Adelson Elias Vasconcellos
Já há algum tempo acusamos aqui que o governo federal aplica um garrote sobre a população brasileira injustificável quando se trata de tarifa de energia elétrica.
Por mais que a imprensa cobre respostas do governo, estas nunca são dadas de forma satisfatória. E, quando afirmo ser injustificável, é em razão de que entre 70 a 80% de toda a energia produzida no país é feita a partir da hidroeletricidade que, além de limpa, é a mais barata forma de geração.
Mas, nem por isso, a tarifa é razoável. E é aqui que digo que o governo petista parece não entender qual deva ser a real presença do Estado na economia. Um estado é forte quando além da prestação de serviços públicos dignos, ele também atua no sentido de que os demais serviços sejam prestados de forma correta e a preços justos. Ou seja, quando o serviço é prestado por concessão do Estado à iniciativa privada, ele é devidamente regulado para que não se cometam abusos. No Brasil, ao contrário , além de não cumprir com a missão de regular e, principalmente, fiscalizar, é o Estado quem acaba penalizando a população com o excesso de tributação. Excesso que, diga-se, não serve para qualificar o serviço, mas para bancar a orgia que a politicalha nacional comete e assalta os cofres públicos com desmandos e corrupção de todo o gênero.
O dinheiro que deveria servir à população é, em todos os níveis da atividade pública, utilizado em benefício exclusivo da própria estrutura do Estado. Este é precisamente o caso, como vimos abaixo em reportagem do site Contas Abertas, da fortuna inútil que o Tribunal Superior Eleitoral está torrando em uma nova e dispendiosa sede. Nada do que se diga no sentido de que tal abuso se justifique é minimamente aceitável. O TSE pode funcionar sem tais luxos. Aliás, se ao menos cumprissem integralmente o seu papel já seria de bom tamanho. Contudo, além de se constituir numa exclusividade verde-amarela, é comum que suas decisões sejam confusas e fujam ao papel que lhe cabe como instituição. Nas eleições de 2010 o que não faltou foi infração à lei por parte da alta cúpula do Executivo Federal. O que sobrou por parte do TSE, neste quesito, foi justamente omissão.
Retornando ao foco, a tarifa de energia elétrica que é cobrada no Brasil há muito deixou de ser apenas abusiva. Converteu-se em verdadeiro assalto pelo Estado ao bolso dos consumidores. Trata-se de um serviço essencial, razão pela qual deveria até ser isento de quaisquer tributos. Mas qual, quem disse que a ganância do poder público se contenta em ser extorsivo para alimentar sua própria fome em mal empregar o dinheiro que a sociedade ganha honestamente?
Mesmo se comparada com países ricos e, dentre estes, com aqueles que empregam maciçamente energia gerada por outras fontes bem mais caras, como o carvão e nuclear, por exemplo, a tarifa brasileira é bem mais elevada. O levantamento foi feito pelo professor de economia Alcides Leite e com prova que a energia elétrica fornecida para residências no Brasil é mais cara do que em diversos países ricos como Estados Unidos, França, Suíça, Reino Unido, Japão e Itália.
Enquanto no Brasil o quilowatt-hora (kWh) custa US$ 0,254, nos EUA o preço é de US$ 0,133. Tomando como exemplo uma família que consome mensalmente 300 kWh, o gasto anual com a conta de luz fica em US$ 914,40 no Brasil e US$ 478,80 nos EUA. Na Alemanha, onde a energia é a mais cara entre os 17 países analisados, o custo anual seria de mais de US$ 1.000.
Compare os preços médios da energia elétrica residencial, sempre em dólares, por kilowatt-hora, incluindo tributos, e também o gasto anual de uma casa hipotética onde se consomem 300 kWh todo mês:
País Preço em kWh Gasto anual c/300 kWh / mês
Alemanha 0,308 1.108,8
Áustria 0,255 918,0
Brasil 0,254 914,4
Itália 0,252 907,2
Japão 0,246 885,6
Irlanda 0,236 849,6
Holanda 0,216 777,6
Portugal 0,201 723,6
Inglaterra 0,200 720,0
Turquia 0,183 658,8
Suíça 0,182 655,2
Polônia 0,182 655,2
Noruega 0,155 558,0
Grécia 0,150 540,0
França 0,148 532,8
Estados Unidos 0,133 478,8
México 0,082 295,2
Fontes:
Brasil = Aneel.
Demais países = Agência Internacional de Energia.
OBS: preços de dezembro de 2010.
No Brasil, conforme vimos no quadro acima, o preço médio da energia elétrica residencial gira em torno de US$ 0,25 / kWh. Sobre este valor incide uma carga tributária (tributos e encargos) que representa 45% do valor da tarifa paga pelo consumidor. Segundo a OCDE, trata-se da quinta maior carga tributária, atrás apenas da vigente em países do Norte da Europa.
Quando se compara o preço do serviço entre diversos países, observa-se que em apenas dois, a tarifa é mais alta que a brasileira: Áustria e Alemanha.
A tarifa brasileira é superior a da francesa, onde a matriz energética é muito cara, por ser de natureza essencialmente nuclear. No Brasil, paga-se quase 70% a mais do que na França. Em relação aos EUA, a diferença é ainda maior. O preço da energia elétrica brasileira é o dobro da norte-americana, o maior consumidor per capita desse serviço no mundo.
Desta forma, são penalizadas principalmente as classes de menor renda, cujo dispêndio com serviços essenciais e alimentação representa parcela majoritária de seus gastos correntes.
A indústria, no entanto, é setor da economia mais prejudicado pelo alto custo energético. Segmentos eletrointensivos, como os de alumínio, papel e celulose, petroquímicos e siderúrgicos, vêem parte de sua competitividade ser comprometida. Alguns não exportam o volume que desejariam, ao mesmo tempo em que enfrentam crescente concorrência com produtos importados.
Outro problema é que a elevada participação da energia elétrica no custo total de produção, tanto nesses, como em outros setores, afugenta novos investimentos. Nesse ambiente, não se pode desprezar o risco de que muitas empresas sejam estimuladas a instalar suas plantas em outros países, onde a tarifa de energia elétrica seja mais barata que a nossa.
Contudo, não apenas o governo federal é o grande vilão nesta história. Os governos estaduais tem lá sua grande parcela de culpa no assalto que se comete ao bolso dos consumidores. Tudo porque o brasileiro paga ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) duas vezes em cada conta de luz, conforme observa o professor de economia Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios.
Essa informação não está explícita na discriminação da conta, o que caracteriza bem a vigarice cometida pelo poder público. Veja o exemplo abaixo.
No detalhamento da conta, é possível ver que, sem os tributos, o valor a ser pago seria de R$ 217. Com os tributos, o custo sobe para R$ 312.
Mais para baixo, vê-se a informação de que a base de cálculo do ICMS são os R$ 312, ou seja, o valor no qual já incide o ICMS.
No caso da conta acima, o ICMS totalizou R$ 78. Portanto, esse imposto abocanhou 36% do que ele gastou, e não 25%, como levaria a crer a informação constante da parte de baixo da conta (a descrição da base de cálculo do tributo diz que a alíquota é de 25%, o que pode levar um desavisado a pensar que o ICMS é de 25% sobre o consumo, mas é sobre a soma do consumo com os impostos).
Além do ICMS e do PIS/Cofins, incide sobre a conta uma contribuição municipal para serviços de iluminação pública. Com isso, a carga de tributária na conta é de 50%. Na média do Brasil, segundo o economista Paulo Rabello de Castro, essa proporção é de 45%.
Portanto, enquanto o Poder Público continuar assaltando o contribuinte brasileiro, jamais governante algum terá moral para se autoproclamar de “defensor dos pobres”. Jamais governo algum poderá se autodenominar de “tudo pelo social”, ou de “um país de todos”. Quando muito, estes cretinos poderão sentenciar de que o Brasil é um país de tolos feito para poucos usufruírem, com e sem vigarices.