Adelson Elias Vasconcellos
Na segunda feira, a exemplo de muitos outros autores, desci o sarrafo na porcaria que representa para o país e seu povo, a adoção de livros do tipo o de Heloisa Ramos, “Por uma vida melhor”, com sua bestial apologia ao erro. Pela desgraça que representa tanto para a educação quanto para a construção de um país melhor, mais justo, mais moderno, mais civilizado, a crítica até que foi leve. Tentativa como a que o MEC patrocina merece repúdio total da sociedade. Não lhe cabe aleijar os patrimônios da nação brasileira em que o idioma, a exemplo da bandeira, do hino, do território e da moeda, são totens sagrados. Pelo contrário, sua colaboração deve ser no sentido de fortalecer o amor e a conservação destes patrimônios, que são propriedades inalienáveis do povo, não do governo muito menos de um ministério.
Vocês leram no post abaixo, do jornalista Reinaldo Azevedo, a origem desta bestialidade. Outros textos desta edição são taxativos na crítica ao absurdo impetrado pelo MEC, e num país em que 75% de sua população mal consegue assinar seu próprio nome: são considerados analfabetos funcionais.
Pois bem, gostaria de agora analisar a coisa toda pelo aspecto conceitual. Começo por lançar a seguinte questão: sobre que régua é medida a alfabetização de um povo, pelo domínio da linguagem escrita ou falada? Voltando um pouco ainda: como se dá o processo de alfabetização das pessoas, crianças ou adultos, pela linguagem escrita ou falada?
Apenas por aí é que se pode medir o tamanho do absurdo que Heloisa Ramos e seus seguidores, todos devidamente patrocinados pelo MEC, leia-se com o dinheiro do nosso bolso, apregoam e defendem. Aprender a falar é coisa que acontece nos primeiros anos de vida, e para isto não é preciso escola. Acontece como elemento natural do desenvolvimento dos indivíduos nas suas residências, no bairro, ou numa casinha de sapê.
Ao contrário, a linguagem escrita precisa de método, de normas técnicas e regras, que serão ministradas por profissionais de ensino devidamente treinados e preparados para isto.
Assim, por melhor que os alunos se expressem, se não souberem desenhar seus próprios nomes, ou ao menos não forem suficientemente capazes de lerem e compreenderem textos, os mais simples, não serão considerados “alfabetizados”. E o que torna o indivíduo habilitado para a vida adulta e, mais especificamente, para o exercício da mais rudimentar das profissões, é justamente seu grau de alfabetização.
Só por este elementar ângulo é que se dimensiona o quanto é ridícula e vigarista a tese de se admitir que uma escola, seja de que nível for, pode se propor a ensinar o errado como norma “modernosa” de ensino. Se nos aprofundarmos ainda mais, constataremos que mantida esta prática, de se aceitar o erro apenas como inadequado, tiraremos da educação um de seus papeis fundamentais. A escola, nos países que patrocinaram verdadeiras revoluções positivas na educação de seu povo – casos como os da Coréia do Sul e, atualmente, a China – não é encarada apenas como um local onde as crianças vão receber um volume determinado de conhecimentos. É também o local onde alguns valores serão transmitidos como preparadores para a vida adulta. Se, desde cedo, ensinamos que o erro é admissível, que tipo de geração estaremos formando para o futuro do país? Assim, a transgressão à lei e à ordem poderão, também, ser admitidos como fatos normais e o resultado desta balela toda será construirmos um caos, retornarmos à barbárie.
Não, definitivamente, a escola não é lugar para se praticar esta “luta de classes”. Ali, todos devem ser preparados e orientados para adotarem, no futuro, as melhores posturas, e utilizarem da melhor forma que lhes for possível as ferramentas que o conhecimento lhes pode proporcionar.
Quando o MEC lava as mãos diante de um absurdo destes, já é possível reconhecer o que verdadeiramente está em curso. Reparem no seguinte: o que de fato transforma o homem em cidadão livre e melhor é a educação, seu grau de conhecimentos e informação. Se desde cedo se admite conviver com o certo e o errado em um mesmo plano de tolerância qual a mensagem que estamos transmitindo? A resposta resume-se em insegurança diante de um mundo civilizado.
O que, no fundo, o MEC está fazendo é, justamente, rasgar os princípios civilizatórios mais comezinhos sobre os quais o país se ergue, se desenvolve e prospera.
Apenas pelo lado conceitual já se teria elementos suficientes para desmontar esta argumentação ridícula de se adotar, como livro didático, um que se dedica a insuflar o erro como norma. E, a partir daí, destruir a concepção do que seja “civilização”. Ora, o que foi que tirou o ser humano da escuridão, do obscurantismo, do atraso, acaso não terá sido a escola como centro erradicador de conhecimentos e transmissor de valores? Não foi por este centro que o ser humano livrou-se das amarras que o escravizaram por séculos?
Deste modo, o entendimento que se deve ter do verdadeiro papel que a escola deve desempenhar nas sociedades modernas é permitir que o indivíduo receba os instrumentos pelos quais ele poderá se desenvolver e evoluir e, de tal forma, que se torne não apenas mais livre e mais senhor de seu destino, mas também para que se reduzam as desigualdades, porque é justamente a ausências destes instrumentos o que o torna excluído e amplia as diferenças e distâncias.
Além, disto, pergunto aos pais e mães: que expectativa eles têm ao matricularem seus filhos na escola? Não será justamente a de que eles possam ser pessoas melhores do que foram seus país com os conhecimentos que receberão? Não é lhes garantir um futuro melhor, com menos dificuldades e restrições que a escuridão que o analfabetismo proporciona e condena? E de que forma se concretiza este “projeto”, este desejo, esta expectativa, não é justamente a capacidade de lerem, escreverem e se expressarem em seu próprio idioma?
Não, não é pela fala que avaliamos quem está melhor preparado para a vida adulta e profissional. É pela capacidade de ler e escrever, além é claro, pela soma de valores humanos de que o indivíduo é possuidor e atento e dedicado seguidor. A este conjunto é que chamamos de educação. Tentar desvirtuar esta visão é condenar os mais pobres, os que têm menor acesso à informação e ao conhecimento, a permanecerem no atraso em que se encontram, é investir na manutenção das desigualdades, é perenizar a miséria e a ignorância. Porque estejam certos de que, caso o MEC e alguns educadores, discípulos desta teoria vagabunda, insistam em manter este absurdo como norma de ensino, o resultado final que se terá será a de se perpetuar a injustiça social no Brasil como “fenômeno de sucesso”. E, se assim for, o país, lamentavelmente, dá as costas para a civilização e decretará que é a ignorância o instrumento que alimenta o progresso. Que eles festejem sua mediocridade, é uma escolha que lhes cabe: entretanto, acaso é esta a escolha do povo brasileiro? Tenho para mim que o povo deseja justamente o contrário. No Editorial do jornal O Globo, comenta-se sobre o projeto do “politicamente correto” que este besteirol da apologia ao erro representa. Trata-se justamente do contrário: o projeto defende é o politicamente incorreto, onde a vítima, infelizmente, será a população mais pobre que continuará excluída da modernidade e, o pior, permanecerá escrava da sua própria ignorância. A opção do ministério que Haddad comanda é nivelar por baixo. E ele, terá estudado prá que, prá isso?
Vimos na semana passada as fraudes do PROUNI. Abaixo temos as fraudes do PROJOVEM, como em passado não muito distante tivemos fraudes no ENEM e no FUNDEB. Ou seja, onde houver governo petista, a fraude veste seu manto dourado para se dizer “presente”. Fernando Haddad, não satisfeito, agora quer nos engabelar com a fraude do livro “didático” que, ao contrário de todos os sistemas decentes de ensino do mundo, quer nos impingir que o errado não é tão errado e que, ser ignorante em relação ao próprio idioma pátrio, passou a ser uma moderna forma de inclusão. Para os críticos desta “modernidade caótica”, a vacina jumentina já vem pronta para aplicar seu golpe fatal: é preconceito linguístico reparar no erro do companheiro que escreve agressões à língua nacional.
Para encerrar, deixo abertas algumas questões que, me parecem, mostram de que lado está o verdadeiro preconceito que os detratores do idioma tanto acusam: se a população mais pobre passou a ter mais acesso à educação, o que é ótimo, e se as escolas precisam adequar seus conceitos e linguagem à fala dita “popular”, onde está escrito ser imperativo que a linguagem popular deva ser ignorante? Por que não pode ela ser culta também? Por que seus erros não podem ser corrigidos? Por que, cada vez que nos referimos a povo, popular e outras derivações, tais expressões devem estar associadas ou serem sinônimos de ignorância, pobreza, miséria e desigualdade? Por que não se pode conceder e conceber que o povo possa ser culto, rico e igual? Acreditem, o mal que estes tais “progressistas” fazem ao que chamam de “oprimidos” vai muito além do simples preconceito. Esquecem que povo é composto por pobres e ricos, cultos e analfabetos, gordos e magros, homens e mulheres, jovens e adultos, pretos e brancos. Não existe meio povo, ele é a soma de todos os seus indivíduos, independente de suas diferenças sociais, econômicas, físicas, ou culturais.
De minha parte, entendo que, das duas, uma: ou não se corrige e não se educa de forma correta por absoluta incompetência dos educadores, alguns ao menos, ou pelo interesse canalha de se manter os pobres na ignorância eterna. O certo é que, ambas, são inaceitáveis para um país que se quer melhor e mais justo.
E uma última questão para o ministro Haddad e sua turma do MEC: quantos de vocês tem filhos estudando matriculados em escola pública e para quantos deles foi permitido que a educação seguisse as regras preconizadas no livro da professora Heloisa Ramos? Querem saber: não precisam dizer nada, sabemos bem qual a resposta.



