quinta-feira, julho 04, 2013

Economia: a pedra no caminho da reeleição

Adelson Elias Vasconcellos


A presidente Dilma já completou dois anos e meio de seu mandato, e ao fechar o terceiro ano, completará um ciclo completo de desastres econômicos. A inflação jamais ficou perto da meta, que é de 4,5%. Sempre superou a barreira de 5% e pode fechar 2013 com elevação de 6%. 

O crescimento do PIB não poderia estar pior. Ou melhor, até poderia o país viver uma recessão. Mas esta é uma hipótese que se deve para frente, não agora. Começou com 2,7% em 2011, caiu para 0,9% em 2012, e já se projeta que encerra este ano em torno de 2%, talvez menos. 

A balança comercial, não fosse o truque cretino aplicado pela Fazenda em junho,  e o saldo negativo seria histórico. O déficit em conta corrente vai de vento em popa: R4 70 bi. Nesta semana, Mantega anunciou que para atingir a meta  fiscal prevista, talvez só corte de gastos não baste, precisará elevar impostos.  

Sempre que questionados sobre o baixo crescimento, tanto ministros quanto a própria presidente trataram o assunto com total descaso.  O discurso apelava para um tal “bem estar social” que as manifestações de rua acabam por desmentir. 

Dilma sempre desprezou qualquer política fiscal responsável. Seu governo tratou de expandir a demanda o quanto pode. Tanto aquecimento, num país com escassez de oferta e com produção em queda, não poderia provocar resultado diferente: conseguiram ressuscitar a inflação que já parecia esquecida dos brasileiros.

No campo dos investimentos, a coisa vai desabando lentamente e sem perspectiva de se recuperar. Para a infraestrutura, Dilma acenou com um tal Plano de Concessões cujo êxito dependia de marcos regulatórios. 

Quando estes foram concluídos e saíram do forno, notou-se que “o leque de oportunidades” já nasceria morto, dado o enorme preconceito e má vontade do governo em relação ao capital privado.  O tal plano encruou de vez. Ninguém acredita nas “facilidades” que o governo oferece. E por uma razão principal: Dilma resolveu tabelar o lucro das empresas, sem deixar de impor “exigências” que não se coadunam com o retorno dos investimentos proposto. Assim, nada anda. 

E quanto mais tempo passa, a infraestrutura vai se deteriorando ainda mais. Pelo lado dos serviços, bem está nas ruas a população dizendo em que estado se encontram.

Neste tempo, com pequenas oscilações, a receita com impostos, taxas e contribuições se mantém equilibrada, estável aos anos anteriores.

Acima, o leitor tem um cardápio variado mas que, definitivamente, contraria as  mais elementares teorias econômicas. Em condições como as que temos, a chance de crescimento, e crescimento sustentável, robusto, é única: ZERO.

A permanecerem as condições atuais e com os resultados decorrentes das escolhas feitas,  Dilma verá seu projeto de reeleição se desmanchar nos números.  Não há chance de dar certo um governo que tem feito tudo para, de fato, dar errado.  

As facilidades creditícias e os incentivos fiscais a  atividades específicas, tudo armado para alavancar o consumo, já deveriam ter sido retiradas há mais tempo.   Quanto mais se insistir nesta política, e enquanto não se produzir uma política industrial minimamente competente, maior será a munição que o governo estará dando para a inflação continuar resistente.  Por exemplo, os juros SELIC cuja baixa Dilma tanto comemora, podem retornar ao patamar anterior por duas razões:   uma, a escassez de oferta para suprir a demanda aquecida provocará mais inflação. E, com o dólar em linha ascendente, também os importados que, de certa forma serviram para segurar os preços,  deixarão de ser aliados para se tornarem vilões dos preços em alta. E a segunda razão reside no fato de que o governo Dilma continua expandindo seus gastos, e uma expansão suicida porque  muita acima do crescimento do PIB, da elevação das receitas e até acima da própria inflação. É crescimento real, expandindo ainda o consumo e pressionando , em consequência, elevação dos preços.  

Enquanto o governo Dilma não se convencer de que ele é problema para os desajustes econômicos do país, insistindo em traçar paraísos fictícios do tipo “vai tudo bem” ou do tipo “está tudo sob controle”, quando a realidade insiste em provar o contrário,  a perspectiva de curto e médio é que os cenários piorem ainda mais.

A mesma economia em expansão que levou Dilma ao poder, pode se tornar a causa de sua capitulação.  Seu desejo de reeleição pode não se realizar não por fatores externos, como o governo tenta, falsamente, atribuir as razões dês seus fracassos. Será a arrogância intermitente que conduzirá Dilma ao cadafalso.  E o que é pior: seu péssimo terá a malvadeza de comprometer quem a suceder, por obrigá-lo a consumir metade do mandato para por a casa em ordem, não se dispensando um pequeno período recessivo, indispensável para o reequilíbrio das finanças públicas e recuperação da responsabilidade fiscal.    

Um detalhe. Na eleição presidencial que colocou Dilma no trono, no segundo turno o candidato foi José Serra. O tucano, se não estou enganado, recebeu mais de 44 milhões de votos. 

Tenho observado que Dilma já recebeu em seu gabinete para um papinho sobre sua ideia de reforma política, entidades com bem menos representantes. Até agora, o único que foi convidado, pela oposição, foi Randolfo Rodrigues, representando  o pequeno PSOL. Os demais ficaram fora do baile.

Ora, uma presidente da república governa o conjunto do povo brasileiro, satisfeitos e insatisfeitos, governistas e oposicionistas, pretos, negros, amarelos e vermelhos, gordos e magros, homens e mulheres, adultos, jovens, crianças e velhos. Assim,  não se pode excluir  de um debate sobre mudanças que afetarão a vida de TODOS, os que representam mais de 40% do eleitorado do país. Tal atitude demonstra o tamanho do espírito pequeno da governanta, sua mesquinhez, sua falta de senso democrático, além de continuar  ignorando solenemente as imposições a que o cargo lhe impõem. A resposta a esta atitude menor virá, com certeza, em outubro de 2014. 

Diante de cenários tão sombrios que se observa na economia, ver a presidente da república dedicada integralmente à uma reforma política que nem o epicentro das insatisfações, é preocupante. Se tudo estivesse bem, vá lá. Governar é também escolher prioridades conforme os momentos. Porém, não é isso que se vê. Muito do que se reclama deriva, justamente, da má condução da economia que, invariavelmente, recairá no colo dos contribuintes, afetando em grau maior as classes mais pobres.  

Diante da apatia e do imobilismo que se observa, muitos investidores vão puxando o freio de mão para novos empreendimentos, quanto mais é que o próprio governo que emite sinais claros de completa insegurança, isto é, de que os contratos poderão ser cumpridos ou não, a depender os alaridos.

E, a persistir este comportamento negligente, a presidente faz uma aposta arriscada que pode comprometer seriamente seu projeto de reeleição. O Brasil precisa de medidas urgentes para dinamizar sua economia, aqui e agora, e não pode ficar sentando esperando até o resultado das urnas de daqui um ano, para saber que rumo tomar. 

Todo mundo pede socorro a Brasília. Assim fica difícil

Cláudia Vassallo
Revista EXAME

É a república do grito: basta surgirem as primeiras dificuldades para que um batalhão corra a Brasília pedir socorro ao governo

Agência Brasil 
Mais um pacote: 
a presidente e sua equipe anunciam o plano 
Minha Casa Melhor para tentar estimular o consumo 

São Paulo - Nos últimos tempos, o Brasil se transformou numa espécie de “república do grito”. Basta que as dificuldades — ou a chance de que elas ocorram — batam à porta de determinado setor para que executivos especializados em relações institucionais, um dos cargos mais valorizados da atualidade, entrem em ação para pedir algum tipo de ajuda ao governo.

Pode ser um subsídio, uma desoneração temporária da folha, a redução, até segunda ordem, de um imposto aqui e outro acolá. Cada vez que um grupo de empresas consegue alguma coisa, a fila de executivos em busca de “favores” cresce em Brasília, fruto da ansiedade daqueles que se veem fora do jogo. E, cada vez que as cordas do mercado são mexidas pelo governo, mais desorganizada e menos confiável parece ficar a economia.

É uma enorme distorção de papéis. Em circunstâncias normais, empresários não se beneficiam nem se salvam graças a canetadas de autoridades. Eles não pedem favores, nem mesmo aqueles que podem ser rotulados como justos, sob pena de ter de pagá-los lá adiante.

Os bons empresários — competentes, eficientes, corretos — sobrevivem e prosperam ainda que encontrem obstáculos pelo caminho, enquanto os ruins — incompetentes, ineficientes, corruptos — são, cedo ou tarde, condenados pelo mercado à extinção. Em um cenário que se aproxime do ideal, governos não distribuem ajuda de forma seletiva e não elegem mocinhos e bandidos.

Eles trabalham para construir um ambiente onde existam poucos empecilhos para que as coisas aconteçam, os inovadores criem, os ousados arrisquem e o lucro possa ser visto como uma oportunidade para fazer mais — para acionistas e para a sociedade —, e não como a materialização de um mal necessário, tratado com tolerância mínima.

É quase ingênuo acreditar que o país seguirá um bom caminho descuidando do todo e achando que pode controlar as partes. Não dará certo e a prova disso pode ser vista muito mais na vida real do que nas estatísticas.

Está no incômodo e na insegurança que as perspectivas de nossa economia vêm causando não apenas mais nas chamadas “elites”, mas numa parcela do povão que, ao longo das últimas décadas, descobriu que poderia trocar o ônibus lotado pelo carro próprio ou substituir o coxão duro do almoço pela alcatra. O povão não quer abrir mão disso e só tem um jeito de expressar, de verdade, sua opinião: o voto.

O Brasil de hoje parece ser uma mistura de percepções absolutamente equivocadas. Mais do que nunca, é preciso deixá-las de lado para encarar a realidade. Não é verdade que seria possível nos transformar em potência do dia para a noite, assim como não é verdade que nos transformamos num desastre absoluto.

Não é verdade que essa nova classe média vai se manter onde está — ou que vai subir na vida de forma consistente e segura — à base de incentivos. Ela precisará de bons empregos. Também não é possível acreditar que negócios sólidos e bem-sucedidos no longo prazo dependam da boa vontade estatal. É uma pena, mas, na vida real, boa vontade não é suficiente para resolver problemas complexos.

Numa economia sadia e competitiva, na qual ganhar dinheiro não seja originalmente uma vergonha e onde o bom senso vença a ideologia, os bons empresários trabalharão mais e gritarão menos. Não precisarão pedir nem pagar por favores dos poderosos (o que não significa deixar de lutar por interesses legítimos).

Se conseguirem obter lucro no presente e contarem com a perspectiva de continuar a ganhar no futuro, se encontrarem um meio estável e regulado de forma a gerar negócios honestos, e não a impedir que eles surjam, empresários de todo o mundo voltarão a investir no Brasil. Simples assim.

Ao arrumar o todo — o ambiente de negócios — e deixar que as partes se ajustem, este e os próximos governos terão chances reais de fazer com que a roda da economia brasileira volte a girar com mais vigor e por mais tempo. E se pouparão de dar um bocado de chateações e da tarefa ingrata de trabalhar para dar explicações.

A feitiçaria desandou

O Estado de S.Paulo

Da presidente Dilma Rousseff, na mensagem ao Congresso em que defende um plebiscito para a reforma política e sugere cinco temas para a consulta: "Argumentos que buscam imputar ao povo uma impossibilidade de compreensão da melhor forma de representação não podem prevalecer em um Estado Democrático de Direito como o nosso".

Da ata da reunião promovida pela presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia, com os 27 titulares dos tribunais regionais, em que a Corte estipulou um prazo de 70 dias para efetuar o plebiscito, a contar da decisão final do Congresso sobre o seu conteúdo: "A Justiça Eleitoral não está autorizada constitucional e legalmente a submeter ao eleitorado consulta sobre o tema que ele não possa responder ou sobre a qual não esteja prévia e suficientemente esclarecido".

É isso que está em jogo - e não o princípio abstrato invocado por Dilma. E o esclarecimento do eleitorado em relação a cada um dos quesitos e ao seu conjunto que o Legislativo concordar em submeter-lhe impede que os resultados da votação, a serem depois transformados em lei, vigorem já para as eleições de 2014. Segundo cláusula pétrea da Constituição, todas as normas e condições de um pleito precisam estar dadas um ano antes de sua realização - no caso, até 5 de outubro próximo. Não está claro se Dilma foi alertada para as realidades do calendário quando imaginou que o plebiscito poderia ser votado a tempo de produzir efeitos para a disputa do ano que vem. A rigor, tanto faz.

Tendo embarcado na aventura da convocação, também por plebiscito, de uma ilegal Constituinte exclusiva para fazer a reforma, a presidente entendeu de adotar um plano B, soberbamente alheia aos seus perigos. O que ela queria, a todo custo, era desviar as atenções das queixas predominantes na escalada de protestos no País. As multidões foram às ruas contra o aumento das passagens de ônibus, a má qualidade dos serviços públicos essenciais, a começar do transporte coletivo, os gastos com a Copa e a corrupção. Apenas uma minúscula parcela dos manifestantes incluía a reforma política entre as suas prioridades. Ciente disso, Dilma agiu de má-fé.

E acaba de repetir a dose com a jogada do plebiscito (e seus efeitos) para já. A menos que, à maneira do pai de família do conto O plebiscito, de Machado de Assis, ela ignorasse não o termo, como o personagem, mas os desdobramentos políticos da consulta a toque de caixa. O fato é que ela jogou a bomba do plebiscito no colo do Congresso para poder dizer, caso estoure, que fez a sua parte para mudar os costumes políticos brasileiros. É um equívoco comum. A corrupção não resulta dessas ou daquelas normas eleitorais e partidárias, mas da falta de escrúpulos dos beneficiários dos malfeitos. Afinal, são as pessoas que fazem as funções que exercem e não o contrário.

Ainda que houvesse um nexo essencial entre o sistema político e os ilícitos que se cometem no seu bojo, não seria um plebiscito que o desfaria. Numa consulta como a sugerida pela presidente, por exemplo, passam de uma centena as combinações de respostas possíveis. A chance de vir daí um resultado congruente é mínima. Os próprios blocos parlamentares que orientariam os eleitores a votar de um modo ou de outro em cada quesito só a muito custo se formariam, dadas as inúmeras divergências sobre o conjunto. Dois partidos podem pregar o mesmo voto diante de uma questão e discordar em relação a outra.

Já não bastassem, pois, os prazos irrealistas para a aprovação, pelo Legislativo, dos temas e alternativas do plebiscito, e para o "suficiente esclarecimento" do eleitorado, como exige o TSE, só se pode ser pessimista acerca do seu desfecho. Isso, se sair o plebiscito à Dilma - ou qualquer outro. O clima é de revolta generalizada entre os aliados do governo. Com razão, denunciam que o modelo oferecido privilegia os interesses da presidente e, por extensão, do PT, ignorando o Congresso em geral e a base em particular. O PMDB já arrola as modalidades de retaliação a seu alcance - desde comandar a derrubada de vetos presidenciais até reavaliar o apoio à reeleição de Dilma.

Aprendiz de feiticeira, ela não previu que a feitiçaria poderia desandar.

Ecos das ruas

Marcus Pestana
Blog do Noblat

Foto: AP

Ainda não é possível antever a intensidade das mobilizações de rua no futuro próximo. Mas uma coisa é certa, o Brasil não será mais o mesmo. Em meio a perplexidades e temores despertados, algumas conclusões preliminares são possíveis:

1) As redes sociais vieram para ficar. No Brasil, ainda parecia distante da realidade o protagonismo do Facebook ou do Twitter na vida social e política.

2) Índices de popularidade e aprovação de governo são provisórios e relativos. As manifestações mostraram que nem tudo vai bem, nem tudo é céu de brigadeiro, ao contrário da propaganda apologética e unilateral do governo.

3) Instituições e lideranças são movidas pela intensidade da participação social. Todos se movimentaram em resposta às ruas. Dilma tentou recuperar a iniciativa política, vestindo o figurino de estadista, coisa que não fez em dois anos e meio de governo, gerando vácuo de liderança e utopia. O Congresso derrotou a PEC 37, caracterizou como crime hediondo a corrupção e destinou os royalties para educação e saúde. O Supremo decretou a prisão de um deputado federal.

4) A esmagadora maioria é contra o vandalismo, o banditismo e a violência como arma política. É preciso tolerância zero contra a barbárie.

5) A democracia representativa precisa ser recheada com alta dose de participação popular. A sociedade contemporânea é fragmentada e multifacetada. A democracia direta é impossível, a exclusivamente representativa se esgotou e é insuficiente.

6) É preciso atualizar a discussão sobre direitos e deveres entre cidadãos de uma mesma comunidade. O direito de manifestação livre e pacífica é sagrado, mas não é maior do que o direito de o cidadão ir livremente da casa para o trabalho e vice-versa.

7) A democracia demanda segurança. As forças policiais têm um papel essencial para assegurar a liberdade e a ordem constitucional. Não vivemos mais uma ditadura. Não podemos glamourizar vândalos e demonizar policiais.

8) Ninguém tem o monopólio da verdade e das boas intenções. Houve um recado geral, concentrado, é claro, no Governo Federal, mas que foi também para todos os partidos, atores políticos e instituições.

9) Não bastam renda e emprego. Qualidade de vida foi o centro das manifestações. Qualidade na saúde, na educação, no transporte coletivo. Prioridade social efetiva nos gastos públicos. Menos estádios e trens-balas, mais escolas, mobilidade urbana e hospitais.

10) A demagogia e o populismo não são o caminho. Não podemos jogar fora o senso de responsabilidade fiscal e de equidade social nas políticas públicas e nas estratégias de fixação de tarifas e subsídios, que duramente conquistamos.

São conclusões provisórias. E é melhor aprender com o sambista: “Faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar.”

Ladroeira, vá lá, mas sem deboche.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O roubo faz parte do poder; um inglês famoso, lorde Acton, dizia já em 1887 que todo poder corrompe. Rouba-se no Brasil desde quando o Brasil era colônia (D. João 6º, ao voltar para Portugal, esvaziou os cofres do país); roubou-se no mundo comunista (Erich Honneker, o último líder da Alemanha Oriental, acumulou alguns bilhões de dólares), rouba-se no mundo capitalista (Helmut Kohl, que liderou a reunificação alemã, caiu por receber dólares, digamos, não contabilizados). Rouba-se em ditaduras e democracias. Faz parte.

O que não faz parte, e que responde pelas grandes manifestações, é o deboche. Nunca por aqui alguém brigou pela corrupção dos outros. Mas quando um senador que teve de renunciar para não ser cassado vira presidente do Senado, quando ministros afastados por "malfeitos" voltam a circular no Governo, quando deputados condenados à prisão por corrupção não apenas continuam exercendo o mandato como vão para a Comissão de Constituição e Justiça, quando o Poder torna sigilosos os gastos do cartão corporativo de uma servidora que se dizia grande amiga do então presidente, aí é demais. É juntar o roubo ao escárnio. É dizer "vou tomar seu dinheiro e contar pra todo mundo que você é otário". 

Mentir faz parte do deboche. Quando o ministro da Fazenda diz que as contas batem graças a uma tal "contabilidade criativa", está debochando. Na ditadura, acochambravam-se os índices (era a expressão da época), mas negava-se a bandalheira. Hoje a bandalheira é afirmada, enfiada na cara do cidadão. 

É abuso.

Padrão Dilma
Dilma diz que seu Governo é Padrão Felipão. Bela comparação: foi o Padrão Felipão que levou o esquadrão do Palmeiras à Segunda Divisão.

Depois da queda
Nem o Palácio do Planalto deve se assustar, nem a oposição se embandeirar, com a queda do índice de popularidade do Governo Dilma. As manifestações derrubaram os índices dos governantes em geral (e era inevitável que assim fosse). Mas a queda pode ser passageira, dependendo de como se fizer o manejo da crise. O importante não é a queda causada pelas manifestações: como num terremoto, o importante é o que ocorre nas camadas subterrâneas. Mostra a pesquisa DataFolha: a expectativa de aumento da inflação passou de 51 para 54%; a avaliação positiva do comando da economia caiu de 49 para 27%; a expectativa de crescimento do desemprego passou de 36 para 44%. 

Este é o nó a desatar. 

Então, tá - São Paulo
A Artesp, Agência de Transportes de São Paulo, diz que a cobrança do pedágio por eixo suspenso dos caminhões (aqui publicada em 30/6) "é neutralizada pelo não repasse do reajuste tarifário anual de 6,5". A íntegra da nota da Artesp está em http://www.brickmann.com.br/index.php

OK: tanto a cobrança por eixo suspenso não é neutralizada pela falta de repasse do reajuste que os caminhoneiros pararam, conforme informou a coluna. E o Governo suspendeu a cobrança que não onerava os caminhoneiros exatamente porque onerava os caminhoneiros. 

Então, tá - Goiás
Jayme Rincon, presidente da Agetop, Agência Goiana de Transportes e Obras, informa que a placa com dois preços distintos, citada nesta coluna em 30/6, foi "um erro pontual de uma empresa terceirizada, responsável pela colocação de placas e paineis". O erro: a estrada foi licitada em dois lotes, e na placa constava apenas o preço de um dos lotes. A íntegra da mensagem do presidente da Agetop está em http://www.brickmann.com.br/index.php.

OK: mas alguém deu a informação errada para a empresa terceirizada. Alguém não conferiu a placa que seria colocada. Erro pontual de terceiros?

Bolsarney
O caro leitor está desempregado, sem perspectivas? Seus problemas acabaram! Dependendo de sua posição partidária e importância política, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, tem bons empreguinhos a oferecer. Por exemplo, o Conselho de Gestão Estratégica das Políticas Públicas do Governo, Congep. O Maranhão, segundo Estado mais pobre do país (e há 50 anos sob o comando férreo da família Sarney), paga 206 conselheiros com assento no Congep. Cada um dos laboriosos escolhidos recebe R$ 5.800 mensais para comparecer a uma reunião no Congep, de 30 em 30 dias. Não, explica o Governo maranhense, não se trata de uma boca rica, daquelas de ganhar sem trabalhar: os conselheiros se esfalfam intensamente todos os dias, escravos que são da cidadania, em contato permanente com a comunidade, buscando, analisando e coordenando informações de sua região, e as levam para uma discussão geral todos os meses. 

São 206 beneméritos, que ganham o pão maranhense com o suor de seu rosto, não é?

Muito prazer, sra. Dilma
A presidente Dilma talvez tenha se inspirado na reunião dos 206 da governadora Roseana para reunir pela primeira vez seus 39 ministros - vários dos quais ainda não tinham se reunido a sós com ela. Dos 39, vieram 36. Faltou até Mercadante, que pela primeira vez perde a chance de enfiar-se na foto atrás de Dilma. 

Não se decidiu nada; mas os que foram ao menos puderam apresentar-se a ela.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

A peleja da amadora contra os profissionais

Ricardo Noblat

Brilham de forma mais intensa os olhos da maioria dos deputados federais e dos senadores de todos os partidos – alguns deles do próprio PT.

No final da tarde de ontem, um deputado do PMDB do Nordeste aproveitou uma roda de colegas na Câmara para cantar baixinho, feliz, o estribilho de antiga música da dupla Antonio Carlos e Jocafi:

Você abusou / tirou partido de mim abusou / tirou partido de mim abusou / tirou partido de mim abusou...”

O alvo de tanta felicidade: a presidente Dilma Rousseff. 


A hora do troco chegou!

Como Dilma imaginou enfrentar o ronco das ruas?

Jogando nas costas do Congresso o peso das reclamações.

De sua parte, fez pouco para conter a ira dos manifestantes. Disse que investirá R$ 50 bilhões em transporte, prometeu contratar milhares de médicos, até mesmo estrangeiros se necessário, e o que mais?

Em seguida, sacou da bolsinha de mão o que imaginava serem três poderosos trunfos: um plebiscito, uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva e a reforma política.

Por meio de um plebiscito, o povo diria sim ou não à convocação de uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política que o Congresso ignora.

O trunfo da Constituinte foi pelo ralo menos de 24 horas depois. “Para a solução atual, não se faz necessária uma Constituinte. Ou seja, não se faz necessária romper a ordem jurídica”, decretou Michel Temer, vice-presidente da República.

Juristas de peso deram razão a Temer.

O trunfo do plebiscito começou a perder seu valor quando Dilma encaminhou, ontem, ao Congresso sugestões para a reforma política.

O que ela e o PT querem é que os efeitos da reforma se façam sentir nas eleições gerais do próximo ano, o que poderia beneficiá-los.

Para isso o Congresso seria obrigado a aprovar a reforma até 5 de outubro – um ano antes das próximas eleições.

Se isso não for possível, as consequências da reforma só incidiriam sobre as eleições de 2016.

A Justiça Eleitoral deu a entender que dificilmente haverá tempo para realizar o plebiscito e aprovar a reforma no Congresso até o dia 5 de outubro.

O PSB, aliado do governo, defendeu que o plebiscito coincida com as eleições de 2014.

O PMDB da Câmara dos Deputados não quer ouvir falar em plebiscito para já. E se puder dará um jeito para que a reforma política acabe outra vez esquecida.

Em resumo: por tratá-los mal, Dilma abusou dos políticos.

Por terem sido abusados, e diante da queda dela nas pesquisas de intenção de voto, eles agem para enfraquecê-la ainda mais.

Está em curso a peleja da amadora contra os profissionais. O resultado é previsível.

O País acordou, Dilma não

O Estado de S.Paulo

Já era esperado que as manifestações que sacudiram o País - e ainda continuam a fazê-lo em menor intensidade - levassem a uma queda tanto do índice de aprovação do desempenho da presidente Dilma Rousseff como dos que se mostram dispostos a votar por sua reeleição em 2014. O que surpreendeu e assustou foi o tamanho da queda, registrada na última pesquisa do Datafolha. Em apenas três semanas, a porcentagem dos que consideram seu governo ótimo ou bom despencou de 57% para 30%. Uma perda de 27 pontos - a maior registrada por aquele instituto desde que o ex-presidente Collor, em 1990, congelou a poupança - em tão pouco tempo realmente impressiona.

Aquilo que Dilma e seus aliados parecem não ter percebido é que, se nem todas as insatisfações que levaram às manifestações foram ainda identificadas, entre elas dificilmente deixarão de estar o mau desempenho da economia - com a inflação crescente assustando principalmente as camadas de baixa renda, as mais prejudicadas por ela - e as difíceis relações entre a presidente e sua vasta e heterogênea base de sustentação no Congresso. Esses dois ingredientes, que já seriam suficientes para provocar mal-estar, para não dizer crise, foram potencializados pela ira das ruas.

Descontente em especial com a má qualidade dos serviços pelos quais paga caro e com a corrupção que continua a correr solta, e há muito tempo, o povo acordou e está dando seu recado de forma em geral ordeira. Já Dilma e seu governo ainda parecem entorpecidos pela ilusão de que tudo ia pelo melhor dos mundos. Embora se dizendo disposta a ouvir a voz das ruas, a presidente não deu mostras até agora de ter entendido, como deveria, o seu recado. As medidas de natureza administrativa e econômica anunciadas para aplacar a ira dos manifestantes são quase todas requentadas e pouco animadoras. O mesmo se pode dizer das destinadas a combater a corrupção, que não tocaram, nem de leve, em áreas sombrias de seu governo, que voltaram a ser ocupadas pelos correligionários dos que delas foram afastados pela faxina promovida no início de seu mandato.

É tudo isso - mais a constatação de que a presidente não está à altura do cargo - que está por trás do tombo de Dilma na apreciação do povo. E, como a queda diz respeito à eleição de 2014, na qual Dilma está abertamente empenhada, seus efeitos desorientam ainda mais a já desorientada presidente. No cenário em geral considerado mais provável da sucessão - tendo como candidatos Dilma, Marina Silva, Aécio Neves e Eduardo Campos -, a presidente perdeu 21 pontos em relação à última pesquisa, caindo de 51% para 30% na preferência dos ouvidos pelo Datafolha.

Assustados com o futuro, que começa a ficar incerto, seus aliados - até mesmo o PT - tomam precauções, pedem mudanças no governo e na articulação política e insinuam possíveis rompimentos. O próprio líder no PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI), foi tão direto quanto possível para alguém em sua posição. Lembrando os exemplos dos ex-presidentes Fernando Henrique e Lula, que estavam bem colocados antes de se candidatarem à reeleição, afirmou que, "se ela (Dilma) estiver bem posicionada em 2014, será a nossa candidata. Isso é o que estamos sentindo nas reuniões do PT". Senão... Isso explica os movimentos ainda velados de "Volta Lula".

De imediato, Dilma tem de enfrentar o descontentamento de sua base aliada no Congresso - que já existia e cresceu com o susto das manifestações e sua queda nas pesquisas - com o desempenho dos ministros da Fazenda, Guido Mantega, da encarregada da articulação política, Ideli Salvatti, e da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Já é notória a incapacidade das duas ministras na articulação da base parlamentar, que se soma à falta de aptidão da presidente para os entendimentos políticos.

A presidente pode se enganar mais uma vez, se achar, como dá mostras, que vai melhorar sua situação a curto prazo, agarrando-se ao plebiscito da reforma política, porque ele tem a simpatia de 68% da população. Em vez disso, deveria ouvir a advertência - não sem uma dose de ironia involuntária - de seu aliado Carlos Luppi, presidente do PDT, afastado por ela do governo: "Quando o navio naufraga, os ratos saltam".

A Copa de Lula

Demétrio Magnoli
O Globo

A ‘verdade técnica’ da presidente não passa de um véu destinado a esconder o significado financeiro da festa macabra promovida pela Fifa

Todos podem protestar em todos os lugares — exceto nas imediações das sagradas arenas da Copa das Confederações. Essa foi a mensagem enviada pelas autoridades na “semana quente” das manifestações populares. Sem intervenção policial, manifestantes cercaram palácios e interromperam vias expressas. Em São Paulo, o eixo sensível da Avenida Paulista, onde se concentram os hospitais, foi liberado para os protestos. Contudo, nas cidades-sede do evento, batalhões de choque delimitaram um “perímetro de segurança nacional” e atacaram manifestantes pacíficos que tentavam ultrapassá-lo. A regra do protesto ilimitado excluiu os “territórios internacionais” sob controle efetivo da Fifa. Nunca, numa democracia, um governo nacional se curvou tão completamente a uma potência externa desarmada.

A bolha policial de isolamento dos estádios estendeu-se por dois a três quilômetros. Não se tratava de assegurar o acesso de torcedores às arenas, mas de impedir que as marcas dos protestos ficassem impressas sobre as marcas da Fifa e das empresas patrocinadoras. “A condição prévia para a Copa é a cessão temporária da soberania nacional à Fifa, que assume funções de governo interventor por meio do seu Comitê Local.” Nesse espaço, dois anos atrás, Adriano Lucchesi e eu definimos a Copa do Mundo de 2014 como uma “festa macabra” justificada pela “lógica perversa do neopatriotismo”.

Não fomos os únicos, nem os primeiros. O jornalista Juca Kfouri deplorou o triunfo dos bons companheiros Lula da Silva e Ricardo Teixeira na hora da escolha do Brasil como sede do megaevento de negócios travestido de competição esportiva. O ex-jogador Romário honrou seu mandato parlamentar denunciando sistematicamente a farra de desvio de dinheiro público, que ainda faz seu curso. “A Fifa é o verdadeiro presidente do Brasil hoje”, explicou com a precisão e simplicidade de que carecem tantos doutos cientistas políticos. Mas a rapinagem dos piratas ficou longe da mira dos partidos de oposição, que preferiram ocupar assentos periféricos na nave da Copa, compartilhando dos brindes erguidos em convescotes de autoridades, empresários e cartolas. Alguém aí está surpreso com a aversão dos manifestantes ao conjunto de nossa elite política?

3 x 0. No domingo, encerrou-se o ensaio geral para o que será a Copa mais cara da história. A festa macabra custará, no mínimo, R$ 28 bilhões, quase quatro vezes mais que a realizada na África do Sul em 2010 (R$ 7,3 bilhões) e perto de três vezes mais que as Copas na Alemanha em 2006 (R$ 10,7 bilhões) e no Japão/Coreia em 2002 (R$ 10,1 bilhões). “Com o dinheiro gasto para construir o Mané Garrincha poderiam ter sido construídas 150 mil casas populares”, calculou Romário. Ele tem razão: a arena de Brasília, a mais cara de todos os tempos, custou R$ 1,7 bilhão.

Obedecendo a uma compulsão automatizada, o ministro Gilberto Carvalho apontou um dedo acusador para a imprensa, que “teve um papel no moralismo, no sentido despolitizado” das manifestações populares. No mundo ideal desse senhor “politizado”, uma imprensa chapa-branca monopolista, financiada pelas empresas estatais, desempenharia a função de explicar aos saqueados que o saque é parte da ordem natural das coisas. “Sem a imprensa, não somos nada”, concluiu Jérôme Valcke, o zagueiro de várzea da Fifa, que também gostaria de ter um “controle social da mídia”.

Um séquito de analistas especializados na arte da empulhação dedica-se, agora, a criticar os cartazes dos manifestantes que contrapõem a Copa à “saúde” e à “educação”. No seu pronunciamento desesperado do fim da “semana quente”, Dilma Rousseff recorreu aos sofismas desses analistas para exercitar o ilusionismo. Os recursos queimados na fogueira das arenas “padrão Fifa”, disse a presidente, são “fruto de financiamento”, não dinheiro do Orçamento. Mas ela não disse que a fonte dos financiamentos concedidos pelo BNDES são títulos de dívida pública emitidos pelo Tesouro, nem que a a diferença entre os juros reais pagos pelo Tesouro e os juros subsidiados cobrados pelo BNDES é coberta pelos impostos de todos os brasileiros, da geração atual e da próxima.

A “verdade técnica” da presidente não passa de um véu destinado a esconder o significado financeiro da festa macabra promovida pela Fifa e pelo governo brasileiro. No seu conjunto, a operação Copa 2014 é uma vasta transferência de renda da população para a Fifa, as empresas patrocinadoras do megaevento e as empreiteiras contratadas nas obras civis. Uma CPI da Copa revelaria as minúcias da rapinagem, destruindo no caminho governantes em todos os níveis que se engajaram na edificação de elefantes brancos com recursos públicos. É com a finalidade de evitá-la a qualquer custo que uma corrente de parlamentares resolveu aderir à ideia de uma CPI da CBF. Sob a pressão das ruas, cogita-se a hipótese de entregar os escalpos de José Maria Marin e Ricardo Teixeira numa bandeja de prata para salvar a reputação das autoridades políticas cujas assinaturas estão impressas nas leis e contratos da Copa.

“O Brasil nos pediu para sediar a Copa do Mundo. Nós não impusemos a Copa do Mundo ao Brasil.” Joseph Blatter, o poderoso chefão da “família Fifa”, não mente quando repete seu mantra preferido. O “Brasil”, na frase, significa “Lula da Silva”. A Copa mais cara da história é a síntese perfeita do legado político do presidente honorífico. À entrada do Mineirão, no jogo entre México e Japão, funcionários a serviço da Fifa arrancaram das mãos de dois torcedores cartazes onde estavam escritas as palavras proibidas “escola” e “saúde”. Os batalhões de choque em postura de batalha no perímetro de “segurança nacional” da Copa e os agentes da censura política em ação nos portões das arenas protegem mais que a imagem da Fifa e das marcas associadas. Eles protegem, sobretudo, a imagem de Lula, o regente da festa macabra.

A palavra mágica de Dilma

Fernando Gabeira

As pessoas saíram às ruas por melhorias no serviço público e contra a corrupção. Dilma respondeu hoje, de novo, com a palavra mágica: plebiscito.

Isso me lembra um episódio com Affonso Romano de Sant’Anna quando vivíamos em Minas. O carro parou e fomos ver o que era. Ele disse: é a biela.

Aquilo nos confortou enormemente. Nos queríamos ver o carro andando mas a palavra nos seduziu e a repetimos várias vezes.

Dilma afirma que as manifestações no Brasil não expressam, como na Europa, descontentamento com o desemprego.

Entre jovens o desemprego é maior, inclusive no Brasil. Houve momento, em 2003, que essa taxa do desemprego juvenil era o dobro da nacional. Atualmente é de 13,4% entre os jovens de 18 a 24 anos e de 23% entre os 15 a 17.

Não quero dizer com isso que isto influenciou as manifestações. Quero dizer apenas que não vivemos no fantástico mundo descrito pelo PT.

As manifestações estão se deslocando para a economia, com caminhoneiros bloqueando estradas e sindicatos prometendo se manifestar no dia 11.

Aliás essa ideia de bloquear estradas é um problema sério para a democracia, além de ser o tipo de manifestação que agrava o que queremos consertar. Bloquear a entrada do Porto dos Santos dá um imenso prejuízo ao pais.

Os dados da economia não parecem animadores. Dois índices revelam isso: o custeio da máquina tem crescido e o investimento caído, as importações crescem, as exportações decaem.

Dilma dá a entender que apenas a vontade de participar levou as pessoas às ruas. De fato, o sistema político é caduco, pode e deve ser reformado.

Mas o plebiscito é o esconderijo que ela encontrou à espera do fim da tempestade.

Para mostrar um intenso trabalho, Dilma reuniu 37 dos 39 ministros. Pelo menos agora vai saber o nome de cada um deles.

Apesar de familiarizado com o noticiário sobre o governo ainda não consegui decorar o nome de todos. Temo que jamais conseguirei. O governo cresceu demais, até para minha memória.

A palavra mágica de Dilma

Fernando Gabeira

As pessoas saíram às ruas por melhorias no serviço público e contra a corrupção. Dilma respondeu hoje, de novo, com a palavra mágica: plebiscito.

Isso me lembra um episódio com Affonso Romano de Sant’Anna quando vivíamos em Minas. O carro parou e fomos ver o que era. Ele disse: é a biela.

Aquilo nos confortou enormemente. Nos queríamos ver o carro andando mas a palavra nos seduziu e a repetimos várias vezes.

Dilma afirma que as manifestações no Brasil não expressam, como na Europa, descontentamento com o desemprego.

Entre jovens o desemprego é maior, inclusive no Brasil. Houve momento, em 2003, que essa taxa do desemprego juvenil era o dobro da nacional. Atualmente é de 13,4% entre os jovens de 18 a 24 anos e de 23% entre os 15 a 17.

Não quero dizer com isso que isto influenciou as manifestações. Quero dizer apenas que não vivemos no fantástico mundo descrito pelo PT.

As manifestações estão se deslocando para a economia, com caminhoneiros bloqueando estradas e sindicatos prometendo se manifestar no dia 11.

Aliás essa ideia de bloquear estradas é um problema sério para a democracia, além de ser o tipo de manifestação que agrava o que queremos consertar. Bloquear a entrada do Porto dos Santos dá um imenso prejuízo ao pais.

Os dados da economia não parecem animadores. Dois índices revelam isso: o custeio da máquina tem crescido e o investimento caído, as importações crescem, as exportações decaem.

Dilma dá a entender que apenas a vontade de participar levou as pessoas às ruas. De fato, o sistema político é caduco, pode e deve ser reformado.

Mas o plebiscito é o esconderijo que ela encontrou à espera do fim da tempestade.

Para mostrar um intenso trabalho, Dilma reuniu 37 dos 39 ministros. Pelo menos agora vai saber o nome de cada um deles.

Apesar de familiarizado com o noticiário sobre o governo ainda não consegui decorar o nome de todos. Temo que jamais conseguirei. O governo cresceu demais, até para minha memória.

Impávido colosso

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

A presidente da República registra uma queda de popularidade abrupta e tão profunda como nunca antes se viu neste País e sua reação é convocar uma reunião ministerial. "Para mostrar que o Brasil não está parado."
Espetáculo síntese da estrutura mastodôntica de ineficiência inequívoca, de irrelevância administrativa e politicamente distanciada do que seria o critério de coalizão apoiada na execução de programas de governo.
Tanto é que o Planalto sempre exibiu com certa jactância a indiferença funcional da presidente para com a maioria dos ministros.

Em suas edições de domingo e segunda-feira, O Globo traz notícia sobre isso em dois retratos da máquina desenhados a partir de números oficiais. Um deles mostra a discrepância entre os orçamentos autorizados e o dinheiro aplicado pelo governo federal desde 2003, em saúde, saneamento, educação e transportes. Outro diz respeito ao custo da máquina ministerial.

Para a saúde, apenas 39,3% dos R$ 50,6 bilhões disponíveis foram aplicados; em saneamento, 48,6% dos R$ 16,7 bilhões; na educação, 61,3% dos R$ 53,3 bilhões; em transportes, 60,5% dos R$ 118,5 bilhões. Pergunta inevitável: adianta destinar mais R$ 50 bilhões para programas de "mobilidade urbana" e a totalidade do dinheiro dos royalties (ainda inexistentes) do pré-sal para a educação se o governo não dá conta de investir o que já tem?

Os dados sobre as despesas com os 39 ministérios mostram que somam R$ 611 bilhões por ano: destes, R$ 192 bilhões gastos para pagar 984.330 funcionários. Havia 24 pastas no fim do governo Fernando Henrique, Luiz Inácio da Silva criou onze e Dilma Rousseff acrescentou mais quatro. A quantidade de gente em cargos ditos de confiança (ocupados pelo critério Quem Indica) é a maior desde 1997:22.417.

Precisa plebiscito para o poder público entender que assim não é possível? Não é a reforma política que dará resposta a isso. É - para usar um chavão - a vontade política de fazer as coisas de modo mais decente e eficiente.

Digamos que nesse momento de queda de popularidade e intenções de voto não seja fácil a presidente da República propor uma alteração de hábitos. Em tese, os partidos já agastados com ela ficariam ainda mais conflagrados.

Na prática talvez não seja assim. A pesquisa do Datafolha mostrou que sobrou para todo mundo: presidente, governadores e prefeitos. Só que a União, dona de todos os bônus quando as coisas vão bem, acaba arcando com o maior ônus quando as coisas vão mal.

De onde cabe ao Planalto e à presidente Dilma Rousseff abrir o caminho para a recuperação. As propostas vazias de pactos, sugestões mirabolantes como a da Constituinte exclusiva e votação apressada de projetos no Congresso já se mostraram ineficazes.

Podem até fazer frente à emergência, mas ficam vencidas quase que na mesma hora devido à impossibilidade fática de se acreditar na sinceridade (e, sobretudo, na consistência dos resultados) da correria.

Uma reunião ministerial tampouco faz verão. É - usando outro lugar comum - mais do mesmo, remendo inútil para estancar a sangria. O remédio é ir ao ponto. O modelo causa revolta? Mude-se o modelo.

O governo achou que acertou quando a pesquisa apontou 68% de apoios ao plebiscito. Foi até pouco, pois a população não se oporia mesmo a ser consultada. Como já se viu na discussão suscitada pelo tema, a proposta é mais fácil de ser apresentada do que de ser executada.

Dora Kramer: "Os problemas de gestão se resolvem com o plebiscito?"

TV Estadão 

Para a colunista, a existência de 39 ministérios já mostra como a maquina pública é ineficiente

‘Contabilidade criativa’ na contramão de Dilma

Editorial
O Globo

Ao dar seguidos tiros no pé, o governo só tem contribuído para a perde de credibilidade da política fiscal, fragilizando a economia brasileira em momento delicado

A política fiscal no Brasil está em descrédito, a ponto de essa desconfiança já se refletir no conceito atribuído ao país pelas agências internacionais de classificação de risco. Como reação a esse descrédito, declarações recentes da presidente Dilma e de autoridades fazendárias pareciam demonstrar que o governo iria este ano abandonar a chamada “contabilidade criativa”, pela qual buscara “melhorar” a aparência dos resultados das finanças públicas nos últimos dois exercícios.

Admitindo que o esforço fiscal será menos ambicioso em 2013 — superávit primário fixado em 2,3% do PIB e não em ilusórios 3,1% —, o governo prometeu atingir as metas recorrendo a um cálculo convencional, como, aliás, era feito no passado, quando o ajuste nas finanças públicas se tornara uma questão de sobrevivência da economia brasileira. Mas não basta o discurso, pois o governo está naquela condição da mulher de César: tem de provar sua sinceridade.

Surpreendentemente, sob o pretexto de agilizar transferências de recursos entre o Tesouro e o BNDES (banco de fomento integralmente controlado pela União), o governo mudou regras relativas ao recolhimento de dividendos pela instituição financeira. Essa mudança deve originar uma receita extraordinária de R$ 1,2 bilhão para o Tesouro, mas é, outra vez, um truque no mesmo espírito da “contabilidade criativa” que desencadeou esse processo de perda de credibilidade da política fiscal.

Ao persistirem nessa prática, as autoridades econômicas não conseguirão convencer quem quer que seja da seriedade da política fiscal no Brasil. Não é por conservadorismo ou simples antipatia ao governo Dilma que as críticas à política fiscal se acumulam.

A inflação está em patamar perigoso, no topo da meta que o Banco Central tem a missão de alcançar (6,5%). O xadrez da economia mundial está passando por um momento de mudanças expressivas, com os Estados Unidos voltando a atrair capitais, enquanto a China perde fôlego.

Nesse quadro, os mercados financeiros se agitam, e as economias que estiverem em posição mais fragilizada podem sair chamuscadas. O risco de a inflação fugir ao controle, em tal conjuntura, não é desprezível, por pressão da desvalorização da moeda nacional. E isso sem que o país consiga sair da armadilha do baixo crescimento.

É uma questão tão séria que o Banco Central resolveu adotar, internamente para avaliação dos rumos da economia, uma metodologia que acompanha a evolução das receitas e despesas do setor público sem levar em contar essas receitas e despesas extraordinárias, incluindo as resultantes da “contabilidade criativa”. Fica difícil entender porque o governo insiste em dar tantos tiros no pé.

Lula versus Dilma

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Por que o criador evitou apoiar a criatura justamente no auge da crise? Por que ficou mudo? 


Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa?

Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar?

O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que “Sarney não pode ser julgado como homem comum”... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, “o novo”... O Lula que se uniu “aos picaretas do Congresso”... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas?

Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.

A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de “mãe do PAC”. Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.

O Lula presidente se lamentava da “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo. Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT. E por tantas bandeiras no ar. A ética. A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos. As creches, o transporte de massa. Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.

Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz. Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.

Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão – e os dólares – com a política partidária? Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um “recall” nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos? Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros?

Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares. Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de “evangélica”. Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.

E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer “barbeiragens” na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente. 

O conto do corte social

O Estado de S.Paulo

Deve datar da Grécia Antiga o golpe retórico que pretende desviar de seu curso natural o debate público que vinha deixando um dos participantes em má situação. A mistificação consiste em atribuir ao oponente intenções impopulares que em momento algum ele mencionara - para então desmenti-las com uma veemência comensurável com a falsa acusação. Pois foi a esse recurso de evidente má-fé que a presidente Dilma Rousseff apelou ao dar uma inusitada entrevista em meio à reunião ministerial de anteontem na Granja do Torto. O encontro visava, alegadamente, a mobilizar a equipe em torno dos cinco "pactos federativos" que ela anunciara na semana passada como prova de ter ouvido e entendido as vozes da rua.

Com estudado bom humor e cordialidade - para surpresa de ministros e jornalistas que conhecem a cara de poucos amigos e a rispidez com que ela costuma tratar os interlocutores -, Dilma enxertou na sua fala sobre a política de dispêndios da administração que dirige a advertência fulminante: "Cortar Bolsa Família jamais". Por via das dúvidas, ou caso alguém não tivesse entendido direito, emendou: "Não esperem de mim reduzir gasto social. Não há hipótese disso". Se um viajante recém-chegado de Marte topasse com tão assertivas palavras, não se poderia criticá-lo por imaginar que as oposições ou, quem sabe, até mesmo os brasileiros que em menos de um mês despojaram a presidente de 27 pontos de popularidade e de outros 21 na liderança das pesquisas eleitorais estão clamando por uma cirurgia no Bolsa Família.

Ao tomar conhecimento do show de determinação no Torto, a parcela insuficientemente informada da sociedade - cuja participação na queda do prestígio e da intenção de voto na presidente, embora menos intensa do que a dos setores mais escolarizados e de maior renda, decerto foi especialmente dura de engolir para Dilma - talvez tenha sido levada a crer, a exemplo do imaginário extraterrestre, que ela resistia heroicamente a pressões subterrâneas das elites para passar a foice no orçamento social do Executivo. Está claro que a presidente, com essa enganação, desejava em primeiro lugar recuperar os pontos perdidos com os beneficiários cuja lealdade fraquejou nas últimas semanas. Nesse cenário, o fantasioso encolhimento do Bolsa Família faria as vezes do "inimigo externo" a que se agarram governantes de todo tipo em tempos de crise para recobrar o apoio esgarçado.

Ficasse nisso, a armação já teria sido de bom tamanho. Mas, pouco antes, Dilma já tinha achado oportuno dar uma indireta no governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, que na semana passada mandou cortar R$ 350 milhões em gastos de custeio do Estado e extinguiu uma das suas 26 Secretarias. "Eu não farei demagogia de cortar cargos que não ocupo. Se não ocupo, não gasto", disse ela, demagogicamente, numa alusão aos postos não preenchidos no disforme corpanzil federal de 39 Ministérios e 22 mil ocupantes de cargos de confiança. "Eu tentarei olhar de onde e de que setor é possível fazer ajustes", tentou prometer. A embromação presidencial é imitada no primeiro escalão. A área econômica - onde não há "mudança à vista", assegurou Dilma - fez saber que prepara um bloqueio de até R$ 20 bilhões nas despesas governamentais, a se somar aos R$ 28 bilhões de fins de maio.

Ocorre que o contingenciamento é imposição da Lei de Responsabilidade Fiscal: o que sai do erário deve se ajustar ao que nele entra. Com a arrecadação em baixa devido ao fraco nível da atividade econômica, o governo literalmente não faz mais que uma obrigação legal ao suspender gastos programados. Mas não passa pela cabeça de Mantega & Cia deixar de lado a "contabilidade criativa" para fechar o exercício com superávit primário. Como já fizeram com o BNDES, tomarão dividendos antecipados da Caixa Econômica Federal, em troca de uma injeção de R$ 8 bilhões em títulos públicos. (No caso do Banco, foram R$ 15 bilhões.) E a presidente ainda se permite dizer que o seu governo "é padrão Felipão". Além de ser uma tosca tentativa de se associar à conquista do tetra na Copa das Confederações, é uma ofensa ao grande treinador. A sua seleção acaba de golear a da Espanha, a melhor do mundo. O time de Dilma não ganha uma.

Plebiscito - o golpe da consulta popular

Pieter Zalis
Veja online

Reportagem na edição de VEJA desta semana mostra que o PT tenta imprimir verniz democrático à ideia, mas o objetivo de plebiscito é dar mais dinheiro ao partido e instituir o voto de cabresto

Depois de ter de recuar da tentativa desesperada de convocar uma assembleia constituinte, o governo decidiu propor a realização de um plebiscito para fazer uma reforma política. A diferença entre as propostas é que a primeira afrontava a democracia de forma explícita e a segunda é um golpe disfarçado. Ambas, porém, têm os mesmos propósitos: desviar o foco das manifestações e servir ao projeto de poder do PT. Pelos planos do governo, a consulta popular ocorreria em agosto e teria o resultado homologado no início de outubro. Assim, as regras já valeriam para as eleições de 2014. Se emplacar sua manobra, o PT terá os seguintes motivos para comemorar:

• Será o partido cujo caixa receberá mais dinheiro público. Embutido na proposta de reforma política do governo está o obsessivo desejo do PT de impor o financiamento - exclusivamente - público de campanha. Pelo modelo, pessoas e empresas continuarão a poder fazer doações, mas para um fundo, sem escolher destinatários. O dinheiro será dividido conforme a votação do partido na eleição anterior. Se o sistema for adotado em 2014, com o quadro eleitoral mais provável, Dilma terá quase 70% do bolo: 67,59%.

• A candidatura de Marina Silva estará praticamente enterrada: pelas mesmas regras, a ex-senadora, que teve 20 milhões de votos em 2010, mas que agora tenta criar um novo partido, ficaria com ínfimo 0,16% do dinheiro público. Com a campanha inviabilizada, deixaria de ameaçar a liderança de Dilma. Aécio Neves (PSDB) teria direito a 21,77% do dinheiro e Eduardo Campos (PSB), a 6,56%.

• A institucionalização do voto de cabresto. O PT defende o voto em lista fechada para o Legislativo. Por esse método, o eleitor não vota em candidatos, mas na sigla. Traduzindo: os caciques petistas indicam os candidatos a deputado e depois chamam o povo para pagar a campanha. É muita cara de pau.

• À custa dos cofres públicos, Luiz Inácio Lula da Silva aparecerá na TV como garoto-propaganda do PT. O partido planeja aproveitar o tempo dos programas de televisão destinados à discussão das questões do plebiscito para fazer propaganda do governo e atacar adversários, com o ex-presidente no comando do show.

Desde maio, o presidente do PT, Rui Falcão, tenta coletar assinaturas para apresentar esse mesmo projeto de reforma política no Congresso. O argumento que colore os cartazes é que a reforma reduziria "a força do poder econômico" nas eleições, já que acabaria com as doações de bancos e empreiteiras - apontados como os vilões da corrupção. Ocorre que, como sabe muito bem o PT, Lula é hoje o maior amigo das empreiteiras, em cujos jatos viaja e para cujos interesses faz um descarado lobby. "O maior problema de corrupção eleitoral do Brasil vem de recursos que entram pelo caixa dois", lembra o professor de direito eleitoral Carlos Gonçalves Júnior, da PUC de São Paulo. Nenhum país adota o sistema defendido pelo PT. 

A Dinamarca, a nação menos corrupta do mundo, não restringe o financiamento, mas fiscaliza o uso do dinheiro e pune quem o desvia - estas, sim, medidas efetivas de combate à roubalheira. Para levar ao Congresso a proposta apresentada por Falcão, o PT precisa de 1,4 milhão de assinaturas. Só conseguiu 120 000. A ideia do plebiscito não passa, portanto, de uma tentativa de driblar a falta de apoio popular à iniciativa.

Não fosse o oportunismo escancarado da proposta, a própria iniciativa do plebiscito já é uma farsa. "Nesse tipo de processo, há um risco muito grande de o povo ser usado para legitimar as posições do plantonista no poder. Ditadores sempre se valem de plebiscitos", alerta Carlos Velloso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. O fato de a reforma política ser um assunto complexo, com o qual a população não tem familiaridade, aumenta ainda mais o risco de a consulta popular ser manipulada a ponto de ganhar o lado que tiver contratado o marqueteiro mais competente. Por mais necessária que seja, e com isso concordam todos os partidos e todos os governos, a reforma foi um tema rarefeito nas manifestações. Os brasileiros não clamam pela reforma política, mas pela reforma ética dos políticos.

A economia piorou

Míriam Leitão
O Globo

Aumentou o pessimismo em relação à economia brasileira. A queda da produção industrial de 2% em maio — período anterior ao início dos protestos de rua — mostra uma vez mais o resultado dos equívocos da política econômica. A resposta do governo diante dos novos desafios não faz sentido algum. As projeções para o PIB do ano estão sendo revistas para baixo.

Além disso, ronda a economia o medo da crise do grupo de Eike Batista e a dúvida sobre que empresas ou bancos podem ser afetados pelos problemas do empresário. Para piorar, o mundo passa por novo período de mudanças e deslocamento dos ativos.

O economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, acha que a produção industrial tende a encolher mais no segundo semestre:

— Vai murchar porque a venda de veículos em comparação com o ano passado estará em queda. Da ótica da demanda, o que deu errado foi o consumo das famílias, que diminuiu por causa da alta da inflação. As pessoas tiraram os outros bens do orçamento e deixaram apenas o essencial, e por isso o consumo das famílias foi de apenas 0,1% no primeiro trimestre.

A queda de 2% da produção industrial de maio vem após dois meses de alta — março e abril —, uma queda forte em fevereiro, que ocorreu depois de alta forte em janeiro. Enfim, apesar da montanha-russa, o economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, acha que a tendência é de queda.

— A política econômica aumentou o grau de incerteza na economia. As demandas por melhorias na qualidade dos serviços públicos são legítimas, mas tudo tem um custo enorme. O governo respondeu impondo aos seus parceiros uma enorme incerteza jurídica nos contratos — disse Cunha.

Cunha acha que o IPCA de junho deve ficar entre 0,3% e 0,35%, o que elevaria a inflação acumulada no ano para 6,70%. E isso porque em um terço do mês houve o efeito da redução dos preços dos transportes. No segundo semestre, há o aumento sazonal de alimentos e o efeito do dólar está afetando até os preços que cairiam no mercado externo.

José Roberto confirma isso e cita o exemplo da soja, que subiu apesar de estar em época de queda:

— O trigo já subiu 50%, a safra de arroz é pequena, o feijão está alto. Em queda, apenas o milho e café. Mas está havendo este ano uma elevação do risco climático da safra americana, apesar de ter aumentado a área plantada. Ela foi produzida numa janela climática muito pequena — entre as inundações do corn belt (cinturão do milho) — isso significa que a chuva e a estiagem têm que ocorrer nos momentos certos, do contrário, afetam grande parte da safra.

Então os preços de alimentos continuarão pressionando a inflação brasileira. Ao mesmo tempo, o ambiente de falta de confiança na economia está produzindo uma redução na produção.

— É muita surpresa negativa ao mesmo tempo e isso está afetando as expectativas dos empresários e do consumidor. Mas o que mais preocupa é a qualidade da resposta do governo à crise. O governo não pode desconhecer tão olimpicamente as críticas que têm sido feitas pelos mais diversos setores à contabilidade criativa e continuar criando truques contábeis sucessivamente — disse José Roberto.

Uma crise dessa proporção, com investidores estrangeiros fugindo da bolsa brasileira por falta de confiança na política econômica e pelo medo dos efeitos dos problemas do grupo de Eike Batista, a economia parando, a inflação ainda alta, e o governo faz novos truques para apresentar estatísticas nas quais ninguém acredita. Na política, o governo mobiliza todos os seus esforços em torno de um plebiscito que está longe de ser o centro dos problemas do país neste momento.

Nossa Senhora do Plano B

Vinicius Torres Freire 
Folha de São Paulo

Não é elegante nem preciso dizer que Dilma Rousseff tornou-se o bode expiatório da crise, mas recaiu sobre a presidente a maioria das pragas e pedras lançadas nas ruas, pelo menos entre os políticos mais importantes.

A deselegância fica por conta da comparação zoológica; a imprecisão está em sugerir que Dilma não mereça também sua cota de malhação.

O povo bate talvez porque "l'État c'est elle", o "Estado é ela", porque consideramos presidentes como reis e rainhas da cocada preta, pois encarnam a ideia de "coisas do governo" ao lado de uma massa indiferenciada e inominada de "políticos", em geral parlamentares, os membros da "corte corrupta", nossa versão de Versalhes. Em suma, com dois anos e meio de governo do Executivo federal, Dilma paga também novas e velhas contas municipais, estaduais, parlamentares, embora não seja protestada especificamente por suas principais dívidas.

Isto posto, o que Dilma fazer para se livrar do imenso mau olhado que em uma quinzena passou a receber do eleitorado?

Mesmo que tenha uma revelação damascena, que veja a luz na estrada estropiada da economia, Dilma não vai ganhar muito com isso. A princípio, melhorias na política econômica vão causar estragos na vida do eleitorado. Uma ínfima elite talvez perceba os benefícios da eventual virada. Mas boa parte dessa elite vai achar apenas que Dilma então não terá feito mais do que sua obrigação, e olhe lá.

"Saúde, educação e transporte" são projetos para décadas (umas duas), se houver projeto (não há) e consenso sobre obtenção e redivisão de recursos públicos (o dinheiro não está numa arca roubada por Versalhes).

De resto, tais assunto não dependem só (ou dependem pouco) de Dilma, que, no entanto, jamais deu bola para a educação primária, a escassez e desordem do SUS e para a privatização à matroca da saúde. Educação primária não é responsabilidade federal, mas, sem liderança presidencial, não vai.

Dilma pode inventar umas pirotecnias demagógicas, tais como essas do Congresso (royalties para educação, crimes hediondos etc.). Enxugar o ministério monstro seria útil, embora café pequeno, e pode ou não colar bem ("por que só agora?", o povo pode perguntar).

Reforma séria, que não é a política, demora tempo para projetar, negociar e implementar. Se a "voz das ruas" tivesse um megafone reconhecível, organização e liderança legítimas, poderia haver uma negociação séria, tentativa de aprendizado coletivo e deliberações a respeito do que é preciso fazer, pactos críveis. Por ora, não há.

Talvez Dilma e o PT tenham de lembrar aos movimentos sociais "cooptados" e povo miúdo que a vida deles melhorou um tico (investir na divisão social e política). "Cooptados", entre aspas: quando a gente concorda com o povo, "o Brasil acordou"; quando não concorda, ele é um idiota manipulado que apoia governos em troca de migalhas.

Mas não vai bastar, dada a presente ira. Aí que mora o perigo: invencionices, tal como a reforma política, tentativas de engenharia institucional que tendem a dar apenas num Frankenstein novo. Na falta de tempo, de ideias, de política, o governo pode ficar tentado a vir com mais mágicas e milagres.

‘Cuidado com os sonhos das ruas’

Joaquim Falcão 
O Globo

O que querem as ruas? Melhores serviços públicos e combate à corrupção, ou reforma partidária? O plebiscito sugerido pela presidente Dilma é constitucional ou não? Perguntas decisivas e respostas incertas. A comunidade jurídica está dividida. José Afonso e Marcelo Cerqueira dizem que não pode haver plebiscito que implique mudança da Constituição. Ministros como Celso Mello e Roberto Barroso diriam que pode.

Mas para o Tribunal Superior Eleitoral parece certo que ouvir o público, sim, é bom para democracia. Mas é indispensável que regras e prazos sejam respeitados. Por quê?

Responde poeticamente a ministra Cármen Lucia: “Cuidado por onde andas pois é sobre meus sonhos que caminhas.” Ou seja, cuidado, Presidência! Cuidado, Congresso! É sobre os sonhos democráticos de ética e da eficiência do governo que os sonhos das ruas caminham. Estes sonhos não podem ser desvirtuados. Para as eleições de 2014 não há tempo democrático. Por quê?

O eleitor precisa entender o que está votando. É preciso tempo para o contraditório, o debate, as informações. Do contrário, o eleitor vota, mas não participa. Em vez de conduzir, é conduzido. O eleitor, representado, é usado como legitimador do interesse do representante do partido ou do político.

Todo cuidado é pouco para não se usar em causa própria o poder de legislar. Usá-lo para diminuir a incerteza dos atuais partidos e congressistas na incerta eleição amanhã. A democracia exige competição leal na incerteza eleitoral. Se uns candidatos definem as regras do jogo que vão jogar, o risco de levar vantagem indevida é grande.

As ruas pediram urgência na qualidade dos serviços públicos e na ética das relações do público com o privado. A Presidência entendeu como prioridade para a reforma política. O Congresso se movimentou positivamente. Jogaram o problema para o Judiciário. Disse: vamos devagar, porque temos pressa.

Mas nada impede que a Presidência, governadores e prefeitos, imediatamente, reduzam cargos de confiança, ministérios, secretarias. Fiscalizem serviços públicos. Que o Congresso vote amanhã de manhã uma das propostas da Presidência: que o voto dos congressistas seja sempre aberto, e transmitido ao vivo pela TV Senado e TV Câmara, exceto quando proibido pela Constituição.

Não tem nada de mais

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Nesse ambiente de resposta às ruas, cabe uma boa moralização no uso de veículos pelas autoridades. As regras atuais são vagas

Dez anos atrás, em uma estrada na Inglaterra, o consultor Chris Huhne excedeu-se um pouco na direção de seu BMW. Nem foi tanto assim: estava a 111 km/h, quando o limite era de 95 km/h. Mas a câmera flagrou e a multa chegou à casa de Huhne.

Nem era tanto dinheiro, mas os pontos fariam com que ele perdesse sua carteira de motorista. Como sua mulher, a economista Vicky Pryce, estava com pontuação baixa, pediu a ela que assumisse a culpa. Não custava nada, não é mesmo? Quanta gente não faz isso?

Vicky topou e a vida seguiu. Seguiu bem. Huhne tornou-se ministro do Meio Ambiente e Vicky, economista-chefe do governo de David Cameron. No pessoal, porém, as coisas se complicaram. Huhne se encantou com uma assessora de campanha e separou-se da mulher com quem estava havia 26 anos.

Acontece, não é mesmo? Vicky, porém, parece não ter se conformado. Não se sabe se por vingança ou por descuido, em 2011 contou em uma entrevista ao jornal “Sunday Times” aquele episódio da troca da multa.

Para encurtar a história: Huhne teve de renunciar ao cargo de ministro, foi processado por obstrução à Justiça e condenado, no início deste ano, a oito meses de prisão.

Ministros não podem se comportar desse modo, mesmo antes de serem ministros, tal foi a conclusão política e ética. Parece meio sem sentido, mas, lembrem-se: pelas regras de nosso Congresso, se o parlamentar cometeu um crime antes de ser parlamentar, não tem nada de mais, não é caso de quebra do decoro parlamentar.

Por isso mesmo, contamos esta história. No último sábado, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, mandou chamar um jatinho da FAB para Natal e lá mandou embarcar, na sua companhia, a namorada, um cunhado, uma concunhada, um filho e dois enteados. Toca para o Rio de Janeiro, ordenou.

No Rio, a comitiva passeou e no domingo foi ao Maracanã ver o Brasil ser campeão. Todos embarcaram de volta à noite, incluindo-se na comitiva um amigo do cunhado.

Ontem, a “Folha de S.Paulo” contou a história. O deputado Henrique Eduardo Alves respondeu ainda de manhã. Disse que ele tinha serviço no Rio — um almoço com o prefeito Eduardo Paes e o senador Aécio Neves, no sábado —, por isso tinha direito ao jatinho. Mas disse que embarcar todo aquele pessoal foi um “equívoco” e que “por dever, imediatamente, o corrige”. Como? Vai pagar as passagens. Do próprio bolso!
Quer dizer que ele não sabia que não podia levar a turma no jatinho? E que só ficou sabendo depois que a história saiu na imprensa?

Imaginemos a cena. O assessor leva o jornal ao deputado e ele, intrigado: “Mas por que essa publicidade toda? Não posso levar ninguém no jatinho da FAB?” E o assessor: “Infelizmente, não pode, senhor presidente.” E ele: “Puxa, por que não me avisaram antes? Mas não tem problema, eu pago as passagens.”
O deputado acrescentou que já mandara apurar o “valor médio” das passagens e que reembolsaria a FAB. E tudo resolvido. Qual é? Não tem nada de mais, pessoal, está pago.

Reparem: depois de todas as manifestações que colocaram os políticos na marca do pênalti, o presidente da Câmara acha que não tem nada de mais usar o jatinho da FAB, pago com o dinheiro dos manifestantes, numa viagem do seu pessoal no fim de semana.

Mostra como o patrimonialismo está na alma dos políticos. Se você não pode usar o dinheiro público, de que serve ser autoridade, não é mesmo?

Apanhado, o deputado classifica o uso do dinheiro público em benefício pessoal como um simples “equívoco”, a ser resolvido ali no ato, “por dever”.

Quer dizer que, se um homem público desviar o uso de dinheiro público — pois é disso que se trata —, admitir o erro e pagar, conforme a conta que ele mesmo faz, fica tudo bem?

O britânico Chris Huhne deveria ter consultado os políticos brasileiros. Diriam a ele: admita o erro, pague a multa de novo, devolva a carteira num ato solene e deixe a cena do crime, quer dizer, do caso, com ar altivo.

Também pelos padrões de Henrique Eduardo Alves, os dois ministros do governo alemão que se demitiram depois de terem sido acusados de plágio em teses acadêmicas, apresentadas muitos anos atrás, foram dois idiotas. Era só admitir o equívoco. E devolver os títulos universitários.

A sério: nesse ambiente de resposta às ruas, cabe uma boa moralização no uso de veículos pelas autoridades. As regras atuais são vagas o suficiente para permitir qualquer farra. Mas a ética política deve ou deveria valer mesmo sem regras escritas.