Adelson Elias Vasconcellos
Afora a delinquência verbal empregada pela dona Dilma em reação às concessionárias que discordaram do teor da MP 579 e não aceitaram antecipar as renovações dos seus contratos, hoje, a presidente, mais uma vez, recorrendo à arrogância que lhe é própria, acusou de insensíveis e responsáveis pelos valores que serão complementados pelo governo federal para obter o índice de 20% de redução no valor das tarifas. Será?
Coloco o seguinte: supondo que o governo encaminhe ao Congresso orçamento prevendo, dentre outros, o reajuste de 10% no valor do salário mínimo e os parlamentares, reestudando a questão, resolvam aplicar 15 e não 10%. O que fará o governo, vai pedir briga, vai declarar guerra ao Congresso? Mesmo que queira vetar o que o Congresso aprovou, este pela prerrogativa que lhe confere a Constituição, pode simplesmente cassar o veto, e fazer valer os 15% de reajuste. Cabe ao governo se submeter e cumprir o que o Congresso aprovar, por mais que esperneie.
Noutro ponto, vejamos o caso dos royalties do petróleo, cujo texto aprovado pelo Congresso dona Dilma vetou. Muito embora, e neste específico caso, a presidente esteja correta em defender os direitos anteriores ao novo texto, o Congresso pode cassar seu veto e impor seu próprio texto, independente da vontade governamental. A presidente vai tomar qual atitude, vai ignorar o Congresso, vai afrontá-lo, vai descumprir o que aquela casa congressual aprovou?
Nem num caso nem noutro, a presidente pode se indispor à vontade da maioria. Isto aqui, ainda que a soberana por vezes não reconheça, ainda é uma democracia. Portanto, mesmo que se sinta contrariada, está constitucional e institucionalmente obrigada a se submeter ao que a maioria plena do Congresso decidir.
Este é um dado, entendo, deva a soberana refletir profundamente e até mudar convicções e atitudes.
Outro dado interessante de se analisar é a sua manifestação de que o Tesouro vai acabar bancando a necessária diferença para inteirar o total de 20% de redução nas tarifas de energia.
Ora, se para atingir aquele percentual, Dilma vai determinar que o Tesouro cubra a diferença faltante, que a soberana me desculpe,mas seu jogo de cena não passa de mera retórica ou vigarice gerencial. É o mesmo que entregar ao indivíduo, com a mão direita, um bônus de R$ 20,00 e, com a esquerda, tomá-lo de volta.
Assim, o tal desconto que serve para o populismo ridículo com que Dilma pretende renovar seu mandato em 2014, no fundo, acabará sendo pago por todos novamente na forma de tributos. Ignorância ou má fé, dona Dilma?
O Brasil já ultrapassou a barreira do tempo em que o presidente general impunha sua vontade sem dar contas à quem quer que seja. Já avançamos o estágio para uma democracia em que a vontade da maioria prevalece sobre caprichos e mesquinharias. Já deixamos para trás o tempo trevoso em que os governantes tripudiavam sobre as finanças públicas, dispondo sobre os marcos legais a moda diabo, coisa que nos custou 25 anos de estagnação e profundo caos social.
As concessionárias não acharam seu dinheiro no lixo, tampouco seus investimentos foram bancados de forma graciosa. Quem ganha de graça pelo serviço que não entrega é o poder público, avesso `a qualquer seriedade, respeito e decência para com os recursos que a sociedade é obrigada a lhe entregar em troca de coisa nenhuma.
Desafio a soberana sobre as tarifas, novamente: venha a público e apresente a memória de cálculo tanto para fixação das novas tarifas quanto para as indenizações. Mais: por que apenas a sociedade tem de bancar o populismo vergonhoso do poder público, por que seu governo não desonera as tarifas de energia? Quais as razões que justificam o poder público cobrar cerca de 50% em encargos diversos?
Mente a dona Dilma Tergiversa. Manipula. Deveria ter respeito pelos brasileiros que trabalham honestamente nas concessionárias, trabalhadores formados por muitos profissionais que deram duro para obter sua formação acadêmica, que trabalharam muito para reunir a experiência e o conhecimento profissionais que os tornam valorizados no mercado.
Dilma Rousseff não tem direito de desfazer destes profissionais, da forma criminosa como procedeu em relação à VARIG, por exemplo. Que a presidente ponha no lixo sua arrogância e tenha a decência de sentar-se para negociar e não impor ordens descabidas e injustificáveis.
O Brasil não pode ser transformado em botequim de quinta categoria apenas por conta de uma governante que muito acha, mas que no fundo, está devendo respostas ao país quanto a sua capacidade de gestão. Ocupou metade de seu mandato com promessinhas pueris, imprimindo diariamente medidas improvisadas, sem atender um projeto desenhado para atender nossas maiores demandas. Torra bilhões de reais em propagandas falsas, como a atual que roda nas televisões sobre as “virtudes” do SUS que, a cada dia que passa, mais degradado fica.
Dilma pode enganar aos seus puxa sacos de ocasião. Pode dar soquinhos na mesa demonstrando um desequilíbrio emocional incompatível com o cargo que ocupa. Mas deve respeitar as leis. Deve respeitar os brasileiros que não nasceram imbecis. Deve cuidar com maior atenção de seu próprio quintal encharcado de podridão e corruptos. Deve respeitar os limites que a lei lhe impõe. Deve por um fim às farsas e mistificações com que tem se valido para esconder sua incompetência, por de lado sua intolerância e intransigência e reconhecer que, assim como a verdade absoluta não lhe pertence, nem por decreto, há um ordenamento jurídico vigente no país e que deve ser respeitado.
Lula foi o rei em cumprimentar com o chapéu alheio e, ao que parece, Dilma, ambicionando mais a manutenção do trono do que o interesse do país, parece pretender seguir o mesmo caminho.
O que impressiona é esta delinquência compulsiva de se dar declarações de efeito cretino, para fazer as manchetes dos jornais. Ora, o governo é contumaz na cretinice de cumprimentar com o chapéu alheio desde o tempo do governo Lula. Não seria na questão do pacote energético que isto se tornaria novidade. Dou-lhes um exemplo bem significativo. Quando se criou o tal piso nacional do Magistério, quem levou os louros e as glórias todas foi Lula. Porém, adivinhem para quem foi empurrada a conta? Para os governos estaduais. Em momento algum o governo petista se preocupou em reuni-los para negociar. Queria era ser manchete e ter mais um apelo de cunho eleitoral. Até hoje, grande número de estados não conseguiu organizar-se no sentido de cumprir o decreto.
Agora, segue a mesma balada. Para ir para a televisão com forte apelo eleitoral, Dilma jamais se preocupou em avaliar os efeitos danosos de seu pacote. E ele traz sérias consequências tanto para as concessionárias quanto para os estados em que as concessionárias são estatais, casos de Minas, São Paulo e Paraná. Nestas unidades ninguém é contra a que se reduzam as tarifas. Mas por que não se planejar tal redução de forma séria, ordenado, seguindo critérios puramente técnicos, e não ao sabor do emocionalismo barato e do populismo cretino? Desafio novamente dona Dilma a mexer naquilo em que o custo ao consumidor mais pesa, que são os diferentes impostos e encargos. Por que o governo não mexe neste vespeiro se está tão cheio de boas intenções como alega para a torcida? É por aí que se percebe a natureza mau caráter da MP 579.
Mesmo depois de todas as canalhices proferidas nos últimos dias, agora é a própria Dilma quem autoriza o relator da MP em reabrir prazo para as concessionárias, concedendo-lhes de 30 a 40 dias para aceitarem a renovação dentro das regras vigaristas da MP 579. Vai adiantar conceder mais prazo, sem que haja negociação e busca de entendimento, provocando o menor prejuízo para todas as partes envolvidas, e resultando ao final no benefício direto e prático para o consumidor, com uma efetiva redução das faturas de energia?
Sem que o governo tenha interesse em negociar, sem que seja menos intransigente e flexibilize regras e reavalie valores, conceder mais ou menos prazo não ajudará em nada. Não tem direito presidente algum de acenar programas produzidos pelo governo central, empurrando a conta para os estados, porque isto é sim cumprimentar com o chapéu alheio, mesmo que a soberana continue enganando a si mesmo afirmando o contrário.
Assim, pede-se que o Ministro Guido Mantega se apresse em informar a soberana, sua chefe imediata, que o dinheiro do Tesouro sai é do bolso de todos os brasileiros o que, na prática, significa dizer que a redução a ser bancada pelo Tesouro reduzirá para zero o tal desconto.
Naquela indigência verbal que a caracteriza tão bem, dona Dilma afirmou que “ Temos de ter a energia mais barata do mundo, mas não a temos “. Beleza, basta para isto que retire boa parte dos impostos cobrados sobre a tarifa, e rapidinho nossa energia já será uma das mais baratas do mundo, e sem precisar estrangular as empresas do setor. Simples assim.
Como bem lembra Ricardo Galuppo, Brasil Econômico, o governo Dilma navega ancorado em uma nau de insensatos: para os royalties do petróleo, vetou o texto do Congresso em nome da preservação de contratos. No caso do pacote elétrico, não se envergonha de descambar para o extremo oposto, quebrando regras, contratos e o que houver no caminho para impor uma redução tarifária.
Lembrando a herança maldita
A coluna Alvaro Gribel e Valéria Maniero, A indústria cresce, Jornal O Globo, (reproduzida nesta edição), nos lembra outra faceta que faz tabula rasa do discurso de Dilma Rousseff, ao lembrar que “...Um dos últimos atos do ex-presidente Lula no cargo foi renovar por 25 anos a Reserva Global de Reversão. Para quem não sabe, trata-se de um dos principais encargos da conta de luz. Aconteceu no dia 31 de dezembro de 2010, um dia antes da posse da presidente Dilma Rousseff. A falta de planejamento é que incomoda investidores e analistas do setor elétrico. Naquele ano, o Brasil cresceu 7,5% e reduzir custos industriais não era prioridade. Agora, as medidas são implementadas às pressas, com perdas para as companhias”.
Mais um capítulo da novela petista “Maldita será minha herança”.
Mais pacotes de promessas inúteis -
O governo central anunciou novos pacotes e estímulos. Em um deles, promessas de linhas de crédito de R$ 100 bilhões (eles nunca lidam com a realidade nestas horas), como se tal bilionário montante fosse ficar disponível assim de forma fácil, e para quem quiser. Engana-se quem pensa ou acredita no governo. Primeiro, que estes valores são sempre superdimensionados para parecer que o governo é bondoso. Segundo, que os verdadeiros beneficiários serão sempre os mesmos, aqueles doadores para o caixinha do partido. Terceiro, que a burocracia é tamanha que não há cristão que consiga alcançar a glória de ser beneficiado com os bilhões que sempre abastecem Marfrig, JBS, Eike Batista dentre outros “eleitos”, para fazerem fortunas maiores por apoios menores.
Também saiu do forno o tal pacote dos portos. E, de novo, vejam lá, o governo vai criar uma super estrutura para “gerenciar” a bodega toda. É um novo canal para o empreguismo cafajeste, um novo canal para aquelas ações menos republicanas, nem sempre legais e impregnadas de corrupção e desvios de toda a espécie. O que impressiona no pacote não é o valor prometido para os investimentos. É a cara de pau, o cinismo explícito.
O pacote promete investimentos na ordem de R$ 54 bilhões. Pois bem, nesta edição publicamos artigo do Contas Abertas, informando que, em um orçamento previsto de R$ 1,1 bilhão para investimentos, em 2012, em portos, o governo Dilma conseguiu a proeza de realizar menos de R$ 220 milhões, ou, 19,4% do total. Alguém aí acredita que este pacote de mais de R$ 54 bilhões é para ser levado a sério?
Além disto, demandou-se uma infinidade de tempo para ser elaborado e anunciado. Ao ser lançado, eis que o governo anuncia, ainda com a mesma cara de pau, que irá lançar proximamente (quando?) um marco regulatório. Pergunta: como pretende o governo atrair os tais investimentos privados sem definir, antes, um marco regulatório? Qual será a besta quadrada que acreditará ser possível fazer apostas no escuro em favor de um governo intervencionista que acha que pode estabelecer, por decreto, o quantum de lucro que cada empresa pode obter em sua atividade?
Ou seja, em termos de incompetência e má gestão, este governo é, sem dúvida, um portento.


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