quinta-feira, julho 04, 2013

Após queda de Mursi, país dividido cria dúvidas sobre futura transição

O Globo 
Com Agências Internacionais

Enquanto multidão na Praça Tahrir aplaudia o golpe, manifestantes pró-governo protestavam na Cidade de Nasr

Mursi, que estava em prisão domiciliar, foi transferido para o Ministério da Defesa

SUHAIB SALEM / REUTERS 
Manifestantes contra o governo de Mursi comemoram queda do presidente egípcio

CAIRO - O chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (Scaf), Abdel Fattah al-Sissi, se cercou de figuras importantes da sociedade civil do Egito para o anúncio dramático - a derrubada do presidente Mohamed Mursi, o primeiro primeiro chefe de Estado eleito democraticamente no país, há apenas um ano. 

Os militares suspenderam a Constituição e anunciaram um governo tecnocrata interino, sob o comando do desconhecido chefe da Suprema Corte Constitucional, Adly Mansour, até a realização de novas eleições. A manobra ocorreu sob o pretexto de atender aos milhões de egípcios que há dias contestavam nas ruas a agenda islamista imposta por Mursi e seus aliados da Irmandade Muçulmana. Mas, enquanto uma multidão concentrada na Praça Tahrir aplaudia efusivamente a queda do governo, o presidente destituído recusava-se a deixar o cargo através de um “completo golpe militar”, deixando no ar uma perspectiva de embate e violência - além de dúvidas sobre o futuro da transição do maior dos países árabes à democracia.

Durante a noite de quarta-feira, o porta-voz da Irmandade Muçulmana, Gehad el-Haddad, afirmou que Mursi foi preso e levado ao Ministério da Defesa. Antes, o líder islamista estava em prisão domiciliar, aasim como toda a cúpula do movimento. Desde cedo, tanques do Exército estavam nas ruas do Cairo e de várias cidades para assegurar a ordem e reforçar a pressão sobre ele. E entre rumores crescentes de perseguição contra simpatizantes islamistas da Irmandade e violência, desconhecia-se o paradeiro do presidente destituído. Mursi reagiu, desafiador, através de um vídeo divulgado no YouTube e uma mensagem no Twitter.

- Há um completo golpe militar rejeitado pelos homens livres da nação! Eu ainda sou o presidente. A vontade do povo não pode ser ignorada um ano depois; isso é democracia seletiva - disse Mursi.

300 ordens de prisão para a Irmandade
O Cairo rachou diante do futuro incerto. “Eu vou parar um momento para comemorar a queda de Mursi e, então, voltar a participar da oposição a um regime militar amanhã”, escreveu no Twitter o economista e analista político egípcio Mohamed ElDahshan, sintetizando um sentimento de ambiguidade comum a muitos que acompanhavam na Praça Tahrir o desfecho da crise, descontentes com um governo religioso conservador mas, ao mesmo tempo, temerosos pela volta de um regime militar.

- Traçamos um mapa do caminho para a reconciliação nacional. As Forças Armadas vão ficar longe do trabalho político. Esses passos não são tomados para que o Exército assuma o poder, mas atendendo ao apelo do grande povo do Egito, para garantir que a confiança e estabilidade estejam assegurados para fortalecer o povo no processo de tomada de decisões - garantiu o chefe do Scaf, Abdel Fattah al-Sissi, num pronunciamento à nação.

Na segunda-feira, o general dera um ultimato de 48 horas para que Mursi - que se autoconcedera superpoderes - incluísse a oposição em seu governo e atendesse à insatisfação popular. Ontem, Sissi fez questão de reunir figuras-chave do Egito para demonstrar o isolamento do presidente destituído. Além de cooptar o apoio de grupos salafistas, como o partido al-Nour, maior aliado político de Mursi e da Irmandade Muçulmana, o militar se cercou do chefe do bloco reformista Frente de Salvação Nacional e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei; o Papa Tawadros, da Igreja Copta; o xeque Ahmed al-Tayyeb, da Universidade al-Azhar e representantes do movimento Tamarud - o responsável por mobilizar as manifestações desta semana.

Segundo o plano do Exército, a Constituição está suspensa temporariamente, até que um grupo de especialistas representativo de todos os setores da população possa revisá-la. O chefe da Suprema Corte Constitucional, Adly Mansour, será nomeado hoje como presidente interino com plenos poderes para governar por decreto e um Gabinete de tecnocratas deverá ser escolhido. Também foi prometido um código de ética para garantir a liberdade de imprensa, a participação dos jovens da política, um comitê de diálogo e reconciliação nacional - além de preparativos para novas eleições presidenciais e parlamentares em prazos a serem definidos.

- Eu espero que isso signifique o início de uma nova fase da revolução de janeiro de 2011 - disse ElBaradei, nome sempre cotado para assumir um cargo proeminente na transição.

Na Praça Tahrir, o anúncio foi recebido com gritos exultantes, fogos de artifício e um buzinaço. Mas a comemoração não impediu que o medo da violência tomasse não só a capital, mas todo o país. No bairro de Cidade de Nasr, no Cairo, partidários de Mursi, se mantiveram nas ruas para apoiar o líder islamista e entoar gritos furiosos contra o Exército.

- Sissi é o vilão! O Islã está chegando, não vamos sair daqui - gritava a multidão.

Alguns chegaram a atirar pedras contra jornalistas e transeuntes. E a fúria aumentou diante do fechamento da rede Misr 25, o canal de TV da Irmandade Muçulmana. A rede, assim como outras emissoras de menor porte afiliadas ao grupo, foi retirada do ar e jornalistas teriam sido detidos por militares. À noite, o jornal “al-Ahram” afirmou que o presidente da Irmandade, Saad el-Katatni, e seu vice, Rashad al-Bayoumi, teriam sido presos. Ao menos 300 mandados de prisão teriam sido expedidos contra integrantes do grupo islamista que passou quase seis décadas de seus 85 anos na clandestinidade, voltando à arena política somente em 2011, após a queda do ditador Hosni Mubarak. A agência estatal Mena, no entanto, disse tratar-se de “um número de integrantes acusados de incitar à violência e perturbar a paz e a segurança públicas”.

- É um duro golpe para os islamistas egípcios que passaram longas décadas construindo a Irmandade e sonhando com o dia que poderiam chegar ao poder. Isso pode lhes devolver um senso de vitimização por ter vencido uma eleição e acabar impedido de exercer o poder. É um precedente perigoso - alertou Ian Black, do jornal “Guardian”.

Na cidade costeira de Alexandria, confrontos entre partidários pró e anti-Mursi causaram ao menos dez mortes e dezenas de feridos. Sob muitas dúvidas sobre quem ocupará o governo de transição e quando haverá eleições democráticas, há apenas uma certeza: com dois presidentes depostos em menos de três anos - Mursi e Mubarak -, as Forças Armadas ressurgem como a força tradicionalmente mais poderosa do Egito.