Octávio Costa
Brasil Econômico
Quem acompanha de perto os bastidores do Ministério da Fazenda garante que há alguma apreensão no ar. Se durante a crise de 2008 e 2009, o Brasil conseguiu nadar de braçada e passou ao largo da crise internacional, a conjuntura atual é bem diferente.
A taxa de crescimento patina, a indústria, apesar dos estímulos, não recupera o fôlego, a inflação pressiona o limite da meta oficial e o equilíbrio fiscal inspira cuidados.
Um texto exagerado do New York Times, na semana passada, comparou a decadência de Eike Batista com a mudança de rumo da economia brasileira. "Era uma vez o tempo em que o sr. Batista personificava a emergência do Brasil como uma força econômica mundial," afirmou o jornalão americano.
A bem da verdade, nada pode ser comparado à situação das empresas de Eike (basta ver o que aconteceu ontem com as ações da OGX). E é descabido qualquer paralelo com a trajetória da economia nacional. Mas o Brasil, sem dúvida, saiu da zona de conforto.
Além de sofrer os respingos dos problemas da Europa, mostra-se vulnerável ao que se passa nos EUA e na China. E as notícias das duas potências não são boas para a nossa estabilidade.
O dólar se valoriza em prejuízo do real e os chineses diminuem suas importações, jogando ao chão o valor das commodities. O mundo conspira contra otimismo do ministro Guido Mantega.
O mercado, que não tem nada de bobo, vai apostando suas fichas na contramão do cenário traçado pelo governo. Ontem, na pesquisa semanal do Banco Central com os economistas das principais instituições financeiras, a previsão para o PIB deste ano baixou de 2,46% para 2,40%.
O dólar ficou em R$ 2,15 e o IPCA foi projetado em 5,87%. Mas, para que esses fatores não saiam de controle, estima-se que o BC necessariamente terá de elevar a taxa básica de juros, Selic, de 8% para 9,50% até dezembro.
O que não é o melhor das notícias. Nesse sentido, também não foi animador o índice de atividade econômica, apurado entre gerentes de compra pelo banco HSBC. Manteve-se em 50,4 pontos, sem nenhum avanço em relação a maio, quando atingiu o recorde de sete baixas seguidas.
O índice de confiança dos consumidores de São Paulo, medido pela Fecomércio, caiu 0,6%, o que reflete, segundo a entidade, o temor de que os preços possam continuar a subir.
Motivos não faltam, portanto, para gerar preocupação entre os integrantes da equipe econômica. Por mais que se diga que as manifestações no Brasil não têm nada a ver com o que acontece no Velho Mundo, onde a taxa brutal de desemprego leva os jovens ao desespero, é evidente que o descompasso da economia serve de pano de fundo para os protestos.
Com a inflação em alta, as famílias começam a perder seu poder aquisitivo, o crescimento lento alimenta o receio em relação ao emprego, e a juventude se anima a sair à rua contra tudo isso que está aí. Ainda não foram vistos cartazes contra a carestia e também não se viu gente pedindo mudanças na Fazenda e no Banco Central.
Há bandeiras urgentes nas ruas, mas uma conjuntura mais favorável certamente diminuiria o coro dos descontentes. O país tem encontro marcado com as urnas em outubro do ano que vem.
Em 2010, Mantega foi um poderoso cabo eleitoral e ajudou Dilma Rousseff a se eleger. Em 2014, o ministro voltará a ser peça estratégica. Ou para o bem ou para o mal da reeleição de Dilma.