Bolívar Lamounier, Portal Exame
Na contagem regressiva para descer a rampa, Lula cada vez mais se parece com um ator em busca de um enredo. Não é que esteja falando menos : está falando mais. Às vezes passa a impressão de estar falando sério, outras vezes a de estar chutando em todas as direções.
Ontem ele disse que um de seus principais objetivos vai ser a reforma política. Quer negociá-la dentro do PT e com os outros partidos, e espera “emplacar” um projeto ainda em 2011.
Ao ler tal notícia, eu me pus a imaginar o que Champoleon deve ter sentido em seu primeiro contato com a pedra de Roseta. Decifrar os hieroglifos era um desafio honroso para qualquer um, mas onde buscar ânimo para a formidável tarefa ?
Mas, claro, Lula não é um político como qualquer outro. É o presidente da República. Terá exercido o poder durante 8 anos, experiência tão longa quanto a de Fernando Henrique ; a de Getúlio foi mais longa, mas a maior parte dela foi como ditador.
Lula é também o líder inconteste do PT, partido que se beneficia do maior percentual de identificações populares e sócio destacado do esquema político que elegeu a nova presidente.
Imaginar que Lula fala em reforma política só para encher linguiça seria pois leviandade ou equívoco.
Não me afeiçoando nem remotamente à concepção de democracia que Lula a meu ver representa - concepção eivada de populismo, plebiscitarismo e até de certo autoritarismo – , eu até preferia que ele estivesse pensando em voz alta . Mas a intenção dele pode ser séria.
Chego assim ao ponto chave : o conteúdo . Em que reforma Lula estará pensando quando diz que a quer ver aprovada no Congresso em 2011 - e portanto já em começo de implantação em 2012 ?
Nesta fase, os informes da imprensa são super-resumidos, e nem poderia ser diferente, mas há dois pontos em destaque : financiamento público para as campanhas eleitorais e eleição de deputados com base em “listas fechadas”. Vou dizer algo sobre financiamento e volto às listas.
O financiamento público parece-me ter sido metabolizado com certa afoiteza pelo meio político e por uma parcela da sociedade. A esta altura, a idéia ganhou ares de panacéia, como uma cura definitiva para o caixa 2 e as demais formas de corrupção que envolvem o levantamento de fundos para as campanhas.
Existem, no entanto, duas importantes questões a examinar. Quem garante que tal proposta terá de fato o condão de inibir a corrupção ? A discussão deste ponto requer um estudo ou ante-projeto que lhe sirva de base ; esperemos, pois.
E como será financiado …o “financiamento público” ? Ou seja, de onde virá o dinheiro ? Se ao ver de alguns falta dinheiro para a saúde - tanto assim que já estão falando em uma nova CPMF -, como é que se vai cobrir essa nova rubrica de gastos ? E como é que a sociedade, mais hostil do que nunca ao Legislativo, vai receber essa idéia ?
O outro ponto da reforma política em que Lula supostamente está pensando seria a instituição do chamado voto em lista fechada. Soa misterioso, mas é simples.
Atualmente, no Brasil, ao votar para deputado (federal ou estadual), nós votamos em listas abertas. Diz-se que a lista é aberta porque além de escolher um partido, escolhemos também um indivíduo – um candidado específico – dentro da lista apresentada por tal partido.
Muitos, talvez a maioria dos eleitores, na verdade escolhe o candidato, o partido é decorrência. Seria aliás mais correto dizer que adotamos o voto nominal, ou individual, em vez de lista aberta – mas vamos em frente. A lista aberta (voto individual) é bom ou é ruim ? Por que ?
Em geral se acredita – eu mesmo comparto esta avaliação – que a lista aberta desloca o poder real para os candidatos considerados individualmente, ficando os partidos sem autoridade real em relação a suas listas, e consequentemente a seus futuros parlamentares.
Na lista fechada, o eleitor não tem mais como direcionar seu voto ao candidato (individual) de sua preferência. Isto porque as listas de candidatos que os diferentes partidos aprovam em suas convenções passam a ser ordenadas segundo a ordem de preferência do próprio partido.
Dito de outro modo, o partido, ao aprovar a lista de candidatos, não se limita a colocá-los em ordem alfabética e a lhes atribuir seus respectivos números ; ele também hierarquiza os candidatos. Estabelece sua ordem de preferência entre eles.
Se, no cômputo da eleição, os votos de determinado partido são suficientes para eleger, digamos 10 deputados, os eleitos serão os primeiros 10 da lista.
É a essa hierarquização da lista que o adjetivo se refere na expressão “lista fechada”. Neste sistema, o pêndulo se desloca na direção contrária: o poder do partido como tal se destaca em relação ao poder dos candidatos individuais que o compõem.
Quando digo o “poder do partido”, falo do poder legítimo do partido, expresso pela totalidade de seus integrantes credenciados a votar na convenção.
Tal poder pode evidentemente se revestir de ilegitimidade se a maioria for controlada ou manipulada pela minoria ou por um tipo qualquer de oligarquia partidária. O risco de ilegitimidade existe, mas não é, a rigor, um problema inerente a essa regra institucional : o que pode causá-lo é a baixa qualidade da democracia interna praticada por determinados partidos.
Nos anos 80, à medida em que a redemocratização se completava, os temas a serem tratados pela futura assembléia constituinte foram ganhando corpo na imprensa, nos meios acadêmicos e na opinião pública.
No que tocava às instituições, a fragilidade dos partidos, traço constante de nossa história política, era uma preocupação intensa.
Como membro da Comissão de Estudos Constitucionais (a chamada Comissão Afonso Arinos, ligada à presidência da República), coube-me elaborar a proposta sobre o sistema eleitoral e o tipo de lista. Eu propus e a comissão aprovou o voto em lista fechada (dentro do mecanismo do voto distrital misto, que não posso discutir neste texto).
A Constituinte não aceitou a idéia. Manteve a lista aberta, que fora também a opção dos regimes constitucionais anteriores. A rejeição mais enfática foi a dos partidos de esquerda, desde logo a do PT. Embora a lista fechada seja a forma comum de votação na Europa continental, aqui a idéia foi acusada de autoritária, liberticida etc etc.
Ocasionalmente, tenho visto petistas dando sinais de receptividade a várias das propostas de reforma política que rejeitavam nos anos 80 e 90. A ser verdadeira, a inclinação do próprio Lula deve ser reflexo dessa reorientação. Só posso me regozijar com isso.
O que se precisa ver é se a referida reorientação do pensamento lulo-petista resulta da indignação suscitada pela eleição do Tiririca a deputado federal. Se for, dois aspectos prévios devem ser considerados.
Primeiro, o Tiririca com certeza não inventou a si mesmo como candidato. Quem o inventou e se beneficiou de sua enorme votação foi uma coligação de partidos, integrada inclusive pelo PT.
Segundo, a lista fechada não é resposta adequada para esse tipo de problema. Se um partido ou coligação colocasse um candidato com perfil semelhante ao do Tiririca na cabeça de sua lista, ele seria eleito do mesmo jeito. E ajudaria a eleger outros integrantes da lista .
Para a síndrome Tiririca, só há duas soluções : o chamado voto distrital puro (nominal-majoritário) e partidos mais responsáveis. Deixo-as como assunto para outro dia.