segunda-feira, fevereiro 07, 2022

‘Extrema-direita de 1922 era menos nociva que a atual’, diz pesquisadora

 Diego Braga Norte 

Veja online

Para a historiadora Marcia Camargos, a elite brasileira que patrocinou a Semana de Arte Moderna também era mais esclarecida que a contemporânea

 - Acervo M. Camargos/.

FERAS - Os artistas e mecenas da Semana de 1922, 

em retrato famoso feito dois anos depois: iconoclastia 

Vinte anos depois do lançamento do seu livro Semana de 22: Entre Vaias e Aplausos (Boitempo), a historiadora Marcia Camargos está de novo “de corpo e alma” pesquisando o modernismo. De Paris, onde vive desde 2016, Marcia conta que acaba de finalizar seu pós-doutorado na Universidade de Sorbonne sobre os modernistas brasileiros na França durante os chamados “anos loucos” da década de 1920. Em conversa com VEJA, ela diz que acompanha com muito interesse os desdobramentos do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e traça paralelos entre a sociedade da época e a atual.

Para ela, 100 anos depois da Semana, apesar das contradições internas e muitas correntes, é inegável a contribuição do modernismo o país. A historiadora ainda aponta o movimento como a “presença mais forte que existe na cultura brasileira”. Por outro lado, muitos ideais progressistas e civilizatórios do modernismo se estagnaram ou até retrocederam. Leia abaixo trechos da conversa de Marcia Camargos com Veja:

 Em 2002, quando a Semana fez 80 anos, a senhora lançou um livro fazendo um balanço crítico do modernismo e afirmou que o movimento, diferente de outras correntes estéticas anteriores, é mais fragmentado. Poderia explicar melhor essa característica? 

A Semana de 1922 foi um grito público, um relâmpago que ajudou a disseminar o que depois seria definido como modernismo. Acontece que o modernismo não é um estilo fechado, com regras estéticas bem delimitadas como, por exemplo, o gótico e o barroco. O que nós costumamos chamar de modernismo brasileiro foi elaborado depois de 1922 pelos próprios participantes, por intelectuais, estudiosos, pela incorporação de inúmeros outros elementos que não estavam presentes na Semana; como o folclore, as culturas negra e indígena e outros. O modernismo é bastante fluido. É mais uma tendência que um estilo. Como ideia, é a presença mais forte que existe na cultura brasileira. Na época, dentro do próprio movimento modernista havia embates e correntes muito díspares, como a antropofagia libertária do Oswald de Andrade e o movimento Verde-Amarelo, de inspiração fascista, do Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia.

 Falando nessa aproximação de alguns modernistas com um nacionalismo de inspiração fascista, dá para traçar paralelos com o momento atual, com pessoas do governo federal, das elites e da cultura flertando com o autoritarismo? 

A extrema-direita brasileira da época era menos nociva do que a atual. Eles não estavam no poder e nem eram ligados às milícias. O integralismo nunca teve a força popular que o nazismo e o fascismo tiveram na Europa. Pelo contrário, em vários momentos eles foram rechaçados pelo povo trabalhador, como na famosa Revoada dos Galinhas Verdes na Praça da Sé [em 7 de outubro de 1934, os integralistas foram impedidos de fazer uma manifestação de inspiração fascista no centro de São Paulo].

 Seu livro e outros trabalhos destacam o papel central da elite da época no financiamento e propagação do modernismo. Qual o papel das elites na cultura brasileira hoje? 

A elite da época era melhor que a atual, tinha uma visão mais progressista da sociedade. Grande parte da elite da época era bem educada, vivia em contato com a Europa. Era um pessoal positivista, com a intenção de conduzir o progresso. Queriam promover a educação, saúde e esportes, criar um país mais progressista, mais moderno. É nessa época que surgem o ensino público gratuito para todos, as bibliotecas públicas, as Santa Casas patrocinadas com dinheiro privado e outras conquistas básicas. É claro que eles queriam manter seus privilégios, mas tinham essa visão progressista. A elite de hoje, com raríssimas exceções, é absolutamente conservadora e fechada em si mesma, não tem visão de futuro, de país, de cidadania. Hoje só pensam em aumentar seus privilégios. Fazem fundações com o nome da própria empresa, abatem impostos e o resultado acaba sendo melhor para o negócio do que para a população.

Hoje, muitas décadas depois desse ímpeto progressista que a senhora menciona, é possível falar em modernidade no Brasil?

 A modernidade é não epidêmica, contagiosa, mas algo construído, um processo cultural, social e econômico. Muita gente vai a Dubai, vê tudo aquilo e se espanta: “Nossa, que moderno!”. Mas se esquecem que lá é uma ditadura islâmica retrógrada, machista, que explora o trabalho de imigrantes em condição análoga à escravidão. O conceito de modernidade é e deve ser sempre mais humanista. Modernidade é inclusão social, distribuição de renda, educação, saúde e cultura. Direitos básicos que são negados à maioria da população. Hoje, no Brasil, tem gente passando fome e comprando ossos para fazer sopa. Não dá para falar em modernidade com uma situação dessas.

A Semana é frequentemente criticada por ter sido um evento elitista. A senhora concorda?

 Sim, foi elitista. A elite estava no centro do palco e os marginalizados estavam fora do Teatro Municipal. O povo, a cultura popular, elementos negros e indígenas não estavam presentes na Semana de 22. Não teve violão, pandeiro, cavaquinho, nada disso. E na época, os moderníssimos Donga e, principalmente, Pixinguinha já eram muito populares, inclusive fora do Brasil. Mesmo mulheres, havia pouquíssimas, dava para se contar nos dedos de uma mão. A Semana teve a Anita Malfatti, Guiomar Novaes, Zina Aita e uma bailarina obscura. Depois, num movimento que se inicia, sobretudo, com as viagens etnográficas do Mário de Andrade a Minas, Amazônia e outras regiões do país, o modernismo foi se enriquecendo dessas referências. Hoje, indígenas, negros e moradores de favelas estão muito mais presentes no circuito cultural e literário, e isso é ótimo. Eles estão tomando o centro do palco e estariam em peso numa hipotética nova Semana.

Em seu livro, a senhora menciona algumas aspirações do movimento modernista como utópicas. Poderia explicar melhor essa abordagem? 

O modernismo, conceitualmente, é uma boa utopia. Esse desejo de construção de uma identidade nacional é utópico. No fundo, o que é identidade nacional? O nacional está permeado e contaminado por vários elementos estrangeiros. Ou seja, deixou de ser nacional. É uma utopia no sentido em que quanto mais chegamos perto dessa identidade nacional, mais ela se afasta. Mas é isso que nos faz andar. Mais que definir, essa utopia cria percursos, construção de saberes, repertórios culturais.

Cem anos depois, quais os maiores legados da Semana de 1922 e do próprio modernismo?

 Os maiores legados são a antropofagia e o rompimento das barreiras entre a arte popular e a erudita. É preciso sempre destacar o esforço dos modernistas em fazer conexão com nós mesmos, com nosso povo e nossa cultura. Foi um movimento de construção de pontes e destruição de barreiras. Se atentarmos para o que veio depois — como a Bossa Nova e a Tropicália, por exemplo —, vemos muito claramente a mistura do refinamento intelectual, das bases eruditas, com o popular.


Diante da ameaça de cancelamento, artistas decidem eliminar canções machistas do repertório

 Vicente Vilardaga

Revista ISTOÉ 

Diante do anacronismo das letras ou de referência machistas, racistas, homofóbicas ou de estimulo à violência, muitos artistas, em uma espécie de autocrítica, decidem eliminar canções clássicas de seu repertório ou modificá-las para que sejam aceitas nos novos tempos 

O cantor e compositor Chico Buarque decidiu excluir definitivamente a música Com açúcar, com afeto, um dos seus maiores clássicos, do repertório de shows. Não foi por uma pressão imediata do movimento feminista ou por qualquer conteúdo aversivo da canção. Nem por uma cobrança social pela autocensura. Trata-se de uma espécie de precaução anti-cancelamento, de uma revisão crítica movida pela constatação de que a música caducou diante dos novos comportamentos e da evolução da condição da mulher. Composta em 1967, a pedido da cantora Nara Leão, que encomendou para Chico uma exaltação da fêmea sofredora no estilo de velhos sambas, como Ai, que saudades da Amélia, a música, embora seja ótima, hoje pode ser ouvida apenas como um elogio à submissão feminina. A situação que ela apresenta é típica de uma mentalidade do passado em que o homem saía para a rua e a mulher ficava em casa resignada, só esperando ele chegar depois da esbórnia.

 (Crédito: Divulgação)

CONSCIÊNCIA Chico Buarque decidiu eliminar a música Com açúcar, com afeto do repertório de seus shows por causa do elogio à mulher sofredora: atitude politicamente correta 

Para Chico, que revelou a intenção de abandonar a música no documentário “O Canto Livre de Nara Leão”, ela não cabe mais nas suas apresentações. “As feministas têm razão, mas elas precisam compreender que naquela época não passava pela cabeça da gente que aquilo era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar Com açúcar, com afeto mais e se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente”, disse o artista. É sabido que a canção já estava fora de seus espetáculos há muito tempo, desde 1986. Mas Chico marcou posição citando feministas em geral. E reforçou uma discussão sobre a cultura machista de diminuir, menosprezar ou demonizar a mulher, seguindo um caminho que vem sendo adotado por muitos outros cantores e bandas de refletir sobre o anacronismo de parte de suas obras.

 (Crédito:Rob Grabowski)

Os Rolling Stones eliminaram a música Brown Sugar

 dos shows: violência contra a mulher negra 

Recentemente, os Rolling Stones também anunciaram que excluiriam de seus shows a música Brown Sugar (Açúcar Mascavo), lançada no álbum Sticky Fingers, em 1971. Nela, há referência a uma mulher vendida como escrava e sendo chicoteada por um velho feitor por volta da meia-noite. Alguém que ouve o barulho do chicote canta no refrão “Açúcar mascavo, como é que você tem um gosto tão bom”, em uma evidente sensualização da violência contra a mulher negra. Desde 1995, pelo menos, o vocalista da banda, Mick Jagger, via problemas na música, que romantiza a escravidão e reafirma estereótipos. Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, ele declarou que “nunca a escreveria agora”. “Eu, provavelmente, me censuraria”, completou. Já o guitarrista Keith Richards demonstrou resistência à exclusão de Brown Sugar do repertório das apresentações, e disse que ela trata dos “horrores da escravidão”, ou seja, que é mais crítica do que politicamente incorreta. A decisão final da banda, porém, se alinha com a tendência geral de admitir erros do passado e atender demandas identitárias e alinhadas com uma visão histórica renovada, que não negligencia, por exemplo, o sofrimento de milhões de africanos trazidos à força para a América.

 

DEBATE Para a cantora de hip hop Livia Cruz, as críticas desproporcionais 

podem virar uma espécie de censura: não se deve responsabilizar 

o artista pelos problemas sociais

Chico não foi tão longe como os Stones na incorreção política em Com açúcar, com afeto, embora as duas músicas tenham açúcar como mote, mas percebeu que a canção tem problemas. “Não houve qualquer pressão do movimento feminista, o que deve ter acontecido é que ele deve ter ouvido das amigas que a música estava datada”, diz a blogueira feminista e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lola Aronovich. “Tem gente que pode ver a exclusão como uma espécie de autocensura imposta por valores culturais, mas é só uma decisão do artista. Há uma velha tática machista de criar falsas polêmicas em nome do feminismo para deslegitimá-lo”. Em 1942, quando, por exemplo, Ataulfo Alves e Mario Lago lançaram Aí, que saudades da Amélia, que se tornou um símbolo da mulher submissa, eles não poderiam imaginar que haveria uma profunda transformação social. Vinte cinco anos depois, na gravação de Com açúcar, com afeto, apesar da contracultura e da popularização das ideias progressistas, a condição feminina ainda era desigual e precária e a resignação e a passividade eram tratadas como virtudes. São músicas que retratam uma época. Mas o tempo passa e os artistas continuam refletindo sobre a mudança da realidade e são pressionados a rever politicamente suas obras, buscando uma correção, um ajuste e atualização de postura por causa da evolução mental de seu público.

Em geral, a decisão de cantores de excluir músicas de seus repertórios tem envolvido temas como machismo, racismo, homofobia ou estímulo à violência. Nos últimos dez anos, o movimento hip hop e os músicos de rap brasileiros, por exemplo, numa revisão crítica que começou bem antes de Chico Buarque e da MPB, têm discutido profundamente a questão do machismo e do preconceito nas músicas. Em 2017, o líder dos Racionais MC’s, Mano Brown, declarou que nunca mais cantaria determinadas composições suas da década de 1990, como Mulheres Vulgares e Estilo Cachorro. Em Mulheres Vulgares, Brown perguntava “Mulher, que tipo de mulher?/ Se liga aí: derivada de uma sociedade feminista/ que considera e diz que todos somos machistas”. Para justificar sua decisão, o rapper disse em uma entrevista que foi “criado de maneira machista, mas o mundo está mudando – e para melhor”. “Não podia continuar errado desse jeito. Não faz nenhum sentido o homem ser beneficiado só por ser homem, é injusto”, declarou.

Revisão no Rap

 (Crédito:Divulgação)

AUTOCRÍTICA O líder dos Racionais MC’s, Mano Brown, deixou de cantar várias composições da década de 90, como Mulheres Vulgares, por causa do conteúdo machista 

Antes de Brown, em 2013, o rapper Emicida enfrentou críticas por conta de versos machistas na música Trepadeira, do disco “O Glorioso Retorno de Quem nunca esteve aqui”, na qual diz, por exemplo, que “Margarida era rosa, bela, cheirosa e grampola/Chamei de banquete era fim de feira/Estendi tapete mas ela é rueira/Dei todo amor, tratei como flor/mas no fim era uma trepadeira”. Diante dos ataques, Emicida se defendeu afirmando que a música “não é um manifesto de como eu percebo as mulheres”. “Isso gerou uma provocação muito importante para mim, de pensar e ajudar a ver um monte de coisa que, não é que eu não visse, mas que eu não dava a atenção que tinha que dar”, completou. Com o mesmo espírito revisionista, o rapper Criolo alterou em 2018 sua música Vasilhame, de 2006, e no lugar de “os traveco tão aí! Alguém vai se iludir” colocou “o universo ta aí! Alguém vai se iludir”. Já há tempos a palavra “traveco” se tornou inaceitável e ofensiva. A dupla Sandy e Júnior também alterou o final da letra de Maria Chiquinha por causa do conteúdo machista.

A cantora e compositora de hip hop Livia Cruz, que promove uma discussão sobre o lugar das mulheres no seu ambiente musical, acha que essas iniciativas de revisão histórica podem ser “uma faca de dois gumes”. “Acho importante que exista um debate sobre discursos que depreciam as mulheres, mas não podemos personalizar em um artista a responsabilidade por um problema social”, diz. “O maior problema é que a crítica é desproporcional e pode virar uma espécie de censura, além de levar a uma postura de cancelamento do autor. O rap é machista, o hip hop é machista, mas o mundo é machista.” Segundo ela, frequentemente a música pode estar promovendo uma crítica à condição da mulher submissa em vez de um elogio à submissão, como acontece em outra canção de Chico Buarque, Mulheres de Atenas. “Depende muito da interpretação”, afirma. Para Lívia, músicas não devem ser banidas ou censuradas, mas lembradas e incluídas no debate público.

Marchinhas banidas

 Divulgação

Músicas carnavalescas são pelo pensamento politicamente correto

Se há um tipo de música que caiu no esquecimento por causa do pensamento politicamente correto é o das marchinhas de Carnaval. Nelas, historicamente, se destila todo tipo de preconceito de uma forma bem humorada, mas que nos dias de hoje se tornou inaceitável. Embora tenham sido compostas em outros tempos e sejam retratos de uma época, algumas delas se alimentam de ideias ultrapassadas e fora de lugar. Apesar de não estarem banidas ou proibidas soam anacrônicas e perderam a graça.

Na lista de músicas de Carnaval para serem esquecidas ou filtradas por um pensamento identitário entram clássicos da folia como Teu cabelo não nega, de Lamartine Babo (na foto abaixo), que tem vários versos racistas, ou Cabeleira do Zezé e Maria Sapatão, ambas de João Roberto Kelly, consagrado autor do gênero. Na primeira, ele canta que Zezé “parece transviado” e em seguida lança o refrão “será que ele é, será que ele é” e “corta o cabelo dele!”. Na outra, lançada em 1981 e promovida pelo apresentador Chacrinha, fazia chacota das mulheres lésbicas com versos como “de dia é Maria e de noite é João”. São músicas que não dabem mais em uma nova ordem, mas que são documentos da história. Quando foram criadas elas só pareciam ingênuas e divertidas.


A nova guerra entre esquerda e bolsonaristas: quem ameaça mais a democracia?

  Eliane Cantanhêde*, 

O Estado de S.Paulo

Não é à toa que, após quase 40 anos da redemocratização, os presidentes do Supremo, do TSE e do Senado se sentem obrigados a defender a democracia e as instituições

Engana-se quem considera que o presidente Jair Bolsonaro está morto para as eleições de outubro. Apesar de todos os absurdos, erros e perdas de apoios, o presidente tem o cargo, estrategistas e vai operar cada vez mais o temor do irreal “comunismo” e real da volta do PT e do ex-presidente Lula.

Se o Supremo, setores do Congresso e da opinião pública trabalham com a hipótese de Bolsonaro reagir a la Donald Trump em caso de derrota, grupos bolsonaristas, inclusive da área militar, reagem na mesma moeda: segundo eles, se alguém tem condições de agitar as ruas do País são Lula e esquerda.

No discurso público e nos bastidores, oficiais de Exército, Marinha e Aeronáutica garantem que não participarão de nenhuma “aventura golpista” a favor de Bolsonaro ou de ninguém. E acrescentam: vão respeitar o resultado das urnas, qualquer que seja o novo presidente – ou seja, o novo comandante em chefe das Forças Armadas.

Nas conversas ao pé do ouvido, porém, as três forças trabalham com variados cenários e o mais drástico é de convulsão nacional. Isso vale também para o caso de derrota de Lula, não só para a de Bolsonaro.

Nessas análises, as ameaças de Bolsonaro são mais explícitas, mas menos críveis. Para um filho, basta “um cabo e um soldado” para invadir o Supremo, para um então ministro, os ministros da Corte deveriam ser presos, daqui e dali fala-se em “novo AI-5”. E o próprio presidente ameaça descumprir ordem judicial em pleno Sete de Setembro. Só “bravata”?

O problema, para setores militares e bolsonaristas, porém, está na esquerda. Segundo eles, Lula tem liderança, está ressentido depois de preso e conta com MST, sindicalistas e radicais, com capacidade para produzir tumultos de rua, quebra-quebra e ameaças à democracia em caso de derrota.

Atenção: não considero esse risco, mas escrevo porque se trata de informação relevante, para ficar no radar o que setores bolsonaristas pensam e, eventualmente, podem usar para validar algum tipo de “reação à altura”.

Na realidade, foi Bolsonaro quem desde o início do seu governo armou civis, foi complacente com o motim da PM no Ceará e forçou alianças com as polícias. E é ele quem insiste na fake news de que a eleição de 2018 foi fraudada e as urnas eletrônicas não são confiáveis. É ele, enfim, quem replica Trump, capaz de estimular o Capitólio.

Não é à toa que, após quase 40 anos da redemocratização, os presidentes do Supremo, do TSE e do Senado se sentem obrigados a defender a democracia e as instituições. Não há clima nem lideranças capazes de incendiar o País, ganhe quem ganhar, mas a campanha vai ser sangrenta...

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Isto é um país?

  Dorrit Harazim

O Globo

Por razões industriais, o texto de domingo desta coluna é finalizado com dois dias de antecedência. Antes, portanto, de conhecermos a dimensão das passeatas agendadas para este sábado (ontem) em homenagem ao refugiado congolês Moïse Mugenyi Kabagambe. A troco de nada, o jovem negro fora abatido como animal por três indivíduos que também trabalhavam sem registro nas areias idílicas da Barra da Tijuca. As circunstâncias da curta vida de Moïse (24 anos), narradas pela mãe, somadas à agonizante morte a pauladas do filho, cobriram o país de uma vergonha nova: testemunhar, através das imagens captadas em vídeo, a execução do jovem entregue aos cuidados do Estado, como refugiado de guerra. Dói, humilha, desespera, abate. E impulsiona o instinto represado de sair do confinamento cívico, de se fazer ouvir, assinar manifestos, ir às ruas, gritar até perder o fôlego.

Muito bem. E depois? Nada mudará se, de volta à rotina, não percebermos os tantos Moïses, imigrados ou nacionais, com quem convivemos sem interesse, cruzamos na rua, no trânsito, no trabalho e na vida, num simulacro de sociedade. Sociedade violentamente racista. A congolesa Ivone Lay, mãe do filho linchado, descobriu tarde demais o que todo negro brasileiro aprende já no ventre da mãe: que um jovem negro é morto no Brasil a cada 23 minutos, segundo o Atlas da Violência 2021. Talvez seja da educadora Yvonne Bezerra de Mello, em entrevista à jornalista Ruth de Aquino no GLOBO, a constatação mais crua da realidade atual: “A civilização abandonou o Brasil. É um processo de desconstrução do ser humano no coletivo”. Em três semanas deste verão carioca de 2022, houve 12 tentativas de linchamento de suspeitos de assalto nas areias da Zona Sul.

Para refugiados africanos, haitianos e outros desvalidos à deriva, soa atraente a fantasia de um paraíso tropical tolerante e acolhedor chamado Brasil, de língua única, sem massacres étnicos nem guerras religiosas. O guineense Luís Fernandes Junior veio estudar Pedagogia na Bahia em 2018, apesar de alertado sobre a violência brasileira por sua família na Guiné-Bissau que assiste ao programa policialesco “Cidade alerta”, da TV Record. Em dezembro, foi retirado do banheiro de um shopping por um segurança, acusado de ter roubado a mochila que acabara de comprar na loja Zara. “Fui perceber o racismo aqui no Brasil. Nunca havia vivenciado isso... A forma de me abordar foi desumana”, contou à Folha de S.Paulo, em terno depoimento sobre raça e ancestralidade.

Enquanto não for dada visibilidade máxima a casos miúdos ou extremos, sempre perversos e nascidos do mesmo caldo de exclusão social do negro, uma mudança estrutural da sociedade brasileira levará outros 134 anos. Se fizermos as contas das montanhas de páginas de jornal e de noticiário televisivo que as mídias dedicam a picuinhas do chamado Centrão, cabe perguntar se isso é de real interesse da população. E as alianças e mésalliances partidárias, então? Elas são destrinchadas em minúcias, sempre distantes do dia a dia do cidadão cansado. Este mesmo cidadão entende bem melhor o relato-desabafo feito dias atrás pelo tenor lírico Jean William para a jornalista Mônica Bergamo. William fazia a travessia na balsa Santos-Guarujá sentado no banco do motorista do seu super Jeep, quando foi abordado por um PM, que lhe apontava uma arma. Intimado a descer com as mãos para o alto, foi perguntado aos gritos se era o proprietário do veículo de luxo, se tinha ficha na polícia, se portava drogas. Dentre os vários outros motoristas na balsa, só ele foi pinçado e tratado como bandido à vista de todos. William é negro.

A literatura brasileira mais recente parece estar léguas à frente das mídias profissionais no enfrentamento da tragédia brasileira. O Brasil ainda pode ser considerado uma nação, quando ancorado no racismo estrutural e na violência estimulada? O que levou um sargento da Marinha a matar com três tiros disparados do seu automóvel um vizinho de condomínio, quarta-feira, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio? “A localidade aqui é perigosa, costuma ter assaltante”, explicou o atirador. Durval Teófilo Filho voltava do trabalho em Niterói, onde era repositor de estoque. Era negro, estava a pé, e mexera na mochila que trazia no peito para pegar as chaves do portão. Bastou para morrer.

No próximo dia 14 de março completam-se quatro anos do traumático assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Até hoje, as investigações não chegaram à identidade do mandante do crime, nem à motivação da execução da parlamentar. Em compensação, esta semana assumiu um novo titular na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), encarregada da apuração. É o quinto titular desde o ataque no qual também morreu metralhado o motorista de Marielle, Anderson Gomes.

O negro brasileiro não é refugiado nem asilado, como os que chegam de terras estrangeiras em busca de uma nova vida. O negro brasileiro se sabe excluído em seu próprio país, e não há democracia possível num contexto destes. Já passou da hora de o Congresso e o Poder Judiciário assumirem sua responsabilidade na construção de uma sociedade menos vil. Do Executivo atual é inútil esperar algo, só o pior.


O desespero pela derrota iminente

 Carlos José Marques

Revista ISTOÉ 

(Crédito: ilustração: Aroeira)

Avança pelos corredores do Planalto e toma conta da Esplanada dos Ministérios e da base aliada a sensação de um fracasso histórico e de uma derrota fragorosa do mandatário nas eleições que estão por vir. Ele mesmo já teria se dado conta disso. As pesquisas, até as internas que seus auxiliares encomendam, não deixam dúvidas. Ao menos 64% das pessoas disseram que não votam nele de jeito algum, estatística difícil de reverter nesses termos – faça o que fizer e apesar de contar com a máquina na mão e toda a sorte de ferramentas do Estado para atrair eleitores. Mais da metade, 51%, acham seu governo ruim ou péssimo. Bolsonaro se esvai no desespero e parte para o tudo ou nada, ensandecido. No afã de se mostrar popular, surge, deprimentemente, numa cena grotesca, devorando um frango assado com as mãos, debaixo de uma tenda armada, espalhando farofa para todo o lado como um animal esfomeado. É um espetáculo montado, filmado e dirigido para transmitir a ideia do homem simples, algo que não é. Filho e ministro coordenam, calculadamente, os movimentos.

 O teatro provoca efeito contrário. Em um País onde mais de 20 milhões de brasileiros não possuem absolutamente nada para comer e mais de 50 milhões sofrem de alguma carência alimentar, ele encena a fartura, saciado, empanturrado, sem modos ou cerimônia. O mesmo presidente pilhado em passeios de jet ski ou lanchas em resort, dançando funk, com gastos astronômicos no cartão corporativo – batendo um recorde sem precedentes entre os pares, nesse sentido –, com mais de R$ 30 milhões de despesas em três anos de gestão ou quase R$ 1 milhão ao mês não é exatamente um pé rapado. Para o assalariado, que sofridamente corre atrás de saídas, todos os dias, para quitar as contas, a ideia de alguém com a esplêndida mordomia que o cerca (carros, palácios, seguranças e gordos rendimentos), sem ter de abrir a carteira para nada, gastar essa baba de dinheiro, sabe-se lá em quê, é desaforo. Assim, a pantomima da farofada protagonizada pelo titular do poder central não convence. Nem os seguidores aprovam. 

O vídeo é rapidamente tirado do ar. Não adiantava mais. O estrago promovido por cada uma das aparições do capitão tem sido enorme. Ato contínuo ao frango com farofa, ele resolveu sobrevoar áreas atingidas pelas chuvas e desabamentos em municípios ribeirinhos de São Paulo, que enfrentam uma catástrofe tenebrosa, inclusive com perdas de vidas. Quase três dezenas de pessoas até aqui foram levadas pelas enxurradas. O presidente, em um impulso descabido e de notório preconceito, resolveu culpar as próprias vítimas. Disse que faltou a elas visão de futuro. Difícil acreditar que o chefe da Nação foi capaz de uma barbaridade dessas. Ele é quem parece não ter visão alguma, nem do presente, nem do impacto que declaração tão desmiolada provoca de revolta. A percepção de um presidente insensível, psicopata e desprovido de moral prevalece. As agremiações que até aqui lhe davam guarida vão aos poucos desembarcando. A debandada de apoio é notória e acelerada.

Mesmo de venais parceiros até aqui fiéis. O Centrão, por exemplo, já pouco acredita na recondução do Messias e pensa em mudar de lado. Justamente rumo ao extremo oposto onde está lotada a candidatura do demiurgo de Garanhuns. Para esse bloco, não interessam colorações ideológicas, plataforma programáticas, valores democráticos. Não é disso que se trata e sim da permanência garantida nas tetas do Estado, ao lado do vencedor da vez. E Bolsonaro fornece indicações de não reunir hoje a menor condição nesse sentido. Ele perde literalmente de TODOS os adversários em segundo turno, demonstrando o quanto arredia está a parcela majoritária do eleitor a sua figura. Bolsonaro é o diabo a ser excomungado de Brasília, pensa a maioria, após os atos tresloucados em que atuou contra a vacina ou a favor de golpes. 

Ninguém quer mais um lunático no comando, capaz de digressões à Lei e à ordem, com uma natureza fascista e corrompida por esquemas de favorecimento a filhos, amigos e apaniguados de última hora. Os urubus da boquinha estão correndo atrás de outra carniça e muitos acreditam que se Bolsonaro não desistir da corrida ou, eventualmente, alcançar o segundo turno, Lula estará eleito. Por mais contraditório que possa parecer, ele empurra o adversário direto para o seu lugar. Nesse quadrante da campanha e diante dos fatos, o mandatário parece disposto a radicalizar, esquentando a turba dos fanáticos que tradicionalmente o acompanham. Resolveu peitar novamente o Supremo Tribunal, mirando, como de hábito, o desafeto de plantão, ministro Alexandre de Moraes. Contrariou ordens de prestar testemunho à Polícia Federal sobre uma acusação de vazamento de informações, e ficou por isso mesmo. Outro magistrado, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, diz que faltam adjetivos para qualificar atitudes de Bolsonaro que “auxiliam milícias digitais e hackers”. No inferno astral que enfrenta, desprezo, farofa e visão de futuro distorcida são combustível explosivo contra suas ambições. A retirada das tropas de suas hostes – e o Partido Republicanos foi 

Bolsonaro, vítima dos injustos.

 Carlos Brickmann 

E precisaram gastar dinheiro para descobrir o óbvio? O PL, o partido que hoje abriga a família Bolsonaro, mandou fazer uma pesquisa sobre como o presidente é visto no país. Resultado: xingações, brigas, ameaças, gritaria, o “acabou, porra!” chamam muito mais a atenção da opinião pública do que as realizações do Governo federal. Ou seja, haveria uma falha na comunicação do presidente: como diz a pesquisa, a posição dos principais integrantes do Governo sobre temas polêmicos se torna mais visível do que realizações, o que prejudica a campanha. Claro que quem comanda a campanha, o filho 02 Carluxo Bolsonaro, ama de paixão uma boa polêmica – mas o partido sabe disso, e o cacique Valdemar Costa Neto, quando atraiu os Bolsonaros para o PL, não seria ingênuo de acreditar que seus aliados iriam dar pouco trabalho.

O PL, na verdade, planeja uma campanha em duas frentes: uma, a da ala ideológica, xingando a China, dizendo que a esposa de algum líder europeu é feia, que o mundo tem de aceitar a política florestal do Brasil porque, caso tente retaliar, vai ficar sem comida; e outra, usando o tempo de TV e de rádio para proclamar os grandes feitos de Sua Excelência & Filhos.

Mas, se é óbvio que declarações sobre Terra plana, nazismo de esquerda, campanha antivacina e outras do tipo predominam na formação de imagem do Governo, por que fazer pesquisa? O caro leitor há de convir que, se as verbas ficarem paradas, a máquina para também. Quem não gasta não recebe.

Férias na praia

Como diria o Aristides, por outro lado há também que analisar a fórmula inovadora de Bolsonaro de exibir seus feitos como governante. Neste fim do ano, digamos, tanto em Guarujá como em São Francisco do Sul, Bolsonaro mostrou de seu jeito o que faz.

Nas folgas, como no trabalho, nada.

Aquele samba

No Samba do Crioulo Doido, Sérgio Porto falava da vida dos autores de samba-enredo que tratavam de temas da nossa História. Abolição, Xica da Silva, tudo bem – mas na hora de cantar A Atual Conjuntura, o sambista endoidou de vez. O samba tem quase 60 anos, mas continua atual. Bolsonaro, acusado pelos oposicionistas de não se preocupar com a Educação, assinou aumento de 33,24% para os professores da educação básica na rede pública. Os oposicionistas, sempre favoráveis a salários valorizados, estão furiosos, e não querem cumprir a determinação, alegando que não tem base legal.

Todo mundo doido? Não é bem assim: o presidente assinou o aumento, mas quem paga são os prefeitos. A Confederação Nacional dos Municípios acusa Bolsonaro de “colocar em primeiro lugar uma disputa eleitoral”, e diz que o Brasil “caminha para jogar a educação pelo ralo”. Os municípios dizem que Bolsonaro usa uma lei antiga, já revogada, e vão à Justiça.

Todos parados

Não há falta de candidatos tentando ocupar um espaço entre Bolsonaro e Lula. O problema é que nenhum, até hoje, conseguiu se destacar, mostrando que é capaz de ir ao segundo turno. Moro prometeu chegar arrebentando, mas ficou na mesma faixa de Ciro Gomes, pouco acima dos concorrentes. Doria, com vacina e tudo, continua longe de chegar aos dois algarismos nas pesquisas. Simone Tebet merece ampla simpatia, mas ainda não atraiu votos.

Mas a festa continua

E outros continuam chegando: até o governador do Rio Grande do Sul, que foi derrotado nas eleições prévias do PSDB, pensa em mudar de partido para tentar a chance. E, enquanto Lula se movimenta, buscando aliados fora de sua área habitual – Geraldo Alckmin, por exemplo – os candidatos que mais precisam dizer ao que vieram parecem paralisados. Lula e Bolsonaro já são conhecidos. E os outros, que fizeram até agora para se tornar conhecidos? A que se propõem, caso cheguem à Presidência da República?

Doideira geral

Qual o maior inimigo do mundo civilizado, na opinião de Bolsonaro? É a China. No entanto, ele marcou uma visita à Rússia, que recebeu pleno apoio da China na atual disputa pela Ucrânia, em que enfrenta a OTAN, aliança ocidental em que os Estados Unidos são o maior parceiro. Em comunicado conjunto, Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jin-ping, da China, informaram que “a amizade entre os dois Estados não tem limites”. Temas envolvidos: o pacto militar entre Estados Unidos, Austrália e Reino Unido; Ucrânia; e Taiwan.

Outro dia, conversando no cercadinho do palácio, disse a um dos presentes que Putin é um “conservador”. Então, tá.

De nós para nós

Sabe o buracão que se abriu numa das principais avenidas de São Paulo, engolindo o “tatuzão” que abria um túnel do Metrô? Pois é: o investimento da iniciativa privada internacional foi financiado pelo BNDES, que é estatal, nacional e cobra juros baixos.

Praticamente a metade do investimento da iniciativa privada internacional na nova linha do Metrô saiu do BNDES.

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Bolsonaros e Garotinhos

 Editorial

O Estado de São Paulo 

O presidente Jair Bolsonaro foi ao Rio de Janeiro se encontrar com os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho em busca de apoio à sua campanha pela reeleição. Fossem tempos normais, e fosse o próprio presidente alguém imbuído de espírito público e afeito à dignidade do cargo, seria de questionar a conveniência de obter o apoio do notório casal. Afinal, entre as maiores realizações do casal Garotinho estão o agravamento da degradação da política fluminense e sua entrada no seleto rol de ex-governadores que conheceram as paredes internas do sistema penitenciário do Estado na condição de custodiados.

Mas trata-se de Jair Bolsonaro, a mesma pessoa que não viu problemas em se filiar a um partido político comandado por um condenado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que também já amargou um período na cadeia. O presidente, pois, não é dado a esse tipo de melindre, além de ter padrões morais elásticos o bastante para acomodar os interesses do seu clã entre essas, digamos, inconveniências.

Com a reeleição ameaçada, Bolsonaro recorreu ao casal Garotinho, muito ligado a grupos evangélicos no Estado, como tática para tentar ao menos estancar a rejeição a seu nome. Aos ex-governadores, convém deixar claro, também é conveniente barganhar com o presidente da República para manter o que ainda resta de poder à família em um naco do território fluminense, sobretudo após as trevosas passagens de Anthony e Rosinha Garotinho pelo Palácio Guanabara e o desgaste provocado por seus dias de cárcere.

Informalmente, esse encontro dos clãs Bolsonaro e Garotinho foi considerado o “marco inicial” da campanha pela reeleição do presidente no Estado, com direito a discursos no Porto do Açu, no norte fluminense – espécie de enclave dominado pela família Garotinho há anos –, e ataques aos adversários, malgrado o ato apresentar todos os elementos de uma campanha antecipada à luz da lei eleitoral, só faltando o pedido explícito de votos. Mas aí seria demais.

Dado o retrospecto dos cabeças de dois dos mais parasitários clãs políticos da história do País, é possível afirmar que o melhor interesse público não foi nem de longe o assunto principal da conversa. Bolsonaro, o casal Garotinho e os filhos deste trataram, primordialmente, das condições de sobrevivência política das duas famílias, transformadas em holdings que administram as carreiras políticas de vários de seus membros e associados. No encontro com Bolsonaro, Anthony e Rosinha Garotinho estavam acompanhados pela deputada federal Clarissa Garotinho (PROS) e pelo prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho (PSD), filhos do casal.

A união das famílias faz todo sentido, haja vista que há mais fatores em comum entre Bolsonaros e Garotinhos do que a mera proximidade geográfica de seus redutos eleitorais. Ambos os clãs concebem a política como um empreendimento particular, sobretudo familiar. Em primeiro lugar, estão sempre os interesses familiares. Tanto faz se estes eventualmente coincidem com o interesse público. Quando não coincidem, azar da sociedade. Bolsonaro e Garotinho são casos muito bem delineados da política exercida não como vocação, nem tampouco orientada para o interesse público, mas como um meio de vida em que prevalece a manutenção do fluxo de caixa da família à custa do Estado, por meio do lançamento sucessivo de candidaturas a cada geração que não têm outro objetivo que não a perpetuação do modelo.

Há 20 anos, Bolsonaro declarou ao jornal O Globo que seu plano era “sarneyzar” o Rio, aludindo ao domínio da família Sarney no Maranhão. “Além de Carlos, de 19 anos, que já é vereador, agora pretendo ter o Flávio, de 21 anos, na Assembleia Legislativa”, disse o então deputado federal Jair Bolsonaro. “O Eduardo, de 18 anos, por enquanto ainda está na ‘suplência’. Meu quarto filho, de 4 anos, é o mais perfeito: chama-se Jair (Renan) e é boa-pinta.”

O destino político da pequena Laura, caçula do presidente, talvez só não esteja traçado ainda porque Bolsonaro considera as mulheres seres inferiores. O presidente atribui o nascimento da menina a uma de suas “fraquejadas”.


ANS precisa proteger os clientes da Amil

 Elio Gaspari

O Globo

340 mil pessoas que têm planos individuais da Amil correm o risco de ficar na chuva

Se a Agência Nacional de Saúde Suplementar não fizer nada, as 340 mil pessoas que têm planos individuais da Amil correm o risco de ficar na chuva. Está na linha de montagem da ANS a autorização para que o fundo Fiord, estabelecido em São Paulo, fique com o controle da empresa que administrará a carteira onde estão esses clientes da Amil. Pela legislação, ela deve examinar o caso à luz das exigências contábeis. Não tem prazo para isso, mas há uma pressão danada para que o faça logo.

A história desse descarrego, como a leitura dos resultados de exames de laboratório, é chata e, às vezes, incompreensível, mas vale a pena acompanhá-la.

Em 2012, a gigante americana UnitedHealth comprou por R$ 10 bilhões o controle da Amil, uma das maiores operadoras de saúde privada do Brasil. Não foi um bom negócio, porque depois de perder centenas de milhares de clientes, trocou de comandante duas vezes e, até 2020, seu lucro foi irrelevante.

No meio do caminho, os mastigadores de cifras da UnitedHealth apontaram que a carteira de planos individuais da Amil poderia custar um prejuízo estimado em até R$ 20 bilhões em dez anos. Desde a descoberta desse mau presságio, passou-se a negociar a venda da carteira, com os 340 mil clientes.

O banco Pactual foi encarregado de buscar um comprador e chegou a Nikola Luckic, economista especializado em reestruturar empresas cambaleantes. Em novembro de 2021, Luckic fundou o Fiord Capital, com sede num sobrado em São Paulo, e um mês depois fez sua oferta para comprar a carteira da Amil.

Como ninguém compra prejuízo, construiu-se uma operação pela qual a Amil passaria adiante os 340 mil clientes pagando cerca de R$ 3 bilhões ao Fiord para que ele ficasse com a carteira. Isso foi feito através de um mecanismo complexo que moveu os clientes para o domínio de outra empresa do grupo, a APS, da qual o Fiord viria a ser acionista. Em seguida, a Amil lhe venderia sua participação na APS por uma quantia simbólica, livrando-se da clientela. Só falta a ANS carimbar essa troca de controle acionário.

Depois da carimbada, o Fiord passará a controlar a APS, que tem 17 mil clientes e engolirá a carteira problemática da Amil. Essa é a realidade da burocracia. Na vida real, trata-se de transferir para a gestão da APS um plano de saúde que foi vendido pela Amil a 340 mil pessoas. Até agora, a APS atendeu uma clientela equivalente a 5% da freguesia que deverá absorver. Tudo sob o controle de um fundo que nunca fez um curativo. A estrutura da APS era parte do grupo Amil. Se havia mau presságio com a operação da carteira, resta rezar para que o fundo Fiord reverta os maus indicadores. 

O mundo dos negócios está pontilhado de histórias de sardinhas que comeram baleias. Afinal, a Microsoft de Bill Gates ficou maior do que a IBM. Como essa transação envolve a saúde de 340 mil pessoas, um golpe de carimbo pode ser pouco. A clientela nunca foi ouvida nem cheirada quando passou da Amil para a UnitedHealth e dela foi transferida para a APS que, por sua vez, será propriedade do Fiord. Tudo dentro da lei.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar sabe disso tudo e pode ir além do carimbo. Trata-se de saber quais garantias adicionais serão dadas à clientela e que tipo de ressarcimento os novos donos da carteira se comprometem a oferecer caso a qualidade dos serviços venha a se deteriorar. Seria coisa inédita, como inédita é a transação.

Afinal, se uma carteira poderia produzir um prejuízo estimado em até R$ 20 bilhões em dez anos e os doutores pagaram R$ 3 bilhões para se livrar dela, alguém precisa estimar o risco de calote santuário, para tentar controlá-lo.

Em dezembro, a APS garantia aos fregueses da Amil “a mesma rede credenciada”. Semanas depois surgiram queixas pontuais de que não era bem assim, com clientes reclamando porque os laboratórios onde faziam seus exames haviam sido dispensados. 

O preço do negacionismo

Pelos números do Ministério da Saúde, o Brasil voltou na quinta-feira à marca dos mil mortos diários pela Covid, número que parecia abandonado desde agosto. Há um mês, contavam-se os mortos numa só centena. Esse pico se deveu à associação de um vírus com outro fator, produzido pelo negacionismo. O presidente da República duvida da vacina e seu ministro da Saúde flerta com a fama. Isso num país que já perdeu mais de 630 mil vidas, número provavelmente superior ao de todas as suas guerras, internas e externas.

Salvo o Peru, com seis mil mortos por milhão de habitantes, o Brasil, com cerca de 2.800, está na companhia de oito países do falecido mundo socialista do Leste Europeu.

Há dias, num momento de delírio abstêmio, o doutor Marcelo Queiroga disse o seguinte: “Quero que a História me defina como o homem que acabou com a pandemia”. Com quase cinco séculos de atraso, incorporou as virtudes do papa Gregório XIII, patrono do calendário gregoriano. A pandemia do coronavírus acabará, como acabou a da peste negra dos séculos XIV e XV. Naquele tempo as epidemias eram enfrentadas com rezas e superstições. Não havia vacinas, e as pragas acabavam pelo movimento do calendário. 

Havendo vacinas, Queiroga atrapalhou a imunização das crianças e de seu ministério partiram incentivos a drogas milagrosas. Quem acabou com epidemia no Brasil foi Oswaldo Cruz. Assumiu recebendo carta branca do presidente Rodrigues Alves e soube usá-la.

Cultura perigosa

O assassinato do congolês Moïse Kabagambe jogou luz sobre o tipo de ambiente que se formou em torno de alguns quiosques das praias do Rio.

A polícia demorou a entrar no caso, dois agentes agiram de forma intimidadora ao lidar com a família do morto e um dos acusados de ter espancado Moïse revelou que o dono do quiosque onde ele trabalhava era um policial militar.

No dia seguinte, a concessionária dos quiosques informou que o ponto é administrado irregularmente por um cabo da PM.

A Prevent e São Jorge

De quem entende do mercado de saúde privada:

“Se a Prevent Senior tivesse operado de acordo com as normas do jogo do bicho, não teria passado pelo que está passando. No dia de São Jorge os bicheiros reduzem o prêmio para quem aposta em cavalo.

A Prevent tinha milhares de clientes idosos e havia uma epidemia. Em vez de pedir socorro, acreditaram em cloroquinas milagrosas e em ligações perigosas.”

Dedetização diplomática

Se faltava um exemplo da dedetização iniciada pelo chanceler Carlos França na diplomacia nacional, a cordialidade do encontro entre Bolsonaro e o presidente peruano, Pedro Castillo, mostrou a eficácia do remédio. 

Em junho passado, quando Castillo foi eleito, o capitão lastimou: “Perdemos o Peru”.

Cada um continua sendo quem é, mas não se mete na vida do outro a troco de nada.

Discretamente, o ministro Paulo Guedes está ajudando a isolar os agrotrogloditas que envenenam a agenda ambiental.


Linha torta

 Dora Kramer

Revista VEJA

Quando a celebração da igualdade interdita o debate, o risco é o flerte com a censura ‘do bem’

 DARYAN DORNELLES/Bravo/Dedoc

Chico Buarque tem todo o direito de cantar ou não cantar o que bem entender 

Chico Buarque tem todo o direito de cantar ou não cantar o que bem entender. Jornalistas têm pleno direito de discordar de artigos publicados nos veículos onde trabalham. Assim como é assegurada aos cidadãos residentes em países democráticos a prerrogativa de se manifestar livremente dentro dos preceitos legais e é, também, dever de todos fazê-lo na obediência da civilidade. Afinal, como bem registra o título do espetacular documentário (Globoplay) sobre Nara Leão, o canto é livre. Ou deveria ser. Da série nasceu a polêmica da vez porque em um dos episódios Chico Buarque declara que não cantará mais Com Açúcar, com Afeto para “não desagradar às feministas” que repudiariam o (suposto) caráter machista da canção composta em 1967 a pedido de Nara.

Repetindo, o autor é livre para fazer o que quiser. Só não dispõe de autonomia para sugerir que quem queira cantar e/ou gostar da música seja defensor do machismo. Dias antes, profissionais da Folha de S.Paulo assinaram uma carta aberta à direção do jornal contestando o artigo do antropólogo Antonio Risério sobre racismo.

Até aí, tudo bem, não fosse o fato de que o abaixo-assinado pregava a proibição de publicações com teor semelhante. O protesto, aliás, pouco ou quase nada tinha a ver com o que estava de fato escrito no artigo em questão. Na essência, acusou-se ali o jornal de ser racista. A isso se dá o nome de censura expressa na tentativa de demonstrar superioridade moral em relação ao diverso. Justamente o contrário do respeito ao próximo, matéria-prima na qual se sustenta a arte da convivência coletiva. Produto esse em falta no mercado do debate público, na abordagem de questões que o mundo hoje nos apresenta como essenciais para a evolução da humanidade.

Natural e, sobretudo, necessário que determinados comportamentos, sejam eles na palavra, na ação ou no pensamento, antes vistos como normais, se tornem inaceitáveis e sofram adaptação ao novo tempo. Trata-se de um benfazejo aprimoramento das relações humanas.

“Quando a celebração da igualdade interdita o debate, o risco é o flerte com a censura ‘do bem’ ”

No índex civilizatório se enquadram os preconceitos, as ideias, os julgamentos e quaisquer manifestações que preconizem discriminação e estabeleçam hierarquias entre pessoas ou grupos por suas características. A celebração da igualdade, junto aos esforços de fazê-la prevalecer, melhora a espécie.

Nenhum reparo, portanto, se impõe aqui ao correto. Política, social ou culturalmente falando. Sendo contraponto ao errado, o certo é um ideal a ser alcançado. Ao persegui-lo de modo errático, no entanto, se incorre no risco de cair no campo contrário, o da intolerância, da incivilidade, do desrespeito do direito de outrem, na interdição das ideias, naquilo, enfim, que agora se chama cancelamento.

A palavra remete a comportamentos primitivos, rudes. Cancelar quer dizer eliminar, riscar do mapa. Quando aplicada a opiniões, significa subtrair a validade do contraditório. E isso não como a conclusão do encadeamento de argumentos, mas em decorrência de juízo formado não raro com base na hostilidade, na repulsa ao que vem de lá. É estabelecida uma regra a ser seguida sem nuances e quem não obedecer a ela leva pancada.

Assim andamos vivendo. Note-se, para regozijo dos retrógrados com certidão passada no cartório do atraso. Desse modo, eles encontram campo fértil para tentar invalidar o esforço evolutivo chamando-o de autoritário. Nesse aspecto se dá a eles razão e recursos retóricos para atrair os adeptos da defesa do mundo velho.

Essa prática patrocina a tese enganosa, especialmente deletéria para a formação dos jovens que não viveram a ditadura no Brasil, de que existe censura “do bem”. Não existe. A definição de censura é clara: “Análise de trabalhos artísticos, informativos etc., com base em critérios morais ou políticos para julgar a conveniência da liberação pública à sua divulgação”.

Aos signatários dessa bossa nada nova, conviria lembrar os idos de dona Solange Hernandes, a ferrabrás chefe da Divisão de Censura e Diversões Públicas que entre 1981 e 1984 vetou e cortou em produções artísticas tudo o que na visão dela atentava contra os bons costumes e a política vigente.

Na visão dela e de seu entorno, bem entendido. Por essa lógica, estava dando o seu melhor em prol da preservação moral dos olhos, ouvidos, pensamentos e sentimentos alheios. Não dá para ser assim.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 9 de fevereiro de 2022, edição nº 2775


'2022 adiado'

 Gustavo Franco 

Exame.com

Números de contágio da nova cepa adiaram mais uma vez o tão esperado fim da pandemia e funcionaram como “diferimento” do início do ano 

Fogos no Rio de Janeiro: o começo de ano

 na economia e na política parece postergado | 

Como é de praxe, janeiro foi relativamente calmo, misturando férias, chuvas torrenciais e as dúvidas sobre o retorno ao trabalho presencial diante da Ômicron. Na verdade, os impressionantes números de contágio da nova cepa, adiando mais uma vez o tão esperado fim da pandemia, funcionaram como uma espécie de “diferimento” do início de 2022.

Desta vez, todavia, o fim (da pandemia) parece realmente próximo, o que confere nova concretude às perspectivas de abertura e recuperação da economia.

O noticiário internacional trouxe sobressalto, em diferentes frentes, com destaque para as tensões na Ucrânia, e suas repercussões no preço internacional do petróleo. O tema parece ainda mais sensível pois veio acompanhado de especulações sobre uma nova fórmula “contracíclica”, e de índole constitucional, para os preços de derivados de petróleo em moeda local. O governo falou em uma PEC, mexendo na tributação dos combustíveis, inclusive no plano estadual, depois recuou no assunto, parecendo mais uma bravata eleitoreira. Mas o assunto não acabou: o Congresso pode prosseguir com a ideia, seja para produzir desgaste, ou mesmo para algum mecanismo novo.

Houve, também, a confirmação das intenções do Fed no tocante a juros e reduções em compras de ativos, um fantasma conhecido, mas logo absorvido.

Mais preocupante aparenta ser o registro das notícias vindas da Argentina, sempre um inquietante previsor do que pode ocorrer com o Brasil: 50% de inflação acumulada em 2021, e um novo acordo com o FMI, afinal assinado depois de muita controvérsia.

A Argentina parece presa ao século XX, no término de mais um ciclo populista, como a trigésima temporada de uma série, ou uma interminável novela. Novelas mexicanas, séries turcas e finanças públicas argentinas.

Dificilmente esse acordo será o último: o mais provável é que o enredo de instabilidade macroeconômica se arraste pelos caminhos habituais, desafiando a tese pela qual o aprendizado em políticas econômicas é proporcional à complexidade dos desafios passados.

Não há dúvida de que temos aqui um lembrete perturbador da proximidade de uma doença que se imaginava totalmente sob controle, e não se trata da Covid-19, mas da “velha senhora”, que se supunha exilada na Venezuela e restrita aos países envoltos pelo caos político, os chamados failed states.

O Brasil está vacinado contra o mal da inflação elevada, ou se supunha estar, e teve uma “dose de reforço” recente na Lei Complementar 179, que elevou o grau de independência do BCB. Na verdade, a LC179 estabeleceu mandatos para os dirigentes do Banco Central do Brasil não coincidentes com os do presidente da República, sendo que estamos vivendo a primeira transição política sob a égide da nova regra.

Terá eficácia essa “dose de reforço”? A nova regra para o BCB afetará a política monetária? Reduzirá a instabilidade dos mercados?

O tórrido e chuvoso mês de janeiro não permite respostas claras. O noticiário foi muito dedicado aos assuntos espetados do ano anterior, notadamente referentes à inflação. Os bárbaros estão nos portões, onde sempre estiveram, e o ano da pandemia insiste em não terminar.

Em meados de janeiro, foi publicado o IPCA de dezembro, que encerrou o ano calendário de 2021 e permitiu a aferição do desempenho da Autoridade Monetária no cumprimento da meta para a inflação, fixada em 3,75% anuais, com intervalo de tolerância de 1,5% para cada lado.

Em 2021, o IPCA acumulou 10,06% da variação, para uma meta (limite superior) de 5,25%, um magnífico estouro, devidamente antecipado neste informativo na edição de setembro (“começando os preparativos”), em que se observou que a variação do IPCA para o mês de agosto tinha sido de 0,87%, o pior agosto desde 2000, levando o acumulado do ano a 5,67%, já naquela altura superando a meta para o ano calendário.

O presidente do BCB teve que escrever uma “carta aberta” ao ministro da Fazenda, com data de 11 de janeiro, com explicações sobre o “descumprimento” e “providências para assegurar o retorno da inflação aos limites estabelecidos” conforme determinado pelo Decreto 3.088/99 (Art. 4, §único). Talvez seja a mais importante de todas as “cartas abertas” já escritas por presidentes do BCB que falharam em cumprir a meta, sendo certo que é a primeira de um presidente do BCB com mandato fixo.

Foi a quinta vez que a meta foi perdida desde a criação da sistemática de metas para a inflação em 1999: em quatro episódios o descumprimento foi “a maior” (2001, 2002, 2003 e 2016) e em 2017 a variação do IPCA no ano foi menor que o limite inferior da meta.

Não há dúvida de que o rito trouxe mais visibilidade sobre o assunto, o que facilita o trabalho da Autoridade Monetária.

O ano de 2022 começa com muitas ansiedades no que diz respeito a esse assunto, pois estamos testando diretamente o “reforço” no arcabouço anti-inflacionário criado pela LC179.

Depois de diversos aumentos na SELIC iniciados na reunião de março de 2021, o COPOM fará sua primeira reunião de 2022, logo no começo de fevereiro, tendo diante de si: (i) a SELIC a 9,25%; (ii) a variação acumulada do IPCA em 10,06%; e (iii) nenhum sinal de arrefecimento da inflação no IPCA-15 de janeiro. Fica para a história a questão sobre se o COPOM ficou “atrás da curva” em 2021, por qualquer que seja o motivo.

O debate eleitoral deu sinais de esquentar, mas, por ora, ainda não chegou à economia. As manifestações de assessores econômicos foram protocolares, inclusive e principalmente as dos economistas do PT, quando solicitados a se pronunciar sobre o programa de uma nova administração petista. Ficou a impressão de que não há nada resolvido sobre a economia numa terceira presidência Lula.

O assunto de uma nova “carta aos brasileiros” tem sido evitado pelo candidato e por seus representantes. Uns dizem que não há necessidade, pois Lula já é conhecido, outros enxergam esta mesma mensagem na escolha do vice da chapa, que vai convergindo para Geraldo Alckmin, e nas conversas do candidato.

Mais genericamente, o candidato Lula parece empenhado em ampliar seu arco de alianças, com vistas à governabilidade e à Paz Social. Mais que seus correligionários, Lula parece preocupado com o dia seguinte. Vai perdendo nitidez a imagem de um candidato ressentido e radicalizado, ainda que nada esteja definido por completo.

A falta de clareza nas propostas dos outros candidatos para a economia é muito evidente. Tudo se passa como se a economia não fosse um assunto importante, nem para a terceira via, nem para as candidaturas polares. Todos se abraçam às platitudes, reservando manifestações específicas para momento posterior. A Terceira Via parece sem espaço, sem oxigênio e sem imaginação.

O candidato do PSDB, o governador de São Paulo, estacionou nas pesquisas, em nível muito baixo, depois de vencer as “prévias” com o governador Eduardo Leite. A “gestão” e a “vacina” não parecem animar seu eleitorado, o que também se observa com o mote do “combate à corrupção” encarnado por Sergio Moro.

As cambiantes e controversas propostas de Ciro Gomes também não acrescentam novas tonalidades ao debate econômico trazido pelos candidatos, por ora dominado pelas platitudes como a ideia vaga de “crescimento com responsabilidade fiscal”, e com “sensibilidade social”, embora sem nenhuma clareza sobre o que essas expressões significam exatamente nas diferentes campanhas.

As afinidades entre Sergio Moro e Afonso Pastore são muito recentes, e ainda não testadas. A presença de Ana Carla Abrão, Zeina Latif e Vanessa Canado na campanha de João Dória é muito bem-vinda e deve certamente melhorar a qualidade do debate eleitoral. Só é curioso de se especular sobre o papel de Henrique Meirelles, secretário de Fazenda do governador de São Paulo, no grupo paritário (em termos de gênero) de responsáveis pelo programa de governo do candidato.

Meirelles é um nome com muito trânsito junto a Lula, que teria indicado que o perfil do comandante da economia em sua presidência seria o de um empresário. Por ora, entretanto, permanecem cumprindo compromissos de campanha os nomes conhecidos de economistas do PT (Guido Mantega, Aloisio Mercadante, Ricardo Carneiro, Guilherme Melo e Nelson Barbosa).

Do lado do governo, e no cenário de reeleição, até o momento não se pode dizer sequer que Paulo Guedes permanecerá em seu posto, e por uma razão muito simples: nada foi dito sobre isso pelo presidente da República.

A eleição – ao menos em se tratando da economia – e a recuperação estão demorando para começar. 2022 parece ter sido adiado.

*Gustavo Franco é sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil. Este artigo faz parte da Carta Estratégias de fevereiro, relatório mensal distribuído pela Rio Bravo a seus clientes e reproduzido com exclusividade pela EXAME Invest.


As duas pedras no sapato de Bolsonaro em 2022

 Rafael Moraes Moura

Veja online

Desafetos do Planalto, Edson Fachin e Alexandre de Moraes vão presidir o TSE ao longo deste ano. Bolsonaristas acusam ambos de 'ativismo judicial'

  Antonio Cruz/Agência Brasil

VEM AÍ. O vice-presidente do TSE, Edson Fachin, assume o comando do tribunal em 22 de fevereiro, sucedendo ao ministro Luís Roberto Barroso. Em agosto, Fachin passa o bastão para Alexandre de Moraes 

Em meio a uma campanha que promete ser marcada por forte polarização política, radicalização de discursos e ataques a instituições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai ser palco de uma troca de comando em dose dupla que pode provocar ainda mais desgastes na já conturbada relação entre o tribunal e o Palácio do Planalto. No próximo dia 22, o atual presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, passa o bastão para Edson Fachin, que vai chefiar a Corte até meados de agosto. Depois, é a vez de Alexandre de Moraes – o novo “inimigo da vez” do atual ocupante do Planalto – presidir o TSE. Para adicionar mais ingredientes explosivos à tensa convivência entre o presidente Jair Bolsonaro e o TSE, a Corte avalia internamente como (e se é realmente possível) enquadrar o Telegram, plataforma russa que se tornou ponta de lança na estratégia de comunicação bolsonarista, após YouTube, Facebook e Instagram removerem conteúdos que disseminavam desinformação.

“Sou contra qualquer medida de cerceamento de opinião. Qualquer uma delas. E acho que tá havendo um grande exagero por parte do TSE, um ativismo judicial. Isso é uma coisa que o Brasil precisa combater muito”, critica a VEJA o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Barroso chegou a cogitar banir o Telegram de atuar no país enquanto não tiver uma representação legal por aqui, mas esbarrou em resistências da Procuradoria-Geral da República (PGR) e em questões técnico-operacionais, levantadas por especialistas – nem Vladimir Putin, na Rússia, conseguiu ter pleno sucesso na empreitada de enquadrar a plataforma russa, que permite grupos com 200.000 pessoas e se tornou um campo fértil para a disseminação de teorias conspiratórias e ataques infundados à credibilidade das urnas eletrônicas. A equipe de Fachin, no entanto, vê com ressalvas a possibilidade de enquadrar o Telegram, já que a empresa não é provedor de internet, e sim um aplicativo de mensagens – logo, a exigência de domicílio jurídico nacional não se aplicaria à plataforma.

Bolsonaro já atacou Fachin por suspender uma lei que proibia a utilização da linguagem neutra (“Que ministro é esse do Supremo Tribunal Federal? O que ele tem na cabeça?). O ministro também foi chamado de “trotiskista leninista” por ter contrariado os interesses do Planalto e votado contra a tese do marco temporal – um entendimento de que indígenas teriam direito apenas às terras que ocupavam em outubro de 1988, época em que foi promulgada a Constituição. O presidente também criticou Fachin, em março do ano passado, quando o ministro derrubou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Lava-Jato, tornando o petista elegível. “Não pode, em hipótese alguma, um homem só ser senhor desse julgamento”, afirmou Bolsonaro. O plenário do STF acabou confirmando a decisão de Fachin, que redesenhou o tabuleiro político deste ano.

Na segunda quinzena de agosto, é a vez de Alexandre de Moraes assumir a chefia do TSE. O ministro é o relator dos principais inquéritos que investigam Bolsonaro e seus aliados. Estão com Moraes as investigações que apuram a atuação de uma milícia digital nas redes sociais, a interferência indevida do chefe do Executivo na Polícia Federal e o vazamento de informações sigilosas do sistema do TSE. Foi no âmbito deste último inquérito que Moraes determinou que Bolsonaro fosse ouvido pela PF — o presidente, no entanto, não compareceu ao interrogatório. “Não foi uma afronta ao STF, porque é da tradição da nossa jurisprudência essa conduta. Até porque ele tava indo lá pra poder se defender. Se não quer ir se defender, o prejuízo é dele. Não há que o juiz se preocupar com a defesa de alguém. Se a pessoa não quer se defender, não se defende”, justifica Barros. “Acho que esse ativismo tende agora a diluir, embora tenhamos agora sucessivamente o ministro Fachin e o ministro Alexandre de Moraes na presidência (do TSE), que são, digamos assim, ativistas políticos muito atuantes no processo, mas eu penso que no conjunto as coisas estão mais tranquilas e os poderes vão acabar se harmonizando, até para que não se torne um debate nas eleições essa questão da sobreposição de um poder sobre o outro, o que não seria útil pra ninguém.” Por enquanto, a harmonização entre os poderes está só no discurso.


Governo fracassa no projeto de modernizar a economia no modelo liberal

 Revista VEJA

O ambicioso plano que ajudou a eleger Jair Bolsonaro tem fim melancólico, vergado pela combinação de populismo com interesses políticos

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O ministro Paulo Guedes tem demonstrado nas últimas semanas inusitados sinais de otimismo. Em seu círculo mais próximo, tem comemorado uma conversa recente com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-¬MG), em que o político revelou seu empenho em dar andamento à Proposta de Emenda Constitucional 110, que propõe a substituição de nove tributos por um imposto. Ao mesmo tempo, tramita na Casa, que reiniciou os trabalhos nesta semana, o projeto de lei do imposto de renda que cria a taxação sobre os dividendos de pessoas jurídicas. Com as duas medidas aprovadas, o ministro poderia se jactar de pelo menos um pedaço da ambiciosa reforma tributária proposta ainda na campanha eleitoral de 2018 ter saído do papel. Apesar do entusiasmo de Guedes, o prognóstico não é tão róseo quanto ele sugere. As chances de um assunto tão complexo ser aprovado às vésperas de uma campanha eleitoral são remotas e, mesmo que isso aconteça, o resultado ficará muito aquém do arrojado projeto capaz de debelar o cipoal tributário brasileiro imaginado pelo ministro. A expectativa era que ele instituísse um modelo fiscal mais justo, moderno e capaz de trazer competitividade à economia. Na prática, continuamos a pagar muitos impostos.

Formado na meca do moderno liberalismo econômico, a prestigiada Universidade de Chicago, Paulo Guedes chegou a Brasília em janeiro de 2019 disposto a mudar o Brasil. Para isso, passou a ter sob seu comando uma superestrutura formada pela fusão de quatro ministérios, uma maneira de manter controle absoluto das decisões econômicas. A ideia era resgatar o espírito animal preconizado pelos liberais e colocar um ponto-final aos voos de galinha da economia brasileira, com seu desempenho errático, taxas de crescimento decepcionantes e estruturas anacrônicas. Prometia implantar nos quatro anos de governo de Jair Bolsonaro medidas capazes de injetar 3,6 trilhões de reais na economia em uma década. A perspectiva, segundo seus planos, era dobrar o PIB per capita do país até 2030.

 Mateus Bonomi/AGIF/AFP

PERDA DE ESPAÇO - O ministro Paulo Guedes: sua agenda e influência ruíram – 

A dez meses do fim do mandato, o balanço é desfavorável para o ministro, para dizer o mínimo. Houve avanços como a reforma da Previdência e o governo conseguiu implementar microrreformas, com novos marcos regulatórios para os setores de gás, de transporte marítimo e de saneamento básico. Outro feito foi a aprovação da autonomia do Banco Central, que torna a política monetária brasileira mais confiável aos olhos do mercado financeiro. Mas as grandes mudanças, as que tinham de fato poder de virar o jogo, não aconteceram (e não se pode culpar a pandemia ou o Congresso por essa inoperância). As privatizações, que prometiam render 990 bilhões de reais e tirar do governo a responsabilidade de gerir — de forma quase sempre inepta — empresas públicas, não saíram do papel. A reforma administrativa, fundamental para dar agilidade ao Estado e acabar com privilégios entre setores corporativistas do funcionalismo, chegou a ser entregue ao presidente da Câmara, Arthur Lira, em 2020, mas foi relegada ao esquecimento pela falta de interesse do Executivo em mexer com os servidores. A promessa de levar o país à ribalta do comércio internacional, se transformou em um fiasco completo (veja o quadro).

 


Os equívocos para um fracasso de tal magnitude são variados. Mas se houve um fator determinante para o naufrágio do projeto liberal de Guedes foi a conduta abilolada do próprio presidente da República. Fiel a sua convicção corporativista, centralizadora, populista e eleitoreira construída nas décadas em que fez parte do baixo clero da Câmara dos Deputados, o presidente foi minando medidas que ele acreditava conflitantes com suas ideias retrógradas e supostamente, em seu raciocínio, ameaçadoras ao projeto de reeleição. Em 2021, em pelo menos duas oportunidades (na troca de comando da Petrobras e na patuscada do 7 de Setembro) ele conseguiu desestabilizar de tal maneira a economia que ele simplesmente inviabilizou o ano. “Muitos votaram em Bolsonaro por causa do Paulo Guedes, que trazia um discurso liberal, promessas de ajuste fiscal, privatizações e uma agenda de reformas. A verdade é que ao longo do caminho isso foi se perdendo”, avalia o economista Alexandre Schwartsman, ex-¬diretor do Banco Central. “O ministro virou um mero viabilizador dos planos políticos do presidente, embalando seu projeto de uma forma que não parecesse um completo desrespeito aos princípios democráticos.”

Nesse trajeto, Guedes perdeu não apenas as batalhas que os economistas, investidores e analistas de mercado tanto desejavam que fossem vencidas quanto encolheu dentro do governo. Em nome do rigor fiscal, comprou brigas com ministros e apoiadores do presidente que defendiam a gastança desenfreada. Mas, infelizmente, saiu derrotado. Em julho do ano passado, viu o seu poderoso Ministério da Economia ser desmembrado, com a recriação do Ministério do Trabalho. Mais recentemente perdeu o poder de decisão de liberação de recursos do Orçamento, que no ano eleitoral ficará com o chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, o expoente do Centrão, grupo que gosta do Estado grande, suas benesses e cargos. Assim, Guedes deixou de ser o protetor do cofre e as contas públicas foram entregues a quem gosta de gastar. 

Marcos Souza/Nascimento Souza Press/.

VITÓRIA ISOLADA - Votação da Previdência: a aprovação, 

em 2019, não foi acompanhada de outras grandes reformas – 

O maior símbolo da pequeneza a que o Ministério da Economia acabou relegado foi a posição secundária de descascar abacaxis como a complicada criação do programa social Auxílio Brasil, visto como de grande potencial eleitoral, mas sem fonte de receita capaz de susten¬tá-lo. Para resolver a situação, engendrou-se a PEC dos Precatórios, que, entre outras gambiarras, adiou o pagamento de dívidas já transitadas em julgado, deixando a conta para governos do futuro. Com tal golpe, Guedes sepultou de vez o ideário liberal dos mestres de Chicago e a agenda original foi atirada no lixo. Nas últimas semanas, o Executivo voltou a pressionar por projetos que ajudem a baixar de qualquer maneira os preços de mercado dos combustíveis, outra interferência indevida (o Posto Ipiranga do início diria que seria muito mais eficiente privatizar a Petrobras). “Decidi deixar o governo em março de 2021, depois de perceber que a reforma fiscal não era mais prioridade. Entendi que o programa inicial tinha sido deixado de lado”, diz Vanessa Canado, ex-assessora de Guedes para assuntos tributários. “As janelas de oportunidade para aprovar reformas abrem-se e fecham-se no começo de cada governo. A dessa gestão foi definitivamente perdida.”

Num efeito cascata, o rompimento com o modelo liberal e o esvaziamento dos projetos mais caros aos técnicos da pasta tiveram impacto direto sobre o “dream team” convocado por Guedes para o primeiro e segundo escalões do ministério da Economia. A equipe perdeu diversos nomes (veja o quadro). “Durante o período de campanha de Bolsonaro, o discurso a favor da privatização soava como música para os meus ouvidos”, recorda o empresário Salim Mattar, ex-secretário de desestatizações de Guedes. “A certa altura percebi que o establishment não era favorável à redução do tamanho do Estado e à venda de estatais. As resistências vêm de todos os lados: do Congresso, do Tribunal de Contas da União, dos sindicatos, dos funcionários das estatais, do Palácio do Planalto, do entorno do presidente, e por aí vai.”

 


Pouco compreendido e muito criticado no Brasil, o pensamento liberal ajudou países a enriquecer em séculos passados ou a destravar o potencial de crescimento de suas economias. O fenômeno ganhou força com diversas reformas feitas na segunda metade do século XX, quando Estados nacionais estavam inchados no pós-¬guerra em razão de governos grandes, burocráticos e custosos demais. Para um país como o nosso, em que falta quase tudo em serviços públicos de qualidade, a receita de um governo menor pode parecer, para alguns, incongruente com as necessidades da população. Ainda mais em um momento tão polarizado quanto o atual, em que existe uma demonização da filosofia liberal. Nada pode estar mais longe da realidade. Ao propor que os investimentos privados tenham primazia em relação aos estatais, além de defender mais concorrência entre empresas, essas propostas ajudam a criar melhores empregos e condições para que as pessoas saiam da pobreza — e não que permaneçam eternamente nessa condição, na dependência de quem controla o dinheiro da União.

O liberalismo, no entanto, vai além de sua vertente econômica, formalizada pelo pai da economia moderna, o filósofo escocês Adam Smith (1723-1790). O pensamento tem origem no Iluminismo do século XVIII, como uma reação ao poder absoluto dos reis. Foi na concepção de liberalismo do pensador francês Montesquieu que surgiu o conceito de poderes independentes, mas harmônicos, algo que as repúblicas modernas buscam seguir até hoje, para desgosto de mandatários que consideram que o Estado precisa se dobrar a suas vontades. “O liberalismo envolve a busca pelo direito individual, e essas ideias acabaram se transpondo à literatura econômica, pregando que o Estado não deve interferir na economia”, defende o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. “Já o governo Bolsonaro se torna antiliberal quando celebra os tempos da ditadura e elogia torturadores. Confunde liberdade com vileza. A democracia gira em torno da liberdade e Bolsonaro tem uma visão limitada e distorcida dela.”  

Marlon Costa/Futura Press/.

ECONOMIA REAL – Consumidor penalizado:

 impostos elevados e em cascata – 

É claro que um choque liberal não acontece de uma hora para outra, como prometia Guedes. Indústrias nacionais não podem ser colocadas, de forma abrupta, para competir contra fornecedores asiáticos que operam com mão de obra barata, sob o risco de falirem rapidamente. Outro exemplo de açodamento sem sentido seria tirar os direitos dados pelo Estado a cidadãos que dependem deles para sobreviver. Aos poucos, eles podem ser substituídos por benefícios melhores, que exijam uma contrapartida e ajudem a quem recebe a sair daquela condição. Mas nenhum liberal consciente pode defender a interrupção do Bolsa ¬Família ou Auxílio ¬Brasil de idosos, com filhos, sem ocupação e à beira da fome. Aliás, o conceito de renda mínima está totalmente enquadrado no liberalismo. O Estado também deve sair de áreas em que sua presença não seja obrigatória, ao mesmo tempo que cria agências fortes e boas leis capazes de promover a concorrência, baixando, por exemplo, o preço dos combustíveis. Tudo isso leva tempo, mas é possível ser construído.

Existem, no entanto, medidas que não podem esperar. É o caso do combate frontal aos privilégios absurdos de certas castas do serviço público. Recentemente, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma lista de procuradores da República que receberam cerca de 500 000 reais em dezembro, em razão de uma série de vantagens acumuladas. Isso é inadmissível. Num país com tantos pobres como o Brasil, qual a justificativa para um funcionário público, sem nenhuma ação meritocrática, embolsar meio milhão de reais num mês? Outra excrescência é o exagero na cobrança de impostos sobre o consumidor, que pouco recebe em troca, assim como a complexidade bizantina de um sistema tributário e trabalhista que só prejudica os empreendedores. Esses defeitos graves atrasam o Brasil e precisam ser resolvidos.

Drone Media Chicago; Heritage Images/Getty Images

RAÍZES PROFUNDAS - O filósofo escocês Adam Smith e a Universidade de Chicago: o pai da economia moderna lançou as bases do liberalismo como um modelo para a criação de riqueza no século XX – 

Houve uma chance recente de enfrentar essas distorções. Ainda em 2019, Guedes foi aconselhado pelos estrategistas políticos no Ministério da Economia a dar andamento a mais de um grande projeto reformista ao mesmo tempo, na esteira da popularidade de Bolsonaro e da “lua de mel” do Congresso com a gestão recém-¬eleita. O plano apresentado pelo assessor especial Guilherme Afif e pelos secretários Esteves Colnago e Marcos Cintra envolvia aproveitar o bom clima da aprovação da reforma previdenciária para levar à frente as reformas administrativa e tributária. “A administrativa deveria ter sido enviada e aprovada antes da tributária, ainda no fim de 2019. Era o melhor momento para dar prioridade a ela. Acabou não acontecendo”, diz Paulo Uebel, ex-secretário de Guedes e um dos cérebros por trás da proposta de reforma da gestão do Estado. “Neste ano, sendo um período eleitoral, dificilmente será aprovada uma reforma estrutural de relevância.”

Atualmente, brinca-se jocosamente no Congresso Nacional que o café do ministro da Economia está gelado, uma analogia feita ao fim de governos. Sim, está bem frio. Não é que Guedes esteja de volta às caminhadas pela Praia no Leblon e não tenha nada a apresentar. Nos últimos dias, ele comemorou que o setor público consolidado — incluindo União, estados, municípios e estatais, com a exceção de Petrobras e Eletrobras — fechou 2021 com superávit de 64,7 bilhões de reais, o primeiro resultado positivo em sete anos. Foi, de fato, uma boa performance, mesmo considerando que o efeito decorre mais da inflação do que de uma excepcional gestão. Mas ainda assim é pouco. Não apenas diante do prometido e do desejado para o desenvolvimento do Brasil, mas também do que era possível ser feito e, neste ano de eleição, não mais será.

Publicado em VEJA de 9 de fevereiro de 2022, edição nº 2775