quarta-feira, dezembro 12, 2012

Se Lula é inocente, permitir a investigação não seria o melhor caminho?


Adelson Elias Vasconcellos

Marcos Valério é bandido? É sim, tanto que foi condenado a mais de 40 anos de prisão pelo STF , por uma penca de crimes cometidos contra a administração federal.

Mas não foi condenado sozinho, não. Também são bandidos Delúbio, Dirceu, Genoíno, os sócios de Valério, dirigentes do Banco Rural, e alguns diversos políticos de diferentes partidos.

Porque a palavra de alguns poderia ser mais qualificada do que a de outros? A reação de alguns destes às declarações prestadas por Marcos Valério ao Ministério Público  e hoje divulgadas em ampla reportagem pelo Estadão, chega a ser patética. 

Mas destes até se compreende a reação estúpida para desqualificar Valério. Do restante, no entanto, de jeito nenhum. Ninguém está acima da lei, seja Sarney, seja Lula, seja quem for. O movimento de blindagem promovido  pelo PT para impedir que testemunhas chaves sejam convocadas a prestar depoimentos sobre casos como o escândalo do Carlinhos Cachoeira/Delta, Operação Condor e sobre as declarações  de Marcos Valério, somente colaboram para que a criminalidade no âmbito político do país se acentue ainda mais. 

Peguemos o caso de Lula. De tudo o que publicitário afirmou, creio apenas que as ameaças de morte que, segundo ele, teriam sido feitas por Paulo Okamoto, por não terem sido gravadas, talvez fossem mais difíceis de serem comprovadas sua veracidade ou não. 

As demais, e quase todas envolvem dinheiro, qualquer investigação mais profunda poderia inocentar ou condenar os personagens apontados por Marcos Valério.

Ora, se Lula é tão santo assim, se nada teme de que algum “mal feito” possa ser provado contra si, então por que a blindagem? Por que tanto medo? 

Se Lula nada tem a temer porque inocente, apenas uma vez que se deixasse as águas do rio correrem seu curso normal, já serviria para prevenir futuras delações ou calúnias. 

Mas qual? Baste que se levante qualquer suspeita por mais irrelevante que seja, que lá vem a tropa de choque tentando impedir, a qualquer custo, qualquer investigação. Ora, tanta operação abafa mais do que afastar suspeitas, servem apenas para acentuar que, por detrás desta moita, se escondem pilantragens às dezenas para justificar tanto esforço na tentativa de se obstruir qualquer investigação, mesmo que preliminar. 
Tome-se o ponto em que Valério acusa Lula de ter despesas pessoais bancadas pelo dinheiro do mensalão, se utilizando de um segurança de anos, Freud Godoy. Pois bem, o que há de novidade nisto? Godoy sempre foi mais do que um simples segurança, chegando a ser visto por quem está próximo dele, como um faz tudo de Lula. Assim, servir de intermediário para canalizar recursos de origem duvidosa para bancar despesas do chefe, não seria nada estranhável.

Mais: qual a novidade em Lula valer-se de terceiros para pagamento de suas despesas pessoais? Paulo Okamoto já fez isso, assim como certo advogado, compadre do “homi”, em relação à moradia de Lula, fora outras favores pessoais e familiares.  

Nada impede que Freud Godoy receba em sua conta bancária recursos que se destinam a que ele pague contas do chefe. Muito embora isto não seja regra no mundo empresarial, por exemplo,  mas é mais comum do que se imagina. Ora, se o recurso tem origem lícita, nada a estranhar que um presidente da república escolha um de seus assessores de confiança para cuidar de seus assuntos caseiros, para que o presidente dedique ainda mais tempo para os assuntos da Nação. Alguém seria cretino em qualificar este comportamento como ilegal, como escuso, como reprovável?  Ora...

Porém, já sob outra ótica, a de que a origem do dinheiro é algo que não se pode revelar, estamos diante de no mínimo um comportamento suspeito, suscitador de uma investigação sobre a tal origem “confidencial” do recurso.

Outro ponto, diz respeito a tal reunião em que participaram, além do próprio Marcos Valério, Dirceu e Lula, que resultou em um “ok” desferido por Lula para os tais empréstimos do Banco Rural e Banco BMG ao PT. Ora, alguém já esqueceu da reunião em que Lula participou com Waldemar Costa Neto, então presidente do PL,  em que ficou acertado o repasse de R$ 10 milhões para o PL  bancar, foi que se alegou, dívidas de campanha!!!

Ora, a reunião a que  se refere Valério, também tratou de dinheiro e dinheiro que convergiria para o PT bancar os “acordos” partidários os quais, é bom lembrar, o PT nunca negou,. O que jamais admitiu era que tais acordos se destinavam a comprar apoio político nas votações no Congresso. Assim, Lula participar do tipo de negociação apontado por Valério, seria, diante dos fatos que conhecemos, estranhável?

Ademais, os outros  itens todos são possíveis de serem rastreados e as datas confrontadas. E, se tudo o que Valério confidenciou for meras mentiras, como os petistas e o próprio Lula sustentam, este rastreamento vai deixar isto patente, livrando o ex-presidente das suspeitas de participação nos negócios criminosos desenvolvidos à luz do mensalão. 

Além disto, os petistas sempre foi pontas de lança em manchar reputações, em desferir acusações diversas sobre seus adversários, muitas das quais se comprovaram levianas e simples calúnias, por que não podem, no reverso da medalha, serem transformados, também,  em vidraças? Apenas por serem petistas? Ora, ora....

Portanto, quanto mais acusações forem desferidas contra Lula e mais forte se tornarem as blindagens e obstruções a qualquer investigação, por menor que seja, mais forte se evidenciam as suspeitas de que algo de muito grave está se tentando esconder.  

Assim, seja o Ministério Público, seja a Polícia Federal (muito embora esta sofra enorme pressão política), por serem instituições de Estado, nunca de governo, podem dar início a investigações para a comprovação ou não dos fatos levantados por Marcos Valério que, por sinal, se manteve calado por muito tempo até se dar conta que seu silêncio de nada serviu, acabando ele arcando com o custo maior de sua participação no esquema criminoso. . 

Basta que se observe, por outro lado, o que está acontecendo com Rosemary Noronha, e a imensa pressão para tirá-la de foco, para escondê-la, para evitar que solte a língua, para sabermos que as pressões que Valério tem sofrido para manter-se de bico calado, não foram e não são poucas. Enquanto pôde, enquanto lhe restou a esperança de que no processo do mensalão não seriaele a arcar com as maiores penas, além da própria desmoralização pública,  Valério se manteve fiel à Máfia. 

Acho que acreditou demais, entendo que esperou tempo demais para contar o que sabe e buscar, deste modo, proteger-se a si mesmo. Silvinho “Land Rover”, que era da direção nacional do partido, não quis pagar prá ver: tão pronto o processo começou a andar, buscou rapidamente fazer um acordo para livrar-se   de penas maiores.  Ainda acho que este acordo foi muito mais benéfico para os demais réus do que para esclarecimento dos fatos. Em todo caso, o petista tratou, rapidamente, de cuidar de si e ignorar os ”interesses partidários”.

Sobre a declaração estúpida de José Sarney de que ninguém tem autoridade para falar de Lula, creio que o senador deve talvez falar por si e pela gente a que ele pertence. Neste clube, de fato, ninguém tem autoridade nem moral para sequer criticar Lula, ao contrário, contudo, do restante da nação brasileira, composta de trabalhadores, gente honesta, responsável e idônea a quem, não custa lembrar, Lula deve muito, inclusive seus dois mandatos presidenciais. 

Lula foi colocado na Presidência não por obra do acaso. Da mesma forma que o povo lhe deu os dois mandatos sucessivos, pode agora, por ser seu direito, cobrar explicações de Lula sobre o que ele  andou fazendo com estes mandatos e se cometeu os tais crimes a que se refere Marcos Valério.

Além disto, o senhor Sarney se ainda tem mandato, se ainda não foi expulso da vida pública, em parte deve a sua associação com  Lula, colocando-se neste mesmo baixo nível o também senador Renan Calheiros.

 Portanto, que o Ministério Público saiba  cumprir com a missão que lhe foi atribuída pela Constituição. Há elementos suficientes para se apurar se o que diz Marcos Valério tem ou não fundamento, são ou não verídicas. 

Como afirmamos no artigo anterior sobre este caso, o fato de ser petista ou ex-presidente não pode se sobrepor à lei. Lula não é um inimputável. Se infringir as leis do país, deve responder por isso. E, se o PT for inteligente, saberá ver aí enorme oportunidade de esvaziar este movimento de desqualificação à imagem de Lula. Claro, esta seria a melhor estratégia a ser adotada desde que Lula seja, de fato, inocente de tudo o quanto está acusado...

Porque, senhores, alegar simplesmente como fazem petistas e seus bandoleiros, que as acusações são mentiras porque não se apresentou provas, é pura bazófia, conversa mole: se não investigar, ou melhor, se não deixam investigar, como será colherá provas? As seguidas obstruções só tem servido para alimentar a suspeita de que, se liberadas as investigações, as tais provas apareceriam com certeza. Indícios de crime há sim senhor, e eles se comprovarão ou não mediante a competente investigação. 

Estes despistes todos, esta fumaceira com tentam desqualificar qualquer aspecto negativo que diga respeito à Lula, até é compreensível: afinal, todos se lambuzaram a vontade no poder  nos dois mandatos de Lula. Mas ele não é Deus, também erra. Então, que a vida siga seu curso normal, e que as investigações sejam feitas justamente para se saber até aonde o que diz Valério é verdade ou não. O resto, meus caros, é cretinice, é hipocrisia, é acobertamento. E acobertamento consciente como se está fazendo agora passa também para a seara criminal qualificada como cumplicidade.  

O apego ao bolso alheio


Adelson Elias Vasconcellos

O amor das esquerdas por estatais é algo incrível. Para quem adora cobrar cachê dos militantes atuantes em estatais e demais órgãos da administração pública, inclusive no Congresso, quanto maior o gigantismo do Estado, maior será a receita “extraordinária” que entrará no caixa do partido.Este apego ao bolso alheio é inerente a esta gente, está incrustado em seu DNA. 

A grande maioria dos servidores públicos são honestos e trabalhadores, muito embora sendo conduzidos para um ponto em que a acomodação fará, ainda, um enorme estrago. Impossível que altos salários e com estabilidade no emprego, não provoquem este conflito: “trabalhar e me esforçar para quê?”.

Com a chegada do PT no Planalto, iniciou-se um processo para se transformar toda uma geração de servidores em caso perdido. Foram elevados à categoria de elite estatal, sem que a contrapartida em atendimento à população lhe seja cobrado. 

Há sim um exército de servidores que ganham mal, trabalham em ambientes praticamente insalubres dada às más condições de seus locais de trabalho. Mas estes vão se tornando raridade. Chegará o momento em que o país um dia precisará meter a mão neste vespeiro, porque faltará dinheiro para bancar as delícias desta elite.

Olhando-se para a administração pública como saborosa fonte de receitas, Lula empreendeu um aparelhamento muitas vezes denunciado, porém sem que ninguém tomasse uma única iniciativa decente para trancar sua progressão. 

Não só isso: voltou a criar estatais inúteis apenas para servir de cabideiro de emprego inútil, com salários altíssimos e muito companheiro nomeados de favor,  garantindo assim que a corrente financeira pudesse se sustentar por longo período. 

A denúncia que o Estadão trouxe à tona hoje, sobre os pedágios cobrados nos contratos de publicidade do Banco do Brasil para o caixa petista, nem deveria ser novidade. Há tempos, desde que o PT nasceu, em tudo que toca, o partido cobra pedágios, sejam de fornecedores ou prestadores de serviços.

Enquanto se manteve como executivo municipal apenas, isto sempre foi motivo de denúncias como bem acabou sabendo o ex-prefeito Celso Daniel. Quando quis cair fora, deu no que deu. Empresas de transporte coletivo e recolhedoras de lixo nas cidades administradas pelo PT sabem como o esquema funciona. Novidade? Só para aqueles totalmente alienados do que se passa à sua volta.

Nos governos estaduais o esquema se amplia, e vejam com que facilidade se ampliam quadros de servidores “nomeados”, se criam novas estruturas administrativas e, claro, sempre ocupadas, loteadas e aparelhadas pelos companheiros. Tudo isto reverte em novos pedágios para fazer crescer o bolo das receitas extraordinárias. A facilidade com que se manipula dinheiro público para estas estruturas partidárias de poder sempre serviram para, de um lado, abastecer o caixa do partido, de outro, para manter a companheirada empregada. Mas, no fundo, o que sempre acontece é desperdício e engessamento da máquina pública. Nada anda, nada acontece, tudo fica atado, amarrado num burocracia infernal em que o contribuinte, se for empresa, acaba caindo na armadilha e cede à tentação de perguntar quanto custa desatar o nó para que seus pedidos, processos, certidões, licenças  e outras milongas mais sejam destravados.

Se a gente for fazer uma análise bem profunda sobre o aumento indiscriminado de esquemas de corrupção hoje espalhadas por toda a máquina pública, vai encontrar certamente o aparelhamento em nome do caixa do partido, com a criação de esquemas de burocracia estúpida, alimentando estes canais ilegais e imorais.

Juntando-se todas as peças contidas nas revelações feitas por Marcos Valério, impossível para quem for isento politicamente, utilizando-se apenas do que é fato concreto,  não considerar que nestas revelações não haja combustível bastante para abrir-se novas investigações.  Digo acima e repito aqui: Cachoeira, mensalão e Porto Seguro, são dinamite pura. Um bom promotor, imbuído do mais alto espírito republicano e de justiça, querendo, pode esmiuçar estes três esquemas revirando-os do avesso para mostrar ao país, finalmente, o que um governo comandado pelo petismo é capaz de aprontar. 

Senhores: o que vimos no mensalão é pinto perto do que seriam as revelações de esquemas do Cachoeira, Porto Seguro e outras revelações que explodiriam em uma mensalão versão 2.0. E, em todas ditaduras e governos de esquerda, infelizmente, tais realidades são repetecos ao longo da história. Acabam caindo devido a podridão de suas bases e da cultura de devassidão corrupta implementadas nas esferas dos Estado em que se instalaram.

Não pensem que esta discurseira toda que se ouve vinda dos petistas, aliados políticos, cúmplices empresariais, imprensa rendida em favor de desqualificar acusadores e barrar ao extremo qualquer iniciativa de investigação é porque sejam todos puros e absolutos donos da verdade. Pelo contrário: o desespero que se revela em sua máxima voltagem indica justamente o contrário. Temem terem revelados seus esquemas de submundo.

O Brasil demorou 25 anos para se livrar da ditadura militar e esta só caiu, dada a podridão que foi se instalando no poder e que a sociedade já não podia mais suportar. O PT pode demorar até mais tempo no poder, mas certamente será a própria sociedade que amadurecerá e os alijará de lá, porque não há riqueza suficiente que baste para alimentar a ganância com que esta corja vagabunda se alimenta.   

Por isto, o Brasil só amadurecerá suficiente como nação, dando um decisivo passo para se tornar séria e desenvolvida, no dia em que expurgar do seio do poder todo este batalhão de malfeitores, canalhas, patifes de todos os níveis, vigaristas, malandros, velhacos, que escravizam todo um povo em nome de si mesmos, da sua infinita compulsão à apropriação do fruto do trabalho alheio e que podemos classificá-los apenas como gigolôs da nação.  Cedo ou tarde, custe o que custar, seu poder se extinguirá. Acabar com a raça, infelizmente, será impossível, mas por um fim à sua ação predadora, ah!, isto sim é bem possível de se conseguir. Que não demoremos demasiado tempo para este dia chegar. 

Por enquanto, o que se percebe é que as operações tapa-buracos tem conseguido evitar o pior para o petismo. Mas chegará o momento em que serão tantos os buracos que nada mais segurará a explosão da verdade. 

Uma nota de três reais


Editorial 
O Estado de São Paulo 

A cada nova manifestação oficial do PT a respeito da situação política nacional fica mais evidente seu desapreço à verdade e à coerência, das quais, desde sempre, o lulopetismo se autoproclama monopolista. Não fugiram à regra as declarações do presidente nacional da legenda após a reunião da Executiva nacional, na semana passada. Rui Falcão repetiu basicamente as mesmas bravatas, as mesmas mistificações e as mesmas promessas que o PT proclama há mais de 30 anos, sem mudar nada de essencial num discurso que omite, é claro, o fato de que há pelo menos uma década, desde que chegou ao governo da União, mudou essencialmente sua prática política. Em outras palavras, o partido “dos trabalhadores”, que nasceu com o alardeado compromisso de reformular profundamente um sistema político armado para beneficiar as “elites”, aliou-se ao que há de pior no coronelismo brasileiro. Em nome da “governabilidade” loteou a administração federal e arquitetou um atrevido plano de compra do apoio dos “300 picaretas” do Congresso. Abriu espaço para seus próprios picaretas atuarem livremente na tarefa de colocar o governo a serviço de interesses privados. Em resumo: o PT prega uma coisa e faz outra.

Encontra, porém, uma justificativa para malfeitos, como a corrupção de parlamentares condenada pelo STF: tudo é parte da “missão histórica” de lutar pelos oprimidos. Assim, por se colocar do lado do Bem, o PT tem moral para cometer atos que só parecem condenáveis aos olhos do verdadeiro Mal: as elites opressoras e a burguesia egoísta. Aí vem Rui Falcão e protesta: querem destruir o PT numa campanha que “estimula o preconceito contra a política”. Como se o PT já não se tivesse encarregado de estimular vivamente o preconceito contra a política, primeiro, ao descrevê-la como dominada por “picaretas”; depois, já no poder, em vez de tentar acabar com os “picaretas”, ao escolher o caminho mais fácil de pura e simplesmente suborná-los.

É claro que as falácias lulopetistas só prosperam porque plantadas no campo fértil da ignorância e da desinformação. Assim, uma vez denunciadas, parece mais impressionante do que elas o sentimento de progresso material de um importante contingente de brasileiros antes mantidos à margem do consumo. É inegável essa conquista social dos governos petistas e impõem-se, a todos, o dever de lutar para ampliá-la. O que não se pode admitir é que o mérito dessa e outras realizações seja usado como pretexto para elidir o enorme demérito que significa atrelar o projeto de poder do PT à depreciação de valores democráticos e verdadeiramente republicanos, como a independência da representação popular (que não pode ser comprada); o respeito às prerrogativas constitucionais dos poderes (que não podem ser contestadas conforme as conveniências); e a impessoalidade da administração pública (que não pode ser transformada em repasto de companheiros e companheiras e mero instrumento de poder).

No exercício do poder, o lulopetismo aproveita-se cinicamente do fato de a massa popular estar mais preocupada com o próprio bolso do que com questões republicanas. É somente a partir de níveis mínimos de educação, de informação e da consequente conscientização política que o simples consumidor se transforma em cidadão capaz de ter o domínio de seu próprio destino. Se a educação não encontra nos governos o nível mínimo de prioridade que a verdadeira consciência democrática exige, pelo menos a informação precisa continuar circulando. E é exatamente por essa razão – por temer os efeitos que, mais cedo ou mais tarde, a informação sobre suas falácias e mistificações cale na consciência dos brasileiros – que os petistas odeiam a imprensa livre e, mais uma vez, proclamam a necessidade de “regulamentá-la”. De novo, dissimulam sua verdadeira intenção: aplicar aqui, em maior ou menor grau, a censura praticada pelo decrépito regime cubano, pelos regimes “bolivarianos” da Venezuela, Equador e Bolívia e pelo regime sui generis da Argentina. Em resumo, o discurso petista é falso como uma nota de três reais.

Denúncias e ameaças


Editorial
Folha de São Paulo

Podem resumir-se ao desespero de um condenado as últimas acusações do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza em depoimento ao Ministério Público, divulgadas na edição de ontem do jornal "O Estado de S. Paulo".

Não resta dúvida, porém, de que devem ser investigadas com máxima atenção. Irregularidades e segredos não costumam vir à tona por uma súbita reconciliação de personagens suspeitos com o interesse público; mais corriqueiro é que, em situações extremas, participantes de esquemas escusos decidam exibir em defesa própria o que guardavam a sete chaves.

Foi assim com Roberto Jefferson, quando expôs com minúcia a engrenagem do mensalão. Os nomes revelados pelo presidente do PTB, no início desconhecidos do público, comprovaram-se depois personagens principais do escândalo.

Ocorrerá o mesmo com as denúncias agora divulgadas de Marcos Valério? Segundo o empresário, recursos do mensalão foram canalizados para pagar despesas pessoais do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além disso, um célebre integrante do círculo íntimo lulista, o ex-presidente do Sebrae Paulo Okamotto, teria feito ameaças a Marcos Valério. Okamotto já havia frequentado o noticiário sobre finanças pessoais de Lula, quando se revelou que pagara, do próprio bolso, dívida do ex-presidente com o PT.

As acusações de Marcos Valério não param aí. Lula teria autorizado pessoalmente os acertos de José Dirceu para empréstimos bancários que azeitaram o mensalão.

Ao lado de Antonio Palocci, o ex-presidente também teria realizado, ainda segundo Valério, entendimentos com o empresário Miguel Horta, da Portugal Telecom, com vistas à transferência de R$ 7 milhões para o caixa do PT.

Tantas revelações do operador do mensalão, condenado a mais de 40 anos de prisão, devem ser recebidas com certa cautela. Não cabe descartá-las, porém, num contexto em que Lula já se enredava noutras denúncias, desvinculadas do mensalão, e o petismo recorria de novo à ideia de que tudo se trata apenas de "campanha política".

Era com frases assim que, no começo do escândalo do mensalão, deputados negavam ter feito saques em dinheiro no Banco Rural. As retiradas se comprovaram --e, na sua esteira, a trama de irregularidades que só agora chegou a ser desbaratada plenamente.

Plenamente? Talvez não, ainda. O sigilo bancário dos envolvidos precisaria ser quebrado --e só o aprofundamento das investigações poderá atestar a inocência, ou não, dos que, a começar pelo ex-presidente Lula, foram por ora poupados no caso do mensalão.

Mais investigações sobre a máfia dos pareceres


Editorial
O Globo

Seria desastroso se a rapidez com que a Polícia Federal concluiu o inquérito da Operação Porto Seguro sinalizasse alguma interferência indevida nas investigações, em que se destaca a ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo Rosemary Noronha, ligada a Lula.

Embora o superintendente da PF em São Paulo, Roberto Troncon Filho, houvesse previsto que o relatório final seria encaminhado à Justiça entre o final de janeiro e início de fevereiro, ele foi entregue na sexta-feira.
Ao comparecer ao Congresso, na semana passada, para dar explicações sobre o caso, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu a lisura do trabalho da PF, sob sua subordinação.

O ministro e a PF merecem o benefício da dúvida, pois, quanto mais não seja, a outrora todo-poderosa chefe de gabinete do escritório da Presidência em SP terminou indiciada por formação de quadrilha, como deveria ser, além de acusada por corrupção passiva e tráfico de influência.

Importante é que o inquérito pode ser aprofundado pelo Ministério Público. É o que se espera, porque o que até agora foi revelado leva a se supor que o poder de influência de Rosemary Noronha deve ter patrocinado um festival ainda mais amplo de “malfeitos”.

A foto publicada no fim de semana pela revista “Veja”, em que Rose aparece em casa de praia, na Bahia, compartilhando momentos de lazer de José Dirceu e a namorada, Evanise, confirma o franco acesso da ex-chefe de gabinete aos elevados escalões petistas.

Aliás, consta que Rose, antes da vitória de Lula em 2002, atuou no PT como secretária de Dirceu. Depois, já em Brasília, passou a trabalhar com o presidente.

Noticia-se que se passa um pente-fino em pareceres lavrados pela Advocacia-Geral da União (AGU), onde o esquema patrocinado pelo poder de influência de Rose no Planalto era representado pelo advogado-geral-adjunto José Weber Holanda.

O caso do favorecimento, via corrupção, do ex-senador Gilberto Miranda, interessado não apenas em legalizar a posse de uma ilha no litoral paulista, mas em usar outra como terminal de contêineres, pode não ser o único. Não se pode ter dúvidas quanto a isso.

O poder de Rose ficou evidente no atropelamento dos ritos no Senado na aprovação de Paulo Vieira para uma diretoria da Agência Nacional de Águas (ANA). Não se tem notícia de alguém rejeitado pela Casa que tivesse a nomeação afinal aprovada, e a toque de caixa.

A colocação de Paulo Vieira na ANA, a do irmão dele, Rubens, na agência de aviação civil (Anac), a conexão valiosa na AGU, assim como na Secretaria do Patrimônio da União (SPU), onde atuava Evangelina de Almeida Pinho, superintendente em São Paulo, formam uma teia com enorme capacidade de “vender facilidades” a interessados.

O MP e as respectivas corregedorias que atuam no esclarecimento do escândalo dentro do governo precisam trabalhar até se ter a certeza de que nada mais há a esclarecer.

Língua nos dentes


Dora Kramer
 O Estado de S.Paulo

Ás do volante na ultrapassagem de obstáculos, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva agora está diante de um quase intransponível: a abertura de inquérito policial para investigar as denúncias feitas por Marcos Valério Fernandes de Souza à Procuradoria-Geral da República, apontando Lula como ator principal do mensalão.
Se o operador do esquema disse a verdade ou se mentiu não é algo que possa ser revolvido com negativas, tentativas de desacreditar o acusador ou acusações sobre conspirações de natureza política.

Inclusive porque a história está muito mais "amarrada" do que deixam transparecer o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal. Roberto Gurgel tomou outro depoimento de Marcos Valério além daquele revelado ontem pelo Estado.

No curso do julgamento, o STF fez reuniões administrativas ainda sob a presidência de Carlos Ayres Britto para tratar do assunto.

Ficou acertado o início do processo de negociação da delação premiada, mas mantido em sigilo para impedir que novos fatos interferissem no julgamento em curso e que agora está na fase de conclusão.

A depender da qualidade das informações que venha a fornecer, Marcos Valério terá benefícios nos processos relativos ao mensalão em tramitação na primeira instância e em novos que venham a ser abertos.

Mas é possível que obtenha do relator Joaquim Barbosa um regime especial de prisão (cela isolada ou na companhia de preso com curso superior, acesso facilitado a visitas, direito a livros e televisão) na hora da definição da execução da pena.

Não por acaso esse assunto foi ventilado há poucos dias no STF. A forma de cumprimento das sentenças ficará a cargo de Barbosa e não de juiz de vara de execuções.

Embora Valério não seja visto como testemunha confiável, seu melhor ou pior destino está atrelado às provas que possa apresentar. Ele mentiu muito, prometeu demais, entregou quase nada e agora sua única chance de salvar em parte a pele é falar a verdade.

Por que não falou antes? Primeiro porque o advogado dele era contra o recurso da delação e, segundo, porque percebeu tarde que a rede de proteção prometida pelo PT não existia.

Condenado a 40 anos e com a perspectiva de passar o resto da vida na cadeia devido aos outros processos, a única opção era tentar reduzir os danos. Como o mensalão propriamente dito já estava desvendado, de novidade relevante só o papel de Lula.

Agora o Ministério Público tem dois caminhos: arquivar o caso ou pedir ao Supremo que determine abertura de investigação.

Para arquivar, no entanto, é preciso que não reste dúvida sobre a existência de indícios de que houve crime. E os vestígios estão presentes em pelo menos um dos episódios narrados por Marcos Valério.

É o caso do depósito de "cerca de R$ 100 mil" na conta da empresa Caso, segundo Valério, para pagar despesas pessoais do então presidente da República.

Na quebra de sigilo ordenada pela CPI dos Correios, em 2005, aparece o registro de R$ 98.500 depositados na firma de propriedade de Freud Godoy assessor direto de Lula, coordenador de segurança de suas quatro campanhas presidenciais e até 2006 com sala no Palácio do Planalto.

Um personagem complicado, obrigado a se demitir quando foi apontado por um dos "aloprados" presos com dinheiro para compra de dossiê contra adversários políticos como o mandante do negócio.

Esse e outros relatos de Marcos Valério por si acionam os botões da engrenagem investigativa que, como uma máquina quando ligada, funciona à revelia das vontades.

Lula poderá de novo alegar que não sabia de nada?

Poderá, mas desta vez há personagens notórios demais, detalhes verossímeis demais e um arsenal imponderável demais nas mãos de um homem que, além de não ter nada a perder, não esquece os maus bocados vividos em experiência traumática na cadeia.

De Obama@org para Dilma@gov


Elio Gaspari
O Globo

Marian, minha sogra, de quem talvez a senhora se lembre, fala todo dia nesse juiz Barbosa

Companheira Dilma,
Permita-me esse tratamento, apesar de estar atravessado na minha memória aquele dia de caça aos ovos de Páscoa nos jardins da Casa Branca em que a senhora veio aqui me dar aula de economia. Resta-lhe o crédito das minhas filhas terem adorado seu palácio, que o Ronald Reagan achou parecido com sede de empresa de seguros do Texas.

Decidi escrever-lhe porque há tempo suspeito que a senhora cometeu o mesmo erro que eu. Dispondo de três nomes para o Ministério da Fazenda, nomeei os três. Pus o Timothy Geithner no Tesouro, o Paul Volcker num conselho e o Larry Summers numa assessoria. (Imagine o que esse gênio de Harvard mandou pedir: um carro, presença em eventos e convites para jogar golfe comigo.) Deu tudo errado. Summers e Volcker foram-se embora e, se Deus me ajudar, troco o Geithner no ano que vem.

Esses jornalistas que sabem tudo dizem que eu quase capotei na curva por causa desse erro. Não foi assim. O Geithner garantiu-me um norte: a busca obsessiva pela confiança do empresariado. Sem isso, o país teria ido à breca. Sinceramente, sua turma está espancando essa gente. Aí, como cá, o sujeito tem uma sala no palácio e pensa que manda. Eu não sei o que a senhora quer fazer com as concessionárias de energia e de portos, mas sei que conseguiram produzir uma enorme confusão.

Lá pelo final de 2009, durante a discussão da política nacional de saúde, caiu-me a ficha. Meu problema não estava na economia, mas naquilo que vocês chamam de Casa Civil. A máquina da presidência simplesmente não funcionava. Livrei-me de dois.

Sei que a senhora não tem sorte nesse tipo de escolha. Agora sua chefe da Casa Civil é candidata ao governo de um Estado. Essa é a receita da encrenca. Os êxitos caem por gravidade no colo do presidente, mas os fracassos dão-lhe a impressão que vão para a conta dos outros. É engano, companheira. Os fracassos grudam na gente com mais força que os sucessos. Enquanto estamos no palácio, todos nos dizem que isso não acontece. Quando vamos para rua pedir votos, vemos o tamanho do erro.

Redesenhe seu palácio, fuja dessas salas de eventos, vá para a rua, siga seus instintos, enquadre os ministros candidatos a governos. Sua tarefa é muito mais fácil que a minha. Se aqui houvesse uma oposição como a que há aí, eu passaria metade do meu tempo jogando basquete ou paparicando a Michelle. Antes que eu me esqueça, não perca tempo com o “The Economist”. Desde 1848, quando foi fundado, ele ensina ao mundo que não há salvação fora da ortodoxia liberal. Que ninguém me ouça: a Inglaterra provou esse remédio e cada dia se parece mais com a Holanda.

Finalmente, um palpite, sem qualquer vestígio de torcida: admita que seu rival em 2014 será o juiz Barbosa. Quando eu lancei minha candidatura o Vernon Jordan, respeitado líder negro, apoiava minha rival. A certa altura trocou de posição e explicou-se: “É duro disputar contra um movimento”.

Lula, “o cara”, representou um movimento.

Michelle, Malya e Sasha mandam-lhe um abraço. Marian, minha sogra, de quem talvez a senhora se lembre, acompanha-as, mas fala todo dia nesse juiz Barbosa.

Do companheiro Barack.

Crítica sem autocrítica


O Estado de S.Paulo

O Brasil tem feito sua parte para a superação da crise global, disse em Paris a presidente Dilma Rousseff, em mais uma aula a respeito de como os governos do mundo rico deveriam cuidar de seus problemas. Os emergentes, segundo ela, mostraram maior capacidade de recuperação e de manutenção da estabilidade macroeconômica depois do choque de 2008. "Não vacilamos em lançar mão de estímulos fiscais para reduzir os impactos da crise", lembrou a presidente, apontando uma diferença importante entre a política seguida no Brasil e em outros países em desenvolvimento e aquela praticada, com efeitos fortemente recessivos, na maior parte do mundo rico. Ela parece, no entanto, haver esquecido alguns detalhes importantes: os estímulos animaram a economia brasileira no segundo semestre de 2009 e ao longo de 2010, mas foram insuficientes para impedir resultados muito ruins nos dois anos seguintes. Em 2011 e 2012, a produção estagnou, a exportação empacou e a inflação se manteve bem acima da meta de 4,5%.

A presidente havia recitado essa ladainha em recente visita à Espanha, retomando o tema de pronunciamentos em outros eventos internacionais. A cantilena foi retomada fielmente pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, diante de seu hotel parisiense, nessa segunda-feira, um dia antes de mais um pronunciamento de sua chefe. Também ele parece ter esquecido a parte menos gloriosa da história, a dos últimos dois anos.

A presidente Dilma Rousseff tem razão ao criticar as políticas baseadas essencialmente no aperto fiscal, mas seu recitativo nada acrescenta ao debate. Bons argumentos a favor de maior equilíbrio entre ajuste e crescimento foram apresentados várias vezes por economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pelo governo francês, seu anfitrião.

Se o seu discurso serviu para alguma coisa, foi para dar ao presidente da França, François Hollande, mais uma deixa para condenar a austeridade excessiva defendida pelo governo alemão e para reclamar do superávit comercial da Alemanha, mantido, em boa parte, à custa dos demais europeus. O próprio Hollande, no entanto, preserva o esforço de arrumação das contas públicas, indispensável a qualquer projeto sério de retorno à prosperidade.

A contribuição do Brasil nos próximos meses, disse a presidente, será a aceleração do crescimento. Não entrou em muitos detalhes sobre seus planos, mas citou de passagem compromissos com a austeridade fiscal, com a redução de custos e com a busca de competitividade. Não renunciou, no entanto, a um exercício frequente em seus pronunciamentos diante de plateias internacionais - cobrar dos estrangeiros maior cooperação no esforço pela estabilidade global. Segundo ela, deveria haver um conselho de estabilidade econômica e social semelhante ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Aparentemente, esse organismo deveria dispor de poderes para atuar em diversos setores da economia internacional. A presidente mencionou a importância de uma ação permanente "para deter a marcha insensata de formas de protecionismo".

Em outros pronunciamentos, ela incluiu entre essas formas a política monetária expansionista dos ricos, por seus efeitos sobre o câmbio. Ela e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, têm atribuído um propósito comercial a ações dos bancos centrais dos Estados Unidos e dos países da zona do euro. Os efeitos cambiais dessas medidas são indiretos e às vezes irrelevantes, como comprova a depreciação do real nos últimos 12 meses. Mas a retórica dispensa detalhes factuais.

Bem pesados todos os fatos, a maior contribuição do Brasil aos demais países, nos últimos anos, foi o aumento da importação de bens manufaturados, graças ao descompasso entre a demanda interna e a capacidade de resposta da indústria local, prejudicada por um enorme conjunto de ineficiências made in Brazil. O governo apenas começou a reconhecer esses problemas e a ensaiar medidas para enfrentá-los. Dependerá apenas de si para realizar essa tarefa. Para esses males, pelo menos, as potências estrangeiras não contribuíram.

A reabertura do baú de Valério mostra que os figurões do PT só confiam em bandido mudo


Augusto Nunes
Veja online

Publicado em 26 de agosto, o post reproduzido na seção Vale Reprise advertiu que a mais explosiva caixa preta do Brasil poderia tornar ainda mais sombrio o horizonte dos passageiros do mensalão.“Marcos Valério ameaçou abrir o bico caso ficasse sozinho no barco a caminho do naufrágio”, alertou o título. Os dois parágrafos finais evocaram os sinais de perigo:

“Depois da primeira prisão preventiva, Marcos Valério avisou mais de uma vez que (…) afundaria atirando ─ e tinha balas na agulha tanto para mensaleiros juramentados quanto para Lula. Nesta semana, com um recado em código, o advogado Marcelo Leonardo valeu-se de uma linguagem codificada para reiterar as ameaças do cliente: ‘Quero ver o que o tribunal vai decidir sobre os políticos’, disse Leonardo depois da condenação de Valério pelas maracutaias envolvendo o Banco do Brasil.

Tomara que Valério reaja ao risco do naufrágio solitário com o cumprimento da promessa. Tomara que conte tudo, do mensalão mineiro à roubalheira imensa descoberta em 2005. Tomara que não poupe nenhuma das figuras com as quais contracenou, de Eduardo Azeredo a José Dirceu, de Clésio Andrade a Lula. O tumor da corrupção impune assumiu dimensões tão perturbadoras que talvez só possa ser lancetado por um quadrilheiro de grosso calibre. Alguém como Marcos Valério”.

O depoimento à Procuradoria-Geral da República, parcialmente divulgado pelo Estadão desta segunda-feira, comprova que Valério começou a cumprir a promessa. E deixou claro que o volume de segredos armazenados na memória não cabe numa caixa preta convencional: exige um baú. Pelo histórico do operador do mensalão, é provável que o depoimento tenha misturado muitos fatos com alguma fantasia. Não será difícil separar o real do imaginário: Para separar o real do imaginário, basta que o Ministério Público e a polícia cumpram seu dever ─ e investiguem com isenção e coragem o que Valério contou.

Previsivelmente, a seita lulopetista já decidiu que é tudo mentira e faz o que pode para desqualificar o velho parceiro. “Não se pode confiar numa pessoa dessas”, recitou Rui Falcão, presidente do PT. Não explicou quando e por quais motivos ocorreu a quebra de confiança que foi incondicional entre 2002 e meados de 2005. Até a descoberta do esquema do mensalão, nenhum dirigente do partido ousou duvidar do publicitário mineiro.,

Autorizado pelo PT, o bandido amigo movimentou malas de dinheiro e contas bancárias, rubricou e assinou empréstimos de bom tamanho, distribuiu propinas e abriu contas em paraísos fiscais ─ uma das quais se prestou ao acerto financeiro com o marqueteiro do rei, Duda Mendonça. Decerto não foi a condenação imposta pelo Supremo Tribunal Federal que transformou Valério “numa pessoa dessas”.

Ele não é mais bandido que José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e outras obscenidades que continuam a merecer da seita lulopetista, mais que confiança, um respeito reverencial. Enquanto permaneceu de boca fechada, Valério pareceu muito confiável aos olhos dos figurões da seita lulopetista. Perdeu a credibilidade quando começou a falar.

O PT tem muito apreço por bandidos mudos. A Justiça deve dar tratamento preferencial aos que falam. A delação premiada existe para encorpar a voz dos que sabem muito. Em matéria de quadrilhas protegidas por governantes brasileiros, ninguém sabe mais que Marcos Valério.

As razões que a razão desconhece


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O depoimento atribuído a Marcos Valério deveria ser sigiloso, por fazer parte de investigações que estão longe de terminar. Mas vem vazando que é uma beleza! E não é difícil saber quem viola a lei, ao vazá-lo: quem o guarda, com o compromisso de mantê-lo íntegro, e quem se beneficia com o vazamento. 

Quem se aproveita do episódio Marcos Valério 2 - a nova versão?

Também não é difícil apurar se alguns fatos são ou não verdadeiros. O depósito que Marcos Valério diz ter feito na conta bancária de Freud Godoy é rastreável. Ou foi feito (e Valério diz a verdade, e Freud Godoy mente) ou não foi feito (e Freud Godoy diz a verdade, e Marcos Valério mente). 

Marcos Valério diz ter encontrado um empresário que estaria chantageando o Governo no Hotel Pullman, em São Paulo, por volta de 2003. Só que o hotel foi inaugurado pelo menos quatro anos mais tarde. 

Marcos Valério diz que o pecuarista José Carlos Bumlai, empresário de posses, contribuiu para uma caixa especial de gastos ilegais e, para dificultar o rastreamento, buscou um empréstimo de algo como R$ 5 milhões no Banco Schahin. O principal executivo do Banco Schahin negou ter feito esse empréstimo. Os arquivos do banco podem comprovar ou desmentir essa história.

Mas, se as histórias podem ser confirmadas ou desmentidas por documentos, por que não pesquisá-las? 

Há várias hipóteses possíveis e uma terrível: a melhor maneira de esconder uma mancha na roupa é cobri-la com uma mancha maior.

Reincidência específica
Há alguns anos, Marcos Valério citou pessoas a quem disse ter dado dinheiro. Foi conciso e preciso: hotel tal, tal hora, tal pessoa. Uma das entregas, veja só, teria sido "num hotel de luxo, de cujo nome não se lembrava". OK: um hotel de luxo tem gente no saguão, com frequência tem câmeras. O cavalheiro a quem o baixinho careca, conhecidíssimo, teria entregue o dinheiro, tem 1m90 de altura, bem mais de cem quilos de peso, um beiço de dar inveja a caciques botocudos. O dinheiro, que teria sido entregue num saco, no saguão, pesava algo como 50 kg. E, no saguão lotado, ninguém notou nada!

A história fazia parte de uma tentativa de inocentar um político cujo apoio era necessário a um determinado Governo. O alvo da denúncia se livrou, mas o tal político nesse caso nem sequer foi acusado.

Fumaça nos olhos
Há grupos políticos com a ideia fixa de pegar Lula em algum malfeito, algo de que nem ele, com toda sua habilidade, consiga se livrar. Para este pessoal, o caso Rosemary Noronha é o que há de bom: ela é próxima a ele e, acreditam, há provas abundantes de que manipulava a máquina pública. As novas acusações atribuídas a Marcos Valério, que supostamente podem atingir o ex-presidente, podem também dividir os holofotes e diluir as pressões contra ele - especialmente se, na hora da verificação do que de fato ocorreu, caírem no vazio.

Passado, presente, futuro
Do jornalista Josias de Souza (http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/):

"O mensaleiro de ontem é um presidiário de amanhã"

Em defesa de Alckmin
Chovem críticas contra o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, por ter ido com a esposa ao Aeroporto de Guarulhos, no helicóptero do Estado, para buscar o filho, a nora e dois netos. O helicóptero pousou no Pátio Vip, onde Sua Excelência reencontrou Suas Excelencinhas, que assim puderam chegar com mais rapidez e conforto a seu destino em São Paulo. 

Não pode haver críticas a um senhor tão extremoso. Vovô Geraldo nem pensava no conforto de seus parentes, mas na segurança deles. Afinal, como governador, ele sabe direitinho o risco de voltar por terra do aeroporto para casa, numa cidade dominada por bandidos e onde os celulares que melhor funcionam estão instalados nos presídios. Onde nem a Polícia tem segurança, que segurança haverá para a população? O Governador Geraldo Alckmin negou até cansar a existência do crime organizado, mas o Vovô Geraldo sabe que ele existe. É melhor proteger-se - usando, claro, dinheiro público. Quem pode criticá-lo? 

Top chic
Onde é que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff se reuniram para botar os assuntos em dia? Em Paris, claro. Num excelente hotel, o Bristol, onde a presidente se hospeda e recebe seus convidados. Longe da imprensa enxerida, nada vazou da conversa. 

Mas ficou claro que, quando alguém deixa o poder, perde prestígio. O ministro Aloízio Mercadante e o assessor especial Marco Aurélio Garcia, antes lulistas desde criancinhas, protegeram-se de qualquer possibilidade de encontrar o ex-presidente indo juntos a uma livraria.

Sapopemba, nem pensar
Do prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, no programa Roda Viva, TV Cultura, sobre o trem-bala: "Você sai de casa na Barra Funda de chinelo e vai tomar sol no Leblon". 

A julgar pelo ritmo de implantação do trem-bala, que até hoje não tem projeto mas tem orçamentos cada vez maiores, Haddad vai sair de casa de chinelo, sim. E bengala. E uma manta para cobrir os joelhos.

carlos@brickmann.com.br 
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O alerta da revista 'The Economist'


Ricardo Vélez Rodriguez (*)
O Estado de São Paulo

Os brios nacionalistas saltaram à flor da pele da presidente Dilma Rousseff e da petralhada no poder ao ensejo do alerta da revista inglesa The Economist acerca da confiabilidade da economia brasileira, na sexta-feira, 7 de dezembro. A recomendação da revista para que a presidente demitisse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo fato de ele não saber gerir a economia brasileira, que foi qualificada de "moribunda", não foi propriamente uma ofensa à nossa dignidade nacional. Foi mais um alerta dos mercados internacionais quanto à capacidade do Brasil de atrair investimentos em épocas de turbulência global e vacas magras financeiras. Ora, o que os jornalistas da conceituada revista queriam destacar era, a meu ver, o significado do péssimo gerenciamento da nossa economia, entravada por um intervencionismo governamental asfixiante que tolhe investimentos, afugenta inversionistas e assinala que voltamos aos tempos da insegurança jurídica generalizada.

Nas condições em que se encontra a nossa "moribunda" economia, não vale a pena investir no Brasil. Além das razões apontadas, destaquemos estas outras, que, sem dúvida, devem ter sido levadas em consideração pelos observadores internacionais.

Em primeiro lugar, a corrupção generalizada desatada pelos "companheiros" no poder, tanto no episódio do mensalão quanto no mais recente affaire desvendado pela Operação Porto Seguro, que compromete de novo figuras da alta cúpula petista, a começar pelo ex-presidente Lula.

Em segundo lugar, deve ser lembrada a baixíssima competitividade com que o Brasil se apresenta perante as agências internacionais de classificação, em decorrência da elevadíssima carga tributária e da desindustrialização do País.

Em terceiro lugar, a situação precária da nossa infraestrutura aeroportuária, portuária e de rodovias.

Em quarto lugar, os baixíssimos índices de qualidade da nossa educação, com as consequências seriíssimas que daí decorrem para o desenvolvimento econômico.

Em quinto lugar, o péssimo gerenciamento da Petrobrás em face da política de preços dos combustíveis, que está descapitalizando a empresa (que caiu, nas mãos petistas, numa espécie de síndrome mexicana para pagar o populismo de plantão).

Em sexto lugar, o aparelhamento, pela petralhada, de outrora confiáveis agências de pesquisa, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que passaram a dizer o que o governo quer, não o que de fato acontece na realidade econômica brasileira. Essa mazela deve somar-se aos contínuos ataques do partido no poder contra a liberdade de imprensa, com militantes ameaçando com a estatização pura e simples do setor, numa maluca política de gerenciamento social da informação.

Em sétimo lugar, a desastrada mania intervencionista do governo - que está atrapalhando o funcionamento da iniciativa privada -, notadamente nos bancos e nas empresas de energia, que são "convidados" a vender serviços a preços abaixo do seu custo.

Por último, o desastre que é a nossa infraestrutura de saúde pública e de segurança, que afasta investidores e aumenta os gastos com internamentos hospitalares e mortes de cidadãos.

De nada valem os arroubos nacionalistas da chefe do Executivo para dar resposta a essa preocupação dos mercados. Contrariamente ao que o bom senso assinala, em lugar de escutar o alerta dos que conhecem a atual conjuntura econômica mundial, o governo prefere fazer eco à tresloucada reação dos populismos que o cercam - efetivamente, os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Cristina Kirchner, da Argentina, teriam dito, em termos de resposta à mídia, mais ou menos as mesmas palavras de Dilma. Não faremos nada do que os observadores internacionais aconselham. Em compensação, revitalizaremos os laços político-ideológicos do Mercosul, em torno de um populismo econômico que traz inflação e afugenta investidores.

Populistas da América Latina, uni-vos! - essa é a nova palavra de ordem revolucionária.

São tempos, no continente sul-americano, de populismo, que constitui a variante mais recente do patrimonialismo entre nós. Ora, este consiste na gestão do Estado como se fosse propriedade particular de quem governa. São favorecidos regularmente os membros do partido governante e os aliados, com benesses pagas com o dinheiro público. Essa é a essência do mensalão e das demais falcatruas que são desvendadas, dia após dia, pela imprensa.

Duas forças operacionais põem em funcionamento os donos do poder para nele se perpetuarem. Em primeiro lugar, a deformação das contratações de serviços prestados pelas empresas privadas ao Estado, mediante favorecimento às que se submeterem a pagar o "ganho" extorsivo dos que mandam, fixado no balcão de negócios das licitações. Em segundo, o prêmio pago pelo Executivo aos parlamentares que se acomodem à gestão patrimonialista da máquina pública, mediante emendas parlamentares. Duas práticas velhas, mas que o PT aprimorou e universalizou, espantando a má consciência e o remorso que antes acompanhavam as operações dos corruptos.

Lula e companhia simplesmente conseguiram ficar de cabeça erguida, mesmo quando mergulhada no lodo, gabando-se de que iluminarão com mais postes a escuridão brasileira. Tudo porque roubam em nome do povo. A política tornou-se guichê de corrupção, de lavagem de dinheiro, de roubalheira ao Tesouro da Nação. O PT conseguiu fazer a "revolução cultural" gramsciana, que consiste em erguer, como único ator válido, o Novo Príncipe, o Partido e a sua coorte de sátrapas e protegidos.

* Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas 'Paulino Soares de Sousa', da Universidade Federal De Juiz De Fora 

A presidência da Avenida Paulista


Paulo Brossard
Zero Hora

Não se sabe por que, emerge esta confidência: ‘Lula é íntimo de Rosemary’

Meu propósito era escrever sobre problemas internos e externos que ensombram os horizontes próximos do governo da senhora presidente, mas outro tema, também a ela pertinente, me parece de maior atualidade. Os fatos são de ontem e estão vivos na lembrança de todos. O mensalão aproximava-se de seu termo; seus efeitos eram devastadores, quando outro caso, temperado com nitroglicerina, entrou em ebulição, tendo como sede nada mais, nada menos que o escritório paulista da chefe do governo, e desde a administração anterior gerenciado pela mesma pessoa. 

A excepcional gravidade dos fatos apurados pela Polícia Federal e as pessoas envolvidas causaram imensa repercussão. Basta dizer que a senhora presidente não hesitou em demitir, afastar, investigar a partir da chefe do gabinete instalado na Avenida Paulista, sem falar na prisão de 18 pessoas, salvo engano. Esses fatos, era inevitável, ganharam as ruas e as manchetes nos meios de comunicação. O choque foi de tal monta que todo o mundo passou a reclamar explicações oficiais, e o governo não tardou em escolher o ilustre ministro da Justiça para, em Comissão da Câmara dos Deputados, dar a versão oficial dos acontecimentos. E aqui chegamos ao ponto nodal do caso.

Os jornais informaram que a exposição foi extensa, de muitas horas, mas houve quem atalhasse dizendo que o ministro pecou pela prolixidade. Não tenho como opinar a respeito.

Enfim, o ilustre ministro da Justiça compareceu a uma comissão da Câmara dos Deputados e durante horas falou sobre o escândalo que levara a senhora presidente a afastar ou demitir a então chefe do Gabinete da Presidência em São Paulo e outros, inclusive escolhidos e patrocinados por essa última. E, embora o porta-voz do governo afirme que “a quadrilha não se instalou na Presidência”, não esclarece onde ela teria se instalado. A certa altura, surpreende dizendo “não é o resultado da investigação. O que tenho são servidores de um patamar secundário, enquadrados em conduta criminosa”. O que era assunto de alta relevância passa a incógnitos “servidores de um patamar secundário”. Uma explicação destas não fica bem seja ao governo, seja a seu ministro, notadamente quando prestada à Nação.

Mais estranho ainda é o tecido em relação à ex-chefe de gabinete Rosemary Noronha, ou Rose. Dela se diz é que o que se sabe, segundo Cardozo, é que Rose “tinha contatos ilegais, relações indevidas… mas não participava do núcleo central da quadrilha… O que ela fazia era, usando sua condição de chefe do escritório, facilitar contatos de membros da quadrilha em troca de favores”. Céus! Aqui Del Rey! Por isto, fica-se a saber, ela foi indiciada por corrupção, falsidade ideológica e tráfico de influência! Mas não havia por que quebrar seu sigilo… porque, disse o ministro, “a Polícia Federal evita grampear pessoas não diretamente relacionadas ao fato investigado”!!!

Por fim, não se sabe por que, emerge esta confidência: “Lula é íntimo de Rosemary”. Mas em que vem ao caso essa suposta intimidade? O ministro não disse.

Muita coisa teria a aditar à exposição ministerial, mas, o leitor há de convir, não disponho como ele de longas horas para expor, nem de páginas de jornal para resumi-las.

Direitos e deveres


Merval Pereira
O Globo

O que se viu ontem, no que pode ter sido a penúltima sessão do Supremo Tribunal Federal do julgamento do mensalão, foi uma tentativa de não ferir suscetibilidades no Poder Legislativo com relação à perda dos mandatos dos parlamentares já condenados no processo.

Houve a preocupação de preservar a independência dos Poderes da República, mas também a de deixar claro que, em matéria constitucional, a última palavra é do Supremo.

Há consenso no sentido de que a condenação em processo criminal não é causa automática de perda de mandato e que é preciso adicionar às penas já aplicadas a perda dos direitos políticos, para que o parlamentar condenado possa perder seu mandato.

Aparentemente há unanimidade para condenar à perda dos direitos políticos os parlamentares do mensalão, mas o passo seguinte é que provoca discussões. Com o quarto voto a favor da cassação do mandato, dado pelo ministro Marco Aurélio Mello, a tese deve sair vitoriosa, pois o ministro Celso de Mello, que deverá concluir a votação amanhã, já deu opiniões no correr do julgamento que levam a crer que votará com o relator Joaquim Barbosa.

Os casos de parlamentares condenados que ainda exercem mandatos são uma demonstração de que o Supremo entende que a simples condenação não é suficiente para a perda de mandatos. Como os recursos não foram esgotados, a condenação não transitou em julgado.

Nesses casos, quando se esgotarem os recursos, a perda de mandato será decidida pelo plenário da Câmara “por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso, assegurada ampla defesa”.

Já no caso dos parlamentares punidos com perda ou suspensão dos direitos políticos, de acordo com o mesmo artigo 55 “a perda (do mandato) será declarada pela Mesa da Casa respectiva, de ofício ou mediante provocação de qualquer de seus membros, ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa”.

Quer dizer, ao perder os direitos políticos, o parlamentar perde automaticamente seu mandato, sem que seja necessário um pronunciamento do plenário.

O argumento da ministra Rosa Weber foi que a perda de mandato depende de expressa manifestação dos que o conferiram, ou seja, do próprio povo, por meio dos seus representantes. Segundo ela, o que está sendo protegido é o direito dos próprios eleitores, não um direito subjetivo do representante eleito.

Em oposição, o ministro Celso de Mello resumiu: “Ninguém pode titularizar um mandato eletivo e sequer nele investir-se sem estar no pleno direito político, não tem sentido em situações como esta, que o tribunal desconsidere esta absoluta incompatibilidade entre a posição prisional de um congressista e o exercício do mandato parlamentar”.

O ministro Gilmar Mendes acrescentou, na mesma linha: “Agora, temos a possibilidade de um deputado preso com trânsito em julgado, mas com mandato. Vejam que tamanha incongruência”.

O relator Joaquim Barbosa deu seu ponto de vista, sempre direto: “(...) Causa-me espécie e desconforto que uma pessoa condenada possa exercer mandato parlamentar. (...) Este caso é o mais grave que pode ocorrer. (...) Há situações em que um juiz criminal não decreta perda de mandato. Agora dizermos ao Congresso que uma pessoa condenada por peculato, corrupção ativa pode exercer o mandato parlamentar? Isso se choca com nosso papel de guardiões da Constituição”.

A ministra Cármen Lúcia foi quem melhor definiu a situação: “(...) Estamos todos a discutir é simplesmente como interpretar a Constituição e que a condenação prevaleça com todos os seus efeitos”.

Para ela, o Supremo estará cumprindo seu papel condenando os parlamentares à perda dos direitos políticos “e esperamos que o Congresso cumpra as suas”.

O ministro Marco Aurélio Mello foi mais longe. Pediu condenação “completa”, formalizando a perda de mandato não só dos que o exercem hoje “como também os demais, que possam vir a buscar mandato como escudo ou possam se candidatar ou ser designados para funções de confiança no cenário público”.

O ministro Luiz Fux lembrou que no estado democrático de direito as leis sofrem “certa mutação funcional”, inclusive pela iniciativa popular, citando a Lei da Ficha Limpa, “que mudou um paradigma sobre a inelegibilidade a partir de uma condenação não transitada em julgado”.

Okamotto nega ameaça, mas admite encontro com Valério: ‘conheci ele depois do mensalão’


Josias de Souza

 O Instituto Lula veiculou na página que mantém na internet o áudio de uma conversa que seu presidente, Paulo Okamotto, teve com jornalistas em Paris. Inquirido sobre a acusação de que ameaçou Marcos Valério de morte, Okamotto negou a denúncia. Mas admitiu que esteve com o operador do mensalão. Deu a entender que falaram sobre o escândalo.

“Não tenho nenhum motivo para desejar mal ao Marcos Valério. Conheci ele depois do episódio do mensalão”, disse Okamotto, sem especificar datas e locais. “A história que ele contava é que tinha feito um empréstimo em nome das empresas dele para ajudar o PT. E isso acabou trazendo um grande transtorno para ele. O transtorno maior, inclusive, é que chegou a ser condenado.”

Okamotto acrescentou: “Pelo que eu entendi no processo todo, ele esclareceu a toda a imprensa brasileira, ele contribuiu com a Justiça, deu os nomes pra Justiça. Portanto, tudo o que ele tinha pra falar, suponho que já tenha falado. E até algumas coisas que ele falou a Justiça não levou em consideração, porque ele disse que era empréstimo que ele tinha conseguido.”

No depoimento que prestou na Procuradoria da República em 24 de setembro, Valério declarou que Okamotto o ameaçou de morte. Chegou mesmo a reproduzir as frases que diz ter ouvido do amigo de Lula: “Tem gente no PT que acha que a gente devia matar você. Ou você se comporta, ou você morre.”

Valério disse à subprocuradora-geral da República Cláudia Sampaio e à procuradora Raquel Branquinho que se sentiu “literalmente ameaçado.” E Okamotto, de Paris: “Eu ameacei ele de morte? Por que eu vou ameaçar ele de morte?” Para ele não revelar as coisas, respondeu um repórter. “Está nos autos que eu ameacei ele de morte? Duvido! Duvido que ele tenha falado isso!”.

Okamotto encontra-se na capital parisiense para acompanhar o ex-presidente num evento organizado com a participação do Instituto Lula, o “Fórum pelo progresso social…” Na saída de um seminário, o próprio Lula foi instado a comentar o pedaço do depoimento em que Valério diz que dinheiro do mensalão pagou suas contas pessoais. É “mentira”, limitou-se a dizer.

Indagado sobre o mesmo tema, Okamotto saiu de banda: “Tem que perguntar pro Lula.” No final da conversa, disse que se sente “tranquilíssimo”. Não enxerga nenhuma denúncia no depoimento de Valério. “Que denúncia que tem?” Um repórter mencionou o trecho em que o ex-parceiro de Delúbio Soares diz que Lula deu seu “ok” para os empréstimos de fancaria do mensalão. Okamotto desconversou: “Mas isso aí é um negócio… Você está me perguntando como eu me sinto. Eu me sinto tranquilo.”

Ficou no ar uma dúvida intrigante: não sendo dirigente do PT nem réu no processo do mensalão, por que diabos Paulo Okamotto achou necessário conversar com Marcos Valério sobre o escândalo? Na versão ditada por Valério às procuradoras, Okamotto procurou-o duas vezes. Uma, em 2005, dias depois da entrevista em que Roberto Jefferson esmiuçou o mensalão à repórter Renata Lo Prete. O encontro ocorreu na casa de Eliane Cedrola, diretora de uma empresa de Okamotto. O interlocutor de Valério pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que sabia. Apresentou-se como emissário de Lula.

O segundo encontro, revelou Valério na Procuradoria, ocorreu na Academia de Tênis de Brasília, onde Okamotto se hospedava. Foi nessa conversa, cuja data não foi especificada no depoimento, que Valério diz ter ouvido a ameaça de Okamotto.

Ex-presidente do Sebrae, Okamotto foi alvejado pela oposição na CPI dos Bingos, que ficou conhecida como comissão do ‘Fim do Mundo’. Bem na época do mensalão, descobriu-se que Okamotto liquidara uma dívida de Lula com o PT. Coisa de R$ 29.436,26. Eram recursos próprios, dizia o bom amigo. Quebrou-se o sigilo bancário de Okamotto. Porém, uma decisão de Nelson Jobim, então ministro do STF, sustou a abertura dos dados.

Lula é o PT. Uma coluna de Diogo Mainardi de outubro de 2006


Reinaldo Azevedo

Quem acompanhou as colunas de Diogo Mainardi na VEJA não se surpreende. Leiam o texto publicado no dia 25 de outubro de 2006.
*
O procurador-geral da República denunciou quarenta mensaleiros. O mais perto que ele chegou de Lula foi o 4º andar do Palácio do Planalto, ocupado por José Dirceu e seu bando. Agora ele terá de descer um lance de escadas e entrar diretamente no gabinete presidencial. Acompanhe-me, por favor. Cuidado com o degrau. Esta é a sala que pertencia a Freud Godoy, gorila particular de Lula. E aquela é a porta do escritório do presidente. Cerca de dez passos. Toc-toc-toc. Tem alguém aí? Lula saiu? A gente volta mais tarde.

Na última terça-feira, Garganta Profunda me passou os dados de um documento bancário de Freud Godoy, encaminhado pelo Coaf à Polícia Federal. Em 24 de março de 2004, ele depositou 150 000 reais na conta da empresa de sua mulher, Caso Sistemas de Segurança. Importante: 150 000 reais em moeda sonante. No documento bancário, Freud Godoy declarou que o dinheiro era fruto de “serviços prestados a clientes”. Isso contradiz tudo o que ele alegou até agora. Num primeiro momento, disse que sacou os 150 000 reais para comprar equipamentos. Depois, informou que pediu um empréstimo a um amigo. Mentira. Não foi saque nem empréstimo: foi um depósito. O fato é que ninguém sabe de onde saiu tanto dinheiro e por que foi parar na conta do gorila particular de Lula.

Como Robert Redford em Todos os Homens do Presidente, arregacei as mangas da camisa e fui procurar respostas na capital federal. Pedi à CPI dos Correios para fazer o cruzamento dos dados do valerioduto com o depósito de Freud Godoy. Encontrei uma espantosa coincidência. Em 23 de março de 2004, um dia antes de Freud Godoy depositar 150 000 reais na conta de sua mulher, foram sacados 150 000 reais da conta da SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Tudo em moeda sonante. Tudo de origem desconhecida. O saque no Banco Rural foi feito pelo policial aposentado Áureo Marcato. Que voltou ao banco dois dias depois e sacou mais 150 000 reais. Onde foram parar?

Na época do depósito, Freud Godoy era assessor direto de Lula. Mas fazia um bico para o PT, montando o esquema de segurança de Delúbio Soares, que transportava malas de dinheiro sujo de um lado para o outro. Freud Godoy alugou para ele um carro blindado, comprou duas motocicletas para seus batedores e contratou uma escolta de seis policiais militares. Os 150.000 reais depositados na conta de sua mulher podem ter sido o pagamento pelo serviço. Os policiais contratados para escoltar o tesoureiro do PT contaram a VEJA que Freud Godoy, entre outras coisas, era encarregado de organizar os encontros secretos entre Lula e Delúbio Soares. Pode-se imaginar o que eles discutiam.

Lula está praticamente reeleito. Os brasileiros o perdoaram. Mas a bandidagem da qual ele se cercou continuará a rondá-lo para sempre. É assim que será recordado. Por mais que tente se esconder, Lula é o PT. Lula é Delúbio Soares. Lula é Marcos Valério. Lula é o golpismo do mensalão e do dossiê Vedoin. Abra a porta, Lula. Toc-toc-toc. 

A náusea


Arnaldo Jabor 
O Estado de S.Paulo

O grande Cole Porter tem uma letra de música que diz: "Conflicting questions rise around my brain/ Should I order cyanide or order champagne?" ("Questões conflitantes rondam minha cabeça/ devo pedir cianureto ou champanha?")

Sinto-me assim, como articulista. Para que escrever? Nada adianta, nada. E como meu trabalho é ver o mal do mundo, um dia a depressão bate. A náusea - não a do Sartre, mas a minha. Não aguento mais ver a cara do Lula, o homem que não sabe de nada, talvez nem conheça a Rosemary, não aguento mais ver o Sarney mandando no País, transformando-nos num grande "Maranhão", com o PT no bolso do jaquetão de teflon, enquanto comunistas e fascistas discutem para ver quem é mais de "esquerda" ou de "direita", com o Estado loteado por pelegos sem emprego, não suporto a dúvida impotente dos tucanos sem projeto; não dá mais para ouvir quantos campos de futebol foram destruídos por mês nas queimadas da Amazônia, enquanto ecochatos correm nus na Europa, fazendo ridículos protestos contra o efeito estufa; não aguento mais contar quantos foram assassinados por dia, com secretários de segurança falando em "forças-tarefas" diante de presídios que nem conseguem bloquear celulares, não suporto a polêmica nacionalismo-pelego x liberalismo tucano, tenho enjoo de vagabundos inúteis falando em "utopias", bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos decepcionados com os 'cumpanheiros' sindicalistas, mas secretamente fiéis à velha esquerda, que só pensa em acabar com a mídia livre, tremo ao ver a República tratada no passado, nostalgias masoquistas de tortura, indenizações para moleques, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma reforma no Estado paralítico e patrimonialista, não tolero mais a falta de imaginação ideológica dos homens de bem, comparada com a imaginação dos canalhas, o que nos leva à retórica de impossibilidades como nosso destino fatal e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada, apesar dos bilhões em propaganda para acharmos que algo acontece. 

Odeio a dúvida de Dilma, querendo fazer uma política modernizante, mas batendo cabeça para o PT, esse partido peronista de direita.

Não aturo a dúvida ridícula que assola a reflexão política: paralisia x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura; deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, balas perdidas sempre acertando em crianças, imagens do Rio São Francisco com obras paradas e secas sem fim, o trem-bala de bilhões atropelando escolas e hospitais falidos, filas de doentes no SUS, caixas de banco abertas à dinamite, declarações de pobres conformados com sua desgraça na TV; tenho engulhos ao ver a mísera liberdade como produto de mercado, êxtases volúveis de 'descolados' dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicone, pênis voadores, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja com louras burras, abomino mulheres divididas entre a 'piranhagem' e a 'peruice', repugnam-me os sorrisos luminosos de celebridades bregas, passos de ganso de manequim, notícias sobre quem come quem, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, rebolando em shoppings assaltados, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e Ocidente, desovando cadáveres na Palestina e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e Heliópolis, a cara dos boçais do Hamas querendo jogar Israel no mar e o repulsivo Bibi invadindo a Cisjordânia, o assassino pescoçudo Assad eliminando o próprio povo, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã recitam o Alcorão com os rabos para cima, xiitas sangrando, sunitas chorando, tudo no tão mal começado século 21, século 8.º para eles ainda, não aguento ver que a pior violência é nosso convívio cético com a violência, o mal banalizado e o bem como um charme burguês, não quero mais ouvir falar de "globalização", enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo nos sinais de trânsito, cariocas de porre falam de política e paulistas de porre falam de mercado, museus pós-modernos em forma de retorcidos bombardeios em vez da leveza perdida de Niemeyer, espaços culturais sem arte nenhuma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô de picaretas vestidos de "contemporâneos", não aguento chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro arrancado dos ignorantes sem pagar Imposto de Renda, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas de prata, políticos se defendendo de roubalheira falando em "honra ilibada", conselhos de ética formado por ladrões, suplentes cabeludos e suplentes carecas ocultando os crimes, anúncios de celulares que fazem de tudo, até "boquete"; dá-me repulsa ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio o prazer suicida com que falamos sem agir sobre o derretimento das calotas polares, polêmicas sobre casamento gay, racismo pedindo leis contra o racismo, odeio a pedofilia perdoada na Igreja, vomito ao ver aquele rato do Irã falando que não houve Holocausto, cercados pelas caras barbudas da boçal sabedoria de aiatolás, repugnam-me as bochechas da Cristina Kirchner destruindo a Argentina, a barriga fascista do Chávez, Maluf negando nossa existência, eternamente impune, confrange-me o papa rezando contra a violência com seus olhinhos violentos, não suporto Cúpulas do G20 lamentando a miséria para nada, tenho medo de tudo, inclusive da minha renitente depressão, estou de saco cheio de mim mesmo, desta minha esperançazinha démodé e iluminista de articulista do "bem", impotente diante do cinismo vencedor de criminosos políticos.

Daí, faço minha a dúvida de Cole Porter: devo pedir ao garçom uma pílula de cianureto ou uma "flute" de champagne rosé?

Transições


Roberto Damatta 
O Globo

Ao ser perguntado por que não tirava férias e, aos oitenta e poucos anos, continuava cantando, Tony Bennett respondeu: ‘Mas eu nunca trabalhei, por que tiraria férias?’

O acontecimento da semana foi o trânsito para a eternidade de dois grandes artistas: Oscar Niemeyer, um raríssimo arquiteto; e David “Dave” Brubeck, um extraordinário músico.

Convivi com ambos espiritualmente na minha primeira e mais sonhadora juventude, na lírica fosforescência dos meus 14 aos 18 anos, quando pensei em ser desenhista e arquiteto, tocado por uma imensa admiração por Oscar Niemeyer, cuja obra eu acompanhava, tendo visitado — quando ginasiano do Colégio São José, em Juiz de Fora — o famoso mas ainda desconhecido Colégio de Cataguases, em Minas Gerais. Lá eu vi o mural “Tiradentes” de Portinari, fui envolvido pelos jardins de Burle Marx, fiquei impressionado com as rampas do edifício encomendado, já na década de 40, pela família Peixoto a Niemeyer; e tive um alumbramento no melhor estilo de Manuel Bandeira, ao ouvir Frank Sinatra cantando “Stormy Weather” num enorme e pesado disco de 78 rpm.

Meu laço com a música é igualmente profundo. Nasci ouvindo o piano de minha mãe a tocar todo tipo de composição, sem erro ou embaraço — essa marca dos grandes artistas. Mas conheci o jazz, indo além de Louis Armstrong, por meio da liderança dos Sílvios Lago — o pai — e, sobretudo, o filho, que me fez ouvir o “Dave Brubeck Quartet” e outros e outros monstros do jazz (Oscar Peterson, Bill Evans e o meu favorito, o virtualmente cego Art Tatum) que comparávamos em discussões tão veementes quanto despropositadas, com os grandes clássicos da música europeia — esses sim, músicos de verdade! Graças ao Silvinho, ao Moliterno, ao Paulo, ao Geraldo, entre tantos outros, fui instantânea e permanentemente — esse milagre da música — usurpado pelo “Blue Rondo à la Turk” e pelo “Take Five”.

Vale notar que minha introdução ao jazz, à arquitetura e ao “modernismo” em geral foi paralela à minha descoberta e imediata conversão ao comunismo na sua versão nacional: vitoriana, positivista e milenarista, fundada num esquemático evolucionismo linear que critiquei num dos meus livros mais lidos: “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, muitos anos depois. Mas isso é uma outra história.

Naquele momento, no final da adolescência e tendo as primeiras experiências de homem, eu me deliciava ouvindo música e descobrindo a política da história e, muito mais importante, a história como política. Mas onde eu me concentrava mesmo era na prancheta de desenho, situada debaixo da janela do quarto que servia a mim e aos meus quatro irmãos. Um quarto com camas beliche que mais parecia um alojamento de submarino dos filmes da Segunda Guerra Mundial do que um lugar para dormir. Ali, eu estudava e vivia o gênio do Oscar Niemeyer desenhando tudo: casas, cidades, discos voadores, foguetes interplanetários, paisagens do planeta Mongo governado pelo despótico Imperador Ming que, se a memória não me falha, era tão apaixonado quanto eu pela lindíssima Dale Arden, cujo amor por Flash era, contudo, indiscutível.

A triste passagem de um arquiteto e de um músico mexeram com esse passado de afinidades apenas desenhadas. E dão muito o que pensar. Pois o arquiteto transforma a casa, a repartição pública ou o palácio dos poderosos, essas coisas edificadas com base instrumental e dentro da irredutível lei da gravidade que prende, em desvios que libertam. Tal como no caso de Frank Lloyd Wright, outro gênio da arquitetura que eu também admirava, pois também desenhei o meu prédio de uma milha de altura sem saber que, como ensina Schopenhauer, o centro da experiência estética na arquitetura é a luta permanente entre o curvo e o reto, entre o que puxa para baixo, e a imaginação do artista que leva propositadamente para o alto em retas ou curvas.

Justo o que Oscar Niemeyer demarcou pela oposição entre o encurvado e o espiralado, típicos de sua obra, e o retilíneo — o reto humano — esse reto inexistente e talvez contrário à natureza, mas fundamental na cultura. Já na música, trabalha-se com gradações e os sons, como ensina novamente Schopenhauer, o filósofo das artes, essas continuidades rompidas ou reforçadas pelo ritmo nos penetram de modo profundo e enigmático, mesmo quando não queremos, pois, se o laço entre o mundo e a arquitetura é óbvio e racional, tal não ocorre com a música — exceto nos seus níveis mais grosseiros. De fato, sabemos que os despotismos adoram rimas e rodas, marchas e desfiles para os poderosos. Como aprendi com Milan Kundera, essas rimas são uma clara expressão da coerção e da força bruta emanada de quem gosta do poder total. Mas nesse caso a música é devorada pela política. Ademais, a música é fugaz e, sendo temporal, depende de um executor e, como os livros, tem um início, um meio e um final, demandando paciência e cumplicidade. Pois só o cantor por ela imbuído dá-lhe vida. Já na arquitetura, muda-se e constrange-se a paisagem humana de modo permanente e os poderosos sempre souberam disso desde os tempos das cavernas. Essas cavernas que se transformaram em palácios-templos monumentais dos deuses-reis e faraós.

Termino com outro artista. Ao ser perguntado por que não tirava férias e, aos oitenta e poucos anos, continuava cantando, Tony Bennett que me fez descobrir que como sempre fui um estranho no paraíso, respondeu: mas eu nunca trabalhei, por que tiraria férias?

Assim foi com o Oscar e o Brubeck: amavam o que faziam. Viveram a arte pela arte na plena certeza de que obramos todos com amor, mesmo sabendo da gratuidade imensa da vida.

A quadrilha no seio do Poder


Ruth de Aquino
Revista Época

O que é uma “quadrilha”? Pelo Código Penal brasileiro, são necessárias mais de três pessoas para formar uma quadrilha. É quase um sinônimo de gangue. Se quatro ou mais pessoas conspirarem para cometer algum delito, podemos dizer, sem medo de errar, que elas formam uma quadrilha.

Segundo a Interpol, quadrilhas costumam ter um chefão e um mentor. Às vezes são a mesma pessoa, às vezes não.

Com o julgamento do mensalão pelo STF e o novo escândalo da Operação Porto Seguro, os brasileiros aprenderam que “quadrilha” não é um termo aplicado apenas a traficantes ou bandidos comuns que não terminaram o ensino fundamental. Há quadrilhas no Congresso e há quadrilhas no Poder Executivo. Muitos de seus integrantes têm diploma de ensino superior - embora alguns sejam falsos, como o do ex-marido de Rosemary Noronha.

Mas falsificar um diploma universitário para conseguir um cargo na seguradora do Banco do Brasil é um detalhe, não? Afinal, quem pedia e pressionava por irregularidades mil era uma mulher viajada, santa protetora dos Irmãos Metralheira. Rose era a secretária íntima e de total confiança de JD e do PR. Telefonou para um e para o outro logo que recebeu a visita de policiais.

Por isso, e só por isso, Rose mereceu a defesa veemente do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ele explicou por que o sigilo telefônico dela não foi quebrado; “Não há quadrilha no seio da Presidência da República (...). Rosemary Noronha foi cooptada no esquema e não é integrante da quadrilha”.

Ninguém dará a ela o direito de depor e se defender da fama injusta de quadrilheira. Rose foi “cooptada”? Então tá!

Uma quadrilha não precisa operar com armas de fogo para ser chamada assim. No Artigo 288 do Código Penal, que define o crime, o parágrafo único determina que a pena de reclusão seja em dobro, “se a quadrilha ou bando for armado”. A pena também deveria ser dobrada para as quadrilhas que tiram proveito de cargos públicos para assaltar a população.

O valor que o governo dá em bolsas isso ou aquilo é ínfimo se compararmos ao ralo da corrupção e das propinas de bandidos infiltrados nos Poderes. Enxugaremos gelo até a Polícia Federal identificar todas as quadrilhas sanguessugas que impedem o país de avançar em seu IDH, o índice de Desenvolvimento Humano. Por que eles resistem tanto a ser chamados “quadrilheiros”?

Somos a sexta economia do mundo, mas precisamos desesperadamente de obras de infraestrutura, saneamento nas favelas com esgoto a céu aberto, moradias populares, uma rede de trens e de metrôs, educação com qualidade, creches para as mães trabalhadoras, um sistema que não abandone seus velhos e hospitais que não desrespeitem seus pacientes. Para onde vão nossos impostos de Primeiro Mundo?

Na Zona Portuária do Rio de Janeiro, mais de 1.000 pessoas de idades e graus diversos de dor se enfileiraram na rua a 34 graus de calor, em busca de atendimento em 2013 no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), inaugurado por Dilma no ano passado.

O Into é um espetáculo. Mas o que você e eu vimos pela TV me pareceu próximo de tortura. E acontece cotidianamente em unidades públicas no Brasil. Podem prometer marcação de consultas por telefone ou por computador, mas deve ser para tirar da televisão as filas. Fiquei descansada quando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que haverá cirurgias aos sábados e o número de atendentes do call center do Into aumentará de 14 para 50... Então tá!

Quem rouba dinheiro de famílias desabrigadas por tempestades - como vem acontecendo nas cidades serranas do Rio - deveria estar numa dessas cadeias classificadas de medievais por nosso ministro Cardozo. Temos quadrilhas de ladrões bem-apessoados na serra, com endereços conhecidos. Mais um dezembro de crianças e velhos empoleirados em áreas de risco em Teresópolis e Friburgo, rezando a Deus para não ser levados pelas águas... Então tá!

Temos também quadrilhas nas polícias. O Rio prendeu e deu os nomes de 63 policiais militares que achacavam traficantes. Como diz o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, bandido de farda é bandido ao quadrado. Aguardo exemplos concretos de fim de corporativismo policial em São Paulo. Após meses de execuções diárias, atentados e guerra entre policiais e bandidos, com centenas de mortes, o novo secretário de Segurança de São Paulo, Fernando Grella Vieira, “cria gabinete para combater crise” e admite que o PCC “é uma das facções criminosas” a enfrentar... Então tá!

Nesse cenário de carências inadmissíveis e próprias de Terceiro Mundo, quem entra para o serviço público ou é eleito prefeito, governador, deputado, senador e presidente tem dupla responsabilidade. Extraindo do seio, do coração e da cabeça do Poder os focos de gangues, sobrará dinheiro para o que interessa.