quinta-feira, maio 19, 2011

O patrimônio, a lavanderia e o consultor

Adelson Elias Vasconcellos

Na explicação do dia, Palloci tentou se justificar apontando outros membros que fizeram parte de governos e que, ao deixarem seus cargos, passaram a prestar serviços de consultoria à iniciativa privada. Cita os casos de Pérsio Arida, André Lara Rezende e Mailson da Nóbrega. Engraçados estes petistas: quando acusados, sempre se defendem apontando o dedo para os outros, como se o erro de uns pudessem justificar os seus. Para os leigos e desinformados, a explicação até guarda certa lógica e acaba se fundamentando. Contudo, para aqueles que guardam certa memória dos fatos e tem o péssimo hábito de se informarem, lerem jornais, etc. – péssimo hábito para os canalhas, é claro – a explicação não passa de tentativa vigarista. Por quê? Primeiro, porque os citados, ao deixarem seus cargos, dedicaram-se exclusivamente à atividade privada. Não fizeram parte de governo algum, e sequer se candidataram a cargos públicos. Palocci, ao contrário, deixou o governo carregado nos braços da quebra de sigilo do caseiro Francenildo e foi ser deputado. Pertenceu, neste período, à base governista.  

Segundo, todos os citados são profissionais formados e diplomados nas atividades a que se dedicaram como consultores, a posteriori. Se não pertencessem a governo algum, seriam os mesmos profissionais. O mesmo não se pode dizer de Palocci. Qual a formação de Palocci? Médico, não é mesmo? Ora, a menos que ele quisesse infringir as leis que versam sobre o exercício ilegal de alguma profissão regulamentada, o correto seria que prestasse serviços de consultoria em atividades afins à sua formação, portanto, medicina.

Chama a atenção que, apesar do governo Dilma ter cinco de seus ministros como detentores de empresas de consultorias, justo o exemplo se volta para a turma que frequentou o governo de FHC. Claro que a artimanha é sórdida a mais não poder: todos os indicados saíram do governo e não frequentaram mais a vida pública. O mesmo não se pode dizer nem de Palocci nem do manda chuva do partido, José Dirceu, não é mesmo?

De acordo com as explicações já divulgadas, a empresa “Projeto” do atual chefe da Casa Civil, prestou serviços na atividade de consultoria econômica-financeira a empresas privadas. Não sendo ele economista nem contador, caracteriza-se, deste modo, que exerceu atividade diferente de sua formação básica.

Ora, enquanto Palocci não fornecer maiores detalhes dos serviços que prestou como consultor econômico-financeiro, caracteriza-se que o dinheiro empregado para aquisição do escritório e do apartamento de luxo, qualquer coisa em torno de R$ 7,4 milhões,  foi obtido através do exercício ilegal de uma atividade para a qual não tem formação. Se disse que ele, Palocci, por ter sido ministro da Fazenda, reuniria conhecimentos e experiência suficientes para atuar no ramo. Errado, somente seria possível aproveitar seu conhecimento e experiência acumulados como Ministro da Fazenda se a atividade exercida fosse a de lobista. Além disto é exercício ilegal da profissão ou de economista ou contador.

Mas vou um pouco mais adiante: ainda no campo das explicações e defesas que alguns parlamentares da base aliada fizeram em favor do  chefe da Casa Civil, se diz que não é incompatível enquanto deputado, ele estar ligado ou ser sócio de empresas da iniciativa privada. Muito bem: se ele não exerceu ilegalmente a profissão na qual não foi formado, se agiu como lobista, ele o fez como e enquanto deputado e, em um governo, ao qual era aliado da primeira hora. Não estaríamos aí diante de um bem caracterizado e flagrante conflito de interesses? Não teria Palocci, mesmo que deputado, praticado o crime de tráfico de influência?

Reparem que não estou prejulgando Antonio Palocci. Estou apenas exercendo análise sobre fatos conhecidos e as explicações divulgadas. Pode o ministro ter explicações bastante claras e justificáveis para amealhar verdadeira fortuna como consultor e em um período de tempo relativamente curto. Pode ser que tudo esteja certo e enquadrado dentro dos limites legais. Porém, e até que se encontrem as respostas para as questões que aqui são levantadas, o que se disse até agora é insuficiente para afastar suspeitas que, por certo, pesam sobre o ministro Palocci.

Existe um lado nebuloso nesta questão que é a seguinte: quem se apressou em fustigar a vida privada do ministro? Não terá sido a oposição, porque a oposição que se diz existir, está muito mais preocupada em se autodestruir do que em atuar como oposição ao governo Dilma. Sequer consegue ser competente em seu verdadeiro papel, quanto mais a de escarafunchar a vida alheia, principalmente, de políticos governistas. Aliás, quem tem know kow em levantar dossiês e querbrar sigilos de adversários políticos é bem a turma que ladeia o senhor Antonio Palocci. Ou seja, e a exemplo do que já ocorrera com a ministra da Cultura, Ana Hollanda, há um cheiro bem característico de fogo amigo. Contudo, mesmo que a “ fonte” da informação venha de supostos aliados, ela em si não tem o poder de se evitar cobrar do ministro explicações mais objetivas e justificadas.

Autoridade pública não pode conviver com o manto da suspeita, isto é, valer-se de cargos ou de sua proximidade com o poder para auferir benefícios e vantagens financeiras em negócios de alcova. O que se divulgou até aqui é insuficiente para dar a transparência obrigatória ao fato. Se o ministro praticou consultoria na atividade que se diz, e pelo volume de honorários recebidos capazes de justificar a compra de imóveis por mais de sete milhões de reais, ou exerceu ilegalmente uma profissão regulamentada e para a qual não tem a habilitação exigida em lei, ou valeu-se de sua proximidade com o poder para a prática de tráfico de influência, o que também caracteriza crime. Num ou noutro, a lavanderia da “Projeto”, a ex-empresa do ministro, não conseguiu, até agora, remover as manchas que ficaram na roupa suja. No caso, vai precisar algo mais além de água e sabão.

Quanto a blindagem com que o governo cercou Palocci para que este não explicasse as questões que permanecem suspeitas, bem aí a conversa muda de figura. Quanto custará a Dilma e a Palocci, no campo político, a proteção concedida? Em nove anos de poder, o PT até que poderia diversificar a sua atividade para além da política: abrir uma tapeçaria. O que se usou de tapete para esconder a sujeirada toda dos “cumpanhero”durante este tempo, é uma fábula!