J.R.Guzzo, Estadão
Tribuna da Internet
Nas encostas, casas continuam sendo construídas sem parar
Se alguém está precisando responder rápido qual é a safadeza número um do Brasil dos dias de hoje, dentro da calamidade permanente que marca o dia a dia da nossa vida pública, dificilmente vai errar se disser: “É a hipocrisia”. Sempre foi, é claro, mas em certas horas fica pior; acaba de ficar pior, mais uma vez.
Dias atrás, num espetáculo que há 50 anos, ou mais, se repete com a regularidade da troca do dia pela noite, desabaram dezenas de casas num dos muitos purgatórios sem esperança que compõem a periferia de São Paulo. Muita gente perdeu o pouquíssimo que tinha. Podem ter morrido mais de trinta pessoas. Foi uma tragédia.
CULPA DE BOLSONARO? – Nessas horas sempre querem dizer ao público, em cinco segundos, o que aconteceu – e, principalmente, quem é o culpado. Já disseram, é claro. O culpado, segundo a sabedoria em vigor na praça, foi o presidente da República.
Ele não tem “políticas sociais” corretas, dizem – e sem isso as pessoas morrem quando o tempo fica ruim. Outros, mais agitados, jogaram a culpa também no governador do Estado.
Pois então: eis aí, com todos os seus holofotes, a hipocrisia fundamental, automática e histérica da elitezinha que quer pensar por todos neste país, o tempo todo e em todos os assuntos.
TUDO ERRADO – As casas do fim de mundo paulistano não caíram por falta de uma política social. Caíram porque foram construídas em terrenos de morro onde não se pode construir uma casa.
Estão dentro de ângulos em que nenhuma construção fica de pé. Carregam um peso que o solo não aguenta. Seus materiais são de quinta categoria. É impossível que não venham abaixo.
A Grande São Paulo, pelo que se informou, tem no momento 750 mil casas em situação de risco, e quase mil áreas onde moradias correm perigo de desabar – uma vergonha que não foi construída em 15 minutos, e por nenhum governo individualmente, mas que o Brasil civilizado nem vê.
PROBLEMA GRAVÍSSIMO – De que jeito a culpa poderia ser só de um, ou de dois? Basta olhar os números. Os jornalistas, urbanistas e peritos em “questões habitacionais”, diante dessa demência, se lançam a discursos contra “a política social” do presidente. Faz bem para eles, mas é a melhor garantia de que jamais haverá solução real para o problema.
Há duas leis no Brasil. Da classe média para cima, as pessoas precisam de licença da Prefeitura, alvará, “habite-se” e sabe lá Deus mais o que para construir um metro de parede.
Daí para baixo a autoridade pública não toma conhecimento. Nem poderia: se abrisse a boca, a esquerda, o MP e o padre iam sair gritando “inimigo do pobre”, “higienista”, e daí para pior. Fica assim, então.
******* COMENTANDO A NOTÍCIA:
Em parte, o jornalista tem razão. Mas em parte apenas. Ocorre que, tanto em nível federal, quanto estadual e municipal, o Brasil não dispõe de um programa decente de construção de habitações populares e destinadas às famílias de baixa renda.
Não basta apenas erguer um conjunto de casas e apartamentos nas periferias. Tais conjuntos requerem oferta de serviços – posto médico, transporte público, serviço de correios, escolas, dentre outros tantos – para se tornarem “residenciais”. Geralmente, não tem nada além das próprias residências.
De fato, os programas lançados nos últimos anos carecem de um mínimo de infraestrutura que proporcione aos seus moradores um pouco de civilidade, de qualidade de vida, e não estes espigões verticais e horizontais completamente vazios de humanidade. E por não haver programa algum, com ou sem humanidade, as pessoas, para não morarem nas ruas, acabam por se submeter em se abrigar em habitações irregulares e em locais de alto risco.
Infelizmente, e especialmente o governo Bolsonaro, prefere priorizar a farta distribuição de dinheiro público à classe política do que atender as necessidades básicas da população mais necessitada. Ah, dirão os defensores do capitão, outros governos cometeram os mesmos erros, o atual déficit habitacional não começou neste governo. Correto, outros governantes também cometeram os mesmos erros. Contudo, Boldonaro não foi eleito apenas para apontar os erros do passado e ficar de braços cruzados. Como também o dinheiro público deve servir à sociedade como um todo, e não apenas aos amigos de farda e aos políticos alinhados à mesma ideologia defendida pelo presidente. Portanto, culpar os outros é fácil, mas não isenta o governo atual de seus erros e omissões.