Comentando a Notícia
Sob o título acima, o jornalista Reinaldo Azevedo publicou o texto que segue sobre a reportagem de capa da Revista Veja desta semana.
Confesso que ao ler a matéria da Veja, ficamos receosos em transcrever o resumo que o site da revista disponibilizou. Mais tarde, lendo a íntegra, o receio tornou-se ainda maior.
Salta à vista tratar-se de conversas saltadas ou soltas, como queiram, aqui e ali, de pessoas próximas a Marcos Valério. Precisávamos, portanto, ter alguma confirmação sobre as revelações publicadas pela Veja.
Em princípio, trata-se de um conteúdo explosivo, muito embora, o fato de Valério afirmar que Lula era o chefão, para este blog, isto nunca foi novidade. Sempre defendemos esta tese, até por conta da personalidade de Lula. Novidade foi ele não ter sido denunciado, e pelas mesmas razões que José Dirceu foi arrolado. Nunca afirmamos nem aceitamos, nem a tese tampouco as versões, que imputava à Dirceu a chefia da quadrilha criminosa, no dizer da Procuradoria. O Zé pode ter muitos defeitos, mas burro nunca foi. Jamais tramaria um esquema desta envergadura, e logo acima do gabinete de Lula, sem que este soubesse e consentisse.
Mas o texto da Veja não informa apenas o protagonismo de Lula. Informa, por exemplo, que as cifras movimentadas pelo mensalão foram superiores a R$ 300 milhões. Neste sentido, faz sentido o montante. Não se concebe que “apenas” R$ 120 milhões, mais ou menos, tenham azeitado aquela trama toda. Para este pessoal, trata-se de troco.
Faz sentido, também, a associação pretendida de unir BMG, Rural e CUT numa associação bancária para administrar os empréstimos consignados. Talvez o projeto que mais tarde destinou às Centrais, parte do imposto sindical e sem fiscalização alguma, tenha sido uma forma de compensação pelo projeto malogrado em relação aos empréstimos consignados.
Mas a decisão de reproduzir o resumo da matéria de Veja deveu-se a duas razões: uma, a informação de que as revelações não foram tão em “off” como o jornalismo chapa branca tentou passar. E, a segunda, o texto do Reinaldo Azevedo. Reparem a insistência do jornalista para que os petistas (petralhas, segundo Azevedo), exijam o áudio com as revelações.
O Reinaldo Azevedo não faria alusão se não tivesse segurança absoluta de que as revelações não são tão “off” assim. Deste modo, a matéria da Veja (um resumo, repito) fosse reproduzida mais abaixo, prevaleceu.
E um detalhe final: a se comprovarem as afirmações ali contidas, o Ministério Público tem a obrigação de instaurar um inquérito com o propósito de verificar os supostos fatos relatados. A esta altura do campeonato, não dá para “trazer“ Lula para dentro do julgamento, como alguns apressados estão a pedir. Contudo, não se pode conviver com uma eterna suspeita da participação ou não em todo o esquema por parte do ex-presidente. Aliás, nem justo é. Roberto Jefferson que foi quem ligou o ventilador em 2005, em histórica entrevista à Folha de São Paulo e, mais recentemente, mudou sua versão inicial sobre a participação de Lula. Agora, imputa a Lula a chefia e o pleno conhecimento que tinha dos fatos e sobre o papel de cada um dos envolvidos no esquema criminoso.
Por mais que Lula seja endeusado por grande parte da população brasileira, se alguma responsabilidade sua for comprovada, não pode nem merece ser poupado. Deve, a exemplo de todos os demais, prestar contas à Justiça, como qualquer cidadão brasileiro. É assim que se faz em países civilizados. E se é este estágio que desejamos chegar um dia, seja Lula ou quem quer que seja, deve ser julgado e se restar a comprovação de culpa, condenado na forma da lei. O que não pode é a permanência da suspeita, ou se virar às costas e negar tudo, sem uma investigação mais profunda.
Segue o texto do jornalista Reinaldo Azevedo, publicado em seu blog neste domingo.
*****
Meu blog está hospedado no site da VEJA.com, como sabem. E acredito que nós devemos incentivar os petralhas a gritar, com aquela energia muito característica, que emula com os zurros: “Cadê o áudio? Cadê o áudio?” Será que eles sabem de algo que não sei? Será que sabem tudo o que já vazou do que eles chamam “supostas” fitas e, sobretudo, o que não vazou? Essa dúvida me atormenta! Por que estão quietinhos desta vez?
Vocês não ignoram: petralha é gente bem informada, com os quatro membros sempre plantados no chão. Acho que devemos incentivá-los a gritar: “Cadê a fita?” Desta vez, eles estão quase mudos, tão discretos, tão ensimesmados! Eu gosto é de seu lado buliçoso, bucéfalo. Eu aprecio é aquela ignorância arrogante e foliona, aquela burrice desafiadora, de crina sempre eriçada. Admiro aquela estupidez cheia de si, ancha (uso palavras antigas e ainda estou longe dos 70 — sei que parte da imprensa se nega a ter mais de 12 anos…), jactanciosa, especiosa, presumida, empavesada.
Mas eu entendo o silencio dos que não são tão inocentes assim… Não sabem o que pode vir por aí, né? Estão suputando (hoje eu não estou bolinho; hoje eu não estou prafrentex…) as possibilidades. Estão numa dúvida quase existencial: “Será que a gente cobra que a VEJA divulgue as fitas ou será que a gente enfia a rabeca no saco?”
Pois é…
A verdade insofismável, que não se presta a nenhuma digressão redentora ou salvadora, é uma só: a canalha que está sendo julgada no processo do mensalão tentou dar um golpe na República. O Ministério Público conseguiu identificar operações que, tudo somado, passam pouco de R$ 130 milhões. É claro que a paucidade (os dicionários mais conhecidos no Brasil só registram “pouquidade”…) contrasta com o vulto da ambição da canalha. Valério confessa: só o que ele conhece soma R$ 350 milhões. E notem que seu esquema não lidava com empreiteiras, por exemplo… Imaginem quantos estão suando um tantinho frio a essa altura, né?, fazendo caramunha… Vai que alguém decida se apropinquar pra valer desse negócio… Eu estou estranho: depois que a Folha decidiu que “prafentex” é uma palavra anciã, vocábulos em desuso começaram a me assaltar.
O que a reportagem da VEJA traz nesta semana — peçam a fita, petralhas! — é mais um capítulo da história do verdadeiro golpe que aquela gente encetou. Não conseguiu concluir a sua obra porque, em razão do jornalismo diligente, o esquema acabou desmoronando. O fato é que Lula tentou o chavismo por outros meios. Se o Beiçola de Caracas não entende outra linguagem que não a da intimidação e da violência de caráter militar e paramilitar, os nossos autoritários, na sua condição de fatalistas cínicos, estavam — e estão — convencidos de que todos têm um preço. Os petralhas tentaram comprar o que Chávez conseguiu roubando. Aquele é um ladrão de instituições; os petralhas são mercadores da ordem legal. Achavam e acham que ela pode ser comprada e vendida.
Eles, sim, eram e são golpistas convictos. Afinal, isso tudo a que se chamou “mensalão” era nada menos do que uma estratégia de conquista do estado e de dominação do processo político. No gozo pleno de sua efetivação, o golpe tornaria irrelevantes as eleições. Elas seriam apenas a mímica da democracia a dar aparência aceitável a uma ditadura do suposto consenso, forjado com o dinheiro público. No comando, diz Valério a seus interlocutores (peçam a fita, petralhas!), estava ninguém menos do que Luiz Inácio Apedeuta da Silva. José Dirceu era seu Leporello. Como tal, tinha ciência e domínio de todas as artimanhas do Dom Giovanni de São Bernardo, ávido para papar as instituições.
Alguns dos golpistas já foram condenados e têm reservado seu lugar na cadeia. Na segunda, o Supremo começa a julgar os outros.


















