sexta-feira, março 20, 2020

O vírus que mudou a história

Fabiane Stefano, Filipe Serrano, Juliana Estigarribia, Rodrigo Loureiro
Exame.com

Coronavírus causou 4.000 mortes e poderá levar a economia global a uma nova recessão e a um recuo na globalização. Como evitar que o ruim fique péssimo?

| Germano Lüders /  (/)
Fábrica da Multilaser, em Minas Gerais: a empresa tem 3.500 produtos em catálogo
 que dependem de peças da China. O estoque de componentes dura até o fim de março 

A fabricante de produtos eletrônicos brasileira Multilaser é um exemplo de como essa e outras indústrias mundiais se tornaram dependentes da China ao longo dos anos. Com um faturamento de 2 bilhões de reais em 2019, a Multilaser especializou-se em importar e produzir equipamentos que vão desde smartphones, computadores e drones até brinquedos e panelas elétricas. Ao todo são mais de 3.500 itens no catálogo, e a maioria deles é fabricada pela empresa usando componentes fornecidos por cerca de 450 fábricas parceiras na China. São empresas dos mais variados portes e segmentos e que fornecem as peças para a montagem dos produtos da Multilaser na fábrica de Extrema, em Minas Gerais. Por lá, são quase 1.400 trabalhadores. Em fevereiro, a rotina dos funcionários começou a mudar. A crise provocada pela epidemia de ¬Covid-19, causada pelo novo coronavírus, fechou fábricas e diminuiu drasticamente a exportação de peças para mercados ocidentais, deixando a Multilaser e outras companhias de mãos atadas.

O problema é que, se a China emperra, a engrenagem não roda. “Os fornecedores estão com 60% de mão de obra ativa. As pessoas não querem ir trabalhar”, afirma o empresário Alexandre Ostrowiecki, presidente e proprietário da Multilaser. Há falta de peças e o estoque previsto para 45 dias deve durar só até o fim de março caso não seja reabastecido. Por enquanto, apenas remessas embarcadas antes da crise estão chegando. Não é o suficiente. A produção na fábrica em Extrema já caiu 40%. Férias coletivas estão marcadas para abril. Faltam processadores, telas de LCD e outros componentes eletrônicos para a produção de smartphones, o carro-chefe do negócio. Segundo o empresário, os celulares representaram 20% do faturamento da empresa em 2019.

Com isso, a previsão de crescimento encolheu. A expectativa de aumento do faturamento caiu de 19% para 16%, e a tendência é de uma redução maior se a crise se prolongar. “Não há plano B. Somos totalmente dependentes da China”, diz o empresário. “A única saída é esperar que a crise se resolva.”

 | Germano Lüders 
João Adibe, presidente da Cimed: um dos principais produtos da farmacêutica depende
 de paracetamol fabricado em Wuhan, na China, epicentro do surto do Covid-19 

Infelizmente, o tempo tem jogado contra uma solução rápida e a situação se agrava a cada dia. Na terça-feira dia 10 de março, data em que esta edição foi concluída, cerca de 120.000 pessoas já tinham sido contaminadas pelo Covid-19. O epicentro do surto ainda continua na China e na Ásia, onde mais de 80% dos casos foram registrados e a tendência é de queda, mas rapidamente a doença se desloca pelo globo. Mais de 100 países foram atingidos. A Itália, mais de 10.000 infectados e 630 mortos, decretou restrições de mobilidade em todo o território do país de 60 milhões de habitantes. Na Alemanha, com mais de 1.400 casos confirmados, o Ministério da Saúde pediu o cancelamento de jogos esportivos, concertos e feiras. Israel adotou quarentena para quem chega do exterior. A primeira morte na América Latina foi na Argentina. No Brasil, foram registrados 34 casos até 10 de março. Num mundo globalizado, cedo ou tarde, todos os paí¬ses acabam afetados. Que lições a epidemia deixará?




Junto com o número de infectados e mortos, o impacto econômico é redimensionado a cada novo sinal de que esta crise é mais profunda do que se imaginava. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento já prevê redução de 5% a 15% nos investimentos estrangeiros diretos no mundo em 2020. A OCDE, o clube dos países ricos, lançou um relatório que projeta que o impacto mundial do coronavírus deve devorar de 0,5 a 1,5 ponto percentual do PIB global.

Trata-se de um valor de 500 bilhões a 1,4 trilhão de dólares em geração de riqueza que simplesmente deixará de existir. Detalhe: o número nem sequer levava em conta a guerra de preços do petróleo provocada pela decisão da Arábia Saudita de cortar 20% do preço do barril, no sábado 7 de março (leia mais na pág. 24), reforçando a ideia de que o mundo encara um autêntico “cisne negro”, conceito criado pelo economista líbano-americano Nassim Taleb que define o impacto de eventos raros e improváveis.

Os dados que começam a emergir só reforçam tratar-se mesmo de um acontecimento de proporções únicas. A produção industrial na China sofreu a mais rápida contração de sua história. Os dados oficiais do índice que mede a atividade manufatureira registraram 35,7 pontos em fevereiro, ante 50 em janeiro (abaixo dessa marca, a economia está em contração). Consequentemente, o indicador de produção industrial global teve forte recuo e registrou o menor número desde maio de 2009 e, de acordo com a consultoria britânica Oxford Economics, o resultado eleva o risco de uma recessão global em 2020. Analistas da consultoria americana McKinsey passaram a considerar o cenário recessivo caso o surto se agrave globalmente. O desempenho da economia mundial poderia variar de um tímido crescimento de 0,5% a uma retração de -1,5% em caso de uma pandemia — como as previsões iniciais eram de avanço entre 2,5% e 3% para 2020, o coronavírus pode devorar cerca de 4 trilhões de dólares da economia.

Os impactos regionais são recalculados a cada dia. O avanço exponencial da doença na Itália já indica que é provável que a economia italiana entre em recessão em 2020, segundo a agência de classificação de risco Moody’s. No quarto trimestre do ano passado, o PIB italiano já havia registrado uma retração de 0,3% em relação ao trimestre anterior. A crise do coronavírus já fez cair as expec¬tativas de crescimento para o ano na zona do euro.

De acordo com a Oxford Economics, a região deve crescer somente 0,6% em 2020, o menor ritmo em sete anos. A previsão também é de uma desaceleração da economia americana. Se antes da crise a previsão era de um crescimento próximo de 2%, agora a estimativa de expansão está em 1,4%, segundo os cálculos do banco JP Morgan. É o pior ritmo de crescimento desde a crise financeira de 2008. O cenário pode piorar caso os Estados Unidos sejam obrigados a adotar medidas de quarentena como na Itália e na China — o que pode ter impacto nas eleições no fim do ano, que até então davam Donald Trump como franco favorito.

 | Kevin Frayer/Getty Images
Pequim, na China: o coronavírus contaminou mais de 
80.000 pessoas e paralisou parte da economia do país 


A reação dos governos

No turbilhão de notícias da pandemia, os governos têm sido cobrados pela lentidão no anúncio de medidas para minimizar os potenciais impactos. “Nenhuma empresa na Alemanha deveria ir à falência ou nenhum emprego deveria ser perdido por causa do coronavírus”, disse o governo alemão, em nota oficial na segunda-feira 9 de março, ao divulgar que vai investir 12,4 bilhões de euros para mitigar os efeitos da epidemia. No dia seguinte, o Japão lançou um pacote de 10 bilhões de dólares para socorrer as empresas afetadas. Uma das principais armas está com potencial limitado — cortes de juros, já nas taxas mais baixas da história. Ainda assim, o Federal Reserve, banco central americano, anunciou um corte extraordinário de 0,5 ponto percentual na taxa de juro no dia 3 de março.

Uma redução emergencial como essa não era vista desde 2008. Passadas as primeiras horas de animação, os mercados concluíram que o estímulo do FED não faria grande diferença — e, pior, poderia indicar que a instituição estava antecipando uma crise aguda pela frente. Ainda assim, novos cortes devem vir. Dados compilados pelo banco Morgan Stanley apontam que um índice composto pelas taxas de juro arbitradas pelos bancos centrais deverá chegar a 0,73% até junho. Na última crise global, entre 2008 e 2010, esse mesmo índice recuou 3 pontos percentuais. Por aqui, é tido como certo que a taxa Selic, que atingiu o patamar de 4,25%, deverá sofrer novo corte em meados de março. Também começou a temporada de revisões do PIB brasileiro. O banco americano Goldman Sachs reduziu a previsão de crescimento do país de 2,2% para 1,5%. Mas a instituição admite que é crescente a possibilidade de um PIB abaixo de 1% em caso de epidemia no país.


Na economia real, os riscos estão sendo recalculados pelo setor privado. 

Assim como na Multilaser, o impacto tem sido particularmente forte nas empresas que mantêm produção ou montagem local e dependem de componentes eletrônicos importados da China. Em março, 330 funcionários da fábrica de celulares da sul-coreana LG localizada em Taubaté, no interior paulista, entraram em férias coletivas de dez dias. A mão de obra total da divisão de celulares da empresa no Brasil soma 450 empregados. A mesma medida foi aplicada em Jaguariúna, no interior paulista, onde fica a fábrica da Flextronics, empresa que produz smart¬phones da Motorola e emprega 3.200 pessoas. A companhia deu férias coletivas a 2.100 funcionários em fevereiro e um novo período de descanso obrigatório foi con¬cedido a 1.100 trabalhadores em março. A Samsung teve sua produção suspensa entre os dias 12 e 14 de fevereiro.

Germano Lüders
Porto de Santos: navios que vêm da China estão 
chegando ao Brasil com parte dos contêineres vazia 

Diferentemente de outros insumos usados na indústria brasileira, a maioria dos componentes eletrônicos é enviada da Ásia por avião, em vez de navio. Como a entrega é rápida e os materiais são caros, as empresas não costumam ter um estoque grande de peças — entre as quais estão microprocessadores, circuitos eletrônicos e telas. Muitos dos componentes chegam e vão direto para a linha de montagem. Cerca de 80% das peças usadas pelas empresas de tecnologia no Brasil vêm da Ásia, sendo que a China sozinha representa 42%. Numa sondagem com cerca de 50 empresas feita pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), 70% delas disseram estar com problemas para receber peças e 14% programavam paralisações — outras 6% já haviam interrompido a produção. Em média, as empresas estimavam uma queda de 31% na produção para o primeiro trimestre — um baque num momento em que havia uma expectativa de crescimento do consumo. “A situação é delicada. Se não piorar mais, a produção só deve voltar ao normal em abril ou maio”, diz Humberto Barbato, presidente da Abinee.

O difícil é não piorar mais. À medida que o surto atinge outros países, aumenta o risco de ruptura em mais cadeias de fornecimento. Veja o exemplo das montadoras no Brasil. Elas trabalham com alto índice de nacionalização, de 70% a 80%. No entanto, a China responde por cerca de 13% dos embarques de autopeças que chegam ao país. A Itália responde por outros 3%. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa que, por enquanto, a produção no Brasil se mantém inalterada. No entanto, há o risco de desabastecimento no curto prazo, e a paralisação de linhas de produção não foi descartada. A Anfavea afirma que as montadoras estão monitorando a situação e avaliando custos para trazer mercadorias de avião, se necessário.

As marcas de automóveis chineses que operam no Brasil devem sofrer o baque de um jeito diferente. A JAC Motors, por exemplo, tem 100% de seu portfólio no Brasil importado da China e a cidade de Wuhan é um importante polo industrial de autopeças. Os próximos lotes devem seguir o cronograma, mas a JAC Motors admite, em nota, “o possível desabastecimento desses fornecedores, o que afetaria os volumes normais de produção de veículos”. A50 Caoa Chery, que tem fabricação local, também de¬pende de modelos e peças importadas. Em nota, a montadora informou que, até o momento, suas operações no Brasil não foram afetadas, uma vez que a marca opera com estoque de segurança de veículos prontos. “Caso a si¬tua¬ção se estenda ou ocorra atraso em futuros embarques, a Caoa Chery não descarta o risco de interrupção temporária da produção dos modelos no Brasil.”

 | Laura Lezza/Getty Images
Estação de trem em Florença, na Itália: o governo italiano decretou
 restrições de mobilidade, fechou museus e cancelou aulas em todo o país 

Nos últimos 20 anos, a dependência do mundo a tudo o que é produzido e consumido pelos chineses se multiplicou. O Brasil, em particular, foi um grande beneficiário dessa via de mão dupla. A China tornou-se o principal destino das exportações brasileiras e lidera o ranking de itens importados pelo Brasil. Para quem importa, as vantagens são claras: preço e (cada vez mais) qualidade. Por isso mesmo, a farmacêutica brasileira Cimed vive intensamente a crise do Covid-19. Um de seus principais produtos, o Cimegripe, depende do paracetamol produzido em uma fábrica que fica em Wuhan, a cidade onde, tudo indica, surgiu o Covid-19.

A unidade industrial chinesa já está fechada há dois meses. Se ela não voltar a operar até o começo de abril, o impacto é certo na linha de produção da farmacêutica, localizada em Pouso Alegre, Minas Gerais. “Temos estoque de paracetamol garantido até julho, mas estamos procurando alternativas de fornecimento”, diz João Adibe, presidente da Cimed. Ao contrário de outros segmentos, em que é mais fácil mudar de fornecedor (ainda que custe caro uma compra emergencial), no setor farmacêutico o registro de um produto exige que os fabricantes dos insumos também sejam homologados pela agência de vigilância sanitária — é assim no Brasil e na maioria dos países ricos, que impõem altos padrões de segurança. Logo, não bastará achar o produto em outros mercados, mas será necessário que a Anvisa, a agência brasileira, agilize o novo registro.

 | Carl Court/Getty Images
Navio Diamond Princess, estacionado no Japão: após a quarentena
 da embarcação, o mercado de cruzeiros paralisou 

Se para as grandes empresas o risco logístico é premente, para as pequenas e médias ele pode ser ainda mais complexo. O paulistano Eduardo Lee vive há 15 anos em Shenzhen, na China, e atua como consultor de comércio exterior: procura itens chineses que as empresas brasileiras querem adquirir e compradores locais para itens que os asiáticos desejam vender. Lee costuma embarcar para o Brasil cerca de 1 milhão de reais em peças, insumos e componentes por mês. Seus clientes, que vão desde distribuidores de peças de motocicletas até redes de material de construção, trabalham com estoque apertado por uma única razão: câmbio, uma variável cada vez mais instável no Brasil. Como o ciclo de entregas dura, em média, quatro meses, a expectativa é que haja atrasos. “Já avisei meus clientes de que a retomada das fábricas ainda está sendo lenta por aqui”, diz Lee.

A medida de como uma epidemia desse porte chega à economia real não vem só das fábricas mas também do transporte. Com a interrupção na chegada de peças e componentes, as transportadoras mantêm seus caminhões com o freio de mão puxado. A CargoX, startup de logística fundada em 2013 para conectar transportadoras aos clientes, já teve uma queda de 25% na demanda de caminhões com origem ou destino aos principais portos do país. E o cenário pode piorar nos próximos meses também pelo lado da demanda chinesa. “As pessoas estão consumindo menos na China. Os grãos que foram vendidos antes da crise estão sendo embarcados, mas num processo mais lento. Os maiores efeitos vão ser sentidos na próxima safra”, diz Federico Vega, fundador da CargoX, que já captou 95 milhões de dólares em aportes de investidores como George Soros e o fundo de venture capital Blackstone.

Em Santos, a principal porta marítima de entrada e saída do país, já há uma previsão de queda de 3% no número de embarcações em 2020. Segundo dados da Companhia Docas do Estado de São Paulo, que administra o porto, chegaram em fevereiro 45 navios da China, 28% menos do que no mesmo período do ano anterior. Normalmente, essas viagens duram de 35 a 40 dias, de acordo com as condições climáticas e o número de escalas. Agora, os ¬navios têm desembarcado nas docas santistas menos de um mês depois de sair da China. As embarcações vieram mais leves, com contêineres quase vazios. Espera-se que essa escassez se repita com os navios que vão chegar ao porto nas próximas semanas e impacte ainda mais os números do segundo bimestre. “Esperamos uma redução de 30% na quantidade de carga da China”, diz José Roque, diretor do Sindicato das Agências de Navegação Marítima do Estado de São Paulo.

A paralisação dos portos chineses acendeu um alerta também no setor de carnes no país. Esse tipo de alimento é transportado em contêineres refrigerados, que, quando chegam ao país asiático, ficam retidos nos terminais por falta de logística para a distribuição do produto. O risco é de desabastecimento aqui dos modelos refrigerados. “Por enquanto, estamos trazendo equipamentos da Rússia para suprir essa lacuna no Brasil”, diz Gustavo Paschoa, diretor comercial da Maersk para a Costa Leste da América do Sul, um dos maiores armadores do mundo. Segundo o executivo, centenas de milhares de contêineres estão parados nos portos chineses, gerando aumento de tarifas para aqueles que precisam de armazenamento refrigerado. A Aurora Alimentos é uma das empresas que podem sentir o problema na pele. A cooperativa, que reúne 65.000 famílias produtoras do sul do ¬país, calcula que, se o fluxo de carregamento de refrigerados for interrompido, suas fábricas terão uma capaci¬dade de estocagem limitada, de duas a três semanas apenas. “Não podemos descartar aumento de custos de todo o sistema logístico”, diz Neivor Canton, vice-presidente da Aurora Alimentos.

 | Ale Silva/Fotoarena 
Loja de eletrônicos em São Paulo: 80% dos componentes usados 
pela indústria de tecnologia no Brasil vêm da Ásia 

A conta do coronavírus poderá ser sentida ao longo de todo o ano de 2020. Mas seus prejuízos podem extrapolar as marcas do calendário. Junto com custos bastante concretos, emergem manifestações de xenofobia, intolerância e protecionismo. Nas redes sociais, o termo “a doença de Wuhan” se populariza e as autoridades chinesas insistem que o vírus seja chamado por seu nome oficial, Covid-19, para evitar que cidadãos do país sejam vítimas de discriminação. A disrupção na cadeia global de suprimentos tem evocado argumentos protecionistas — ainda que não seja de hoje a pressão do presidente Donald Trump sobre as multinacionais americanas para tirar fábricas da China e trazê-las de volta aos Estados Unidos. “Estamos vendo um recuo no processo de globalização e isso já vem de algum tempo. Com o surto, acredito que esse movimento se intensifique”, diz o historiador econômico Harold James, professor na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Mundo mais integrado

Não há dúvida de que a globalização fez bem à economia mundial. Em três décadas, o PIB global passou de 22 trilhões para cerca de 90 trilhões de dólares. O número de pessoas vivendo na extrema pobreza diminuiu radicalmente e a difusão de tecnologia permitiu que ganhos de produtividade pudessem ser replicados em diferentes cantos do mundo. É fato também que as perdas sociais provocadas por um mundo mais globalizado nunca foram tão eloquentes. O desemprego causado pela digitalização afeta milhões de trabalhadores no mundo rico. No final das contas, a epidemia deverá exigir novas estratégias para os negócios. “Veremos mais reestruturação da globalização do que um movimento que refute sua existência”, diz o economista americano Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Mais do que fábricas voltando para seu país de origem, veremos empresas diversificando a cadeia de suprimentos para que não sejam mais tão dependentes de um ¬país, como a China.” Nesse sentido, o coronavírus pode não só devorar a economia de 2020 como mudar o curso da história.




Acesse aqui a entrevista concedida pelo cientista político Ian Bremmer



Não cresce

J.R.Guzzo, 
O Estado de S.Paulo

O crescimento da economia do Brasil em 2019 foi uma droga, mas não adianta querer provar que a ‘política econômica’ do governo está errada; é justamente o oposto

  Foto: Dida Sampaio/Estadão 
Jair Bolsonaro, presidente da República, e Paulo Guedes, ministro da Economia 

Vamos combinar, desde logo, uma coisa simples, para não perder tempo com conversa difícil e sem recheio: o crescimento da economia do Brasil em 2019 foi uma droga. Deu 1% (fica bobo dizer que foi 1,1%) e com um número desses não adianta discutir, nem dizer “veja bem”. É ruim. Para um país que precisa crescer como o Brasil, é muito ruim. É verdade que o PIB da Itália não cresceu nem esse miserável 1% em 2019, e o da Alemanha menos ainda. Mas o brasileiro não vive na Itália, nem na Alemanha, e nem no resto do mundo desenvolvido que não cresceu. Vive aqui mesmo – e é aqui que a sua vida tem de melhorar, porque ela não pode ficar parada onde está. É o contrário do que acontece nos países ricos, onde ficar no mesmo lugar não é nenhuma vergonha. Ficar parado, no Brasil, só não é pior do que andar para trás.

Há muita pouca dúvida sobre o que o 1% de crescimento em 2019 ensina: é indispensável melhorar isso, mas não adianta nada sair correndo feito um louco por aí para querer provar, na base de conversa de mesa redonda em televisão, que a “política econômica” do governo está errada. Pior: que é preciso, para resolver a estagnação, fazer tudo ao contrário do que está sendo feito. É justamente o oposto. A única esperança está na possibilidade de continuar, acelerar e aprofundar ao máximo tudo aquilo que a política econômica está lutando para fazer. 

O Brasil não cresce porque é um carro que está com o motor fundido há muitos anos. Ou entra na oficina, como entrou há um ano atrás, e começa a ser consertado direito, com tempo, as ferramentas certas e mecânicos que sabem o que estão fazendo, ou vai continuar essa lástima que é – onde milhões de pessoas trabalham, dão na chave de partida todo santo dia e o carro não pega. Como se diz em economês e em mercadês, esse 1% já estava “contratado”: com o Brasil na situação que havia em janeiro de 2019, o resultado em dezembro não poderia mesmo ser outro.

Falam, agora, em “frustração”. Frustração para quem? Só se for para os economistas que no fim de 2018 previam crescimento de “2% ou 2,5%” para o ano passado – uma bela mixaria, aliás – erraram e agora vem a público reclamar do “liberalismo”. O que o Brasil precisa não é de palpites. É das reformas profundas que resiste tanto em fazer. Enquanto elas não vierem e começarem a gerar efeitos, a economia continuará parada 




Coronavírus é recessão

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Eis como a situação econômica, em qualquer país, pode se complicar, em consequência das restrições impostas para o controle do coronavírus. Começa que a empresa perde receita ou porque teve que fechar (cinemas, por exemplo) ou porque os consumidores não vão às compras.

Mas continua com suas obrigações básicas, pagamento de salários, impostos e prestações de empréstimos, além da conta de insumos adquiridos anteriormente. Se essa situação se prolonga, a empresa atrasa impostos, dá o cano nos bancos e demite funcionários. E a crise passa para o governo, que perde receita, para os bancos, que levam calote, e, mais importante e grave, para os trabalhadores que perdem emprego.

É a partir daí que todos, governo e sociedade, devem organizar as respostas para dividir os prejuízos. No fundo, sabe-se o que fazer. A questão política é como coordenar as medidas nacional e globalmente.

Governos podem adiar o pagamento de impostos, especialmente para os setores mais atingidos. Bancos podem negociar a reestruturação de financiamentos. Na Itália, a associação de bancos disse que seus membros podem suspender as dívidas de pequenas empresas e de pessoas, incluindo hipotecas. E as empresas em geral podem evitar as demissões, por exemplo, reduzindo a jornada de trabalho, com redução equivalente de salários. Mesmo assim, governos devem estender os benefícios de desemprego.

Tudo isso custa dinheiro e requer outras ações para amenizar os danos. Os bancos centrais já se preparam para injetar dinheiro no sistema financeiro, comprando títulos de bancos e empresas. Em muitos países, a taxa de juros já está a zero ou negativa — era uma resposta à desaceleração econômica que já acontecia antes do coronavírus. Nesses casos, só resta a opção de dar liquidez ao mercado. Mas nos Estados Unidos, por exemplo, é praticamente certa a redução dos juros a zero.

E, finalmente, todos os governos precisam gastar muito dinheiro no controle da pandemia, conforme a OMS a declarou ontem.

Nada disso é novidade. As medidas econômicas de combate à recessão foram aplicadas na crise de 2008/09, com bastante sucesso. E houve uma extraordinária coordenação entre governos, bancos centrais e instituições globais, como o FMI e o Banco Mundial.

E aqui já aparecem alguns problemas. A coordenação nacional e global, por exemplo, é menos provável hoje. Peça fundamental, o governo americano, com Trump, está mais para tentar tirar vantagem (América primeiro) do que para cooperar. Aliás, como Bolsonaro nesta semana, Trump já havia dito que a epidemia era mais coisa da imprensa e dos democratas. Agora, está dizendo que os democratas bloqueiam as medidas de controle do vírus. Também se vangloriou com a frase: temos uma economia muito forte, mas isso causa inveja no mundo (em tradução livre).

De outro lado, existe a situação específica de cada país. No Brasil, por exemplo, os governos federal e estaduais estão em déficit, fazendo ajuste fiscal. Como poderiam aumentar gastos e perder receita com adiamento do pagamento de impostos?

Sem dúvida, uma reação lógica está na aceleração das reformas. A tributária, por exemplo, facilitaria em muito a vida das empresas. Também seria importante a aprovação da “PEC emergencial”, que permitiria mudanças nos gastos, com a redução no pagamento de salários e aumento de despesas em outras áreas, como saúde e infraestrutura.

Ocorre que a pressão no Congresso será na direção contrária: não cortar nada e aumentar gastos em geral.

Nesse quadro, não ajuda em nada a atitude agressiva do presidente Bolsonaro e seu pessoal em relação ao Congresso e à mídia, esta que tem importante função de informar e esclarecer. Se o presidente diz que a crise é mais coisa da grande mídia, isso pode desmobilizar esforços e cuidados que todos deveriam tomar.

Além disso, atrapalha a coordenação que deveria ocorrer em todas as instâncias da administração para combater a epidemia e seus efeitos na economia.

A guerra de preços do petróleo lançada pela Arábia Saudita foi, literalmente, gasolina no incêndio. Mas é mais provável um arranjo aqui, com um armistício entre Arábia Saudita e Rússia.

A crise do coronavírus, com ameaça de recessão, é mais ampla e mais difícil de administrar.

É chantagem, sim!

Percival Puggina

 Domingo, 15/03, retornando de Goiânia, uma substituição de voos entre Congonhas e Porto Alegre me reteve no aeroporto de São Paulo. De lá, escrevi a mensagem abaixo, lida aos manifestantes do Parcão na capital gaúcha.

Meus queridos! É chantagem, sim. E assim tem sido desde o início. Engavetamento de propostas. MPs que vencem sem explicação. Projetos do governo virados do avesso. O ano de 2019 se esgotou sem que tenham votado algo tão simples quanto a prisão após a condenação em segunda instância. Por quê? Por que anunciaram que o blocão tem 300 votos? A quem e de quê esses votos ameaçam? Desde o início do governo tem sido uma busca desenfreada por recursos! Por que não se contentam com os subsídios e as verbas de gabinete? Por que buscam, sempre, dispor de bilhões do nosso dinheiro?

É claro que Bolsonaro entendeu o recado. O recado é o impeachment sendo urdido para alegria da grande imprensa. Esta, em seu afã cotidiano de infernizar a vida do presidente, mudou de ideia. O que antes era toma lá, dá cá, síndrome do Benedito Domingos, coisa feia, virou “autonomia do parlamento”. E quando o governo perde, a derrota recebe o nome de "incapacidade de negociação"! Quem pode negociar direito com a faca no pescoço?

Há uma arapuca permanente, montada para enganar a população. Chega a ter luzes pulsantes em volta da porta. Em nome da “democracia” dizem que nós - NÓS? - estamos atacando às instituições. Disparate para iludirem, também, a si mesmos! Atacamos procedimentos individuais. Desde quando um congressista, ou muitos congressistas, são o Congresso? Desde quando os indivíduos eleitos significam o parlamento? Da mesma forma, desde quando um cidadão ou muitos cidadãos são O povo? E vale o mesmo para ministros do STF.

É chantagem sim!

A ameaça de não ter projetos aprovados é sinal de alarme para o governo. E há, sempre, um preço a pagar. Sempre um valor imenso, bilionário. Por isso o ambiente todo é de chantagem. Só não vê quem deixa de lado todos os princípios e valores quando pega o avião para Brasília.

As exceções já salvaram o Brasil muitas vezes. E salvarão de novo. Há bons deputados e bons senadores, mas desafortunadamente são exceções. Estarmos junto das exceções, ao longo da lava-jato, em 2016, em 2018, foi salvação para nosso amado Brasil.

Lembremo-nos! Tenhamos presente. Tem sido chantagem, sim. O problema que tanto nos entristece e desconforta é termos nosso país de volta e sabermos que tantas dificuldades sobrevêm apenas porque o presidente não loteou o Estado, o governo e a administração, nem fez jorrar dinheiro em muitas mãos.

Saibam: tudo já estaria resolvido numa sala fechada, se ajustado o preço a pagar por 300 unidades de voto parlamentar!

Se apoiarmos os bons e denunciarmos os maus estaremos apoiando a democracia e ajudando o Brasil. Bolsonaro não será submetido! Deus abençoe o Brasil e os brasileiros.


Um contrabando no pacote econômico

Notas e Informações, 
O Estado de S.Paulo

Incorporação de mais pessoas muito necessitadas no programa Bolsa Família era um problema que o governo deveria ter enfrentado no começo do ano

Além de matar milhares de pessoas, lotar hospitais e forçar milhões ao confinamento, a nova pandemia devasta a economia global, derrubando o consumo, a produção e o emprego, com danos visíveis há semanas, mas só agora o Executivo brasileiro decidiu enfrentar seus efeitos econômicos. Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, as medidas anunciadas na segunda-feira à noite injetarão nos mercados R$ 147,3 bilhões e protegerão principalmente os mais vulneráveis. As novidades são bem-vindas, apesar do atraso, e foram aprovadas no mercado. Mas o conjunto de ações é tímido e revela um governo ainda hesitante.

Chama logo a atenção o impacto fiscal do pacote: é minúsculo, quase nulo, como confirmou o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida. Pergunta inevitável: se é possível agir sem ampliar o buraco das contas públicas, por que tanta demora? A resposta parece bem clara. A equipe econômica só agiu agora porque demorou a reconhecer os efeitos da pandemia.

Falando a uma rádio na manhã de ontem, o presidente da República insistiu em chamar de histeria a preocupação com os danos econômicos do coronavírus. O ministro da Economia procedeu até o último fim de semana como se estivesse alinhado a esse ponto de vista. Só então, pressionado pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, reagiu de forma diferente, prometendo medidas em 48 horas.

As medidas foram concluídas às pressas. No meio da tarde de segunda-feira continuava indefinido o horário de apresentação. O anúncio, afinal, quase coincidiu com uma entrevista de enorme repercussão do presidente americano, Donald Trump. Nessa entrevista ele admitiu o risco de uma recessão na maior economia do mundo. Seu obediente discípulo Jair Bolsonaro estaria disposto a classificá-lo também como histérico?

Quanto ao pacote, convém, para começar, fazer algumas qualificações. Em primeiro lugar, é um tanto exagerado falar de injeção de R$ 147,3 bilhões. Parte desse valor será apenas adiantada. É o caso da antecipação, para abril e maio, de parcelas do 13.º pagamento a aposentados e pensionistas. Isso corresponde a R$ 46 bilhões. Outros R$ 12,8 bilhões serão liberados com o pagamento, em junho, do abono salarial antes previsto para ser liquidado entre junho e dezembro.

O conjunto inclui medidas especialmente oportunas para as empresas, como a ampliação por três meses do prazo de pagamento do FGTS, com impacto de R$ 30 bilhões. Também será adiado por três meses o recolhimento da parte da União no Simples Nacional. Essa parte equivale a R$ 22,2 bilhões. Mas todo esse dinheiro deverá ser cobrado. Em suma: haverá mudança no cronograma do fluxo de caixa, mas sem alteração, no final, dos valores previstos.

A única medida com claro impacto fiscal nem deveria estar nesse pacote. Essa medida é a liberação de cerca de R$ 3,1 bilhões para incorporação de mais pessoas muito necessitadas no programa Bolsa Família. A iniciativa deverá beneficiar 1,2 milhão de famílias, segundo informou no Twitter o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni. Com isso a fila de espera será eliminada, de acordo com a equipe econômica.

A fila de espera para ingresso no programa Bolsa Família aumentou rapidamente a partir de maio, quando o governo reduziu o ritmo de incorporação. Reportagem do Estado já havia mostrado a situação desses milhões de pobres e uma de suas consequências – grupos enormes pressionando prefeituras, principalmente no Nordeste, em busca de ajuda para sobreviver.

Esses milhões já estavam em péssima situação bem antes das primeiras notícias sobre o coronavírus na China. O governo jamais deveria ter contribuído para a formação dessa fila. Mas o problema se acumulou e, diante disso, as autoridades deveriam tê-lo enfrentado no começo do ano. A solução agora prometida entra como contrabando, portanto, num atrasado pacote de ações contra os efeitos econômicos do coronavírus. Com esse contrabando se cruzam duas histórias, a da pandemia de um vírus e a do Bolsa Família, menos épica, mas também dramática e infelizmente vergonhosa em alguns de seus episódios.


“Toma que o vírus é seu’

Eurípedes Alcântara
O Globo

Com a situação doméstica sob controle, a China diz ao mundo: “toma que o vírus é seu.” São agora pouco mais de dez novos casos por dia para uma população de 1,4 bilhão de chineses. Desde os primeiros pacientes diagnosticados na segunda quinzena de janeiro deste ano na cidade de Wuhan, passaram-se menos de três meses de luta 24 horas por dia, sete dias por semana, contra uma doença transmissível por um agente microscópico desconhecido que ataca o sistema respiratório. Oficialmente, a China terminou, senão a luta, pelo menos o primeiro round, com vitória por nocaute contra o novo coronavírus.

Que lições o mundo pode tirar da Batalha de Wuhan? A mais relevante de todas é a de que somos um planeta em que 7,7 bilhões de pessoas convivem em proximidade real e digital sem precedentes na história, dando materialidade ao sentimento antes de significação apenas religiosa e filosófica de que “não importa onde, se um ser humano sofre, eu sofro junto.” Sofre mesmo, mas não mais na alma. Sofre na pele e no bolso.

Lembra-se da Teoria do Caos, segundo a qual “uma borboleta bate asas em Tóquio e provoca um tornado no Texas”? Agora não é mais apenas uma frase de efeito. Um chinês espirra em Wuhan, e 6 trilhões de dólares evaporam dos mercados financeiros. Um idoso italiano morre de gripe associada ao coronavírus na Lombardia, e a Casa Branca proíbe todos os 400 voos comerciais diários entre Estados Unidos e Europa. Com menos de cem casos, dois em estado grave e nenhuma morte, o Brasil ensaia fechar escolas, empresas anunciam a adoção do trabalho remoto de casa para seus funcionários, e as pessoas são aconselhadas a se cumprimentar sem sequer dar as mãos. Assim é o bravo novo mundo da hiperconexão. Não tem como escapar.

As seis causas principais de morte prematura na China em 2017, três anos antes da eclosão do surto de novo coronavírus, foram, pela ordem, derrame, ataque cardíaco, obstrução pulmonária crônica, câncer de fígado e os acidentes de trânsito. Ao final deste ano, depois do furacão biológico que parou, primeiro, o país de Xi Jinping e depois o mundo, as seis principais causas de morte prematura na China serão, pela ordem, derrame, ataque cardíaco, obstrução pulmonária crônica, câncer de fígado e acidentes de trânsito. Exatamente as mesmas de 2017.

Em termos de impacto real nas estatísticas de saúde pública, as 3.172 mortes associadas ao novo coronavírus (dados de quinta-feira, dia 12 de março) na China contribuem com um “traço”. Mesmo que venha ocorrer o improvável, a morte de todos os 4.000 pacientes ainda em estado grave na China, ainda assim a Covid-19, nome oficial da doença respiratória causada pelo novo coronavírus, será estatisticamente insignificante. Antes da Covid-19, morriam 1 milhão de chineses a cada ano por obstrução pulmonária crônica, resultado dos altos índices de poluição do ar e tabagismo. No pior cenário, portanto, terão morrido até dezembro de 2020, o 1 milhão esperado e mais as já ocorridas e as potenciais 7.172 vítimas fatais da Covid-19.

Esses números demonstram que o novo coronavírus é uma “fantasia” e que se pode cruzar os braços sem fazer nada enquanto ele se propaga? Obviamente, não. Eles mostram que, antes, a notícia de uma gripe misteriosa em um cantão da China, a mais de 10.000 quilômetros de distância de nossos problemas reais do dia a dia, chegaria a nós brasileiros apenas como mais uma raridade preocupante, mas não paralisante, do Extremo Oriente. Pois agora, na Era da Hiperconexão, essa doença na maioria das vezes sem gravidade, mas transmitida pelo ar a uma velocidade duas vezes maior do que a da gripe comum, nos bate com contornos de pânico —e o pânico, como se sabe, mesmo sem base estatística convincente, é destruidor. Pelo menos, a China, que nos disse na semana passada “toma que o vírus é seu” nos deu também as diretrizes sanitárias para a contenção da doença e a prova de que ela deve ser encarada e pode ser vencida.

Como evitar a depressão econômica?

Monica de Bolle, 
O Estado de S. Paulo

Embora o governo brasileiro esteja muito longe de reconhecer a gravidade do momento, há os que começam a pensar no que fazer

Acompanho as análises nos jornais brasileiros sobre a ruptura inédita causada pela pandemia e me causa angústia a falta de urgência. Não me refiro apenas à irresponsabilidade atroz do presidente da República, que põe em risco a vida das pessoas, mas também ao fato de que poucos no Brasil se deram conta do que é essa crise. Trata-se de uma parada súbita da economia mundial como jamais vimos. E, ao que tudo indica, não será uma parada súbita de curta duração, como a observada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ou como aquela proveniente da crise financeira de 2008. Não se trata apenas da incerteza atrelada à epidemia, mas das medidas de saúde pública que estão sendo tomadas mundo afora. Para desacelerar a propagação do vírus, fronteiras, escolas, universidades, bares, restaurantes, escritórios estão sendo fechados. Alguns países impuseram toques de recolher. As companhias aéreas já sofrem o baque do isolamento e do distanciamento social. A economia mundial sente os primeiros efeitos da parada súbita.

A crise será de longa duração. Para desacelerar a progressão da epidemia e “achatar a curva”, como o esforço pela desaceleração ficou conhecido, as medidas inéditas estarão conosco por vários meses. Uma vez alcançado o pico da epidemia, serão mais vários meses de semiparalisia até que seja seguro começar a abandonar as medidas excepcionais de saúde pública. Será um recomeço gradual. A não ser que tenhamos rapidamente uma vacina – o que hoje não parece provável – estamos falando, possivelmente, de mais de um ano de parada quase total do mundo. Para 2020, o quadro de retração global é certo. Registraremos, pela primeira vez em muitas décadas, uma queda do PIB global. É por esse motivo que países começaram a adotar políticas extraordinárias para atenuar os efeitos da crise. Em tempos de calamidade inédita e risco de depressão, metas fiscais e a evolução da dívida tornam-se absolutamente irrelevantes. Não se compara o desajuste fiscal proveniente do que é necessário agora ao quadro de depressão que se instaurará se as medidas forem insuficientes ou se governos forem contaminados pela inação. A inação mata.

Embora o governo brasileiro esteja muito longe de reconhecer a gravidade do momento – as medidas recém-anunciadas por Paulo Guedes são insuficientes – há os que começam a pensar no que fazer. Há mais de uma semana tenho defendido o que considero necessário para enfrentar a crise de longa duração a abater em breve o Brasil, que entra nela a partir de uma situação econômica muito frágil. São elas: suplemento emergencial imediato do benefício do Bolsa Família em pelo menos 50%; a instituição de uma renda básica universal mensal no valor de R$ 500 para os 36 milhões do Cadastro Único que não recebem Bolsa Família – esses são os grupos mais vulneráveis; a abertura de R$ 50 bilhões em créditos extraordinários para a saúde, com a possibilidade de aumentar esse montante; acelerar e dar maior flexibilidade à aprovação do seguro-desemprego; disponibilizar recursos emergenciais para os setores mais afetados pela crise no valor de pelo menos R$ 30 bilhões; abertura de linhas de crédito do BNDES para micro, pequenas e médias empresas. Por fim, recomendo um programa de investimento público em infraestrutura para sustentar a economia no médio/longo prazo com a utilização de recursos do BNDES.

As medidas de caráter imediato – saúde, proteção social e setorial – somam cerca de R$ 310 bilhões ao longo de 12 meses, ou uns 4% do PIB. Isso é metade dos cerca de 8% do PIB que gastávamos com os juros altos de 14% há poucos anos. Embora seja um montante considerável, o mais arriscado nesse momento não é o que vai acontecer com o déficit ou com a razão dívida/PIB – até porque não há investidor no mundo, hoje, preocupado com a sustentabilidade das contas públicas. Para viabilizar o que proponho, precisamos da imediata flexibilização da meta fiscal e da suspensão do teto de gastos por um período de dois anos. Deixo claro que o teto é importante para sustentabilidade fiscal de longo prazo – mas, o momento é de calamidade.

É claro que, se a situação melhorar, se uma vacina for encontrada, se os cientistas encontrarem um tratamento eficaz para a síndrome respiratória aguda que se manifesta nos casos mais graves da doença, os montantes que sugiro poderão ser reduzidos. Mas, na situação em que estamos é melhor errar para mais do que para menos. Errar para menos significa pôr em risco a vida de dezenas de milhões de pessoas. Manter o pensamento encaixotado, hoje, é fatal.

* Economista, Pesquisadora do Peterson Institute For International Economics e Professora da Sais/Johns Hopkins University 

Em decisão complexa, BC reduz Selic em 0,50 ponto e taxa vai a 3,75%

 Ligia Tuon
Exame.com

A instituição começou a semana sob pressão por novos cortes após ofensiva do Fed nos EUA

(Adriano Machado/Reuters)
Roberto Campos Neto fala durante entrevista em Brasília

Em uma das mais complexas decisões da sua história, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou nesta quarta-feira, 18, um corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, que foi de 4,25% ao ano a 3,75%. A decisão foi unânime e era esperada por grande parte do mercado.
Em seu comunicado, o comitê ressalta que, se por um lado, o nível de ociosidade da economia — agravado pela pandemia de coronavírus no mundo —, pressiona a inflação para baixo, de outro, a deterioração do cenário externo ou frustrações em relação à continuidade das reformas de ajuste fiscal podem fazer a pressão oposta nos preços.

“As alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas têm o potencial de elevar a taxa de juros estrutural da economia. Nessa situação, relaxamentos monetários adicionais podem tornar-se contraproducentes se resultarem em aperto nas condições financeiras”.

Nesse trecho, fica clara a sinalização do comitê, na opinião de André Perfeito, economista-chefe da Necton, sobre sua intenção não só de encerrar o ciclo de cortes, como de, eventualmente, anunciar novas altas nos juros.

“Damos como certo que não há clima algum para se fazer as reformas estruturais da economia brasileira agora, a agenda política e o coronavírus impedem acordo sobre isso neste momento. Logo, o BCB irá parar de cortar a taxa básica”, diz Perfeito em nota.

A opinião sobre o encerramento nos cortes, porém, não é unânime. Para a Guide Investimentos, o Copom voltou a enfatizar a importância de manter a cautela na condução da política monetária mas, diferente da última reunião, deixou as portas abertas para futuros cortes ao mencionar que “o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos.”

A corretora ressalta ainda o fato de o comitê ter mencionado no comunicado que fará uso de todo seu arsenal de políticas cambiais, monetárias e de estabilidade financeira para lidar com a atual crise.

O BC começou a semana sob pressão por novos cortes na Selic, após o Fed, banco central dos Estados Unidos, anunciar no domingo a sua segunda redução emergencial na taxa de juros americana em menos de 12 dias, fazendo com que a banda fique próxima de zero. Assim como outros países, os EUA tomaram a decisão para aumentar a liquidez no mercado em meio à crise gerada pelo avanço de coronavírus no mundo.

Quado se reuniu pela última vez para decidir sobre a Selic, em fevereiro, o comitê sinalizou que encerraria o ciclo de cortes – iniciado em julho de 2019, quando a taxa estava em 6,5% -, mas o cenário mudou bastante desde então com a pandemia, que mudou as perspectivas da política monetária dos bancos centrais.

A pandemia ameaça o comércio internacional, o turismo, decisões de gastos dos consumidores, os estoques da indústria e altera os fluxos de capital. “É uma camada extra de complexidade à política monetária brasileira”, diz o Goldman Sachs em relatório desta quarta.

Veja o comunicado na íntegra:

Em sua 229ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 3,75% a.a.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

No cenário externo, a pandemia causada pelo novo coronavírus está provocando uma desaceleração significativa do crescimento global, queda nos preços das commodities e aumento da volatilidade nos preços de ativos financeiros. Nesse contexto, apesar da provisão adicional de estímulo monetário pelas principais economias, o ambiente para as economias emergentes tornou-se desafiador;

Dados de atividade econômica divulgados desde a última reunião do Copom vinham em linha com o processo de recuperação gradual da economia brasileira. Entretanto, esses dados ainda não refletem os impactos da pandemia de COVID-19 na economia brasileira;

O Comitê avalia que diversas medidas de inflação subjacente se encontram em níveis compatíveis com o cumprimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a política monetária;

As expectativas de inflação para 2020, 2021 e 2022 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 3,1%, 3,65% e 3,5%, respectivamente;

No cenário híbrido, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio constante a R$4,75/US$*, as projeções do Copom situam-se em torno de 3,0% para 2020 e 3,6% para 2021. Esse cenário supõe trajetória de juros que encerra 2020 em 3,75% a.a. e se eleva até 5,25% a.a. em 2021; e

No cenário com taxa de juros constante a 4,25% a.a. e taxa de câmbio constante a R$4,75/US$*, as projeções situam-se em torno de 3,0% para 2020 e 3,6% para 2021.

O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções.

Por um lado, o nível de ociosidade pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado. Esse risco se intensifica caso um agravamento da pandemia provoque aumento da incerteza e redução da demanda com maior magnitude ou duração do que o estimado.

Por outro lado, o aumento da potência da política monetária, a deterioração do cenário externo ou frustrações em relação à continuidade das reformas podem elevar os prêmios de risco e gerar uma trajetória da inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, para 3,75% a.a.

O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui o ano-calendário 2020 e, principalmente, de 2021.

O Copom reitera que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural.

O Copom enfatiza que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas têm o potencial de elevar a taxa de juros estrutural da economia. Nessa situação, relaxamentos monetários adicionais podem tornar-se contraproducentes se resultarem em aperto nas condições financeiras.

O Copom entende que a atual conjuntura prescreve cautela na condução da política monetária, e neste momento vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos.

O Banco Central do Brasil ressalta que continuará fazendo uso de todo o seu arsenal de medidas de políticas monetária, cambial e de estabilidade financeira no enfrentamento da crise atual.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Roberto Oliveira Campos Neto (presidente), Bruno Serra Fernandes, Carolina de Assis Barros, Fábio Kanczuk, Fernanda Feitosa Nechio, João Manoel Pinho de Mello, Maurício Costa de Moura, Otávio Ribeiro Damaso e Paulo Sérgio Neves de Souza.

Dissintonia

Zeina Latif*, 
O Estado de S.Paulo

Falhas do governo não justificam irresponsabilidade do Congresso

A ameaça do coronavírus bate à porta. O que se vê, no entanto, não é apenas um país despreparado para a crise, mas também sem rumo.

O presidente negligencia o problema, enquanto o País espera informações e um plano de ação do governo.

Fernando Reinach faz o alerta. Um quadro epidêmico no Brasil não pode ser descartado. Será necessário implementar nas próximas semanas um conjunto de ações sanitárias para minimizar o risco de colapso do sistema de saúde, como as conduzidas na Inglaterra, França e Alemanha. Para início de conversa, é preciso disponibilizar testes para coronavírus em larga escala e com rápida resposta.

Tudo muito distante de nossa realidade.

Alguns economistas sugerem expansão fiscal e aumento das concessões de crédito do BNDES para proteger a economia. Uma recomendação equivocada.

A prioridade no momento é proteger as pessoas e o sistema de saúde, para que se possa reduzir o risco de um quadro grave no País.

A defesa da economia dependerá do tamanho e da natureza do impacto do coronavírus, o que ainda não está claro. Por exemplo, se o mercado de crédito for afetado de forma aguda, como em 2008/09, medidas administrativas do Banco Central serão necessárias para evitar uma crise de liquidez e, no limite, linhas emergenciais de bancos públicos poderão ser acionadas.

Não é o caso de aumentar os empréstimos do BNDES. A demanda de investimento será afetada pelas muitas incertezas.

Além disso, ainda que muitas empresas enfrentem dificuldades para ter acesso ao crédito, não é por falta de recursos que o investimento não deslancha. É por falta de bons projetos em um país difícil, com regras do jogo complexas, mal definidas e que podem mudar sem critério.

Não faltam pesquisas apontando o fracasso da política de campeões nacionais do BNDES em elevar o investimento das empresas contempladas, como aponta Sergio Lazzarini.

A proposta de aumentar o investimento público chega a ser irresponsável. Não se trata apenas de ameaça à regra do teto de gastos – a principal âncora dos juros baixos – e de prejudicar a confiança de investidores. Trata-se da baixa capacidade do Estado brasileiro de fazer projetos de qualidade.

De acordo com a auditoria do Tribunal de Contas da União, 37,5% das obras financiadas com recursos federais estão paralisadas ou inacabadas. A razão principal não é a falta de recursos, mas sim problemas técnicos ou com órgãos de controle. Apenas 10% decorrem de dificuldade financeira.

Convém também lembrar de obras que foram finalizadas, mas que têm retorno social discutível, como estádios de futebol e estaleiros.

Além disso, apesar de os gastos com investimento serem considerados um uso mais nobre dos recursos públicos (até com exageros, como se gastos com saúde e educação não fossem essenciais), eles não são a melhor forma de reagir a choques transitórios que demandam medidas emergenciais.

O tempo necessário para execução é longo, ainda mais no Brasil, onde nem sequer há na prateleira bons projetos para serem rapidamente implementados. Além disso, muitos investimentos implicam gastos de custeio no futuro – como a construção de hospitais e escolas, que precisam de recursos para funcionar –, nem sempre viáveis do ponto de vista orçamentário.

Ações emergenciais devem ser, tipicamente, gastos com custeio de curto prazo. E, no quadro atual, teriam de ser focalizados na área sanitária e de saúde.

A dissintonia com o momento do País não para por aí. O Congresso avança em decisões que aumentam o rombo fiscal – com voto de parlamentares da base governista –, como a de derrubar o veto do presidente da República ao aumento do limite de renda familiar para se ter acesso ao Benefício de Prestação Continuada. O impacto fiscal será na casa de R$ 20 bilhões ao ano. Caberá manifestação do TCU, posto que não há fonte de recursos definida.

Há risco de outras pautas-bomba. As falhas do governo não justificam a irresponsabilidade do Congresso.
Se seguirmos nessa trajetória, aí sim a crise será muito grave.

* Consultora e Doutora em Economia pela USP

Guedes anuncia R$ 5 bi a autônomos contra impactos do coronavírus

Da redação, Exame.com
Com informações agências de notícias

Governo pediu ao Congresso nesta quarta-feira o reconhecimento de estado de calamidade pública no Brasil

 (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)
Medidas contra coronavírus: diversos ministros de estado apresentaram 
as ações que estão tomando para reduzir o impacto do surto no Brasil

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou nesta quarta-feira um programa de ajuda para autônomos em função do impacto na economia do coronavírus, prevendo a concessão direta de recursos aos trabalhadores informais ao custo de R$ 5 bilhões por mês, pelo prazo de três meses, levando o total da investida a R$ 15 bilhões.

Em coletiva no Palácio do Planalto, o ministro indicou que o auxílio será de R$ 200 por beneficiário. Ele também afirmou que o governo seguirá anunciando novos planos à medida que problemas econômicos forem identificados.

Nesse sentido, adiantou que o governo irá renegociar as dívidas das companhias aéreas e que estuda como o estado poder bancar uma parte do salário para os empregados de micro e pequenas empresas.

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro já tinha dito que o governo estuda distribuir vales para quem não tem carteira de trabalho assinada e trabalha por conta própria, os informais. Esse é o grupo que deve ser mais afetado com o avanço da pandemia no Brasil.

Segundo o IBGE, são 40,8 milhões de trabalhadores informais, incluindo os que atuam sem carteira no setor privado e no trabalho doméstico e os que atuam por conta própria (dos quais 19,3 milhões sem qualquer registro, como um CNPJ de microempreendedor individual). Eles representam 43,3% do número de pessoas ocupadas o país.

Meta do primário suspensa

A entrevista coletiva de hoje havia sido marcada inicialmente pelo ministério da Economia para dar explicações sobre o pedido de calamidade pública enviado ao Congresso. A medida dá mais espaço fiscal para o governo agir durante a crise, pois suspende a meta do resultado primário, que neste ano é de R$ 124 bilhões.

Guedes explicou que a decisão de recorrer à lei de Responsabilidade Fiscal veio com a iminência da necessidade de um contingenciamento (bloqueio) na ordem de R$ 37 bilhões. “A calamidade pública foi a melhor resposta técnica para evitar o contingenciamento, o que seria dramático”, disse.

A regra de ouro e o teto de gastos continuam tendo que ser respeitados.

Durante a coletiva, Bolsonaro citou medidas já anunciadas na semana passada e também na segunda-feira para o combate aos efeitos da pandemia. Entre elas, a antecipação do 13º dos aposentados e pensionistas do INSS, ingresso de R$ 46 bilhões, e a ampliação de R$ 3,1 bilhões no orçamento do Bolsa Família, o que vai permitir o ingresso de 1,2 milhão de famílias no programa.

As medidas estão contidas no plano emergencial de 147 bilhões de reais que o governo anunciou na segunda-feira como uma das formas de estimular a economia. Um grupo crescente de economistas vinha cobrando uma ampliação nos gastos públicos, especialmente para os trabalhadores informais, que devem ser os mais impactados por uma redução drástica na atividade econômica.

Almirante com coronavírus

Além de Guedes e Bolsonaro, participam do evento Sergio Moro (Justiça), Antonio Barra (Anvisa), Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Fernando Azevedo (Defesa) e Tarcísio Freitas (Infraestrutura).

Todos chegaram de máscara, segundo Bolsonaro, por que o ministro de Minas e Energia, Almirante Bentom, testou positivo para coronavírus.

“Estamos usando máscara, porque, além do general Heleno, também tivemos positivo agora o teste do ministro Almirante Bento, então obviamente o cuidado nosso tem que ser redobrado”, disse logo que começou sua fala.

“É grave, é preocupante, mas não chega ao campo da histeria ou de uma comoção nacional”, disse o presidente sobre a epidemia de coronavírus. “Esse sentimento de histeria passou a acontecer depois do dia 15 de março”. Nessa data, o presidente quebrou o isolamento e partipou de ato civil a favor do governo.

Questionado sobre se admite que errou ao ir no protesto domingo, Bolsonaro ele disse que é um risco que ele precisa correr: ” É o meu papel como chefe de estado. Não se surpreenda se eu entrar nos próximos dias no metrô lotado em São Paulo ou numa barcaça na travessia entre Rio-Niterói, longe de demagogia ou populismo”, disse.

Já Sergio Moro falou sobre a restrição imposta à entrada de estrangeiros vindos da Venezuela para o Brasil, dado o colapso de saúde pública no país. “Tanto para evitar disseminação no Brasil e pelo fato de o país não consegue absorver essa eventual demanda da Venezuela”. Segundo Moro, será anunciado ainda, se necessário, o fechamento da fronteira do Brasil com outros países.

Casos no Brasil

De acordo com o último anúncio feito pelo Ministério da Saúde, nesta terça-feira, estão confirmados 290 casos de coronavírus no Brasil.

A primeira morte no país pela doença foi confirmada ontem pelo governo do estado de São Paulo. A vítima é um homem de 62 anos que estava internado em um hospital particular da capital paulista. Ele tinha diabetes e hipertensão.

Veja a coletiva na íntegra


Epidemias já fizeram 3 bilhões de vítimas no mundo

Carla Aranha
Exame.com

Do ponto de vista histórico, o coronavírus ainda é um mal menor. Por causa das rotas comerciais, doenças assolaram principalmente a Europa

 (Nazionale Anpas/Divulgação)
Voluntários verificam a temperatura de quem passa nas ruas de Gênova, 
Itália, segundo país com o maior número de infectados pelo coronavírus

Pode parecer até exagero, mas nos últimos 1.500 anos mais de 3 bilhões de pessoas no mundo morreram em decorrência de doenças provocadas por novos vírus e bactérias. Do ponto de vista histórico, portanto, o número de vítimas fatais do coronavírus é ainda pequeno: quase 8.000 mortos no mundo.

Por volta do ano 540, muita gente pensou que o mundo ia acabar. Marinheiros de navios mercantes do Mar Negro, entre a Europa e a Turquia, começaram a morrer repentinamente. Em geral, os navios atracavam em portos da Itália.

A doença ficou conhecida como praga de Justiniano, nome do imperador romano da época. As embarcações chegavam com ratos infectados por pulgas que carregavam uma bactéria mortal para os seres humanos.

Os infectados apresentavam inchaço nos nódulos linfáticos, no pescoço, virilha e axilas, além de necrose nas mãos e nos pés. O vírus acabava matando o doente em poucos dias. A doença chegou ao norte da África e ao Oriente Médio. Também se alastrou pela Europa. Mais de 30 milhões de pessoas morreram.

“As primeiras epidemias foram causadas por bactérias endêmicas em roedores, como acontece até hoje”, diz Dave Wagner, professor de ciências biológicas na Northen Arizona University e autor de estudos sobre as primeiras bactérias que dizimaram populações.

“A diferença é que hoje existem os antibióticos.” A penicilina, descoberta em 1928, marcou um passo importante no combate às infecções bacteriológicas. “Como os vírus geralmente têm uma grande capacidade de mutação, são eles que mais nos afetam atualmente”, afirma.

A falta de boas condições sanitárias e remédios fizeram com que milhões de pessoas não resistissem às infecções. A pior delas foi a peste negra, que surgiu em 1346. “A pandemia começou quando os chineses atacaram embarcações mercantes italianas no litoral da Crimeia para interromper o fluxo do comércio europeu”, diz o historiador Ole Benedictow, professor emérito de história na Universidade de Oslo, na Noruega e autor do livro A Peste Negra, 1346-1353: a História Completa.

“Os navios voltaram para a Itália, de onde a doença se espalhou para a toda a Europa, o norte da África e o Oriente Médio, em boa parte devido ao comércio entre essas regiões”, afirma.

A doença foi provocada por uma nova cepa da bactéria que causou a praga de Justiniano. Com mais gente morando nas cidades, muitas vezes em locais insalubres, o número de mortos ultrapassou a casa dos 65 milhões.

A peste provocava gangrena nas extremidades do corpo, que ficavam negras. Mas não era só isso. Os doentes tinham febre alta, complicações pulmonares e fortes dores. Para se proteger, muita gente começou a usar máscaras de metal, equivalentes às atuais máscaras de papel. Ervas eram usadas para purificar as casas e espantar as pulgas que transmitiam a doença.

No século 16, os historiadores desistiram de catalogar o surgimento de novas doenças, tal a quantidade delas. A boa notícia é que as pragas não eram tão virulentas. Ocorreram surtos de febre amarela, tifo, sarampo, hepatite e lepstospirose principalmente na Europa. Cerca de 3 milhões de pessoas morreram.

A gripe espanhola, provocada por um vírus, assombrou o mundo em 1918, ao final da Primeira Guerra Mundial. Mais de 75 milhões de pessoas morreram, globalmente, em razão da primeira versão do H1N1.

A boa notícia é que com a invenção da penicilina e a evolução da ciência, foi ficando mais fácil criar novos tratamentos e vacinas. Claro, isso não vale para todas as doenças, ainda mais para aquelas que surgem da mutação de vírus, como Codiv-19.

Na década de 1990, a descoberta de um coquetel antiviral para o HIV ajudou a salvar milhares de vidas. Agora, a nova missão da ciência é desenvolver uma vacina para o novo coronavírus — até lá, o melhor mesmo é seguir as recomendações da comunidade médica e se proteger.


Pesquisadores descobrem como corpo humano combate o coronavírus

Lucas Agrela
Exame.com

A descoberta do estudo ajuda na criação de uma vacina contra o novo coronavírus

 (Ricardo Moraes/Reuters)
Coronavírus no Brasil: governo autoriza internação 
ompulsória e prisão em quebra de quarentena

Pesquisadores australianos publicaram um estudo na revista Nature Medicine detalhando como o sistema imunológico do corpo humano combate o novo coronavírus. O objetivo da pesquisa é viabilizar a criação de medicamentos, como uma vacina.

Pela primeira vez, os cientistas encontraram quatro células do sistema imunológico que são responsáveis por combater a Covid-19. Com mais de 200 mil casos de contágio reportados globalmente, mais de 80 mil pessoas se curaram da doença, o que mostra que o corpo humano é capaz de lidar, ainda que fatores como idade avançada, quadros e hipertensão e diabetes ofereçam maior risco de morte.

“A descoberta é importante porque é a primeira vez que estamos de fato entendendo como nosso sistema imunológico combate o novo coronavírus”, afirmou, em nota, Katherine Kedzierska, pesquisadora da Universidade de Melbourne, na Austrália.

Para o estudo, os pesquisadores acompanharam o caso de uma mulher de 40 anos em Wuhan, na China, que foi internada em um hospital na Austrália devido ao contágio pelo novo coronavírus. Ela se recuperou em 14 dias, depois que as células responsáveis pela cura foram detectadas na sua corrente sanguínea – o que aconteceu apenas três dias antes da melhora. As células em questão também são vistas no organismo das pessoas que se recuperam do vírus Influenza, da gripe comum.

No entanto, um estudo recente já mostrou que, diferentemente do que acontece com a gripe, medicamentos que contêm ibuprofeno podem ser prejudiciais para combater os sintomas do novo coronavírus, uma vez que ele pode potencializar o avanço do vírus no organismo humano. A Organização Mundial da Saúde se pronunciou sobre o caso recomendando evitar o uso de remédios com ibuprofeno em casos confirmados ou suspeitos da Covid-19.

Coronavírus: O que a covid-19 faz com o seu corpo

Laura Plitt
BBC News Mundo

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Segundo a OMS, 80% dos infectados desenvolvem 
sintomas leves, 14% graves e 6% gravíssimos.

Com cerca de 150 mil infectados e mais de 5 mil mortos, o coronavírus se espalhou para mais de 110 países do mundo.

Embora ainda existam muitas dúvidas sobre esse novo vírus que apareceu pela primeira vez na província central de Hubei na China, no final de 2019, estima-se que o contágio ocorra quando inalamos pequenas gotas expelidas pela tosse ou espirro de um vírus de pessoa infectada.

Também conhecemos seus sintomas: cansaço, febre e tosse seca são os principais, mas também alguns pacientes podem apresentar dores musculares, congestão nasal, dor de garganta e diarreia, de acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mas o que exatamente o coronavírus faz ao nosso corpo? Como você se infecta? E como nosso corpo se recupera da doença, chamada de covid-19?

"O coronavírus é principalmente um vírus respiratório", explica William Schaffner, professor de medicina preventiva e doenças infecciosas no Centro Médico da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos.

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Imagem dos pulmões de uma pessoa infectada mostra áreas com pneumonia

Por esse motivo, começa infectando a garganta.

Quando o vírus entra no nosso corpo — por meio dos olhos, boca ou nariz — "ele se liga às células da mucosa do fundo do nariz e da garganta", diz o especialista.

Para se replicar, o coronavírus precisa 'sequestrar' uma célula.

Graças às proteínas em forma de lança que se projetam de sua superfície, o coronavírus pode penetrar na membrana dessas células.

"E uma vez dentro da célula, como os outros vírus, ele começa a dar ordem para produzir mais vírus".
É assim que o vírus deve se replicar, pois, sendo um agente infeccioso microscópico acelular, só pode se multiplicar dentro das células de outros organismos.

Quando as cópias estão prontas, elas deixam a célula onde se originaram, a destroem e começam a infectar outras células.

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Vários países suspenderam aulas para impedir propagação do vírus

Cada vírus pode criar entre 10 mil e 100 mil cópias.

"Quando isso ocorre, o corpo percebe que o vírus está lá e produz uma resposta inflamatória para tentar combatê-lo", explica Schaffner.

"É por isso que começamos a sentir um pouco de dor de garganta e podemos ter um nariz entupido".
Percurso

"O vírus então entra nos tubos brônquicos (as vias aéreas que vão para os pulmões) e ali produz inflamação na mucosa desses tubos".

"Isso causa irritação e, portanto, começamos a tossir" , diz Schaffner.

Quando isso ocorre, "a resposta inflamatória aumenta porque o corpo está combatendo o vírus e, consequentemente, a febre aparece".

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Para se replicar, coronavírus precisa 'sequestrar' célula

Nesse ponto, começamos a nos sentir mal e a perder o apetite.

De acordo com uma análise da OMS baseada no estudo de 56 mil pacientes, 80% dos infectados desenvolvem sintomas leves (febre, tosse e, em alguns casos, pneumonia), 14% sintomas severos (dificuldade em respirar e falta de ar) e 6% doença grave (insuficiência pulmonar, choque séptico, falência de órgãos e risco de morte).

A situação pode piorar se o vírus "sair do canal brônquico e atingir os pulmões, onde causa inflamação (pneumonia)".

"Se uma porção suficiente de tecido pulmonar for afetada, será mais difícil para o paciente respirar, porque ele não pode respirar o 'ar ruim' e inalar o 'bom'".

Quando o corpo não recebe oxigênio suficiente, o paciente deve ser hospitalizado e pode precisar estar conectado a um respirador.

'Guerra'

O problema não é apenas a infecção, mas a maneira como nosso corpo responde para combatê-la, explica Kalpana Sabapathy, médico clínico e epidemiologista da equipe de saúde global da Escola de Higiene e Medicina Tropical em Londres, Reino Unido, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

"Para evitar que a infecção sequestre nossas células, nosso corpo produz substâncias químicas bastante agressivas".

No caso da pneumonia, "(o vírus) cria congestão nos pequenos sacos de ar na base dos nossos pulmões (alvéolos)".

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Gotas de um espirro podem viajar até dois metros

Essas pequenas estruturas são aquelas que normalmente se enchem de ar e, através de suas paredes, ocorre a troca pela qual o oxigênio chega ao sangue e daí para o resto do corpo.

"Mas se essas bolsas estão cheias de infecção, combinadas com a resposta do nosso corpo a essa infecção, elas têm menos capacidade de ar", diz Sabapathy.

"E se o corpo não recebe oxigênio suficiente, isso leva à insuficiência respiratória e o coração, sem oxigênio suficiente pela corrente sanguínea, não pode funcionar".

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Gráfico mostra o que coronavírus faz no seu corpo

Schaffner compara a resposta inflamatória com um conflito bélico.

"Imagine que é uma guerra. Existem dois exércitos que lutam entre si, mas às vezes as bombas machucam civis. Ou podem cair no hospital ou no museu, mas não no inimigo", diz ele.

Em outras palavras, a resposta pode ser tão poderosa que acaba danificando o tecido onde o vírus é encontrado.

"Chamamos isso de dano colateral. É o que pode acontecer quando a resposta inflamatória é tão forte que aumenta o problema da pneumonia", acrescenta.

Isso significa que a infecção não precisa passar para outra parte do corpo para que uma pessoa infectada fique em estágio crítico.

Mas o coronavírus também pode se espalhar para outra parte do corpo?


Por todo o corpo

Como Amy Compton-Phillips, diretora clínica do Sistema de Saúde Providence nos Estados Unidos, explicou ao jornal americano New York Times, a infecção pode se espalhar do nariz para o reto.

Embora inconclusivo, um estudo publicado em março na prestigiada revista científica The Lancet sugere que o covid-19 "não é apenas capaz de causar pneumonia, mas também pode causar danos a outros órgãos, como coração, fígado e rins, assim como em sistemas corporais como o sangue ou o sistema imunológico".

Com base em estudos realizados sobre a SARS (síndrome respiratória aguda grave), "prima" da covid-19, "achamos que ela pode ir para outras partes do corpo", diz Schaffner.

Isso pode explicar em parte por que alguns pacientes infectados sofreram diarreia e dor abdominal, problemas que não estão diretamente ligados a uma infecção respiratória.

Essas doenças, diz Schaffner, referindo-se a SARS e MERS (coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio) "parecem muito semelhantes nos estágios mais graves".

Mas para chegar a essa conclusão, será necessário "conhecer os resultados das autópsias, e essas informações estão apenas começando a ser reveladas", diz ele.

Quanto aos danos a longo prazo, tanto nos pulmões quanto em outros órgãos, o especialista diz que a grande maioria dos pacientes tem uma recuperação completa.

Embora também "haja alguns relatos de pacientes que, como consequência da inflamação, possam ter algumas cicatrizes nos pulmões e uma função pulmonar reduzida".

"Levará tempo para determinar isso com mais precisão, e agora a atenção está focada nos casos agudos da doença".

"Ainda não tivemos tempo para pensar no longo prazo", conclui o especialista.