reacenderam velhas atitudes de protecionismo territorial e observação de invasores estrangeiros escondidos."

Acesso restrito
O jornal afirma que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta aprovar uma lei para restringir o acesso à floresta amazônica, impondo um regime de licenças tanto para estrangeiros como para brasileiros.

"Mas muitos especialistas em Amazônia dizem que as restrições propostas entram em conflito com os próprios esforços (do presidente Lula) de dar ao Brasil uma voz maior nas negociações sobre mudanças climáticas globais – um reconhecimento implícito de que a Amazônia é crítica para o mundo como um todo", afirma a reportagem.

O jornal diz que "visto em um contexto global, as restrições refletem um debate maior sobre direitos de soberania contra o patrimônio da humanidade".

"Também existe uma briga sobre quem tem o direito de dar acesso a cientistas internacionais e ambientalistas que querem proteger essas áreas, e para companhias que querem explorá-las."

"É uma briga que deve apenas se tornar mais complicada nos próximos anos, à luz de duas tendências conflituosas: uma demanda crescente por recursos energéticos e uma preocupação crescente com mudanças climáticas e poluição."

A floresta sem pai nem mãe

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Depois da surpreendente punhalada que fere fundo, o afago que afoga dores, cauteriza feridas e sufoca revides. O presidente Lula recorreu de novo a essa fórmula, testada com freqüência crescente desde janeiro de 2003, para enfraquecer ainda mais a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sem se expor ao risco de ver fora do governo uma figura mundialmente admirada como defensora da Amazônia.

"O companheiro Mangabeira vai ser o coordenador dos trabalhos", informou Lula ainda no meio do discurso que celebrou o lançamento do Plano Amazônia Sustentável. Era a punhalada: até aquele momento, a ministra acreditava que o posto lhe pertencia. "Mas ninguém tira de você, Marina, a idéia de ser a mãe do PAS", consolou o orador. Era o afago, sublinhado pelo sorriso confiante de quem está até cansado de tanto vencer.

Marina reagiu ao recado com o sorriso sem luz de quem enfim se cansara de perder. Compreendeu que, antes de ser promovida a mãe de sigla, perdera a guarda do filho para o ministro Mangabeira Unger, um sotaque à caça de idéias. Era o beijo da morte, constatou. Lula não percebeu que fora longe demais.

"Estou casado há 34 anos, e tenho uma relação política com Marina Silva há 30", diria com voz de espanto na terça-feira, cinco dias depois do desastrado improviso, um Lula atônito com a demissão da acreana franzina e valente que conheceu quando o PT nem nascera. A carta de despedida atesta que não há diferenças relevantes para a jovem discípula de Chico Mendes e a remetente. Quem mudou – e muito – foi o destinatário.

O Lula do século passado não dava um pio sobre questões ambientais sem consultar a companheira que nascera no meio da mata, começara a alfabetizar-se já adolescente, resistira a todas as doenças da selva, sobrevivera como empregada doméstica e chegara ao Senado com pouco mais de 30 anos. O novo Lula reduziu a estorvo o que já foi oráculo.

Marina talvez devesse ser menos teimosa, sugere um ligeiro balanço da gestão. Lula certamente não deveria ser tão flexível, sabem até as sucuris de quartel. O chefe do PT que ouvia Marina é o chefe de governo que ouve Blairo Maggi. A ministra ama a Amazônia, embora não saiba com clareza como defendê-la. O governador de Mato Grosso odeia a floresta, e sabe como destruí-la. "A crise dos alimentos só será resolvida com a derrubada de árvores", receita o terror das matas.

"Se deixar, ele planta soja até nos Andes", preveniu Carlos Minc horas depois de aceitar o convite para instalar-se no gabinete que Marina desocupou. Lula garante que Maggi, além de bom companheiro, é homem sensato. "Ele saberá conciliar o agronegócio com a preservação do ambiente", ilude-se. Abalado pelo contra-ataque, o presidente decolou rumo à estratosfera.

"A companheira Marina se foi, a política ambiental continua", viajou. Que política? A que entrega imensidões territoriais aos índios de Roraima ou a que mata de desnutrição as tribos de Rondônia? A que combate a devastação no Pará ou a que não enxerga nem ouve as motosserras de Mato Grosso?

E quem será o pai da sigla sem mãe? Carlos Minc, que desconhece a Amazônia? Ou Mangabeira Unger, que finge conhecê-la? Talvez seja melhor deixar o PAS na orfandade. Serão bem maiores as chances de não acabar perdido na floresta.

Cabôco Perguntadô
Enquanto o olho direito do Cabôco vigia os preparativos olímpicos da cartolagem, o esquerdo vasculha os porões do Pan-2006. No momento, arregala-se com os R$ 106 mil pagos pelo Ministério do Esporte à Atos Origin em troca de um sistema de credenciamento que nunca existiu. O ministro Orlando Silva e o dono da empresa levaram o ouro na modalidade "gastança superfaturada" com o recorde espantoso. 16.000 %. Tremenda marca, admite o Cabôco. Ele só quer saber o que espera a Justiça para apurar se os campeões merecem o pódio ou a prisão.

Uma alma penada quer outra chance
Atormentado pela suspeita de que afastara do Ministério de Minas e Energia um companheiro sem culpas, o presidente Lula consolou-se até quarta-feira com a esperança de ver Silas Rondeau inocentado pela Justiça e reconduzi-lo ao cargo. Ele merece, suspirava. Merece é cadeia, corrige o Ministério Público Federal, que incluiu Rondeau na lista dos envolvidos no escândalo da Gautama. Dessa assombração Lula se livrou. Para dormir em paz, só falta a Justiça dar descanso à alma penada de Antonio Palocci, que segue gemendo por outra chance no ministério.

Mães extremosas mentem por amor
A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) montou um banco de dados sobre o PAC que promete infligir ao filho de Dilma Rousseff danos muito mais sérios que os causados a FH pelo dossiê que a mãe da sigla encomendou. Kátia já descobriu que o programa destinado a acelerar o crescimento do Brasil inclui obras inauguradas, outras rejuvenescidas por trocas de placas e construções abandonadas. Divulgadas a cada 15 dias, as informações da senadora provarão que Dilma, como ocorre a toda mãe extremosa, não precisa ser torturada para contar mentiras sobre o filho.

Yolhesman Crisbelles
O troféu vai nesta semana para o senador Cristovam Buarque, pelo palavrório costurado para defender a revisão do Tratado de Itaipu:

Não podemos negar ao Paraguai o direito de pedir o reajuste. Não podemos esnobar o Paraguai. Até porque temos uma dívida com esse nosso país vizinho, já que há 138 anos matamos 300 mil de seus cidadãos. Em proporção, seria como se matassem 9 milhões de brasileiros

Não, Cristovam não é um patriota paraguaio. É brasileiro de Pernambuco.

Ausências podem preencher lacunas
Concentrado nos prejuízos do Executivo com a partida da ministra Marina Silva, a imprensa não noticiou com o merecido destaque os lucros do Legislativo com a volta da senadora Marina Silva. Os ganhos começam com uma perda aparente: o suplente Sibá Machado, titular há mais de cinco anos, será devolvido ao Acre.

Sibá defendeu mensaleiros, sanguessugas e aloprados com tanta dedicação que só uma vez encontrou tempo para a família. Como o filho fora reprovado no vestibular, propôs que as vagas nas faculdades fossem distribuídas por sorteio.

Aos 91, morre a escritora Zélia Gattai em Salvador

Veja online


Morreu neste sábado em Salvador, aos 91 anos de idade, a escritora Zélia Gattai. Após uma série de complicações, a autora não resisitiu a uma insuficiência circulatória aguda, e faleceu no Hospital da Bahia, onde estava internada há exatamente um mês. Desde o início do dia, um boletim médico informava que seu estado de saúde era extremamente grave, e piorou de forma irreversível na última noite.

O documento dizia que sua saúde "evoluiu com extrema gravidade e o quadro clínico de choque circulatório se mostra irreversível". Sedada, Zélia respirava por aparelhos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.

Ainda em março, ela fora levada por familiares ao Hospital Aliança, com dores abdominais. De lá, foi transferida para o Hospital da Bahia, onde sofreu uma cirurgia para a retirada de um tumor que obstruía seu intestino. O tumor, depois confirmou-se, era benigno.

Viúva do escritor Jorge Amado (1912 - 2001), Zélia Gattai integra hoje a Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela é dona da cadeira 23 – a mesma ocupada pelo marido até a sua morte. A mesma cadeira tem como patrono o escritor José de Alencar, e seu primeiro dono foi Machado de Assis. Em nota oficial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte da escritora.

Grande memorialista, Zélia também será lembrada pelo romance com Jorge Amado
Zélia Gattai nasceu em São Paulo no dia 2 de julho 1916. Filha de imigrantes italianos, estreou na literatura somente aos 63 anos, depois de praticamente uma vida inteira passada entre grandes intelectuais de seu tempo, e de mais de trinta anos ao lado de seu eterno parceiro – o escritor Jorge Amado, morto em 2001. Suas grandes obras não são romances, mas livros de memórias, em que ela narra importantes passagens de sua vida, tendo sempre como pano e fundo o mundo que a cercava.

O mais célebre e conhecido destes livros é justamente o primeiro, Anarquistas Graças a Deus, de 1979. Transformada em minissérie pela Rede Globo no começo dos anos 80, a obra narra a vida dos pais de Zélia, a realidade dos imigrantes italianos no Brasil e sua infância em São Paulo Città di Roma, outro volume de memórias da autora a freqüentar as listas de mais vendidos, trata de tema semelhante. O póprio título é uma alusão ao navio que trouxe seus pais, Angelina Da Col e Ernesto Gattai, ainda crianças, de Gênova até o Porto de Santos.

História de amor – A união com Jorge Amado, capítulo central de seus 91 anos de vida, foi tema de algumas de suas obras. Ela e o escritor se encontraram durante o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, realizado em São Paulo, em 1945. Amado já era então um autor de renome nacional. "Ao conhecer Zélia, arriei a bandeira e pedi paz", contava o escritor. Os dois logo deram início a uma das grandes histórias de amor da literatura brasileira, uma união que durou pelo resto da vida, sem contratempos. O casal teve dois filhos, João e Paloma, cujo padrinho foi o famoso poeta chileno Pablo Neruda.

Gostavam muito de Paris, cidade onde viveram no fim dos anos 40. O romance entre os dois deu os primeiros passos na capital francesa. Em 1948, se mudaram para um hotelzinho no bairro do Quartier Latin. Eram fregueses de um restaurante chinês das proximidades e passeavam por sebos e livrarias. O toque de glamour advinha dos encontros com celebridades, como o filósofo Jean-Paul Sartre e o pintor Pablo Picasso.

Rio Vermelho – A presença de ilustres literatos sempre foi uma constante na vida de Zélia. Ainda na década de 30, tornou-se amiga de gente da estirpe de Oswald de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Vinicius de Moraes. A casa do bairro do Rio Vermelho, em Salvador, para onde ela e Jorge se mudaram em 1965, também era freqüentada por grandes escritores – especialmente o amigo João Ubaldo Ribeiro

A casa, à qual Zélia dedicou um livro de recordações em 1999 – A Casa do Rio Vermelho –, não foi apenas o centro da vida familiar. Foi também uma espécie de centro de cultura. O casal gostava de receber amigos – e deixava a porta aberta para desconhecidos.

Em dezembro de 2001, Zélia Gattai imortalizou-se. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 23, que pertenceu a seu marido, Jorge Amado, e ao fundador da ABL, Machado de Assis.

Legado: As obras de Zélia Gattai

Livros de memórias:
  • Anarquistas Graças a Deus – 1979
  • Um Chapéu Para Viagem - 1982
  • Pássaros Noturnos do Abaeté, 1983
  • Senhora Dona do Baile – 1984
  • Reportagem Incompleta - 1987 (fotobiografia)
  • Jardim de Inverno – 1988
  • Chão de Meninos – 1992
  • A Casa do Rio Vermelho – 1999
  • Cittá di Roma – 2000
  • Códigos de Família – 2001
  • Jorge Amado: Um Baiano Sensual e Romântico – 2002
  • Memorial do Amor - 2004
Romance:
  • Crônica de Uma Namorada - 1995

Literatura infantil:

  • Pipistrelo das Mil Cores – 1989
  • O Segredo da Rua 18 – 1991
  • Jonas e a Sereia - 2000

Fonte: ABL

O banquete de Paulinho

Diego Escosteguy, Revista Veja

A PF desmontou o esquema da Força Sindical e do PDT no BNDES. Falta investigar o que o mesmo grupo anda fazendo no Ministério do Trabalho



A promiscuidade do sindicalismo com o poder, empresários, dinheiro e mordomias está na gênese da Força Sindical, criada em 1991, quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello reuniu um grupo de empresários para financiar o modelo de representação dos trabalhadores que ele considerava ideal. O resultado não poderia ser outro: a central, que hoje agrega quase 1 000 sindicatos, um partido político, o PDT, e controla de cima a baixo um dos ministérios mais importantes do governo, o do Trabalho, está no epicentro de um escândalo que envolve a participação direta de seus líderes em casos de corrupção, desvio de dinheiro público, tráfico de influência e enriquecimento ilícito.

As investigações da Operação Santa Tereza, que desmontou recentemente um esquema de fraudes no Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), conduziram a Polícia Federal às portas do cofre clandestino da Força Sindical e do PDT. Duas das principais lideranças da central, o lobista João Pedro de Moura e o advogado Ricardo Tosto, foram presas pela PF, acusadas de cobrar propina para liberar empréstimos no banco estatal (o segundo foi solto, por força de um habeas corpus). O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força e filiado ao PDT, pode ter recebido parte do butim, como mostram grampos telefônicos autorizados pela Justiça. Suspeitíssimo, ele agora luta para salvar o mandato. Já está claro que, hoje, Força e PDT são duas organizações siamesas também no plano financeiro. O próximo passo é revelar como essa perigosa simbiose tomou conta do Ministério do Trabalho, pasta fatiada entre políticos pedetistas e sindicalistas da Força, sob o controle do mesmo grupo acusado de rapinar uma linha de crédito do BNDES .

O PDT, a Força Sindical e o Ministério do Trabalho se converteram numa central única de interesses. O partido, comandado pelos sindicalistas, assumiu o controle do ministério há pouco mais de um ano. Pelas mãos de Paulinho, Carlos Lupi, então presidente do PDT e funcionário fantasma da Câmara, foi feito ministro. Durante três meses, ele travou uma guerra com a Comissão de Ética Pública da Presidência, que via conflito de interesses no fato de ele ocupar os dois cargos. O ministro acabou se licenciando do PDT, mas por mera formalidade. Os principais cargos da pasta foram entregues a sindicalistas da Força e a representantes do partido, sempre com o aval de Paulinho. Dono de um orçamento de 38 bilhões de reais, o ministério se transformou num paraíso para quem se habilita a fazer negócios escusos, buscar dinheiro fácil ou se credenciar a algum benefício. É nesse território pantanoso que se movimentam as famosas organizações não-governamentais, políticos, empresários e lobistas – e que Paulinho reina em busca de resultados. Um de seus projetos, além da candidatura a prefeito de São Paulo, é conseguir eleger quinze deputados federais – todos sindicalistas – em 2010. As campanhas seriam financiadas por recursos repassados por meio de convênios para treinamento de trabalhadores, um duto de fraudes que existe desde o governo passado, agora sob controle de Paulinho e uma gangue sindical. Uma pista: o ministério liberou 11,9 milhões de reais para sete entidades ligadas a parlamentares do PDT ou sindicalistas da Força – algumas já investigadas pela polícia e por procuradores por causa de desvios.

Para coroar a tomada da Pasta do Trabalho, o jornalista Luiz Fernando Emediato, consultor da Força Sindical, foi eleito presidente do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, o Codefat. É ali que se define o destino da dinheirama do FAT. Somente no ano passado, os conselheiros decidiram como investir 9,5 bilhões de reais – em programas de qualificação profissional ou em linhas de crédito, como as oferecidas pelo BNDES e que estão sob investigação da PF. Amigo de Paulinho, Emediato é consultor da Força desde 1991. Em suas palavras, presta "serviços intelectuais". Foi com esse tipo de atividade cerebral que ele conheceu o lobista João Pedro de Moura, no fim dos anos 90. Emediato recrutou-o para os quadros da Força, onde o lobista passou a coordenar os cursos de qualificação profissional da central. Foi imediata a empatia entre ambos. A tal ponto que, tempos depois, Emediato vendeu a Moura sua casa de campo, hoje avaliada em 700 000 reais – mas, num gesto que só uma grande amizade explica, os dois nem chegaram a registrar a transação em cartório. "Ele me deu 40.000 reais de entrada e um apartamento em São Paulo", diz o presidente do Codefat. Amigos, amigos, negócios incluídos: Emediato indicou Moura para integrar um grupo de trabalho que iria reformular as políticas de investimento do FAT.

Pela lei, o presidente do Conselho deve se comportar como guardião do cofre do FAT. Ou seja, sua função é zelar para que o dinheiro dos trabalhadores seja investido corretamente. "Como presidente do Codefat, não posso defender os interesses da Força", admite o consultor. VEJA teve acesso a e-mails trocados por Emediato com funcionários do ministério e assessores da Força que revelam um comportamento exatamente oposto. Essas correspondências mostram que, à frente do Codefat, Emediato se comporta como tarefeiro da Força Sindical, valendo-se da posição para proteger e beneficiar a central. Em fevereiro, a Força foi notificada pelo Tribunal de Contas da União a devolver cerca de 59 milhões de reais, dinheiro do FAT que deveria ter sido investido na qualificação de trabalhadores – mas que sumiu nas contas do IPEC, um instituto ligado à central e comandado pelo lobista João Moura. Ao saber da decisão, Emediato, em vez de se portar como presidente do Codefat, agiu como dirigente da Força: pediu à advogada Sandra Lage, funcionária do ministério, que ajudasse na defesa da central.

A funcionária ajudou. "A doutora Sandra vai examinar tudo e aí a gente decide se ela faz essa defesa ou entregamos tudo ao Ricardo Tosto", escreveu o consultor em e-mail de 21 de fevereiro, endereçado a uma assessora da Força Sindical. Tosto é aquele que foi preso pela polícia, indicado pela Força como conselheiro do BNDES. Trocando em miúdos: de dia, Emediato faz as vezes de zelador do dinheiro dos trabalhadores. Na calada da noite, porém, usa seus conhecimentos para defender, como consultor, os responsáveis pelos desvios de dinheiro – sendo que ambas as partes lhe pagam salário. O presidente do Codefat acha normal a dupla militância: "Não há nada de irregular nisso". Emediato também acha normal um e-mail enviado a ele por Gildo Rocha, assessor da Força, em agosto de 2006, no qual o sindicalista remete anexo um "atestado de capacidade técnica" da central – a ser impresso e assinado "em papel timbrado" da pasta. Esse documento seria usado para permitir a assinatura de um convênio entre a Força e a prefeitura de São Paulo. "Mas ele não foi assinado", garante o conselheiro-consultor.

Emediato é uma espécie de faz-tudo dos sindicalistas ligados à Força dentro do ministério – atuando até em áreas aparentemente estranhas, mesmo considerando suas múltiplas funções. Não se sabe por quê, mas ele se mantém informado, inclusive, sobre valores de empréstimos que grandes empresas tomam do BNDES. Em uma correspondência eletrônica datada de 15 de janeiro passado, Emediato recebe informações detalhadas sobre um empréstimo contraído pelo frigorífico Friboi, o maior do país, do BNDES. Curiosidade? "Mandei averiguar, mas não tenho interesse nisso", disse o consultor-conselheiro, justificando que estava apenas atendendo a uma solicitação de um sindicato de trabalhadores de alimentação (ligado à Força, é claro), que negociava um acordo. Não dá para entender a diferença que faz para os sindicalistas em uma negociação trabalhista conhecer valores de empréstimos que uma empresa conseguiu em uma uma instituição pública. Aliás, o funcionário do ministério que repassa a informação ao consultor-conselheiro adverte que os dados são protegidos por sigilo, portanto ele estaria cometendo um crime ao passar as informações à frente.

A Força Sindical nasceu pelas mãos do sindicalista Luiz Antonio de Medeiros e pelo bolso do grande empresariado brasileiro, no começo dos anos 90. Medeiros era presidente do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e amigo do presidente Fernando Collor. Era um período no qual os patrões se exasperavam com o acúmulo das greves organizadas pelo movimento sindical – a maioria delas sob o comando da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, ligada ao PT. Medeiros enxergou na insatisfação do PIB uma oportunidade – não para os trabalhadores, mas para ele. Uma oportunidade de montar uma central de cima para baixo, obediente aos patrões, que fizesse um manso contraponto à CUT. Depois de receber a bênção do presidente Collor, que faria qualquer coisa para enfraquecer o PT, Medeiros incumbiu o sindicalista Wagner Cinchetto de passar o chapéu no meio empresarial. Não foi difícil montar a central. O empresário Luiz Estevão, amigo de Collor e hoje senador cassado por Brasília, abriu as portas amigas e endinheiradas para Cinchetto. Diz um sindicalista que participou da criação da Força: "Foi um sucesso. Todo mundo doou. Os empresários adoraram a idéia".

Os métodos pouco ortodoxos de arrecadação que permitiram a criação da central foram refinados com o passar do tempo. Cinchetto dedicou-se nos anos 90 a encher os cofres da central – e da turma de Medeiros. Ele despachava no escritório de Emediato, em São Paulo. "Se a coisa continuar assim, o Medeiros vai virar presidente, e eu o PC dele", costumava dizer Cinchetto aos assessores da central, numa referência a Paulo César Farias, tesoureiro de Collor. Cinchetto, porém, acabou rompendo com o chefe. Foi quando ele passou a revelar os segredos da central sindical. Acusou Medeiros de manter uma conta secreta nos Estados Unidos, abastecida com dinheiro do patronato que se sentava à mesa de negociação com ele. No Brasil, explicou Cinchetto, os recursos dos empresários amigos eram depositados na conta do Instituto Brasileiro de Estudos Sindicais (Ibes), criada por Medeiros. O tesoureiro também contou que ele e Medeiros fizeram uma bela viagem à Europa no começo dos anos 90, financiada, é lógico, com o dinheiro dos patrões.

Treze anos após as denúncias de Cinchetto, o aparecimento das malfeitorias da turma da Força no BNDES mostra que a tecnologia de arrecadação da central continua a mesma. Só os personagens mudaram. Saiu Medeiros e entrou Paulinho, seu discípulo e fiel assessor nos primórdios da Força. Saiu Cinchetto e entrou João Pedro de Moura, o lobista que adentrou na central graças aos serviços intelectuais de Emediato. A diferença agora é que, embalada pelo ilimitado pragmatismo político do presidente Lula, a Força chegou ao governo. E em grande estilo. O Ministério do Trabalho está todinho sob o comando dela e do PDT. Medeiros, o pai da Força e mentor de Paulinho, virou secretário de Relações do Trabalho. É o responsável por fiscalizar e conceder registros sindicais, uma atividade que já rendeu muitas denúncias em Brasília. Luiz Fernando Emediato, o consultor da Força e ocasional arrecadador de campanhas, tornou-se presidente do Codefat. Ezequiel Nascimento, sindicalista do PDT, foi nomeado secretário de Políticas Públicas de Emprego. Comanda um orçamento de 19 bilhões de reais.

A presença da Força no governo não assegurou somente mais um aliado de peso para o governo Lula: garantiu também uma fonte abundante de escândalos, como demonstra a Operação Santa Tereza. No Ministério do Trabalho, a Força e o PDT produzem o que se espera deles. Até agora, quem mais perdeu no casamento foi o partido político, ao menos no que se refere à imagem. Nos últimos tempos, a agremiação se tornou inexpressiva, mas ao menos mantinha uma imagem sem máculas – passou incólume pelos grandes escândalos do governo Lula. Desde que Paulinho comandou a tomada da sigla pela Força, essa boa imagem se estilhaçou e o PDT começou a freqüentar as páginas policiais. Com Paulinho e a Força no leme, o partido agora se vê diretamente envolvido em uma denúncia de corrupção, a de fraudes de empréstimos do BNDES. Paulinho está sendo investigado pela corregedoria da Câmara pela participação no esquema. O corregedor, deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), já decidiu enviar o caso ao Conselho de Ética para que seja aberto um processo que pode resultar na cassação de Paulinho. "O caso é grave. Não há um dia em que não apareça uma denúncia nova", afirma Inocêncio. Se for realmente aberto o processo, Paulinho poderá se tornar o primeiro deputado federal na história do PDT a ter o mandato cassado.

Paulinho é citado diversas vezes nas interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal. Um dos grampos mostra que ele foi avisado, na véspera da Operação Santa Tereza, de que na manhã seguinte "alguma coisa grave" poderia acontecer com seus aliados. O aviso foi dado pelo coronel da reserva da PM paulista Wilson Consani Júnior, espécie de araponga da Força Sindical e de Paulinho, a um cunhado do deputado. O cunhado repassou o recado a Paulinho, que ficou "desesperado", segundo a PF. Paulinho se comprometeu a providenciar advogado e até a tirar Consani da prisão. Um relatório da PF, de 35 páginas, descreve a reação de alvos da operação e familiares que caíram no grampo autorizado judicialmente. Nos telefonemas, também são relatadas preocupações de Paulinho com o envolvimento de ONGs na Operação Santa Tereza. Com razão. Na investigação, a PF já identificou dois depósitos, totalizando 120 000 reais, realizados por integrantes da quadrilha em favor de duas ONGs ligadas à Força Sindical. Uma delas, a Meu Guri, é presidida por Elza Pereira, mulher de Paulinho. Graças a essa informação, a PF convocará a mulher de Paulinho para prestar depoimento. O objetivo é saber se Elza utilizou a ONG para lavar dinheiro da quadrilha investigada. A polícia quer esclarecer também a compra à vista, por Elza, de uma casa por 220.000 reais no litoral de São Paulo, dos quais pelo menos 40.000 foram pagos em dinheiro vivo. Um capítulo da história da luta trabalhista no Brasil, pelo jeito, pode morrer na praia.

(Com reportagem de Otávio Cabral e Ricardo Brito)

Injustiça tributária

Editorial da Folha de São Paulo

O sistema tributário brasileiro tende a agravar a perversa desigualdade de renda e de riqueza do país, uma vez que os segmentos mais pobres da população pagam, relativamente, mais impostos que os mais ricos.

De acordo com estudo divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os 10% mais pobres do país comprometiam 32,8% de seus rendimentos em impostos, no período 2002-2003. A carga tributária sobre os mais pobres era distribuída em 3,7% de impostos diretos (que incidem sobre a renda e o patrimônio) e 29,1% de indiretos (que recaem sobre o consumo). Por sua vez, os 10% mais ricos gastavam 22,7% da renda em impostos, sendo 12% de tributos diretos e 10,7% de indiretos.

Os dados demonstram o forte impacto negativo dos impostos indiretos -embutidos no preço de produtos e serviços- na renda das populações mais pobres. Esse elemento torna o sistema tributário brasileiro regressivo, pois compromete proporcionalmente mais as menores faixas de renda. No caso do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), por exemplo, os trabalhadores mais pobres pagam, relativamente, três vezes mais que os mais ricos. Enquanto estes desembolsaram 5,7% em ICMS, aqueles pagaram 16%.

Evidentemente, a justiça tributária não é realizada apenas pelo lado da arrecadação. O gasto público, por meio de programas sociais, também pode contribuir para diminuir a desigualdade social. A aposentadoria rural e a expansão de programas de transferência de renda favoreceram, ainda que de forma moderada, a melhor distribuição da renda.

Como o Congresso discute uma nova proposta de reforma tributária, abre-se uma oportunidade para a correção de injustiças na arrecadação. Um caminho óbvio seria desonerar a cesta básica de consumo das populações de baixa renda.O meio de compensar essa desoneração seria, em primeiro lugar, diminuir os gastos públicos correntes. Além disso, uma correção nas regras do Imposto de Renda poderia fazer os ricos pagarem proporcionalmente mais.

Hoje a legislação tributária define apenas duas faixas de IR para as pessoas físicas: de 15% e 27,5%. Entre 1983 e 1985, por exemplo, o país tinha 13 faixas de renda para o IR, com alíquotas que chegavam a 60%. Países desenvolvidos, que oferecem serviços públicos de melhor qualidade, têm mais degraus. Na França há até 12 faixas diferentes, com alíquotas que chegam a 57%.Nos EUA, há cinco faixas, com alíquotas de 15% a 39,6%. Na Áustria, também com cinco faixas, as alíquotas variam de 2% e 50%. Em países em desenvolvimento, como a Argentina, há sete faixas, variando de 9% a 35%.

Uma ampliação do número de faixas de incidência do IR, com alíquotas crescentes quanto mais alta for a renda, pode aumentar a progressividade da carga tributária brasileira.

As provas contra Chávez

Editorial do Estadão

Nos últimos dias, o caudilho Hugo Chávez esteve mais belicoso do que nunca. Aproveitava qualquer pretexto para afirmar que os comprometedores documentos encontrados nos computadores do líder das Farc, Raúl Reyes - apreendidos pelos militares colombianos durante o ataque a um acampamento guerrilheiro no Equador -, não passavam de “mentiras e falsificações”. E desafiava: “Mostrem provas, não documentos” - como se documentos não fossem provas. Seu destempero chegou a tal ponto que acusou de “fascista” e “amiga de Hitler” a chanceler alemã Angela Merkel, que havia criticado governos populistas e afirmado que Hugo Chávez não é a voz da América Latina. Não se pode considerar que tenha se excedido quando disse que o governo de Álvaro Uribe está tentando iniciar uma guerra contra a Venezuela, para que os Estados Unidos invadam seu país, porque isso já virou rotina em seus pronunciamentos.

Era compreensível o nervosismo de Hugo Chávez. Aproximava-se o dia 15, data em que a Interpol publicaria o relatório da perícia realizada por técnicos forenses nos computadores de Raúl Reyes - e Chávez tinha culpa no cartório.

O secretário-geral da Interpol, Ronald Noble, anunciou o que se esperava. Confirmou que os computadores apreendidos pertenciam a Raúl Reyes e que as informações e arquivos neles contidos são autênticos. Não foram modificados, alterados ou eliminados e, assim, existem provas sólidas de que Hugo Chávez não apenas interferiu nos assuntos internos da Colômbia, como patrocinou, com apoio político, dinheiro e armas, um movimento que se sustenta com o narcotráfico e a extorsão e cujo objetivo é a derrubada de um governo democrático e legitimamente eleito pelas urnas.

A reação de Chávez foi patética. Classificou o secretário-geral da Interpol de “vagabundo internacional”, disse que o anúncio do laudo pericial foi um “show de palhaços” e encarregou o ministro do Interior de rever a filiação da Venezuela à Interpol, sugerindo a criação de uma entidade paralela, articulada pela Alba, ou seja, pela Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua e Dominica.

O constrangimento de Chávez - se é que ele é capaz de se constranger por qualquer coisa - só não foi maior porque a sessão de debates da reunião de cúpula dos países da América Latina e Caribe e da União Européia, iniciada ontem, em Lima, foi fechada à imprensa. Esse procedimento foi adotado depois que o rei Juan Carlos, da Espanha, mandou Chávez calar a boca na última cúpula ibero-americana.

Mas o fato é que, mesmo os governos que evitavam fazer críticas a Chávez, por afinidade ideológica ou conveniência política, agora terão de mudar de atitude. Fala-se que o governo brasileiro manifestará reservadamente o seu desagrado com a situação. Se assim proceder, será um erro. São públicas as provas documentadas de que Hugo Chávez infringiu todas as regras do convívio internacional, notadamente a que manda que um país não interfira nos assuntos internos de outro - uma cláusula pétrea da diplomacia brasileira.
E as transgressões de Chávez foram gravíssimas. Desde 2002 ele permitia que membros de seu governo mantivessem contato direto com comandantes das Farc. Mas em novembro do ano passado ele recebeu no palácio Miraflores o dirigente guerrilheiro Ivan Márquez, ou Luciano Marín. Na reunião, segundo o relato de Ivan, “aprovou sem pestanejar” o pedido de US$ 300 milhões para a narcoguerrilha e discutiu um plano para receber na região venezuelana do Orenoco um carregamento de armas enviado para as Farc por traficantes australianos.Antes disso, os representantes de Chávez haviam providenciado a entrega às Farc de foguetes antitanque e prometido fornecer peças para a fabricação de mísseis antiaéreos, bem como treinamento para a operação de foguetes num país do Oriente Médio.

Também o relacionamento das Farc com o governo equatoriano fica inquestionavelmente exposto. Não apenas Rafael Correa recebeu US$ 100 mil para sua campanha eleitoral, como o seu ministro da Defesa acertou “regras” para que as Farc freqüentassem o território equatoriano.

Em resumo, há provas suficientes para que o regime de Hugo Chávez seja afastado da comunidade interamericana e submetido a sanções severas.

O narcossubmarino das Farc

Duda Teixeira, Revista VEJA

Os guerrilheiros e seus sócios no tráfico de drogas adotam pequenos submergíveis para levar cocaína para os Estados Unidos

Submarino capturado pela Marinha colombiana no Oceano Pacífico:
nove em cada dez escapam

Exército colombiano impôs derrotas humilhantes às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia nos últimos cinco anos. As surras sucessivas, contudo, não diminuíram a ousadia das Farc naquilo que é sua principal atividade – o narcotráfico. No último ano, a organização comunista adotou o submarino como seu meio preferido de transportar cocaína para o principal mercado consumidor da droga, os Estados Unidos. Em média, dez pequenos submergíveis carregados de drogas são interceptados a cada mês pela guarda costeira americana ou por forças navais de países da América Central. A popularidade desse meio de transporte inusitado deve-se a duas razões. Cada submarino transporta 10 toneladas de cocaína – cinco vezes mais que uma lancha de alta velocidade –, no valor de 250 milhões de dólares. A segunda é a facilidade com que essas embarcações enganam os radares dos aviões de patrulha, pois são facilmente confundidas com baleias ou golfinhos. A guarda costeira americana estima que, para cada submarino capturado, outros nove conseguem descarregar sua carga na costa dos Estados Unidos.

"Nossos esforços, em conjunto com outras nações, para combater os métodos tradicionais de transporte obrigaram os narcotraficantes a ser mais inovadores e a aceitar mais riscos", disse a VEJA a americana Betty Lightcap, diretora da Força Tarefa Conjunta, na Flórida, uma divisão do Exército americano responsável pelo combate ao tráfico. Sabe-se que as embarcações pertencem às Farc, ou navegam com autorização da organização comunista, porque praticamente todos os estaleiros clandestinos descobertos pelo Exército colombiano estavam em áreas de floresta sob controle da narcoguerrilha. Ninguém construiria uma embarcação dessas por ali sem permissão e proteção das Farc. Trata-se igualmente de uma confirmação de que a guerrilha comunista hoje atua em todas as etapas do narcotráfico – do refino ao transporte da droga para os Estados Unidos.

A rota de entrada de drogas nos Estados Unidos mais fácil e segura ainda é a fronteira mexicana. Mas esse caminho é agora dominado por traficantes locais e já não serve aos colombianos. Sem alternativa de rota terrestre, estes se especializaram no transporte marítimo de cocaína. Em meados da década de 90, eles usavam lanchas capazes de navegar a 90 quilômetros por hora e deixar a guarda costeira para trás. Esse meio de transporte foi abandonado depois que as autoridades americanas equiparam aviões com radares e aumentaram a vigilância no Caribe. Os colombianos passaram a esconder a droga em contêineres misturada às exportações legítimas de vegetais e flores. Em resposta, as autoridades americanas instalaram enormes aparelhos de raio X para rastrear o conteúdo dos contêineres. Os narcotraficantes voltaram-se então para os submarinos, cujo custo de construção é estimado em 2 milhões de dólares.

A única forma de flagrar um desses submarinos anões é a olho nu. Os agentes colombianos e americanos ficam atentos a tubos de PVC cortando a superfície da água. A maior parte dos narcossubmarinos não tem capacidade para afundar totalmente e, por isso, navega pouco abaixo do nível do mar. A função dos tubos é levar oxigênio para a tripulação. Movidos a diesel e com autonomia média de 1.500 quilômetros, os submarinos são reabastecidos em alto-mar para seguir viagem até os Estados Unidos. Quando chegam ao litoral mexicano ou americano, a carga é transferida para barcos maiores e mais rápidos. A viagem pelo Pacífico demora mais de duas semanas. Um piloto pode ganhar o equivalente a 50.000 reais pela aventura. Tanto empenho por soluções tecnológicas por parte do narcotráfico tem sólidas razões mercadológicas. Da Colômbia saem 90% da cocaína consumida pelos americanos. O negócio mais lucrativo, no entanto, não é a produção, e sim a venda nos Estados Unidos. Um quilo da droga no porto de Buenaventura, na Colômbia, vale 5.000 dólares. Em uma cidade americana custa 25.000. Vale o risco de se fingir de baleia nas águas do Caribe e do Pacífico.

Ação de Dilma junto a Lula foi decisiva para queda de Marina

Por Kennedy Alencar, Folha Online

Marina Silva não acumulou apenas derrotas no governo enquanto foi ministra do Meio Ambiente. É simplista a explicação de que ela pediu demissão porque só perdia embates.

No modo Lula de governar, sempre na busca do meio-termo, ela arrancou concessões em algumas batalhas que travou e que pareceram perdidas, como na questão dos transgênicos e de obras de geração de energia do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Então, por que ela saiu?

Porque perdeu importância nas grandes decisões do segundo mandato de Lula. A entrega da gestão do PAS (Plano Amazônia Sustentável) a Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) foi apenas a gota d`água. Quem minou Marina foi Dilma Rousseff, a poderosa ministra da Casa Civil.

Dilma persuadiu Lula de que a pasta gerida por Marina tinha como único objetivo barrar projetos de desenvolvimento. Convenceu o presidente de que havia uma resposta padrão a qualquer proposta de obra na Amazônia: o Meio Ambiente sempre dizia não. A ministra da Casa Civil colocou na cabeça de Lula que Marina e seus principais auxiliares tinham uma visão "esquerdista" da questão ambiental.

As licenças para as hidrelétricas no rio Madeira saíram devido a uma tremenda pressão direta de Lula sobre Marina, com Dilma sempre estimulando o presidente nos bastidores. A ação de Dilma tornou Marina apenas um selo verde para inglês ver.

Lula pavimentou o caminho para a saída de Marina ao deixar evidente sua falta de importância na definição das políticas públicas mais significativas. O presidente só não esperava que a ministra fosse mais competente do que ele em marketing pessoal.

Marina deixou o ministério na semana em que a BBC de Londres fazia uma série de programas sobre a Amazônia. Havia 26 jornalistas da rede britânica de rádio e TV no país. Marina deixou o governo na semana em que Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, veio se reunir com Lula em Brasília.

A saída repentina que surpreendeu e chateou Lula foi uma forma de recuperar a influência sobre os destinos da política ambiental que Marina perdera para Dilma, ministra que hoje manda mais do que José Dirceu e Antonio Palocci mandaram em suas respectivas áreas no primeiro mandato.

Um drible no Supremo

por Dora Kramer, no Estadão

Contrariando a lógica e as expectativas, o governo não sentiu o peso da decisão do Supremo Tribunal Federal de declarar inconstitucional o uso de medidas provisórias para liberação de créditos extraordinários em situações previsíveis.
O presidente Luiz Inácio da Silva não apenas editou mais uma MP abrindo crédito para pagamento de despesas de pessoal no mesmo dia em que o STF julgava o ato ilegal, como já engendra com sua base no Congresso uma mudança na Constituição a fim de driblar a posição da Justiça e prevenir novas sentenças restritivas ao estratagema de buscar recursos fora do Orçamento.

Hoje a Constituição só admite a abertura de créditos extraordinários para atender a “despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção interna ou calamidade pública”.

Agora, o governo quer aproveitar o debate sobre alteração no rito das medidas provisórias para propor a alteração do artigo 167, a fim de permitir a edição de medidas provisórias também para “situações de necessidade inadiável e de grave risco econômico e social”, conforme adiantou o líder do PT na Câmara, Maurício Rands.

Uma redação ampla o suficiente para açambarcar toda e qualquer situação e conferir aos preceitos de relevância e urgência relativos a créditos a mesma subjetividade dos critérios aplicados a todas as demais medidas provisórias.

Afinal de contas, dentro das definições de “necessidade inadiável” ou “grave risco econômico e social” cabe rigorosamente tudo. A melhor maneira de deixar o Judiciário impedido de fazer um julgamento objetivo.

Como acontecia até esta semana, quando o STF julgou uma ação impetrada em 2007 pelo PSDB contra a MP 405, que autorizava a liberação de $ 5,4 bilhões para a Justiça Eleitoral e outros órgãos do Executivo.

A despeito de diversas vezes provocado a barrar medidas provisórias consideradas não urgentes nem relevantes, o STF sempre evitou se pronunciar porque levava em conta a subjetividade desses preceitos e não queria ser acusado de interferência indevida nas atividades dos Poderes Executivo e Legislativo.No caso dos créditos, a Constituição é clara. Determina especificamente que a liberação só se justifica em emergências decorrentes de guerra, comoção interna ou calamidade pública.

Por isso, o tribunal se considerou apto a julgar, 6 entre os 11 ministros decidiram vetar a MP e, a partir daí, acreditava-se que estaria criada a jurisprudência da inconstitucionalidade das medidas provisórias para liberação de recursos destinados a despesas previsíveis.

Pois quem assim esperava subestimou a capacidade do governo de ultrapassar limites. O presidente Lula ignorou a regra segundo a qual decisão judicial de última instância não se discute e confrontou: no mesmo dia pediu mais créditos e ainda orientou a base parlamentar a mudar a lei que embaraça.

“A aviação na América do Sul é um desastre”, diz Lula

Leonencio Nossa, Estadão

Presidente diz que terá 'conversa séria' com o setor brasileiro e que governo não quer criar uma nova empresa

LIMA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesse sábado, 17, que a aviação comercial na América do Sul é "um desastre". Em encontro com empresários brasileiros e peruanos, Lula disse nesse sábado que terá "uma conversa séria" com o setor aéreo brasileiro quando voltar ao Brasil. "Tudo o que eu não quero é que eles sejam tão inoperantes nessa área que comecem a fomentar na minha cabeça a idéia de que o Estado vai ter de criar uma nova empresa. Eu não quero fazer", disse.

Em discurso, Lula disse, em um trecho de improviso, que a falta de linha áreas entre as principais cidades do subcontinente impedem o maior intercâmbio e mais investimentos entre os países sul-americanos. Ele lembrou que para um brasileiro chegar a Angola, na África, precisa antes passar por Londres e para ir ao Equador, às vezes, é necessário realizar conexão em Miami, nos Estados Unidos.

"A questão da aviação na América do Sul é um desastre. É um desastre", disse. "Não é possível a dificuldade que temos para voar (do Brasil) para a América do Sul. E para a África, é quase impossível", reforçou.

Diante da situação, Lula disse que, quando retornar ao Brasil, pretende reunir o setor aéreo brasileiro para tratar do tema. "Temos que chegar ao Brasil e juntar os empresários da aviação e ter uma conversa séria com eles", disse. O relato foi feito ao presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Lula defendeu "mais ousadia" dos empresários do setor aéreo e afirmou que é preciso investir, especialmente em linhas aéreas para novos mercados. "É inconcebível a quantidade de reclamações (que ouço) de um ser humano que vai ao Brasil ou de um brasileiro que quer ir ao Peru. Tem que ter mais avião", reclamou.

Investimentos
O encontro de Lula com o presidente do Peru, Alan Garcia, foi marcado pela cobrança de investimentos brasileiros naquele país. Garcia reclamou que o Brasil não estava olhando para o Peru e que, atualmente, os investimentos brasileiros estão indo principalmente para os vizinhos Venezuela e Colômbia.

"A Petrobras caminha lentamente aqui, presidente. Onde estão os investimentos em campos profundos", questionou Garcia. "Temos de fazer uma (linha) interoceânica aérea e aumentar os investimentos do Brasil no Peru. Ou será que não somos hospitaleiros. Será que somos feios", cobrou o presidente peruano.

Lula respondeu o reclamação ao defender investimentos das empresas brasileiras nos países da América do Sul, especialmente no Peru. Ele afirmou ainda que a Petrobras sofria da "síndrome do medo do ser grande", o que reduzia investimentos no exterior. O presidente também lembrou que foi as primeiras pontes ligando o Brasil ao Peru e à Bolívia foram construídas em seu governo. Aproveitou para lembrar que o intercâmbio comercial e cultural entre os países do continente é a principal plataforma da política externa brasileira.

Ainda sobre a reclamação de García sobre a falta de atenção brasileira com o Peru, Lula disse que o Brasil agiu nos últimos anos como um pai que precisa dar atenção para o filho que está com problemas na escola ou com a namorada. Segundo Lula, o Brasil deu mais atenção para países que estavam com mais conflitos e problemas. Os dois presidentes marcaram um encontro empresarial em julho ou agosto em São Paulo para discutir intercambio comercial.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA: Bem que o Luiz Inácio poderia aproveitar para ter uma conversa mais séria com os (ir) responsáveis pela fiscalização do setor,mais especificamente a ANAC, cujo pessoal foi escolhido por ele mesmo. Poderia, também, parar de ficar enrolandoe pagar a indenização que, por duas vezes, a Justiça mandou o governo federal pagarà antiga VARIG.

TOQUEDEPRIMA...

***** Governo cria 2.400 cargos para a área social

E a gastança segue em frente, com o inchaço do Estado.

A Secretaria de Gestão do Ministério de Planejamento informou que o governo criará 2.400 cargos nos ministérios da área social. Os cargos serão traçados conforme o perfil dos profissionais e a necessidade de cada ministério. A data da abertura do concurso público ainda não está definida. A Secretaria salientou que a demanda pela implementação dos programas sociais do governo é urgente e há carência de profissionais para a aplicação das políticas sociais.

Com o crescimento vertiginoso do tamanho do Estado fica cada vez mais difícil para o país sonhar com redução da carga tributária em níveis “razoáveis”.

***** Corrêa promete renunciar se forem comprovadas relações com as Farc

"Tenho a consciência tão limpa e não tenho nada a temer que faço uma proposta: se demonstrarem que o governo de Rafael Correa teve alguma relação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ponho meu cargo de presidente da República a disposição do povo equatoriano." A afirmação foi feita neste sábado pelo presidente do Equador, Rafael Corrêa, em uma coletiva de imprensa em Lima.

Correa tentou desqualificar o relatório da Interpol, divulgado na última quinta-feira (15.05), que atesta a autenticidade dos arquivos eletrônicos encontrados em computadores capturados juntos às Farc. Os documentos confirmam as relações e até financiamento do governo de Quito à guerrilha.

É mesmo,Correa? Isto é o que vamos ver !!!!

***** Jobim embarca amanhã para a Bolívia

O ministro Nelson Jobim (Defesa) passa o sábado em sua cidade natal, Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde participará de eventos em homenagem aos 150 anos de fundação da cidade. Jobim embarca amanhã para a Bolívia, onde ficará até segunda-feira (19). O objetivo da viagem é apresentar ao presidente Evo Morales e a autoridades de Defesa a proposta de criação do Inútil Conselho Sul-Americano de Defesa.

***** Programas do governo Lula estão com execução abaixo do esperado

Quase dois meses após a aprovação do Orçamento da União para 2008, nada menos que 271 programas ainda estão com execução inferior ao ideal. É o que aponta levantamento do site Contas Abertas. Em abril, o esperado era é que estivesse sendo investido em torno de 33,3% dos recursos. No entanto, 66% das rubricas orçamentárias estão com execução inferior a este percentual. Dessas, 11 não tiveram nenhum centavo desembolsado.

Entre os programas com baixa execução, está o de implementação da política de promoção da saúde. Da dotação autorizada de R$ 30,8 milhões, apenas R$ 47,9 mil foram pagos. Não chega a dar 1% de execução. Para variar um pouco, o Ministério da Saúde diz que a culpa é dos estados e municípios.

Na verdade, o PAC não passa de um grande programa de marketing. Fazendo de conta que governa, Lula criou o PAC como mero artifício para se manter no palanque eleitoral.

***** Disputa sem méritos
Por Lauro Jardim, Radar, Revista VEJA

Se a média de medidas provisórias enviadas neste ano ao Congresso for mantida, Lula poderá, em julho, encher o peito e soltar o bordão: "Nunca antes neste país um presidente... editou tantas MPs". Com as medidas provisórias da semana passada, Lula atingiu 328 MPs, segundo levantamento da consultoria Arko Advice. Uma média de 3,8 por mês em 2008. Em seus oito anos de poder, FHC editou 334. Lula, que na oposição bradava contra as medidas provisórias, hoje não vive sem elas – apesar da chiadeira do Congresso.

***** Senador denuncia interesse estrangeiro na demarcação de terras indígenas

O senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) responsabilizou organizações não-governamentais (ONGs) internacionais que, "sob o manto de proteção ambiental", defendem interesses internacionais nas riquezas minerais da Amazônia, citando especificamente "Estados Unidos, mais Canadá, e mais Europa" que, segundo ele, querem controlar as riquezas do mundo. Ele criticou o presidente Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, pelas recentes demarcações e medidas para protegê-las. Ele observou que, atualmente, 13% do território nacional já esteja demarcado como reserva indígena. E acusou: "Onde tem o mapa de uma reserva há coincidência com o mapa das riquezas minerais. Depois de destacar que os índios são apenas 10% da população de Roraima, Mozarildo afirmou que 80% dos índios vivem em áreas urbanas, integrados com o resto da população mestiça e branca. Esses índios, segundo ele, são vereadores, prefeitos e funcionários públicos nessas cidades. "Índios aldeados, mesmo, não chegam a ser 20% dessa população", revelou.

***** Se mentir à CPMI, Aparecido será preso

A presidente da CPMI dos Cartões, Marisa Serrano (PSDB-MS), disse hoje que se José Aparecido Pires, o vazador do dossiê sobre os gastos sigilosos do governo Fernando Henrique, mentir durante o depoimento, ele poderá sair preso da reunião. Segundo Serrano, se houver condições de provar que Apareceido está mentindo, ela sera preso: “ele só tem duas alternativas, ou fica quieto ou conta tudo o que aconteceu”, afirmou.

***** Minc com a palavra

O que dirá do assunto o novo ministro Carlos Minc, que já andou batendo boca com o governador Blairo Maggi, um dos maiores plantadores de soja do mundo?

***** Governo Lula arma nova CPMF para cima do contribuinte

De acordo com informações da Folha, o governo Lula prepara uma "nova CPMF", além de um aumento no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), que é cobrado sobre o fumo. O tarifaço, segundo a administração petista, é para obter verbas para a Saúde. O novo tributo sobre movimentação financeira teria alíquota de 0,08% (a da CPMF era de 0,38%) e renderia ao menos R$ 8,7 bilhões (média neste ano). Já o IPI, com alíquota de 25% do valor do maço de cigarro, deve sofrer um aumento maior, ainda não definido.

Para aumentar gastos não falta dinheiro. Durante cinco anos Lula dispôs de toda CPMF do mundo e a saúde nem por isso melhorou. Até pelo contrário.

Por outro lado, o governo não pára de bater recordes de arrecadação, e tanto é que se dá ao luxo de lançar programas com desoneração tributária para algumas atividades econômicas. É de se esperar que o governo melhore sua gestão e qualifique melhor os serviços públicos que presta à sociedade, fazendo bem com o que tem. Depois, e se for o caso, se pense em aumentar a arrecadação.

No fundo, porém, está aquilo que alertamos logo após o anúncio do Programa Industrial: se de um lado o governo consegue abrir mão de suas receitas, mas sequer consegue frear seus gastos correntes, esta conta somente poderá ser fechada se o governo aplicar aumento de carga tributária em outros setores e atividades. Assim, a grana que poderia advir desta “nova” CPMF é para fechar o buraco que o governo está provocando em suas contas.

***** Lobby desastrado

O chefe do Gabinete Pessoal, Gilberto Carvalho, e o ex-aspone Frei Betto influenciaram o presidente Lula a assinar o decreto da demarcação da Raposa Serra do Sol. Quando soube ser falso o laudo antropológico que sustenta o decreto, Lula está irritadíssimo com a dupla

***** O desmatamento e o fast-food
Por Lauro Jardim, Radar, Revista VEJA

No momento em que a questão do desmatamento na Amazônia está pegando fogo, é bom ficar de olho numa reunião do dia 5 de junho, em Bruxelas. Os principais compradores europeus de subprodutos da soja brasileira (óleo, carne de frango e boi) vão se reunir para discutir se mantêm a moratória na compra de grãos plantados em áreas de desmatamentos na Amazônia. Na mesa, estarão pesos-pesados como McDonald’s, KFC e Carrefour. O prazo da moratória – decidida em 2006 por pressão desses compradores – acaba em julho. O lobby dos dois lados, sojicultores e ambientalistas, é poderoso.

***** Sarney afirma que Zélia Gatai deixa um espaço impreenchível no Brasil

Zélia Gatai e Jorge Amado: para Sarney, um pedaço do Brasil desaparece.

O senador e escritor José Sarney soube da morte de Zélia Gatai ao embarcar agora à noite para Nova York, onde vai ter reuniões com seu editor americano. Amigo desde a década de 50 de Zélia e de seu marido Jorge Amado, Sarney declarou:

- Ela foi a escritora que, ao lado do grande romancista, construiu uma obra memorialística e de ficção notável, referencial na literatura brasileira. Zélia foi uma incansável trabalhadora das letras e uma personalidade inconfundível. Sua permanente alegria, seu senso de humor e de responsabilidade eram marcantes no seu caráter. Os longos anos em que convivemos foram enriquecedores para mim, privilégio que a vida me concedeu de estarmos tão próximos e tão afetuosamente ligados. É um pedaço do Brasil que desaparece, nossa paisagem humana fica menor e nós da Academia Brasileira de Letras sentimos uma ausência que nunca será preenchida. Jorge Amado sem Zélia não teria construído a obra que construiu e ela sem Jorge não seria a escritora que foi. Eles dois foram para todos os brasileiros do nosso tempo um motivo de singular orgulho e privilégio, pois fomos contemporâneos desse tempo em que eles existiram, em que encheram a história do nosso povo, de nossa literatura, de nossa vida.